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Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília

O artista Maikon K. realizava a performance 'DNA de Dan' no sábado, quando foi interrompido por policias militares que o prenderam por 'ato obsceno'. +

O artista e performer paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K., foi preso na tarde deste sábado pela Polícia Militar do Distrito FEderal, enquanto apresentava a sua performance "DNA de Dan" em frente ao Museu Nacional da República. Por volta das 17h20m de sábado, policiais militares abordaram o artista e o impediram de continuar realizando a performance. Detido sob a justificativa de que o artista praticava "ato obsceno", o performer foi colocado no porta-malas de uma viatura policial e levado para a 5ª Delegacia de Polícia da capital federal, onde teve de assinar um termo circunstanciado de ato obsceno. Durante a execução de "DNA de Dan", Maikon realiza o trabalho com o corpo nu, inserido numa esfera plástica e translúcida.

Neste domingo à tarde, após ser liberado, o artista publicou um texto em seu perfil no Facebook onde se disse indignado com o episódio e com a ação policial, que tanto o impediu de completar o seu trabalho como danificou o material cenográfico da performance. Concebida pelo artista para ser apresentada ao ar livre, em espaços públicos, "DNA de Dan" era apresentada como parte integrante do projeto Sesc Palco Giratório, que é considerado o principal projeto de circulação de obras de artes cênicas em território nacional. Antes de chegar a Brasília a obra já havia sido apresentada sem problemas em diferentes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande. Reconhecido como um dos mais importantes performers do país, Maikon teve este mesmo trabalho apresentado na mostra “Terra Comunal: Marina Abramovic + MAI”, realizada pelo Sesc São Paulo em 2015 e dedicada à obra de Marina Abramovic.

Em seu relato, Maikon agradeceu ao apoio que recebeu de "pessoas que já viram a performance 'DNA de DAN' e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui", escreveu.

Em seu relato, Maikon diz que a sua performance "não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno". Além da apresentação de sábado, "DNA de Dan" também seria apresnetada neste domingo, no mesmo local, mas a sessão foi cancelada.
Sobre a suposta razão da sua prisão, a nudez do seu corpo, e a abordagem dos policiais, o artista contou que já havia iniciado o trabalho quando ouviu "vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como 'isso vai parar de qualquer jeito, caralho', 'tira esse cara daí', 'que porra é essa'", disse.

Seus produtores teriam tentado dialogar com os policiais, mas não foram ouvidos:
"Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava, parado, 'logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar', e continuaremos o trabalho. Porque duas outras vezes já tivemos a aproximação de policiais, mas após a explicação eles entenderam se tratar de uma obra de arte e nos deixaram continuar sem que parássemos", escreveu.

De acordo com a PM, os militares foram ao local após transeuntes avisarem que teriam avistado "um homem nu" nas imediações do Museu da República. Segundo a PM, os PMs foram informados de que o performer realizava um trabalho artístico, mas como "não foi apresentada nenhuma documentação/autorização do museu tampouco da administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informou a PM em uma nota.

Instituição responsável pela realização da performance, o Sesc informou que irá se posicionar sobre o ocorrido apenas na segunda-feira. Em seu texto, Maikon ressaltou a importância de projetos artísticos como o Palco Giratório, e disse esperar que "mesmo depois disso tudo, o Sesc continue com essa coragem de apoiar trabalhos artísticos de todos os estilos e discursos, como sempre fez ao longo dos anos".
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Matéria originalmente publicada no jornal “O Globo”, em 16/07/17.

Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance

O artista paranaense foi preso pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu. +

O artista paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K, um dos nomes mais respeitados e consagrados da performance no Brasil, foi preso em Brasília, em uma ação policial que faz lembrar os tempos de ditadura.

Ele foi detido na tarde deste sábado (15). A prisão foi justificada pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu.

A prisão foi feita no momento em que Maikon K se apresentava em frente ao Museu Nacional da República com a performance “DNA de DAN”, na qual fica nu com o corpo coberto de um líquido que se resseca aos poucos, até, ao fim, se quebrar, revelando a pele do artista.
A performance “DNA de DAN” integra o projeto do Sesc “Palco Giratório”.

