destaques
conteúdo
publicidade
notícias

Depois da Bienal de São Paulo, Jochen Volz assume direção da Pinacoteca

O curador alemão substitui Tadeu Chiarelli, que deixa o cargo depois de dois anos. +

Jochen Volz, curador alemão à frente da atual Bienal de São Paulo e um dos diretores do Inhotim, vai assumir a direção geral da Pinacoteca em maio. Ele substitui Tadeu Chiarelli, que deixa o cargo depois de dois anos.
Chiarelli, que já esteve à frente do MAM e do Museu de Arte Contemporânea da USP, afirma que o acordado era que ele ficasse no máximo dois anos na função desde que assumiu e que agora vai voltar a dar aulas na universidade.
Volz vivia em Londres, onde era um dos diretores artísticos das Serpentine Galleries, antes de ser escalado para dirigir a 32ª edição da Bienal de São Paulo, que termina neste fim de semana.
Nos bastidores, a troca de comando é vista como reflexo da ambição da Pinacoteca de se firmar no circuito internacional. Volz, que também já foi curador-adjunto de uma edição da Bienal de Veneza, tem amplo trânsito no exterior e laços estreitos com outras instituições de peso no tabuleiro global, entre elas a Tate Modern, de Londres.
Ele também está à frente da seleção de artistas do pavilhão brasileiro na próxima Bienal de Veneza, marcada para maio do ano que vem.
Sua mudança para a Pinacoteca, no entanto, não ocorre num momento fácil. O museu sofre com um aperto financeiro que deve se agravar.
Isso não impediu, no entanto, que Chiarelli levasse a cabo a reorganização do acervo, estabelecendo no prédio principal, na Luz, uma narrativa completa da evolução da arte no país do século 19 até a atualidade, abrindo duas novas alas permanentes.
"Executei um plano que vinha sendo gestado", diz Chiarelli. "Isso é um índice de maturidade da instituição. É claro que, quando o Volz assumir, haverá adaptações, mas ele foi pensado como alguém que pode dar continuidade aos planos do museu."
Volz toma as rédeas da instituição, no ano que vem, com um cronograma já em parte acertado. Estão nos planos mostras da fotógrafa alemã Candida Höfer, do belga David Claerbout e uma retrospectiva de Di Cavalcanti. Em 2018, o museu pretende inaugurar uma exposição com peças do Museu d'Orsay, de Paris.
O Inhotim, ciente da negociação de Volz com a Pinacoteca, ainda não acertou se ele deixará a instituição mineira ou acumulará os cargos.
|
Texto de Silas Martí originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 08/12/16.
Foto: Rafael Jacinto e João Kehl / Folhapress.

Beleza não merece ser critério, diz Jochen Volz, curador da Bienal

Volz faz um balanço da Bienal de SP, avalia as críticas negativas e aponta o que a mostra tem em comum com as ocupações escolares que ocorrem no país. +

A 32ª Bienal de São Paulo, “Incerteza Viva”, se tornou uma espécie de extensão das ocupações escolares. "Os temas discutidos pelos alunos nas ocupações estão presentes em todas as visitas escolares", conta o curador da mostra, Jochen Volz.
Mais de 100 mil estudantes já passaram pela mostra, de um total de 600 mil visitantes alcançado na semana passada. Com isso, a Bienal já supera o público de suas últimas quatro edições.
Inaugurada em meio à instabilidade política do país, com seus artistas defendendo o "Fora Temer", a mostra já tem 15 itinerâncias previstas para o ano de 2017.
"A incerteza vai continuar", ironiza Volz, que já foi escolhido para cuidar da representação brasileira na Bienal de Veneza, no próximo ano, mas não fala sobre o assunto, já que a Fundação Bienal ainda não fez o anúncio formal da escolha.
A seguir, o curador faz um balanço da mostra, avalia as críticas negativas e aponta o que a mostra tem em comum com as ocupações.

Folha - Por que você acha que a Bienal se tornou tão popular?
Jochen Volz - Acho que é uma conjuntura, a começar pelo título, que tem ressonância com algo que ocorre no país, a necessidade de se debater certas urgências. Também tem a divulgação muito bem realizada e um trabalho importante de a mostra se estender dentro do parque de uma outra forma, o que acredito ter sido a mudança mais radical.

Você se refere ao fim das catracas na entrada?
Sim. O que eu sempre quis fazer e acho que deu certo é a ideia de eliminar o anteparo no lobby que foi configurado nessa área do térreo muitas vezes. Antes, a mostra só começava após as catracas e o detector de metal. Agora, ela começa da porta para dentro.

Existem pesquisas que apontem para isso ou é algo baseado em sua sensibilidade?
A visitação escolar é a mesma dos anos passados, em torno de 100 mil estudantes. Então, o que tem lotado não são as escolas, mas o público espontâneo.
Sejam turistas ou frequentadores do parque, é seguro dizer que há uma abertura maior aos 200 mil visitantes semanais do Ibirapuera.

A abertura da Bienal foi marcada por manifestações de artistas contra o impeachment. Agora, as ocupações nas escolas se tornaram uma questão importante. Como a Bienal se aproxima disso?
Como é uma Bienal que se dedicou a um conjunto de temas como ecologia, educação, formas de conhecimento e outras narrativas, e isso tudo é tema das ocupações, então, nas visitas das escolas, os estudantes seguem esses debates aqui.

A mostra tem muitas ativações de obras, com performances e concertos. Isso ajuda?
Sim, é o entendimento de que a exposição não está pronta quando ela abre. Muitos trabalhos, como os do Bené Fonteles e da Vivian Caccuri, são baseados na ideia de ativação constante ou periódica, e o público tem grande papel nisso.

Algumas críticas à Bienal reivindicam a presença de obras bonitas, beleza e estética. Acredita que isso pode ser cobrado da produção contemporânea?
Eu acredito que a beleza não mereça ser usada como categoria. Eu mesmo vejo muitos trabalhos bonitos na mostra. Houve uma preocupação de nossa parte em desenvolver trabalhos propositivos, que propõem algo para pensar, para entender algo diferente, e, para mim, são categorias estéticas.

Por exemplo?
O trabalho do Víctor Grippo (1936-2002) é uma experiência estética, um trabalho lindo no qual a beleza não está na forma, mas na potência poética que ela consegue oferecer.
Esse é um caso que foi criticado e que posso citar porque foi feito para a Bienal de São Paulo em 1977 e está sendo mostrado pela terceira vez! Um trabalho como esse tem uma relação profunda com esse prédio e com a história do Brasil. É um tesão mostrá-lo aqui de novo.
Agora, quero também ressaltar que essa é uma exposição muito complexa e com muitas linguagens distintas e contraditórias. Em um momento tão polarizado, é uma aposta muito importante.

Nesses dois meses, o que o surpreendeu aqui?
Houve trabalhos de contato direto com o público, que foram além da expectativa.
Um exemplo foi a escultura do José Bento, "Chão", que na linguagem popular virou "pula-pula" e uma instituição inteira teve que repensar em como conduzir visitas e propor uma interação mais cuidadosa.

32ª Bienal de São Paulo
Até 11/12/16. Grátis.
Ter., qua., sex., dom. e fer., das 9h às 18h; qui. e sáb., das 9h às 21h.
Pavilhão da Bienal, av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, parque Ibirapuera, portão 3.
Tel.: (11) 5576-7600
32bienal.org.br

|

Entrevista de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo” | 07/11/16.

Boy George bate Anthony Gormley em leilão beneficente na Inglaterra

Um esboço do popstar dos anos 1980 ultrapassou o valor de um trabalho do britânico Gormley. +

Um leilão em benefício do centro de caridade Longfield, voltado a pacientes com doenças terminais, em Gloucestershire, na Inglaterra, terminou em 01/12/16 com uma surpresa: um esboço do popstar dos anos 1980 Boy George ultrapassou o valor de um trabalho do escultor britânico Anthony Gormley. No total, 200 obras arrecadaram £ 15 mil (cerca de US$ 19 mil).
O cantor do Culture Club doou duas obras, entre elas a litografia “Old Punks Never Die”, customizada com giz de cera para representar a face de Betty Davis, a qual foi vendida por £ 2.251 (US$ 2.838). Mas o valor mais alto foi pelo colorido desenho “Loving the Alien”, esboçado por Boy George em Los Angeles, nos bastidores do Hollywood Bowl. Saiu por £ 4.300 (US$ 5.421).
Ele bateu um desenho chamado “Hello”, de Lionel Richie, um esboço infantil representando o famoso bigode de Richie, vendido por £ 300 (US$ 397), e o desenho de uma ovelha feito por David Cameron, vendido por modestos £ 92 (US$ 116).
O laço do leilão mais próximo com a arte tradicional foi um desenho de Gormley, mais conhecido como escultor. “Reflection IV” é um trabalho de bom gosto que representa uma figura humana sombria em bege. Foi vendido por £ 2.700 (US$ 3.407).
O recorde de Gormley em leilão é de US$ 5 milhões, pelo modelo da conhecida escultura de 1996 “Angel of the North”. A versão final, monumental, de 1998, fica em uma colina perto de Gateshead, na Inglaterra.
E poderia haver mais dinheiro para ajudar o centro de caridade Longfield: um interessado disse que pagaria o mesmo preço do original se Boy George replicasse o esboço.
|
Texto de Alyssa Buffenstein originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (artnet.com) | 02/12/16.

Falsificações levam a Sotheby’s a comprar laboratório

Responsável da Orion Analytical será o diretor do novo departamento de investigação científica da casa de lielões londrina. +

A casa leilões britânica Sotheby’s comprou a Orion Analytical, uma empresa de tecnologia de ponta especializada em analisar materiais, averiguar a origem de obras de arte e investigar falsificações de alto nível. O principal responsável da empresa, o cientista James Martin, com quem a leiloeira colaborou regularmente ao longo dos últimos 20 anos, foi contratado como diretor do novo departamento de investigação científica da Sotheby’s.

