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A menor bienal do mundo

O evento, aberto em 06/01/17, ocorre em uma remota ilha caribenha, a qual está desaparecendo por conta do aumento do nível do mar. A mostra reúne trabalhos de 14 artistas. +

Quão pequena é a menor bienal de arte do mundo? Tão pequena que o aumento dos níveis do mar está lentamente causando o desaparecimento do pequeno pedaço de terra em que ela está sendo mantida. Situada na ilha caribenha remota e desabitada de Ilet de La Biche, dentro de Grand Cul-de-Sac Marin, reserva marinha natural da Guadalupe, a Bienal de La Biche abriu sua primeira – e talvez única – edição em 06/01/17.
Fundada e curada por Alex Urso e Maess Anand e intitulada “Em uma Terra de”, a edição inaugural da Bienal de La Biche inclui o trabalho de 14 artistas de todo o mundo, cada um dos quais foi convidado a criar uma obra de arte que abraça a localização como um local isolado geograficamente longe dos limites de um sistema de arte contemporânea.
De acordo com a declaração curatorial, a Bienal desafia os artistas a perceberem a ilha como um local temporário e que está desaparecendo. “O artista foi, portanto, convidado a interpretar o conceito de não-lugar, elaborando uma obra que pode refletir a transitoriedade do tempo e a insegurança absoluta a que a ilha está atualmente sujeita”, diz.
Os artistas participantes na Bienal de La Biche são: Karolina Bielawska, Norbert Delman, Michal Frydrych, Maess, Aleksandra Urban, Lukasz Ratz e Zuza Ziołkowska-Hercberg (Polônia), Ryts Monet, Lapo Simeoni e Alex Urso (Itália), Styrmir Örn Guðmundsson (Islândia), Jeremie Paul (França), Saku Soukka (Finlândia) e Yaelle Wisznicki Levi (EUA / Polônia).
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Texto originalmente publicado no site "Dasartes" (dasartes.com.br) | 26/01/17.

Retrospectiva na Tate reúne esculturas icônicas de Giacometti

O museu de Londres realiza uma grande exposição do suíço Alberto Giacometti (1901-1966) de 10/05/17 a 10/10/17. +

A Tate Modern, em Londres, realiza uma grande exposição do suíço Alberto Giacometti (1901-1966) de 10/05/17 a 10/10/17. As seis “Woman of Venice”, criadas em 1956 para a Bienal de Veneza, serão reunidas pela primeira vez. Elas serão exibidas ao lado de mais duas esculturas da série, que Giacometti apresentou na Kunsthalle Berne naquele mesmo ano. As obras foram especialmente restauradas e remontadas para a exposição da Tate, realizada em parceria com a Fondation Alberto et Annette Giacometti, de Paris. Uma oportunidade rara de ver este grupo importante de trabalhos frágeis como o artista vislumbrou originalmente.
Obras representam um marco na trajetória de Giacometti
Escolhido para representar a França na Bienal de Veneza de 1956, ele apresentou um grupo de esculturas em gesso recém-feitas para a exposição, todas retratando um alongado nu feminino, em pé. As obras representam uma etapa crucial no desenvolvimento artístico de Giacometti e foram o resultado do estudo de sua esposa Annette, um de seus modelos mais importantes. As esculturas podem ser vistas como um ponto culminante das experimentações ao longo da vida do artista para retratar a realidade da forma humana.
Embora Giacometti seja mais conhecido por suas figuras de bronze, a Tate irá reposicioná-lo como um artista com um interesse muito mais amplo em materiais e texturas, especialmente gesso, argila e tinta. Ao longo de cerca de três semanas, Giacometti moldou cada uma das mulheres de Veneza em barro antes de fundi-las em gesso e reformulá-las com uma faca para acentuar ainda mais a sua superfície. A elasticidade e maleabilidade destes materiais permitiram-lhe trabalhar de forma inventiva. Giacometti também embelezou a superfície de várias obras da série com tinta vermelha e preta, um elemento importante de sua prática que só pode ser experimentado ao ver as esculturas de gesso originais.
Exposição abrangente
Graças ao inigualável acesso à extraordinária coleção e arquivo da Fondation Alberto et Annette Giacometti, a Tate Modern conseguiu reunir essas obras raramente vistas. O extenso projeto de restauração realizado pela fundação oferecerá aos visitantes uma nova perspectiva sobre os métodos de trabalho de Giacometti. As obras foram devolvidas ao seu estado original mostrando as marcas de pintura e canivete não visíveis nos moldes de bronze posteriores. A exposição também incluirá outras esculturas de gesso importantes, desenhos e cadernos de desenho que nunca foram mostrados antes.
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Fonte: site "Touch of Class" (www.touchofclass.com.br) | 25/01/17.

Design e arquitetura brasileiros conquistam 9º lugar em lista de 88 países

O último ranking do WorldDesignRankings.com mostra o Brasil em 9º lugar, à frente de países como Alemanha, França e Holanda. +

Não é só de futebol e carnaval que vive a imagem brasileira lá fora. Não é de hoje que o país também exporta maravilhas em design e arquitetura. Além dos projetos e peças em destaque nas vitrines mundiais, a assinatura brasileira ganha reconhecimento em premiações. O último ranking do WorldDesignRankings.com mostra o Brasil em 9º lugar numa lista de 88 países.
Este site elenca os países de acordo com o número de designers premiados no A' Design Award de 2010 a 2016. Na liderança aparece os Estados Unidos, seguidos de Turquia, China, Hong Kong, Taiwan, Itália, Grã Bretanha e Japão. O Brasil aparece na frente de grandes nomes do design, como Alemanha, França e Holanda.
Entre os profissionais brasileiros mais premiados estão o designer Andre Gurgel e o arquiteto Felipe Bezerra do Estúdio Mula Preta (reponsáveis por projetos como a loungechair Duna), a arquiteta Fernanda Marques (que projetou a Fazenda Boa Vista, em São Paulo), o designer Marcelo Lopes, o arquiteto Márcio Kogan (que projetou o Bar Riviera, em São Paulo), entre outros.
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Texto originalmente publicado no site UOL (www.uol.combr) | 25/01/17.

Pinacoteca do Estado de SP vai ganhar mais uma sede em 2018

Prédio de antigo colégio na Luz foi cedido pela Secretaria de Estado de Cultura; espaço terá foco na arte contemporânea e projeto de residência. +

Após anos de negociações, a Pinacoteca do Estado de São Paulo conseguiu a cessão do complexo arquitetônico onde funcionou até 2014 o Grupo Escolar Prudente de Moraes, na Avenida Tiradentes, dentro do Parque da Luz. A nova unidade, que deve ser inaugurada em 2018, hospedará parte do acervo e terá foco em atividades relacionadas à produção de arte contemporânea.
O anúncio da expansão será feito oficialmente na próxima quarta-feira (25/01/17), quando o museu organiza uma programação de shows e atividades recreativas para comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.
Os planos de expansão da Pinacoteca remontam à gestão de Marcelo Araújo no museu. O terreno do colégio, com cerca de 7 mil m², pertencia à Secretaria de Educação do Estado antes de ser passado à Secretaria de Cultura. Para o novo espaço, a Pinacoteca planeja adaptações e reformas, investindo inicialmente algo em torno de R$ 5 milhões, que virão de recursos já existentes do museu e verba captada junto à iniciativa privada.
“Não será apenas mais um espaço de exibição da nossa coleção, mas um lugar de fomento à produção artística contemporânea”, explica o diretor-geral do museu, Tadeu Chiarelli.
Com o nome de Pina Contemporânea, a nova unidade pretende hospedar projetos de residência artística e programas de apoio a jovens artistas. A Pinacoteca já possui projetos de experimentação, como a montagem de obras site specific no octógono do prédio da Luz. Atualmente, o lugar exibe, por exemplo, criações desse tipo dos artistas Fernando Limberger e Ana Maria Tavares. O projeto inicial do colégio foi feito pelo Escritório Ramos de Azevedo. No entanto, parte do prédio foi comprometido em um incêndio nos anos 1930. Ele passou por reformas e ganhou uma arquitetura modernista, por Hélio Duarte.
O anúncio da expansão coincide com o fim da gestão de Chiarelli, que passará a diretoria, a partir de maio, para o alemão Jochen Volz, curador da 32ª Bienal de São Paulo e da participação oficial brasileira na 57ª Bienal Internacional de Arte de Veneza, neste ano. A passagem de Chiarelli pela diretoria da Pinacoteca ficou conhecida por repensar a coleção de cerca de 10 mil peças e pela reestruturação dos dois prédios atuais.
Segundo ele, com a expansão, a exibição do acervo será distribuída de forma cronológica entre as três sedes. Na Luz, estarão obras desde o fim do período colonial até os 1970 – o que já acontece com as atuais mostras permanentes sobre arte brasileira. Já a Estação ficará com a produção artística até os anos 2000. A nova Pina Contemporânea focará na produção mais recente, a partir de 2010.
Além do início das obras da nova unidade, neste ano, a Pinacoteca também terá exposições da fotógrafa alemã Candida Höfer e do artista belga David Claerbout, além de uma retrospectiva do modernista Di Cavalcanti. Em 2018, está prevista uma mostra com acervo do Museu d’Orsay, de Paris.
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Texto de Celso Filho originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” | 23/01/17.