A performance já foi apresentada em diversos lugares no Brasil, sempre com respeito do público e da crítica especializada.
“DNA de DAN”, inclusive, foi escolhida pela artista Marina Abramović, maior nome da performance no mundo, para ser uma das oito performances brasileiras a integrar sua megaexposição “Terra Comunal” no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2015. Foi a maior mostra na América do Sul da artista sérvia radicada em Nova York, e Maikon K foi convidado a apresentar “DNA de DAN” pela própria artista, admiradora do trabalho do brasileiro. A própria Marina Abramović já utilizou da nudez como expressão artística em performances consagradas.

Abordagem violenta da PM
Em Brasília, a abordagem policial a Maikon foi feita de forma agressiva, conforme relato do artista. Ele foi levado à 5ª Delegacia de Polícia na Asa Sul e não pôde sequer terminar sua apresentação.

No DP, Maikon foi obrigado a assinar um termo circunstanciado por “praticar ato obsceno”, mesmo tendo feito uma performance artística, e só então foi liberado.

“Não estava ali como pessoa física, mas sim como artista contratado pelo Palco Giratório do Sesc”, afirma Maikon K ao Blog do Arcanjo do UOL, indignado.

Além disso, o cenário da performance — uma gigante bolha de plástico transparente criada pelo artista Fernando Rosenbaum, dentro da qual a apresentação é feita — foi rasgado de forma violenta durante a abordagem da PM, segundo relato de Maikon.
“Usaram de violência. Um sargento me imobilizou depois com uma chave de braço e não permitiu que eu levasse nem meus sapatos e documentos. Ninguém pôde me acompanhar na viatura, fui socado num porta-mala de camburão junto com um pneu de estepe”, conta.

Performance consagrada

Maikon lembra que seu trabalho “DNA de DAN” já esteve nas mais importantes instituições culturais do Brasil.
“Esse trabalho estreou em 2013 em Curitiba, com apoio de um prêmio da Fundação Nacional de Artes. Lá, fizemos dez apresentações ao ar livre, no bosque atrás do Museu Oscar Niemeyer. E nunca fomos impedidos ou atacados por isso”, diz.

“Depois, circulamos por várias cidades, tendo o apoio de instituições como a Funarte, o Sesc, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Memorial Minas Gerais, a Casa de Cultura de Belém, o CCBB etc. Essa performance já foi feita em praças e ruas, universidades, centros de cultura, galerias”, lembra.

Maikon fala que, apesar da truculência policial da qual foi vítima, não vai desistir de sua arte.
“Podem me colocar diante de um juiz. Eu sei que eu não fiz nada de errado nem nada pelo qual eu deva me envergonhar. Eu estava trabalhando, e minha função é essa: perturbar a paisagem controlada dos sentidos”, declara.

E manda um recado a quem quer calar sua arte:
“O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé.”
O Sesc ainda não se pronunciou sobre o caso, mas o Blog do Arcanjo do UOL apurou que a instituição planeja divulgar nesta segunda (17) uma nota de repúdio à prisão de Maikon Kempinski.

Governador pede desculpas

O Blog do Arcanjo do UOL apurou ainda que, neste domingo (16), o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e o secretário de Cultura do DF, Guilherme Reis, telefonaram para Maikon K para pedir desculpas pela prisão em nome do Governo do Distrito Federal. Maikon já está sendo assessorado por advogados do Sesc.

Caso lembra a ditadura

A prisão truculenta de Maikon K durante sua performance artística “DNA de DAN” lembra os tempos da ditadura, quando casos assim aconteciam.
Em 1968, a peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, com seu Teat(r)o Oficina teve uma sessão interrompida pelo grupo Comando de Caça aos Comunistas no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Os artistas foram espancados e o cenário destruído. Depois, durante a turnê no Rio Grande do Sul, os artistas voltaram a ser perseguidos com violência por militares.
Também em 1968, a atriz Norma Bengell foi sequestrada por militares no momento em que chegava ao Teatro de Arena, em São Paulo, para apresentar a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar.

