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Obra renascentista de Vasari é restaurada 50 após enchente em Florença

Em novembro de 1966, devido a fortes chuvas, o Rio Arno transbordou, deixando cem pessoas mortas e 1.500 obras de arte danificadas, entre elas “A Última Ceia”, de Giorgio Vasari, pintura monumental de 1546, um dos ícones do Renascimento. Passados 50 anos da tragédia, graças ao avanço tecnológico, o trabalho finalmente foi restaurado. +

Em novembro de 1966, devido a fortes chuvas, o Rio Arno, em Florença, transbordou. A enchente devastou a cidade, deixando cem pessoas mortas e 1.500 obras de arte danificadas, muitas delas perdidas para sempre. Uma das que sofreram danos foi a “Santa Ceia”, de Giorgio Vasari, uma pintura monumental de 1546, considerada um dos ícones do Renascimento. Passados 50 anos da tragédia, graças ao avanço tecnológico, o trabalho deixou o depósito em que permaneceu guardado por quatro décadas, foi restaurado e retornou ao local para o qual foi criada, o antigo refeitório da basílica de Santa Croce. A inauguração pública da obra restaurada ocorreu em 04/11/16.
O restauro foi iniciado em 2004, pelo Opificio delle Pietre Dure, em Florença, com patrocínio de Prada, Getty Foundation, o Ministério dos Bens e Atividades Culturais e de Turismo e o departamento de Proteção Civil. A obra ficou 50 anos sem restauro pois o trabalho era considerado impossível de ser realizado, por conta de dificuldades técnicas.
A pintura foi realizada em cinco painéis de madeira em 1546 no monastério beneditino Murate, onde hoje fica a Via Ghibellina. Em 1808, o monastério foi fechado e a obra foi transferida para o convento de San Marco. Em 1815, foi transferida de novo, desta vez para a capela Castellani, na basílica de Santa Croce.
Em 1880, com a ideia de transformar o antigo refeitório da igreja em museu, a obra foi movida para o local. Com a ampliação do museu, entre 1959 e 1962, a pintura foi alocada em uma nova sala, na qual foi danificada com a enchente de 1966. Depois disso, passou quatro décadas em um depósito, junto a várias outras obras danificadas pela inundação.
Em 2013 e 2014, várias obras de arte do museu da igreja foram posicionadas em locais altos em um anexo da basílica, uma forma de proteção contra novas eventuais inundações. Desta forma, obras como o “Crucifixo”, de Cimabue, foram reinstaladas por meio de um sistema de engrenagens e correias que permitem que uma só pessoa eleve todas elas em dois minutos. Para “A Última Ceia”, no entanto, foi desenvolvido um sistema mecânico especial que permite a elevação da obra quando necessário. Em 2011, o museu de Santa Croce e outras instituições culturais assinaram um protocolo tem em vista manter a segurança de obras de arte.
O refeitório da basílica foi erguido no século 14. No início do século 19, foi transformado em depósito. Em 1900, foi restaurado e virou local de exposição de obras pertencentes à igreja. Até que veio a enchente de 1966, danificando inúmeras obras. O Museo di Santa Croce foi considerado o "epicentro do desastre". Desde então, o Opificio delle Pietre Dure e o poder público de Florença trabalham no restauro das obras, tendo já recuperado uma série delas.
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Na imagem acima, o antes e o depois do restauro.

Catálogo raisonné de Leonilson, morto em 1993, deve sair em 2016

A publicação tem curadoria de Ricardo Resende, produção da Base7 e edição da Cosac Naify. São três volumes: os dois primeiros com reproduções das obras e o segundo com uma reunião dos principais textos críticos e jornalísticos publicados sobre o artista. +

Morto dois meses antes de completar 36 anos, de complicações advindas da Aids, o artista cearense José Leonilson (1957-1993) é, hoje, um dos artistas brasileiros contemporâneos de maior presença nos museus internacionais. Sua obra está presente no MoMA de Nova York, no Centre Pompidou de Paris e na Tate Modern de Londres, ultrapassando o impressionante número de 4 mil obras, segundo Ricardo Resende, curador do Museu Bispo do Rosário e responsável pela catalogação de sua obra, agora no estágio final. No segundo semestre do próximo ano, o catálogo raisonné de Leonilson será finalmente lançado, após 20 anos de pesquisas do projeto que leva seu nome.
Criado por um grupo de familiares e amigos em 1995, para pesquisar, divulgar e catalogar sua obra, o Projeto Leonilson já tem quase 3 mil imagens digitalizadas dos trabalhos do artista, que vai ganhar um catálogo dividido em três volumes – os dois primeiros com reproduções das obras levantadas até a data da publicação e o segundo com uma reunião dos principais textos críticos e jornalísticos publicados sobre ele.
Com curadoria de Ricardo Resende, produção da Base7 e edição da Cosac Naify, a publicação, bilíngue, tem o patrocínio direto da Fundação Edson Queiroz, sem recorrer às leis de incentivo. Poucas obras do artista integram o acervo da instituição, que mantém o Espaço Cultural Unifor, um andar inteiro de exposição permanente na Universidade de Fortaleza. Na cidade cearense, o museu que abriga parte da produção inicial de Leonilson é o Dragão do Mar.
Leonilson deixou cedo o Ceará. Veio com a família ainda garoto para São Paulo, estudou artes plásticas na Faap, mas não concluiu o curso. Isso não impediu que, antes dos 30 anos, já fosse um artista conhecido no meio paulistano por sua originalidade e, principalmente, pela coragem de expor publicamente sua vida pessoal nos trabalhos. Muito ligado aos quatro irmãos, Leonilson aprendeu a bordar com a mãe, dona Carmem, hoje com 87 anos, recorrendo à técnica artesanal para realizar obras que, a despeito dos temas densos – entre eles, os efeitos da devastação da Aids e o sofrimento de sua geração – são de uma delicadeza extrema.
Leonilson escrevia em desenhos e bordava letras ao lado de figuras, como se escrevesse um diário destinado às gerações futuras. Mais precisamente nos últimos quatro anos de vida, a palavra passa a ser usada não como apêndice, e sim como elemento formal que rivaliza em beleza com o próprio desenho. Ambos se tornam elementos indissociáveis.
Ana Lenice, psicóloga, irmã do artista e presidente do Projeto Leonilson, tem no acervo familiar vários poemas e reflexões suas, mas fica em dúvida se deve ou não publicá-los. “Li num de seus cadernos que ele detestaria ser escritor, que jamais publicaria um texto, e acho que devemos respeitar sua vontade”. Ela não descarta, porém, a ideia de aproveitar parte desse material. “Muitas vezes ele fazia esboços dos trabalhos em cadernos, inclusive os bordados, que minha mãe, excelente bordadeira, via com olhar crítico”. Dona Carmem, claro, atentava para a execução, sem entender, provavelmente, que os “erros” – tanto de ortografia como de alinhamento – eram deliberados. Leonilson traduzia, enfim, o malogro da tentativa de ser perfeito ou incorporar um ofício culturalmente ligado às mulheres. Nesse sentido, a ambiguidade é um dos traços que identificam a obra autobiográfica de Leonilson.
Os trabalhos mais “reveladores” de Leonilson são também os mais “misteriosos”. Ainda que pareça paradoxal, grande parte da obra do artista é propositalmente ambígua, pois não “entrega” diretamente a verdade, como o próprio artista admitia. A obra reproduzida nesta página (na foto acima) traz, por exemplo, o coração como figura dominante. Aparentemente, o uso do signo sugere uma vocação jocosa para o camp, um comentário sobre a representação do órgão como sinônimo romântico da paixão, mas Leonilson, certamente, não era cínico. Ainda que recorra a uma metonímia, trocando sua paixão por um objeto simbolizado, Leonilson acreditava na materialização de um sentimento por meio do gesto expressivo – seja um bordado ou uma pincelada. Sua poética, no entanto, vai na contramão da pintura expansiva, neoexpressionista, que emergia na época de suas primeiras exposições, na década de 1980.
“Leonilson faz um voo solo entre os artistas da chamada Geração 80”, observa o curador do catálogo, Ricardo Resende. Com isso ele quer diz que, avesso aos gestos expansivos, extrovertidos, dos pintores marcados pela influência dos pós-modernos italianos ou dos “novos selvagens” alemães – figuras dominantes na época do retorno à pintura, nos anos 1980, como uma resposta à ditadura conceitual dos anos 1970 –, Leonilson “enveredou por outras formas de expressão”. Intimistas, seus pequenos bordados, que lembram os das antigas civilizações do Eufrates, por vezes assumem uma dimensão liliputiana, quase um pentimento, em que um ponto se sobrepõe a outro como um desenho camuflado, enigmático.
Parte dessa obra estará disponível para visualização ainda este ano no site do Projeto Leonilson. Para o primeiro semestre do próximo ano está previsto um seminário com especialistas em sua obra para definir o que, afinal, é esboço ou trabalho final em sua produção. Antes disso, ainda este ano, deve estrear “A Paixão de JL”, de Carlos Nader, filme vencedor do festival “É Tudo Verdade”, que foi baseado nas fitas gravadas pelo artista nos últimos três anos de vida. Também será realizada em Fortaleza, em 2016, no Espaço Cultural Unifor, uma exposição com obras suas.
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Texto de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” | 29/06/15.

