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Deputados do Rio votam classificação indicativa para exposições de arte

Entra na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes; levantada pela deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB). Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17. +

Entrará na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio nesta quinta-feira, 19, um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes. As normas seriam elaboradas pelo governo do Estado, com o objetivo de “garantir e preservar os direitos das crianças e adolescentes do Estado” e de atender ao “clamor popular” que surgiu a partir de mostras consideradas por parte da população inadequadas para menores.

A autora do PL é a deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB), que se diz preocupada com a presença de crianças em exposições como a Queermuseu, banida do Santander Cultural, em Porto Alegre, e do Museu de Arte do Rio (MAR) e a performance La Bête, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ambas foram atacadas por movimentos conservadores, que viram pedofilia e zoofilia nas obras, e defendidas por artistas e curadores, que clamam pela liberdade de expressão e ressaltam o livre arbítrio dos pais das crianças.

Tia Ju nega que seja movida por desejo de censura às artes. “Não queremos censurar, mas classificar. Sou professora de educação infantil e pedagoga, uma admiradora das artes. Mas alguém tinha que tomar essa iniciativa. O Executivo vai determinar quem vai elaborar o manual. Tenho apoio da maioria da Alerj. Apresentei o projeto na semana retrasada e está entrando em votação rapidamente porque é uma situação de urgência”, afirmou ao Estado, nesta quinta-feira.

“Classificação não é um bicho de sete cabeças. É só uma forma de preservar as crianças e os adolescentes. A arte é subjetiva e eles ficam numa situação de vulnerabilidade. Vamos evitar os desgastes que tivemos. As duas exposições só deveriam ser para maiores de 18 anos. Não era para ter criança ali interagindo (com um artista nu, em La Bête), mesmo com a mãe do lado. No momento em que um pedófilo, um abusador ficar na frente da criança na vida real, ela não vai saber discernir, não tem maturidade”.

A criação do “manual de classificação indicativa em eventos de diversos públicas e representações artísticas voltados para crianças e adolescentes” é justificado por Tia Ju da seguinte forma: “Este projeto de lei tem por objetivo garantir e preservar os direitos de crianças e adolescentes em nosso Estado, especialmente no momento em que o país vive um momento de incertezas jurídicas e lacunas provocadas por falta de regulamentação especial, em que o Judiciário vem sendo constantemente acionado para cumprir determinações e ações que seriam de encargo dos poderes Legislativo e Executivo.”

Os produtores apontariam as idades indicadas seguindo os parâmetros estabelecidos no texto. O manual classificaria exposições de arte, espetáculos teatrais, shows e “outras exibições ou apresentações abertas ao público” tendo como norte “a responsabilidade de garantir à pessoa e à família as informações necessárias para defender de diversões públicas inadequadas crianças e adolescentes, nos termos da Constituição Federal e dos artigos 252 e 253 do Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Os artigos mencionados no PL se referem ao aviso à entrada dos locais de exibição quanto à inadequação da permanência de menores no recinto e ao anúncio de peças teatrais, filmes ou outros espetáculos sem indicação de idade. Pelo ECA, essas infrações podem ser punidas com multa de três a 20 salários mínimos.

Pelo PL, o manual teria sete faixas, sendo a primeira “especialmente recomendada para crianças e adolescentes”, a segunda, “livre – para todo o público”, e as seguintes, “não recomendadas” para menores de dez, 12, 14, 16 e 18 anos.

O texto diz ainda que “todo cidadão interessado está legitimado a averiguar o cumprimento das normas de classificação indicativa, podendo encaminhar ao órgão estadual responsável pela atividade de classificação, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e ao Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente representação fundamentada nas obras e diversões abrangidas por esta lei.”

A deputada Tia Ju argumenta que a competência para a criação da classificação é estadual, e que não haveria conflito caso o governo federal também amplie a classificação indicativa já existente – diante dos protestos contra as exposições recentes, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, tem defendido a extensão da classificação para além dos filmes, games e programas de TV.
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Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17.

Contra censura nas artes, ato reúne manifestantes no vão do Masp

Manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas. O objetivo do ato desta quinta era “esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo, pois o artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”. Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17. +

"O artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo." Essa era a palavra de ordem entoada pelo grupo reunido pelo coletivo #342Artes no vão livre do Masp, nesta quinta (19).

Os manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas, como o encerramento prematuro da exposição "Queermuseu" Santander Cultural, em Porto Alegre, e as acusações de pedofilia detonadas após uma criança interagir com artista nu na abertura do 35º Panorama da Arte Brasil, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O objetivo do ato desta quinta era "esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo", segundo a marchande Márcia Fortes, da Galeria Fortes Vilaça.

Dentro do museu da av. Paulista, acontecia a inauguração para convidados da exposição "Histórias da Sexualidade", que o próprio Masp classificou como não apropriada para menores de 18 anos.
"Não lido com o medo [de retaliação à mostra do Masp], lido com o amor e o respeito", explica Fortes. "A arte é importante, um povo sem arte é um povo triste."

Professor da Ebac (Escola Britânica de Arte Contemporânea) e artista plástico, Roger Bassetto disse nunca ter achado que "fôssemos precisar fazer esse tipo de manifestação".

"Arte é subjetividade e não quer dizer só uma coisa, há múltiplas interpretações", diz Bassetto. Na opinião do professor, as pessoas contrárias a essas exposições "precisam classificar tudo como 'isso é pedofilia'". Para ele, é necessário que haja tolerância.

Além da manifestação, houve também a leitura de uma carta. O documento, que reunia mais de 800 assinaturas de artistas, intelectuais e profissionais de distintas áreas, foi lido no vão do museu pela artista plástica Renata Lucres, antes do início do ato.

A carta, disponível no site pelademocracia.com, diz que o grupo atua em prol da liberdade de expressão e que "militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública –be sem espírito republicano–, membros da burocracia de estado no Judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas".
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17.

Masp fora da lei

O Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17. +

Acho que o Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Pior, o faz com base numa interpretação de dispositivos legais e infralegais que me parece francamente inconstitucional.

O ponto central é que o constituinte de 1988 sabiamente retirou do Estado a possibilidade de determinar o que os cidadãos podem ou não dizer, escrever, ler, assistir, encenar etc. O banimento da censura aparece duas vezes na Carta, no art. 5º, IX e no 220.

Só o que o constituinte reservou para a União, na tentativa de proteger menores, é a competência para proceder a uma classificação etária de diversões públicas, tomando o cuidado de especificar que ela tem caráter apenas "indicativo" (art. 21, XVI). Isso significa que a classificação é uma simples sugestão, a ser ou não acatada pelos pais — o que é razoável, considerando que o grau de maturidade de cada jovem assim como os valores de cada família variam.

Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Mas quem ler o ECA com atenção verificará que ele em nenhum momento proíbe menores de visitar nenhum tipo de exposição. Diz só que informações sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária a que se destina precisam ser afixadas em local visível. Trata a classificação etária como "recomendação", isto é, um conselho, para o qual os pais podem, se quiserem, dar uma banana.

O que há é a portaria nº 1.100 que admite o poder dos pais de passar por cima da classificação etária, exceto quando ela for de 18 anos. Salvo melhor juízo, tal dispositivo carece de base legal e contraria a Carta.

É triste quando até museus param de brigar para que adolescentes tenham acesso à arte.

Hélio Schwartsman, é bacharel em filosofia, publicou 'Pensando Bem...' (Editora Contexto) em 2016.
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Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17.

Paradeiro de obra-prima de Rodin, desaparecida desde 1920, é descoberto

O busto de mármore, avaliado em US$ 12 milhões, estava esquecido sobre um pedestal em um prédio público de Nova Jersey. A escultura foi vista pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920. Matéria publicada originalmente no site Toucharte On via The Art Newspaper, em 17/10/17. +

Um busto de mármore que representa Napoleão Bonaparte, criado por Auguste Rodin, apareceu em um prédio municipal em Madison, Nova Jersey. O grandioso trabalho do escultor francês foi visto pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920.

A obra-prima, datada de 1908, estava sobre um pedestal acumulando poeira durante os últimos 85 anos. Geraldine Rockefeller Dodge, filha de William D. Rockefeller, doou o trabalho junto com o edifício erguido em 1935.
Pesquisas recentes feitas pela fundação descobriram que a Sra. Rockefeller Dodge, dedicada colecionadora de arte, havia adquirido o busto de Rodin em leilão da família de Thomas Fortune Ryan, um magnata do tabaco, que o havia emprestado ao Metropolitan Museum of Art em Nova York de 1915 a 1929.

A obra, que pesa mais de 300 quilos, foi autenticada por um especialista em Rodin. Agora, o busto será emprestado ao Philadelphia Museum of Art, no final deste mês, para o centenário de morte do artista.

Assinatura revelada
Por cerca de oito décadas, o busto olhou silenciosamente para baixo, de cima de um pedestal, na sala principal do prédio, pouco percebido pelos legisladores locais ou pelos transeuntes. Isso até 2015, quando a fundação contratou uma arquivista, estudante de graduação de 22 anos, chamada Mallory Mortillaro, que revelou a importância da escultura. “Ela estava passando o dedo pela base”, disse Nicolas Platt, presidente da Hartley Dodge Foundation, “sentiu uma marca cinza, pegou uma lanterna, pegou uma cadeira e examinou. Lá, estava a assinatura de A. Rodin”.

A fundação contatou o respeitado especialista em Rodin, Jérôme Le Blay, formado pelo Musée Rodin e fundador do Comité Rodin, que autentica o trabalho do escultor. “As primeiras fotos que me enviaram por email imediatamente me impressionaram”, diz Le Blay por e-mail. “Nós temos uma enorme base de dados e arquivos e foi bastante fácil para nós encontrar as origens deste mármore na oficina de Rodin”. Uma fotografia de 1910 mostra até o escultor posando ao lado do busto, oficialmente intitulado Napoleon enveloppé dans ses réves (Napoleão envolto em seus sonhos).

A fundação não anunciou que estava em posse de uma escultura que vale entre US $ 4 milhões e US $ 12 milhões até esta semana, devido a preocupações com segurança. Uma companhia de seguros havia advertido que uma obra de arte tão cara não poderia permanecer em um prédio municipal. Eles entraram em contato com museus que gostariam de tê-lo por empréstimo e, há duas semanas, o Philadelphia Museum of Art aceitou a oferta.