Recentemente, o teatro tem sido vítima novamente da violência policial.

Em 2015, artistas do Teat(r)o Oficina precisaram depor no Fórum Criminal da Barra Funda. Ao fim, a Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, eram inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça “Acordes”, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

Também em 2015, o artista circense Leônidas Quadra, intérprete do palhaço Tico Bonito, foi preso também durante uma apresentação em Cascavel, interior do Paraná, justamente porque policiais que viam a apresentação não gostaram das críticas à polícia feita na peça. O palhaço foi detido por “desacato à autoridade”.

Em 2016, a PM de Santos, litoral paulista, prendeu o ator Caio Martinez Pacheco durante a peça “Blitz – O Império que Nunca Dorme”, da Trupe Olho da Rua, que satiriza o poder do Estado. Os policiais que estavam presentes na praça onde a peça era apresentada não gostaram do uso da bandeira nacional no espetáculo.

Passagem pelo corpo
Na programação do “Palco Giratório 2017” do Sesc, a performance de Maikon K é definida assim:
“DNA de DAN é uma dança-instalação de Maikon K. Num primeiro momento, o performer mantém-se imóvel enquanto uma substância seca sobre seu corpo. Após essa fase da experiência, ele se moverá. A ação acontece dentro de um ambiente inflável criado pelo artista Fernando Rosenbaum – o público poderá entrar nesse espaço e lá permanecer. Dan é a serpente ancestral africana, que dá origem a todas as formas. A partir desse arquétipo, Maikon K cria seu rito de passagem pelo corpo. A construção de outra pele, o ambiente artificial e a relação com o público são dispositivos para esta performance, na qual o corpo do artista passa por sucessivas transformações.”
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Matéria de Miguel Arcanjo originalmente publicado em seu blog no portal “UOL”, www.uol.com.br, em 16/07/17.

Artista é preso durante performance no Sesc Brasília

O dançarino e performer paranaense Maikon K teve a apresentação, na qual fica nu, interrompida e foi levado para a delegacia por "ato obsceno". +

Uma performance artística interrompida pela Polícia Militar no sábado (15/7) à tarde, em frente ao Museu Nacional da República, fazia parte da programação do evento Palco Giratório, mostra teatral promovida pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). Na ação da PM, o dançarino e performer paranaense Maikon Kempinski acabou detido e levado para a 5ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), onde precisou assinar um termo circunstanciado de ato obsceno.

O Correio falou com o artista na manhã deste domingo. Maikon K, seu nome artístico, se mostrou indignado com a situação e lamentou que seu cenário tenha sido rasgado pelos militares, mas preferiu não comentar mais sobre o caso por esperar um posicionamento da organização do Palco Giratório. O Sesc informou que só se posicionará na segunda-feira.

Na apresentação — chamada DNA de DAN e que já passou por palcos de várias cidades do país —, o artista fica dentro de uma bolha plástica e tem aplicado sobre o corpo nu uma substância que se resseca aos poucos, até formar uma espécie de segunda pele. Para não rompê-la, o artista é obrigado a respirar cada vez menos.

O rompimento, no entanto, é inevitável e, quando acontece, Maikon dá início a uma dança desenvolvida a partir de uma pesquisa sobre arquétipos e elementos espirituais. Em um vídeo feito sobre a apresentação, Maikon explica que sua dança é inspirada no arquétipo da serpente.