Leilão da coleção de arte de David Bowie arrecada US$ 41,5 milhões

Sotheby's vendeu 356 peças do acervo do cantor morto em janeiro. O quadro “Air Power”, de Basquiat, foi a peça mais cara leiloada. +

O leilão da coleção de arte do cantor britânico David Bowie, com peças assinadas por Jean-Michel Basquiat ou Damien Hirst, arrecadou 33 milhões de libras (US$ 41,5 milhões) em Londres, anunciou a casa de leilões Sotheby's.
Mais de 1.750 pessoas assistiram às três sessões organizadas na quinta e sexta-feira e que foram acompanhadas on-line por mais de 26.500 internautas.
Antes do leilão, 51.470 pessoas visitaram, entre julho e novembro, a exposição consagrada ao catálogo, um verdadeiro recorde para esse tipo de acontecimento em Londres. No total, 356 peças foram vendidas.
O recorde foi alcançado por "Air Power" (1984), um quadro do nova-iorquino Jean-Michel Basquiat, que obteve 7,09 milhões de libras, quando era avaliado entre 2,5 e 3,5 milhões de libras.
O total das vendas fará parte do inventário que beneficiará os herdeiros de Bowie. O astro morreu em janeiro passado, aos 69 anos, em Nova York.
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Texto originalmente publicado no G1 (http://g1.globo.com) | 12/11/16.

Pintura de Basquiat é destaque de leilão da coleção de David Bowie

A tela "Air Power" (1984), de Jean-Michel Basquiat, deve bater os £ 3,5 milhões (US$ 4,3 milhões). +

Pertences do superstar David Bowie vão a leilão em 10/11/16 na Sotheby’s de Londres, com destaque para a tela "Air Power" (1984), de Jean-Michel Basquiat, que deve bater os £ 3,5 milhões (US$ 4,3 milhões), obra exibida apenas três vezes ao público e lote mais valioso do pregão. Ela já foi duas outras vezes a leilão. O sobe e desce do preço pode oferecer uma lição sobre deter trabalhos tão valiosos.
Em novembro de 1989, ano da morte por overdose de drogas de Basquiat, "Air Power" foi vendida por US$ 350.900 na Christie’s de Nova York. Das 101 obras do artista que foram a leilão naquele ano, apenas três foram vendidas por preços superiores. O mais alto foi para a pintura "Arroz con Pollo", US$ 484 mil, batendo à época o recorde do artista em leilões, na Christie’s. Bowie compraria "Air Power" seis anos depois na Christie’s de Londres pela barganha de US$ 132.134; corrigido pela inflação, o preço hoje seria em torno de US$ 208.800.
"O tempo é um grande amigo quando você compra trabalhos incríveis", afirma Grégoire Billault, chefe de arte contemporânea da Sotheby’s. "Com certeza podem parecer caras no dia em que você as compra e quando é o único a dar lances". O sobre e desce de preço é resultado da grande especulação imediatamente após a morte de artistas, aponta Billault.
Basquiat era um jovem superstar que caiu nas graças de Andy Warhol, Madonna e Keith Haring. A morte trágica dele fortaleceu seu caráter místico. O mercado de arte em 1989 era vibrante, com as galerias do SoHo em ascensão. Havia muita gente com dinheiro para gastar. Mary Boone, galerista de Nova York que foi a primeira a vender "Air Power" em 1984, relembra que cada vez mais a arte se tornava popular entre os jovens negociantes de Wall Street. "Ter uma pintura era tão normal quanto ter um carro. Esse cenário era inédito", afirma Mary. No fim de 1990, o "The New York Times" questionava quando o boom do mercado de arte terminaria.
Ao ver uma imagem da obra, Mary fica assustada de novo com a qualidade do trabalho. "Isso é tudo o que você poderia querer". Ela destaca ainda que Basquiat estava em boa forma quando a realizou.
Bowie comprou a pintura um ano antes do lançamento do filme "Basquiat" (1996), de Julian Schnabel, no qual interpretou o artista da pop art Andy Warhol. A pintura mostra caras violentas e agressivas, sobre um fundo no qual se sobrepõe um vermelho intenso sobre diferentes tonalidades de marrom. "A figura retratada à esquerda é Bowie. A do centro é o próprio Basquiat", afirma Billault.
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Fonte: texto de Brian Boucher originalmente publicado no site "Artnet" (www.artnet.com) | 13/10/16.
Na foto, detalhe de "Air Power".

Uma olhada na coleção de arte de David Bowie

“A arte pode mudar a forma como eu sinto as manhãs”. +

“Arte foi, seriamente, a única coisa que eu sempre quis ter”, disse ao “The New York Times” em 1998 o legendário músico David Bowie, que morreu no dia 10/01/16, aos 69 anos. “Ela pode mudar a forma como eu sinto as manhãs”. Ele admirava a produção de Frank Auerbach, David Bomberg e Francis Picabia e apreciava o senso de humor de Marcel Duchamp, embora Bowie também dissesse: “Um outro lado meu pensa que ele fez o que fez porque não conseguia pintar".
Bowie manifestou o amor pela arte por meio da música. Em 1969, ele já reverenciava Georges Braque na letra de "Unwashed and Slightly Dazed". "Joe the Lion", lançada em 1977, faz um tributo ao performer Chris Burden. Em 1974, o design do cenário da turnê “Diamond Dogs” foi baseado, em parte, na produção do artista satírico alemão George Grosz.
O amor de Bowie pelas belas-artes é conhecido, mas isso gerou um certo exagero. “Na semana passada, fui procurado por uma revista para uma entrevista sobre minha coleção surrealista e pré-Rafael”, disse o músico em 2003, conforme reconta Nicholas Peg gem “The Complete David Bowie” (2011). "Isso foi uma novidade para mim".
"Sim, tenho Tintoretto e um pequeno Rubens… Mas a maior parte da minha coleção é de arte britânica do século 20 e não de artistas dos mais conhecidos", insistia Bowie.
"Eu optei por obras que pareciam ser uma saída importante ou interessante em um determinado momento, ou algo que tipificasse uma década, em vez de Hockney ou Freud ou qualquer outra coisa".
Entre os artistas britânicos preferidos dele, nomes como Graham Sutherland, William Tillier, Leon Kossoff e Stanley Spencer. Na coleção também figuram Gavin Turk e Gilbert & George.
Bowie também foi um mote artístico. Quando Paul McCartney perguntou se o músico se importava com o título de sua tela de 1990 “Bowie Spewing” (“Bowie Vomitando”), ele disse: "Claro que não. E que coincidência! Eu estou trabalhando atualmente em uma música que se chama 'A Merda de McCartney'", disse à revista belga “Humo”.
Um fator comum entre os artistas admirados por Bowie é a disposição em assumir riscos. "Desde uma idade precoce, sempre fui fascinado por aqueles que transgrediram a norma, que desafiaram a convenção, seja na pintura, na música e em qualquer coisa", afirmou Bowie à revista “Life” em 1992. "Aqueles eram os meus heróis", acrescentou, listando Duchamp e Salvador Dalí junto com Little Richard e John Lennon.
Além de colecionador, Bowie também foi pintor (frequentou escola de artes) e escritor (“Modern Painters”). A vida e carreira dele foram apresentadas na megaexposição "Davie Bowie Is...", inaugurada no Victoria & Albert Museum, em Londres, em 2013, antes de itinerar por Berlim, Chicago, Paris e São Paulo, entre outras cidades.
Apesar do sarcasmo que costuma rondar celebridades que enveredam pelas artes, Bowie recusava rótulos. “Eu estou determinado que se eu quiser pintar, fazer instalações ou moda, eu vou fazer", disse em 1996 ao “The Telegraph”.
Como Camille Paglia escreveu sobre Bowie em "Theater of Gender” (“Teatro de Gênero”), ensaio para o catálogo da mostra “David Bowie Is…”: “A música não foi a única modalidade pela qual ele expressou sua visão de mundo: ele foi um iconoclasta que foi também um criador de imagens".

Confira algumas das obras de arte de Bowie:

Peter Lanyon, “Inshore Fishing” (1952)
Bowie emprestou três telas do artista expressionista abstrato Peter Lanyon para a retrospectiva dele em 2010 na Tate St. Ives. A 21 Publishing, a editora de arte de Bowie, já havia lançado “Peter Lanyon: At the Edge of Landscape” em 2000.

Damien Hirst, “Beautiful, Shattering, Slashing, Violent, Pinky, Hacking, Sphincter Painting” (1995)
“Minha ideia de artista contemporâneo é o Damien Hirst", disse Bowie certa vez. Eles tornaram-se amigos e Bowie juntou-se ao artista plástico na criação de uma obra (“Beautiful Hallo Space-boy Painting”).

Peter Howson, “Croatian and Muslim” (1994)
Em 1994, Bowie adquiriu essa obra do escocês Peter Howson depois de o Imperial War Museum de Londres, que havia comissionado o trabalho, optar por não adquirí-lo por conta do tema brutal (dois homens raptando uma muçulmana e forçando a cabeça dela na privada).
"Essa obra mostra o que vem ocorrendo atualmente na Bósnia”, disse ao “Chicago Tribune” Angela Weight, curadora do museu, que votou a favor da permanência da obra, mas foi vencida. "Museus devem tomar decisões e não serem conservadores”.
Howson, artista de guerra oficial no Reino Unido à época, criou cerca de 200 pinturas e desenhos durante a guerra na Bósnia, que o deixou em estado de choque.
Bowie comprou a obra, que foi mostrada no museu em uma mostra de Howson sobre a guerra, por US$ 27 mil. O cantor descreveu a obra como "a mais evocadora e devastadora pintura" ao “The New York Times”.