Auguste Rodin

Auguste Rodin (1840-1917) é visto frequentemente como o antepassado rebelde da escultura moderna, mas na verdade ele não levantou nenhuma revolta consciente contra a escultura de sua época. Rodin lutou pelo reconhecimento acadêmico, mas nunca conseguiu passar no exame de admissão da Academia de Artes de Paris.

Em vez disso, ele foi autodidata e desenvolveu um método exclusivo para a modelagem de formas complexas em argila e em gesso. Ainda vivo, muitas de suas obras mais famosas foram criticadas. Elas romperam com uma tradição de escultura idealizada e decorativa, com pouco espaço para abordar como assuntos mitológicos ou literários poderiam ser apresentados.

A característica distintiva de Rodin é uma modelagem realista, mas expressiva, do corpo, juntamente com um grande senso do conteúdo simbólico do tema. Lentamente, ele alcançou popularidade e conquistou seu espaço, especialmente após a decisiva participação na Exposição Mundial em Paris, em 1900.
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Matéria publicada originalmente no site Toucharte On (www.touchofclass.com.br) via The Art Newspaper, em 17/10/17.

Carta-manifesto pela democracia

Carta-manifesto produzida a partir de mobilização iniciada por artistas e críticos de arte, e que teve a adesão de diversos setores da sociedade civil – professores, advogados, engenheiros, psicanalistas, sociólogos, historiadores, cineastas, escritores, arquitetos, designers, jornalistas, fotógrafos, médicos, membros de movimentos sociais, etc.- para fazer frente a onda ultra conservadora que ameaça os direitos individuais, civis e sociais neste pais. Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão. Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/ +

Somos artistas, intelectuais e profissionais de várias áreas, que temos nos manifestado conjuntamente pela defesa da democracia desde 2015 e que, agora, nos colocamos ao lado das recentes iniciativas contra o recrudescimento da onda de ódio, intolerância e violência à livre expressão nas artes e na educação. Ódio, intolerância e violência que já vêm sendo impressos há tempos contra mulheres, homossexuais, negros e índios.
Somos radicalmente a favor da liberdade de expressão e circulação de ideias, crenças, informações e expressões artísticas. E evidentemente, acreditamos no livre debate de todas essas expressões.
Achamos, todavia, que é preciso nomear os focos de ataque às liberdades. Ficou evidente que militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública – e sem espírito republicano –, membros da burocracia de estado no judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas. Eles censuram exposições, assediam os visitantes e funcionários dos museus e usam de redes sociais para detratar e ultrajar pessoas das quais discordam. Arrogantes, tais fundamentalistas evitam a leitura mais atenta dos trabalhos e saem à caça de indícios de indecência, leviandade, pornografia e heresia. Não há debate intelectual, não há questionamento, só violência e intolerância.
Foi assim que milícias reacionárias e antidemocráticas conseguiram provocar de maneira abrupta o encerramento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, de Porto Alegre (RS). Em setembro, a polícia retirou a pintura Pedofilia, de Alessandra Cunha, do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (MS); depois a justiça proibiu a apresentação da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, no Sesc de Jundiaí (SP). Vale lembrar ainda que as mesmas milícias iniciaram uma campanha contra o Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, por conta da performance La Bête, de Wagner Schwartz, com apoio irresponsável do prefeito de São Paulo, João Doria. E uma horda de fanáticos liderados pelo deputado João Leite tentou invadir o Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), e destruir a produção de Pedro Moraleida.
Acreditamos também que não se trata de um ataque específico à produção artística. Mas trata-se de um fenômeno que começou a brotar em 2010 como oposição ao Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3); e que cresceu e foi adubado durante o processo de deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff.
É óbvio que nem todos que foram a favor do impeachment sejam dessa linhagem antidemocrática. Mas estavam lá em peso os ativistas e agentes públicos arquiconservadores constrangendo pessoas de pensamento diverso. Eles que distribuíram adesivos para serem colados em tampas de tanque de combustível com a figura da presidenta em um contexto sexista, misógino e constrangedor; eles que atacaram políticos e militantes de esquerda em aviões, restaurantes e até em ambientes sensíveis como hospitais e velórios, eles que bateram e ameaçaram quem se vestia de vermelho.
Depois de consumado o impeachment – bem nomeado, um golpe parlamentar com a compra de votos de deputados capitaneada por Eduardo Cunha – passaram a subtrair ou tentar retirar um número significativo de conquistas obtidas pelos brasileiros a partir da Constituição de 1988. É assim que estão dia a dia limitando os direitos individuais, civis e sociais no Brasil, precarizando as condições de trabalho, ameaçando a liberdade de ensino nas escolas, a proteção ao meio-ambiente, a união de pessoas do mesmo sexo etc. Esse é o conjunto da obra que resulta do golpe de Estado.
Agora, o que necessitamos é ampliar ao máximo, acima de opções partidárias, ideológicas e religiosas, todas as forças democráticas para fazer frente, nas ruas, nas casas legislativas, nos tribunais e nos meios de comunicação disponíveis, às ameaças concretas às liberdades e conquistas sociais. Propomos a articulação de grupos, entre amigos e familiares, entre colegas de profissão para a organização de atos públicos e de ação nas redes sociais para defender e aprofundar o direito a um ambiente de livre circulação de ideias, e denunciar aqueles que querem ver o Brasil sem democracia.
Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão.
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Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/

Masp para maiores

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A “Histórias da Sexualidade”, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição, pelo peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores. Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17. +

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A partir desta sexta-feira, dia 20, quando for inaugurada a exposição Histórias da Sexualidade, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas pelos quatro curadores que respondem pela mostra sob supervisão do diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição – segundo Pedrosa, nem tanto para evitar o transtorno pelo qual passaram o Santander Cultural de Porto Alegre e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, mas “para seguir a legislação vigente”.

Os advogados do Masp, que fazem parte do Conselho do museu, foram favoráveis à classificação etária para a exposição, mas não fizeram circular o parecer – esse relatório permanece confidencial. Contudo, teve certamente nessa decisão o peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos por causa da interação de uma criança com um performer nu, e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores, inconformados com o conteúdo da mostra, rejeitada lá e no Rio.

Em tempo: uma obra que esteve na mostra Queermuseu, como Cenas de Interior II – uma “compilação de práticas sexuais existentes”, segundo a autora, Adriana Varejão – está na mostra do Masp. Trata-se de uma reinterpretação das chungas (tradicionais gravuras eróticas japonesas), também instaladas na exposição bem ao lado da pintura de Varejão e de quatro desenhos eróticos da surrealista parisiense Louise Bourgeois (1911-2010).

A rigor, a mostra do Masp é mais ousada que Queermuseu, pois contempla todas (ou quase todas) as formas alternativas de sexualidade, denunciando justamente como as tentativas de reprimir o erotismo (na arte e fora dela) descambaram para a violência. Há, por exemplo, uma série do premiado fotógrafo Juca Martins que acompanhou as históricas batidas policiais do delegado José Wilson Richetti quando o policial assumiu a delegacia seccional do centro e criou a Operação Cidade no governo Paulo Maluf, em 1980. Num só dia ele prendeu 152 pessoas, entre prostitutas, travestis e homossexuais.

Há na mostra histórias ocultas de personagens igualmente marginalizados por sua condição. É o caso da bailarina do impressionista francês Degas, que ocupa o centro de um dos nove núcleos temáticos da exposição, o do mercado do sexo. Uma das curadoras, Camila Bechelany, conta que a modelo da escultura de bronze, filha de uma pobre família belga, possivelmente era uma prostituta de 14 anos. Ladeada por outras colegas de profissão, ela tem a companhia, na mesma sala, de garotos de pro- grama com o sexo exposto no largo do Arouche, antigo ponto de prostituição masculina no centro de São Paulo.

Há uma profusão de obras de artistas brasileiros e estrangeiros de todas as épocas, que expõem de forma explícita a genitália, de uma tela do francês Ingres a uma ingênua pintura do mato-grossense Adir Sodré, que retrata a transgênero Roberta Close como uma ‘maja desnuda’ contemporânea. Há também esculturas, como a do carioca Chico Tabibuia (1936-2007), que também explorou o transgênero sobrenatural ao es- culpir um Exu com sexo duplo.

Os curadores selecionaram 40 obras do acervo do Masp entre as 400 emprestadas por outros museus, galerias e colecionadores particulares, entre elas obras de Picasso, Gauguin, Suzanne Valadon, Poussin e Victor Meirelles. Concebida em 2015, ou seja, dois anos antes das polêmicas que envolveram as exposições do Santander Cultural e Museu de Arte de São Paulo (MAM), a exposição, segundo o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, integra uma série dedicada à sexualidade na arte, da qual fizeram parte as individuais de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Henri de ToulouseLautrec, Tracey Moffatt, Pedro Correia de Araújo e Guerrilla Girls. A próxima será dedicada ao escultor pernambucano Tunga (1952-2016).

Histórias da Sexualidade, apesar do título, não segue a filosofia do francês Michel Foucault (1926-1984), garante Pedrosa. Em todo caso, a mostra, como Foucault, relaciona religião e sexualidade (com destaque para a série bíblica de Leon Ferrari e o São Sebastião – de Perugino e Mapplethorpe). “É um grande mosaico de várias histórias que se entrelaçam e podem ser tanto reais como fictícias”, define o diretor artístico do Masp.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17.

Herdeiros dão "cara nova" para o centro de São Paulo

Casarões no Arouche e nos Campos Elísios são restaurados e ganham novos usos, como espaço cultural, de coworking e café. +

Fabio e Munir Candalaft Junior, de 53 e 55 anos, praticamente cresceram na região entre o Largo e a Rua do Arouche, na República, centro de São Paulo. Quando jovens, os irmãos de origem libanesa trabalharam com a mãe e o pai em lojas da família, no período em que o entorno era um dos mais nobres da cidade. Já adultos, eles migraram de bairro e escolheram outras profissões, mas, há menos de um ano, resolveram novamente se voltar para o local ao montar, no imóvel construído no início do século 20 e comprado pela família na década de 70, o espaço cultural e de eventos No Arouche.