Espaço público

A performance já passou por outras cidades devido ao Palco Giratório. Segundo o curador do evento, Leonardo Braga, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande, ela ocorreu em espaços públicos sem problema. Em Brasília, DNA de DAN foi programada para ser apresentada em frente ao Museu Nacional da República. No entanto, Maikon foi interrompido por policiais militares, que ordenaram que ele se vestisse. Depois, ele foi colocado na traseira de uma viatura e levado à delegacia.
Segundo a PM do Distrito Federal, os militares foram ao local depois de populares solicitarem a presença da polícia porque "havia um homem nu ao lado do Museu da República". Ainda segundo a PM, os policiais foram informados por um homem que ali ocorria uma exposição de arte. No entanto, "como não foi apresentada nenhuma documentação /autorização do museu tampouco da Administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informa uma nota.
Nas redes sociais, muitos se mostraram indignados com a detenção de Maikon. Na página do artista no Facebook, vários comentários criticam a ação da polícia e mostram apoio ao paranaense. "A ditadura tá aí, na cara de todo mundo, só não enxerga quem não quer", escreveu uma internauta. "Já que não tem onde fazer justiça em Brasília, vamo prender performer, né...", protestou outra.
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Matéria publicada originalmente no site do jornal “Correio Brasiliense” (www.correiobraziliense.com.br)

Mostra em SP une arte e justiça para debater condenação de catador de lixo

“Osso: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga", em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, propõe manifesto sobre o caso do jovem negro carioca preso durante manifestações de junho de 2013 por portar detergente e água sanitária. +

Da aproximação entre um curador e um grupo de criminalistas nasceu a mostra "Osso: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga", que abre na próxima terça (27), no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Rafael Braga foi um dos poucos brasileiros presos e condenados no contexto das chamadas Jornadas de Junho de 2013, quando manifestações tomaram as ruas do país, primeiro contra o aumento da tarifa do transporte público, depois contra a corrupção e outras bandeiras.

Menos de um mês após obter progressão para o regime aberto com o uso de tornozeleira eletrônica, ele foi preso de novo e condenado, agora por tráfico de drogas, num julgamento contestado pelo acusado.

A proposta de uma mostra política obteve a adesão de 28 artistas, como Anna Maria Maiolino, Carmela Gross, Cildo Meireles, Nuno Ramos, Paulo Bruscky e Rosana Paulino.

Para o curador Paulo Miyada, ao emprestarem seu prestígio para a causa do direito de defesa, os artistas atuam como cidadãos e colocam seu trabalho como de uso público, a favor do debate.

"A ideia é de subverter o formato mais consolidado de exposição de arte e política, quando uma proposta curatorial mais ampla permite que cada trabalho apresente uma agenda, para obtermos não apenas obras-discurso mas obras-atitude", diz Miyada.

Debate Judicial

A exposição é uma parceria com o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).

"Osso" é uma alusão à escolha de obras feitas a partir de elementos mínimos e também à fragilidade do direito de defesa no país.
"Rafael Braga é um dos milhares de jovens negros e pobres condenados de maneira desproporcional a crimes a eles imputados apenas com base no relato policial", explica Hugo Leonardo, vice-presidente do IDDD.

"A Justiça criminal é em geral aplicada aos mais vulneráveis da sociedade, a quem não é dada voz, numa espécie de perseguição penal, que perpetua a exclusão."

Para ele, a abordagem por meio da arte pode quebrar barreiras, como o preconceito e a indiferença, e permitir um diálogo verdadeiro.
"A multiplicidade de sentidos e afetos envolvidos na arte são amplos, abertos, e capazes de sensibilizar o outro", concorda Carmela Gross, que participa da mostra com um desenho em grafite sobre parece ("Águia", de 1995) feito como parte de uma instalação na antiga Cadeia Municipal de Santos.

Para Cildo Meireles, a exposição se insere num quadro de "injustiça sistemática do país em que os corruptos não estão presos mesmo com provas gritantes acumuladas contra eles". "A arte mostra a indignação possível."

Paulo Bruscky, que vai remontar seu Manifesto Nadaísta, lançado em 1974, durante o regime militar, como forma de protesto contra a censura e a perseguição que sofria, afirma se identificar com o caso de Rafael Braga.

"Fui ameaçado e preso três vezes. Diziam que eu era comunista porque fazia intervenções urbanas", lembra. Segundo ele, os perseguidos pela Justiça de ontem e de hoje são "os que fazem o povo pensar e os miseráveis".

