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Vaticano descobre novas pinturas por Rafael escondidas em suas paredes

Ao contrário do que se acreditava anteriormente, duas pinturas à óleo no apartamento papal no Vaticano são de autoria do mestre renascentista e não de seus aprendizes. +

Não é todo o dia que você encontra um novo Rafael por aí, mas essa é a vida no Vaticano. Especialistas descobriram que o modelo renascentista italiano teve um papel fundamental na pintura na Sala de Constantino em apartamentos papais após uma restauração, que evidencia claramente a mão do mestre. Acreditava-se que a magnífica sala de recepção foi pintada pela oficina do artista depois que Rafael esboçou em linhas gerais; e que o artista teria morrido antes da sua conclusão. Isso não verdade, e agora os conservadores do Vaticano acreditam.

Citando um vídeo do YouTube publicado pelo escritório de imprensa do Vaticano, o jornal italiano “La Stampa” informou que as figuras femininas alegóricas das virtudes da amizade e da justiça são de fato um trabalho de Rafael.

"Ao analisar a pintura, percebemos que é certamente feita pelo grande mestre Rafael", disse o restaurador Fabio Piacentini. "Ele pintou em óleo na parede, que é uma técnica realmente especial. A limpeza e remoção de séculos de restaurações anteriores revelou as características pictóricas típicas do mestre ".

Arnold Nesselrath, historiador de arte e chefe da pesquisa técnica e científica nos Museus do Vaticano, acrescentou: "Sabemos de fontes do século 16 que Rafael pintou duas figuras nesta sala como testes na técnica do óleo antes de morrer. De acordo com as fontes, essas duas figuras pintadas a óleo são de uma qualidade muito maior que as que as cercam".

"Raphael foi um grande aventureiro na pintura e sempre tentou algo diferente", explicou. "Quando ele entendia como algo funcionava, procurava um novo desafio. E então, quando ele chegou na maior sala do apartamento papal decidiu pintar esta sala em óleo, mas conseguiu pintar apenas duas figuras, e seus aprendizes continuaram no método tradicional, deixando essas duas figuras como assinatura do mestre."

Em 1509, Rafael foi encarregado de pintar quatro salas nas residências papais, agora conhecidas como Salões Rafael. A Sala de Constantino - a maior - retrata quatro episódios da vida do primeiro imperador romano para reconhecer a fé cristã e conceder liberdade de culto. As pinturas retratam a derrota do paganismo e o triunfo da religião cristã.

Dois desenhos de giz do mestre do Renascimento italiano foram vendidas por US$ 48 milhões (no Christie's London, em 2009) e US$ 47,8 milhões (no Sotheby's Londonin em 2012), de acordo com a base de dados de preços da artnet.
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Tradução de matéria publicada originalmente no portal artnet (www.artnet.com).

Ame ou odeie os tesouros de Damien Hirst

Polêmicas ao redor da exposição “Treasures from the Wreck of the Unbelievable”, de Hirst, na Punta della Dogana e Palazzo Grassi, em Veneza. +

A exposição “Treasures from the Wreck of the Unbelievable” se mostrou bastante polêmica e a expectativa ao redor dela era imensa uma vez que, após dez anos, esse seria o retorno de Damien Hirst e, em se tratando do artista, a ansiedade era grande.

A exposição é exibida em 5 mil metros quadrados de espaço, são 189 obras de arte, incluindo mais de 100 esculturas (uma delas com quase 18 metros de altura) e 21 armários cheios de objetos menores, tudo à venda.

A maioria das principais esculturas do show está disponível em três versões: “Coral” (como se fosse recuperada do mar), “Treasure” (como se fosse restaurada) e “Cópia” (como uma reprodução de museu). Nenhum coral verdadeiro é usado na exposição. Os bronzes foram fundidos no oeste da Inglaterra e os mármores esculpidos na região de Carrara, na Itália.
Para se ter uma ideia, os maiores bronzes têm preços superiores a US$ 5 milhões. “Sphinx”, um mármore branco de 1,5 metro de comprimento no formato “Cópia” custa US$ 1,5 milhão.
De acordo com os porta-vozes do estúdio de Hirst, o projeto foi financiado em parte com recursos próprios do artista, mais de 50 milhões de libras, foi o que Hirst admitiu ter investido à BBC.
As opiniões dessa vez ficaram realmente divididas como nunca antes se viu, polarizando os críticos de arte com a enorme complexidade da mostra sem precedentes em escala, exagero, exorbitância e uma série de outros adjetivos bastante controversos.
A revolta veio em grande parte pelo momento que vivemos de tamanha instabilidade e desigualdade. Uma exposição desse porte, com investimentos desse nível, espalhafatosa e exagerada, parece uma piada de mau gosto, um desperdício e, no mínimo, inapropriada.

Além da polarização forte do gênero “ame ou odeie”, que surgiu no meio da arte de maneira bem explícita com relação ao conteúdo da própria exposição, vemos a seguir duas outras discussões acerca da originalidade e apropriação que são acusações que volta e meia rondam o trabalho desse artista.

Pavilhão de Grenada

A poucos minutos de distância da Punta della Dogana, um dos dois locais onde está a exposição de Hirst, está a apresentação “The Bridge”, do grupo do Pavilhão de Grenada.
Andando pelo show, você por um segundo realmente sente que entrou em um anexo não autorizado da mostra “Treasures”, de Hirst.
DeCaires Taylor, o artista em questão, fundou o primeiro parque de escultura subaquática do mundo na costa oeste de Grenada em 2006. Sua biografia o descreve como “o primeiro de uma nova geração de artistas a mudar os conceitos do movimento ‘Land Art’ para o ambiente marinho”, e ele instalou esculturas subaquáticas e falou sobre sua arte submarina para multidões em todo o mundo na última década.

Uma diferença definitiva entre as duas instalações: o trabalho de Hirst é sobre fábulas, lendas, imaginação e o fantástico, enquanto deCaires Taylor fala sobre o meio ambiente e o que de fato acontece no fundo do mar.

“Aparentemente, eu não fui o único a notar a semelhança”, diz deCaires Taylor, contando que o Pavilhão tinha sido “inundado com perguntas sobre a suposta apropriação feita por Hirst do trabalho dele”.

O artista declara: “Ao longo dos últimos 11 anos, venho trabalhando debaixo d’água. Sempre esperei que meu trabalho fosse uma contribuição à humanidade, chamando a atenção para um mundo frágil e em perigo. Depois de ver a última exposição de Hirst, parece que certamente criei um gênero de arte que chama a atenção, mas os fac-símiles marinhos de Hirst são muito diferentes das minhas instalações vivas, tanto em contexto como em proposta. Se as pessoas realmente querem ver ‘tesouros inacreditáveis’, eles devem olhar abaixo da superfície de nossos mares nas verdadeiras maravilhas do mundo azul – a natureza não mente.”

As semelhanças são indiscutíveis, não só nas obras, mas nas fotos feitas no fundo do mar. Cabe ao visitante julgar o que essa coincidência significa (www.grenadavenice.org)
O artista britânico já sofreu no passado diversas acusações de que suas peças não são sempre inteiramente originais, mas inspiradas no trabalho de outros artistas. No caso da mostra em cartaz, o artista nigeriano Victor Ehikhamenor acusou Hirst de copiar uma conhecida obra de arte de bronze da Nigéria, “Head of Ife”, encontrada em 1938, em Ife, Nigéria, sem lhe dar o reconhecimento histórico apropriado.

A descrição escrita junto à peça “Golden Heads (Female)” na exposição de Hirst menciona Ife em uma história de ficção ampla inventada pelo artista sobre as origens da escultura, longe do reconhecimento mínimo devido a uma peça de tamanha importância para a Nigéria e seus artistas. Segundo Ehikhamenor, “Head of Ife” é uma das mais intrincadas e mais belas obras de arte criadas por artistas africanos clássicos e, para os milhares de telespectadores que veem a obra pela primeira vez, eles não pensarão em Ife, eles não pensarão em Nigéria, seus jovens crescerão conhecendo este trabalho como Damien Hirst”.

Ehikhamenor disse que o trabalho era uma cópia fiel do original e, no entanto, Hirst a celebrou como arte contemporânea. “Ele apenas fez uma imitação da obra”, disse ele.
Em uma declaração, o escritório do Hirst disse que Ife foi referenciada no texto de acompanhamento do trabalho e no guia de exibição, e mais, acrescentou que “‘Os Tesouros’ são uma coleção de obras influenciadas por uma ampla gama de culturas e histórias de todo o mundo – de fato, muitas das obras celebram obras de arte originais e importantes do passado”, diz o comunicado.

A mostra fica na Punta della Dogana e Palazzo Grassi, em Veneza, até 03/12/17.
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Matéria publicada no portal da revista Dasartes (www.dasartes.com.br/noticias).

Masp receberá R$ 500 mil de fundação americana para projeto de conservação

Depois da Casa de Vidro, o museu é o segundo prédio desenhado por Lina Bo Bardi a receber uma doação de conservação. Entre as primeiras ações é estudar o comportamento e movimentação desse prédio ao longo dos últimos 50 anos, principalmente a deformação das vigas superiores que vêm se envergando. +

Depois da Casa de Vidro, o Masp é o segundo prédio desenhado pela arquiteta Lina Bo Bardi a receber uma doação da Fundação Getty, de Los Angeles, para elaborar um projeto de restauro e conservação a longo prazo. O museu da avenida Paulista terá US$ 150 mil, cerca de R$ 470 mil, para desenvolver esses estudos com um time de arquitetos e especialistas.
Silvio Oksman, arquiteto especializado em restauro, está à frente do projeto, como antecipou esta coluna em outubro do ano passado. Ele planejava escanear a laser todo o museu, para identificar e prevenir eventuais problemas em sua estrutura, mas conta, no entanto, que o plano mudou e outras técnicas serão usadas.
Esse escaneamento a laser já vinha sendo sendo usado em estudos da Casa de Vidro, onde a arquiteta viveu até o fim de sua vida, e no prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, obra emblemática de Vilanova Artigas, um dos pilares da arquitetura brutalista, também alvo de estudos de Oksman.
No caso do Masp, o arquiteto e sua equipe devem primeiro centrar esforços no estudo das estruturas de concreto do museu, analisando como elas envelheceram ao longo dos anos. Também darão especial atenção a uma deformação das vigas superiores, que sustentam a grande caixa de vidro das galerias sobre o vão livre. Desde a conclusão do projeto, em 1968, elas vêm se envergando, e a forma como corrigir o problema será um dos principais focos do estudo.
“Essa era uma estrutura inovadora quando a Lina propôs, era bastante radical para aquele momento”, diz Oksman. “Nunca foi feito um estudo aprofundado sobre o comportamento desse prédio ao longo dos últimos 50 anos, sobre como ela respondeu à movimentação. Estudar essa estrutura era o primeiro passo para se pensar na conservação global do prédio. Isso interfere na forma de expor, interfere nos caixilhos, nas questões de luminosidade e isolamento térmico.”
Outras 21 obras icônicas do modernismo global, entre elas a sede da Bauhaus, desenhada por Walter Gropius, em Dessau, na Alemanha, e o Museu e Galeria de Arte do Governo, obra de Le Corbusier, em Chandigarh, na Índia, a famosa Casa Melnikov, do russo Konstantin Melnikov, em Moscou, e a torre Price, obra de Frank Lloyd Wright em Bartlesville, nos Estados Unidos, também foram contemplados pela mesma doação da Fundação Getty, que destinou US$ 1,66 milhão, cerca de R$ 5,2 milhões, à conservação de todos eles.
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matéria de Silas Martí para o blog Plástico na Folha de São Paulo, (www.plastico.blogfolha.uol.com.br).