Com janelas multicoloridas, o sobrado ganhou uma “cara 2017” após os irmãos Candalaft observarem que muitos filhos de amigos haviam se mudado para o centro. Aberto dois fins de semana por mês, o espaço reuniu 25 expositores, apresentações musicais e 2 mil visitantes nos dois primeiros dias.

Na parte interna, traz grafites de 12 artistas convidados pelo arquiteto do projeto, Gabriel Menezes, do Estúdio 011. “A ideia é trazer a arte de rua para dentro do prédio, para quem entra se sentir na rua”, ressalta o arquiteto.

A 1,5 quilômetro dali, um casarão foi inaugurado neste mês na esquina da Rua Guaianases com a Alameda Nothmann, em Campos Elísios. O proprietário, que recebeu a casa há dois anos, batizou o local de Casa Don’Anna em homenagem à sua avó Anna Silva Telles, primeira moradora do imóvel. O casarão poderá ser reservado para eventos e terá um espaço de coworking; o porão abrigará o Café Paulista; e o quintal receberá o Jardim das Orquídeas, um ponto de encontro para amantes da planta, de acordo com um dos responsáveis pelo espaço, Sergio Oyama.

Conjunto de imóveis

Construída em 1912 com projeto do escritório de Ramos de Azevedo, a Casa Don’Anna foi tombada pelo Estado em 2013 dentro do “Conjunto de Imóveis do Campos Elísios”.
Dele, faz parte também a fachada de sobrados da esquina da Alameda Barão de Piracicaba com o Largo Coração de Jesus, na antiga Cracolândia, que passa por um processo de revitalização, bancado pelos irmãos Flávio e Célia Gomes Torres, de 55 e 51 anos, respectivamente.

De acordo com Flávio, a recuperação da fachada é um antigo sonho de seu pai, o imigrante português Isolino Gomes Torres, que, a partir da década de 1950, comprou aos poucos os sete pequenos imóveis que hoje compõem o casarão. A ideia, contudo, antes era inviável por causa da aglomeração de usuários de droga na região.

“O prédio merecia um trato, até pela situação do bairro em si. É nossa obrigação colaborar”, diz. “Se fosse em Paris, um prédio lindo desse, a gente estaria feito, mas o contexto não valoriza”, completa o empresário.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Célia não cogitou vender o imóvel, que assumiu com o irmão após o pai adoecer, em 2014. “Uma vez eu vi o forro: as madeiras são encaixadas de um jeito diferente, lindo”, conta.

Ela afirma que o imóvel foi um dos que menos sofreu com a degradação da região, porque o pai era criterioso com os moradores, muitos dos quais são os mesmos há décadas, como a diarista Maria Júlia Santana, de 54 anos. Amante de “coisas antigas”, ela diz que não se imagina vivendo em outro local. “Casei aqui, tive filha aqui (hoje com 27 anos). Quando precisava, o seu Isolino até dava uma olhada nela”, conta.

Autoestima

Feita pela Companhia do Restauro, a obra é uma “conservação para aumentar a autoestima do bairro”, define o diretor e arquiteto Francisco Zorzete. A restauração total é avaliada em mais de R$ 1,5 milhão, valor que a família não pretende investir agora.
Neste momento, o destino da região é avaliado por um conselho, composto por representantes da sociedade civil e do poder público, criado pela Prefeitura, que chegou a considerar a demolição no início do ano. “Todos os imóveis com fachadas tombadas serão preservados em qualquer proposta de requalificação do perímetro”, disse o Município, em nota.
Proprietário relata cansaço em luta por restauração

O número 267 da Rua Pedroso foi o lar de quatro gerações da família Sohn. Mais do que isso, contudo, o casarão, construído em 1927, é uma causa abraçada há 15 anos por um de seus herdeiros, o ator Paulo Goya, de 66 anos. Mesmo integralmente dedicado ao imóvel, tombado em 2002 pelo Município, ele relata cansaço nessa luta.
Desde 2005, calcula ter gasto quase R$ 1 milhão, junto com a irmã e dois primos, em obras e manutenção do Espaço Cultural Dona Julieta Sohn, conhecido como Casarão do Belvedere. “Se eu, com toda a minha experiência, minha vontade e meu desejo de preservação enfrento montanhas intransponíveis, imagina o coitado do proprietário que tem um imóvel de 50 metros quadrados tombado como bem”, lamenta ele, que relata ter recebido a notícia do tombamento por uma ligação de uma familiar que estava na ocasião “aos prantos”.

Com um fomento federal recentemente barrado na Justiça, Goya afirma que a estrutura do telhado da casa está tão comprometida que grande parte das atividades ocorre em um imóvel anexo. Mesmo com as dificuldades, ele afirma, que não vai desistir. “Até o fim da minha vida me verão defendendo esse patrimônio, essa casa, esse projeto. Não me calarão.”
A criação de um fundo para imóveis tombados é defendida pela arquiteta Nadia Somekh. “Os proprietários nem sempre têm recursos necessários para o restauro”, diz. Segundo ela, embora seja uma das principais alternativas para obter recurso, a Transferência do Direito de Construir (TDC) é “incipiente” por cauda da quantidade de tombamentos da cidade, mais de 3,5 mil.
Na prática, o TDC permite a “venda” da metragem construtiva não utilizada do terreno tombado para um terceiro, que poderá aplicá-lo em outro local.

Para o presidente do departamento paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP), Fernando Túlio Salva Rocha, ainda falta apoio técnico público para orientar os herdeiros sobre como conseguir recursos para requalificar propriedades antigas tombadas da cidade.
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Matéria de Priscila Mengue para o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 18/09/17.

O que é um museu?

Um ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”, que vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas. Mas ao passar do tempo, o conceito de museu mudou e hoje lutamos para construir espaços que não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso. Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17. +

Quem nunca ouviu o ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”? Isso vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas, que não têm mais utilidade para ninguém, ou, num linguajar mais popular, coisas velhas mesmo!

Contudo já paramos para pensar qual a origem dessa história? Quando e por que se começou a reunir peças e objetos em forma de coleções? Qual a relevância que essa instituição teve ao longo dos séculos e que magnitude ela tem nos dias de hoje? Vejamos.

A origem etimológica da palavra museu vem do grego e quer dizer musas. As musas eram entidades da mitologia grega, filhas de Zeus e de Mnemosine, a deusa da memória. A casa das musas era o mouseion, uma mistura de templo com instituição de pesquisa voltada para o saber filosófico, onde eram depositados objetos preciosos oferecidos às divindades em sinal de agradecimento. A partir de então, todo objeto reunido ou compilado num determinado espaço com o intuito de contar ou resgatar alguma área do conhecimento passou a ser relacionado à palavra museu.

Na Europa medieval, por exemplo, as coleções eram a principal prerrogativa das casas nobres e da Igreja Católica, sendo consideradas verdadeiras relíquias da cristandade. Tinham na sociedade uma importância econômica muito significativa e eram até utilizadas para financiar guerras e outras despesas de Estado.

Entre os séculos 16 e 17, com a expansão do conhecimento do mundo propiciada pelas grandes navegações, estabeleceram-se na Europa os primeiros museus conhecidos como “gabinetes de curiosidades”. Tratava-se de locais preparados especialmente para guardar coleções altamente heterogêneas e assistemáticas de objetos das mais variadas naturezas e procedências. Essas galerias eram essencialmente inacessíveis à população em geral e as coleções, expostas apenas às pessoas convidadas à residência do proprietário.

A mudança do conceito de museu está vinculada a um processo histórico, como resultado da mentalidade de uma época. No fim do século 19, acompanhando as transformações das ciências em geral, os museus especializaram-se, tomando um novo caráter, sem, no entanto, deixarem de ser conservatórios das mais altas formas do patrimônio cultural da humanidade.


O Museu do Louvre, em Paris, por exemplo, foi a primeira instituição a revolucionar os conceitos de relacionamento com o público. Ele foi considerado, desde o início, o “museu do povo”. Além da finalidade conservatória e documental de classificação, pesquisa, exposição e divulgação de conjuntos de objetos de interesse e valor artístico, científico e técnico, outras funções culturais, mais amplas, passaram a integrar as atividades dos museus a partir de então.

Tal fato veio ao encontro das novas exigências de uma época em que o avanço tecnológico e científico provindo do século 20 fez com que o homem se voltasse para novas experiências e se apegasse ao que é material para contar a sua história. E os museus, que antes eram “santuários” discretos e clubes fechados, passaram a ter como principal pressuposto a aproximação do público. Assim, as práticas colecionistas “antigas” foram dando lugar ao aprofundamento científico, interdisciplinar e educativo dos museus.

Podemos dizer que a reformulação conceitual do espaço dos museus, mesmo enfrentando avanços e retrocessos, ganhou novo impulso nos anos 70 e 80 do século passado, sendo lícito considerar essa reorientação como uma verdadeira revolução na concepção do museu público e a constituição de uma museologia moderna.

Em 1986, o Conselho Internacional de Museus (Icom), fundado no Brasil em 1948, definiu o museu como “uma instituição permanente sem finalidade lucrativa, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que realiza pesquisas sobre a evidência material do homem e do seu ambiente, as adquire, conserva, investiga, comunica e exibe, com a finalidade de estudo, educação e fruição”.

Assim, é fundamentada nessa concepção de museu trazida pelo Icom que abro espaço para falar de um museu que pouco se conhece, mas tem uma grande importância na história de São Paulo: o Museu da Santa Casa de São Paulo (MSC-SP), que ocupa parte do complexo hospitalar construído no ano de 1884, conhecido na época como “Castelo da Misericórdia”, projetado pelo então engenheiro e arquiteto Luiz Pucci.

O MSC-SP nasceu em 2000 pela iniciativa do irmão mesário Augusto Carlos Ferreira Velloso, que, junto com o novo milênio, veio presentear a população paulista com o resgate da memória e da história da irmandade, que ao longo das décadas se mistura com a história e a evolução da cidade. Instalado na provedoria da Santa Casa, o museu é composto por objetos religiosos, textuais, iconográficos, pinturas, esculturas, mobiliários e instrumentos médicos, entre outros, que nos ajudam a reconstruir essa importante parte da memória paulista, contada por meio de peças coletadas dentro da própria Santa Casa ou doadas por médicos e irmãos que por lá passaram.