William Nicholson, “Andalucian Homestead” (1935)
Bowie emprestou essa obra duas vezes na última década. A pintura à oleo esteve entre os 35 trabalhos da exposição do artista em 2011 na galeria Hazlitt Holland-Hibbert. Antes, atravessou o Atlântico em 2006 para a primeira mostra individual do artista nos Estados Unidos, na galeria Paul Kasmin, em Nova York.

Erich Heckel, “Roquairol” (1917)
Bowie também colecionou obras do artista expressionista alemão, além de ser fã do grupo Die Brücke e de Fritz Lang. A capa do álbum “Heroes” (na imagem acima), de 1977, é inspirada em “Roquairol”. “Essa obra me influenciou como pintor”, disse Bowie à revista “Uncut” em 1999.

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Texto de Sarah Cascone originalmente publicado, em inglês, no site ArtNet (www.artnet.com) | 12/01/16.
Tradução: Everaldo Fioravante.

32nd Bienal de São Paulo

Artigo de Dan Fox originalmente publicado na Frieze, em inglês. +

First impressions of the biennial which focuses on the uncertainty of today’s world

These days there are many people certain about how the world should run. Donald and his Trumps. The Brexit blowhards. The King Canutes of climate change, deluding themselves they can command global sea levels to drop. Their certainty festers in fear and resentment. Or, as W.B. Yeats put it: ‘The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity.’ The curators of the 32nd Bienal de São Paulo appear to be with Yeats, and have a long shopping list of doubts. Titling their exhibition ‘Incerteza Viva’ (Live Uncertainty), they hold that ‘in order to confront the big questions of our time objectively, such as global warming and its impact on our habitats, the extinction of species and the loss of biological and cultural diversity, rising economic and political instability, injustice in the distribution of the earth’s natural resources, global migration and the frightening spread of xenophobia, it is necessary to detail uncertainty from fear.’ I’m certainly worried sick just thinking about it.

Art is a field in which uncertainty is welcome. Ambiguity, chance, and improvisation are all valued qualities in the creative process. A willingness to stumble through the dark is vital for artists to make leaps of imagination, or develop idiosyncratic approaches to research. Even the simple choice to work in collaboration with other creative minds is a decision to embrace the unknown. Jochen Volz, together with co-curators Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen and Sofar Olascoaga, have put together an engaging, modest, polyphonic biennial that aims to map these principals onto politics and society. Like any leap into the unknown, it sometimes comes a cropper – there are passages in the show that evanesce into mystic abstraction, or would be more at home as didactic exhibits in a natural history museum – but ‘Incerteza Viva’ also stamps the mind with stark, indelible images of social upheaval and ecological brinksmanship. Featuring 84 artists and artist groups, largely from Latin America, it’s a biennial that avoids the usual marquee names, favouring younger or lesser-known participants. It’s a show in which you’ll see a lot of earth, fungi, insects, handmade objects, anthropological dabbling in rural areas or small towns. It’s a biennial for when the lights go out, the server farms crash, and your aluminium-cased laptop is good for nothing other than patching a leaky hole in the roof.

Even if this biennial worries itself with end-of-the-world undertones, it manages to avoid the political nostalgia trap that has made so many large exhibitions in recent years so interminable. You know the kind of show: vitrine after vitrine of archival photographs recording an ‘action’ in some German kunsthalle circa 1972, its insurgent significance explained to death by the curators with all the seditious excitement of taking Ambien in order to watch paint dry. Viewing shows such as those in the relative comfort of the West was always a queasy, self-congratulatory experience, even before financial meltdown, the refugee crisis and the rapidly accelerating demise of our planet. But today, the sense that political systems the world over are fucked has never – at least for Westerners from the northern hemisphere such as me – been so palpable. Biennials drenched in the terminology of ‘subversion’, ‘interrogation’, ‘revolution’, ‘boundary breaking’ and ‘rebellion’ but with none of the realpolitik, just look like play-acting when things start to actually get real – when you really can be beaten up for subversion or interrogated and thrown in jail because of your work. (Just look at the numbers of journalists and artists who have been arrested in Turkey following the recent failed coup.) The day before this year’s São Paulo Bienal opened, a reported 50,000 people marched through the streets of the city in protest at the impeachment of ex-president Dilma Rousseff and her replacement by the conservative Michel Temer. During the press preview of the show, in an act of collective protest organized by the group Opavivará, participating artists wore black-and-white T-shirts demanding Temer stand down and for elections to be held. Politics and the São Paulo Bienal have long been intertwined, but the politics are squeezing harder than ever before.

An extended review of the biennial will appear in the November/December issue of frieze. In the meantime, here are five of my highlights, given to you with the caveat that to be a critic, you’re always living with the uncertainty that any of your opinions will be worth anything at all:

Jonathas de Andrade, O peixe (The Fish) (2016)
‘Incerteza Viva’ features a number of works influenced by ethnographic documentary film, and depicting indigenous peoples. The ethics of this cinema have been contested for decades, and any artist taking it on today has to know what thorny debates about representation they’re getting themselves into. Jonathas De Andrade’s new film, O peixe (The Fish), is filmed in the state of Algoas, in the northeast of Brazil, and depicts local fishermen at work. He shows them catching the fish, then caressing them in their arms, gently stroking the creature’s scales as they asphyxiate. The images are disturbing, and the film’s atmosphere suggests that this is a traditional ritual, a primitivist fantasy of fishermen honouring the symbiotic relationship between humans and nature. Yet all is not as it seems, and De Andrade builds tension between those scenes that are pure documentary, and those in which a fiction is playing out, in which the erotic gaze of De Andrade’s camera ovewhelms the factual record of death.

Eduardo Navarro, Sound Mirror (2016)
A wooden stool is placed next to one of the tall glass walls in Oscar Niemeyer’s biennial pavilion. A brass tube, at roughly ear height if you’re sitting on the stool, snakes out through the window and flowers into a giant ear trumpet, or Victrola horn, pointing into the leaves of a tall palm tree. Speak to the tree or listen to it –you never know what you might learn.

Ruth Ewan, Back to the Fields (2015–16)
Many projects in this year’s biennial look to nature for models of survival and organization. (What could be more anthropocenic than plundering the natural world for ideas as well as resources?) In Back to the Fields, Ruth Ewan speculates how human agriculture might alter if we changed our systems of marking time. She takes the French Republican Calendar, imposed during the tumultuous revolutionary years in France from 1793 to 1805, and uses it to map out a year-long cycle, divided into four quarters, on wooden platforms. Each month – from Vendemiaire, at the autumn equinox (what we call September), through to Fructidor (mid-to-late August) – is divided into three ten-day weeks, and each day is assigned a plant or object, carefully catalogued and arranged by Ewan on the platforms. (The 5th of Thermidore, for instance, is a fearsome-looking ram’s skull.)

Back to the Fields looks a little like an occult game to be played in a gardening shop, but it’s a reminder of the arbitrary values we place on plants, animals and the passing of each day.

Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, Estás vendo coisas (You Are Seeing Things) (2016)
Estás vendo coisas (You Are Seeing Things) is shot in Recife, and depicts the making of videos for the city’s brega music scene. Wagner and De Burca’s film depicts a complex subculture: one that’s characterized by wild fashions, escapist dreams, and chauvinist attitudes. This portrait of a scene switches between fantasy and documentary, along the way suggesting how brega provides an identity for the performers, a respite from the economic realities of their lives in northeast Brazil.

Dineo Seshee Bopape, :indeed it may very well be the ________ itself (2016)
A set of dark, heavy, compressed soil blocks is arranged in loose groupings. Embedded in shallow depressions on top of the blocks – echoes of African Morabaraba and Diketo games – are gold leaves, flower petals, herbs, and ceramic casts made with a fist. It’s a simple yet affecting meditation on the occupation of land and displacement from it, of memory and earth, and the precarious relationship that communities have to the ground beneath our feet.

Also noted:

Lais Myrrha, Dois pesos, duas medidas (Double Standards), 2016 (you can’t miss them – two giant towers rising through the floors of the pavilion); Pierre Huyghe, De-Extinction, 2016, (without giving too much away, I’ll be curious to know how bad the fly problem gets inside the biennial pavilion during the course of the show); Hito Steyerl, Hell Yeah Fuck We Die, 2016 (features a soundtrack by Kassem Mosse, and wild footage of disaster relief robots in experimental development); Luiz Roque, HEAVEN, 2016 (an intriguing sci-fi short); Maryam Jafri, Product Recall: An Index of Innovation, 2014–15 (ever wondered what happened to Pepsi-Cola in bottles for babies? Now’s your chance); Vivian Caccuri, TabomBass, 2016 (a bass-heavy sound-system, developed out of research into the Brazilian diaspora to Ghana, and made in collaboration with musicians in Accra); Wilma Martins, works from the series ​Cotidiano (Everyday), 1983 (a quiet, elegant and disquietingly surreal set of paintings and drawings set in domestic environments: buffalo charging across the plains of a bedspread, for example, or a wild forest growing from the needle of a sewing machine); Wladimir Dias-Pino, Enciclopédia Visual Brasileira (Brazilian Visual Encyclopedia), 1970–2016 (an eye-popping selection of images by the 89-year old artist, poet, graphic designer and window dresser).

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Artigo de Dan Fox originalmente publicado na Frieze, em inglês | 06/09/16.

Bienal de São Paulo aborda barbárie com obras sutis

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo. +

Incerteza Viva, a 32ª edição da Bienal de São Paulo, com curadoria de Jochen Volz, Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen e Sofia Olascoaga, é uma exposição delicada em um momento de conflito. Essa condição é vista logo na entrada, onde está disposta a obra de Frans Krajcberg: troncos, raízes e pedaços de madeira calcinadas são transformados pelo artista em totens que lembram a destruição, mas são também estruturas de uma nova ordem possível.