Morre na Itália o general Roberto Conforti, protetor das artes e da cultura

Conforti serviu entre 1991 e 2002 como Comandante Geral dos Carabinieri responsável pela tutela do patrimônio cultural italiano, bem como pelas investigações e recuperação de bens culturais roubados na Itália. Parte soldado, parte curador de museu, parte amante da arte, sua vida foi dedicada à proteção dos tesouros da Cultura italiana. +

Na tarde de 26/7/2017, partiu para sempre o general italiano Roberto Conforti, aos 79 anos de idade. Conforti serviu entre 1991 e 2002 como Comandante Geral dos Carabinieri responsável pela tutela do patrimônio cultural italiano, bem como pelas investigações e recuperação de bens culturais roubados na Itália. Parte soldado, parte curador de museu, parte amante da arte, sua vida foi dedicada à proteção dos tesouros da Cultura italiana.
No início de sua carreira, seu pelotão contava com apenas seis policiais e era responsável pela proteção de quase 100 mil igrejas italianas, além de um incontável número de sítios arqueológicos, conhecidos ou desconhecidos, o que tornava seu trabalho ainda mais inglório. Sua dedicação incansável fez com que seu pelotão crescesse para cerca de 300 homens e se tornasse a mais famosa força policial do mundo especializada em crimes contra a arte e a cultura. O general foi responsável pela recuperação de centenas de bens culturais italianos, sendo constantemente homenageado por isso.
Conforti nasceu em Serre, perto de Salerno, no Sul da Itália, e ingressou na polícia aos 19 anos. Seus primeiros anos de trabalho foram dedicados ao combate a famosas organizações criminosas do país, como a Cosa Nostra (Sicília), a Camorra (Nápoles), a Ndrangheta (Calábria) e a Anonima Sarda (Sardenha), mas sua notoriedade veio com sua dedicação à investigação de crimes contra a arte e a cultura.

Condolências para a viúva Filomena e seus filhos podem ser enviados para Via Prisciano, 67, 00136, Roma - Italia.
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Informações publicadas no blog http://art-crime.blogspot.com.br (Association for Research into Crimes Against Art), que desde fevereiro de 2009 se dedica a publicar notícias referentes a crimes contra a arte.

Maikon K volta a fazer performance em Brasília

O maior festival de teatro do Centro-Oeste irá receber o trabalho do artista curitibano detido durante apresentação no Museu da República. +

O 18º Festival Cena Contemporânea promove foto-protesto para fechar a edição de 2017, que acontece entre 22/08/17 a 03/09/17. A foto, prevista para 02/07, será resultado de uma oficina voltada para o debate sobre nudez artística e aberta a todos os voluntários maiores de 18 anos que se proponham a se despir como uma forma de se manifestar política, social e culturalmente.

Entre os artistas convidados a discutir a temática antes da realização da foto, o performer paranaense Maikon K fará um depoimento sobre seu trabalho e sobre a detenção do último dia 15/07, quando foi impedido de fazer sua performance em frente ao Museu Nacional da República. O artista retorna à Brasília a convite do Cena Contemporânea, com apoio do Sesc, e novamente no museu. Além do relato durante a atividade, Maikon K re-apresentará o trabalho “DNA De DAN”, que acabou antes do final e foi tratado como um ato obsceno aos olhos da PM do DF.

A ação conta com a participação do renomado fotógrafo brasiliense Kazuo Okubo para conduzir a atividade e a foto. O desafio é propor a imagem com o maior número de corpos nus já registrada na capital do país.

Quando da detenção de Maikon, o Cena Contemporânea rapidamente se colocou à disposição de recebê-lo, propondo uma nova realização da performance interrompida. Não somente em repúdio à arbitrariedade praticada, que rompe com a liberdade outorgada à expressão artística, mas também pelo diálogo imediato que se estabeleceu entre a arte e a atividade formativa. Tanto a performance como a oficina perpassam o corpo enquanto forma de expressão. As duas estão previstas para o mesmo lugar, transgredindo o debate sobre arte e as mesmas resistências.

Maikon acolheu a iniciativa e se mostrou igualmente animado com a possibilidade do retorno e a chance de uma nova apresentação. A coordenação do Cena estendeu o convite ainda para que o artista participasse da foto por meio de uma fala destinada aos voluntários presentes.

MoMA anuncia primeira grande exposição de Tarsila do Amaral nos EUA

Essa será a terceira grande exposição dedicada a um artista brasileiro em Nova York em menos de um ano, após a de Lygia Pape, no Met Breuer, e a de Hélio Oiticica, no Whitney Museum of American Art. +

A artista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), cuja obra representa um capítulo importante do modernismo latino-americano, terá sua primeira grande exposição nos Estados Unidos a partir de fevereiro, anunciou na terça-feira (25) o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

Tarsila é considerada uma das maiores artistas brasileiras do século 20, e a exposição seguirá seu percurso desde sua infância no interior de São Paulo e seus estudos de arte em Paris até seu regresso ao Brasil, onde assentou seu estilo de "linhas sintéticas e volumes sensuais para representar paisagens e cenas vernáculas em uma rica paleta de cores", disse o MoMA em um comunicado.

Será a terceira grande exposição dedicada a um artista brasileiro em Nova York em menos de um ano, após a de Lygia Pape, no Met Breuer, e a de Hélio Oiticica, no Whitney Museum of American Art.

A pintura "Abaporu" de Amaral, de 1928, inspirou o Manifesto Antropofágico, escrito pelo marido da artista, o poeta Oswald de Andrade, e se tornou o símbolo deste movimento que buscava "comer" e digerir a arte europeia para criar uma arte brasileira, única e própria.

"Abaporu" - vendida por US$ 1,5 milhão ao bilionário argentino Eduardo Costantini em 1995 e considerada a pintura brasileira mais valiosa do mundo - e outras grandes obras de Amaral, como "A Negra" (1923) e "Antropofagia" (1929), farão parte da mostra, que acontecerá de 11 de fevereiro de 2018 a 3 de junho.

A arte de Amaral inspirou uma nova geração de artistas brasileiros nos anos 1960 e 1970, como Oiticica e Lygia Clark, e depois o movimento Tropicália, incluindo os músicos Caetano Veloso e Gilberto Gil, "contribuindo para o nascimento da arte moderna no Brasil", disse o MoMA.
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Matéria publicada no portal do Uol (www.uol.com.br), em 25/07/17.

"Se minha arte é bem-vinda, eu quero voltar", diz artista que foi preso

Ao receber um pedido de desculpas do governador, Maikon K ouviu que a arte era bem-vinda em Brasília, por isso, quer ter a chance de concluir a performance interrompida. Ele também conta como foi a ação da PM. +

Após ver interrompida sua apresentação no evento Palco Giratório, do Sesc, e ser preso, acusado de ato obsceno, no último sábado (15/7), o dançarino e performer paranaense Maikon Kempinski tem um desejo principal: retornar à praça em frente ao Museu Nacional da República e concluir o que não o deixaram fazer. "Se minha arte é bem-vinda, então eu quero voltar e fazer minha arte naquele lugar", afirma.

Maikon se refere a um telefonema que recebeu no domingo (16) do governador Rodrigo Rollemberg, do qual ouviu um pedido de desculpas e a afirmação de que seu trabalho era bem-vindo em Brasília. O secretário de Cultura, Guilherme Reis, também ligou se desculpando.

"Já propus (a apresentação) para o Sesc e eles estão me ouvindo. Espero que seja possível. É minha vontade. Esse seria o mínimo de retratação: a PM que agiu com violência fazer agora a segurança da apresentação. Seria importante, pedagogicamente e simbolicamente. Temos de assegurar o espaço da arte", diz o paranaense ao conversar por telefone com o Correio, enquanto esperava o avião que o levaria de volta a Curitiba, onde mora.
O dançarino acha que só vai conseguir processar o que aconteceu quando estiver em casa. Diz que o trauma inicial já passou, mas, por enquanto, precisa lidar com questões práticas, inclusive decidir que tipo de atitudes jurídicas vai tomar contra a ação da polícia. "Eles agiram com truculência, rasgaram nosso cenário. Vão ter de responder por isso de algum jeito", justifica.

Como foi a interrupção
Maikon detalha o que se passou na tarde de sábado, no início da apresentação de 'DNA de DAN', performance criada em 2013 e que já passou por diversas cidades brasileiras, muitas vezes sendo apresentadas em espaços públicos, como ocorreria na capital. A encenação, explica, dura cerca de quatro horas. No início, é inflada uma bolha plástica, onde ele entra. Lá, ele se despe e uma parceira de trabalho passa sobre seu corpo uma substância em forma de gel que se secará aos poucos, até formar uma segunda pele. O processo de secagem demora cerca de três horas e exige que Maikon permaneça imóvel. Só depois da pele formada e rompida, ele inicia uma dança baseada no arquétipo da serpente.