O MSC-SP, como instituição museológica, busca aperfeiçoar sua prática diária valorizando o ensino e a pesquisa, aproximando o visitante, de forma a criar empatia, identidade e reconhecimento com essa instituição que ao longo dos séculos vem prestando serviços à sociedade.

Que os museus que lutamos para construir hoje não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso, garantindo à sociedade, com seu acervo, o estudo e a reflexão sobre um patrimônio cultural que contribui efetivamente para a formação da diversidade brasileira.
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Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17.

Ministro e deputados batem boca em audiência sobre "Queermuseu" e MAM

O que se viu em audiência na Câmara aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" estavam a um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada e bombardeio de comentários absurdos dirigidos ao ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão. Até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada". Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” , em 18/10/17. +

A ideia era ouvir o ministro Sérgio Sá Leitão (Cultura) sobre o "Queermuseu", mostra gaúcha que, para críticos, fazia apologia a pedofilia e zoofilia, e a exposição no MAM paulistano que trouxe interação entre uma criança e um artista nu — ambas realizadas com incentivos fiscais da Lei Rouanet.
O que se viu em audiência na Câmara nesta quarta-feira (18), contudo, aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" e Glauber Braga (PSOL-RJ), voz solitária pró-mostras entre os colegas.

Já no fim do debate, apresentando-se como católico, Givaldo Carimbão (PHS-AL) perguntou se o ministro acharia razoável expor sua progenitora como artistas do "Queermuseu" o fizeram com Virgem Maria, a quem chamou de "minha mãe".

Obras da exposição cancelada satirizavam e sexualizavam a mãe de Jesus, como uma em que ela aparecia acalentando um macaco. Carimbão lançou a hipótese da mãe de Leitão retratada "de pernas abertas", com genitália à mostra.

Leitão se exaltou e, aos berros e com dedo em riste, acusou o deputado de "ofender minha falecida mãe".

"Ele baixou o nível e ofendeu diretamente a minha mãe, já falecida. De modo gratuito. Fez comentários absurdos. Superou o meu limite. Lamento profundamente", disse Leitão à Folha.

A audiência pública foi encerrada após a celeuma, gota d'água numa sessão acalorada que se estendeu por mais de duas horas.
A certa altura, Braga quase caiu no braço com Delegado Eder Mauro (PSD-PA). A um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada, os dois foram apartados por seguranças da Casa e por um colega, Pastor Eurico (PHS-PE).

Mauro disse que não daria "porrada aqui dentro", mas estava disposto a levar a discussão às vias de fato fora da Câmara.
"Eu quero ver se tu é homem!", gritava o paraense a Braga, que respondeu com uma provocação: "Tá nervoso?".

"Tô defendendo criança inocente", rebateu o delegado. "Vai botar teu filho pra passar a mão em macho!", completou, com o dedo apontado para a cara do desafeto político.

Relembre polêmicas nas artes cênicas e visuais

O entrevero se alongou por quase cinco minutos, até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada".

Feliciano também brigou com Braga e o acusou de chamar sua mãe de "puta". Ameaçou deixar a sala e depois se desculpou pelo destempero ("a esquerda tira a gente do sério").

O clima no plenário 12 da Casa foi pesado do início ao fim.

Sob intenso bombardeio de deputados que evocavam a "defesa da família" contra a "imundice" da cena artística, Leitão lá estava como convidado a "prestar esclarecimentos sobre exposições realizadas com recursos públicos, onde foram constatados ilícitos penais que causaram reação social e que resultaram em conflitos com reflexo na segurança pública", conforme indicava a placa na porta.

Deputados questionaram a falta de uma condenação enfática do Ministério da Cultura às exposições, deram murros sobre a mesa para expor suas opiniões e levantaram cartazes com cenas das mostras que traziam "pornografia travestida de cultura".

A plateia foi dominada pela ala conservadora da Câmara, com vários membros da bancada evangélica, como Marco Feliciano (PSC-SP) e João Campos (PRB-GO), ex-presidente da frente religiosa. Também presente: a psicóloga Rozangela Justino, que trabalha no gabinete de um parlamentar aliado de Silas Malafaia, Sostenes Cavalcante (DEM-RJ), e que ficou conhecida por defender a terapia para pacientes homossexuais, apelidada de "cura gay".

Feliciano reclamou de obras do "Queermuseu", como a de "uma hóstia que trazia 'vagina' escrito".

Argumentou o deputado-pastor: a imprensa fez um "auê" quando, em 1995, um bispo da Igreja Universal chutou a imagem de uma santa. "Ok, isso foi crime", disse.

Mas por que a mídia se calou quando a mostra em Porto Alegre exibiu a performance "Atos da Transfiguração: Desaparição ou Receita para Fazer um Santo"?

Nela, o artista usa um ralador para transformar uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida em pó –depois jogado sobre seu corpo nu. Os episódios de 1995 e 2017 se equivalem no desrespeito à fé, segundo o deputado do PSC.

"Essas pornografias travestidas de cultura" estão "virando moda no Brasil", e tudo às custas do contribuinte, disparou Laerte Bessa (PR-DF). "A Constituição não fala em pornografia." Não adianta querer se impor isso num país com o nisso, que é um país de família."
Glauber Braga questionou: o que seus colegas querem? Que projetos, para usufruirem da Rouanet, passem por uma comissão avaliadora com Silas Malafaia e Feliciano?

Leitão se posicionou contra o "dirigismo cultural" e afirmou que "a liberdade de criação, expressão e manifestação" são direitos resguardados pela Constituição.

"Não podemos de maneira nenhuma incorrer na questão da censura."

O que não quer dizer que limites inexistam, continuou o ministro. Para evitar desrespeito ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), exposições devem ter classificação indicativa por força de lei, como já acontece no audiovisual, defendeu.

Feliciano rebateu: em certos casos, a classificação deveria ser "proibitiva, e não apenas indicativa", já que há pais dispostos a levar seus filhos para conferir obras "inadequadas". Foi o caso, a seu ver, da mãe da menina que interagiu com um homem nu no MAM.

Alberto Fraga abriu audiência criticando o "Quérmuseu" (colegas logo corrigiram a pronúncia aportuguesada para "Queermuseu", e ele riu e se desculpou: "Não sei falar inglês").

"As crianças que visitaram a mostra foram expostas a vídeos criminosos", afirmou, destacando um deles, em que "um homem recebe jato de sêmen". Também se mostrou desgostoso com o trabalho que faz alusão ao tumblr "Criança Viada", "muito apreciado pela comunidade LGBT".
"A virtude está no meio", afirmou Leitão. Citava Aristoteles para propor um diálogo "ponderado" que conciliasse os dois lados. Por hoje, ao menos, nada feito.

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Leia na íntegra a nota enviada pelo Ministério da Cultura:

O Ministério da Cultura vem a público prestar os seguintes esclarecimentos:

1) A convite das Comissões de Cultura e de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, participou hoje de audiência pública na câmara dos deputados;

2) Em sua fala, o ministro tratou da posição do Ministério da Cultura em relação a exposições artísticas realizadas recentemente em Porto Alegre e São Paulo, e prestou os esclarecimentos pedidos pelos deputados;

3) Sá Leitão reforçou a posição do MinC favorável à extensão da classificação indicativa para exposições de artes visuais;
4) O ministro respondeu com serenidade a todas as perguntas e compartilhou as informações pedidas, reafirmando sua convicção de que o assunto deve ser tratado com equilíbrio e racionalidade;

5) Em determinado momento da audiência, houve colocações ofensivas dirigidas ao ministro, sem qualquer relação com o objeto ou com o tom do conjunto da audiência.Diante das repetidas ofensas, o ministro encerrou sua participação;

6) Após o incidente, o deputado Alberto Fraga, da Comissão de Segurança, ligou para o ministro Sá Leitão e pediu desculpas em nome da Comissão e dos deputados que a compõem. O deputado Thiago Peixoto, presidente da Comissão de Cultura, fez o mesmo;

7) O ministro reitera seu respeito a todos os parlamentares e ao Congresso Nacional, e seu desejo de construir um debate amplo e respeitoso, fundado no verdadeiro diálogo, que possa contribuir de fato para o fortalecimento da cultura, da democracia e do estado de direito em nosso país.
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Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” (www1.folha.uol.com.br), em 18/10/17.

“Tragam seus filhos para ver gente nua”

Pais que levaram os filhos para ver “gente nua” em museu de Paris falam da tentativa de censura à arte no Brasil. Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br +