Condenação

No dia 20 de junho de 2013, Rafael Braga, 25, trabalhava como catador de latas perto de um protesto no centro do Rio quando foi detido por policiais civis portando duas garrafas plásticas contendo produtos de limpeza.

Para a perícia, as substâncias tinham "mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov". O jovem foi condenado a cinco anos de prisão por porte de artefato explosivo.

Obteve progressão para o regime aberto com tornozeleira eletrônica e conseguiu emprego num escritório de advocacia. Menos de 30 dias depois, foi preso perto da casa da mãe, na Vila Cruzeiro (zona norte do Rio), próximo a ponto de venda de drogas. Segundo a polícia, portava 0,6 g de maconha, 9,3 g de cocaína e um rojão.

Braga nega as acusações, diz que a droga foi plantada e que foi agredido perto da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) local.
No processo, o juiz negou pedidos da defesa de acesso às imagens das câmeras da viatura e da UPP, e ao registro do GPS da tornozeleira. As testemunhas de acusação eram todas policiais.

Mais de um ano após ser detido, foi condenado a 11 anos e três meses por tráfico de drogas e associação criminosa. "É uma pena desproporcional para crime sem violência e com pequena quantidade de droga. É quase a mesma pena aplicada a um homicídio", diz Hugo Leonardo, do IDDD.

Braga, que já havia sido preso duas vezes por roubo, está detido em Bangu.
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Matéria de Fernanda Mena originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/06/17.

‘Osso’: exposição no Tomie Ohtake apela ao direito à defesa de Rafael Braga

A mostra debate o caso emblemático do jovem condenado nos protestos de 2013 por portar desinfetante. +

Ao subir no pódio olímpico dos Jogos do México em 1968, o velocista Tommie Smith, que acabara de se tornar campeão mundial, fez um gesto que entrou para a história: enquanto tocava o hino nacional, o atleta, negro, abaixou a cabeça - em vez de levantar, em sinal de respeito - cerrou o punho direito e levantou o braço. Na mão, uma luva preta. O sinal era uma saudação ao Black Power, movimento ocorrido especialmente nos Estados Unidos, que simbolizava a luta e a resistência. Quase 50 anos depois, a imagem de Smith volta à cena, em um contexto análogo: o da resistência.

A obra Tommie é uma pequenina escultura de aço e madeira do artista Paulo Nazareth, que reproduz a imagem do atleta com o punho cerrado. Ela é uma das 32 obras pertencentes à mostra Osso - Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga, apresentada pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, em parceria com o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD).

Rafael Braga é um catador de latas brasileiro e, assim como o velocista, é jovem e negro. Foi detido nas manifestações de junho de 2013 por portar dois frascos contendo desinfetante e água sanitária. Ele foi o único condenado no contexto das manifestações de 2013, por "portar material incendiário", durante um protesto no Rio de Janeiro. Depois de cumprir parte da pena, passou para o regime aberto, mas acabou sendo preso novamente, em janeiro do ano passado, porque, segundo a versão da polícia, ele portava 0,6 grama de maconha, 9,3 gramas de cocaína, além de um rojão. Rafael, que nega todas as acusações, alega ter sido vítima de violência e extorsão policial.

O caso de Rafael Braga foi alçado a símbolo de centenas de outros casos que têm se repetido no Brasil, que anulam o direito da defesa se defender. Por isso, a escolha de uma "exposição-apelo", segundo explica o curador do Instituto Tomie Ohtake, Paulo Miyada. "As obras tentam abrir um leque de sensibilidade para fazer reverberar esta questão", diz. O título da exposição, Osso, se justifica por terem sido escolhidas obras produzidas a partir de estruturas mínimas, "sem gordura", como explica Miyada. As obras de 29 artistas brasileiros são divididas entre as inéditas, as feitas especialmente para a ocasião e algumas já conhecidas. E muitas delas incomodam.