A encenação ainda estava na fase inicial, com a substância úmida, quando Maikon percebeu a movimentação ao redor da bolha de "pelo menos 10 policiais militares". Sua reação foi se manter imóvel, como a performance exigia, na esperança de que os PMs entendessem que se tratava de uma apresentação artística e não interviessem. "Em outras cidades, já aconteceu de a polícia se aproximar para entender do que se tratava, mas depois de alguém da equipe explicar, ela se afastou, sem problemas", conta.

Em Brasília foi diferente. O artista explica que, por azar, a pessoa responsável pela produção do Sesc havia se ausentado da cena para resolver um problema de fornecimento de energia — um cabo que saía do museu abastecia o gerador necessário para inflar a bolha. A parceira de Maikon tentou explicar para os policiais, mas, segundo o artista, não havia abertura para o diálogo. "Eles diziam que o Sesc, que o museu não mandavam nada. Que quem mandava era o código penal e que 'isso vai acabar'."

Diante da postura de Maikon de permanecer imóvel, alguns policiais resolveram entrar na bolha, abrindo um dos zíperes costurados no material. Nessa hora, o cenário acabou rasgado e permanentemente danificado. "Eles entraram na bolha me ameaçando, um dos policiais levantou o punho, como se tivesse intenção de me bater. Foi nessa hora que me mexi e gritei para ele não encostar em mim", conta. Recebendo a ordem para se vestir, Maikon pediu uma toalha, afirmando que tinha uma substância no corpo e por isso não queria colocar suas roupas. Mas acabou tendo de fazê-lo.

"Vesti minha calça e saí do cenário. Nessa hora, recebi uma chave de braço e fui levado para a viatura. Não pude me calçar nem pegar minha carteira. Fomos para a delegacia com motos escoltando, as sirenes ligadas. Lá, tive de ficar em pé, olhando para a parede. A pessoa do Sesc chegou e não podia se aproximar", lembra. Maikon só foi liberado depois de assinar um termo circunstanciado de ato obsceno, o que o deixa sujeito a ter de se explicar na Justiça.

Responsabilidades
Por meio de sua assessoria de comunicação, a PM afirma que não agiu com violência e que foi ao local porque "diversas pessoas reclamavam de um homem nu próximo ao Museu da República". interrompeu a apresentação porque ninguém no local apresentou uma autorização para a apresentação.

A Polícia Militar informa que foi acionada porque "nenhuma autorização dos órgãos responsáveis foi apresentada e, como esse tipo de apresentação é proibida para menores de idade em razão da classificação etária a que deve ser submetida, o caso foi levado à delegacia da área para o registro". A PM segue: "No local, não havia nenhuma estrutura que pudesse impedir a aproximação de crianças, o que revoltou algumas famílias que aproveitavam o dia ao lado de crianças para conhecer os monumentos de Brasília e que ficaram surpresas ao presenciar o ato obsceno".

O Sesc-DF se pronunciou por meio de nota nesta segunda-feira. No texto (leia a íntegra abaixo), a entidade "repudia a detenção do artista Maikon K" e "ressalta que a instituição tinha a autorização do Museu Nacional da República, assinada pelo diretor Wagner Barja, para realização da performance e tomou o devido cuidado de informar que se tratava de um espetáculo com classificação indicativa de 16 anos". Para o Sesc, a proibição da performance em Brasília, os prejuízos materiais à obra e a detenção do artista constituem uma arbitrariedade que coloca em risco não apenas a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição Brasileira e por documentos internacionais dos quais o Brasil é signatário, mas interfere nos direitos culturais do público."

Para Maikon, a responsabilidade pelo que passou é inteiramente da Polícia Militar. "A gente até espera que algum tipo de agressão venha do público, mas não da polícia. Nada justifica a violência que houve. Eles não queriam diálogo, não quiseram ouvir", avalia. Também está certo de que não fez nada de errado. "Se eu estivesse errado, não teria recebido um pedido de desculpas do secretário de Cultura e do governador, que é o chefe da Polícia Militar", conclui.

A íntegra da nota do Sesc
O Serviço Social do Comércio no Distrito Federal (Sesc-DF) reafirma o seu compromisso em contribuir para o bem-estar e para melhoria da qualidade de vida dos comerciários e de seus familiares. As ações do Sesc propagam princípios humanísticos e universais que oferecem melhores condições de vida para todos. A realização do festival Palco Giratório, em todo o Brasil, cumpre com a finalidade de promoção da diversidade cultural e dos direitos culturais dos brasileiros, não cabendo ao Sesc nenhum tipo de censura, conforme prevê a Constituição.

Nesse sentido, o Sesc-DF repudia a detenção do artista Maikon K, que teve a sua performance artística DNA de DAN interrompida e cenografia danificada pela Polícia Militar do DF, no sábado (15), no Museu da República, em Brasília. O Sesc-DF ressalta que a instituição tinha a autorização do Museu Nacional da República, assinada pelo diretor Wagner Barja, para realização da performance e tomou o devido cuidado de informar que se tratava de um espetáculo com classificação indicativa de 16 anos, que ocorreria no período noturno, às 19h30.

A proibição da performance em Brasília, os prejuízos materiais à obra e a detenção do artista constituem uma arbitrariedade que coloca em risco não apenas a liberdade de expressão, assegurada pela Constituição Brasileira e por documentos internacionais dos quais o Brasil é signatário, mas interfere nos direitos culturais do público. Não vivemos mais em uma época em que um policial militar pode definir isoladamente a realização ou não de um evento.

O Festival Palco Giratório alcança um público aproximado de 500 mil pessoas por ano, em todo o País, por meio de acesso gratuito aos espetáculos ou ingressos com valores reduzidos. Acontecendo, portanto, em diversos locais que não contam com espaços culturais especializados. Serão realizados 20 espetáculos/performances no Distrito Federal até 30 de julho. Ainda em 2017, o projeto visitará 147 cidades, somando 685 apresentações definidas por uma curadoria composta por artistas, técnicos e especialistas em cultura. Ocupar espaços públicos com arte constitui uma estratégia de democratização a práticas que ainda permanecem restritas a um grupo social muito pequeno. Não por acaso, o Projeto constitui uma referência para políticas públicas, dado seu amplo alcance social e continuidade.
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Matéria de Humberto Rezende publicada originalmente no site do jornal Correio Braziliense, em 17/07/17.

Tempestade violenta invade o Louvre e danifica obras de Poussin e outras peças

Funcionários do museu do Louvre revelaram os detalhes das obras de arte danificadas pelas violentas tempestades que sacudiram Paris nos dias 8 a 9 de julho. +

Duas obras de Nicolas Poussin estão entre as que foram danificadas no domingo (09/07), já que a capital francesa se viu abaixo de 50 milímetros de chuva em apenas uma hora, com a tempestade inundando várias estações do metrô e infiltrando o Louvre.

Em um comunicado de imprensa publicado na última quinta-feira, o museu francês confirmou que a água havia invadido o mezanino da ala Denon, afetando as salas "Artes do Islã" e "Do Mediterrâneo Oriente para o Templo Romano", ambas fechadas para estabilizar a higrometria.

A água também entrou no primeiro andar da ala Sully, afetando a "Salle des Sept-Cheminées" e a escadaria Henri IV, e o segundo andar da Cour Carrée, afetando algumas salas que abrigam pinturas francesas. Espaços não visuais, como os vestiários no porão e o café mezanino, também foram afetados pela tempestade.

Apesar da implementação imediata de medidas de emergência pela equipe do museu, foram observados danos causados no verniz de duas (Primavera e Outono) das pinturas "Four Seasons" (Quatro Estações) de Nicolas Poussin e um trabalho em grande formato de Jean-François de Troy, “The Triumph De Mordecai” (1736). As obras de Poussin foram imediatamente removidas como precaução e o Jean-Francois de Troy desprendido da parede. Três pinturas de Georges de Latour e Eustache Le Suer no segundo andar da ala Sully também foram retiradas como medida preventiva.

O museu abriu como de costume na segunda-feira passada, exceto pelo anexo da sala de Arte Islâmica e os adjacentes. O trabalho está em andamento para garantir que os espaços afetados reabrem o mais rápido possível e os restauradores estão avaliando a extensão do dano causado.

Os funcionários do Louvre não tiveram atualizações sobre o status das obras de arte danificadas até o fechamento desta matéria.
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Matéria traduzida de Naomi Rea originalmente publicada no site do ArtNet (www.artnet.com), em 17/07/17.

Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília

O artista Maikon K. realizava a performance 'DNA de Dan' no sábado, quando foi interrompido por policias militares que o prenderam por 'ato obsceno'. +

O artista e performer paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K., foi preso na tarde deste sábado pela Polícia Militar do Distrito FEderal, enquanto apresentava a sua performance "DNA de Dan" em frente ao Museu Nacional da República. Por volta das 17h20m de sábado, policiais militares abordaram o artista e o impediram de continuar realizando a performance. Detido sob a justificativa de que o artista praticava "ato obsceno", o performer foi colocado no porta-malas de uma viatura policial e levado para a 5ª Delegacia de Polícia da capital federal, onde teve de assinar um termo circunstanciado de ato obsceno. Durante a execução de "DNA de Dan", Maikon realiza o trabalho com o corpo nu, inserido numa esfera plástica e translúcida.

Neste domingo à tarde, após ser liberado, o artista publicou um texto em seu perfil no Facebook onde se disse indignado com o episódio e com a ação policial, que tanto o impediu de completar o seu trabalho como danificou o material cenográfico da performance. Concebida pelo artista para ser apresentada ao ar livre, em espaços públicos, "DNA de Dan" era apresentada como parte integrante do projeto Sesc Palco Giratório, que é considerado o principal projeto de circulação de obras de artes cênicas em território nacional. Antes de chegar a Brasília a obra já havia sido apresentada sem problemas em diferentes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande. Reconhecido como um dos mais importantes performers do país, Maikon teve este mesmo trabalho apresentado na mostra “Terra Comunal: Marina Abramovic + MAI”, realizada pelo Sesc São Paulo em 2015 e dedicada à obra de Marina Abramovic.

Em seu relato, Maikon agradeceu ao apoio que recebeu de "pessoas que já viram a performance 'DNA de DAN' e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui", escreveu.