“O modo como olhamos para as pinturas que investigamos para venda sempre incluiu a análise técnica, mas ter agora na casa alguém como Jamie, com acesso a uma tão diversificada gama de diagnósticos técnicos e com uma compreensão tão profunda desta área cada vez mais complexa, vai beneficiar-nos muito”, afirmou Alexandre Bell, co-diretor internacional do departamento de pintura antiga da Sotheby’s.
Por trás desta decisão, sugere o site The Art Newspaper, está uma série de sofisticados casos de falsificação que abalaram o mercado da arte nos últimos anos. Em 2011, a própria Sotheby’s vendeu o retrato de um homem desconhecido, que acreditava ter sido pintado por Frans Hals, a um colecionador de Seattle, Richard Hedreen, por dez milhões de dólares. A obra vinha certificada pelo marchand londrino Mark Weiss, que a comprou por três milhões de dólares do marchand franco-italiano Giuliano Ruffini. Neste ano, a Orion Analytical foi chamada para investigar o retrato e concluiu que se tratava de uma falsificação, o que levou a Sotheby’s a reverter o negócio e indenizar o comprador.

A opção da leiloeira será bem recebida no mercado da arte. “Isto dará à Sotheby’s uma ligeira vantagem de credibilidade no mercado da pintura antiga, que se fundamenta na confiança dos compradores de que a obra confere com o que o rótulo diz que ela é”, comenta o historiador de arte e marchand Bendor Grovesnor. O galerista e negociante de obras dos grandes mestres flamengos Johnny Van Haeften observa que “todos os avanços tecnológicos são de aplaudir” e diz que a Sotheby’s “Tenta proteger a si e aos seus vendedores e compradores, evitandos futuros mal-entendidos”.

No site da Orion Analytical uma carta de Jamie Martin anuncia a aquisição da companhia e as suas novas funções pela Sotheby’s, ao mesmo tempo que sossega os seus muitos clientes com a garantia de que o arquivo da empresa não foi incluído no negócio com a leiloeira.

Martin lecionou no Getty Conservation Institute e no Smithsonian’s Museum Conservation Institute, nos Estados Unidos, e colaborou com o FBI na investigação de fraudes no mundo da arte, tendo tido um papel crucial na resolução do célebre caso da falsificação de obras de pintores do expressionismo abstracto, como Jackson Pollock ou Mark Rothko, que foram vendidas durante anos através da galeria nova-iorquina Knoedler.

Um caso que o atual presidente da administração da Sotheby’s, Domenico De Sole, conhece bem, já que foi uma das suas vítimas, tendo comprado por 25 milhões de dólares um suposto Rothko que foi pintado por um imigrante chinês, Pei-Shen Qian, na sua garagem. Qian foi acusado, mas conseguiu evitar a prisão fugindo atempadamente para a China.
|
Texto publicado orinalmente no jornal Publico | 06/12/16.

Instagram divulga dados sobre 2016 relacionados à arte

Veja a lista com os 25 museus que mais renderam posts no Instagram. A relação é baseada em geolocalização. +

Com a chegada do fim de ano, o Instagram compilou uma série de dados referentes a 2016, entre elas informações envolvendo a arte.
Abaixo, a lista com os 25 museus que mais renderam posts no Instagram. A relação é baseada em geolocalização (a companhia sabe o local onde os posts foram feitos).

1. Musée du Louvre, Paris
2. The Metropolitan Museum of Art, Nova York
3. The Museum of Modern Art (MoMA), Nova York
4. Los Angeles County Museum of Art (LACMA), Los Angeles
5. The Broad, Los Angeles
6. World Trade Center 9/11 Memorial (aka National September 11 Memorial & Museum), Nova York
7. American Museum of Natural History, Nova York
8. Whitney Museum of American Art, Nova York
9. British Museum, Londres
10. The Art Institute of Chicago, Chicago
11. Natural History Museum, Londres
12. Centre Pompidou, Paris
13. Musée d’Orsay, Paris
14. Philadelphia Museum of Art, Filadélfia
15. Hermitage Museum, São Petersburgo
16. Victoria and Albert Museum, Londres
17. Palacio de Bellas Artes, México, D.F.
18. Vatican Museums, Vaticano
19. J. Paul Getty Museum, Los Angeles
20. Museo Guggenheim Bilbao, Bilbao
21. Renwick Gallery, Washington, DC
22. National Gallery, Londres
23. Pinto Art Museum, Antipolo (Filipinas)
24. Fondation Louis Vuitton, Paris
25. National Gallery of Victoria, Melbourne

O que essa lista significa? Nova York é a líder, com cinco museus relacionados, seguida por Paris e Londres, com quatro cada, e Los Angeles, com três. Por outro lado, a lista dos museus mais fotografados não tem ligação com os museus mais visitados. O LACMA e o MoMA, por exemplo, aparecem nas posições de número 3 e 4 na lista. Mas eles não estão entre os dez museus mais visitados do mundo, segundo dados da “Art Newspaper”. O Broad Museum, em 5º lugar na lista do Instagram, bate o British Museum, em 9º na lista, mas que é o segundo museu mais visitado do mundo.
E sendo bastante honesto, essa é a primeira vez em que ouço falar do Pinto Art Museum, nas Filipinas. Conta que a instituição não tem sequer ar condicionado. A presença do museu na lista do Instagram é difícil de explicar, exceto pelo fato de que as Filipinas é um país onde as mídias sociais fazem muito sucesso.
Por conta própria, pesquisei quantos seguidores essas 25 instituições têm no Instagram: não são muitos.
A Tate Modern, 7º museu mais visitado do mundo em 2015, com 4,7 milhões de visitantes, não está na lista do Instagram, talvez por conta de ter uma política restritiva em relação a fotografias no local. Por outro lado, tem muitos seguidores no Instagram: 1,2 milhões.
Instituições de Nova York, como Guggenheim (1,1 milhão de seguidores), New Museum (398 mil) e Brooklyn Museum (395 mil) também têm muitos seguidores, mas não aparecem na lista de museus mais fotografados do Instagram. Evidentemente, são museus mais conhecidos virtual do que pessoalmente.
O Louvre e o Met, 1º e 2º da lista, estão no mesmo patamar de locais como Central Park, Coliseu de Roma, Catedral de Notre Dame, o grande shopping Siam Paragon, em Bangkok, o Las Vegas Strip e, estranhamente, o aeroporto internacional de Los Angeles.

Veja agora a lista geral do Instagram de locais mais fotografados:

Parques Disney (global)
Parques temáticos da Universal (global)
Central Park (Nova York)
Times Square (Nova York)
Torre Eiffel (Paris)
Louvre (Paris)
Las Vegas Strip (Las Vegas)
Santa Monica Pier (Los Angeles)
Brooklyn Bridge (Nova York)
ВДНХ / Vystavka Dostizheniy Narodnogo Khozyaystva (Moscou)
Siam Paragon (Bangkok)
Coliseu (Roma)
Madison Square Garden (Nova York)
Aeroporto internacional de Los Angeles
Tower Bridge (Londres)
Centro de Barcelona
Catedral de Notre Dame (Paris)
The Metropolitan Museum of Art (Nova York)
Empire State Building (Nova York)
Cataratas do Niagara

A equipe do Instagram também informou quais as hashtags relacionadas a arte mais utilizadas em 2016. São elas:

#art
#design
#architecture
#artist
#illustration
#portrait
#sketch
#artwork
#streetart
#draw

Por fim, os mais populares filtros do Instagram em 2016:

Clarendon
Gingham
Juno
Lark
Moon

|

Texto de Ben Davis originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (artnet.com) | 01/12/16.
Na foto, mulher fotografa "A Deposição", de Caravaggio, em mostra na Pinacoteca do Vaticano. Crédito: Natalia Kolesnikova / AFP / Getty Images.

Poeta Ferreira Gullar morre de pneumonia aos 86 anos no Rio

Poeta, ensaísta, crítico de arte, tradutor, biógrafo e colunista, Gullar estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 dias devido a insuficiência respiratória. +