“Copan” da Luz inicia parceria público-privada de moradia no país

Construção terá 1.202 apartamentos populares e foi concebida para ajudar na revitalização do centro +

A inauguração da rodoviária da Luz, em 1961, foi um dos fatores que contribuíram para a decadência do centro. O movimento afugentou de lá muitos moradores, que se mudaram para bairros como Higienópolis. O terminal acabou sendo desativado em 1982, e o terreno de 18 000 metros quadrados ficou abandonado. Agora, vai abrigar um empreendimento que tem por finalidade revitalizar a região. A partir desta segunda, 23, começa a ser erguido ali o Complexo Júlio Prestes, um conjunto de oito blocos de uso misto.
Os edifícios terão 1.202 apartamentos residenciais (42 a mais que o Copan, localizado a 2 quilômetros de distância). As unidades, que possuem entre 40 e 54 metros quadrados, serão destinadas a famílias com renda de, no máximo, seis salários mínimos. Outra condição para morar ali é que pelo menos um morador trabalhe na região.
Os imóveis serão vendidos com preços a partir de 260 000 reais, financiados em até vinte anos. O local terá ainda uma área comercial com 66 estabelecimentos, entre lojas e restaurantes, além de uma creche para 200 crianças. A Escola de Música Tom Jobim, que hoje funciona em um imóvel alugado nas imediações, também será transferida para lá. A construção ficará pronta em dois anos.
O investimento de 1 bilhão de reais foi viabilizado por meio de uma parceria público-privada, a primeira realizada na área de habitação do país. O projeto é uma iniciativa do governo do Estado de São Paulo em conjunto com a construtora mineira Canopus Holding.
O Poder Executivo vai desembolsar 460 milhões de reais no projeto, entre subsídios aos moradores para a aquisição dos imóveis e uma taxa fixa de manutenção paga à Canopus (cerca de 214 000 reais por mês). A companhia terá direito a fazer a exploração do setor comercial do conjunto. “O sorteio que vai selecionar as famílias já conta com 149 000 inscrições, que ficarão abertas até julho”, afirma Rodrigo Garcia, secretário de Estado da Habitação.
Da janela de alguns dos apartamentos será possível avistar a Cracolândia. Na noite da última terça, 17, um confronto entre a Polícia Militar e usuários de drogas da região terminou com um soldado ferido e oito pessoas detidas. De acordo com levantamento feito pela Secretaria de Segurança Pública, o número de roubos nas regiões de Campos Elíseos, Santa Cecília e Luz aumentou 25,4% nos últimos três anos.
O 3º Distrito Policial, responsável pelo pedaço, figurou como o campeão nos registros de roubo na capital em 2016. Somente entre janeiro e agosto, 2 800 casos haviam sido assinalados — quase oito por dia.
Para alguns especialistas, o Complexo Júlio Prestes pode melhorar esse cenário. Segundo o diretor do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva, Pedro Taddei, a combinação entre habitação, comércio e cultura é ideal para impulsionar mudanças positivas. “A moradia impede que o bairro fique totalmente deserto durante a noite”, comenta.
Ele elogia também a obrigatoriedade de haver pelo menos um morador por apartamento trabalhando no centro. “É uma boa estratégia para evitar gastos com o transporte público e aliviar o trânsito”, completa.
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Matéria de Mariana Gonzalez publicada originalmente no site da revista Veja | 20/01/17

Galeristas lançam nova feira, a Semana de Arte, em São Paulo

Os galeristas Thiago Gomide (da galeria Bergamin & Gomide) e Luisa Strina e o crítico Ricardo Sardenberg organizam a feira marcada para agosto com apenas 35 galerias. +

No saturadíssimo calendário das feiras de arte, existe o "supermercado e a delicatéssen". Thiago Gomide, um dos sócios da galeria Bergamin & Gomide, usa essa comparação para descrever como ele espera que seja a mais nova feira de arte do circuito paulistano.
Marcada para agosto do ano que vem na Hebraica, a Semana de Arte, liderada por ele, pela galerista Luisa Strina e pelo crítico Ricardo Sardenberg, está sendo pensada como uma espécie de butique de obras finas, para poucos e bons.
Serão só 35 galerias, o equivalente à nata das casas que se destacam em meio à fúria de grandes eventos como a Art Basel Miami Beach, com quase 300 participantes, ou a SP-Arte, que bate em quase 200.
Essa ideia de clube VIP, aliás, também vai se aplicar à seleção do elenco. Não haverá um processo do qual galerias peçam para participar, como costuma acontecer. Elas serão convidadas a entrar, tal qual as boates selecionam os melhores looks na entrada.
Também vão precisar de aprovação sobre o que levar, já que a ideia é garantir certa diversidade e equilíbrio entre obras modernas e contemporâneas, nacionais e de fora.
Strina e Sardenberg estão acostumados a exercer essa função. Ela, que já foi do comitê de seleção da feira de Miami, a maior dos Estados Unidos, é uma das marchandes mais poderosas do planeta. Ele, que atua como consultor do evento americano no Brasil, também tem certo peso, assim como Gomide, que em poucos anos transformou sua galeria numa referência do mercado de arte moderna.
Fortes, D'Aloia & Gabriel, Luciana Brito e Leme já confirmaram presença na Semana de Arte, de acordo com Strina. A galeria Vermelho, também entre as maiores do país, já foi convidada, bem como as "principais galerias de São Paulo", ainda segundo Strina.
O evento será o primeiro sinal de concorrência a abalar a hegemonia da SP-Arte no cenário brasileiro, hoje a única feira com peso internacional no país depois de sucessivas crises da ArtRio. Mas Strina e Gomide dizem que não buscam competir com a feira criada por Fernanda Feitosa e ressaltam que vão continuar indo à SP-Arte.
Há ainda a disputa por atenção com outras feiras menores na cidade, entre elas a Parte, com obras a preços mais acessíveis, e a SP-Arte/Foto, o braço do evento de Feitosa dedicado à fotografia, também em agosto.
"Não vamos concorrer com nada", diz Strina. "Sempre vai haver mercado para isso. Será uma feira pequena, fechada, mais para colecionadores, sem grande público."
Entre as casas estrangeiras já convidadas estão a Sprovieri, de Londres, e a Neugerrimschneider, de Berlim. De acordo com Gomide, a mais nova feira brasileira tomou como inspiração a Frieze Masters, o braço de arte moderna da Frieze, de Londres, e a Independent, de Nova York, um dos eventos mais hypados do circuito global.
Ou seja, pretende combinar o ar sisudo dos corredores acarpetados sob luz indireta da feira londrina com o despojamento punk do evento americano, onde todas as galerias, tal qual ocorrerá na Semana de Arte, têm espaços do mesmo tamanho, sem uma hierarquia pautada pela metragem do estande.
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Texto de Silas Martí originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 06/12/16.

Sob gestão da nova diretora Isa Castro, MIS de SP seguirá o rumo que já trilhava

Ao deixar o MIS para assumir a Secretaria Municipal de Cultura na prefeitura de João Doria (PSDB), o cineasta André Sturm pensou a continuidade de sua gestão no museu. +

Ao deixar o Museu da Imagem e do Som para assumir a Secretaria Municipal de Cultura na prefeitura de João Doria (PSDB), o cineasta André Sturm pensou a continuidade de sua gestão no museu.
Indicou ao cargo Isa Castro, cineasta como ele e também sua amiga, que assume a casa após outros trabalhos na gestão tucana no Estado.
A proximidade indica que o projeto iniciado por Sturm no MIS há cinco anos não será interrompido. Os dois artistas se conhecem desde 1980, época em que Sturm estudava Administração de Empresas e tocava o Cineclube GV, sala que ela frequentou.
"Lançamos alguns curtas lá, e a partir daí o convidei para trabalhar comigo na CDI (Cinema Distribuição Independente), onde eu era diretora". Por indicação dela, Sturm tornou-se responsável pela área de curtas da CDI.
Ela recorda ainda as filmagens de "Arrepio" (1987), primeiro curta dele, que define como uma produção "quase caseira". "Até a mãe dele ajudou", relembra.
Salto
Com Sturm no cargo, o museu deu um salto de público. Em 2009, antes de Sturm assumir a direção, o MIS recebia 40 mil visitantes ao ano. Vieram as exposições superpopulares, como "Castelo Rá-Tim-Bum" (que sozinha atraiu mais de 400 mil pessoas), a do cineasta Stanley Kubrick e a do cantor e compositor David Bowie. Em 2016, o museu recebeu 446.499 visitantes, segundo divulga.
O desafio que Castro tem adiante é basicamente imprimir uma marca pessoal sem deixar a peteca cair.
Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, a nova diretora do museu afirma que dará sequência à programação fixa elaborada por seu antecessor.
Além das grandes mostras, essa programação contempla projetos como o Nova Fotografia -voltado para fotógrafos jovens e menos conhecidos - e o Dança no MIS, cuja curadoria, de Natalia Mallo, abarca o conceito de site specific, com obras criadas exclusivamente para serem executadas naquele espaço.
"Estou há pouco tempo, com Jacques Kann (diretor financeiro e administrativo do museu desde 2011), efetivamente na gestão do MIS, porém considero essencial a manutenção da programação plural e dinâmica que sustenta a vocação do museu em abranger um público diversificado", diz Castro.
Talvez a marca de Castro se torne mais evidente a partir de 2018, uma vez que Sturm deixou a programação deste ano já montada.
Entre as grandes exposições do museu, estão marcadas, para junho, uma mostra sobre Steve Jobs (1955-2011), cofundador da Apple, cuja trajetória se confunde com a evolução da tecnologia.
Para agosto, é a vez de Renato Russo (1960-1996), o líder da banda Legião Urbana, ser relembrado pela casa, com objetos pessoais e mais de 50 diários manuscritos "nunca exibidos ao público", conforme o museu divulga.
Celeiro
Castro viveu a época em que o MIS se tornou "celeiro" de artistas e cineastas.
Entre os filmes produzidos por ela que já passaram pelo museu estão "Tem Coca-Cola no Vatapá", de Pedro Farkas e Rogério Correa (1976) e "Janela da Alma", de João Jardim e Walter Carvalho (2001).
Ela também tem experiência como diretora: ao lado de Augusto Sevá realizou "A Caminho das Índias", documentário de 1979 sobre a descoberta de Trancoso, distrito de Porto Seguro (BA) por turistas e forasteiros.
Além de trabalhos no cinema, a nova diretora do MIS reúne experiências na gestão pública, junto à pasta da Cultura no Estado.
De 2007 a 2013, foi diretora-executiva da Associação Paulista dos Amigos da Arte, organização social responsável por gerir teatros estaduais, a Orquestra de Ópera do Theatro São Pedro, e a Jazz Sinfônica e Banda Sinfônica do Estado. Ela também produziu edições da Virada Cultural Paulista, entre outros programas públicos do governo.

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Texto de Gustavo Fioratti originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 17/01/17.
Na foto, Isa Castro. Crédito: Keiny Andrade / Folhapress.