Em seu relato, Maikon diz que a sua performance "não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno". Além da apresentação de sábado, "DNA de Dan" também seria apresnetada neste domingo, no mesmo local, mas a sessão foi cancelada.
Sobre a suposta razão da sua prisão, a nudez do seu corpo, e a abordagem dos policiais, o artista contou que já havia iniciado o trabalho quando ouviu "vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como 'isso vai parar de qualquer jeito, caralho', 'tira esse cara daí', 'que porra é essa'", disse.

Seus produtores teriam tentado dialogar com os policiais, mas não foram ouvidos:
"Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava, parado, 'logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar', e continuaremos o trabalho. Porque duas outras vezes já tivemos a aproximação de policiais, mas após a explicação eles entenderam se tratar de uma obra de arte e nos deixaram continuar sem que parássemos", escreveu.

De acordo com a PM, os militares foram ao local após transeuntes avisarem que teriam avistado "um homem nu" nas imediações do Museu da República. Segundo a PM, os PMs foram informados de que o performer realizava um trabalho artístico, mas como "não foi apresentada nenhuma documentação/autorização do museu tampouco da administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informou a PM em uma nota.

Instituição responsável pela realização da performance, o Sesc informou que irá se posicionar sobre o ocorrido apenas na segunda-feira. Em seu texto, Maikon ressaltou a importância de projetos artísticos como o Palco Giratório, e disse esperar que "mesmo depois disso tudo, o Sesc continue com essa coragem de apoiar trabalhos artísticos de todos os estilos e discursos, como sempre fez ao longo dos anos".
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Matéria originalmente publicada no jornal “O Globo”, em 16/07/17.

Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance

O artista paranaense foi preso pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu. +

O artista paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K, um dos nomes mais respeitados e consagrados da performance no Brasil, foi preso em Brasília, em uma ação policial que faz lembrar os tempos de ditadura.

Ele foi detido na tarde deste sábado (15). A prisão foi justificada pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu.

A prisão foi feita no momento em que Maikon K se apresentava em frente ao Museu Nacional da República com a performance “DNA de DAN”, na qual fica nu com o corpo coberto de um líquido que se resseca aos poucos, até, ao fim, se quebrar, revelando a pele do artista.
A performance “DNA de DAN” integra o projeto do Sesc “Palco Giratório”.

A performance já foi apresentada em diversos lugares no Brasil, sempre com respeito do público e da crítica especializada.
“DNA de DAN”, inclusive, foi escolhida pela artista Marina Abramović, maior nome da performance no mundo, para ser uma das oito performances brasileiras a integrar sua megaexposição “Terra Comunal” no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2015. Foi a maior mostra na América do Sul da artista sérvia radicada em Nova York, e Maikon K foi convidado a apresentar “DNA de DAN” pela própria artista, admiradora do trabalho do brasileiro. A própria Marina Abramović já utilizou da nudez como expressão artística em performances consagradas.

Abordagem violenta da PM
Em Brasília, a abordagem policial a Maikon foi feita de forma agressiva, conforme relato do artista. Ele foi levado à 5ª Delegacia de Polícia na Asa Sul e não pôde sequer terminar sua apresentação.

No DP, Maikon foi obrigado a assinar um termo circunstanciado por “praticar ato obsceno”, mesmo tendo feito uma performance artística, e só então foi liberado.

“Não estava ali como pessoa física, mas sim como artista contratado pelo Palco Giratório do Sesc”, afirma Maikon K ao Blog do Arcanjo do UOL, indignado.

Além disso, o cenário da performance — uma gigante bolha de plástico transparente criada pelo artista Fernando Rosenbaum, dentro da qual a apresentação é feita — foi rasgado de forma violenta durante a abordagem da PM, segundo relato de Maikon.
“Usaram de violência. Um sargento me imobilizou depois com uma chave de braço e não permitiu que eu levasse nem meus sapatos e documentos. Ninguém pôde me acompanhar na viatura, fui socado num porta-mala de camburão junto com um pneu de estepe”, conta.

Performance consagrada

Maikon lembra que seu trabalho “DNA de DAN” já esteve nas mais importantes instituições culturais do Brasil.
“Esse trabalho estreou em 2013 em Curitiba, com apoio de um prêmio da Fundação Nacional de Artes. Lá, fizemos dez apresentações ao ar livre, no bosque atrás do Museu Oscar Niemeyer. E nunca fomos impedidos ou atacados por isso”, diz.

“Depois, circulamos por várias cidades, tendo o apoio de instituições como a Funarte, o Sesc, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Memorial Minas Gerais, a Casa de Cultura de Belém, o CCBB etc. Essa performance já foi feita em praças e ruas, universidades, centros de cultura, galerias”, lembra.

Maikon fala que, apesar da truculência policial da qual foi vítima, não vai desistir de sua arte.
“Podem me colocar diante de um juiz. Eu sei que eu não fiz nada de errado nem nada pelo qual eu deva me envergonhar. Eu estava trabalhando, e minha função é essa: perturbar a paisagem controlada dos sentidos”, declara.

E manda um recado a quem quer calar sua arte:
“O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé.”
O Sesc ainda não se pronunciou sobre o caso, mas o Blog do Arcanjo do UOL apurou que a instituição planeja divulgar nesta segunda (17) uma nota de repúdio à prisão de Maikon Kempinski.

Governador pede desculpas

O Blog do Arcanjo do UOL apurou ainda que, neste domingo (16), o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e o secretário de Cultura do DF, Guilherme Reis, telefonaram para Maikon K para pedir desculpas pela prisão em nome do Governo do Distrito Federal. Maikon já está sendo assessorado por advogados do Sesc.

Caso lembra a ditadura

A prisão truculenta de Maikon K durante sua performance artística “DNA de DAN” lembra os tempos da ditadura, quando casos assim aconteciam.
Em 1968, a peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, com seu Teat(r)o Oficina teve uma sessão interrompida pelo grupo Comando de Caça aos Comunistas no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Os artistas foram espancados e o cenário destruído. Depois, durante a turnê no Rio Grande do Sul, os artistas voltaram a ser perseguidos com violência por militares.
Também em 1968, a atriz Norma Bengell foi sequestrada por militares no momento em que chegava ao Teatro de Arena, em São Paulo, para apresentar a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar.

Recentemente, o teatro tem sido vítima novamente da violência policial.

Em 2015, artistas do Teat(r)o Oficina precisaram depor no Fórum Criminal da Barra Funda. Ao fim, a Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, eram inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça “Acordes”, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

Também em 2015, o artista circense Leônidas Quadra, intérprete do palhaço Tico Bonito, foi preso também durante uma apresentação em Cascavel, interior do Paraná, justamente porque policiais que viam a apresentação não gostaram das críticas à polícia feita na peça. O palhaço foi detido por “desacato à autoridade”.

Em 2016, a PM de Santos, litoral paulista, prendeu o ator Caio Martinez Pacheco durante a peça “Blitz – O Império que Nunca Dorme”, da Trupe Olho da Rua, que satiriza o poder do Estado. Os policiais que estavam presentes na praça onde a peça era apresentada não gostaram do uso da bandeira nacional no espetáculo.

Passagem pelo corpo
Na programação do “Palco Giratório 2017” do Sesc, a performance de Maikon K é definida assim:
“DNA de DAN é uma dança-instalação de Maikon K. Num primeiro momento, o performer mantém-se imóvel enquanto uma substância seca sobre seu corpo. Após essa fase da experiência, ele se moverá. A ação acontece dentro de um ambiente inflável criado pelo artista Fernando Rosenbaum – o público poderá entrar nesse espaço e lá permanecer. Dan é a serpente ancestral africana, que dá origem a todas as formas. A partir desse arquétipo, Maikon K cria seu rito de passagem pelo corpo. A construção de outra pele, o ambiente artificial e a relação com o público são dispositivos para esta performance, na qual o corpo do artista passa por sucessivas transformações.”
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Matéria de Miguel Arcanjo originalmente publicado em seu blog no portal “UOL”, www.uol.com.br, em 16/07/17.

Artista é preso durante performance no Sesc Brasília

O dançarino e performer paranaense Maikon K teve a apresentação, na qual fica nu, interrompida e foi levado para a delegacia por "ato obsceno". +

Uma performance artística interrompida pela Polícia Militar no sábado (15/7) à tarde, em frente ao Museu Nacional da República, fazia parte da programação do evento Palco Giratório, mostra teatral promovida pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). Na ação da PM, o dançarino e performer paranaense Maikon Kempinski acabou detido e levado para a 5ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), onde precisou assinar um termo circunstanciado de ato obsceno.

O Correio falou com o artista na manhã deste domingo. Maikon K, seu nome artístico, se mostrou indignado com a situação e lamentou que seu cenário tenha sido rasgado pelos militares, mas preferiu não comentar mais sobre o caso por esperar um posicionamento da organização do Palco Giratório. O Sesc informou que só se posicionará na segunda-feira.

Na apresentação — chamada DNA de DAN e que já passou por palcos de várias cidades do país —, o artista fica dentro de uma bolha plástica e tem aplicado sobre o corpo nu uma substância que se resseca aos poucos, até formar uma espécie de segunda pele. Para não rompê-la, o artista é obrigado a respirar cada vez menos.

O rompimento, no entanto, é inevitável e, quando acontece, Maikon dá início a uma dança desenvolvida a partir de uma pesquisa sobre arquétipos e elementos espirituais. Em um vídeo feito sobre a apresentação, Maikon explica que sua dança é inspirada no arquétipo da serpente.