Mesmo ao abordar questões dramáticas como racismo, catástrofes ambientais ou genocídio indígena, esta é uma Bienal silenciosa, que se percebe em atitudes discretas. Ao lado da obra de Krajcberg, Bené Fonteles constrói uma oca, um lugar de encontros e de diálogo, que contrasta com a escala fria e agigantada do pavilhão.

Lá, onde pequenos altares homenageiam outros artistas, como Rubem Valentim, e militantes sociais, como Davi Kopenawa, entre outros, uma programação semanal produzirá debates em pequena escala.
Logo à frente, o filme "O Peixe", de Jonathas de Andrade, apresenta pescadores que abraçam suas presas após capturá-las, construindo um ritual de ternura e solidariedade frente à morte.

Quando pessoas celebram publicamente que uma jovem que perde um olho por violência policial mereceria perder o outro, obras como "O Peixe" ganham poder de manifesto: não há vítima que não mereça solidariedade.

A necessidade do respeito se amplia na obra "Espelho de Som", de Eduardo Navarro, composta por um instrumento que sai do pavilhão para chegar até a copa de uma palmeira, apontando para a necessidade de escuta da natureza.

Assim, "Incerteza Viva" constitui-se como uma mostra que evita o espetáculo ao tratar da barbárie. A única obra agigantada é "Dois Pesos, Duas Medidas", de Lais Myrrha, composta por duas torres no vão central do pavilhão: uma de materiais orgânicos, outra de elementos de construção civil.

Novamente, contudo, uma obra da Bienal apresenta um encontro entre dois universos opostos, mas sem confronto.

Não se trata, no entanto, de uma Bienal pacificadora, mas de uma espécie de lente de aumento que busca revelar processos, como a projeção de luz branca sobre a rampa "White Museum", obra de Rosa Barba. Nela, percebe-se que produzir imagens pode ser hoje um ato desnecessário: é preciso apenas iluminar por onde se caminha.

Essa sutileza em se aproximar de questões cotidianas se repete ao longo da mostra. Há a apologia ao lazer quando o trabalho domina todas as relações no poético filme "Gozolândia", de Priscila Fernandes, que retrata os frequentadores do parque Ibirapuera.

Há também a ironia do hilário "Uma História do Humor", de Gabriel Abrantes, filme que trata do amor de uma índia com um robô sem corpo.

Mesmo ao abordar a violência de Estado, Ebony G. Patterson cria tapetes multicoloridos e brilhantes, que apenas quando observados atentamente revelam cenas de opressão social.

Discretas também são as obras de Pierre Huyghe e Francis Alÿs. O primeiro exibe um filme com imagens microscópicas de insetos presos há milhões de anos em um pedaço de âmbar e uma sala contigua com centenas de moscas, contrapondo passado e futuro.

Já Alÿs apresenta pequenas pinturas expostas em paredes envidraçadas, já que há imagens em ambos os lados das telas, e uma animação desses jogos recorrentes no centro da cidade, com três copos e uma bola.
Aí, novamente surge a imagem de pequenos gestos, tão recorrentes ao longo da mostra. Mesmo que na abertura da Bienal artistas tenham se manifestado contra o golpe, suas obras se apresentam menos militantes, mas não por isso menos sensíveis a processos de desmonte social.

Contudo, para uma mostra tão sensível, soa desmedido e de mau gosto o logo de um dos patrocinadores estampados em todo o mobiliário espalhado pelo pavilhão. Patrocínio é essencial, mas uma marca não pode ser a imagem mais recorrente de uma exposição.

EVENTO DURARÁ TRÊS MESES

Com entrada gratuita, a 32ª Bienal de São Paulo, cujo tema é "Incerteza Viva", começa nesta quarta-feira (7) e fica em cartaz por mais de três meses, até 11/12. O pavilhão Ciccillo Matarazzo, dentro do parque Ibirapuera (zona sul de SP), fica aberto aos visitantes das 9h às 19h (terças, quartas, sextas e domingos); e das 9h às 22h (quintas e sábados).

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Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal "Folha de S. Paulo" | 07/09/16.

Brasileiro tenta tirar foto e derruba estátua do século 18 em museu de Portugal

O turista derrubou acidentalmente uma estátua do século 18 no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, quando recuava para fotografar outra obra de arte. +

Um turista brasileiro derrubou acidentalmente uma estátua do século 18 no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, capital de Portugal, na manhã de domingo (06/11/16). Segundo a direção do museu, o incidente aconteceu quando o visitante recuava para fotografar outra obra de arte. Sem perceber, esbarrou com as costas na escultura barroca de madeira, que caiu e quebrou. A galeria onde fica a estátua está fechada e deve reabrir na terça-feira (08/11/16). A escultura foi encaminhada para a restauração. A identidade do brasileiro foi preservada.
Em entrevista ao jornal português “Diário de Notícias”, Teresa Bizarro, assessora do Ministério da Cultura de Portugal, afirmou que uma primeira avaliação concluiu que os “danos são reversíveis”. Ainda segundo a assessora, um dos vigilantes do museu teria alertado o turista para não recuar mais, mas ele não ouviu a tempo. A estátua, que representa São Miguel Arcanjo, está desde julho na Galeria de Escultura Portuguesa, no terceiro piso do edifício. A direção do museu irá analisar o caso com mais profundidade nos próximos dias, podendo inclusive escolher outro local para expor a escultura.
O caso veio à tona quando outro visitante do museu publicou em uma rede social a imagem da escultura quebrada. Na legenda, o autor da imagem faz referência ao fato de o incidente ter acontecido no primeiro domingo do mês, quando a entrada do museu é gratuita: “é o preço a pagar pela gratuidade do primeiro domingo de cada mês”, escreveu. A publicação gerou polêmica e acabou sendo retirada do ar.
Apesar de ser o mais importante museu de arte dos séculos 12 a 19 em Portugal, o Museu Nacional de Arte Antiga sofre um déficit de funcionários. De acordo com o “Diário de Notícias”, são menos de 30 vigilantes para as 82 salas abertas ao público. O diretor do museu, António Filipe Pimentel, havia feito um alerta sobre a situação do museu no início de setembro. "De certeza absoluta que um destes dias há uma calamidade no museu. Só pode, porque andamos a brincar ao patrimônio", disse ele na ocasião.
No domingo à noite, o Ministério da Cultura divulgou uma nota afirmando que havia um vigilante na sala no momento do acidente:
"O acidente correu quando o visitante, estando a fotografar uma outra obra, recuou sem olhar, não parou apesar dos alertas do vigilante, e foi contra a peça que se encontrava em cima de um plinto".
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Texto originalmente publicado no site do jornal “Extra” (extra.globo.com) | 07/11/16.

Museu de Arte do Rio tem novo diretor: Evandro Salles

Jornal O Globo entrevista o artista e curador que pretende levar novas experiências ao espaço. +

RIO — Anunciado na semana passada como novo diretor cultural do Museu de Arte do Rio (MAR), substituindo Paulo Herkenhoff no cargo, o artista e curador Evandro Salles, de 61 anos, pôde ser visto, nos últimos dias, circulando na feira ArtRio ao lado de seu antecessor. Os dois punham etiquetas “wish list” (lista de desejos) em obras da feira que preenchem lacunas do acervo, para estimular sua doação por galeristas e colecionadores, num sinal de transição tranquila na instituição que Herkenhoff ajudou a moldar nos últimos quatro anos e que Salles assume a partir de agora. Ele diz que pretende mexer na programação de 2017, mas as grandes exposições previstas serão mantidas: em fevereiro serão inauguradas “O nome do medo”, de Rivane Neuenschwander, com curadoria de Lisette Lagnado, diretora da EAV Parque Lage, e “Lugares do delírio”, curadoria da psicanalista e professora Tania Rivera, sua mulher, em parceria com Herkenhoff. O MAR também recebe a elogiada retrospectiva de Roberto Burle Marx organizada pelo Jewish Museum de Nova York, e “A Guanabara antes dos cariocas”, sobre o período pré-colonização. Há ainda uma coletiva organizada pelo próprio Salles, “A beleza possível”, prevista para novembro.

Idealizador de exposições como “Casa cidade mundo”, no Centro de Arte Hélio Oiticica, em 2015, e mais recentemente, “O poema infinito de Wlademir Dias-Pino”, em cartaz de março a junho deste ano no museu que passa agora a dirigir, Salles tem certa experiência em gestão: foi secretário-adjunto de Cultura no governo de Cristovam Buarque no Distrito Federal, onde também criou a Fundação Athos Bulcão. Na noite da última sexta-feira, ainda se inteirando da rotina do museu depois de ter levado cerca de dez minutos para conseguir entrar pela porta de serviço, exclusiva de funcionários (seu rosto ainda é desconhecido da segurança da casa), ele falou sobre suas primeiras ideias.

Como é assumir um museu tão associado à figura de seu antecessor?

O MAR é, realmente, um projeto absolutamente desenhado pelo Paulo. Tem uma marca muito forte do pensamento dele sobre a arte brasileira e do papel do museu na cidade. Em menos de quatro anos ganhou uma personalidade muito particular, e um acervo de 5.600 obras. É impressionante ele ter conseguido estabelecer isso em tão pouco tempo. Neste primeiro momento, vou manter as exposições programadas para 2017, mas dando umas mexidas. Não posso adiantar quais, estou chegando. Mas acho que o museu deve ser cada vez mais experimental, corajoso e arrojado, e dar lugar ao inesperado. Quero trabalhar, por exemplo, com a música e o teatro de vanguarda.