Ferreira Gullar, poeta, ensaísta, crítico de arte, tradutor, biógrafo e colunista da “Folha de S. Paulo” desde 2005, morreu por volta das 10h deste domingo (04/12/16), aos 86 anos. Sua neta, Celeste, confirmou a morte. Ele estava internado no hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro, há cerca de 20 dias devido a insuficiência respiratória.
Segundo Maria Amélia Mello, amiga e editora de Gullar na José Olympio e também de seu último livro, "Autobiografia Poética e Outros Textos" (Editora Autêntica), o poeta morreu de pneumonia.
Com grande independência, quase sempre remando contra a corrente no poder, Gullar frequentou diferentes regiões de um amplo espectro ideológico. Renovador da linguagem poética e teórico da vanguarda, anos mais tarde ele enxergaria com olhos severos os rumos da arte contemporânea. Militante comunista, fez-se um rigoroso tribuno contra a esquerda no poder desde os primeiros momentos do governo Lula.
Sua fisionomia angulosa, cheia de vincos expressivos, fez a alegria dos designers gráficos, que a reproduziram ampliada em inúmeras capas de livros e revistas. Ao vivo, o corpo magro e frágil contrastava com o vigor escuro do olhar, o nariz proeminente que lhe dava um perfil de índio andino, os óculos metálicos dominando o rosto de fora a fora, a espessura das sobrancelhas, o gesto constante de levar as mãos à cabeça e ajeitar os cabelos muito lisos, brancos e compridos, ou então enxugar com o canto dos dedos a saliva acumulada nos lábios grossos.
Nascido em 10 de setembro de 1930, o maranhense José Ribamar Ferreira se espraiou em praticamente todos os campos da cultura, da poesia de vanguarda à canção popular, da teoria estética ao jornalismo, da ilustração de livros infantis à teledramaturgia. Quase sempre, com forte ênfase política. Para se distrair, entregava-se à reprodução de quadros de Mondrian e outros de seus mestres europeus, fazia colagens com recortes de revistas ou traduzia poesia. Está entre os primeiros nomes da extensa lista de biografias que ainda precisam ser escritas no Brasil.
Filho do comerciante José Ribamar Ferreira e da dona de casa Alzira Goulart, que lhe inspiraria o nome literário, Gullar publicou seu primeiro livro em edição do autor em sua São Luís natal, em 1949. "Um Pouco Acima do Chão" não teria lugar nas futuras edições de obra completa organizadas pelo poeta: trata-se, diz ele, de "um tateio inicial", "um livro ingênuo".
O seu segundo trabalho, de 1954, também saiu em edição do autor, mas de ingênuo não tinha absolutamente nada. "A Luta Corporal" foi a fagulha de um novo tipo de escrita que nos anos seguintes mudaria as noções tradicionais de verso, página, livro de poesia —em resumo, a própria poesia, tal como a entendíamos até então.
Escrito solitariamente, quando o autor já vivia no Rio (desde 1951), mas ainda tinha poucas conexões com o mundo literário, o livro soava como um salto radical em todas as dimensões —sonoras, gráficas, semânticas— e todas as possibilidades que a palavra impressa poderia oferecer.
"Diagramado e editado por mim, ele refletia a preocupação com a utilização do espaço em branco na estruturação espacial dos poemas, como também na titulagem e no uso da página em branco, feito camadas de silêncio acumuladas nas páginas", recordaria Gullar, anos mais tarde, em seu livro "Experiência Neoconcreta" (Cosac Naify), volume que recupera os seus anos heroicos do neoconcretismo, ao lado dos artistas plásticos Lygia Clark, Hélio Oiticica e outros amigos. Segundo ele, "A Luta Corporal" se encerrava com a "implosão da linguagem". "Mu gargantu / FU burge / MU guêlu, Mu / Tempu - PULCI", escreve ele numa das passagens mais cheias de escombros.es/Divulgação
Naquele tempo eu não tinha família, nem uma vida regular, vivia sozinho num quarto perto da praça da Cruz Vermelha [no Rio]", contaria o autor, anos mais tarde, à equipe dos "Cadernos de Literatura Brasileira". "Era uma vida desligada da realidade comum de todos. Eu vivia, então, 'num clima de aventura'."
Entre seus primeiros leitores, estava o escritor Oswald de Andrade, que apareceu de surpresa para cumprimentar Gullar no dia de seu aniversário, em 1953. O autor de "Poesia Pau-Brasil" tinha lido "A Luta Corporal" ainda nos originais e se impressionou pelo vigor daquele jovem poeta maranhense.
O livro também o aproximou de dois personagens-chave: os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Decio Pignatari. Conta Gullar que os três poetas entraram em contato com ele por carta, depois de terem lido "A Luta Corporal". Augusto foi ao Rio para um encontro com Gullar, no qual teria manifestado insatisfação com o estado da poesia brasileira naquele momento.
A correspondência inaugurada ali gestou uma das mais importantes revoluções artísticas do século 20 no Brasil, e também uma curta, porém fértil, colaboração entre o grupo dos paulistas e o dos cariocas. Não demorou a nascer também uma das mais duradouras disputas intelectuais do país, que começou em torno da paternidade da abolição do verso tradicional. Isto é, quem foi o primeiro a afirmar que um poema já não precisava mais ser organizado em linhas para ser um poema?
Gullar e os paulistas estavam juntos, na 1a Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em São Paulo em dezembro de 1956. Em fevereiro de 57, quando foi inaugurada no Rio, Gullar publicou no "Suplemento Dominical do Jornal do Brasil" um artigo em resposta a um manifesto de Haroldo de Campos em que explicitava as diferenças que enxergava entre o seu grupo, o dos "cariocas", e os dos paulistas. Para Gullar, Haroldo defendia a subordinação da poesia a equações matemáticas. "Considerando que aquilo era inviável", registraria Gullar, anos mais tarde, "telefonei a Augusto, dizendo que não podia subscrever semelhante teoria. Sua resposta foi que eu então procedesse como me parecesse melhor, pois eles não desistiriam daquela tese."
Agora conhecidos respectivamente como os "neoconcretos" e os "concretos", os dois grupos passariam a reivindicar o pioneirismo na dissolução do verso e na exploração das dimensões concretas da palavra. A disputa, que acompanharia os contendores ao longo da vida inteira, não é facilmente explicável, mas influenciou as gerações de artistas subsequentes e ecoou, por exemplo, no Tropicalismo de Caetano Veloso.
"Lembro-me que defendia a tese de que a questão fundamental da nova poesia não era 'criar um novo verso' (como escrevera Haroldo na ocasião) e, sim, 'superar o caráter unidirecional da linguagem, rompendo com a sintaxe verbal'", rememora Gullar em "Experiência neoconcreta". "Esta tese foi aceita por eles e de algum modo contribuiu para que buscasse solução no poema visual, construído geometricamente no espaço da página."
Mais adiante, o poeta reconhece: "Sem qualquer dúvida, o contato com Augusto de Campos e com suas experiências poéticas me ajudou a sair do impasse a que chegara com 'A Luta Corporal'".
Aquele encontro no Rio, em 1955, ainda renderia, quase 60 anos depois, uma agressiva troca de farpas entre Gullar e Augusto de Campos, relativa às afirmações do maranhense de que foi ele quem apresentou aos irmãos Campos a poesia de Oswald de Andrade, referência central para os concretos. Em artigos publicados na Folha, ambos reconstituíram em minúcias o encontro, realizado no restaurante Spaghettilândia.
Suplemento dominical do JB
Seja como for, a influência mútua entre os concretos e os neoconcretos é inegável e teve importantes desdobramentos na poesia e na teoria estética brasileira. Pignatari e os Campos deram prosseguimento à poesia concreta no grupo Noigandres; Gullar ganhou destaque como crítico e teórico do grupo carioca, em seus artigos publicados no "SDJB".
Desde 1955, Gullar estava engajado no projeto do "Suplemento Dominical" do "Jornal do Brasil", considerado um marco do jornalismo cultural brasileiro tanto em termos de design gráfico - quem fazia a diagramação e ilustrava era o artista plástico Amilcar de Castro - como de texto. A turma do "SDJB" era o correspondente, no jornalismo e na arte de vanguarda, do ímpeto criativo de João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes na criação da Bossa Nova.
O caderno levou a sensibilidade da vanguarda carioca para as páginas de um jornal dos mais tradicionais: era uma espécie de protetorado do grupo neoconcreto, com Gullar e pesos-pesados como Janio de Freitas, Reinaldo Jardim, Franz Waissman, Lygia Clark e Lygia Pape.
No "SDJB" Gullar publicou textos centrais como o "Manifesto Neoconcreto" e a "Teoria do Não Objeto" (1959), pequeno ensaio que alguns colegas de Gullar coassinaram, no qual são antecipadas questões centrais da arte contemporânea nas décadas vindouras, não apenas no Brasil, mas em nível mundial: a obra de arte que só se torna arte com a participação ativa do espectador, o "não objeto".
Naquele ano, nasceram obras que ilustram o pioneirismo de seu autor: os livros-poema, os poemas espaciais e o "Poema enterrado" -um buraco cavado no terreno da casa do pai do artista Hélio Oiticica, com cubos de diferentes cores e tamanhos que o espectador podia manipular. Debaixo do menor dos cubos, havia um quadrado com a palavra "rejuvenesça". Uma inundação, porém, inviabilizou a inauguração do "Poema enterrado", que jamais seria exibido ao público.
Poema Sujo
Se o "clima de aventura" de sua vida no Rio tinha sido determinante para escrever "A Luta Corporal", as aventuras solitárias do exílio devolveram Gullar à criação poética radical, sem as amarras da poesia engajada. Em 1975, ele publicou "Dentro da Noite Veloz", um dos mais importantes livros de poesia da década. No ano seguinte, Gullar compõe o "Poema Sujo", seu poema mais conhecido e ícone da resistência à ditadura.
O momento não era exatamente propício à publicação de poesia no país - a nova poesia brasileira passava a ser divulgada na praia, em edições caseiras, impressas a mimeógrafo (sistema de reprodução a álcool). E foi num meio heterodoxo - uma fita cassete levada de Buenos Aires na mala do poeta Vinicius de Moraes, em abril de 1976 - que um dos grandes poemas brasileiros da década de 70 chegou aos leitores.
Quem definiu o impacto daqueles 40 minutos de gravação foi o portador da fita, que não mediu palavras para descrevê-lo em carta para o amigo Calasans Neto: "Cem páginas da mais alta poesia; um troço, pai, de arrepiar os cabelinhos do cu". Gullar, exilado, e Vinicius, em turnê com Toquinho e Miúcha, agitavam as baladas dos brasileiros exilados na Argentina. Foi numa dessas festinhas regadas a caipirinha e feijoada que o maranhense leu o "Poema Sujo" para os amigos. "A emoção foi tanta, quando ele o leu para nós, que quase todo mundo chorava", lembraria Vinicius.
Gullar dava uma resposta ao clima de repressão que dominava a América Latina, explicou Vinicius: "A oportunidade do poema é total, para mostrar a esses cínicos de merda que a poesia, longe de ter morrido, está mais viva do que nunca, quando agarrada assim pelos cornos por um verdadeiro poeta." Ainda em 1976, o "Poema Sujo" seria publicado em livro pela Civilização Brasileira, num lançamento apinhado, mas sem a presença do autor.
Escaldado pelo golpe no Chile, Gullar percebeu sua permanência na Argentina se tornava cada vez mais arriscada. O país vizinho já estava sob sua mais sangrenta ditadura: num episódio jamais elucidado, naquela mesma temporada o pianista de Vinicius, Tenorinho, acabaria sendo sequestrado por agentes da repressão ao sair para comprar cigarros - seu cabelo e suas roupas bastaram para que se tornasse alvo da direita radical, entrando para a conta dos "desaparecidos" políticos da ditadura que se instalava na Casa Rosada.
Afastado pelo regime militar de sua carreira no Itamaraty, Vinicius tornou-se um embaixador de Gullar e de seu poema: promoveu audições da fita em sua casa no Rio, convidando Chico Buarque, Francis Hime, Tom Jobim, Carlos Heitor Cony, Ênio Silveira e quem mais pudesse ajudar a divulgá-lo. Fez publicar o livro em espanhol, cavou reportagens e entrevistas com o autor. A agitação promovida por Vinicius era uma deixa para que Gullar tentasse voltar ao Brasil - seria bem menos arriscado, naquele momento em que mal se esboçava a abertura política, chegar acompanhado de uma estridente claque, cobertura da imprensa, festejos e quanto barulho fosse possível fazer.
A missão diplomática em favor de Gullar também contou com a ajuda dos jornalistas Zuenir Ventura e Elio Gaspari. Diretor-adjunto na "Veja", Gaspari, lembraria Gullar, deu ao homem forte do governo, o general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Militar da Presidência da República, um exemplar do recém-publicado "Poema Sujo". "Golbery achou-o obsceno, mas nem por isso se opôs à minha volta ao país", recordaria Gullar. "Já o general João Figueiredo, chefe do SNI, era de opinião diferente. 'Não quero esse comunista aqui', teria declarado ele, segundo Golbery."
No embalo do "Poema Sujo", do sinal verde de Golbery e de sua absolvição no processo policial-militar que o levara a deixar o Brasil, Gullar decidiu se arriscar a retornar -não sem tomar algumas precauções, como convocar a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Sindicato dos Jornalistas para acompanhar seu desembarque. "Essas medidas visavam despojar o meu gesto de qualquer traço conspiratório ou clandestino, neutralizar a ação arbitrária dos órgãos de repressão e, ao mesmo tempo, responsabilizar o governo pelo que ocorresse", explicaria o poeta em suas memórias.
Alardear o retorno nas maiores revistas de São Paulo e do Rio também fez parte da estratégia. Uma entrevista que Rui Lima publicou nas "Páginas Amarelas" da "Veja" ajudou a pavimentar o caminho de volta, apresentando os argumentos conciliatórios do poeta: "Gullar nunca foi um asilado - saiu legalmente do país e legalmente vai voltar, inclusive porque foi absolvido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal no processo dos intelectuais, em 1974. Vários motivos o trazem de volta, além do fato de 'não suportar mais viver fora do Brasil'-entre eles um filho doente que sempre reclama sua presença, no Rio". Carlos Heitor Cony o entrevistou para a "Manchete".
Por volta de oito horas da noite do dia 10 de março de 1977, o poeta pousou no aeroporto do Galeão, no Rio. "Ao chegarmos ao guichê da polícia, onde devíamos apresentar os documentos, vi escrito numa folha presa à parede: 'Ferreira Gullar ou José Ribamar Ferreira - detê-lo". Recebido por uma multidão de amigos e jornalistas, não foi detido - mas no dia seguinte seria intimado pela Polícia Marítima. Passou o fim de semana nas mãos de policiais, foi levado de um porão da repressão para outro, tiraram-lhe a roupa e o pressionaram a responder sobre "a escola de subversão" que frequentara em Moscou. Foi libertado após uma forte mobilização de amigos.
Pouco depois, ao pedir a seu advogado que sacramentasse no Superior Tribunal Militar a extinção do processo movido contra si, Gullar descobriu que, nos autos, o José Ribamar Ferreira procurado era outro: um líder camponês, também maranhense, que, ao contrário do seu homônimo poeta, abraçara a luta armada.
Consagração
Se é certo que Ferreira Gullar, após cair na clandestinidade em 1970, percebendo que mais cedo ou mais tarde iria parar na cadeia, voltou ao país na condição de artista consagrado, ele só pode desfrutar a consagração com a abertura política, a partir de 1978, quando o AI-5 perdeu a validade, e 1979, quando passa a valer a Lei de Anistia. Naquele mesmo ano, sua voz anasalada e metálica ganhou a forma de LP no álbum "Antologia Poética", com música de Egberto Gismonti, e Bibi Ferreira montou a primeira peça que Gullar assinou sozinho, "Um Rubi no Umbigo". Em 1980, quando fez 50 anos, teve sua obra poética reunida pela primeira vez na edição "Toda Poesia" e lançou "Na Vertigem do Dia", sua primeira coletânea de poemas desde "Poema Sujo".
A convite de Dias Gomes, seu ex-camarada de Partidão, Gullar passou a integrar o núcleo de teledramaturgia da TV Globo, tendo escrito roteiros para séries como "Carga Pesada" e para a novela "Araponga". Nos anos 1980 e 90, o trabalho na TV dividiria o tempo do poeta com a publicação de livros de poemas, ensaios, traduções e crônicas. Escreveu letras para uma dúzia de canções: tem parcerias com Caetano Veloso ("Onde Andarás"), Milton Nascimento ("Bela bela") e Fagner (o hit "Borbulhas de Amor"). Entre 1992 e 1995, presidiu o Instituto Brasileiro de Artes e Cultura (Ibac), nome que Gullar trocaria pela antiga denominação do órgão, Funarte.
O retorno a uma intervenção permanente no debate cultural e político viria com força em 2004, quando passou a assinar uma coluna na Ilustrada. Relida hoje, a coluna de estreia, "Resmungos", revela uma impressionante coerência do colunista nos mais de 11 anos que viriam pela frente. O autodeclarado "cronista bissexto" anuncia que vai escrever sobre política, "que não exige muita especialização", e arte, assunto sobre o qual "até já escrevi livros", ironiza. E, logo de saída, fustiga críticos e obras de arte contemporânea. De fato, espezinhar os governos petistas, ainda no auge do lulismo, e implicar com artistas, curadores e críticos seriam seus esportes prediletos nas páginas da Ilustrada.
(A coluna ainda serviria, de vez em quando, como um raro espaço confessional: Gullar valeu-se dela para combater causas que eram consenso nos meios de esquerda, como a lei que dificultou a internação de doentes mentais e as campanhas pela legalização de drogas. Dois filhos do escritor, Marcos, morto em 1993, e Paulo, tinham esquizofrenia grave, atribuída pela família ao abuso de drogas, nos anos 1970, durante o exílio. Gullar e sua mulher, Thereza Aragão, morta em 1994, ainda tiveram uma filha, Luciana.)
Transformados em livro, os resmungos de Gullar ganharam o Prêmio Jabuti de 2007. Aquela era uma temporada de prêmios —o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, veio em 2005, quando o poeta fez 75 anos. Em 2010, a mais alta distinção da língua portuguesa, o Prêmio Camões, foi de Ferreira Gullar. Em 2011, os Jabutis de poesia e de Livro do Ano foram para os poemas de "Em Alguma Parte Alguma". Em 2014, foi eleito para a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, depois de passar anos afirmando que jamais aceitaria a imortalidade.
Na Flip, Gullar disse uma frase que viralizou nas redes sociais: "Não quero ter razão, quero é ser feliz!". Outra máxima criada por Gullar, "a crase não foi feita para humilhar ninguém", publicada em 1955 no "Diário de Notícias", mais tarde seria citada até em anúncios de computadores IBM, para deleite do autor.
Os livros que Gullar publicou nessa temporada de prêmios sugerem que o octogenário cheio de vitalidade não estava dando muita bola para aquelas honrarias - e provavelmente estava feliz. Em "Zoologia Bizarra" (2010) e "Bichos do Lixo", com um prosaico hobby doméstico, a colagem de papéis coloridos, ele se fez ilustrador de literatura infantil - evidentemente, compôs poemas para acompanhar os bichos de papel. Já em "Bananas Podres" (2012) Gullar retoma uma imagem recorrente em sua obra poética - o amadurecimento das frutas - em poemas manuscritos por ele mesmo e ilustrações a guache sobre jornais velhos.
Gullar deixa a companheira Claudia Ahimsa, dois filhos e oito netos.
|
Texto de Paulo Werneck originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 04/12/16.
Paulo Werneck é editor de livros e ex-curador da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Power 100: ArtReview lista os 100 nomes mais poderosos da arte em 2016