Em Os homens, por exemplo, o artista Rafael Escobar traz uma pilha de registros da Defensoria Pública de São Paulo com os relatos feitos por carroceiros da região da Luz sobre como perderam seus bens nas ruas. Os nomes dos envolvidos estão suprimidos, assim como a caracterização dos responsáveis por levar os pertences, deixando espaços em branco onde residem a ambiguidade entre a violência política e pública. Os relatos podem ser levados para casa. O mesmo ocorre com a obra de Paulo Nazareth, que narra, em primeira pessoa, como foi que aos sete anos de idade foi abordado pela polícia. O folheto com o texto também pode ser levado.

Artistas jovens, negros e ligados às questões sociais formam a exposição, como é o caso de Rosana Paulino, com O Progresso das Nações, e do Manifesto Nadaísta, de Paulo Bruscky. Logo na entrada, letras garrafais avisam: "Artista é público". A obra de autoria de Vitor Cesar é feita com letras parecidas com as usadas para nomear os prédios pela cidade. Em uma sala completamente vazia, está o Cruzeiro do Sul (1969), de Cildo Meireles: um cubo de madeira de 9 milímetros apresentado diretamente sobre o chão. A obra é feita de pinho e carvalho, madeiras utilizadas por povos indígenas para produzir fogo por fricção. Outra sala é ocupada pelo IDDD, e informa de uma maneira direta, porém sem destoar da narrativa dos demais cômodos, a história de Rafael Braga intercalada com relatos de abusos policiais.

De acordo com Hugo Leonardo, advogado criminal e vice-presidente do IDDD, a ideia é sensibilizar a população por meio da arte, "partindo do particular, que é o caso do Rafael, indo para o geral, de tantos casos de pretos, pobres e presos", diz. Para isso, além das obras, haverá um debate programado para este sábado, 1º de julho, com Hugo Leonardo, Paulo Miyada, Geraldo Prado, Suzane Jardim e Cidinha da Silva. "Estamos prevendo uma série de atividades durante essa exposição com a presença de jovens da periferia, com debates, com pessoas que sofrem essa violência do sistema de justiça criminal", diz Hugo Leonardo.
A exposição fica em cartaz do dia 27 de junho ao 30 de julho, das 11h, às 20h e a entrada é grátis. O Instituto Tomie Ohtake fica na avenida Faria Lima, 201, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo.
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Matéria de Marina Rossi originalmente publicada no jornal “El País”, em 29/06/17.

Relatório da Tefaf Art Market Report relata aumento do mercado de artes online

Seguindo as novas tendências globais, o mercado de arte aos poucos vai se rendendo ao comércio online. Relatório de pesquisa revela que o mundo da arte está cada vez mais expandindo oportunidades digitais, ampliadas pelo impacto das novas tecnologias sobre ele. +

As descobertas do relatório “TEFAF Art Market: Online Focus” destacam a tensão entre a promessa de alcançar uma vasta base de clientes global e o desafio de manter a abordagem de vendas orientada pelo relacionamento – que vem dominando o mercado de arte há séculos. O relatório analisa ainda a extensão das oportunidades digitais ampliadas pelo mundo da arte e o impacto que as novas tecnologias apresentam sobre ele.

A pesquisa, realizada junto a cerca de 700 comerciantes de arte, descobriu que uma ampla maioria mantém negócios lucrativos de comércio eletrônico, mas um quinto ainda diz não ter planos para atuar online.

Quase dois terços dos dealers, ou 64%, disseram vender arte e antiguidades online. Já as casas de leilão foram mais rápidas para entrar no mercado virtual, com aproximadamente 8% das vendas de leilões de arte acontecendo online.

As renomadas casas internacionais de leilão lideram o comércio eletrônico e engajamento online, aproveitando suas marcas para abrir vantagem no mercado virtual. Estas casas usam o comércio eletrônico, seja através do desenvolvimento de suas próprias plataformas ou do uso de plataformas de terceiros, para atingir novos compradores e colecionadores, uma tendência que provavelmente só irá crescer.
Os dealers, em contrapartida, estão demorando a se adaptaras às novas tecnologias, com apenas um terço das operações realizadas online e com 20% das galerias e marchands afirmando que não têm intenção de migrar para a internet. Embora o mercado para venda de antiguidades online seja pequeno, o relatório apontou 18,8% de crescimento, o que significa que apesar do baixo engajamento, as vendas online estão em expansão.