Quais são as diferenças entre ele e você? O que pretende imprimir na sua direção?

O Paulo é um grande conhecedor da história da arte brasileira e da história da arte no Rio de Janeiro. Ele trata as exposições a partir de uma abordagem simultânea: fortemente historiográfica e dentro de uma estratégia de representação dos artistas, de compreensão da obra dentro de uma problemática da arte brasileira. A minha curadoria parte de princípios às vezes diferentes. Ela se dá muito mais a partir da relação do espectador com a obra; a relação única, específica, estabelecida entre aquela pessoa e aquela obra. A questão historiográfica, para mim, vem num segundo momento. Num primeiro momento eu privilegio o encontro da obra com a pessoa — e é com a pessoa, não com um grupo, uma comunidade. Porque acho que não existe uma leitura coletiva de obras de arte. Existem leituras particulares, e cada experimentação da obra gera um universo diferente. Nesse sentido, eu acho que penso muito a questão da obra em relação ao espaço, a obra em relação à arquitetura.

De que forma essa diferença de abordagem entre você e o Paulo teve consequências na forma como o museu será dirigido?

O MAR tem três braços principais: a Escola do Olhar, que estabelece pontes de reflexão com diversas áreas da sociedade; o universo das exposições; e o acervo. Esses três braços estão articulados, se conectam. Por exemplo, quando o Paulo fez uma exposição sobra a arte amazônica, ela foi praticamente toda incorporada ao acervo, através de doações de todo tipo. O acervo é um fator permanente de ação cultural, que vai ter consequências históricas dentro do circuito de arte, da leitura de arte. Nesse sentido, o museu tem uma responsabilidade séria de pensar a arte brasileira. Por exemplo, a exposição do Dias-Pino que fiz aqui (“O poema infinito de Wlademir Dias-Pino”, de março a junho deste ano), ela tem esse caráter de pensar um artista fundamental que não é conhecido, apesar de muitas coisas dele terem sido incorporadas pelas pessoas. Esse acervo tem de estar vivo, tem que dialogar com as outras duas áreas. Não vou romper nem criar outra estrutura diferente. Mas pretendo aprofundar certas questões.

Que questões são essas?

Tenho um trabalho inteiro em torno da questão de arte e educação, que é uma visão bem crítica sobre o sistema de arte e educação que existe hoje no Brasil. Fiz algumas exposições, como “Arte para crianças” (em cartaz no MAM-Rio, em 2008, e em mais cinco instituições do país). No fundo, trata-se de uma pergunta fundamental: o que é a arte, e como a gente lida com isso. É preciso colocar essa pergunta acessível à experiência. Porque ela só pode ser respondida pela pessoa. Não há uma resposta que se possa generalizar, que se possa traduzir ou mediar.

Como pretende trabalhar isso no museu?

O MAR já tem um programa educativo, que é muito bom, em muitos aspectos. Não posso adiantar novos procedimentos, estou chegando, mas acho que há um campo enorme para se trabalhar. Quero, por exemplo, pensar o espaço do museu, a arquitetura cenográfica e a arquitetura geral do museu, como um espaço de linguagem, de significação. A partir do momento em que a pessoa cruza a porta do museu, é passível de ter encantamentos, descobrimentos. A educação tem de ser um processo feito através da beleza e do deslumbramento. O museu é um espaço de educação pela beleza, e beleza, aqui, não é coisa bonita. É o que não foi codificado pelo olhar, o que o olhar não alcança. O espaço do museu pode ser um espaço ritualizado, muito mais do que um espaço de explicações, de mediação. Porque os ritos são mais fáceis de conduzir a um encontro do que uma explicação, do que uma mediação, no sentido de uma tradução. A ideia de mediação implica na ideia de uma dificuldade, na impossibilidade de uma relação direta. E não há nenhuma impossibilidade de relação direta entre uma obra e um espectador. Não se pode partir do princípio de que uma pessoa não tem todo o potencial pra experimentar aquela obra, viver a experiência estética. São questões muito delicadas que podem ser trabalhadas.

Há algo que você acha que falta no MAR como instituição e que pode ser implementado?

O MAR tem personalidade, e acho que pode aprofundar suas trocas, seus laços com outras instituições, tanto a nível da cidade, como nacional e internacional. O MAR (e o Rio de Janeiro, de uma forma muito particular), tem potencialidade de pensar o Brasil inteiro e se relacionar de dentro pra fora, de fora para dentro. O MAR pode ampliar as suas pontes. Se isso não foi feito até agora é porque nesses primeiros anos era preciso, e ainda é, estabelecer o desenho do museu.

Você tem um interesse particular por arquitetura e urbanismo. Isso era visível na exposição “Casa cidade mundo” e também na que fará este ano no MAR, “A beleza possível”. Este será um ponto importante de sua administração?

O MAR já tinha aberto essa vocação de pensar a cidade. A cidade é o grande objeto de experimentação do museu. Por isso o interesse do Paulo sobre o projeto “A beleza possível”, que dá continuidade à mostra “Casa cidade mundo”. O museu tem o acervo do Carlos Nelson Ferreira dos Santos, responsável pela primeira urbanização de favela no Rio, a de Brás de Pina, nos anos 1960. A relação entre arte e arquitetura é um instrumento fundamental para se pensar a cidade. Se você pensa a cidade de um ponto de vista estritamente econômico, está correndo um risco absoluto de destruir uma parte significativa dos próprios valores que geram a questão econômica. Acho que no Brasil houve, a partir do golpe de 1964, um distanciamento, inclusive dentro das universidades, do universo da arte e da arquitetura. Porque arquitetura é arte. Reduzir a arquitetura às suas necessidades técnicas é destruir uma função fundamental da arquitetura,, que é a criação de identidade e de sentido de vida.
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Em memória do massacre

O artista Nuno Ramos organiza vigília com personalidades que irão ler os nomes dos 111 presos que morreram na invasão do Carandiru. +

O Dia de Finados (ou dos Mortos), comemorado em 2/11, serviu de palco para uma das maiores tragédias, que culminou no maior julgamento, da história do Brasil, há 24 anos. Desde então, o massacre do Carandiru segue impune pelo sistema judicial brasileiro. Em 27/9, o juíz de segunda instância Ivan Sartori, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, anulou os julgamentos que condenaram 74 polícias militares à prisão, entre 2013 e 2014. Como forma de protesto à resolução e como homenagem para os mortos durante a invasão, o artista Nuno Ramos organiza uma leitura, que durará 24 horas ininterruptas, dos nomes dos 111 presos mortos no Carandiru.
Os nomes serão lidos por 24 personalidades, cada uma por uma hora. Até o momento, as personalidades confirmadas são: Zé Celso, Luiz Alberto Mendes Júnior, Marcelo Tas, Paulo Miklos, Laerte, Bárbara Paz, Helena Ignez, Emicida, Isabela Del Monde, Nuno Ramos, Ferréz, Carlos Augusto Calil, Jean-Claude Bernadet, Marina Person, Rita Cadillac, Caio Rosenthal e Eliane Dias. O local da leitura tem como palco a cidade de São Paulo: acontecerá no alto de um edifício, na Alameda Barão de Limeira. A vigília será transmitida em streaming por Youtube e Facebook. O evento começa em 1/11, às 16h, e será finalizado, em 2/11, na mesma hora do início da invasão da Casa de Detenção de São Paulo, popularmente conhecida como Carandiru.
Os julgamentos do Carandiru serão celebrados novamente e a Procuradoria ainda pode recorrer da decisão na 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo. As penas impostas aos policiais acusados eram entre 48 e 624 anos de reclusão, mas nunca chegaram a se concretizar.
A defesa pediu a revisão da hipótese de legítima defesa, que foi aceita por Sartori. Porém, as críticas de defensores de Direitos Humanos após a anulação foi imediata: nenhum policial que participou da invasão foi morto ou ferido gravemente, enquanto 102 presos foram assassinados com armas de fogo e outros 9, com arma branca. Especialistas também compararam a impunidade do caso Carandiru com as contínuas mortes cometidas por policiais nas periferias e silenciadas pela corporação e pelo sistema judicial.
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Texto de Ana Abril originalmente publicado no site da revista “seLecT” (www.select.art.br) | 28/10/16.