As dez maiores aquisições de museus de 2016

O “The Art Newspaper” listou as aquisições, realizadas por instituições como o Prado e o Pompidou e passando por arte latino-americana e russa até o Renascimento italiano. +

Os museus competiram ferozmente por aquisições durante 2016, tanto em leilões quanto em negociações com colecionadores particulares. Instituições procuraram obter exemplares clássicos de mestres reconhecidos. O “The Art Newspaper” listou as aquisições mais importantes de 2016 segundo sua avaliação, incluindo uma casa com pedigree de Hollywood, uma coleção de modernismo latino-americano e um dos melhores retratos do Renascimento inglês.

Paul Getty Museum, Los Angeles
“Danaë”, de Orazio Gentileschi
O J. Paul Getty Museum pagou um recorde de US$ 30,5 milhões em leilão por esta pintura barroca de 1621. Outra obra da série de três partes, “Lot and His Daughters” (1622), está na coleção da Getty desde 1988.

Musée d’Orsay, Paris
Coleção de arte pós-impressionista
Os colecionadores norte-americanos Marlene e Spencer Hays enpenharam cerca de 600 obras pós-impressionistas de artistas como Pierre Bonnard, Edouard Vuillard e Odilon Redon. O presente é o mais importante que um museu francês recebeu de um estrangeiro desde 1945. O Musée d’Orsay prometeu exibir toda a coleção em um espaço dedicado a ela.

Museo del Prado, Madrid
“The Virgin of the Pomegranate”, Fra Angelico
Reforçando sua coleção de arte italiana do início do Renascimento, o Prado comprou esta pintura florentina do século 15 – uma das últimas grandes obras do artista em mãos privadas – do 19º Duque de Alba de Tormes. O aristocrata espanhol também doou outra obra renascentista que o museu recentemente atribuiu a Fra Angelico.

Centre Pompidou, Paris
Arte russa do século XX
Mais de 250 obras de arte russa e soviética da segunda metade do século XX foram doadas por um grupo de artistas e seus herdeiros, assim como pelo bilionário russo Vladimir Potanin e outros colecionadores particulares. As adições visam preencher as lacunas do “mapa do Conceitualismo internacional” do Pompidou, segundo o curador do museu, Nicolas Liucci-Goutnikov.

Victoria & Albert Museum, Londres
Coleção da Royal Photographic Society
Num movimento controverso, mais de 400.000 fotografias alojadas no National Media Museum (NMM) em Bradford, no Reino Unido, foram transferidas para o Victoria & Albert Museum. A coleção inclui daguerreótipos, álbuns e câmeras, muitos da coleção Royal Photographic Society. A transferência foi justificada para “criar a maior coleção do mundo sobre a arte da fotografia” em Londres, mas políticos locais a descreveram como uma “violação cultural” de Bradford.

Royal Museums Greenwich, Londres
“Retrato da Rainha Elizabeth I”
Este retrato de Elizabeth I (c. 1590) foi adquirido pelo Royal Museums Greenwich depois de uma captação de recursos de £ 10.3m. Pintado por um artista desconhecido para marcar a vitória da Inglaterra sobre a Armada Espanhola, o trabalho é considerado uma obra-prima do Renascimento inglês. Está em exibição na recentemente renovada Casa da Rainha, construída no local do palácio onde Elizabeth I nasceu.

Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf
Arte minimalista e conceitual
O museu do estado de Düsseldorf começou as negociações para adquirir a coleção de Dorothee e de Konrad Fischer em 2009. A negociação – metade compra e metade doação – foi finalmente concluída em 2016. A coleção de mais de 200 obras de artistas como Dan Flavin, Bruce Nauman e Sol LeWitt expandirá dramaticamente o acervo de pintura americana pós-guerra, arte conceitual e minimalismo do museu.

Philadelphia Museum of Art
Arte americana
A herança do filantropo e colecionador de arte Daniel W. Dietrich II inclui mais de 50 obras de arte americana de Cy Twombly, Philip Guston e Agnes Martin, além de uma doação de US$ 10 milhões para apoiar programas de arte contemporânea. “Road and Trees” (1962), de Edward Hopper, a primeira pintura do artista americano a entrar na coleção, complementa o amplo acervo do museu das obras gráficas de Hopper.

Museu de Arte Moderna, Nova York
Doação de arte latino-americana
O MoMA consolidou sua posição como um dos principais centros de estudo da arte latino-americana, com esta doação de 102 obras modernas de artistas brasileiros, venezuelanos, argentinos e uruguaios vindos de Patricia Phelps de Cisneros e Gustavo Cisneros. O casal também endossou um novo instituto de pesquisa no museu dedicado à arte latino-americana.

Los Angeles County Museum of Art
Casa de James Goldstein
Esta casa modernista próxima a Beverly Hills, projetada por John Lautner, é o primeiro trabalho de arquitetura a entrar na coleção do museu. A casa, de propriedade do excêntrico investidor imobiliário James Goldstein, foi destaque no filme dos irmãos Coen, em 1998, “The Big Lebowski”. Goldstein vai doar a propriedade e seu conteúdo, bem como uma cifra de US$ 17 milhões após a sua morte.

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Texto originalmente publicado no site “Touch of Class” (www.touchofclass.com.br).
Na foto, “Triptych Malevich-Marlboro” (1985), do russo Alexander Kosolapov.

A era das “galerias-museus”

Transformação no sistema internacional da arte na última década aponta para uma reconfiguração da relação entre a produção, o mercado e as instituições artísticas +

Estamos assistindo a uma enorme transformação no sistema internacional da arte na última década. Fala-se em uma reconfiguração da relação entre a produção, o mercado e as instituições artísticas. Os Estados Unidos são apontados como modelo de como esse sistema se comporta e, de fato, ao fazer um rápido panorama da situação norte-americana hoje, percebemos o quanto ela é sintomática de uma tendência à financeirização e à especulação da arte. Essa tendência parece cooptar as instituições artísticas, os museus e começa a inverter o papel do museu de arte moderna e contemporânea. Um dos sintomas dessa inversão é o novo modelo de galeria de arte. Um caso exemplar é o da recém-inaugurada sede da famosa Hauser & Wirth no centro de Los Angeles, na Califórnia (em franco processo de gentrificação).

Num momento em que a grande metrópole da Costa Oeste dos EUA ameaça roubar o brilho de sua irmã do Leste (Nova York), com a expansão do seu chamado Arts District – que hoje começa a se estender para grandes galpões industriais, antes abandonados, do outro lado do Los Angeles River –, a galeria suíça, fundada em 1992, uniu-se em sociedade ao ex-diretor do Museum of Contemporary Art (MoCA), Paul Schimmel, para implantar sua sede ali. Ao mesmo tempo, a Hauser & Wirth prepara-se para “mudar de casa” em sua sede nova-iorquina, ocupando até o ano que vem os espaços do antigo DIA Center, na região de Chelsea.
Para a inauguração da sede de Los Angeles, em março de 2016, Paul Schimmel convidou a também historiadora da arte Jenni Sorkin para conceber uma exposição que reunisse apenas artistas mulheres, que nos últimos 70 anos dedicaram-se à escultura abstrata. Nos espaços de 2 mil metros quadrados de uma antiga fábrica produtora de trigo reformada com a consultoria de arquitetos renomados, a exposição Revolution in the Making: Abstract Sculpture by Women, 1947-2016 apresenta obras históricas de artistas mulheres consagradas ao longo da segunda metade do século 20, ao lado de artistas contemporâneas também consolidadas e de fama internacional. Até aqui, nada de muito surpreendente, se pensarmos na lógica do mercado internacional de arte hoje – ainda que alguns críticos considerem surpreendente o fato de a galeria privilegiar artistas mulheres dentro desse contexto. Mas sabemos que essa tem sido uma estratégia do mercado de criar “novidades”. Curiosamente, nesse caso, apenas 20% das obras em exposição estavam disponíveis para venda, pois o restante foi emprestado de museus norte-americanos (tais como o Whitney Museum, de Nova York, e o próprio MoCA de Los Angeles). Além disso, a galeria está no auge de suas aquisições de espólios de artistas contemporâneos, dentre eles a recente incorporação do Projeto Lygia Pape, artista que é objeto da mostra em cartaz na galeria neste exato momento (setembro de 2016).
O que surpreende é o fato de entrarmos num espaço que, além de se assemelhar a uma área de museu, usa das estratégias do museu de arte contemporânea para se legitimar. A mostra é acompanhada de um catálogo primoroso, com ensaios curatoriais encomendados a estudiosos reconhecidos – o que certamente fará dele documento importante para quem vier a estudar o assunto no futuro. Tudo isso acompanhado de um espaço com equipamentos museológicos: a monitoria das salas, a livraria (que, em seu press release, a galeria orgulhosamente apresenta como “a primeira casa especializada em livros de arte de Los Angeles”) e um restaurante. Por fim, a mostra teve seis meses de duração, e este será o padrão adotado pela Hauser Wirth & Schimmel para seu programa de exposições.

Situada num circuito que envolve o próprio MoCA e sua extensão (o Geffen, que no primeiro semestre abrigava uma mostra muito inteligente sobre a produção contemporânea dos anos 1990), e museus como o também recém-inaugurado Broad Museum (outro sintoma dessas inversões do sistema da arte), a galeria se abre para um público mais amplo do que aquele, muito seleto, que frequenta o espaço tradicional de uma galeria. Mas ele se distingue muito daquele que hoje vemos nos museus norte-americanos, fruto de um franco processo de massificação do museu de arte, e para quem o que se mostra também é massificado. Estaríamos num processo de substituição da função do museu de arte contemporânea pela da galeria comercial? Qual a finalidade desse processo, em que as instituições públicas e de interesse público parecem relegadas ao segundo plano, e vemos a criação de galerias a quem são entregues os legados da produção artística atual? É nelas que se desenha, a partir de agora, a narrativa da arte do século 21? Terão elas o compromisso de documentar essa história?

Não se trata aqui de discutir o mérito da curadoria da exposição apresentada, nem tampouco das obras e artistas – que eram excepcionais. Mas, nesta nova configuração do sistema das artes, seria fundamental discutir o que se espera de um museu de arte contemporânea.
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Texto de Ana Magalhães publicado originalmente na revista Select | 21/12/16.