Espaço público

A performance já passou por outras cidades devido ao Palco Giratório. Segundo o curador do evento, Leonardo Braga, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande, ela ocorreu em espaços públicos sem problema. Em Brasília, DNA de DAN foi programada para ser apresentada em frente ao Museu Nacional da República. No entanto, Maikon foi interrompido por policiais militares, que ordenaram que ele se vestisse. Depois, ele foi colocado na traseira de uma viatura e levado à delegacia.
Segundo a PM do Distrito Federal, os militares foram ao local depois de populares solicitarem a presença da polícia porque "havia um homem nu ao lado do Museu da República". Ainda segundo a PM, os policiais foram informados por um homem que ali ocorria uma exposição de arte. No entanto, "como não foi apresentada nenhuma documentação /autorização do museu tampouco da Administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informa uma nota.
Nas redes sociais, muitos se mostraram indignados com a detenção de Maikon. Na página do artista no Facebook, vários comentários criticam a ação da polícia e mostram apoio ao paranaense. "A ditadura tá aí, na cara de todo mundo, só não enxerga quem não quer", escreveu uma internauta. "Já que não tem onde fazer justiça em Brasília, vamo prender performer, né...", protestou outra.
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Matéria publicada originalmente no site do jornal “Correio Brasiliense” (www.correiobraziliense.com.br)

Mostra em SP une arte e justiça para debater condenação de catador de lixo

“Osso: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga", em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, propõe manifesto sobre o caso do jovem negro carioca preso durante manifestações de junho de 2013 por portar detergente e água sanitária. +

Da aproximação entre um curador e um grupo de criminalistas nasceu a mostra "Osso: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga", que abre na próxima terça (27), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Rafael Braga foi um dos poucos brasileiros presos e condenados no contexto das chamadas Jornadas de Junho de 2013, quando manifestações tomaram as ruas do país, primeiro contra o aumento da tarifa do transporte público, depois contra a corrupção e outras bandeiras.

Menos de um mês após obter progressão para o regime aberto com o uso de tornozeleira eletrônica, ele foi preso de novo e condenado, agora por tráfico de drogas, num julgamento contestado pelo acusado.

A proposta de uma mostra política obteve a adesão de 28 artistas, como Anna Maria Maiolino, Carmela Gross, Cildo Meireles, Nuno Ramos, Paulo Bruscky e Rosana Paulino.

Para o curador Paulo Miyada, ao emprestarem seu prestígio para a causa do direito de defesa, os artistas atuam como cidadãos e colocam seu trabalho como de uso público, a favor do debate.

"A ideia é de subverter o formato mais consolidado de exposição de arte e política, quando uma proposta curatorial mais ampla permite que cada trabalho apresente uma agenda, para obtermos não apenas obras-discurso mas obras-atitude", diz Miyada.

Debate Judicial

A exposição é uma parceria com o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).

"Osso" é uma alusão à escolha de obras feitas a partir de elementos mínimos e também à fragilidade do direito de defesa no país.
"Rafael Braga é um dos milhares de jovens negros e pobres condenados de maneira desproporcional a crimes a eles imputados apenas com base no relato policial", explica Hugo Leonardo, vice-presidente do IDDD.

"A Justiça criminal é em geral aplicada aos mais vulneráveis da sociedade, a quem não é dada voz, numa espécie de perseguição penal, que perpetua a exclusão."

Para ele, a abordagem por meio da arte pode quebrar barreiras, como o preconceito e a indiferença, e permitir um diálogo verdadeiro.
"A multiplicidade de sentidos e afetos envolvidos na arte são amplos, abertos, e capazes de sensibilizar o outro", concorda Carmela Gross, que participa da mostra com um desenho em grafite sobre parece ("Águia", de 1995) feito como parte de uma instalação na antiga Cadeia Municipal de Santos.

Para Cildo Meireles, a exposição se insere num quadro de "injustiça sistemática do país em que os corruptos não estão presos mesmo com provas gritantes acumuladas contra eles". "A arte mostra a indignação possível."

Paulo Bruscky, que vai remontar seu Manifesto Nadaísta, lançado em 1974, durante o regime militar, como forma de protesto contra a censura e a perseguição que sofria, afirma se identificar com o caso de Rafael Braga.

"Fui ameaçado e preso três vezes. Diziam que eu era comunista porque fazia intervenções urbanas", lembra. Segundo ele, os perseguidos pela Justiça de ontem e de hoje são "os que fazem o povo pensar e os miseráveis".

Condenação

No dia 20 de junho de 2013, Rafael Braga, 25, trabalhava como catador de latas perto de um protesto no centro do Rio quando foi detido por policiais civis portando duas garrafas plásticas contendo produtos de limpeza.

Para a perícia, as substâncias tinham "mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov". O jovem foi condenado a cinco anos de prisão por porte de artefato explosivo.

Obteve progressão para o regime aberto com tornozeleira eletrônica e conseguiu emprego num escritório de advocacia. Menos de 30 dias depois, foi preso perto da casa da mãe, na Vila Cruzeiro (zona norte do Rio), próximo a ponto de venda de drogas. Segundo a polícia, portava 0,6 g de maconha, 9,3 g de cocaína e um rojão.

Braga nega as acusações, diz que a droga foi plantada e que foi agredido perto da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) local.
No processo, o juiz negou pedidos da defesa de acesso às imagens das câmeras da viatura e da UPP, e ao registro do GPS da tornozeleira. As testemunhas de acusação eram todas policiais.

Mais de um ano após ser detido, foi condenado a 11 anos e três meses por tráfico de drogas e associação criminosa. "É uma pena desproporcional para crime sem violência e com pequena quantidade de droga. É quase a mesma pena aplicada a um homicídio", diz Hugo Leonardo, do IDDD.

Braga, que já havia sido preso duas vezes por roubo, está detido em Bangu.
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Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/06/17.

‘Osso’: exposição no Tomie Ohtake apela ao direito à defesa de Rafael Braga

A mostra debate o caso emblemático do jovem condenado nos protestos de 2013 por portar desinfetante. +

Ao subir no pódio olímpico dos Jogos do México em 1968, o velocista Tommie Smith, que acabara de se tornar campeão mundial, fez um gesto que entrou para a história: enquanto tocava o hino nacional, o atleta, negro, abaixou a cabeça - em vez de levantar, em sinal de respeito - cerrou o punho direito e levantou o braço. Na mão, uma luva preta. O sinal era uma saudação ao Black Power, movimento ocorrido especialmente nos Estados Unidos, que simbolizava a luta e a resistência. Quase 50 anos depois, a imagem de Smith volta à cena, em um contexto análogo: o da resistência.

A obra Tommie é uma pequenina escultura de aço e madeira do artista Paulo Nazareth, que reproduz a imagem do atleta com o punho cerrado. Ela é uma das 32 obras pertencentes à mostra Osso - Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga, apresentada pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em parceria com o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).

Rafael Braga é um catador de latas brasileiro e, assim como o velocista, é jovem e negro. Foi detido nas manifestações de junho de 2013 por portar dois frascos contendo desinfetante e água sanitária. Ele foi o único condenado no contexto das manifestações de 2013, por "portar material incendiário", durante um protesto no Rio de Janeiro. Depois de cumprir parte da pena, passou para o regime aberto, mas acabou sendo preso novamente, em janeiro do ano passado, porque, segundo a versão da polícia, ele portava 0,6 grama de maconha, 9,3 gramas de cocaína, além de um rojão. Rafael, que nega todas as acusações, alega ter sido vítima de violência e extorsão policial.

O caso de Rafael Braga foi alçado a símbolo de centenas de outros casos que têm se repetido no Brasil, que anulam o direito da defesa se defender. Por isso, a escolha de uma "exposição-apelo", segundo explica o curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada. "As obras tentam abrir um leque de sensibilidade para fazer reverberar esta questão", diz. O título da exposição, Osso, se justifica por terem sido escolhidas obras produzidas a partir de estruturas mínimas, "sem gordura", como explica Miyada. As obras de 29 artistas brasileiros são divididas entre as inéditas, as feitas especialmente para a ocasião e algumas já conhecidas. E muitas delas incomodam.

Em Os homens, por exemplo, o artista Rafael Escobar traz uma pilha de registros da Defensoria Pública de São Paulo com os relatos feitos por carroceiros da região da Luz sobre como perderam seus bens nas ruas. Os nomes dos envolvidos estão suprimidos, assim como a caracterização dos responsáveis por levar os pertences, deixando espaços em branco onde residem a ambiguidade entre a violência política e pública. Os relatos podem ser levados para casa. O mesmo ocorre com a obra de Paulo Nazareth, que narra, em primeira pessoa, como foi que aos sete anos de idade foi abordado pela polícia. O folheto com o texto também pode ser levado.

Artistas jovens, negros e ligados às questões sociais formam a exposição, como é o caso de Rosana Paulino, com O Progresso das Nações, e do Manifesto Nadaísta, de Paulo Bruscky. Logo na entrada, letras garrafais avisam: "Artista é público". A obra de autoria de Vitor Cesar é feita com letras parecidas com as usadas para nomear os prédios pela cidade. Em uma sala completamente vazia, está o Cruzeiro do Sul (1969), de Cildo Meireles: um cubo de madeira de 9 milímetros apresentado diretamente sobre o chão. A obra é feita de pinho e carvalho, madeiras utilizadas por povos indígenas para produzir fogo por fricção. Outra sala é ocupada pelo IDDD, e informa de uma maneira direta, porém sem destoar da narrativa dos demais cômodos, a história de Rafael Braga intercalada com relatos de abusos policiais.

De acordo com Hugo Leonardo, advogado criminal e vice-presidente do IDDD, a ideia é sensibilizar a população por meio da arte, "partindo do particular, que é o caso do Rafael, indo para o geral, de tantos casos de pretos, pobres e presos", diz. Para isso, além das obras, haverá um debate programado para este sábado, 1º de julho, com Hugo Leonardo, Paulo Miyada, Geraldo Prado, Suzane Jardim e Cidinha da Silva. "Estamos prevendo uma série de atividades durante essa exposição com a presença de jovens da periferia, com debates, com pessoas que sofrem essa violência do sistema de justiça criminal", diz Hugo Leonardo.
A exposição fica em cartaz do dia 27 de junho ao 30 de julho, das 11h, às 20h e a entrada é grátis. O Instituto Tomie Ohtake fica na avenida Faria Lima, 201, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
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Matéria de Marina Rossi originalmente publicada no jornal “El País”, em 29/06/17.

Relatório da Tefaf Art Market Report relata aumento do mercado de artes online

Seguindo as novas tendências globais, o mercado de arte aos poucos vai se rendendo ao comércio online. Relatório de pesquisa revela que o mundo da arte está cada vez mais expandindo oportunidades digitais, ampliadas pelo impacto das novas tecnologias sobre ele. +

As descobertas do relatório “TEFAF Art Market: Online Focus” destacam a tensão entre a promessa de alcançar uma vasta base de clientes global e o desafio de manter a abordagem de vendas orientada pelo relacionamento – que vem dominando o mercado de arte há séculos. O relatório analisa ainda a extensão das oportunidades digitais ampliadas pelo mundo da arte e o impacto que as novas tecnologias apresentam sobre ele.