Mercado em expansão

Nova edição da feira Parte ocorre no Clube A Hebraica, em São Paulo (SP), de 02 a 06/11/16. +

Já consagrada no calendário artístico de São Paulo (SP), a feira Parte traz ao público uma edição recheada de novidades, que ocorre no Clube A Hebraica, a partir de 02/11/16. Pela primeira vez, um comitê independente realizou a curadoria das galerias que integram o evento, escolhidas por Aloisio Cravo, Heitor Reis, Raphael Fonseca, Regina Pinho de Almeida e Rejane Cintrão. Com isso, a feira conta com uma seleção refinada de obras e dá seu primeiro passo para atrair galerias internacionais, com presença confirmada da Buenos Artes Fine Arts, SashaD e Aldo de Souza, todas da capital argentina. A ideia é aprofundar os laços entre os dois países.
Dedicada à arte contemporânea, o público encontra na feira trabalhos que traduzem as grandes novidades e atualidades da produção artística. Essa edição, entretanto, abre espaço para obras mais consagradas de artistas como Arthur Luis Piza e Sérvulo Esmeraldo, representados pela galeria mineira Murilo Castro. Já a Galerie Brésil apresenta uma seleção de pinturas de Claudio Tozzi, elaboradas entre os anos 1960 e 1970.
Durante a feira, todos os detalhes das obras, incluindo preços, estão acessíveis para qualquer um, sem a necessidade de recorrer ao vendedor de cada estande. “O preço exibido é muito importante porque é uma forma de quebrar a inibição de chegar perto da obra e verificar que é possível comprá-la sem receio. A ideia é incentivar a compra para aquele que vai adquirir pela primeira vez uma obra de arte”, destaca Tamara Perlman, uma das diretoras do projeto.
Novas parcerias
No dia 03/11/16, a “seLecT” organiza durante o evento uma conversa com a cocuradora da 32ª Bienal de São Paulo, Sofía Olascoaga, mediada pelas jornalistas Paula Alzugaray, Márion Strecker e Luciana Pareja Norbiato. Olascoaga fala sobre o que aprendeu e vivenciou com o processo curatorial da Bienal. A conversa aborda as múltiplas leituras que fazem parte do processo de aprendizagem curatorial e as diversas formas de escrita curatorial.
Sofía é pesquisadora de modelos radicais de educação e integrante da rede internacional de pesquisa Another Roadmap. Este ano, foi uma das idealizadoras e coordenadoras do programa Dias de Estudos, uma série de cinco encontros públicos realizados em Acra (Gana), Lamas (Portugal), Cuiabá, Santiago (Chile) e São Paulo, dedicados a pesquisa, intercâmbio e discussão dos temas relacionados à 32ª Bienal.
Durante os dias do evento, a “seLecT” está presente na feira com um estande que apresenta suas últimas edições impressas e venda de assinaturas.
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Feira Parte
Clube A Hebraica – São Paulo (SP)
Pinheiros: r. Doutor Alberto C. De Melo Neto, 115.
De 02/11/16 (preview para convidados)
03 e 04/11/16, quinta e sexta-feira, das 13h às 21h
05 e 06/11/16, sábado e domingo, das 11h às 19h
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Texto originalmente publicado no site “seLecT” (www.select.art.br) | 28/10/16.
Na foto, detalhe de obra de Emanoel Araújo, no estande da galeria Andrea Rehder Arte Contemporânea.

Produção ressuscitada

Celso Fioravante lança no dia de Finados, 2/11, o primeiro Salão dos Artistas Mortos. +

O jornalista Celso Fioravante é ligado às manifestações imateriais do mundo. Com um olho no espiritual, o Calendário Sincrético, Cósmico, Telúrico, Turístico, Ecológico e Artístico lançado neste 2016 pelo seu guia Mapa das Artes traz o santo ou orixá de cada dia, como também as festas religiosas de várias crenças. Agora, na mesma energia da edição "Segredo" de seLecT, ele lança bem no Dia de Finados (2/11, quarta) o edital de inscrição para o primeiro Salão dos Artistas Mortos.
Fioravante não é neófito nesse segmento: desde 2008, realiza o Salão dos Artistas sem Galeria, que traz nomes ainda não absorvidos pelo mainstream da arte nacional, como o título entrega. Dessa vez, o jornalista enfocou a outra ponta etária da produção artística, em que os realizadores, em sua maioria desconhecidos, já não estão mais neste plano. Ele falou com a reportagem de "seLecT" sobre sua nova iniciativa:
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Por que fazer um Salão dos Artistas Mortos? Qual sua importância para a História da Arte Brasileira?
Devido ao trabalho que venho realizando na Galeria Berenice Arvani como organizador de mostras individuais de artistas esquecidos pelo circuito de arte, várias famílias de artistas começaram a me procurar para mostrar o trabalho de parentes falecidos… Ao comentar isso com meu irmão Everaldo, ele me disse que, depois do circuito das empresas funerárias, o circuito de arte era o local onde o morto era mais valorizado… Recentemente, uma filha de artista também me procurou perguntando se poderia inscrever seu pai já morto no Salão dos Artistas Sem Galeria, que está em sua 8ª edição… Eu disse que sim, pois o regulamento não proibia isso, mas isso também me alertou para um nicho de promoção ainda não explorado pelo circuito.
A ideia se fortaleceu quando percebi que, em momentos de crise, as relações espirituais se afloram com mais intensidade, algo que podemos notar também na última edição da revista "seLecT", totalmente destinada ao tema Segredo e às questões espirituais.
Isso veio ainda ao encontro de questões de ordem religiosa e sincrética, pois me fez recordar da constância do machado de Xangô na obra de Rubem Valentim, e que Xangô é o orixá que se comunica com os mortos e os faz retornar à vida no culto dos Egunguns, intermediado sempre por sacerdotes Alapinis, como foi o artista afrobrasileiro Mestre Didi. Ao comentar esse projeto com Emanoel Araújo, ele mencionou que, em sua interpretação, os parangolés de Hélio Oiticica são representações dos mortos e, por isso, no Museu Afro-Brasil, são expostos ao lado de duas esculturas de Egunguns.
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É possível subverter o ostracismo a que alguns artistas são relegados mesmo muito tempo depois de sua morte?
Percebi que todo o circuito da arte é pautado em ciclos de vida e morte e retorno a vida e novamente esquecimento e que nesse vai-e-vem o artista e sua obra nunca morrem definitivamente…
A realização e posterior continuidade do Salão dependerá do interesse das famílias em remexer em seu passado, em suas gavetas e em seus guardados… É impossível prever o resultado disso, mas eu acredito que reativar as lembranças é um ato de amor e também e de humor… Eu gostaria que o Salão funcionasse uma barca de Caronte desbussolada, que em vez de ajudar os mortos a atravessarem o limbo no caminho da vida eterna, os trouxessem de volta para que discutíssemos se, no circuito brasileiro de arte, existe vida após a morte.
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Como será feita a seleção dos artistas?
A escolha dos artistas seguirá os trâmites normais de um salão de arte. Haverá um regulamento, que deverá ser seguido pelos representantes interessados. Em seguida os portfolios serão examinados por um júri, que decidirá quem será selecionado. Trata-se de um projeto bastante utópico, que poderá morrer na praia.
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Texto de Luciana Pareja Norbiato originalmente publicado em "seLecT" (www.select.art.br) | 27/10/16.
Foto: Paulo D'Alessandro.

Museu d’Orsay recebe doação de casal americano avaliada em € 350 milhões

Coleção traz cerca de 600 obras do final do século XIX e início do século XX +

O Musée d’Orsay, em Paris, recebeu nesta fim de semana sua maior doação feita por um estrangeiro desde 1945. Avaliada em 350 milhões de euros (algo em torno de R$ 1,2 bilhão), toda a coleção de cerca de 600 quadros do casal americano Marlene e Spencer Hays irá para o museu francês quando eles morrerem.

Neste fim de semana, os Hays, ambos com 80 anos, já fizeram uma doação inicial de 187 obras, com valor estimado em 173 milhões de euros (R$ 593 milhões). As obras do final do século XIX e início do século XX incluem trabalhos de autores como Edouard Vuillard, Pierre Bonnard and Edgar Degas.

"Essa doação, excpecional em tamanho e coerência, é a maior recebida por um museu francês de um estrangeiro desde 1945", disse a ministra da Cultura Audrey Azoulay, em entrevista à "France24 TV".

Entre os vários negócios da família Hays, estão empresas de vendas de livros, roupas masculinas e seguros de saúde. No testamento, o casal pede que as obras doadas após sua morte sejam expostas num mesmo espaço, e não dispersas no museu. Uma mostra da coleção dos Hays foi exposta no d’Orsay em 2013.

"Os Hays vieram de uma origem humilde no Texas, educados longe de museus esão autoditadas em história da arte", diz um comunicado no site do d’Orsay. "Eles começaram a comprar pinturas no início dos anos 1970 para decorar sua casa em Nashville.”
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Matéria publicada em 24/10/16 pelo site "O Globo", com informações do ArtNewspaper .

Nudez de estátua gigante de mulher incomoda moradores na Califórnia

"Truth is Beauty" (a verdade é bela), de Marco Cochrane, tem 16,7m, cerca de três vezes mais alta que o David de Michelangelo. É toda feita de malha de aço, representando uma dançarina em pose que lembra o balé. +