Galerias de arte de NY fecharão as portas em protesto contra Trump

Greve está sendo convocada para o dia da posse do presidente americano, dia 20/1. Mais de 100 galerias participam da ação. +

Com a hashtag #J20artstrike, várias galerias de arte nova-iorquinas estão marcando uma greve coletiva para a próxima sexta-feira, dia 20 de janeiro, quando pretendem fechar as portas para protestar contra a posse do presidente eleito Donald Trump.

Organizada em solidariedade às organizações Women Strike, #DisruptJ20, Ungovernable 2017, Disability March e Women’s March on Washington, o movimento envolve mais de 100 artistas visuais, curadores e galeristas, que assinam o manifesto publicado no site homônimo. Entre as assinaturas, estão as galerias White Columns, Smack Mellon, Alexander Gray Associates, Andrew Kreps, bit forms gallery, Canada, Cheim & Read e Essex Street, além das artistas Cindy Sherman e a ativista cubana Tania Bruguera.

Além da convocação da greve, o manifesto do #J20artstrike convoca espaços artísticos para a greve do J20 (20 de Janeiro), detalha que a ação é só o começo de um luta que “permanecerá como faróis de ingovernabilidade à medida que a escuridão da era Trump recai sobre nós”. O texto diz ainda que “este chamado não é só para o campo da arte. É feito em solidariedade com a demanda nacional que, em 20 de janeiro, os negócios não devem acontecer como de costume.”

Outro trecho diz: “Consideramos o #J20artstrike como uma tática, entre outras, para combater a normalização ao Trumpismo – uma mistura tóxica de supremacia branca, misoginia, xenofobia, militarismo e domínio oligárquico. Como qualquer tática, esta não é um fim em si mesma, mas, sim, uma intervenção que se ramificará no futuro. Não é uma greve contra a arte, o teatro ou qualquer outra forma cultural. É um convite para motivar essas atividades novamente, para re-imaginar esses espaços como lugares onde formas resistentes de pensamento, visão, sentimento e ação podem ser produzidas”.
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Matéria publicada originalmente no jornal O Globo | 14/01/17

Phillips nomeia Cândida Sodré como diretora regional do Brasil

A nomeação dela é parte da significativa estratégia de expansão internacional da Phillips. +

A Philips anunciou a nomeação de Cândida Sodré como diretora regional no Brasil. Ela se junta à casa de leilões depois de atuar como diretora do escritório da Christie’s no Rio de Janeiro.
Cândida vai desempenhar um papel importante no reforço da marca Phillips na América Latina. Ela trabalhará ao lado de especialistas da Phillips com o intuito de apoiar os esforços de desenvolvimento de negócios da casa de leilões, cultivando redes de colecionadores, comerciantes de arte e entusiastas. Ela trabalhará em estreita colaboração com o departamento de Arte Contemporânea e com a equipe de arte latino-americana.
“Estamos muito satisfeitos por Cândida se juntar à Phillips e ajudar a expandir nosso alcance no Brasil, que cada vez mais está se tornando um dos principais centros culturais do mundo”, disse Edward Dolman, presidente e CEO. “Cândida tem um profundo conhecimento do mercado de arte latino-americano e muita dedicação para ajudar os colecionadores a explorar o mundo da arte. Com sua significativa experiência e paixão por se relacionar com colecionadores, Cândida é uma adição estratégica à nossa equipe, à medida que continuamos a aumentar nossa participação de mercado na arte latino-americana”.
Entre 2009 e 2015, as vendas de leilão do departamento de Arte da América Latina aumentaram mais de 300%. Em 2016, a obra “Baile en Tehuantepec” (1928), de Diego Rivera, alcançou US$ 15,7 milhões, estabelecendo o recorde de preço mais alto pago por uma obra de arte latino-americana. No ano passado, a casa de leilões contratou diretores regionais e especialistas nas cidades de Los Angeles, Seattle, Cidade do México, Colônia, Tóquio, Seul e Taipei.
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Fonte: site “Touch of Class” (www.touchofclass.com.br) | 10/01/17.

Maria Balshaw é a primeira mulher no comando da Tate

A britânica assume o cargo em junho de 2017. +

Aos 46 anos, Maria Balshaw é a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora do grupo de galerias Tate, no Reino Unido. A britânica, atual diretora cultural de Manchester e de várias galerias na mesma cidade, assumirá o comando da instituição em 2017. A eleição de Balshaw foi determinada pelos conselheiros da Tate em processo aberto, em setembro de 2016, e sua nomeação foi aprovada pela primeira-ministra britânica, Theresa May, em 17/01/17, segundo informações da Tate.
Em sua nova posição, a nova diretora supervisará a Tate Modern e a Tate Britain, em Londres, e a Tate Liverpool e a Tate St. Ives, nas cidades de mesmo nome. Balshaw sucederá Nicholas Serota, diretor durante 30 anos e criador da Tate Modern, que agora presidirá o Conselho das Artes da Inglaterra.
Maria começou a carreira acadêmica antes de trabalhar para o Arts Council England em Birmingham e então se tornou diretora da Whitworth em 2006. Ela rapidamente virou figura chave na transformação do setor cultural de Manchester, responsável pela curadoria de programas radicais e populares e expandindo as coleções de arte da cidade.
Nos últimos anos, liderou a transformação de £ 17m da Whitworth, que ganhou o Museum of the Year e foi nomeada para o Prêmio Stirling. Também trabalhou para o lançamento do Factory, um novo local de arte e lar permanente para o Manchester International Festival. Ela foi premiado com um CBE por serviços às artes em 2015.

Tunga, uma aproximação informal

Texto em espanhol de autoria de Octavio Zaya sobre Tunga, artista brasileiro falecido em junho de 2016. +

"Xifópagas Capilares entre Nós" (Gemelas siamesas entre nosotros) es el título de un folleto con imágenes y texto que Tunga publicó en Revirão 2-Revista da Prática Freudiana con motivo de la Segunda Conferencia Brasileña sobre Psicoanálisis celebrada en Rio de Janeiro en 1985. Tunga también presentó alli por primera vez Xifopagas Capilares, una performance que involucra a dos gemelas siamesas paseando por el recinto del evento enlazadas por sus largas cabelleras. Según nos informa Tunga en aquel texto, todo comenzó con la realización de un film en el tunel Dois Irmãos (Dos Hermanos) de Rio de Janeiro. Este film, Ão (1981), era parte de una instalación que Tunga propuso "para construir un torus imaginario en el interior de una roca". "Con tal propósito filmé una sección circular del tramo São Conrado-Gávea y realicé el montaje de tal manera que el resultado fue la imagen de un tunel sin principio ni fin", nos dice Tunga. Antes del rodaje de cualquier film Tunga tenía por costumbre indagar un poco sobre el lugar. En esta ocasión, ante la ausencia de mejores datos, Tunga consultó los periódicos publicados durante la construcción del tunel. Una noticia que llamó su atención se refiere al caso de "dos gemelas siamesas [...] detectado en una mujer brasileña embarazada en su cuarto mes de gestación". Los fetos de las gemelas siamesas estaban unidos en los lóbulos cerebrales derechos. Y a fin de evitar una catástrofe tenían que ser sacrificadas y separadas con escalpelo por la comunidad antes de llegar a la pubertad. Este mismo texto reaparecería en 1997 en el libro Barroco de Lirios (Iris Baroque), donde Tunga traza una suerte de antología de sus obras a partir de imágenes y textos propios y articulada en una disposición compleja, irregular y no lineal. El propio título de ese libro era a su vez una variación de Barrocos de Lirio (Iris Baroques), la instalación que Tunga realizó para la V Bienal de La Habana en 1994.
Esta clase de relaciones, repeticiones, extensiones, transformaciones y diferencias no es exclusiva de las obras mencionadas. Todos los que han estudiado las obras de Tunga, de una manera u otra se han entretenido rastreando confluencias y aleaciones, contrastes y oposiciones entre formas y materiales, textos y performances, ficciones y realidades... En un caso, un elemento de una obra emigra a otro medio, de una revista a una performance, de ésta a un film y del film a un libro, etc. En otro caso, el título de una obra literaria se repite en una composición escultórica con alguna variación. En algunos casos, dos obras se presentan juntas y en otras ocasiones una obra adquiere un nombre diferente en su nueva presentación. Es como si las obras nunca acabaran de cerrarse, de concluirse. No se trata, sin embargo, de un conjunto de fragmentos que indistintamente se componen y descomponen como en un collage. Refiriéndose a la obra de Tunga como "una serie variable de segmentos", Carlos Basualdo entiende que el fragmento, "tanto en un texto como en una obra, se encontraría todavía en relación al todo del que formaba parte originalmente". Y más adelante explica que, "A diferencia de los fragmentos del collage, los segmentos no poseen una relación con un todo ausente sino con un continuo fantasmático en el que se prolongan"2.
En vez de dejar de ser esto para transformarse en aquello, la obra siempre está en un estado de devenir donde se cuestiona no solo el principio y el fin sino también las nociones tradicionales de la figura y el fondo, lo real y lo virtual. En la serie escultórica de Eixos Exóginos (Ejes Exógenos) de 1986, un grupo de figuras de madera y metal -que a primera vista aparentan columnas estilizadas- toman su forma del perfil de los cuerpos de siete mujeres relevantes en la sociedad brasileña (propiamente hablando, estas figuras serían el resultado del espacio vacío dejado por sus perfiles). Cada una de las figuras está dotada de un tope de metal que se correspondería con el perfil de una cabeza, un tronco de madera que se correspondería con el del torso y la extremidad inferior de un cuerpo, y una base. Estas piezas, como en tantas ocasiones a lo largo de las obras de Tunga, están generando siempre una condición dinámica entre lo real y lo virtual.
Al comenzar nos referimos al juego del tiempo que se repite y que queda abolido,y luego al juego de la palabra que se desliza sobre si misma para decir otra cosa distinta a la que anuncia. Ahora es el juego interminable del doble y el mismo, de la diferencia y de la identidad. Todos esos juegos y esa misma clase de deslizamiento sinuoso se pueden conjugar también entre otras obras escultóricas: Garrotes (1986), Lagarte I, II y III (1989) y Palindromo Incesto (1990) podrián relacionarse entre sí a partir de los imanes que cada una de estas instalaciones utilizan como componentes estructurales. En otras ocasiones, lo que sirve de agente activador o une a los elementos de las piezas es gelatina. Y todavía en otras -como ya hemos visto- un texto, un nombre...Suely Rolnik3 ha identificado, entre los habituales elementos, materiales, objetos, agentes, animales, minerales, personas, etc. que Tunga utiliza en sus obras, plomo, oro, plata, cobre, acero, aluminio, madera, goma, ceramica, y también gelatina, imanes, pólvora, ácido sulfúrico, eter, velas, lámparas, linternas, pelucas, trenzas, peines, perlas, seda pura, agujas, gemelos, super-modelos, actrices de telenovelas, deportistas famosos, estrellas famosas de Brazil, fragmentos de canciones antiguas, películas, computadores, proyecciones, maletas de viaje, panamas y sombreros de vaqueros, serpientes, ranas, arañas, campanas grandes y pequeñas, cálices, esponjas, termómetros, hierba, redes, arena, etc.etc. Todo ello sin contar los múltiples textos que Rolnik también enumera entre los documentos imaginarios que utiliza Tunga: recortes de periódicos, documentos de investigaciones, deposiciones, telegramas, cartas, incripciones arqueológicas, descubrimientos paleontológicos, registros de experiencias telepáticas, etc.
Lo que no vamos a encontrar entre las obras de Tunga es una narrativa devota del razonamiento lógico, interesada en categorizar o impulsada por un ánimo de entender las situaciones y los eventos en los términos lineales de causa y efecto. Tunga se considera a sí mismo no como un artista sino como un "propositor" (el término que formuló Lygia Clark en su famoso texto escrito en 19684 ); un propositor de un diálogo con el mundo y con el espectador; un diálogo que irremediablemente se dispone -como sugiere Guy Brett- "contra la fijación del objeto artístico autónomo por medio de una fábula donde un objeto se sumerge en otro ad infinitum "5...como un flujo continuo de energías... Ello emparentaría a Tunga con el Movimiento Antropofágico brasileño que durante los años veinte articuló los principios de una práctica cultural desarrollada a partir de la devoración de los universos referenciales tanto de las culturas "colonizadoras" como de las aborígenes, mezclándolos y fundiéndolos sin atención por la jerarquía o la mistificación. Y así mismo relacionaría también a Tunga con el tropicalismo musical de Caetano Veloso y Gilberto Gil, que surgiera en Brasil en los sesenta bajo la persuasión hibridizante de una nueva-antropofagia. Repitiendo las palabras de Oswald de Andrade ( autor de O Manifiesto Antropofágico) Tunga nos recuerda que ^somos lo que comemos". Tunga ha declarado también que "la clave para Brasil es su identidad fluctuante". Y en otro momento: "...creo que Brasil no es un pais del futuro sino del presente. Lo que Brasil nos da como subsidios en términos culturales es obviamente su diversidad, su heterogeneidad, y la posibilidad de involucrar las prácticas más diversas, los lenguajes más diversos, que producirán la llamada forma artística. Sería dificil para un artista europeo tener a su disposición una riqueza de experiencias culturales y lenguajes que hagan posible una obra más completa"6 .
De igual modo, pues, podríamos considerar la literatura francesa, Jorge Luis Borges, Glauber Rocha, la política brasileña y tantas otras referencias que pueblan la obra de Tunga, incluyendo las de muchos artistas que la proceden. Cualquiera sea el caso, lo esencial es que a través de estos parentescos y relaciones la obra de Tunga se nos presenta como un recorrido incansable a través de los dominios de las palabras y de las cosas, o , parafraseando a Foucault, como el inventario de un juego mediante el cual las cosas y las palabras se designan y se desencuentran, se traicionan y se enmascaran. Tunga nos dice que "cada cultura agrupa en serie los gestos, cosas, obras, acciones, etc.... estableciendo asi relaciones. Las culturas vivas no son, por lo tanto, un conjunto definido formado por sus iconos (eikon). La cultura contemporánea es viva y dinámica; a cada nueva inserción, gesto, cosa, obra, acción, etc. corresponden hiatos [...] Pensar en la dinámica de estos hiatos, considerando una cultura viva, es pensar, por consiguiente, en la calidad del adhesivo que pone en serie (¡seria!) los momentos en los que esta cultura se hace presente. [...] A partir de este adhesivo, por lo tanto, nace lo nuevo, del olvido que nutre esto nuevo antes de serlo"7 .