Uma campanha para incentivar os pais a levar os filhos para ver gente nua. Poderia ser no Brasil, mas é no Museu d’Orsay, em Paris.
Há dois anos, banners com a mensagem “tragam seus filhos para ver gente nua” foram espalhados pelo transporte público da cidade, o que, de acordo com os organizadores, foi um sucesso e não resultou em polêmicas.
A proposta é retomar a campanha neste mês. Depois que o artista Wagner Schwartz foi acusado de pedofilia, junto com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, depois de um vídeo que uma criança toca o corpo dele nu durante uma performance, imagino se uma ideia como seria posta em prática no Brasil.
Perguntei a visitantes do D’Orsay, que é repleto de esculturas e quadros representando a nudez, o que eles pensam tanto sobre a campanha e também expliquei a eles o ocorrido no Brasil.
Para a francesa Martine, de 57 anos, a iniciativa francesa é muito boa. “É uma outra maneira de ver o corpo, interpretada pelos artistas de uma outra época, quando o corpo não tinha a mesma visão que hoje”.
Ela, cujo filho tem 32 anos, disse que se ele fosse criança o traria do mesmo modo ao museu, “sem nenhuma dificuldade”.
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Para Martine, o que ocorreu no Brasil foi um exagero. “Pedofilia não tem nada a ver com isso. Há um artista que tira fotos de pessoas nuas, fotos magníficas. Não tem nada de chocante”, opina.
O inglês Peter, 80, traria o neto. “É importante que as crianças apreciem a arte”, afirma. Sobre o caso do Brasil, ele acredita que a orientação cabe aos pais. “A criança precisa entender que não é sexual, que é arte. O papel dos pais é fazê-la entender isso e observar suas crianças. O mais importante é que a criança que vá assistir a uma performance como essa tenha a maturidade necessária.”
O alemão Holger, 50, tampouco vê problemas na nudez. No entanto, ele avalia que essa percepção depende da cultura. “Aqui na Europa, é menos complicado do que em outras partes do mundo. Às vezes, coisas que têm a ver com religião são muito diferentes. É uma questão de tempo que as coisas se tornem mais fáceis”, declara.
Alessandra, italiana de 56 anos, defende que a nudez pode ser interpretada e apreciada de outro modo quando o assunto é arte. “Para não chegar à pornografia, depende da idade das crianças, da educação cívica e moral”, observa.
No caso específico do Brasil, ela diz que as instalações modernas não devem ultrapassar “a moral pública e individual”.
E que “se isso (uma criança poder tocar o corpo de um artista nu) fazia parte de uma interpretação artística… Depende de qual parte do corpo. Eu acho que não é grave”, pondera.
A americana Susan, 71, discorda da reação de setores da sociedade brasileira à performance de Schwartz. Perguntada sobre a campanha do museu francês, ela traria seus filhos sem problema algum. “É história. É um trabalho clássico. As crianças precisam ver isso”, diz.
Seu conterrâneo Bill, 61, não vê problemas em nenhum dos casos. “É parte da vida. Um fato da vida. Isso aparece nos livros. Se apresentado corretamente pelos pais, não há problema”.
A também americana Liana, 42, trouxe a filha Sofia, 11, para visitar o museu. Para ela, nudez na arte é uma forma de apreciar a forma humana. E ela mesma pergunta à filha o que acha. “Eu não gostaria de ver isso (risos)”, diz Sofia, 11.
A russa Julia, 43, que veio acompanhada do filho adolescente e da irmã, também avalia como parte da arte ver pessoas nuas, mas critica a possibilidade de uma criança tocar o corpo de um artista.
“Ele poderia pensar melhor sobre as consequências e não fazer isso”. Mesmo assim, ela discorda do ponto a que chegaram as críticas. “Não é correto acusá-lo de pedofilia”.
Também encontrei brasileiros. O primeiro aceitou dar entrevista, mas decidiu interrompê-la logo no início quando seu grupo disse que ia entrar na instituição. O outro também aceitou ser entrevistado, mas diante das perguntas, preferiu não participar. “Sou ultraconservador”, justificou.
No Museu d’Orsay estão obras dos séculos XIX e XX, assinadas por, entre outros, Van Gogh, Auguste Rodin e Paul Gauguin. A nudez aparece principalmente nas esculturas, com referências ao ideal de beleza da Grécia Antiga.
Mas o nu também é utilizado para falar de tristeza, solidão, da condição humana, sua existência, divisões sociais, miséria, inocência, valores culturais, natureza.
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Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br

Em Paris, proibição do Museu do Louvre a escultura gera polêmica

O Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea. A escultura “Domestikator" é habitáculo de 12m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada. Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17. +

Após o fechamento da "Queermuseu", a interdição da mostra no Rio e o escândalo causado pela performance "La Bête", no Museu de Arte Moderna de SP, muitos olhos se voltaram à Europa.

O farol da civilização, porém, pisca quando o maior museu do mundo interdita uma obra por razão duvidosa.
Por um lado, a França irradia ideias arrojadas e nortes morais, sociais e políticos.

Um museu como o d'Orsay, em Paris, lança campanhas para atrair o público jovem, sobretudo crianças, com slogans que deixariam o pastor-prefeito Marcelo Crivella (PRB) de topete arrepiado. "Tragam seus filhos para ver gente nua", diz um deles, sobre a tela "Mulher Nua Deitada" (1907), de Auguste Renoir.

Mas, no outro lado do rio Sena, o Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea, que ocorre de 19 a 22 de outubro.

"Domestikator", escultura-habitáculo de 12 m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada.
Em público, a direção do museu culpou o calendário: não haveria tempo para que o trabalho fosse aprovado pelas comissões encarregadas.

Contudo, como revelou o "Le Monde", o presidente do Louvre, Jean-Luc Martinez, foi explícito em carta enviada à direção do evento: "circulam rumores na internet que atribuem a esta obra uma visão brutal demais, que pode ser mal interpretada pelo nosso público tradicional".

"É de uma hipocrisia total", reagiu o artista holandês Joop Van Lieshour. "Em Bochum (Alemanha), turmas inteiras de colégios vieram conhecer o 'Domestikator'." Para ele, "se crianças viram algo de sexual, é porque já têm idade para ver essas coisas".

"É ridículo, senão ilegal!", protesta a advogada Agnès Tricoire, fundadora do Observatório da Liberdade de Criação, que defende artistas censurados. "Se seguirmos a lógica, teremos de listar telas que deveriam ser retiradas."

A ONG francesa ressalva que a arte pode ter limites. A pedofilia, por exemplo, aceita na literatura (como em "Lolita", de Nabokov), é um dos tabus que provocam reações.

Daí a definição de Tricoire: "A pedofilia num desenho é uma coisa. Mas, obviamente, jamais aceitaríamos que uma criança participasse de ato sexual numa obra de arte".

Se na França a classificação por faixa etária se limita ao cinema e ao teatro, como no Brasil, nos museus ela fica por conta do curador.

A direita francesa pode ser atuante, como demonstrou em protestos contra o casamento homossexual. A escultura "Dirty Corner", do judeu Anish Kapoor, é bom exemplo. Exposta nos jardins do Palácio de Versalhes, a obra recebeu pichações antissemitas em setembro de 2015.

Meses antes, a escultura inflável "Tree", do americano Paul McCarthy, que lembra um brinquedo erótico, já havia sido vandalizada no centro de Paris, enquanto o artista recebia bofetada de um moralista mais exaltado.
Em tempo: o museu Centre Pompidou, também em Paris, já se ofereceu para abrigar o 'Domestikator'.
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Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17.

Masp abre mostra sobre sexualidade com obras de artistas consagrados

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. E essa mostra de trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon, Edgar Degas, Édouard Manet, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Robert Mapplethorpe, Victor Meirelles e Adriana Varejão. Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17. +

O Museu de Arte de São Paulo (Masp) inaugura na próxima sexta-feira, 20, a mostra Histórias da Sexualidade, que faz parte do foco temático do Museu em 2017. A exposição fica no Masp até o dia 9 de fevereiro de 2018.

Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon (1561-1626), Edgar Degas (1834-1917), Édouard Manet (1832-1883), Pablo Picasso (1881-1973), Paul Gauguin (1848-1903), Suzanne Valadon (1865-1938), Robert Mapplethorpe (1946-1989). Brasileiros como Victor Meirelles (1832-1903) e Adriana Varejão (1964) também terão trabalhos na mostra. Entre outros.

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. Por aqui, instituições culturais estão discutindo a criação de um manual para exposições.

Em torno da mostra Histórias da Sexualidade estão sendo apresentadas ao longo do ano exposições de artistas brasileiros e internacionais, cujos trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. São eles: Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Henri de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Guerrilla Girls, Pedro Correia de Araújo e Tunga.

Em artigo publicado nesta terça, 17, no jornal Folha de S. Paulo ("Mostra no Masp sobre sexualidade reforça que censura é inaceitável"), o diretor presidente do Masp, Heitor Martins, apresentou a exposição e fez ressalvas, lembrando que "o único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo".

"É preciso criar condições para que todos nós –cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades– possamos viver de forma harmoniosa e escutando uns aos outros", escreveu Martins.

"Por isso mesmo, a radicalização, a intolerância, o cerceamento da liberdade de expressão, não devem e não podem ser aceitos. O Masp, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais", prosseguiu. O diretor reforça que a exposição pretende construir um "debate consistente e sólido".

Ainda de acordo com o Museu, a programação anual pretende discutir múltiplas perspectivas sobre a sexualidade, "considerando, especialmente, narrativas descolonizadoras, que extrapolem conceitos ocidentais hegemônicos e de classes dominantes, e provoquem atritos entre acervos diversos".

Histórias da Sexualidade está inserida em um projeto mais amplo de exposições do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como Histórias da Loucura e Histórias Feministas (iniciadas em 2015), Histórias da Infância (em 2016) e Histórias da Escravidão (programada para 2018).

A exposição chega coincidentemente num momento em que o debate tomou conta das redes sociais no Brasil, e chegou até ao Ministério Público. No fim de setembro, a participação de uma criança em uma performance protagonizada por um homem nu deu início a nova polêmica sobre a liberdade artística. O teor dos comentários foi o mesmo daqueles que levaram ao cancelamento da exposição Queermuseu, alvo de protesto ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) em Porto Alegre.

HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
MASP. Av. Paulista, 1578, Primeiro andar. De 20/10/2017 a 9/2/2018. Indicação etária: 18 anos. R$ 30.
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Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17.

O Jockey volta à moda

O primeiro empreendimento da Vila Portugal no Jockey Club do Rio de Janeiro, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves. Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”. +

Quando criança, o carioca Luiz Gustavo Neves costumava acompanhar o pai – um turfista apaixonado – em suas longas tardes de apostas no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro. À época, o Jockey Club Brasileiro já não ostentava mais o glamour das décadas de 40 e 50, quando os páreos faziam lotar as arquibancadas e os eventos sociais reuniam boa parte da elite carioca. Mas o terreno amplo – são mais de 300 mil metros quadrados encravados entre o Jardim Botânico, o Leblon e a Lagoa Rodrigo de Freitas – e a vista privilegiadíssima para o Corcovado eram suficientes para encantar o garoto.
Hoje, aos 36 anos e ainda sócio da instituição, Neves continua frequentador do lugar e, nos últimos tempos, tornou-se também um dos maiores entusiastas da revitalização da área. “Ficava triste de ver um local tão bonito sendo tão pouco aproveitado pela população”, diz Neves. “Queria fazer algo para mudar esse quadro.”