A pesquisa, realizada junto a cerca de 700 comerciantes de arte, descobriu que uma ampla maioria mantém negócios lucrativos de comércio eletrônico, mas um quinto ainda diz não ter planos para atuar online.

Quase dois terços dos dealers, ou 64%, disseram vender arte e antiguidades online. Já as casas de leilão foram mais rápidas para entrar no mercado virtual, com aproximadamente 8% das vendas de leilões de arte acontecendo online.

As renomadas casas internacionais de leilão lideram o comércio eletrônico e engajamento online, aproveitando suas marcas para abrir vantagem no mercado virtual. Estas casas usam o comércio eletrônico, seja através do desenvolvimento de suas próprias plataformas ou do uso de plataformas de terceiros, para atingir novos compradores e colecionadores, uma tendência que provavelmente só irá crescer.
Os dealers, em contrapartida, estão demorando a se adaptaras às novas tecnologias, com apenas um terço das operações realizadas online e com 20% das galerias e marchands afirmando que não têm intenção de migrar para a internet. Embora o mercado para venda de antiguidades online seja pequeno, o relatório apontou 18,8% de crescimento, o que significa que apesar do baixo engajamento, as vendas online estão em expansão.

Novas gerações, novas tendências

O crescimento mais rápido é observado na venda de peças com preços mais baixos, o que traz novos compradores ao mercado. O crescimento no topo do mercado vem sendo limitado por questões de confiança e transparência, mas os avanços na tecnologia minimizar estas questões.

Jovens colecionadores e millennials (ou Geração Y), que costumam organizar suas vidas através de dispositivos eletrônicos e estão totalmente à vontade para comprar arte e produtos de luxo online, são de vital importância para o crescimento futuro deste mercado.
Até agora, nenhum “player” de peso emergiu do mercado online, mas aqueles que estão inovando e desenvolvendo seu portfólio de produtos – como a Artsy, 1st Dibs e Invaluable – estão obtendo sucesso neste competitivo ambiente de mercado. Há uma reestruturação para este segmento, já que os demais modelos de negócios também estão à prova.

Não há dúvida de que o potencial dos canais digitais e mobile impactarão o negócio da arte. O relatório confirma as suposições da que a TEFAF havia lançado sobre o comprometimento dos dealers em relação às oportunidades que o comércio eletrônico oferece.

Primeira edição do relatório com foco no online

Esta é a primeira vez que a TEFAF, prestigiada feira de arte reconhecida por sua política rigorosa de verificação, lançou um relatório complementar, focado no mercado de arte online e na análise anual do estado e tamanho do mercado de arte como um todo. As respostas da pesquisa (673 participantes, dentre 8.000 convidados) mostram que pouco menos de 60% relataram que seu negócio de comércio eletrônico foi rentável em 2016.

O comércio eletrônico é definido, para o propósito do relatório, como “o papel que o cenário digital reproduz ativamente no mundo da arte” e inclui as transações realizadas online e funções não-transacionais, como o marketing através de canais de mídia social. Não ficou claro no relatório como os marchands definiram como essas atividades abrangentes contribuíram para o lucro ou prejuízo líquido em seus negócios.
O relatório, no entanto, destacou uma tendência inevitável, que deve encorajar as galerias a se envolver no mercado online: os dados demográficos. Compradores mais jovens, que cresceram conectados, são mais propensos a se sentir confortáveis comprando arte (e todo o resto) online. O relatório da TEFAF aponta que, dos americanos entre 25 e 34 anos, 57% estão confortáveis comprando arte online.

Da mesma forma, o Hiscox Online Art Trade Report, divulgado em abril, levantou que metade dos 758 compradores de arte pesquisados disseram que planejam comprar online mais arte e artigos de coleção no próximo ano, uma parcela que subiu para 59% entre os entrevistados com menos de 35 anos.

Enquanto as vendas em leilões caíram em 2016 em relação ao ano anterior, tanto a Sotheby’s quanto a Christie’s relataram aumentos significativos nas vendas online. Na Christie’s, a soma chegou a US $ 217 milhões, enquanto as vendas online da Sotheby’s aumentaram 20% em relação ao ano anterior, chegando a US$ 155 milhões.
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Matéria originalmente publicada no portal www.touchofclass.com.br

Novo site compila dados de origem de obras de arte

A plataforma permite que você trace de volta os movimentos de uma obra de arte até sua origem junto ao artista. +

Já se perguntou qual o caminho percorrido por uma obra de arte, desde que deixou as mãos de seu artista criador até chegar aos museus? Agora, o site Mapping Paintings (www.mappingpaintings.org) vai permitir aos usuários visualizar estas histórias de origem de obras. A plataforma de código aberto permite pesquisar obras de arte específicas e oferece uma representação visual de sua jornada em direção à sua localização atual.

Liderado pelo professor da Universidade de Boston, Jodi Cranston, o site rastreia obras de arte e permite aos usuários mapear informações de proveniência. A iniciativa visa oferecer uma pesquisa histórica de obras de arte, incluindo detalhes de proprietários e transações passadas, facilitando o caminho para os historiadores da arte e colecionadores.

Origem e proveniência da obra

Mapping Paintings foi inspirado por um dos projetos anteriores da Cranston, Mapping Titian. “A proveniência de informação vem de catálogos impressos e em alguns sites de museus, mas visualizar o movimento dessas obras de arte permite que os usuários reconheçam seu objetivo e também não se atolem em preocupações sobre autenticidade e pedigree”, disse Cranston. “Às vezes, ver que uma obra de arte foi para um lugar inesperado é mais impactante do que tê-la em um longo histórico”.

Os usuários poderão fazer entradas individuais no site, bem como publicar seus próprios projetos. Esses envios serão revisados para fins de precisão e depois adicionados ao site por um administrador. A Coleção Kress, composta por mais de três mil obras de arte europeia acumulada por Samuel H. Kress entre 1929 e 1961, será adicionada à plataforma em breve.

“Eu acho que muitos visitantes dos museus não percebem que essas obras de arte tiveram vidas interessantes antes de chegarem às paredes do museu, e é legal pensar sobre o que essas obras de arte testemunharam e quem mais as viu”, disse Cranston à Hyperallergic. “Isso aprofunda a experiência de visualização e traz vida à história”.

Histórico que pode agregar valor à obra

O público-alvo do site são os historiadores de arte, mas estes dados não serão úteis apenas aos acadêmicos. Detalhes dos proprietários anteriores, ou a exibição de uma obra de arte em um local importante, podem ser importantes no contexto de uma venda. As disputas que compõem a maioria dos litígios de arte geralmente dizem respeito a questões de propriedade, autenticidade ou valor. A propriedade pode ser contestada no contexto de trabalhos saqueados nazistas, por exemplo, e dados de proveniência imprecisos ou incompletos podem esclarecer as falsificações que fazem as rodadas em leilão. Alternativamente, um proprietário de alto perfil ou a presença em uma instituição.
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Fonte: site Mapping Paintings (www.mappingpaintings.org).

Cais do Valongo é declarado Patrimônio Mundial da Humanidade

Sítio arqueológico foi descoberto em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro. +

O Sítio Arqueológico do Valongo, no Rio de Janeiro (RJ), foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade neste domingo (9) pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O Cais do Valongo, localizado na Praça Jornal do Comércio, é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos. Em 20 de novembro de 2013, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, o Cais do Valongo foi declarado Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

No mesmo período, representantes da Unesco passaram a considerar o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos, sendo o primeiro lugar no mundo a receber esse tipo de reconhecimento. Ambos eventos reforçaram a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade.

Descoberta

Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, no período que antecedeu os Jogos Olímpicos de 2016, foram descobertos dois ancoradouros, Valongo e Imperatriz, contendo uma quantidade enorme de amuletos, anéis, pulseiras, jogo de búzios e objetos de culto provenientes do Congo, de Angola e de Moçambique.
"O Sítio Arqueológico do Valongo integra agora um singular conjunto de bens tombados exclusivamente nesse preceito, entre os quais está Auschwitz, uma rede de campos de concentração no sul da Polônia, e Hiroshima, cidade japonesa vítima de bombardeio atômico na Segunda Guerra Mundial", explicou.

A presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou que "no contexto da escravidão, o Rio traz consigo o triste título de maior porto escravagista da história. No entanto, apesar disso, apresenta-se igualmente como local onde a contribuição trazida pelos africanos encontra uma das maiores expressões, matizadas pela mestiçagem inerente ao ser brasileiro".
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Matéria publicada pelo Ministério da Cultura (www.brasil.gov.br/cultura), em 09/07/17.

Por que a Internet não vai mudar o jogo da representação de artistas

Em um excerto de seu novo livro, “The Great Reframing - How Technology Will -and Won’t - Change the Gallery System Forever”, Tim Schneider, colunista de mercado de arte do portal de arte Artnet.com, avalia por que os galeristas e marchands não querem uma revolução digital. Texto em inglês. +

In any marketplace where quality and value are almost entirely subjective, most buyers crave expert guidance. And the primary art market is a textbook example.
Even among relatively experienced collectors, a tacit assumption animates the gallery sector: Anyone with the confidence, passion, and resources to open a for-profit exhibition space in such an uncertain industry must know what he’s doing, at least to some extent. And the less knowledgeable the buyer is, the more willing he will usually be to trust in a purported specialist.

Unfortunately, such trust is not always warranted.
Unlike, for example, an attorney’s need to become bar-certified or a securities broker’s need to pass the Series 7 exam, an aspiring gallerist requires no formal scholarly or business training to sell art circa 2017.

In fact, opening an American gallery today demands less verified evidence of expertise than installing home-entertainment systems, braiding hair, or pumping gas—three occupations for which certain US states still require specific training or certification exams.
Professional associations exist in the art trade, but they are generally by-invitation-only groups with little practical impact. Case in point: As of June 2017, the most prominent such organization in the US, the Art Dealers Association of America, still did not count Larry Gagosian as a member.