Texto de autoria de Octavio Zaya.

Notas
1 El tunel Dois Irmãos comunica los barrios de São Conrado y Barra de Tijuca con Gávea y el resto de la ciudad de Rio de Janeiro.
2 Carlos Basualdo, "Una Vanguardia Viperina", Tunga 1977-1997, p.61. Bard College Publications, Annandale on Hudson, New York, 1998. El libro se publicó con motivo de la exposición del mismo título de la que fue comisario el propio Basualdo.
3 Suely Rolnik, en Tunga 1977-1997, pgs. 137-143.
4 Publicado en Lygia Clark, Funarte, Arte Brasileira Contempornea, Rio de Janeiro, 1980.
5 Guy Brett, en Tunga 1977-1997, pgs. 108.
6 Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, Junio 19, 1997
7 Tunga en Amnesia, Smart Art Press, Los Angeles, California, 1998, pgs 81-82.

“A Fundação Iberê Camargo não vai fechar”, garante novo diretor

garante novo diretor Em entrevista, Justo Werlang fala sobre os desafios de sua gestão e da organização de “força-tarefa” para regularizar as atividades da fundação gaúcha; atualmente, museu abre apenas duas vezes por semana e conta com quadro reduzido de funcionários. +

Justo Werlang está acostumado a apagar incêndios. Em 2009, era vice-presidente da Fundação Bienal de São Paulo, num momento crítico, quando a Bienal quase foi adiada por um ano. Passados sete anos, Werlang, que é colecionador de arte e já atuou em diversas instituições culturais, assumiu no mês passado a diretoria da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que passou por maus bocados em 2016 – tendo demitido nove funcionários, de um total de 45, e passando a funcionar apenas dois dias por semana, sextas e sábados. Em entrevista à ARTE!Brasileiros, ele comenta os desafios de sua nova gestão, a programação para este ano, que incluirá cinco exposições, e garante que “a fundação não vai fechar”. Confira na íntegra:

ARTE!Brasileiros - A Fundação passa por um momento de crise. Você poderia contextualizar melhor o que de fato ocorreu?
Justo Werlang – Em 2016, a economia do País entrou num ciclo vicioso e isso efetivamente diminuiu o potencial de patrocínio para toda a área cultural. Os nossos patrocinadores não tiveram condições de aportar recursos e a instituição entrou num período de crise, ou seja, num momento em que ela não conseguiu captar recursos suficientes para manter uma programação durante toda a semana, como estava previsto originalmente. Mesmo assim, temos uma programação já prevista até agosto e queremos cumprir esse programa. A instituição atualmente está abrindo dois dias por semana. Em razão da saída do presidente anterior, eu assumi como diretor-presidente, com a força-tarefa de reposicionar a instituição. Esse trabalho de reposicionamento propõe alterações profundas na relação da instituição com o seu público e também na sua programação. É natural que as instituições, de tempo em tempo, façam revisões. Por ter tido uma posição privilegiada em relação ao financiamento, a Iberê Camargo deixou de fazer algumas revisões e reposicionamentos desde 2008, quando foi aberta. E com a crise, isso ficou evidente.

E quais seriam essas medidas de reposicionamento?
Nós vamos cumprir essas exposições que estão no programa (confira abaixo*) e também agregar uma série de programas na área de música, cinema, teatro, focando em trazer um público que não é necessariamente o de artes visuais. Toda a programação sempre terá uma preocupação de conversar com a cidade, com os jovens artistas e curadores. Por exemplo, o educativo da Fundação sempre foi bastante atuante, mas a ideia é fazer com que o educativo não aconteça somente dentro do prédio. Queremos formular um programa de arte-educação que converse com a secretária do Estado. E a partir daí, num projeto conjunto, levar arte-educação para todo o interior do Estado. Outra proposta é que as instalações da Iberê possam abrigar outros eventos da cidade como, por exemplo, o festival de teatro Porto Alegre em Cena. Ou seja, a Iberê pode servir de palco para diversas iniciativas da cidade. A ideia é desmistificar ou dessacralizar a imagem de um templo e fazer com que a Iberê tenha sentido e significado para um número maior de pessoas. Isso sem perder a identidade, e por isso vamos contratar um curador residente assim que possível. Eu assumi o cargo no dia 7 de dezembro e até o fim do mês nós conseguimos captar uma soma significativa de recursos, tanto em caixa quanto em patrocínios a serem efetivados no ano de 2017, então estamos analisando a data em que a instituição voltará a funcionar regularmente, abrindo seis dias por semana.

Então não há o risco da instituição fechar?
Não, ela não vai fechar. O momento mais crítico, que foi no mês de dezembro, já passou.

Como democratizar as instituições culturais, diversificar o público, sem criar mostras que sejam apenas consumíveis e se baseiem no giro das catracas?
Essa questão de atrair o público, na Iberê, é um pouco mais complicada. Hoje, para uma pessoa chegar à fundação de ônibus é bem difícil. Já estivemos com o secretário de cultura do novo governo e, a partir da semana que vem, devemos atuar junto com as secretarias específicas para garantir algumas alterações que habilitem o acesso da população à instituição. Porque o acesso é muito fácil para quem tem carro, mas para quem depende do transporte público é bem mais complicado. A segunda questão tem a ver com as calçadas da instituição que não são adequadas ao trânsito de pedestres. Então isso é uma prioridade, facilitar que o público possa andar por ali, o que não acontece hoje.

Essa questão de exposições consumíveis é uma grande preocupação nossa. À medida que começarmos a diversificar a nossa programação, nós nos aproximamos de um risco que seria perder a identidade, fazendo algo sem rosto. E por isso é tão importante a presença do curador residente, para que ele mantenha uma programação coesa, com a possibilidade de reflexões. Temos essa preocupação de não oferecer uma programação açucarada, coisa somente de divertimento. Isso é uma questão de DNA da instituição, que foi traçado pelo próprio Iberê Camargo, que sempre foi contra oferecer algo meramente açucarado e pronto.