Uma das listas mais aguardadas todos os anos, o Power 100 da “ArtReview” destaca os nomes poderosos que influenciaram a cena da arte nos últimos 12 meses. O Brasil ganha duas menções a galeristas: Luisa Strina e o trio Felipe Dmab, Pedro Mendes e Matthew Wood (da Mendes Wood DM). +

Na última semana de outubro, a revista “ArtReview” anunciou o curador Hans Ulrich Obrist como a figura mais poderosa do mundo das artes. Este é o 15º ano em que a revista publica sua lista dos Power 100.
Hans Ulrich Obrist, que figura no Power 100 desde a sua primeira edição, em 2002, é o diretor artístico da Serpentine Galleries e “instigador” de projetos de arte globais. O ranking de 2016 inclui ainda artistas, outros curadores, colecionadores, teóricos, galeristas e outros profissionais ligados a este cenário. Os escolhidos são pessoas que influenciaram internacionalmente a produção e a disseminação da arte e de ideias dentro deste contexto nos últimos 12 meses.
Entre os dez primeiros colocados, estão nomes como Adam Szymcsyk, diretor artístico da Documenta 14, o artista e teórico Hito Steyerl, o galerista Larry Gagosian e Ai Weiwei, único representante asiático deste Top 10.
Dois representantes brasileiros estão no Top 100. Luisa Strina aparece em 57º lugar, presente no ranking desde 2012, mas perdendo duas posições em relação a 2015, considerada pela revista como uma das maiores e melhores condutoras da arte brasileira. Já Felipe Dmab, Pedro Mendes e Matthew Wood ganharam duas posições e aparecem em 91º. À frente da galeria paulistana Mendes Wood DM, entraram na lista em 2014 e desde então vêm ganhando posições. Adriano Pedrosa, que em 2015 aparecia em 96º, não está mais entre os 100 homenageados.
Novos integrantes
Houve uma série de novas entradas na lista deste ano, como o coletivo de artistas indianos Raqs Media Collective no 86º, Zanele Muholi, artista sul-africano, em 95º, e o curador Pablo León de la Barra, em 97º.
Curadores como transformadores
O curador, crítico e escritor Okwui Enwezor aparece na posição 20. Não é surpresa que uma figura tão conhecida, primeiro curador africano da Bienal de Veneza, esteja regularmente neste Top 100. O gala anual da Performa foi dedicado a ele, por seu papel em aumentar a visibilidade da arte sul-africana; ele também supervisiona um programa ambicioso na Haus der Kunst, em Munique. Outros curadores notáveis são a libanesa Christine Tohmé (49º) e o camaronês Koyo Kouoh (75º).
Em nome da arte
O colecionador de Hong Kong e diretor da K11 Art Foundation, Adrian Cheng, vem galgando constantemente a lista desde que seu nome apareceu pela primeira vez, em 2014. No ano passado, ele estava em 76º lugar e este ano, aparece em 54º. Cheng vem se dedicando a fomentar a emergente arte chinesa, especialmente através da KAF, organizando centenas de eventos e estabelecendo relações com instituições como o Palais de Tokyo e o Centre Pompidou.
Em Bangladesh, Nadia e Rajeeb Samdani vêm lapidando o cenário artístico através da Dhaka Art Summit. A 3ª Bienal Dhaka Art Summit aconteceu em fevereiro deste ano e atraiu nomes internacionais à região. A dupla, que aparece em 96º lugar, trabalha agora para inaugurar, em 2018, o primeiro museu do país dedicado à arte contemporânea.
De volta ao Top 100
Outros nomes voltaram à lista, depois de permanecer ausentes por algum tempo. O maior destaque é a curadora da Bienal de Veneza de 2017, Chistine Macel, que voltou ao ranking ocupando o 17º lugar. Ela, que também é curadora-chefe do Centre Pompidou, havia aparecido na lista em 2006 (na 60ª posição).
-
Confira a listagem completa:

1. Hans Ulrich Obrist
2. Adam Szymczyk
3. Iwan & Manuela Wirth
4. David Zwirner
5. Nicholas Serota & Frances Morris
6. Larry Gagosian
7. Hito Steyerl
8. Adam D. Weinberg
9. Wolfgang Tillmans
10. Ai Weiwei
11. Beatrix Ruf
12. Glenn D. Lowry
13. Marian Goodman
14. Monika Sprüth & Philomene Magers
15. Massimiliano Gioni
16. Theaster Gates
17. Christine Macel
18. Bernard Blistène & Serge Lasvignes
19. Marc & Arne Glimcher
20. Okwui Enwezor
21. Patricia Phelps de Cisneros
22. Marc Spiegler
23. Eli & Edythe Broad
24. Pierre Huyghe
25. Tim Blum & Jeff Poe
26. Maja Hoffmann
27. Gavin Brown
28. Nicholas Logsdail, Alex Logsdail & Greg Hilty
29. Thelma Golden
30. Jeff Koons
31. Sadie Coles
32. José Kuri & Mónica Manzutto
33. Jay Jopling
34. Michael Govan
35. François Pinault
36. Rirkrit Tiravanija
37. Anton Vidokle, Julieta Aranda & Brian Kuan Wood
38. Dakis Joannou
39. Daniel Buchholz
40. Sheikha Hoor Al-Qasimi
41. Bernard Arnault
42. Gerhard Richter
43. Donna Haraway
44. Emmanuel Perrotin
45. Miuccia Prada
46. Marina Abramović
47. Isa Genzken
48. Sheena Wagstaff
49. Christine Tohmé
50. Ed Atkins
51. Klaus Biesenbach
52. Richard Chang
53. Barbara Gladstone
54. Adrian Cheng
55. Zhang Wei & Hu Fang
56. Esther Schipper
57. Luisa Strina
58. Matthew Marks
59. Tim Neuger & Burkhard Riemschneider
60. Luc Tuymans
61. Carolyn Christov-Bakargiev
62. William Kentridge
63. Charles Esche
64. Massimo De Carlo
65. Walid Raad
66. Matthew Slotover, Amanda Sharp & Victoria Siddall
67. Liam Gillick
68. Claire Hsu
69. Thaddaeus Ropac
70. Toby Webster & Andrew Hamilton
71. Hou Hanru
72. Patrizia Sandretto Re Rebaudengo
73. Mario Cristiani, Lorenzo Fiaschi & Maurizio Rigillo
74. Olafur Eliasson
75. Koyo Kouoh
76. Lorenz Helbling
77. Hyun-Sook Lee
78. Vincent Worms
79. Eugenio López
80. Christopher Wool
81. Tom Eccles
82. Trevor Paglen
83. Ryas Komu & Bose Krishnamachari
84. Katie Hollander & Nato Thompson
85. Anselm Franke
86. Jeebesh Bagchi, Monica Narula & Shuddhabrata Sengupta
87. Wang Wei & Liu Yiqian
88. Philippe Pirotte
89. Rick Lowe
90. Almine Rech
91. Felipe Dmab, Pedro Mendes & Matthew Wood
92. Eva Presenhuber
93. Yayoi Kusama
94. Eugene Tan
95. Zanele Muholi
96. Nadia & Rajeeb Samdani
97. Pablo León de la Barra
98. Dasha Zhukova
99. Ömer Koç
100. Ragnar Kjartansson

|

Informação da “ArtReview” (artreview.com) reproduzida pelo “Touch of Class” (touchofclass.com.br) | 02/11/16.
Na foto acima, Luisa Strina. Crédito: Ali Karakas.

Francesa Christine Macel será a curadora da Bienal de Veneza em 2017

A 57ª edição da mostra internacional será realizada entre 13 de maio e 26 de novembro de 2017. +

Uma reunião realizada no dia 22/01/16 decretou que a francesa Christine Macel será a diretora do setor de artes visuais da 57ª edição da Bienal de Veneza, uma das principais mostras do mundo.
“A Bienal selecionou Christine Macel como curadora para 2017, com o objetivo de enfatizar o importante papel de artistas em inventar seus próprios universos e injetar generosa vitalidade ao mundo em que vivemos. Sua experiência no departamento de ‘criação contemporânea e prospectiva’ do Centre Pompidou, em Paris, lhe trouxe um ponto de vista rico em observar e identificar novas energias provenientes de diferentes partes do mundo”, afirmou Paolo Baratta, presidente da Bienal de Veneza, em comunicado divulgado no site oficial da mostra, realizada há mais de 120 anos.
Estudiosa de história da arte, Christine é também curadora e inspetora de criação artística da comissão de artes plásticas do Ministério da Cultura francês desde 1995. Sua função como curadora-chefe do Centre Pompidou vem desde 2000, e foi ela a responsável pela fundação e desenvolvimento do departamento de criação contemporânea e prospectiva do museu. A francesa já participou duas vezes da Bienal de Veneza: em 2007, como curadora do pavilhão belga; e em 2013, pelo pavilhão francês.
Christine substitui o nigeriano Okwui Enwezor, diretor da edição de 2015, que teve como tema “as feridas e divisões que permeiam o mundo, e a consciência de que atualmente vivemos a ‘era da ansiedade’”.
Durante a reunião, a diretoria decidiu ainda as datas da 57ª Exibição de Artes da Bienal de Veneza: a mostra será realizada entre 13 de maio e 26 de novembro de 2017.
|
Texto originalmente publicado no jornal “O Globo” | 23/01/16.
Foto: Jean-Claude Planchet.

Facebook censura cupido nu de Caravaggio

Esse é apenas o último exemplo de obras de arte de teor provocativo sofrendo censura na rede social. +

Autointitulado “promotor internacional de arte”, Hamilton Moura Filho, que vive em Milão, é franco nos posts que faz no Facebook, tratando de temas como o desdém dele por Donald Trump, mas ele não buscava causar alvoroço quando postou recentemente uma imagem de uma pintura de um cupido de Caravaggio.
No entanto, por conta disso, ele teve sua conta na rede social suspensa por um período. Esse é apenas o último exemplo de obras de arte de teor provocativo sofrendo censura pelo Facebook. E não faltam exemplos anteriores, como imagens medievais portadas pelo crítico de arte Jerry Saltz, uma escultura anódina de uma sereia em Copenhagen e uma icônica fotografia da Guerra do Vietnã.
O mais famoso episódio de censura desorientada na rede social envolve a famosa pintura “A Origem do Mundo” (1866), de Gustave Courbet, que representa uma mulher nua, com a vagina à mostra. Tal censura levou o professor de arte francês Frederic Durand-Baissas a processar a companhia. Naturalmente, o caso ganhou cobertura da imprensa da Itália à África do Sul até a Inglaterra, na BBC.
A obra agora em questão, “Amor Vincit Omnia” (1602), de Caravaggio, mostra a figura simbólica do amor triunfante sobre esforços humanos como a música (um violino e um alaúde) e a guerra (uma armadura), elementos espalhados aos pés do cupido. A obra é da Gemäldegalerie, de Berlim, um dos museus federais da Alemanha, que a adquiriu em 1815.
O cupido está nu, com as pernas abertas e a genitália à mostra. O Facebook informou Moura Filho que a imagem violava os padrões da rede social. “É um atentado contra a história e a cultura”, disse o usuário censurado ao jornal italiano La Repubblica, adicionando que pretende tomar ações legais.
|
Texto de Brian Boucher originalmente publicado no site “Artnet” (www.artnet.com) | 02/11/16.
Tradução: Everaldo Fioravante.

Bienal Internacional de Buenos Aires 2017

Capital argentina se prepara para criar o maior evento de arte do país. +

Nos dias 5 e 6 de abril, os artistas plásticos Anna Bella Geiger e Cildo Meirelles participaram do 4º Encontro Sur Global promovido pela I Bienal Internacional de Arte Contemporânea em Buenos Aires, a Bienal De Arte De Amer Del Sur, que acontecerá em 2017.

A artista foi entrevistada por Estrella de Diego, crítica de arte de Madri e curadora da exposição de Geiger em Sevilha, que acontecerá em junho deste ano. Quem também participou do evento foi João Fernandes, diretor adjunto do Museo Reina Sofia (Madri), conduzido por Anibal Jozami, diretor da Bienal, que contou com críticos e jornalistas internacionais.

Bienal Internacional de Arte Contemporânea em Buenos Aires

O objetivo da Bienal é definir um formato que funciona com respeito à singularidade redefinindo as posições tradicionais, complementando relações, recuperando tradições, que estabelece outras ligações entre o espaço e o tempo, sendo consistente com o novo paradigma pós autonôno que permite repensar a cena da arte e cultura contemporânea.

Retomando os objetivos do programa cultural da UNASUL, a convocatória desta Bienal Internacional de Arte Contemporânea objetiva:

• Promover e reforçar a cooperação cultural na região.
• Reconhecer e promover o valor central da cultura como base indispensável para o desenvolvimento
e superação da pobreza e desigualdade.
• Promover a redução das assimetrias regionais e sub-regionais com relação à promoção e ao acesso universal à cultura.

Veneza, São Paulo, Shanghai, Havana, Cuenca, cada uma destas e outras bienais existentes, carrega em sua história as marcas de sua origem ligadas de diferentes maneiras às sutis articulações entre o mundo da arte e a política. Procuraram, de diversas maneiras, estabelecer espaços para um convívio que fosse capaz -algumas vezes- de mostrar uma versão na escala do mapa de posições; outras, de ensaiar a convivência e a diluição de fronteiras.