A chance surgiu quando Neves percebeu, em uma área abandonada do hipódromo, uma oportunidade para fazer negócios – e, de quebra, atrair muito mais gente à região. Neves uniu-se ao amigo Francisco Pellegrino, de 37 anos, para viabilizar a Vila Portugal, um complexo de galerias e restaurantes que, aos poucos, começa a tomar forma, ocupando o que antes eram apenas ruínas de uma antiga vila operária. “Queríamos fazer algo que tivesse relação com o bairro”, diz Neves. “Por isso, pensamos no polo cultural. O Jardim Botânico tem muitos ateliês e um circuito de arte reconhecido.”

O primeiro empreendimento da Vila Portugal, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves.

A primeira turma a apostar na Vila Portugal foi o trio Márcia Fortes, Alessandra D’Aloia e Alexandre Gabriel, da Carpintaria – apresentado a Neves e Pellegrino por intermédio dos artistas Otávio e Gustavo Pandolfo, OSGÊMEOS. “A ideia inicial, nas conversas com o Neves e o Pellegrino, era montar quatro restaurantes e uma galeria de arte. Mas nós os convencemos a dar mais ênfase à parte cultural”, conta Márcia Fortes. “O projeto, então, se encaminhou para as três galerias e o clube de jazz.”

A exposição Uma Canção para o Rio, feita com a colaboração de dois curadores de Los Angeles, Douglas Fogle e Hanneke Skerath, marcou a estreia da Carpintaria na Vila Portugal. Márcia explica que a mostra explorou a relação entre as artes visuais e a música por meio de um conjunto de obras assinadas por artistas brasileiros e do exterior – entre os quais Martin Creed, Hélio Oiticica, Nuno Ramos, Barrão e Rivane Neuenschwander. “A Carpintaria tem um conceito: ser um espaço para o diálogo cultural entre artistas e o mercado, por meio de shows, exposições e debates”, afirma Márcia. “Acho, enfim, que essa é a vocação da Vila como um todo.”

Idealizado pela primeira vez em 2010, o projeto da Vila Portugal foi marcado por uma série de obstáculos. O primeiro deles foi chegar a um modelo de negócios que atendesse tanto à necessidade dos novos ocupantes como dos sócios e frequentadores do Jockey. As negociações com a diretoria do clube arrastaram-se por mais de um ano. No final, chegou-se ao seguinte: os galeristas e empresários são responsáveis pelos custos de revitalização ou das novas construções, e pagam diretamente ao Jockey o valor dos aluguéis – em contratos de oito anos. Neves e Pellegrino ficam com um percentual sobre cada contrato.

Resolvido esse impasse, a dupla de amigos ainda precisou lidar com a morosidade para a obtenção de todas as licenças e autorizações – além de uma resistência dura da Associação de Moradores do Jardim Botânico. O grupo chegou a fazer uma denúncia no Ministério Público, acusando o clube por crimes ambientais e contra o patrimônio cultural. “Foi um erro nosso”, diz Neves. “Boa parte da confusão se deu por uma falha de comunicação.” A situação foi resolvida depois que o projeto foi apresentado de forma detalhada durante várias reuniões, com grupos de moradores e também do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da prefeitura responsável pela preservação de edifícios de valor histórico e arquitetônico.

“Tudo é aprendizado”, diz Neves, que não esconde a satisfação ao falar da empreitada. Ele e Pellegrino são agora sócios da Negroni, uma consultoria especializada em prospectar áreas degradadas ou ociosas com bom potencial para revitalização. Outros três projetos já estão engatilhados, um deles com o próprio Jockey. Além do Hipódromo da Gávea, o clube também é dono de um complexo de três prédios no centro da cidade. “O Rio está cheio de possibilidades para projetos como o da Vila Portugal”, diz Neves. “E nós estamos com a maior disposição para executá-los.”
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Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”, em 18/08/17.

Retrato de Jesus “Salvator Mundi”, de Da Vinci, pode arrecadar US$ 100 milhões

A pintura de Leonardo, datada de cerca de 1500, é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. A casa de leilões Christie's de Nova York também venderá ao seu lado a versão de Warhol da Última Ceia. Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17. +

A Christie's fez uma revelação nesta manhã (10/10) ao anunciar dois lotes de grande impacto para o próximo leilão de novembro: a enorme obra com 60 painéis “Last Supper” (A Última Ceia) de Andy Warhol, com uma estimativa de US$ 50 milhões, ao lado de uma obra mais peso pesado ainda: a impressionante e última obra-prima conhecida de Leonardo da Vinci, “Salvator Mundi”, que traz a estimativa de US $ 100 milhões.
As obras foram anunciadas na sede da casa de leilões no Rockefeller Center com observações de uma série de executivos, incluindo os co-chefes do departamento de arte do pós-guerra e contemporâneo Loïc Gouzer e Alex Rotter, juntamente com o especialista sênior do antigo mestre, Alan Wintermute, e o chefe do departamento do Old Master Francois de Poortere.
O Leonardo foi consignado pelo bilionário russo Dmitry Rybolovlev, conforme um representante de confiança da família confirmou para Artnet News. Ele comprou o trabalho em 2013 por US$ 127,5 milhões. (Christie's afirmou apenas que o trabalho vem de uma coleção privada européia.) Tanto o Leonardo quanto o Warhol possuem garantias de terceiros.
Explicando a decisão de colocar o Leonardo ao lado do Warhol na venda contemporânea, Gouzer disse que isso reflete no "diálogo entre esses dois artistas", bem como a propensão da Christie’s por empurrar fronteiras e "perturbar" as categorias de vendas. Ele alcançou sucesso com os recentes esforços na criação de chamadas vendas híbridas que combinam ofertas surpreendentes de arte clássica com obras contemporâneas de ponta.
Wintermute delineou a história da pintura de Leonardo durante a conferência de imprensa. Datada de cerca de 1500, a obra é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e, segundo notícias, é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. Em 2011, foi exibido na Galeria Nacional em Londres.
A pintura foi considerada durante um bom tempo como se fosse um trabalho feito por um seguidor de Leonardo e foi vendida na Sotheby's London em 1958 por apenas £ 45. Wintermute notou observou que o trabalho foi examinado pelo Museu Metropolitano de Arte e considerado autêntico.
Desde que ressurgiu, o “Salvator Mundi” esteve envolvido em várias complexas e severas batalhas legais. A mais famosa aconteceu quando o trabalho incitou uma longa luta entre Rybolovlev e seu antigo assessor de arte, Yves Bouvier, que comprou o trabalho em 2013 de três concessionários em uma venda negociada pela Sotheby's “entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões", de acordo com um relatório do New York Times. Então, Bouvier supostamente vendeu para Rybolovlev por muito mais do que pagou.
"Como sabemos agora, em maio de 2013, Yves Bouvier adquiriu o Salvator Mundi de da Vinci por US$ 80 milhões", diz o porta-voz, acrescentando que o giro acrescentou "uma margem grotesca e não autorizada" de US $ 47,5 milhões. "Agora, o próximo leilão deste trabalho finalmente acabará com um capítulo muito doloroso para a família Rybolovlev".
A obra de Leonardo foi exibida por apenas duas horas na Chritie's e, em seguida, enviada para um tour mundial por Hong Kong, Sãn Francisco, e Londres, antes de retornar a Nova York em 15/11 para o leilão.
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Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17.

Vão a leilão 95 obras de arte do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira

As obras que pertenciam à coleção do ex-banqueiro haviam sido desviadas para a Europa e para os Estados Unidos e, com ajuda de procuradores a Justiça brasileira e a Interpol, decidiram a devolução de todas essas peças para serem leiloadas. Edemar construiu sua coleção de arte com recursos ilícitos, fruto de crimes financeiros e lavagem de dinheiro, e depois desviou uma parte das peças para o exterior de forma ilegal. Matéria de Silas Martí par ao jornal “Folha de São Paulo”, em 07/10/17. +

Noventa e cinco obras de arte que pertenciam à coleção do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira e haviam sido desviadas para a Europa e para os Estados Unidos serão devolvidas agora à massa falida do extinto Banco Santos para que sejam leiloadas.

Procuradores em Nova York e Boston, que trabalharam com a Justiça brasileira e a Interpol para determinar o paradeiro das obras, decidiram nesta semana pela devolução de todas essas peças.

De acordo com investigadores, Edemar construiu sua coleção de arte com recursos ilícitos, fruto de crimes financeiros e lavagem de dinheiro, e depois desviou uma parte das peças para o exterior de forma ilegal, tentando evitar que fossem confiscadas.

Segundo Vanio Aguiar, administrador da massa falida, as 95 peças valem cerca de US$ 4 milhões e serão leiloadas na Sotheby's, uma das maiores casas de leilão de Nova York, e os recursos revertidos para pagar credores.

Entre os trabalhos, está uma escultura de bronze do modernista britânico Henry Moore. Avaliada em US$ 1,5 milhão, essa é uma das obras mais valiosas do acervo do ex-banqueiro. Ela foi encontrada em agosto, em Paris, e depois enviada aos EUA.

Há ainda obras de brasileiros como Adriana Varejão, Jac Leirner e Vik Muniz, três dos nomes mais valorizados no mercado internacional, e peças de estrangeiros também disputadas em leilões, entre elas obras do indiano Anish Kapoor, da francesa Louise Bourgeois, do americano Man Ray, do húngaro Laszlo Moholy-Nagy e do modernista mexicano Rufino Tamayo.

"Essas obras foram usadas para mascarar um audacioso esquema criminoso de Edemar Cid Ferreira", afirmou o procurador Joon Kim, de um distrito de Manhattan. "Graças aos nossos esforços, elas serão devolvidas a seus proprietários de direito, a massa falida do banco de Ferreira."

Esse conjunto parece ser o último lote de obras que ainda faltava voltar ao controle da massa falida. As obras devolvidas agora, no caso, estavam espalhadas pelos EUA e também pela Europa, em galpões na Holanda, na França e na Suíça, mas foi reunido em Nova York pelos investigadores para que pudessem ser repatriadas ou vendidas.

Há dois anos, duas peças importantes de Edemar que estavam nos EUA, uma tela de Jean-Michel Basquiat avaliada em até US$ 12 milhões e uma escultura de US$ 900 mil, foram entregues aos gestores da dívida do banco.