Havia um planejamento de levar as obras do Iberê Camargo para a Itália e Alemanha. Isso se manterá?
Essas exposições que estavam programadas para o exterior faziam parte de uma estratégia anterior, de uma visão que foi revista. E exatamente por isso essas mostras não acontecerão mais. Em curto prazo essa possibilidade não existe. Não é apenas uma questão de dinheiro, mas sim de termos muitas potencialidades para explorar na cidade, no Estado e no próprio País. Vamos implementar um programa dinâmico com prazos e metas, e não passivo como o que tínhamos anteriormente, para atrair o público. Também queremos encontrar patrocínios para realizar um catálogo final de toda a obra do Iberê.

O senhor gostaria de acrescentar algo?
Sim. A instituição necessita do apoio de todos os públicos. Por exemplo, a Fernanda Feitosa nos ofereceu um espaço na Sp-Arte para lançarmos o nosso programa de venda de gravuras dos artistas convidados. É um enorme desafio participar novamente da gestão da instituição, toda a nossa força-tarefa para fazer essa virada também conta com muitos voluntários. É um esforço do cidadão, algo que considero essencial. A sociedade civil deve ter uma corresponsabilidade com as instituições, ao invés de esperar que elas se mantenham sozinhas. Temos um Estado superdimensionado que não atende às necessidades, ele não pode resolver todas as questões. Será cada vez maior a necessidade das pessoas se corresponsabilizarem com o que tem na sua rua, seu bairro, cidade e etc. É uma questão, sobretudo, de como o cidadão pode fazer a diferença.

* A primeira exposição prevista na programação deste ano, que está sujeita a mudanças, é Torreão: O tempo é onde, o lugar é quando, que inaugura dia 16 de março e conta com curadoria de André Severo. Logo em seguida, uma nova exposição de Iberê está prevista, com curadoria de Paulo Pasta. A abertura está marcada para 29 de abril. Entre 23 de julho e 29 de outubro, inauguram duas exposições apresentadas em 2016: a retrospectiva de Millôr Fernandes, realizada no Instituto Moreira Salles, no Rio, e uma mostra sobre livros de artistas apresentada no Itaú Cultural, em São Paulo. O ano fecha com uma mostra programada para 9 de novembro que propõe uma conversa entre as gravuras de Iberê e as gravuras de mais 39 artistas que participaram do Programa Artista Convidado do Ateliê de Gravura da Fundação.

Texto de Mariana Tassitore publicado originalmente no site da revista Arte! Brasileiros | 11/01/17

Gabriel Pérez-Barreiro é o novo curador da Bienal de São Paulo

Atual diretor e chefe curatorial da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, o espanhol assume o posto ocupado por Jochen Volz na última edição do evento. +

Atual diretor e chefe curatorial da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, Gabriel Pérez-Barreiro será o curador da 33ª edição da Bienal Internacional de São Paulo, segundo apuração da revista “Arte!Brasileiros”. O espanhol assume o cargo ocupado pelo alemão Jochen Volz na última edição do evento e trabalhará em parceria com João Carlos de Figueiredo Ferraz, novo presidente da Fundação Bienal.
Doutor em História e Teoria de Arte pela Universidade Essex (Reino Unido) e especialista em História da Arte e Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Aberdeen (Reino Unido), Pérez-Barreiro foi curador geral da 6ª Bienal do Mercosul em Porto Alegre, em 2007. Foi também curador de arte latino-americana no Blanton Museum of Art da Universidade do Texas (Austin, EUA); diretor de Artes Visuais da Americas Society (Nova York); coordenador de exposições da Casa de América de Madri; e curador-fundador da Coleção de Arte Latino Americana da University of Essex na Inglaterra.
No Brasil, foi conselheiro da Fundação Iberê Camargo e membro do Comitê de Indicação do PIPA 2016. Já organizou exposições de artistas como Iran do Espírito Santo, Rivane Neuenschwander, Lygia Pape, Geraldo de Barros, entre outros. Pérez-Barreiro é o segundo curador da Bienal de São Paulo ligado à Patricia Phelps de Cisneros, após Luis Peréz-Oramas na 30ª edição.
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Texto originalmente publicado no site da revista “Arte!Brasileiros” (brasileiros.com.br) | 11/01/17.
Foto: Divulgação.

O Brasil ainda é extremamente colonial

A artista portuguesa Grada Kilomba, que participou da 32ª edição da Bienal de São Paulo, fala sobre colonização e racismo. +

Grada Kilomba, 48, nasceu em Portugal, cresceu em São Tomé e Príncipe (uma das ex-colônias portuguesas na África) e viaja o mundo apresentando seus trabalhos – videoinstalações, performances e produções literárias – que versam fundamentalmente sobre racismo e memória. No Brasil, onde integrou a 32ª edição da Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro último, apresentou a série de vídeos do seu “Projeto Desejo” e diz ter encontrado “um país fraturado”. “Há uma história de privilégios, escravatura e colonialismo expressa de maneira muito forte na realidade cotidiana”, explica. “E é espantoso ver a naturalidade com que os brasileiros conseguem lidar com isso”. Escritora, performer e professora da Universidade Humboldt – a mais antiga e uma das mais tradicionais de Berlim, onde vive atualmente –, Kilomba é autora dos livros “Plantations Memories – Episodes of Everyday Racism” (2008), em que conta suas histórias pessoais como mulher e negra, e “Performing knowledge” (2016), no qual trata da necessidade de “descolonizar os pensamentos”. “Muitas vezes, nos dizem que nós somos discriminados porque somos diferentes. Isso é um mito. Não sou discriminada por ser diferente, mas me torno diferente justamente pela discriminação que sofro”. Nesta entrevista, concedida durante a residência artística que realiza no Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba), em Salvador (BA), ela fala sobre racismo e outros “ismos” que marcam o mundo contemporâneo: “O branco não é uma cor. O branco é uma definição política que representa os privilégios históricos, políticos e sociais de um determinado grupo. Um grupo que tem acesso a estruturas e instituições dominantes da sociedade. Branquitude representa a realidade e a história de um determinado grupo”.

Na Bienal de São Paulo, a senhora apresentou o “Desire Project” (Projeto Desejo), uma série de vídeos que indicam a presença de um sujeito sem voz, que é silenciado pela história. Vivemos num momento em que esse silêncio já foi quebrado?
Esse silêncio tem sido quebrado pontualmente. Mas não existe realmente uma linha contínua. Ele é quebrado por pensadores, por intelectuais e por artistas, que são exceções. A palavra que batiza o projeto – desejo – vem de uma vontade de expressar o que ainda não é expressado: o que nós queremos e o que é, de fato, importante para nós. Os sujeitos historicamente silenciados, como os negros, as mulheres e os gays, estão muito treinados a dizer o que não querem. Somos contra o racimo, o sexismo e a homofobia. Mas é muito importante também criar novas agendas, criar novos discursos. Como não nos perguntam o que nós desejamos, isso precisa ser colocado por nós. Qual é o caminho que eu quero seguir? Qual é o vocabulário que eu quero usar? Como eu quero me tornar visível? Como eu quero contar a minha história? Parte do processo de descolonização é se fazer essas questões. E isso integra um processo de humanização, porque o racismo, por exemplo, não nos permite ser humanos. O racismo nos coloca fora da condição humana, e isso é muito violento.

A senhora mora e trabalha, hoje, em Berlim, na Alemanha. Considera que a tomada de consciência de sua identidade negra é maior numa cidade predominantemente branca?
Berlim é uma cidade que não é bonita esteticamente, comparada a Paris ou Lisboa, mas é uma cidade que te leva à reflexão e ao pensamento. Isso me permitiu focar no que sou e em como quero construir o meu trabalho. Talvez em outra cidade, em outro contexto, isso não acontecesse ou fosse algo retardado. Escrevo e falo como uma mulher e artista negra. Mas, por outro lado, Berlim é uma cidade cosmopolita e eu estou em contato com tantas pessoas diferentes, de movimentos politizados distintos, que isso cria um outro discurso em mim. Eu acabo não tão focada em ser mulher e negra, embora isso faça parte da minha identidade.

Países sem passado escravocrata, como Alemanha, são identificados como territórios mais tolerantes diante da questão negra. Percebe dessa forma?
Não. A questão racial é um problema, mesmo na Alemanha, que não teve em seu território o regime escravocrata. Mas a Alemanha colonizou muitos países e tem também um passado escravocrata muito brutal. Mas essa história foi silenciada por muito tempo. O primeiro genocídio do século 20 aconteceu na Namíbia e foi realizado pela Alemanha (entre 1904 e 1908). Mais de 100 anos depois do início da tentativa de extermínio das tribos Herero e Nama é que o governo reconheceu, oficialmente, que o país havia cometido um genocídio e fez as compensações devidas. Na Namíbia, por exemplo, os descendentes dos sobreviventes tiveram que decidir o que fazer com os crânios de parentes que haviam sido enviados a Berlim para experiências científicas. A questão é que a história colonial alemã é muito mal documentada. Mas todo o genocídio, a exploração e a violência que está por trás de um processo colonial está, também, na Alemanha. Só muito recentemente é o que país parece ter se dedicado a enfrentar essa questão. Primeiro, na forma de dor. Depois, na forma de vergonha. E isso tem permitido uma reflexão.

No Brasil, há o mito da democracia racial e uma política de eufemismos. Em sua opinião, como podemos enfrentar o racismo nessa situação?
Penso que a história colonial é uma ferida muito profunda, muito infectada, que de vez em quando sangra. E só quando ela sangra é que nós vamos lá e fazemos um curativo. Não há um tratamento contínuo dessa ferida. E a história colonial já tem 500 anos. O racismo, no Brasil, é muito presente. O Brasil é extremamente colonial. Existe toda uma estrutura colonial arraigada neste país. A arquitetura é um exemplo disso. Há uma porta da frente e uma porta dos fundos. Isso eu só vi aqui no Brasil. E as portas do fundo e as da frente possuem sujeitos diferentes. E essa arquitetura não foi construída no século 19, mas nos anos 1980, 1990. E aqui há um senhor que abre a porta, um senhor que conduz o carro, uma senhora que limpa... Estes são serviços completamente coloniais. Como é possível ter tantos corpos negros prestando serviços dentro de uma estrutura assim? O branco de hoje não é mais o responsável pela escravidão, mas ele tem a responsabilidade de equilibrar a sociedade em que vive. Ninguém escapa do passado.