Instead, the art-sales business has historically had a different kind of barrier to entry: real estate. By controlling a physical exhibition space, a gallerist doesn’t just become a business owner. He automatically becomes a gatekeeper to the primary market.
Yes, his long-term success depends on other criteria as well, such as his sales acumen, management skills, and social savvy. But in the short-term, as soon as someone acquires a space, he acquires a patina of authority and the power to affect the financial futures of at least a small number of artists.

Asymmetry of Power
In light of the above, it’s little wonder that many artists develop deep-seated frustrations with the traditional gallery system. Gallery representation gives them their best chance at establishing sustainable careers, and yet gallerists themselves may have little exposure to art history, little vision for the discipline’s future, and/or little interest in nurturing the talent on their roster.
In the most extreme cases, galleries can merely be the end result of copious wealth, ample free time, and a fascination with the glamour of the art scene—in other words, a somewhat edgier alternative to time-honored vanity projects like opening a bar or restaurant.
This means that the careers of a vast number of artists—who, in fairness, require no more formal training to go into business than dealers—hinge in large part on the potentially questionable judgments of a comparatively low number of gallerists, who are incentivized to minimize the amount of talent they allow into the system at any given time.
These circumstances have historically made selling art a money-losing proposition for the overwhelming majority of living artists. Gallerists simply have too much market influence and too little financial motivation to make their rosters inclusive on a mass scale. With few other options to sustainably monetize their work, most talent has been shut out of the game almost entirely.

Even before Gagosian, Zwirner, et al became global brands, every physical gallery at every level of the hierarchy already acted as a rubber stamp of basic quality in a marketplace short on signaling.

To use a bit of retail parlance, since gallerists maintain near-total control over who receives physical shelf space, the pure fact that they are showing particular artists’ works communicates to the public that those artists deserve attention. And since collectors also consciously or subconsciously grasp the gallery system’s importance in legitimizing artworks—aesthetically, financially, and socially—they also tacitly agree (via their open wallets) that it’s usually wiser to acquire based more on who is selling the work than on who created it, let alone what it looks like.
To use an imperfect comparison, then, the issue isn’t just that being exhibited by Zwirner does for an artist’s work what being branded and sold in an Hermès store does for a patterned scarf—meaning, instantly transforms it into a sought-after, and therefore expensive, luxury good. It’s also that being exhibited by even a quaint local gallery provides a baseline assurance of “quality.” And even this modest amount of security is worth a significant upcharge.

Digital Dream Deferred
Of course, the internet has complicated this scenario. The traditional gallery system no longer dominates artists’ ability to reach potential buyers. It is now possible for talent everywhere to sell work on primary-market platforms without the co-sign of a supposed expert. And this prospect means that, in 2017, securing representation is less important than ever to an artist’s ability to generate some amount of revenue from his passion.
But this apparent win for democracy is not changing the game quite as quickly as some may have hoped. Clare McAndrew’s 2017 art market report—which, I should remind you, is a study whose numbers I view as skeptically as the punch bowl at an orientation-week frat party—alleges that the online market grew 4 percent year on year from 2015 to 2016. More importantly, though, she acknowledges that this estimate failed to live up to long-held expectations in a fairly dramatic way.
She writes, “The rates of growth… for the last two years are significantly less than the growth rates forecast three or four years ago when estimates predicted double-digit increases in sales in the sector in excess of 20 percent.”

What’s happening here?
A closer look at the underlying dynamics suggests a reality that neither unrepresented artists nor Silicon Valley wants to hear. Open-access e-commerce may solve one of the longest-standing and most distressing problems in the art market, specifically by allowing any and all artists with an internet connection to slip past the traditional gatekeepers and reach buyers directly.
However, this new sales platform also creates (or at least, intensifies) a new problem—one that may be just as antagonistic to rank-and-file artists’ prospects as the old system of exclusivity and discrimination.

A Zero-Sum Game
To try to predict the impact of independent online-sales platforms on contemporary artists, it’s useful to look at three creative media where the model is somewhat more developed: books, music, and film (by which I mean everything from feature-length movies to episodic series to YouTube content).
Before diving into those comparisons, though, we must first acknowledge an important distinction. With the exception of digital artworks—assuming they’re marketed in a progressive way—fine art is what economists call a “rival good,” or a resource whose consumption (see: acquisition) by one party directly affects its availability to another.
A simpler way to say this is that collecting art is generally a zero-sum game. If I buy one of Andy Warhol’s Jackie paintings, you can’t own the same one unless, or until, I decide to resell it. And this scarcity element helps launch the price for sought-after works into orbit.
Books, music, and film, on the other hand, all generally qualify as “nonrival goods.” Scale becomes the route to profitability, whether we’re talking about an Oprah’s Book Club selection, a smash pop single, or a Hollywood blockbuster. The profit from each individual sale is relatively small, but those small profits add up to a large total when sellers get to collect them thousands or, even millions, of times.
Art is the opposite: Instead of making a small profit a large number of times, the gallerist or dealer seeks to make a large profit a relatively small number of times.
Despite this fundamental difference, however, online mass-media sales trends are still useful omens for online art-sales trends. Why? Because their shared reliance on the internet introduces some of the same crucial market dynamics to both.

The Tyranny of Options
Since any author, musician, filmmaker, or contemporary artist can now use an open-access e-commerce platform to reach potential consumers directly, opening a browser tab to peruse independently released works in any of these media now resembles opening a porthole from inside a fully submerged submarine.
The result is an instant flood—one liable to overwhelm the buyer and, in the process, make most independent artists as indistinguishable from one another within their discipline as the individual water droplets barreling into a breached vessel 20,000 leagues beneath the sea.
I call this phenomenon the tyranny of options. It reflects that, to some extent, technology’s overthrow of the traditional gatekeepers backfires. Yes, an open-access market for creative works of any kind is vastly more democratic than the traditional gatekeeper-controlled one.
But such a marketplace also becomes vastly more difficult for the average buyer to navigate. The reason being that the gatekeepers—be they record labels, Hollywood studios, or gallerists—still double as their medium’s most reliable signals of quality. Remove the former and you necessarily remove the latter.
Open-access e-commerce platforms thus strip artwork of many of the traits that made its marketing, valuation, and sale so unique in the pre-digital era. They effectively challenge this niche medium to play by mass-medium rules.

Therefore, any artist who fails to square this circle should expect his number of sales, as well as his profit margins on those sales, to be very low. And in a globalized marketplace sans gatekeepers, the sheer scale of competition means that this outcome will, in all probability, remain the standard for artists.
To look at the results from the collector’s point of view, we’re likely to be left with the phenomenon George Packer captured in a 2014 story about Amazon’s effect on the publishing market: “When consumers are overwhelmed with choices, some experts argue, they all tend to buy the same well-known thing.”
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This is the second of two excerpts from our art-market columnist Tim Schneider’s new book, The Great Reframing, which delves into the primary art market’s fraught relationship with technology. The full book is now available for download on Kindle.

* foto: Abertura da exposição de Julian Schnabel na Galeria Gagosian, em 21/02/2008, em Beverly Hills - Califórnia.
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Texto de Tim Schneider publicado originalmente no portal internacional de arte www.artnet.com em 29/06/17.

A cultura dos 10% mais ricos

Os governos só buscam diminuir privilégios quando são pressionados +

A cultura dos 10% mais ricos por Marcus Faustini, O Globo






A Warwick Commission on the Future of Cultural Value tornou pública uma pesquisa que mexeu com a comunidade artística e cultural da Inglaterra e as esferas de governo que trabalham com fomento às artes e direitos culturais por lá. O recado é direto: apesar de ter uma extensa política de apoio à produção artística, o financiamento público está beneficiando principalmente obras e ações para plateias que pertencem às camadas mais ricas e com menos diversidade étnica da sociedade inglesa. Se for considerada, a pesquisa pode criar uma mudança de rumo radical na história das políticas de arte e cultura.

Em 2011, as manifestações urbanas protagonizadas por jovens acenderam a luz vermelha para o governo britânico e para aqueles que trabalham no campo das artes. Uma das respostas foi tornar o envolvimento de jovens do entorno um dos eixos centrais das propostas de ações de instituições de arte e cultura que baseiam seus trabalhos em regiões com habitações populares. Instituições que possuíam essa missão em seus programas acentuaram práticas nesse sentido. Passados alguns anos, o resultado é visível: a participação de jovens nos espaços de decisão artística e de gestão aumentou em várias organizações. E jovens começaram a ocupar o lugar de referência em diversas situações. Seshie Henry, do I am Next, é dos exemplos. Realizou uma importante mobilização de jovens da cena alternativa do hip hop em apoio às vítimas do incêndio recente na Grenfell Tower

Já a atual pesquisa aponta que o “dinheiro das artes está financiando projetos para um público de esferas de elites, apenas”. Tanto as escolhas artísticas até o modo de circulação foram colocadas em xeque com o resultado da pesquisa. O dinheiro público acaba beneficiando apenas os 10% mais ricos da população, mantendo desigualdades, diminuindo a capacidade que a cultura possui de ser um espaço de diversidade e concentrando renda em determinados grupos. No teatro, na música, nas artes visuais é gritante, como aponta a pesquisa, a concentração da audiência nesses segmentos. Nenhuma sociedade se desenvolve com esse tipo de privilégio, nem sua indústria criativa, tampouco seu equilíbrio de direitos e justiça social.

O debate, de pouco fácil digestão para quem está confortável num determinado lugar da cadeia de produção e redes de criação, foi colocado para inspirar mudanças. É o tipo de escolha artística e estética que é feita que faz isso acontecer? É o modo como circulam as criações e ações? É o valor do ingresso? É algo que já está estruturado nas entranhas culturais e que leva a essas escolhas? São questões radicais que permeiam neste momento as diversas comunidades culturais inglesas.

Qualquer mudança naquilo que é feito no campo da arte e da cultura deve ir no ponto central: seu sistema. Mesmo que esse não seja claro para muitos, ele existe e interfere na experiência que temos com as expressões de arte e cultura. Um sistema que envolve financiadores, distribuição, legitimação, reconhecimento, visibilidade e determina invisibilidades, por exemplo. Pensar a audiência como um dos elementos desse sistema é uma mudança importante que pode ajudar a revelar como desigualdades foram sendo naturalizadas. Para quem usa como exemplo a cultura europeia sempre que pretende diminuir o que acontece no Brasil, não vale dizer que desta vez a discussão não importa. O debate sobre a audiência é um dos mais radicais em curso em grandes cidades que são referência na indústria criativa.