Novas gerações, novas tendências

O crescimento mais rápido é observado na venda de peças com preços mais baixos, o que traz novos compradores ao mercado. O crescimento no topo do mercado vem sendo limitado por questões de confiança e transparência, mas os avanços na tecnologia minimizar estas questões.

Jovens colecionadores e millennials (ou Geração Y), que costumam organizar suas vidas através de dispositivos eletrônicos e estão totalmente à vontade para comprar arte e produtos de luxo online, são de vital importância para o crescimento futuro deste mercado.
Até agora, nenhum “player” de peso emergiu do mercado online, mas aqueles que estão inovando e desenvolvendo seu portfólio de produtos – como a Artsy, 1st Dibs e Invaluable – estão obtendo sucesso neste competitivo ambiente de mercado. Há uma reestruturação para este segmento, já que os demais modelos de negócios também estão à prova.

Não há dúvida de que o potencial dos canais digitais e mobile impactarão o negócio da arte. O relatório confirma as suposições da que a TEFAF havia lançado sobre o comprometimento dos dealers em relação às oportunidades que o comércio eletrônico oferece.

Primeira edição do relatório com foco no online

Esta é a primeira vez que a TEFAF, prestigiada feira de arte reconhecida por sua política rigorosa de verificação, lançou um relatório complementar, focado no mercado de arte online e na análise anual do estado e tamanho do mercado de arte como um todo. As respostas da pesquisa (673 participantes, dentre 8.000 convidados) mostram que pouco menos de 60% relataram que seu negócio de comércio eletrônico foi rentável em 2016.

O comércio eletrônico é definido, para o propósito do relatório, como “o papel que o cenário digital reproduz ativamente no mundo da arte” e inclui as transações realizadas online e funções não-transacionais, como o marketing através de canais de mídia social. Não ficou claro no relatório como os marchands definiram como essas atividades abrangentes contribuíram para o lucro ou prejuízo líquido em seus negócios.
O relatório, no entanto, destacou uma tendência inevitável, que deve encorajar as galerias a se envolver no mercado online: os dados demográficos. Compradores mais jovens, que cresceram conectados, são mais propensos a se sentir confortáveis comprando arte (e todo o resto) online. O relatório da TEFAF aponta que, dos americanos entre 25 e 34 anos, 57% estão confortáveis comprando arte online.

Da mesma forma, o Hiscox Online Art Trade Report, divulgado em abril, levantou que metade dos 758 compradores de arte pesquisados disseram que planejam comprar online mais arte e artigos de coleção no próximo ano, uma parcela que subiu para 59% entre os entrevistados com menos de 35 anos.

Enquanto as vendas em leilões caíram em 2016 em relação ao ano anterior, tanto a Sotheby’s quanto a Christie’s relataram aumentos significativos nas vendas online. Na Christie’s, a soma chegou a US $ 217 milhões, enquanto as vendas online da Sotheby’s aumentaram 20% em relação ao ano anterior, chegando a US$ 155 milhões.
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Matéria originalmente publicada no portal www.touchofclass.com.br

Novo site compila dados de origem de obras de arte

A plataforma permite que você trace de volta os movimentos de uma obra de arte até sua origem junto ao artista. +

Já se perguntou qual o caminho percorrido por uma obra de arte, desde que deixou as mãos de seu artista criador até chegar aos museus? Agora, o site Mapping Paintings (www.mappingpaintings.org) vai permitir aos usuários visualizar estas histórias de origem de obras. A plataforma de código aberto permite pesquisar obras de arte específicas e oferece uma representação visual de sua jornada em direção à sua localização atual.