A senhora já disse certa vez que uma das grandes fantasias das pessoas brancas é poder escapar da sua branquitude...
É que o branco não é uma cor. O branco é uma definição política que representa os privilégios históricos, políticos e sociais de um determinado grupo. Um grupo que tem acesso a estruturas e instituições dominantes da sociedade. A branquitude representa a realidade e a história de um determinado grupo. Quando falamos sobre o que significa ser branco, falamos de política e não de biologia. É curioso quando as pessoas falam em “racismo reverso”, porque as pessoas que excluem, que dominam e que oprimem não podem ser, ao mesmo tempo, vítimas dessa opressão. Mas elas, certamente, desenvolvem um sentimento de culpa em relação a isso. O que muitas vezes acontece é que, como o sentimento de culpa é tão avassalador, o agressor passa à vítima e transforma a vítima em seu agressor. Isso permite que o agressor se liberte da ansiedade que o seu próprio racismo provoca. Uma pessoa negra jamais teria esta escolha. Sob esse aspecto, penso que é impossível escapar da branquitude e daquilo que ela realmente representa.

Como transformar essa culpa que você menciona em algo produtivo?
Trabalhar o próprio racismo é um processo psicológico e não tem nada a ver com moralidade. As pessoas brancas muitas vezes perguntam: ‘Sou racista?’. Essa é uma questão moral, que não é realmente produtiva, porque a resposta será sempre: ‘Sim’. Temos que entender que somos educados a pensar em estruturas coloniais e racistas. A pergunta deveria ser: “Como eu posso desconstruir meu próprio racismo?”. Essa seria uma questão produtiva, que já se opõe à negação e inicia um processo psicológico. A questão, hoje, não é se livrar da branquitude, mas conseguir se posicionar novamente dentro dessa branquitude. Tem a ver com a forma como uma pessoa que tem acesso ao poder utiliza esse poder para criar uma nova agenda e recontar a história. Nós não podemos fugir da história que nós temos, mas podemos nos posicionar com um novo olhar.

Quando Barack Obama assumiu a presidência dos Estados Unidos, a senhora escreveu sobre a importância de termos pessoas negras no poder, criando imagens positivas para outras pessoas negras. Como vê a ascensão de Donald Trump e da extrema direita europeia?
Às vezes tenho a impressão de que vivemos numa atemporalidade, em que o passado está sempre no presente. Nós vivemos no presente, mas o passado está sempre sendo construído. E a mudança parece algo muito pontual. O caso de Obama, sucedido por Trump, é um exemplo disso. A estrutura na qual a sociedade se forma é conservadora. O mundo vive um dilema com as três dimensões do tempo: o passado, o presente e o futuro, sem parecer, de fato, alcançar esse futuro. Há um mês, fiz um trabalho chamado “Ilusões”, em que reencenei o mito de Narciso (castigado a só conseguir amar a si próprio) e de Eco (castigada a viver repetindo o que os outros diziam), fazendo um paralelo desses mitos com nossa sociedade contemporânea – que é narcisista, branca e patriarcal. Há uma repetição infinita dessa imagem colonial, branca, patriarcal, que parece apaixonada por si mesma e obstinada a idealizar a si mesma, e que não vê mais nada diante de si, a não ser sua própria representação. É uma representação onde as outras pessoas simplesmente não existem. Donald Trump foi apoiado por boa parte do eleitorado feminino. Um eleitorado que ele explicitamente insulta. Nós somos leais ao passado, a figuras paternas e discriminatórias. Nós apoiamos figuras que excluem. Uma parceria entre Eco e Narciso que não é quebrada.

Em muitos trabalhos, a senhora alerta para o risco de ver as coisas de um único ponto de vista, mais precisamente sob o estereótipo branco dominante. A globalização e a tecnologia lançaram a promessa de ajudar a combater essa visão única. Acredita que isso tem acontecido?
Em parte. A tecnologia nos deu opções e acesso a histórias diversas. Se alguém quiser, hoje mesmo, poderá ler os jornais da África do Sul. Mas, ao mesmo tempo, a tecnologia também lhe permite assinar apenas as notícias do seu bairro, da sua rua, por exemplo, e isso é tudo o que chegará. A tecnologia, portanto, não resolveu de fato o problema. O filtro-bolha e esse isolamento de grupos que pensam diferente, muito presente nas redes sociais, são consequências de nossa aprovação para notícias e opiniões que reforcem apenas as nossas crenças preexistentes. Consumir informações que confirmem nossas ideias de mundo é simples e até mesmo prazeroso. Mas consumir informações que nos desafiem a pensar novas formas ou a enfrentar as nossas arrogâncias é frustrante e muito difícil.

No livro “Plantation Memories – Episodes of Everyday Racism” a senhora não aborda o racismo do ponto de vista político ou histórico, mas do ponto de vista pessoal, quase psicológico. Por que a opção?
Quando eu decidi escrever, eu quis fazer um livro que eu nunca tinha lido. Nunca se falam das pessoas e o que o racismo faz com elas. Quando falamos sobre racismo, geralmente adotamos uma perspectiva que é macropolítica. Realidades, pensamentos, sentimentos e experiências das pessoas negras são ignorados. Isso é exatamente o que eu queria ter no centro deste livro, o nosso mundo subjetivo. Quando escrevi “Plantations Memories”, eu estava interessada em olhar para as minhas feridas e para as feridas de muita gente. Dar ênfase a uma dimensão traumática do racismo, a uma violência diária que reencena um trauma colonial e que nos emudece. Para mim, era muito importante coletar histórias do dia a dia, que ninguém parece levar a sério, mas que são violentas e que levam ao silêncio.

Um futuro sem racismo é possível?
Não agora. Não sem racismo e sem outros “ismos”. Porque nós somos educados diariamente a pensar de forma dominante. O fato de Obama ser presidente não significou que o racismo tenha terminado, e o fato de Angela Merkel ser chanceler não significa que chegamos ao fim do sexismo. Mas antes de pensar num mundo sem “ismos”, a gente precisa pensar como é possível desconstruí-los. Como, por exemplo, é possível quebrar a cadeia de racismo que nos acompanha diariamente. É sempre uma questão ligada à realidade e ao agora.

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Texto de Eron Rezende originalmente publicado no site “A Tarde” (atarde.uol.com.br) | 09/01/17.
Foto: Adilton Venegeroles.

Obama assina lei que pode retomar o intercâmbio cultural entre EUA e Rússia

A nova lei garante a outros países imunidade à jurisdição norte-americana em relação a exposições temporárias com obras de arte e objetos de importância cultural emprestados. +

Uma nova lei assinada pelo presidente dos EUA Barack Obama em 16/12/16 garante a outros países imunidade à jurisdição norte-americana em relação a exposições temporárias com obras de arte e objetos de importância cultural emprestados.
Mesmo com as tensões entre Obama e o presidente russo Vladimir Putin e com a oposição de grupos como o Holocaust Art Restitution Project, a lei (The Foreign Cultural Exchange Jurisdictional Immunity Clarification Act) pode significar uma renovação do intercâmbio cultural entre EUA e Rússia.
A lei, no entanto, tem exceções, como em casos de direito de propriedade que violam o direito internacional, especificamente as obras de arte saqueadas pela Alemanha e os aliados durante a Segunda Guerra Mundial, ou a qualquer outra depois de 1900, “como parte de campanha sistemática de confisco coercitivo ou apropriação indevida dos trabalhos de membros de um grupo alvo e vulnerável".
A lei é criticada por ser leniente ao permitir que países mantenham obras roubadas. Ori Z. Soltes, diretor do Holocaust Art Restitution Project, a descreveu como "um projeto de lei ultrajante que poderia extinguir uma série de reclamações válidas de arte saqueada, não apenas relacionadas aos nazistas, mas também confiscadas durante as revoluções bolchevique e cubana”. Ele continua: “A lei também vai imunizar objetos arqueológicos saqueados pelo Estado Islâmico no Oriente Médio".
Por outro lado, a lei é homenageada por abrir portas para potenciais empréstimos de arte aos EUA.
Ao “Art Newspaper”, o diretor do Museu Hermitage de São Petesburgo, Mikhail Piotrovsky, disse apoiar a lei e também o presidente eleito Donald Trump, que chamou o Hermitage de “melhor museu do mundo”.
"Espero muito que esse projeto torne possível obter garantias em relação ao retorno de exposições", disse Piotrovsky. "Então, finalmente, a Galeria de Tesouros do Hermitage será mostrada em Houston, e nós vamos ver Poussin da Filadélfia e “Laocoön”, de El Greco, de Washington".
O maior museu da Rússia não empresta obras para os EUA desde 2011, após um juiz ordenar à Rússia a devolução de uma coleção de livros à comunidade de judeus do Brooklyn.
A resposta ao projeto de lei reflete a tensão política atual sobre a alegação de agências de inteligência norte-americanas de que a inteligência russa interferiu na eleição dos EUA, por meio de e-mails hackeados. Trump atacou a inteligência dos EUA, dizendo que as conclusões dela são duvidosas. Como exatamente as atitudes contrastantes dos presidentes atual (Obama) e do eleito (Trump) em relação à Rússia vão afetar o mundo da arte continua um mistério.
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Texto de Alyssa Buffenstein originalmente publicado no site “Artnet” (artnet.com) | 05/01/17.
Na foto, o Museu Hermitage de São Petesburgo.