Nelas, as produções simbólicas aparecem como representações de realidades heterogêneas e reproduzem na sede artística, de formas mais ou menos visíveis, esquemas de circulação e posicionamento previstos no âmbito político e econômico internacional.

Os artistas de nossos países costumam ser, na maioria das vezes, parte de um pequeno grupo dentro da diversidade. Por isso, parafraseando Nestor Garcia Canclini, é hora de “refazer os passaportes”, de estabelecer novos espaços nos quais as artes de nossos países assumam “uma presença real no atlas da arte do mundo”, nas palavras de Graciela Speranza.

Espaços

A sede central da Bienal Internacional de Arte Contemporânea da UNASUL será o Centro Cultural Kirchner de Buenos Aires, Argentina. O espaço deste centro permitirá a convivência de obras de grandes formatos que favorecerão a sensação de habitar nelas e com elas. Além disso, este espaço oferece a possibilidade de expor mostras e diversas atividades simultâneas e, ao mesmo tempo, brincando com a própria memória do local –ex-Palácio dos correios e comunicações–
poderá tornar-se o nó para a difusão das atividades realizadas e também o ponto central de uma rede de vetores que irá conectar diferentes espaços, centros de arte, museus, escolas, universidades da cidade (entre os mais próximos e dos restantes como projeção a distância).
|
Texto publicado originalmente n site da Revista DasArtes (http://dasartes.com.br) | 13/04/16

Dupla escandinava Elmgreen & Dragset vai dirigir Bienal de Istambul

Conhecida por instalações e esculturas de grande apelo visual e forte carga política, a dupla diz que "uma bienal pode ser uma plataforma para o diálogo, um formato em que diversas opiniões, perspectivas e comunidades possam conviver". A mostra na metrópole turca ocorre em setembro de 2017. +

Elmgreen & Dragset, dupla de artistas escandinavos, estará à frente da direção artística da próxima Bienal de Istambul, uma das mostras de arte contemporânea mais relevantes do mundo, marcada para setembro do ano que vem na metrópole turca.
O dinamarquês Michael Elmgreen e o norueguês Ingar Dragaset, que já foram namorados e trabalham juntos há mais de duas décadas, são conhecidos por instalações e esculturas de grande apelo visual e forte carga política, entre elas o monumento a homossexuais perseguidos pelo regime nazista em Berlim e uma piscina construída na vertical em Nova York.
Elmgreen & Dragset, que já participaram três vezes como artistas convidados da Bienal de Istambul, agora vão dirigir a mostra.
"Diante da atual situação geopolítica, em que vivemos um novo levante do nacionalismo, será importante fazermos uma bienal baseada em esforços e processos colaborativos", escreveu a dupla num comunicado divulgado pela mostra turca.
"Uma bienal pode ser uma plataforma para o diálogo, um formato em que diversas opiniões, perspectivas e comunidades possam conviver."
Obras da dupla também já estiveram na Bienal de Veneza em 2003 e 2009 e na Bienal de São Paulo em 2002. Na condição de curadores, estiveram à frente dos pavilhões dinamarquês e nórdico na bienal italiana há sete anos, além de terem organizado a mostra "Tomorrow", no museu Victoria & Albert, em Londres, há três anos.
Seguindo o exemplo da Bienal de Berlim, marcada para junho deste ano, a Bienal de Istambul também escolheu artistas para ocupar o papel de curadores. A mostra alemã terá como diretor artístico o coletivo norte-americano DIS.
|
Texto de Silas Martí originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 13/04/16.
Na foto, Elmgreen (dir.) e Dragset (esq.) e a escultura “Han(He)”, de autoria deles.
Crédito da foto: Jens Nørgaard Larsen / AFP / Getty Images.

Tarsila do Amaral ganha exposição gigante no MoMA de Nova York

Mais de cem telas clássicas devem fazer parte da retrospectiva, entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018. +

A pintora modernista brasileira Tarsila do Amaral ganhará a sua primeira megaexposição nos Estados Unidos a partir do ano que vem. Entre outubro de 2017 e fevereiro de 2018, ela passará pelo Art Institute of Chicago e pelo MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York.
Aproximadamente cem obras devem fazer parte das exposições, incluindo os maiores trabalhos, como “Abaporu”, “Antropofagia”, “A Negra” e o "Sapo". “Será uma forma de apresentar a artista e também o nascimento e a consolidação do modernismo brasileiro”, escreveram os curadores ao jornal “Folha de S. Paulo”.
Para eles, Tarsila “é um exemplo brilhante de deslocamento e transformação”, perfeita para a intenção dos museus de buscar novas “vozes e perspectivas” sobre a arte moderna.
Para os curadores, suas telas são “ícones do modernismo latino-americano”, feitas com “refinamento e equilíbrio”. Segundo Pérez-Oramas, do MoMA, “o museu ignorou esses artistas, e agora é importante incluir esses nomes centrais para o desenvolvimento do modernismo em seus países.”
|
Texto originalmente publicado no site da revista “ARTE!Brasileiros” (http://brasileiros.com.br).

Basquiat ganha primeira retrospectiva em Londres

O Barbican Centre vai abrigar de 21/09/2017 a 28/01/2018 mostra com 100 obras do artista nova-iorquino Jean-Michel Basquiat (1960-1988), um dos mais importantes nomes da arte contemporânea. +

O Barbican Centre vai abrigar de 21/09/2017 a 28/01/2018 a mostra “Boom for Real”, primeira retrospectiva em Londres do nova-iorquino Jean-Michel Basquiat (1960-1988), um dos mais importantes nomes da arte contemporânea. Cerca de 100 obras, tanto pinturas famosas quanto pouco conhecidas, além de desenhos, xerox e anotações, vão traçar um panorama das primeiras fases do artista. A curadoria é de Eleanor Nairne.
Como as coleções públicas do Reino Unido não possuem obras dele, a mostra será uma oportunidade única para o público. A última mostra do artista no Reino Unido foi na galeria Fruitmarket, em Edimburgo (Escócia), em 1984.
A produção de Basquiat trata de temas como injustiça racial, identidade e cultura pop. São retratos do cenário violento e caótico de Nova York nos anos 1980. A mostra ainda explora a relação dele com a música, filme e TV.
A estreia do artista foi em 1981, na mostra "New York / New Wave", no MoMa P.S.1, a qual será reconstruída em Londres para o evento (17 obras já estão garantidas, mas faltam cinco outras).
Basquiat ficou conhecido no início daquela década, expondo ao lado de outros importantes artistas, como Keith Haring (1958-1990), além de colaborações com o amigo, Andy Warhol (1928-1987). No mesmo período, teve um relacionamento com Madonna.
As obras dele, originalmente grafiteiro, hoje atingem a cifra dos milhões de dólares. Após a morte de Basquiat, a produção dele tem movimentado o mercado. Em 2015, o colecionador malásio Jho Low comprou a obra "Dustheads" (1982) por US$ 48,8 milhões. Low, por conta de situação financeira, revendeu o trabalho em abril passado (para Daniel Sundheim, profissional de fundos de investimentos, de Connecticut) a preço inferior ao que pagou, por US$ 35 milhões.
Segundo a curadora Eleanor, as obras de Basquiat já atingiam valores elevados com o artista em vida: "Galeristas como Annina Nosei, Mary Boone e Larry Gagosian reconheceram o brilhantismo dele desde bem jovem”.
|
Com informações dos sites "Artnet" (www.artnet.com), "FFW" (ffw.uol.com.br) e "GQ" (gq.globo.com).

Palermo será sede da Manifesta 12

O evento, em 2018, levará em conta as características nômade e de migração da cidade italiana. +

Leoluca Orlando, prefeito de Palermo, Hedwig Fijen, diretor da bienal Manifesta, e Ippolito Pestellini Laparelli, sócio do escritório de arquitetura OMA (Office of Metropolitan Architecture), de Londres, anunciaram uma parceria. O OMA foi escolhida para transmitir, a partir de meios criativos, a complexa estrutura arquitetônica e urbana da cidade de Palermo. Embora não haja ainda detalhes a respeito da direção artística da próxima edição da bienal, a parceria com o OMA revela uma reestruturação.
“Para a próxima edição, sinto a necessidade de mudança no modelo curatorial”, informou Fijen. “Após ter trabalhado com um único artista como curador na Manifesta 11, em Zurique, a edição de Palermo vai apresentar um projeto interdisciplinar sustentável. O foco é em como a Manifesta 12 pode ajudar no desenvolvimento de novas regras e instrumentos para as comunidades locais”, explicou.
O OMA é um escritório de arquitetura e centro de pesquisas que vai unir uma equipe interdisciplinar para investigar como as cidades contemporâneas são afetadas por turismo, gentrificação, migração e mudanças climáticas. A equipe de especialistas vai ajudar a traduzir a visão artística da bienal para um programa acessível realizado em diversos espaços de Palermo.
Traços de história multicultural estão escritas na estrutura da cidade: ela foi ocupada por numerosas civilizações européias e está conectada com o Norte da África e o Mediterrâneo oriental nos últimos 2 mil anos.
“No atual clima político, a história e características de Palermo fazem da cidade um laboratório ideal para novos pensamentos, por conta da perspectiva do Mediterrâneo e dos valores liberais e para abordar problemas cruciais para o presente e futuro das cidades da Europa”, disse Laparelli.
Leoluca Orlando reitera a importância de pensar na questão da migração: “Após a declaração como patrimônios mundiais pela Unesco da Palermo árabe-normanda e das catedrais de Cefalù e Monreale, Palermo é confirmada como uma cidade de vocação nômade e de migração. Sendo um local de características nômade e de migração, nós consideramos a Manifesta como um dos mais importantes eventos internacionais de cultura e arte contemporâneas”.
O conceito curatorial da Manifesta 12 e a equipe organizadora serão anunciados no início de 2017. O evento ocorrerá em 2018.
|
Texto de Hili Perlson originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (www.artnet.com) | 23/11/16.