O britânico Paul Heritage, conhecido aqui no Brasil pelo constante trabalho de intercâmbio entre Inglaterra e Brasil, liderando a organização People's Palace Project, avalia: “É um momento super rico nas conversas sobre arte no Reino Unido. Pesquisas apoiadas pelo governo britânico sobre o valor de cultura, como o Warwick Commission, mostram que há uma nova tendência no ar. Diante dos rasgos do tecido social, a arte tem que reencontrar seu papel fundamental que vai muito além do valor econômico das indústrias criativas”.

É preciso um levante de ideias e pressões sobre todas as esferas de governos para manter a cultura na agenda da diversidade e da diminuição das desigualdades. Os governos só buscam diminuir privilégios quando são pressionados. Quando eles falham, aqueles que fazem pesquisas e criam ideias possuem um papel decisivo para manter a diversidade e a diminuição das desigualdades no horizonte do debate público. Por aqui, o atual ataque do governo Temer, que reduz o Ministério da Cultura a um escritório de facilitações de negócios do seu núcleo duro de governo, não pode deixar o debate da cultura amuado, como se não restasse mais esperança. É preciso botar na agenda da sociedade brasileira, outra vez, o debate sobre a cultura.
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Coluna de Marcus Faustini originalmente publicada no jornal "O Globo" em 27/07/17.

Contra "neoescravismo", crítico Paulo Herkenhoff quer negros em museus

Segundo o crítico, a crise política e econômica corrói o Brasil e abala as instituições, mas ao mesmo tempo abre caminho para que estudos valorizem trabalhos que antes eram às margens, em sua maioria os negros, e analisa a presença de índios na performance de Ernesto Neto na atual Bienal de Veneza. +

Um dos críticos de arte e pensadores mais relevantes do país, Paulo Herkenhoff vem liderando ao longo dos últimos anos uma batalha pela igualdade racial -não só nas ruas, mas também nas coleções dos grandes museus.

Na visão dele, a crise política e econômica que corrói o Brasil abala as instituições, mas ao mesmo tempo vem abrindo caminho para que "críticos, historiadores e curadores sérios" abandonem o mainstream e passem a estudar e valorizar trabalhos de nomes antes às margens, em grande parte de negros.

Em mais de três décadas de trabalho, Herkenhoff foi um dos curadores do MoMA, em Nova York, esteve à frente do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu Nacional de Belas Artes, foi diretor artístico de uma das mais celebradas edições da Bienal de São Paulo, em 1998, e comandou o MAR, o Museu de Arte do Rio, até o ano passado, quando pediu para deixar o cargo.

O estopim para a decisão foi um convite de outra liderança do museu ao sul-africano Brett Bailey para que encenasse ali sua polêmica peça de teatro em que atores negros são confinados, lembrando os zoológicos humanos criados para entreter a sociedade europeia do século 18.
"Ele foi impedido de fazer a peça por militantes do movimento negro", diz Herkenhoff. "É um diretor de teatro branco que discute racismo com negros dentro de gaiolas. Achei muito violento e racista, degradante a situação. Tinham posto ele lá à minha revelia, contra minha vontade."
Mesmo depois de deixar a direção do museu, o crítico continua sendo um consultor da coleção, numa tentativa de construir ali um dos maiores acervos de arte afro-brasileira contemporânea.

Ele também escreve um livro sobre a história dos negros nas artes visuais do país, analisando desde a obra de escravos até nomes em ascensão na atualidade. Alguns deles podem ser vistos agora na mostra com obras da coleção do Itaú Cultural, que Herkenhoff organizou na Oca.
Na montagem, ele defendeu que a esquerda faça um mea-culpa e analisou a presença de negros e índios nas artes visuais, em especial a polêmica performance na atual Bienal de Veneza, para onde Ernesto Neto levou índios que ocuparam uma oca de crochê.

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

NEGROS NA ARTE
Falar de afrodescendentes com muita desenvoltura para mim é um pouco complicado porque não sou negro. Meu companheiro é negro, e volta e meia vejo lembranças de situações de racismo vividas por ele. As contradições da sociedade brasileira têm um de seus sintomas mais graves e profundos na situação dos negros. Ninguém precisa me dizer que há um racismo claro na sociedade brasileira. Vivemos um neoescravismo.

Mas há uma tomada de consciência dos artistas. Essa geração hoje é muito afirmativa da crítica que quer fazer, e essa crítica passa por questões e políticas do poder e pelo fortalecimento das religiões afro nesse momento profundo de intolerância. Estão construindo um discurso alegórico, às vezes mais direto, criando modelos de convivência.
Nunca vou achar que a arte muda a sociedade, mas pode mudar como as pessoas se aproximam da sociedade para além da arte, porque, no fundo, esses artistas fazem uma arte além da arte. É o direito de ser negro, afrodescendente pleno, igual como cidadão. Nesses termos, isso é diferente de uma obra cuja finalidade está em si mesma.

MODA E OPORTUNISMO

Se houver [oportunismo na inclusão desses artistas nas coleções], isso é algo que também está respondendo a pressões da sociedade. Há instituições sérias que, de repente, acordam. Claro que há interesses políticos, mas são instituições sérias, curadores, historiadores e críticos que abrem mão do mainstream.

Essa é uma linha de prioridade, que tem se expandido nos últimos tempos.

SITUAÇÃO DO MASP
Estou no conselho do Masp, e acho o Masp hoje um museu excepcional. Ele está buscando a sua história. Mas, como é uma história de 50 anos revista em quatro ou cinco, parece que está pensando só no próprio passado, mas isso no futuro vai mudar. O que não é respeitável vai ser esquecido, e o que fica é o melhor.
Há uma vontade de estabelecer novas dinâmicas, e o Masp está assumindo riscos.

POLÍTICA CULTURAL
Nós temos de ter a volta de um governo democrático honesto. O PT evita fazer um mea-culpa, mas tem de fazer. Não pode ser uma esquerda que rouba, mas faz. Isso é fundamental. Acho que é preciso uma revisão ética para não deixar dúvidas de que há novos valores para o país.
Não é questão de voto. É uma questão de voto por falta de escolha. Quais são as lideranças efetivas de direita, esquerda e de centro que estão surgindo? É trágico. Precisamos de esquerdas que possam fazer uma revisão.

Na minha visão, a grande figura do século 21 no Ministério da Cultura foi o Juca Ferreira. Não havia narcisismo.
O que era o Marcelo Calero como ministro? Ele não tinha nenhuma vontade museológica. Só preenchia os dotes físicos do secretariado do [ex-prefeito] Eduardo Paes, no Rio. Era bem-apessoado, como todos os "Dudu boys", os secretários do Paes, que eram jovens e bem-apessoados.

Na situação atual o Marcelo Araújo [ex-secretário de Estado da Cultura paulista e atual presidente do Instituto Brasileiro de Museus] é a melhor pessoa para ser ministro.

ÍNDIOS NA ARTE
Nos anos 1960, o Brasil tomou mais consciência do genocídio dos povos indígenas. E alguns setores da sociedade foram muito ativos, entre eles os artistas, como Claudia Andujar e Cildo Meireles.

Um segredo aí para a gente entender o que é razoável [na representação dos índios na arte] é a noção de gueto do Cildo. Ele diz que numa situação de isolamento e enclausuramento a energia circula com mais densidade, como se fosse um buraco negro. E os exemplos que ele cita são o Harlem no período entre as grandes guerras e os índios brasileiros na selva.

Quando, no século 19, levam índios americanos para a Bienal de Veneza, havia ali ainda um entendimento de que os índios são uma extensão da história natural. Hoje acho que existe outro grau de consciência dos índios.

Quando o Ernesto Neto, que é um leitor assíduo do [antropólogo] Eduardo Viveiros de Castro antes que isso virasse moda, leva índios para lá, ele está buscando criar uma possibilidade de um diálogo.

Entendo que os índios hoje têm uma relação com sua própria história e uma relação com a sociedade nacional e global. Eles estão repovoando a selva. Não querem comprar carne no supermercado, querem viver sua experiência.

Eu acho que a intenção do Ernesto é muito mais criar um território para uma cultura indígena específica. Ele levou uma etnia específica a Veneza. Dizer que eles estavam dentro de jaulas ali é fazer uma leitura mecanicista.
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Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo” em 05/06/17.

Basquiat bate recorde ao ser vendida por US$ 110,5 mi em leilão na Sotheby"s

O recorde anterior do artista havia sido atingido em 2016, vendido por US$ 57,2 milhões em um leilão da Christie's. +

Uma pintura do norte-americano Jean-Michel Basquiat atingiu um recorde nesta quinta-feira (18) ao ser vendida por US$ 110,5 milhões em um leilão da casa Sotheby's em Nova York. A obra, que exibe um crânio preto sobre um fundo azul, foi leiloada após dez minutos do início da venda, uma duração pouco habitual.

O recorde anterior do artista havia sido atingido em maio de 2016, quando outro quadro de grande formato (2,38 x 5 m), também sem título, foi vendido por US$ 57,2 milhões em um leilão da Christie's.

Nesta quinta, o lance inicial foi fixado em US$ 57 milhões. O leilão se converteu rapidamente em um duelo entre um comprador presente na sala e outro que acompanhava a venda pelo telefone.

O primeiro chegou a oferecer US$ 97 milhões, mas acabou deixando que o adversário levasse o quadro por US$ 98 milhões, valor que já contabiliza gastos e comissões.
A pintura não vinha a público desde que foi leiloada em 1984. Naquela época, a obra datada de 1982 foi comprada por um colecionador anônimo que desembolsou cerca de US$ 19 mil.

Para Grégoire Billaut, responsável pela divisão de arte contemporânea da Sotheby's nova-iorquina, trata-se de "provavelmente um dos três ou quatro melhores quadros do artista".

A venda desta quinta-feira é mais uma prova, talvez desnecessária, de que Basquiat ainda reina na arte contemporânea quase 30 anos após sua morte por overdose, aos 27 anos.

Toda uma nova geração de compradores disputa suas obras, que já ocupam diversos museus do mundo.
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Matéria originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 18/05/17.