Artistas reivindicam que instituições culturais fechem durante a posse de Trump

Assinada por nomes como Richard Serra, Barbara Kruger e Cindy Sherman, a petição faz parte de uma série de medidas organizadas em protesto contra o novo presidente dos EUA. +

Em protesto contra a eleição de Donald Trump, mais de 130 artistas e críticos assinaram uma petição reivindicando que as instituições culturais fechem no dia 20/01/17, data da posse do novo presidente. Segundo o “The New York Times”, artistas como Cindy Sherman, Richard Serra, Louise Lawler, Joan Jonas, Barbara Kruger e Julie Mehretu já se manifestaram a favor da iniciativa.
O documento pede que museus, galerias e escolas de arte parem suas atividades “como uma forma de solidariedade que vai além do campo da arte”. Também esclarece que a paralisação seria uma tática de combate aos valores defendidos por Trump, como “a supremacia branca, a xenofobia e o militarismo”. A ação é alinhada com o movimento #J20strike, que pressiona para que o comércio em geral não funcione como normalmente na data da posse (confira a página do Facebook: www.facebook.com/events/1248373691886583).
Ainda no mesmo documento, afirma-se que “não se trata de uma greve contra a arte ou qualquer outra manifestação cultural. Mas de um convite a novas ações, que imaginem esses espaços como locais de resistência”.
Muitas instituições culturais ainda não se manifestaram. Segundo o “Times”, os representantes do MoMA, um dos principais museus do país, localizado em Nova York, já garantiram que a instituição permanecerá aberta. Ainda na mesma cidade, o Whitney Museum também funcionará normalmente.
Outros eventos também serão organizados em resposta à posse de Trump. Na Biblioteca Pública do Brooklyn, por exemplo, será realizada uma noite de discussões no dia 28/01/17, incluindo uma leitura de 5 horas do clássico “Democracia na América”, escrito pelo teórico francês Alexis de Tocqueville (1805- 1859).
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Texto originalmente publicado no site da revista “Arte!Brasileiros” (brasileiros.com.br) | 10/01/17.

Não houve transição, diz ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade

O professor Luiz Armando Bagolin, que deixou a direção da biblioteca, teme que projetos como a abertura 24 horas do local e um plano de digitalização do acervo sejam esquecidos na falta de diálogo. O editor Charles Cosac aceitou o convite da gestão João Doria para ser o novo dirigente da Mário de Andrade. +

Dias após ter deixado a direção da Biblioteca Mário de Andrade, em que esteve por quatro anos, o professor Luiz Armando Bagolin volta à avenida São Luís, na região central de São Paulo.
O artista plástico, com mestrado e doutorado em filosofia pela USP, onde volta a lecionar, sentou-se com a “Folha de S. Paulo” num café em frente à BMA para falar sobre a mudança de poder da maior biblioteca do Estado. "Não houve transição."
O ex-diretor afirmou temer que projetos, como a abertura 24 horas do local e um plano de digitalização do acervo em que trabalhou por três anos, sejam esquecidos na falta de diálogo.
O editor Charles Cosac foi convidado e aceitou pela gestão João Doria (PSDB) como futuro novo dirigente da Mário de Andrade.
Procurado para saber sobre seus planos para o órgão, ele não se pronunciou.
A Secretaria Municipal de Cultura tampouco quis comentar as afirmações de Bagolin. Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha - Como foi a transição do poder na biblioteca?
Não houve transição, para a surpresa de todo mundo. Recebi um telefonema, logo depois do Natal, me dispensando. Solicitei então uma reunião presencial com o secretário (municipal de Cultura, André Sturm). Foi marcada uma reunião no dia 28, no horário que ele estipulou. Mas ele não me recebeu. Foi repetido aquilo que havia sido dito no telefonema: "Muito obrigado, até logo". Eu perguntei mais uma vez sobre a transição e eles disseram que não era para eu me preocupar com isso. A gente conseguiu democratizar o acesso, é a única biblioteca da América Latina aberta 24 horas por dia. Temo que esse trabalho se perca.

Que programas ficam em risco com essa falta de diálogo?
Muitos, mas o principal é o projeto de digitalização do acervo, com uma plataforma única, alimentada por dez bibliotecas diferentes do país e ancorado na Mário de Andrade. Sete bibliotecas, como a Estadual do Acre, a de Manaus, a de Recife e a de Fortaleza já haviam topado participar do CPN.
A sigla significa Coleções Periódicas Nacionais, porque a maior quantidade de documentos a serem digitalizados inicialmente é de periódicos.
Começaríamos por eles porque os periódicos são mais frágeis, mas principalmente porque eles contam a história da região onde circularam. O BNDES havia se disposto a financiá-lo com R$ 10 milhões, como fundo não reembolsável.
Esse projeto levou três anos para ser desenhado, e estava prestes a ser assinado. Começaria a funcionar no início de 2018.

O senhor tem mais algum plano para tentar o diálogo com a nova administração?
Não existe plano nenhum. Eu me coloquei à disposição. Só me resta torcer para que todos os projetos dos últimos quatro anos não sejam descontinuados. Isso afetaria sobretudo o público, que se acostumou a atividades gratuitas e públicas.

Como o senhor vê o modelo de organização social, que a prefeitura afirma querer expandir na administração de bibliotecas?
Não tenho nada contra o modelo de OS. Mas acho que, se puder ser por administração direta, com poucos recursos e uma equipe pequena e eficiente, isso é muito melhor. A gestão da Mário de Andrade nos últimos quatro anos prova que é possível fazer a gestão de um órgão cultural por administração direta. O modelo de OS não deu certo para o Theatro Municipal, por exemplo, que só no ano passado consumiu R$ 120 milhões, contra R$ 9 mi da MBA.

O secretário municipal de Cultura afirmou que quer transformar as bibliotecas em "mini-MIS", seguindo o modelo do Museu da Imagem e do Som, que ele administra. Como vê isso?
O que me preocupa é essa coisa de ter uma marca e querer deixá-la em todo lugar. No universo pop, tudo é reproduzível, Walter Benjamin já dizia isso: é um universo sem alma.
Não posso tratar o leitor como alguém com carência de leitura. Não dá para reproduzir o modelo do MIS em todo lugar, ele não abarca toda a diversidade da cultura. O MIS não é um pacote de batatinha frita que dá pra colocar em qualquer canto.

Quais são os desafios futuros da Mário de Andrade?
Digitalização. A conta não fecha. Você tem cerca de 4 milhões de itens na Mário de Andrade. Juntando os acervos das outras bibliotecas públicas, somam-se 6,5 milhões. São Paulo tem 12 milhões de habitantes. Se cada um deles resolver emprestar um livro, 4 milhões ficariam sem. Como se resolve esse déficit, construindo mais bibliotecas? Não, criando uma biblioteca digital.

A seu ver, a abertura 24 horas corre risco, ou já está sedimentada e não pode ser revertida?
Ela não está bem sedimentada. As autoridades ficavam me cobrando uma inauguração oficial, mas eu sempre queria fazer mais testes.
Além do empréstimo e retirada de livros, queria que houvesse uma programação cultural à noite, um diálogo com o entorno. Esses testes mostraram que a biblioteca é mais segura à noite do que durante o dia. É impressionante.
Os furtos de celular e laptop acontecem durante o dia. É plenamente possível ao novo gestor continuar esse trabalho. Fica uma equipe que eu treinei, eu montei e tem todas as condições de dar as informações necessárias ao novo diretor, para que esses projetos sigam.

Como vê a indicação do editor Charles Cosac para o cargo?
Charles é um querido amigo. Uma pessoa de grande sensibilidade. Sei que dará o seu melhor para a Biblioteca Mário de Andrade. Desejo-lhe muita sorte e sucesso.

Está feliz com a volta à universidade?
A minha área de pesquisa é a arte do renascimento. Me sinto feliz por ter colaborado com o renascimento da Mário de Andrade, mas agora volto à minha pesquisa, com muitos planos. O interesse por gestão de equipamentos públicos é um interesse antigo e que se mantém.

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Texto de Chico Felitti originalmente publicado no jornal “Folha de S. Paulo” | 11/01/17.
Na foto, Luiz Armando Bagolin na Biblioteca Mário de Andrade. Crédito: Claudio Belli / Valor.

Cadão Volpato assume a direção do Centro Cultural São Paulo

Profundo conhecedor das dependências do CCSP, o jornalista, roqueiro e apresentador assumiu a direção do espaço cultural. “Esse é o aparelho cultural mais democrático de São Paulo, já nasceu com essa cara multidisciplinar. Tenho a sensação de que pode ser mais potencializado”. +

Profundo conhecedor das dependências do Centro Cultural São Paulo, no número 1000 da Rua Vergueiro, o jornalista, roqueiro e apresentador de televisão Cadão Volpato assumiu nesta semana a direção do centro. Ele foi escolhido pela gestão Doria para cuidar de um dos mais cativantes espaços culturais da cidade.
Cadão, que cantou na sala Adoniran Barbosa algumas vezes como vocalista da banda de pós-punk Fellini, diz que quer potencializar a genética aglutinadora do CCSP e torná-la mais visível. “Esse é o aparelho cultural mais democrático de São Paulo, já nasceu com essa cara multidisciplinar. Tenho a sensação de que pode ser mais potencializado”.
Empolgado depois de ser apresentado às dependências do CCSP pela atual diretor, Pena Schmidt, o novo gestor tem uma ambição particular. “Quero que aqui se torne o coração cultural da cidade”.
O CCSP, na visão de Cadão, carece de maior visibilidade. Como ele diz, é um espaço em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Música, discoteca, gibiteca, teatro, dança, dançarinos de hip hop e praticantes de skate dividem o mesmo espaço, mas, em sua opinião, é preciso inverter um jogo. “É preciso encarar como centro, tornar tudo mais relevante. É preciso integrar as atrações. Um sujeito que vai ver o show de música não sabe o que acontece no teatro. É preciso interagir, estabelecer um sistema único e fazer pulsar.”
Sua nomeação pode criar uma expectativa natural na comunidade de música independente, um DNA já contemplado pela programação musical e teatral do CCSP. Mas Cadão não diz que deve pensar de forma excludente. “Isso aqui pertence à cidade. Minha intenção é fazer com que todos os curadores tenham trânsito por todas as áreas, que não seja uma curadoria segmentada. Quero que o trabalho seja compartilhado”. Esta seria uma forma, segundo Cadão, de diversificar mais, com maior qualidade artística, a programação.
Sobre os roqueiros indies, o diretor diz que tem um carinho pelo gênero em que foi concebida sua persona artística, mas que vai pensar como um gestor. “A energia do rock é fundamental, mas quero outras expressões que estão acontecendo na cidade por aqui”.
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Texto de Julio Maria originalmente publicado no jornal “O Estado de S. Paulo” | 04/01/17.
Foto: Divulgação.