Em novembro de 2016, um leilão das obras do banqueiro que estavam em sua casa no Morumbi arrecadou R$ 11,8 milhões. Há outras 600 peças avaliadas em R$ 6 milhões sob a guarda do Museu de Arte Contemporânea da USP e que serão vendidas.

No total, R$ 103 milhões já foram arrecadados pela massa falida com a venda de obras de arte de Edemar.

ROMBO

O Banco Santos quebrou em 2005, deixando um rombo de R$ 3,4 bilhões. Edemar foi condenado por crimes financeiros e lavagem de dinheiro, mas a sentença foi anulada por erros processuais, porque advogados de outros réus não puderam fazer perguntas ao ex-banqueiro.

Quando soube da decisão da Justiça americana de entregar as últimas 95 obras, Edemar disse que concorda que elas sejam vendidas para pagar credores do Banco Santos, mas critica o fato de a apreensão delas ser determinada por uma decisão judicial anulada.

"Meu negócio é pagar os credores", disse o ex-banqueiro. "Não vou brigar para reaver essas obras. Elas pertencem aos credores. Não tem problema. O que não pode é usar uma ação criminal anulada como base para isso."

Ele também negou que essas peças tenham sido compradas com recursos ilícitos e que foram desviadas de maneira ilegal para o exterior.

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Matéria de Silas Martí para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 07/10/17.

Guerrilla Girls tomam o Masp e denunciam sexismo

Entre cartazes de toda a carreira do coletivo americano, o cartaz original do Metropolitan, atualizado para a mostra do Masp, faz a mesma pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? No Masp, apenas 6% dos artistas em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos. Vestidas com máscaras de gorilas, as três das integrantes mostram que o sexismo domina o circuito das artes e intera “É o velho preconceito de ver o homem como gênio criador e a mulher como musa”. Matéria de Antonio Gonçalves Filho par ao jornal “O Estado de S. Paulo”, 28/09/17. +

O cartaz publicado abaixo, de 1989, o mais conhecido da história do coletivo Guerrilla Girls, foi atualizado para a mostra Guerrilla Girls Gráfica – 1985-2017, que o Masp abre hoje, 28, às 20 horas, para convidados, e amanhã para o público. No cartaz original, que mostra uma segunda versão (ca. 1824/30) da Grande Odalisca de Ingres com cabeça de gorila, elas criticavam o Metropolitan de Nova York por ter menos de 5% de artistas mulheres no acervo, sendo 85% dos nus femininos. E perguntavam: “Mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan?” Essa história de militância feminista remonta a 1985, quando as Guerrilla Girls criticaram o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York por montar uma exposição com 165 artistas, dos quais só 13 eram mulheres. Nascia nesse protesto o coletivo de artistas mulheres que há 32 anos inferniza a vida de curadores, diretores de museus e colecionadores, denunciando o chauvinismo no mundo da arte.

O cartaz original do Metropolitan, atualizado para a mostra do Masp, faz a mesma pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? E mostra números não muito diferentes do Metropolitan: no Masp, apenas 6% dos artistas em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos. Vestidas com máscaras de gorilas, três das integrantes do coletivo Guerrilla Girls receberam a reportagem do Estadão para confirmar que o sexismo domina o circuito das artes e falar de sua missão artística. “Combatemos a discriminação e defendemos os direitos humanos”, sintetizam as garotas guerrilheiras, que jamais revelam a identidade e até nas entrevistas usam o disfarce de gorilas.

“Nós fomos as Gorilla Girls antes de ser Guerrilla Girls por lapso de uma redatora, que confundiu os nomes gorilla e guerrilla”, diz uma delas, concluindo: “Foi um erro iluminador, pois sugeriu o uso das máscaras de gorilas, disfarces que nos dão maior liberdade de expressão”. As gorilas guerrilheiras já assinaram centenas de projetos e participaram de mostras importantes como a Bienal de Veneza, sempre criticando as instituições que as convidam. Faz parte do show. Na exposição do Masp, um dos 117 cartazes que elas exibem foi feito para a bienal italiana, em 2005. Ele replica uma cena do filme La Dolce Vita, de Fellini, em que Marcello Mastroianni cavalga uma loira numa festa, comentada pelo seguinte texto: “Onde estão as mulheres de Veneza? Abaixo dos homens”. E confirmavam com números: 91% dos expositores eram homens, isso um século após a criação da Bienal italiana, em 1895, em que apenas 2,4% dos artistas eram mulheres.

A quem imputar a culpa pela discriminação das mulheres no mundo da arte? A resposta das guerrilheiras: aos homens ricos e brancos. São eles que sustentam os museus com doações em dinheiro e obras de arte. Resultado: museus não mais servem ao propósito de documentar a história da arte, mas a história do poder e do dinheiro – e elas demonstraram, em 1989, que o valor pago por uma tela de Jasper Johns (US$ 17,7 milhões) poderia comprar obras de 67 mulheres artistas consagradas, entre elas Diane Arbus, Dorothea Lange, Frida Kahlo e Georgia O’Keefe. “É o velho preconceito de ver o homem como gênio criador e a mulher como musa”, comenta uma das garotas.

O coletivo de mulheres ampliou o foco, incluindo em seus projetos guerrilheiros outros grupos discriminados (gays, negros, transexuais), como mostram os cartazes expostos no Masp. Um deles, irônico, prova que até o Senado americano é mais progressista do que Hollywood: no Senado, 75% dos homens são brancos; em Hollywood, 94% dos cineastas são igualmente caucasianos. Politizadas, as “gorilas” também assinam um cartaz (de 2016) em que trocam as datas cívicas dos EUA no governo Trump por: Mês da Ku Klux Klan; Mês da Deportação, etc. “Trump levou o otimismo que a América tinha com Obama”, comenta uma das ativistas. E no resto do mundo? “As pessoas dizem que há mais mulheres dirigindo instituições como a Tate ou galerias de arte, mas esse desequilíbrio é sistêmico, pois tanto nos museus como nas galerias os homens ainda dominam.” É só fazer o levantamento (e elas são boas nisso): a coleção permanente da Tate Modern tem 959 artistas homens. E só 335 mulheres.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho par ao jornal “O Estado de S. Paulo”, 28/09/17.

Artistas acusam prefeitura do RJ de censura a evento

Em meio à polêmica do veto à vinda da exposição “Queermuseu” para o Rio, um novo episódio deixou em alerta artistas da cidade. Prevista para ser inaugurada ontem no Castelinho do Flamengo, na Zona Sul da cidade, a quarta edição do evento “Curto-circuito” reuniria cerca de 50 artistas, performances e duas peças teatrais. Mas tanto os artistas quanto o público que foi para o espaço ontem para assistir ao primeiro espetáculo, “Bicha oca”, encontraram os portões fechados. A justificativa da administração era de uma pane elétrica — um cartaz colado no portão informava que o local “está com a visitação suspensa”. Artigo de Nelson Gobbi para o jornal "O Globo" +

Em meio à polêmica do veto à vinda da exposição “Queermuseu” para o Rio, um novo episódio deixou em alerta artistas da cidade. Prevista para ser inaugurada ontem no Castelinho do Flamengo, na Zona Sul da cidade, a quarta edição do evento “Curto-circuito” reuniria cerca de 50 artistas, performances e duas peças teatrais. Mas tanto os artistas quanto o público que foi para o espaço ontem para assistir ao primeiro espetáculo, “Bicha oca”, encontraram os portões fechados. A justificativa da administração era de uma pane elétrica — um cartaz colado no portão informava que o local “está com a visitação suspensa”.

Julie Brasil, uma das artistas da mostra coletiva, acusa a prefeitura de censura.

— Todas as obras haviam sido aprovadas, mas, durante a montagem, começou a circular a possibilidade de censura, e dois trabalhos foram retirados. Hoje eu fui ao Castelinho do Flamengo para ver minha obra, que é cinética, e dei com os portões fechados. Lá dentro, outras obras tinham sido retiradas, e depois nos disseram que havia uma pane elétrica e que a exposição estava suspensa até segunda ordem — acusa a artista, autora da obra “Após a chacina, doamos os órgãos dos nossos filhos”. — Mas os computadores estavam funcionando normalmente, e as luzes dos andares superiores estavam acesas no início da noite.

“OUTUBRO DA DIVERSIDADE”

O Coletivo FLSH afirmou que teve retiradas das paredes as fotos de “nus que expressam a diversidade entre os corpos, valorizando suas singularidades” e que aguarda ainda “posicionamento da prefeitura para esclarecer a situação, inclusive sobre o paradeiro das obras de arte”.

— Isso é ainda mais grave porque estamos incluídos no “Outubro da diversidade”, programação temática criada pela Secretaria de Cultura. Que diversidade é essa que está sujeita a uma censura moral? — questiona Julie.

A Secretaria Municipal de Cultura rebate as acusações dos artistas, reforçando a informação da pane elétrica e que a programação do Castelinho está mantida e será retomada assim que um laudo técnico for finalizado. A SMC informa ainda que as obras da exposição estão devidamente guardadas no interior do prédio e toda a programação do “Outubro da diversidade” segue em 16 equipamentos da prefeitura, sem que nenhuma outra ocorrência tenha sido notificada.
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Artigo de Nelson Gobbi para o jornal "O Globo"

Polêmica chega ao MINC

Em uma semana em que os debates sobre os limites da arte se tornaram mais acalorados e saíram da esfera dos museus para a política, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, atirou mais lenha à fogueira. O ministro incluiu um artigo na minuta da regulamentação da Lei Rouanet, que veta a apresentação de propostas que “vilipendiem a fé religiosa, promovam a sexualização precoce de crianças e adolescentes ou façam apologia a crimes ou atividades criminosas”. Artigo de Nelson Gobbi e Alessandro Giannini para o jornal "O Globo". +