Inauguração da Carpintaria dá início à ocupação cultural do Jockey Club do Rio

Fortes Vilaça, uma das mais importantes galerias de São Paulo, administra o espaço. +

O desejo pelo Rio era antigo. Até que, em 2013, um convite para ocupar um espaço desativado do Jockey Club, na Gávea, deu início ao flerte. Neste fim de semana, enfim, a Fortes Vilaça, uma das mais destacadas galerias de arte de São Paulo, finca raízes na cidade e inaugura a Carpintaria. O novo espaço é o primeiro de cinco empreendimentos culturais e de entretenimento previstos para o local: depois dele, serão abertos, até maio de 2017, a Casa Camolese, de Vik Muniz e Cello Macedo, a nova sede da galeria Nara Roesler, e a OM.Art, de Oskar Metsavaht (leia mais abaixo). O quinto empreendimento ainda está sendo discutido. A livraria Blooks chegou a ser convidada, mas não fechou negócio.
— A expectativa é muito alta — diz Marcia Fortes, que aproveita a inauguração no Rio para anunciar que a galeria paulistana também irá mudar de nome: a partir deste fim de semana passa a se chamar Fortes D’Aloia & Gabriel, com o atual sobrenome de Alessanda (D’Aloia) e a inclusão do sobrenome de seu novo sócio, Alex Gabriel. — Este lugar é para ser um point clássico do Rio, e estava abandonado, tomado por gatos e gambás. O Jardim Botânico é o terceiro ponto turístico da cidade, atrás do Cristo e do Pão de Açúcar. Queremos que essa ocupação cultural crie um percurso de transeuntes por aqui.
Para chegar ao novo espaço, o visitante deve entrar pela Rua Jardim Botânico, ao lado do restaurante Rubaiyat, onde há um estacionamento pago. Ou então pelo portão principal do Jockey, em frente à Praça Santos Dumont, e seguir andando. As construções têm a frente virada para o prado, e, quando ficarem todas prontas, irão compartilhar o jardim.
Enquanto os vizinhos não chegam, a Carpintaria movimenta o local. A exposição inaugural, Uma canção para o Rio, reúne trabalhos de mais de 20 artistas estrangeiros e brasileiros, com curadoria de Douglas Fogle e Hanneke Skerat, de Los Angeles. Ela será realizada em duas fases (a segunda abre em 11 de fevereiro).
— Quando penso no Rio, penso em música, sons, grandes músicos em todos os níveis — diz Fogle. — Então, quando começamos a elaborar essa exposição, nos imaginamos escrevendo uma música para o Rio. Pusemos juntos artistas que utilizam o som e outros que não utilizam, mas que se referem a ele visualmente.
No primeiro caso estão obras como “Composition for flutes (II)”, de 2011, uma escultura suspensa, criada pelo galês Cerith Wyn Evans, e que emite sons eletroacústicos, ou “Long gone”, instalação sonora da escocesa Susan Philipsz. No caso dos trabalhos que fazem referência visual ao som, estão telas em que o americano Dave Muller reproduz CDs. Está, ainda, a colagem de capas de vinis do também americano Christian Marclay. Conhecido por sua obra em vídeo, ele ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 2011 com “The clock”, filme de 24 horas que será exibido na inauguração do novo Instituto Moreira Salles de SP, em 2017.
— Marclay começou a carreira como DJ, veio da cultura clubber. É muito interessante a maneira como usa os discos de vinil como objetos para criar um corpo — observa Fogle, também associando a cultura clubber a outro artista, o britânico Mark Leckey, que chamou atenção com vídeos no YouTube e atualmente ocupa uma grande mostra individual no MoMA PS1, em Nova York. Na Carpintaria, será exibido seu trabalho “Fiorucci made me hardcore”.
Entre os brasileiros desta primeira fase da exposição, há a dupla Barbara Wagner e Benjamin de Burca, com a videoinstalação “Faz que vai”, e Ernesto Neto, com “Composição para surdos” e “NaveMeditaFeNuJardim”.
Marcia deixa claro que a ideia da nova galeria é ser um lugar de experimentação:
— É um local para ventilar novas ideias. Queremos tratar de diálogos mais amplos entre várias expressões artísticas, mas sempre tendo como referência as artes plásticas.

|

O que mais vem por ali

Casa Camolese
Complexo de restaurante, cervejaria artesanal e jazz club, a casa do empresário Cello Macedo e do artista Vik Muniz abre as portas em janeiro. O projeto é da arquiteta Bel Lobo.

OM.Art
Galeria de arte e ateliê, também com projeto de Bel Lobo, o novo espaço do empresário, estilista e artista Oskar Metsavaht tem inauguração prevista para maio de 2017.

Galeria Nara Roesler
A casa paulistana, que chegou ao Rio em 2014, deixa seu endereço em Ipanema e muda-se para o Jockey Club em abril de 2017. O arquiteto Miguel Pinto Guimarães assina o novo projeto.

|

Texto de Nani Rubin originalmente publicado no jornal "O Globo" | 18/11/16.

Coleção de arte ocidental do iraniano TMoCA é exibida em Berlim

A coleção do Tehran Museum of Contemporary Art ganha mostra na National Gallery de Berlim até fevereiro de 2017. É a primeira vez que o acervo será exibido fora do Irã. São obras de Monet, Francis Bacon, Picasso, Giacometti, Pollock e vários outros artistas. +

Após muita especulação e complexas negociações, foi confirmado que a grande coleção de arte ocidental do Tehran Museum of Contemporary Art (TMoCA) será exibida na National Gallery de Berlim de dezembro de 2016 a fevereiro de 2017. Será a primeira vez que o muito bem-guardado acervo será exibido fora do Irã.
Hermann Parzinger, presidente da Prussian Cultural Foundation, que gerencia os museus estatais de Berlim, e Majid Mollanoroozi, diretor do TMoCA, assinaram recentemente o contrato, segundo informação da revista de arte alemã “Monopol”.
Farah Diba Pahlavi, a glamurosa esposa do último xá iraniano, Mohammad Reza Pahlavi, montou a coleção junto ao primo Kamran Diba, que foi o primeiro diretor do museu, de acordo com a “Bloomberg”.
Durante os anos 1970, financiados pela riqueza do petróleo iraniano, eles atuaram com compradores anônimos para adquirir obras de artistas como Claude Monet, Francis Bacon, Pablo Picasso, Max Ernst, Georges Braque, Alberto Giacometti,Jackson Pollock, Mark Rothko, Donald Judd, Andy Warhol, René Magritte,Duane Hanson e Chuck Close, trabalhos adquiridos de galerias ocidentais e em leilões.
Dois anos após a conclusão do museu, a revolução islâmica de 1979 colocou fim ao regime liberal, mas também brutal, do xá. Após o ayatollah Ruhollah Khomeini lutar contra a “desintoxicação” ocidental do Irã, a coleção foi para um depósito. Enquanto o TMoCA tentou exibir peças individualmente, boa parte da coleção ficou em caixotes, longe do público.
De qualquer forma, surgiram críticas em relação aos custos da exposição em Berlim. Segundo o “Die Welt”, o investimento seria de algo em torno de € 3 milhões.
De acordo com a mídia alemã, o governo está usando a mostra para abrir oportunidades de negócios com o Irã. Frank-Walter Steinmeier, ministro das relações exteriores da Alemanha, disse ao “Tagesspiegel” que a mostra será um “sinal de abertura cultural e social" entre Irã e Alemanha.
|
Texto de Henri Neuendorf originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (www.artnet.com) | 16/05/16.
Na foto, obra de Jackson Pollock no TMoCA.

Armory Show vai oferecer vista para o Rio Hudson (Nova York)

O lounge VIP da feira foi realocado. Com grandes janela e varanda, oferecerá vista para o rio Hudson, uma pausa para quem estiver cansado de percorrer os corredores da feira. A próxima edição do evento será em março de 2017. +

Uma nova planta e um lounge VIP na feira anual Armory Show, em Nova York, realizada em píers no rio Hudson, devem abrilhantar a atmosfera do evento em março de 2017. O panorama do rio deve agora ser proporcionado aos visitantes. No lounge VIP, realocado do píer 94 para o 92, com grandes janela e varanda, oferecerá uma pausa para quem estiver cansado de percorrer os corredores da feira. Nota do Mapa das Artes: a feira carioca ArtRio há seis anos oferece vista para a Baía da Guanabara.
O escritório de arquitetura Bade Stageberg Cox é o responsável pelo design da Armory Show desde 2012. Também assina os projetos da Alexander & Bonin Gallery, de Nova York, o museu privado Art Cave, na Califórnia, e o recente redesign d National Academy of Design, também em Nova York.
O lounge VIP servirá ainda como cenário para uma nova obra de arte encomendada a cada ano. A instalação inaugural é do artista japonês Jun Kaneko, que já realizou obras públicas em cidades como Boston, Kansas City, Osaka e Xangai.
Melhorar a oferta de restaurantes também está nos planos do novo diretor Ben Genocchio. O renomado Il Buco Alimentari e Vineria, de Nova York, é um dos novos fornecedores da feira.
"A transferência do lounge VIP para o píer 92 integra uma ampla estratégia de utilização da estrutura industrial crua dos píers e a localização única no centro de Manhattan, à beira do rio Hudson", disse Genocchio via e-mail. "Abrimos o espaço para o rio e para a luz, revelando vistas extraordinárias do horizonte de Manhattan e criando uma oportunidade para os visitantes desfrutarem da grande varanda no meio do rio".
Outras iniciativas de Genocchio são a suavização da separação entre arte moderna e contemporânea e a apresentação de instalações de grande escala que aproveitam o ambiente espaçoso. A estratégia de Genocchio dá prosseguimento ao trabalho do antecessor Noah Horowitz, que foi para a Art Basel em 2016. São considerados upgrades consideráveis para a feira, que, antes de Genocchio, havia sido colocada à venda pela proprietária, a Merchandise Mart Properties.
|
Texto de Brian Boucher originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (www.artnet.com) | 08/11/16.
Na foto, representação de como será o lounge VIP.

O novo papel dos museus, por Marcelo Araujo

Atual presidente do IBRAM fala sobre avanços de políticas públicas para museus no século 21. +

Um passo importante para se pensar os museus, nos âmbitos local e global, foi dado em novembro de 2015, quando a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) aprovou, a partir de uma proposta brasileira, o documento "Recomendação sobre a Proteção e a Promoção de Museus e Coleções, sua Diversidade e seu Papel na Sociedade".

Trata-se de uma conquista dos países que participam da conformação de diretrizes internacionais sobre os museus, além de passo importante para o aprimoramento dessas instituições frente aos novos desafios que assumem no mundo contemporâneo.

A recomendação reconhece o papel central dos museus como instituições fundamentais para a implementação de políticas culturais.