Uma estátua de uma mulher nua está causando controvérsia na Califórnia, EUA. Com 16,7m de altura, cintura fina e pernas e bustos bem destacados, a figura localizada em um centro de tecnologia em San Leandro recebe elogios de quem vê nela quebra de paradigmas e críticas de quem enxerga apenas excesso de nu.
A estátua chamada "Truth is Beauty" (a verdade é bela) é cerca de três vezes mais alta que o David, de Michelangelo, talvez o mais famoso nu do mundo da escultura. Ela é toda feita de malha de aço, que forma uma dançarina numa pose que lembra a do balé, com o corpo arqueado para trás e os braços esticados em cima da cabeça. Na base da estátua, está a mensagem, escrita em 10 idiomas: "Como o mundo seria se as mulheres estivessem a salvo".
"Se ela é uma bailarina, por que não está de roupas", diz Tonette Watts, 57, moradora do bairro onde está o centro tecnológico que abriga a estátua. "Se você tem filhos, não vai querer que eles vejam isso", afirma a mulher, que é mãe de uma adolescente. Keith Verville, 48, morador que também possui um filho jovem, faz a pergunta: "por que precisa ser tão grande e sem roupas?"
Mas a crítica não é unânime. Muitos moradores da cidade celebram na estátua o que veem como reflexo das mudanças demográficas em San Leandro, onde jovens estão superando moradores mais velhos em número.
"Nunca imaginara que isso pudesse vir de San Leandro", diz a prefeita da cidade, Pauline Russo Cutter. "A estátua é provocativa e moderna, e isso me deixa orgulhoso", completa.
A obra foi levada ao público pela primeira vez em 2013, no Burning Man, a celebração anual da contracultura no deserto de Nevada. Em seguida, foi comprada por desenvolvedores do complexo tecnológico por preço não revelado. A iniciativa ocorreu a partir de uma exigência feita pela prefeitura de inclusão de arte pública no local onde está o complexo.
Autor diz chamar atenção contra violência sexual
O escultor responsável pela obra, Marco Cochrane, diz que foi marcado em sua infância pelo estupro de uma amiga da vizinhança. Por isso, tenta através da arte chamar a atenção à agressão sexual contra as mulheres, ao medo que elas vivenciam e também ao fato delas se fortalecerem quando esse medo deixa de estar presente.
"(A mulher da escultura) se sente segura e está amando a si mesma. Espero que as pessoas possam sentir esse sentimento", diz Cochrane sobre sua obra. "É uma mulher bonita, que chama a atenção dos homens. Mas em seguida eles olham para baixo e veem a mensagem (contra a violência sexual)", completa.
Com a polêmica toda, a novidade se espalhou pela cidade. Agora, a estátua também já é conhecida como um ponto para tirar selfies. "Ela é excepcional", diz Jo Sutton, 43, professor de artes do ensino médio que pretende levar seus alunos para ver a estátua.
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Fonte: UOL (www.uol.com.br), com informações da AP - Associated Press | 23/10/16.
Na imagem acima, detalhe de foto de Jocelyn Gecker / AP.

Artista sacro Cláudio Pastro morre aos 68 anos em São Paulo (SP)

Pastro era considerado o principal artista sacro do país na atualidade. Artista é responsável por várias obras no Santuário Nacional de Aparecida. +

Considerado principal artista sacro do país na atualidade, Cláudio Pastro, de 68 anos, faleceu na madrugada de 19/10/16 em São Paulo (SP). Pastro é responsável pela concepção artística do Santuário Nacional de Aparecida e por mais de 350 obras no Brasil e no mundo, além de ter atuado na confecção de peças durante as visitas dos Papas Francisco e Bento XVI.
O artista sacro estava internado há cerca de 15 dias no hospital Oswaldo Cruz, na capital paulista, e morreu em decorrência de complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo o Santuário Nacional, o corpo será velado no Mosteiro Nossa Senhora da Paz, em Itapecerica da Serra (SP). O sepultamento será às 16h, no cemitério do Mosteiro.
Pastro é autor de obras como o nicho que abriga a imagem de Nossa Senhora na Basílica Nacional. Ele também é responsável pelos desenhos no altar central e um mosaico que está sendo feito na cúpula central do Santuário. A arte desenvolvida para a medalha em comemoração aos 300 anos do encontro da imagem da Santa também é assinada pelo artista.
Uma de suas últimas obras antes do falecimento foi o monumento em homenagem aos 300 anos do encontro da imagem, inaugurado no início de setembro no Vaticano. Com mais de quatro metros de altura, a peça feita em aço, remonta o encontro, com a imagem dos pescadores e da imagem. O monumento foi inaugurado pelo Papa.
Visita de Papas
Cláudio Pastro produziu as peças usadas pelo Papa Franciso durante a visita ao Brasil, em 2013, na Jornada Mundial da Juventude. Dos cálices e mobiliário aos trajes das celebrações, tudo foi elaborado pelo artista plástico.
Em 2007, o artista projetou a capela anexa aos aposentos utilizados por Bento XVI durante sua visita a Aparecida. Ao todo, artista assinou 350 obras em igrejas do Brasil e do mundo.
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Pastro nasceu em 1948 em São Paulo (SP).
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Fonte: G1 Vale do Paraíba e Região (g1.globo.com) | 19/10/16.
Foto: Cláudio Pastro assina mosaico da cúpula e o nicho da Basílica. Crédito: Thiago Leon / Santuário Nacional.

Obra do século 18 que estava em São Paulo vai para museu em Minas

“Verônica”, obra do século 18 que pertencia à matriz de Lavras, no Sul de Minas Gerais, e estava no Masp, será reintegrada ao patrimônio mineiro. +

O Museu de Arte de São Paulo (Masp), uma das mais importantes instituições culturais do país, vai devolver o quadro “Verônica”, do século 18, com 1,20m de altura por 60cm de largura, de autor desconhecido, pertencente à Matriz de Nossa Senhora do Rosário, de Lavras, na Região Sul de Minas Gerais. A informação foi divulgada pela direção do museu localizado na capital paulista, que acrescentou só faltar agora acertar detalhes sobre a transferência da peça para o Museu de Arte Sacra de São João del-Rei, no Campo das Vertentes, onde ficará por questão de segurança.
“É um fato histórico e, até onde sabemos, inédito no país, pois se trata de um museu devolvendo uma peça que estava no seu acervo. Já fomos informados de que o quadro está à disposição para entrega e transporte. Essa etapa deverá ser muito cuidadosa, diante das condições da obra”, afirma o coordenador da Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais (CPPC), Marcos Paulo de Souza Miranda, responsável pela investigação do paradeiro da obra juntamente com o promotor de Justiça de Lavras, Carlos Alberto Ribeiro Moreira.
O retorno está dentro de um contexto internacional referente à procedência ilícita de bens culturais. “Os museus têm um código de ética e o Masp agiu corretamente”, afirmou Marcos Paulo, certo de que o caso vai abrir precedentes e nortear iniciativas semelhantes. Há exatamente um ano, o Estado de Minas contou a trajetória de Verônica e os entendimento entre a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Minas e advogados da instituição paulista. Na época, um dos maiores entraves era a segurança da igreja de Lavras, tombada pelo Iphan em 2 de setembro de 1948.
Trajetória
O quadro “Verônica”, há 12 anos no acervo do Masp, tem uma trajetória que começa no fim da década de 1950, quando um estudante do Instituto Gammon, tradicional escola de Lavras, o encontrou na Igreja de Santana, na comunidade do Funil. Certo de que o templo não oferecia condições de segurança, ele doou a tela ao Masp, quando já era um músico de renome nos EUA. A partir de denúncias de moradores de Lavras, o CPPC/MG iniciou negociações com o Masp, em 2009, até conseguir a devolução. Conforme o Conselho Internacional de Museus (Icom), peças encontradas no acervo de um museu que têm origem ilícita devem ser devolvidas, disse Marcos Paulo.
Esta é a segunda vitória importante para Minas nesta semana, e curiosamente envolvendo o mesmo estado vizinho. Conforme o EM mostrou na edição de ontem, o busto-relicário de São Boaventura, peça esculpida por Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814), para a Igreja de São Francisco de Assis, de Ouro Preto, na Região Central, vai continuar sob guarda da Arquidiocese de Mariana, no Museu Aleijadinho, em Ouro Preto. A decisão é da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio dos desembargadores Caetano Levi Lopes e Afrânio Vilela, em resposta ao recurso do Ministério Público.
De acordo com o TJMG, a decisão cassou a ordem de devolução da peça a um colecionador paulista, proferida em 12 de junho pela 1ª Vara Cível de Ouro Preto. O argumento era de que “a apreensão só se justificava para fins de produção de prova pericial, que já estava encerrada, e que não havia motivo para a peça permanecer na cidade, devendo ser levada de volta a Amparo (SP), onde havia sido apreendida pela Polícia Federal em maio de 2010”.
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Texto de Gustavo Werneck | 01/05/15.

Conheça a coleção de arte de Angelina Jolie e Brad Pitt

O acervo do ex-casal soma US$ 25 milhões, com obras de nomes como Marcel Dzama, Dom Pattinson e Banksy. +

Divórcio é um negócio bagunçado. O de Angelina Jolie e Brad Pitt pode ser um pouco mais complicado ainda. A relação deles começou em 2004 e o casamento foi em 2014. Ao longo dos anos, eles criaram uma espécie de galeria privada no Château Miraval, mansão alugada no Sul da França. A estimativa é que a coleção deles valha cerca de US$ 25 milhões. A partir dessas informações, o site "Artnet" deu uma olhada no que eles colecionaram e desfrutaram ao longo do casamento. De artistas de rua como Banksy a Dom Pattinson a tradicionais sensações como Ed Ruscha e Richard Serra, espie abaixo alguns dos exemplares da coleção.
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1. Dom Pattinson
Quando eles casaram oficialmente em 2014, um amigo próximo deu de presente uma série de impressões da série "Hope" do britânico Dom Pattinson. "Eles estão construindo uma vasta coleção de arte em Miraval”, segundo a US Magazine. As obras de Pattinson têm semelhanças com as de Banksy, de quem Pitt tem sido "parceiro" há anos.
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2. Neo Rauch
Na feira Art Basel em 2009, o colecionador de arte Eli Broad deu a Pitt o dinheiro faltante para a compra de uma tela do artista alemão Neo Rauch. Segundo o Wall Street Journal, Broad disse a Pitt que ele e a esposa tinham várias obras do artista. "Etappe", o trabalho comprado em questão, estava no estande do galerista David Zwirner.
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3. Schoony
Angelina e Pitt, junto a Benedict Cumberbatch, Damon Albarn e muitos outros, têm versões do "Boy Soldier" (Menino Soldado) do artista britânico Schoony. O artista trabalhou na indústria de filmes norte-americana antes de atingir o status de escultor.
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4. Banksy
Em 2007,a galeria Lazarides, de Londres, fez um leilão de obras de Banksy. Segundo o Daily Mail, o casal pagou à época £ 1 milhão (cerca de US$ 2 milhões à época) por uma série de obras. Pitt é próximo do artista há tempos.
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5. Marcel Dzama
Segundo o "The Guardian", o artista canadense Marcel Dzama é apreciado por celebridades que colecionam, como Jim Carrey, Gus Van Sant e Brad Pitt. A obra de Pitt é uma aquarela e pintura de caráter surrealista e naïf que não se envergonha de retratar mulheres em posições comprometedoras.
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6. Richard Serra
O casal tem exemplares fracos de obras de Richard Serra, o badalado escultor norte-americano que também desenha.
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7. Ed Ruscha
No ano passado, Pitt visitou a galeria Spruth Magers, em Berlim, onde havia uma exposição de Ed Ruscha em cartaz. A exposição era composta por desenhos de colchões abandonados em Los Angeles.
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Texto de Rain Embuscado originalmente publicado, em inglês, no site "Artnet" (www.artnet.com) | 21/09/16.
Tradução: Everaldo Fioravante.