Em uma semana em que os debates sobre os limites da arte se tornaram mais acalorados e saíram da esfera dos museus para a política, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, atirou mais lenha à fogueira. Conforme adiantou ontem a coluna de Ancelmo Gois, no GLOBO, o ministro incluiu um artigo na minuta da regulamentação da Lei Rouanet, que veta a apresentação de propostas que “vilipendiem a fé religiosa, promovam a sexualização precoce de crianças e adolescentes ou façam apologia a crimes ou atividades criminosas”. Para representantes de diferentes áreas do setor, a inclusão do artigo na lei abre um perigoso precedente para a censura.
— Achei que vivêssemos em um Estado laico, mas o Brasil se torna cada vez mais acanhado. Estamos presenciando uma espécie de ditadura coletiva, muito próxima do que foi o início do nazismo. A Alemanha dos anos 1930 também utilizou a publicidade para criar um estado de histeria coletiva, para conduzir as pessoas para um sentimento fanático — protesta o artista visual Ernesto Neto. — Este tipo de censura vai inibir a criação e a imaginação, e qualquer produção depende disso para existir. É triste ver um país com tamanha riqueza que abre mão de suas referências multiculturais para se manter ligado apenas às europeias, e de uma Europa que nem se reconhece mais.
Para Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro (APTR), a medida parece “censura travestida de legalidade”:
— Tudo depende do ponto de vista. Fazer uma peça em que Jesus Cristo é travesti é vilipendiar a fé religiosa? Se a novela da Gloria Perez for transcrita para o palco, isso vai configurar apologia ao crime? Uma obra de arte não pode ter esse tipo de amarra. Nossos projetos são avaliados por técnicos. Com uma recomendação dessas vai ser difícil aprovar qualquer coisa. O único acesso que temos a fomento de cultura é pela Lei Rouanet. Vamos ter que ir à Justiça?
O ministro também se envolveu em outra polêmica: em vídeo publicado ontem pela repórter Juliana Braga, da coluna de Lauro Jardim, do GLOBO, Sá Leitão comenta, numa reunião com a bancada evangélica da Câmara dos Deputados, organizada pelo deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que, no seu entender, a performance “La bête”, no MAM-SP — na qual uma criança acompanhada da mãe tocou nas mãos e pés do coreógrafo Wagner Schwartz, nu — “apresenta um claro descumprimento do que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente”. Sá Leitão também falou da exposição “Queermuseu”, suspensa em Porto Alegre, ao defender a necessidade da classificação indicativa em eventos de artes visuais. O ministro, que admitiu não ter visto a mostra e somente ter tido acesso a imagens isoladas, disse que não havia formado juízo sobre seu conteúdo, mas que “cabe às pessoas que, porventura, tenham se sentido ofendidas que recorram à Justiça, e a Justiça que se pronuncie”.
— É uma posição muito infeliz. Ainda que ele a coloque como uma opinião pessoal, dita pelo ministro da Cultura tem outro peso. Ele está fazendo um juízo de valor sobre uma exposição que não viu, fazendo coro a esta cruzada moralista. Abre um precedente perigoso — critica Gaudêncio Fidélis, curador de “Queermuseu”.

JUDICIALIZAÇÃO DA ARTE

Para o jurista e professor Lenio Streck, a sugestão do ministro agrava o processo de judicialização da arte, que resulta em episódios como o da peça “O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, com a atriz trans Renata Carvalho no papel de Jesus, impedida de ser apresentado no Sesc de Jundiaí (SP), em 15 de setembro.
— Há uma espécie de colonização do cotidiano pela Justiça. Estamos criando cidadãos de segunda classe, tutelados pelo estado. Há uma subjetividade na arte que não cabe ser avaliada pela Justiça, o bom ou mau gosto não está previsto em lei. Essa interpretação, em última instância, acaba sendo feita por quem julga o caso. Depende da subjetividade do magistrado.
Procurado pela reportagem, Sérgio Sá Leitão não se pronunciou para entrevista até a conclusão desta edição. À coluna de Ancelmo Gois o ministro enviou nota ressaltando que o Código Penal já considera crime o que foi destacado no artigo: “O que eu combinei com a bancada cristã é que, como estes temas já são configurados como crime, vamos reproduzir, sem uma vírgula a mais ou menos, na normatização da Lei Rouanet estes artigos do Código Penal”. Sobre o vídeo da reunião, enviou nota à coluna de Lauro Jardim afirmando ter manifestado opinião “sobre este assunto enfatizando que foi em caráter pessoal, pois não sou juiz, jurista ou membro do Ministério Público; nem psicólogo” e que a “interação física de uma criança com um adulto nu que não é seu pai ou mãe, por indução direta da mãe, na frente de dezenas de pessoas, independentemente do contexto específico, configura uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento em maior ou menor grau dos artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente”.
Em meio ao clima hostil, um protesto com cerca de 30 pessoas no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, que sedia a mostra “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, com obras de Pedro Moraleida (1977-1999), levou medo a frequentadores. O ato foi encabeçado pelo deputado estadual João Leite (PSDB), derrotado na última eleição para prefeitura da cidade.
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Artigo de Nelson Gobbi e Alessandro Giannini para o jornal "O Globo".

Entre deputados, ministro da Cultura diz que MAM descumpriu lei

Sérgio Sá Leitão afirmou durante reunião com deputado e tesoureiro da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que na performance a interação de uma criança com um adulto nu por indução direta da mãe "configura como uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento dos artigos do ECA." Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 05/10/17. +

"Houve um claro descumprimento no que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente", disse o ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão sobre a interação entre criança e um artista nu no MAM-SP (Museu de Arte Moderna) durante a performance de "La Bête" na última terça-feira (26/09). A obra gerou protestos inflamados contra a instituição.

A afirmação do ministro ocorreu durante uma reunião, realizada nesta quarta-feira (4/10), com o deputado e tesoureiro da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). O vídeo foi divulgado pela revista "Veja".

Em certo momento do encontro, o deputado indaga o ministro se o ocorrido no MAM pode ser considerado crime. Sá Leitão, no entanto, desvia da pergunta e afirma que "cabe às pessoas que eventualmente tenham se sentido prejudicadas recorram à Justiça."

Procurado pela Folha, o ministro afirma que a interação física de uma criança com um adulto nu por indução direta da mãe, "configura como uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento dos artigos do ECA."

O ministro avalia que uma criança não tem capacidade de compreender plenamente que a situação se trata de uma performance.

"O corpo naquele contexto é uma simulação não erótica de um objeto artístico interativo criado antes dela nascer por uma artista que ela provavelmente não conhece — embora em boa parte das situações da vida contemporânea o corpo nu seja socialmente sexualizado", afirma.

RUMO ÀS TREVAS

Em setembro, em entrevista à Folha, Leitão ponderou que os protestos que ocorreram contra a mostra "Queermuseu" são próprios da democracia. Entretanto, ele ponderou, quando manifestações artísticas são impedidas de acontecer, isso poderia culminar em um "caminho rumo às trevas".
Na ocasião, o ministro afirmou que as obras presentes no evento são "fortes e contundente" e qualificou os recentes episódios que levaram ao fechamento da exposição "Queermuseu" como interpretação "medíocre e lamentável" das artes.

Ele disse ainda que impedimentos, como no caso do "Queermuseu", poderiam ser evitados com um projeto de lei que implantasse classificação indicativa para exposições, como ocorre no cinema.
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 05/10/17.

Queermuseu, vinda, veto e volta

Um movimento de artistas articula o financiamento da remontagem da coletiva Queermuseu em um dos equipamentos culturais cariocas, como Escola de Artes Visuais do Parque Lage ou no Galpão Bela Maré. Uma reunião foi agendada pela produtora Paula Lavigne, a fim de estudar propostas para arrecadar fundos para trazer a mostra ao Rio. Matéria publicada originalmente no portal da revista DasArtes, em 05/10/17. +

“Queermuseu”, a exposição mais polêmica dos últimos anos, estava prevista para vir a cidade do Rio de Janeiro, no Museu de Arte do Rio (MAR), provocando reações entusiásticas e negativas ao mesmo tempo.

Em poucos dias, uma reviravolta.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), prometeu no último domingo que não iria permitir a chegada da exposição à cidade, e cumpriu. O Museu de Arte do Rio (MAR), que procurava um acordo com o curador da mostra, censurada em Porto Alegre após uma onda de ataques conservadores, encerrou as negociações para trazer a exposição aos cariocas.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, questiona cinco pessoas se querem uma “exposição de pedofilia e zoofilia”. Todas, obviamente, respondem negativamente. Em tom de deboche, Crivella disse: “Saiu no jornal que vai ser no MAR. Só se for no fundo do mar”. Após o anúncio, segundo o jornal O Globo, o prefeito encomendou à secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, que estudasse como impedir a exposição. “A população do Rio de Janeiro não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia”, disse Crivella em declarações recolhidas pelo jornal. Questionado como a Prefeitura teria poder de vetar a mostra, ele respondeu: “O povo do Rio de Janeiro tem”.

“Diante do exposto, lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de “Queermuseu”, disse uma nota publicada pelo museu.

Ainda segundo o jornal O Globo, um dia depois do MAR desistir de montar a exposição “Queermuseu”, posição definida na reunião do Conselho Municipal do Museu de Arte do Rio (Conmar) após a oposição do prefeito, a mostra interrompida no Santander Cultural, em Porto Alegre, pode ter nova chance de vir para o Rio. Um movimento de artistas articula o financiamento da remontagem da coletiva em um dos equipamentos culturais cariocas — Fabio Szwarcwald, diretor-presidente do Parque Lage, manifestou interesse em receber a mostra na Escola de Artes Visuais, posição reforçada ontem pelo secretário estadual de Cultura, André Lazaroni. Uma reunião foi agendada hoje pela produtora Paula Lavigne, a fim de estudar propostas para arrecadar fundos para trazer a mostra ao Rio e para uma campanha de conscientização contra a difamação de manifestações artísticas e de seus autores.

— Para montar a exposição no Rio precisaríamos de algo em torno de R$ 300 mil, é uma quantia possível com a doação de obras de alguns artistas. É totalmente viável montar a exposição em outro museu ou centro cultural, já que o prefeito proibiu sua realização no MAR. Poderia ser no Parque Lage ou no Galpão Bela Maré, por exemplo — aponta Paula. — As diretrizes que precisamos definir são em relação a uma campanha para informar a população sobre o valor destas obras de arte, que estão sendo criminosamente deturpadas por razões políticas.

Para a produtora, o momento é de reação da classe artística contra um movimento conservador, encabeçado pela classe política.
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Matéria publicada originalmente no portal da revista Das Artes (www.dasartes.com.br), em 05/10/17.