Também destaca a importância da qualificação dos profissionais que atuam nessas instituições, com foco no desenvolvimento das relações entre museus e público.

Num cenário em que cresce a participação social e econômica dos museus em suas comunidades, é necessário prepará-los para utilizar de maneira crítica as novas tecnologias.

Neste mês de novembro, a China sediou, na cidade de Shenzhen, o Fórum de Alto Nível sobre Museus, organizado pela Unesco, que reuniu especialistas de diversos países com o objetivo de refletir e contribuir com estratégias para implementar as orientações que constam da recomendação.

A repercussão gerada pela aprovação do documento tem mobilizado instituições culturais em todo o mundo, e o fórum se constituiu em um espaço qualificado para ampliar esse debate e pensar os museus no século 21.

Ao trazer essas questões para a nossa realidade, vemos que a estrutura jurídico-administrativa brasileira já incorpora importantes diretrizes incluídas no texto.

A Política Nacional de Museus, o Sistema Brasileiro de Museus e o Estatuto de Museus são evidências do grande avanço da área nos últimos dez anos.

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, cumpre papel fundamental nesse processo, como órgão federal responsável pela operacionalização dessa estrutura e pela gestão direta de 29 instituições em nove Estados da Federação.

É tarefa do Ibram desenvolver mecanismos para que esse riquíssimo universo ganhe maior visibilidade e consistência.

Em breve iremos disponibilizar ao setor o Registro de Museus, ferramenta fundamental para o mapeamento da área e para o planejamento integrado de ações.

Os dados que conseguiremos com esse instrumento serão imprescindíveis para visualizarmos o impacto das atividades museológicas em suas múltiplas dimensões, incluindo a econômica.

Entendemos que as políticas públicas, em todos os níveis federativos, têm muito a contribuir para a implementação de ações que fortaleçam os aspectos pautados pela recomendação da Unesco.

Essa discussão que fazemos juntos aos museus brasileiros culminará, em junho de 2017, na realização do sétimo Fórum Nacional de Museus, em Porto Alegre.

O Ibram convida, desde já, os profissionais do setor, pesquisadores e toda a sociedade brasileira para refletirmos sobre o documento da Unesco e o caminho a ser trilhado pelos museus no Brasil.

MARCELO ARAUJO é presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo (2002 a 2012) e secretário de Cultura do Estado de São Paulo (gestão Geraldo Alckmin)

|
Texto de Marcelo Araujo publicado no jornal Folha de São Paulo | 23/11/16.

O que os curadores realmente fazem?

Texto do site “Artnet” aborda as funções dos curadores no atual cenário da arte contemporânea. +

Qual o papel dos curadores no mundo da arte contemporânea? Frequentemente trabalhando nos bastidores, eles são muito influentes em relação à arte que a gente vê em galerias e museus e, como consequência, determinam sobre o que a crítica escreve.
“Hoje em dia, a curadoria é uma função com ao menos quatro significados”, escreveu no “The Guardian” Hans Ulrich Obrist, curador e codiretor da Serpentine Galleries, de Londres. “Significa preservar, no sentido de proteger o patrimônio artístico; selecionar novas obras; fazer conexões com a história da arte; e expor e organizar obras”.
Sendo assim, curadores estão envolvidos em todas as facetas das funções museais, o que o museólogo holandês Peter van Mensch define como preservação, comunicação e estudo. Curadores também desempenham funções nos processos de aquisição e seleção das instituições, decidindo como alocar orçamentos e decidindo que obras serão expostas.
Por fim, decidem como obras são expostas em galerias e a forma como será a fruição entre o público e elas (a experiência proporcionada pelas obras/mostras aos espectadores), isso a partir de estudos sobre como as exibições têm coerência histórica e promovem o entretenimento.
Em declaração ao site “Artnet”, o curador italiano Franceso Bonami diz que, no cenário comercial de arte atual, curadores têm a importante tarefa de destacar as dimensões não comerciais da arte. Segundo ele, curadores “validam uma espécie de conteúdo intelectual e não importa o valor louco que a arte possa demandar, pois ela ainda é algo necessário à sociedade”.
A dupla capacidade de agir como influenciador de gostos e validador tem resultado em um pequeno grupo de proeminentes “curadores estrelas” ganhando posições no meio da arte contemporânea, no qual eles podem construir ou destruir a carreira de artistas. Em alguns casos, a celebridade de curadores pode até se sobrepor ao trabalho dos artistas com quem eles trabalham.
O primeiro curador a adquirir esse status foi Henry Geldzahler, de quem a exposição “New York Painters and Sculptors of 1940-1970”, em 1969 no Metropolitan Museum, em Nova York, lançou a carreira de artistas como Andy Warhol, Jasper Johns, Roy Lichtenstein, Frank Stella, David Hockney e James Rosenquist. Segundo o “The New York Times”, Geldzahler certa vez foi chamado de “o mais poderoso e controverso curador vivo”.
Embora tenha recentemente figurado na lista de “titãs” realizada pelo site “Artnet”, relacionado entre as pessoas mais poderosas da arte mundial, Obrist insiste que, em primeiro lugar, ele se vê como um facilitador. “Venho percebendo que o papel dos curadores é mais do que apenas de capacitadores. Nunca pensei em curadores como rivais criativos de artistas. Quando me tornei curador, eu queria apoiar os artistas, ser uma espécie de parceiro”.
Curadores também podem exercer papéis de ativismo. Jamillah James, recém indicada curadora do Institute of Contemporary Art de Los Angeles, descreveu seu papel em uma recente entrevista ao “ArtSlant”. “Meu compromisso é ainda o de dar voz a artistas negros, mulheres e homossexuais em instituições e respaldar a contribuição deles no discurso da história da arte. Usar a plataforma curatorial para advogar e como forma de ativismo é uma responsabilidade e uma honra que eu não quero desempenhar de maneira tímida”.
|
Texto de Henri Neuendorf originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (www.artnet.com) | 10/11/16.
Na foto, Jamillah James. Crédito: Paul Mpagi Sepuya.
Tradução: Everaldo Fioravante.

Para Francesco Bonami, curadores são irrelevantes

O renomado curador italiano aborda o declínio do papel do curador no mundo da arte de hoje. +

Ainda há lugar para os curadores na arte contemporânea? Curadores acadêmicos altamente especializados estão cada vez mais sendo colocados à margem no mundo da arte. Por exemplo, a bienal de Berlim tem curadoria do coletivo de artistas norte-americano DIS; a Manifesta, em Zurique, tem o artista alemão Christian Jankowski como curador; e a Bienal de Istanbul Biennial de 2017 terá o duo de artista Elmgreen & Dragset na curadoria.
Até o comediante Steve Martin foi curador de uma mostra do artista canadense de paisagens Lawren Harris no Hammer Museum, em Los Angeles, agora em cartaz no MFA, em Boston, e que depois seguirá para a Art Gallery of Ontario.
Curadorias costumavam ser reservadas para historiadores de arte especializados e enquanto mais e mais escolas de arte ofereciam cursos de curadoria, os graduados nesses programas eram deixados de lado, com artistas e não especialistas no lugar deles.
Então, o que vem mudando? Falamos com o renomado curador italiano Francesco Bonami sobre o assunto. Ele abordou o declínio do papel do curador, como o mundo da arte se tornou chato e os desafios que enfrentou ao tornar-se um curador-estrela.

|

Qual é o papel do curador no mundo da arte hoje?
Nós validamos tipos de conteúdo intelectual que mesmo o galerista mais insensível parece precisar, a fim de manter algum tipo de credibilidade. Na arte, não importam os valores loucos que ela possa exigir. Ela ainda é necessária à sociedade por conta do conteúdo e da história que é capaz de agregar. Também nos faz esquecer que, cedo ou tarde, morreremos. Mesmo no último romance de Don DeLillo, parece que um bom congelador poderia até mesmo mudar o inevitável, a morte. Se isso acontecer, talvez os curadores não serão mais necessários.

Como o papel dos curadores mudou nos últimos dez anos?
Nos tornamos ilusórios, totalmente irrelevantes em relação ao mercado e à carreira dos artistas.

Porque os trabalhos de curadoria estão cada vez mais nas mãos de artistas e de não especialistas?
Porque o sistema de arte tem esgotado todas as opções possíveis para desafiar o tédio.

Os curadores são hoje uma raça em extinção?
Acho que somos como a pintura, sempre à beira de ser declarada morta, mas ainda bastante viva. Para criar uma boa pintura é muito difícil. O mesmo pode ser dito sobre ser um bom curador. É muito difícil não se tornar uma paródia de nós mesmos, o nosso próprio Robert De Niro, interpretando De Niro, no papel de De Niro. Basta ser você mesmo naturalmente. Talvez seja esse o segredo para não se sermos extintos?

A ascensão dos curadores-estrela impede que curadores emergentes se destaquem?
Não creio nisso. Assumo que sou ou que fui considerado um curador-estrela. Pessoas como Massimiliano Gioni, Gary Carrion Murayari, Cecilia Alemani, Margot Norton e alguns outros surgiram da minha prática graças ao próprio talento. Se você é bom, continuará sendo bom, não interessando que dispute com você. Se você é ruim, será sempre ruim, mesmo que tenha um caminho vazio à frente para prosseguir. Eu tive à minha frente uma geração de estrelas idiotas, uma parede de energia egomaníaca, faminta, e acho que mesmo assim agi bem. Não posso reclamar. Também tive sorte.

Acha que o público de hoje tem menos apreço por exposições “cabeça” e bem curadas?
Não. Creio que o público cresceu imensamente nos últimos 25 anos, então o nosso desafio de ser acessível é enorme. Éramos curadores pregando para convertidos. Quem se atrevesse a dizer que uma caixa de sapatos vazia em um museu era uma bobeira era taxado de imbecil. Hoje, se você não tiver a capacidade como curador de articular em uma linguagem compreensível o porquê de uma caixa de sapato vazia ser uma obra de arte, você que é um imbecil. Então não acredito que seja uma falha do público rejeitar como trabalhos de arte certas exposições obscuras criptografadas. Se você tiver um pensamento sincero, o público vai te acompanhar.

|

Texto de Henri Neuendorf originalmente publicado, em inglês, no site “Artnet” (www.artnet.com) | 07/06/16.