Justiça holandesa determina que Marina Abramović pague € 250 mil a Ulay

Ulay acusou a artista de violação de contrato de trabalhos feitos em parceria entre 1976 e 1988, ano em que a relação amorosa deles terminou. +

Embora Ulay Laysiepen seja um artista com produção própria, ele é frequentemente associado a Marina Abramović pelo romance com ela no passado e pela criação artística em parceria com a famosa artista. O certo é que a relação deles "azedou".
Em 21/09/16, a corte holandesa ordenou a Marina o pagamento de € 250 mil a Ulay no caso em que ele a acusa de violação de contrato de trabalhos em parceria feitos entre 1976 e1988 (quando a relação deles terminou).
"Eu e Marina dividimos um período de intensa colaboração artística e as obras daquele período são de criação em parceria. Respeito o que ela criou depois e nunca busquei o confronto", disse Ulay em um comunicado apresentado por seu advogado.
"De qualquer forma, me senti na obrigação de defender meu legado, meus direitos morais como coautor e meu direito de receber o que é de meu direito na venda dessas obras. Espero que agora possamos permanecer em paz, com respeito, deixando esse caso para trás e trabalhando na promoção do nosso legado artístico conjunto".
A relação do casal foi tão profunda que eles se autointitulavam "um corpo com duas cabeças". As obras em parceria incluem "Relation in Space" (1976), em que eles correm em direção um ao outro ao longo de uma hora, "Relation in Movement" (1977), "Imponderabilia" (1977; com nova versão em 2010) e "Rest Energy" (1980).
Em "Breathing In / Breathing Out" (performance apresentada em Belgrado em 1977 e Amsterdam em 1978), eles bloqueiam as narinas e pressionam os lábios, bloqueando a inalação de ar fresco e respirando o monóxido de carbono que liberam. A performance, de cerca de 20 minutos, termina com o desmaio deles. A abordagem é sobre os potenciais efeitos da codependência.
A relação entre Marina e Ulay terminou em 1988 com a performance "The Great Wall Walk", na qual eles partem um em direção ao outro de cada ponta da Muralha da China. O encontro deles no meio do caminho marca o fim da relação amorosa e profissional da dupla.
Na retrospectiva de Marina em 2010 no MoMA de Nova York, a artista apresentou a performance "The Artist is Present", na qual ela fica por horas sentada em uma cadeira e o público é convidado a sentar com ela à mesa, individualmente, permanecendo em silêncio. Ulay, após anos de contato mínimo com a artista, inesperadamente aparece e senta à frente de Marina, que chora e segura sua mão. O vídeo tornou-se viral.
Apesar do encontro aparentemente pacífico, Ulay abriu um processo contra Marina em 2015, alegando violação de um contrato assinado em 1999 a respeito das obras criadas em parceria.
Segundo o "The Guardian", Ulay alega que Marina não o comunicou de forma precisa sobre as vendas e que o pagou apenas quatro vezes ao longo de 16 anos. A corte de Amsterdam julgou que Marina deve pagar a ele 20% do valor líquido das vendas dessas obras, um total de € 250 mil, além de € 23 mil de custos de processo.
Apesar da vitória, Ulay comparou o processo à batalha dele contra o câncer: “O câncer foi uma ameaça agressiva à minha vida, enquanto o processo contra Marina foi uma ameaça à minha existência".
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Texto de Caroline Elbaor originalmente publicado, em inglês, no site "Artnet" (www.artnet.com) | 22/09/16.
Na foto, Marina e Ulay na performance "Breathing In / Breathing Out" no Stedelijk Museum, em Amsterdam, em 1978. Foto: Phaidon.
Tradução: Everaldo Fioravante.

Marina Abramovic é processada por ex-namorado e colaborador, Ulay | 2015

A artista sérvia está sendo processada pelo alemão Ulay. A disputa se dá sobre a autoria de trabalhos criados pelos dois. +

A artista sérvia Marina Abramovic está sendo processada por seu ex-namorado e colaborador, o alemão Ulay.
Segundo o jornal britânico "The Guardian", a disputa se dá sobre a autoria de trabalhos criados pelos dois.
Abramovic e Ulay terminaram um relacionamento de mais de uma década em 1988, também com uma performance, chamada "The Lovers". Na época, cada um deles caminhou 2.500 km de pontas diferentes da Muralha da China, encontrando-se no meio para se despedirem.
O registro do trabalho, assim como outros criados pelos dois em conjunto, são o motivo do processo judicial que será julgado em Amsterdã ainda neste mês.
Ulay alega que Abramovic violou um contrato assinado em 1999 ao pedir que galerias colocassem apenas o nome dela na assinatura dessas obras. Além disso, diz Ulay, ele recebeu o devido pagamento pelos trabalhos apenas quatro vezes nos últimos 16 anos.
"Ela não é apenas uma parceira de negócios", disse Ulay ao "Guardian". "Nossa obra fez história. Está agora em livros escolares. Mas ela interpretou mal algumas coisas deliberadamente, ou deixou meu nome de fora.”
O advogado de Abramovic disse que a artista "discorda completamente" das alegações. "Minha cliente não quer comentá-las, elas são difamatórias."
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Texto originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 11/11/15.
Foto: Marina Abramovic e Ulay em performance em 1978.

Obra encontrada na Escócia seria original de Rafael, avaliada em US$ 26 mi

Quadro foi descoberto pelo historiador e apresentador da "Britain's lost masterpieces - BBC", Bendor Grosvenor que procura por obras valiosas em coleções de arte públicas locais. Comprada em 1899 por US$ 25, hoje é avaliada em US$ 26 milhões. +

Um quadro comprado como uma "cópia respeitável" por US$ 25 em 1899 (US$ 2.574 em valores atuais) seria, na verdade, um retrato da Virgem Maria original do mestre do Renascimento Rafael, avaliado em US$ 26 milhões. A descoberta foi feita por Bendor Grosvenor, um historiador de arte e apresentador da série "Britain's lost masterpieces", da BBC, que procura por obras valiosas em coleções de arte públicas locais. Grosvenor e um time de especialistas estavam analisando uma coleção do Tesouro Nacional da Escócia, na mansão Haddo House, em Aberdeenshire, quando encontraram a pintura, datada entre 1505 e 1510 e inicialmente atribuída ao artista italiano Innocenzo da Imola.

"Eu pensei 'caramba, parece uma obra de Rafael'", contou Grosvenor ao "Guardian". "Estava muito sujo sob verniz antigo, ficando meio amarelada. Quando vou a casas como essa, eu levo binóculos e tochas. Se não fizesse isso, provavelmente teria passado direto por essa obra".

O historiador, então, pediu permissão para limpar profissionalmente, conservar e investigar a obra para definir sua real autoria. "Encontrar um possível Rafael é muito empolgante", disse Grosvenor. "Esse é um retrato bonito que merece ser visto pelo maior número de pessoas possível. Eu espero que 'a Madonna do Haddo', que seria o único Rafael de propriedade pública da Escócia, traga muitas pessoas a essa parte de Aberdeenshire".

Grosvenor descobriu que a pintura foi comprada como uma obra de Rafael no começo do século XIX e assim exibida em 1841, no British Institution, em Londres, ao lado de outras pinturas do artistas que ainda são consideradas genuínas. Mas, logo depois, o quadro recebeu a classificação de "pós-Rafael", sugerindo que fosse uma cópia feita por outro artista, e eventualmente foi creditado para Innocenzo Francucci da Imola, um pintor menor da era renascentista.

"É muito bom para ser de Innocenzo", cravou Grosvenor.

A remoção de diversas camadas de sujeira e verniz revelaram o que ele descreveu como "uma obra de extrema beleza" com uma qualidade "de tirar o fôlego". "Você observa e se pergunta como ele fez aquilo, o que é normal com todos os grandes pintores", disse o historiador.Sua pesquisa subsequente revelou importantes evidências como uma alteração em um dos dedos, que "sugere intervenção criativa original, o que significa que a obra não pode ser uma cópia de outro trabalho conhecido".
A pintura do rosto e a modelo usada são reconhecidamente "Rafaelescas", observou Grosvenor. O mesmo perfil aparece em outras Virgens Marias de Rafael. Uma fotografia de uma pintura perdida do artista também aponta que as linhas básicas são "muito semelhantes".
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Matéria publicada originalmente no site O Globo (www.globo.com), em 03/10/16.