Liderado pelo professor da Universidade de Boston, Jodi Cranston, o site rastreia obras de arte e permite aos usuários mapear informações de proveniência. A iniciativa visa oferecer uma pesquisa histórica de obras de arte, incluindo detalhes de proprietários e transações passadas, facilitando o caminho para os historiadores da arte e colecionadores.

Origem e proveniência da obra

Mapping Paintings foi inspirado por um dos projetos anteriores da Cranston, Mapping Titian. “A proveniência de informação vem de catálogos impressos e em alguns sites de museus, mas visualizar o movimento dessas obras de arte permite que os usuários reconheçam seu objetivo e também não se atolem em preocupações sobre autenticidade e pedigree”, disse Cranston. “Às vezes, ver que uma obra de arte foi para um lugar inesperado é mais impactante do que tê-la em um longo histórico”.

Os usuários poderão fazer entradas individuais no site, bem como publicar seus próprios projetos. Esses envios serão revisados para fins de precisão e depois adicionados ao site por um administrador. A Coleção Kress, composta por mais de três mil obras de arte europeia acumulada por Samuel H. Kress entre 1929 e 1961, será adicionada à plataforma em breve.

“Eu acho que muitos visitantes dos museus não percebem que essas obras de arte tiveram vidas interessantes antes de chegarem às paredes do museu, e é legal pensar sobre o que essas obras de arte testemunharam e quem mais as viu”, disse Cranston à Hyperallergic. “Isso aprofunda a experiência de visualização e traz vida à história”.

Histórico que pode agregar valor à obra

O público-alvo do site são os historiadores de arte, mas estes dados não serão úteis apenas aos acadêmicos. Detalhes dos proprietários anteriores, ou a exibição de uma obra de arte em um local importante, podem ser importantes no contexto de uma venda. As disputas que compõem a maioria dos litígios de arte geralmente dizem respeito a questões de propriedade, autenticidade ou valor. A propriedade pode ser contestada no contexto de trabalhos saqueados nazistas, por exemplo, e dados de proveniência imprecisos ou incompletos podem esclarecer as falsificações que fazem as rodadas em leilão. Alternativamente, um proprietário de alto perfil ou a presença em uma instituição.
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Fonte: site Mapping Paintings (www.mappingpaintings.org).

Cais do Valongo é declarado Patrimônio Mundial da Humanidade

Sítio arqueológico foi descoberto em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro. +

O Sítio Arqueológico do Valongo, no Rio de Janeiro (RJ), foi declarado Patrimônio Mundial da Humanidade neste domingo (9) pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O Cais do Valongo, localizado na Praça Jornal do Comércio, é símbolo da dor de milhares de negros escravizados trazidos para o Brasil por mais de 300 anos. Em 20 de novembro de 2013, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, o Cais do Valongo foi declarado Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

No mesmo período, representantes da Unesco passaram a considerar o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos, sendo o primeiro lugar no mundo a receber esse tipo de reconhecimento. Ambos eventos reforçaram a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade.

Descoberta

Em 2011, durante as escavações realizadas como parte das obras de revitalização da Zona Portuária do Rio de Janeiro, no período que antecedeu os Jogos Olímpicos de 2016, foram descobertos dois ancoradouros, Valongo e Imperatriz, contendo uma quantidade enorme de amuletos, anéis, pulseiras, jogo de búzios e objetos de culto provenientes do Congo, de Angola e de Moçambique.
"O Sítio Arqueológico do Valongo integra agora um singular conjunto de bens tombados exclusivamente nesse preceito, entre os quais está Auschwitz, uma rede de campos de concentração no sul da Polônia, e Hiroshima, cidade japonesa vítima de bombardeio atômico na Segunda Guerra Mundial", explicou.

A presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou que "no contexto da escravidão, o Rio traz consigo o triste título de maior porto escravagista da história. No entanto, apesar disso, apresenta-se igualmente como local onde a contribuição trazida pelos africanos encontra uma das maiores expressões, matizadas pela mestiçagem inerente ao ser brasileiro".
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Matéria publicada pelo Ministério da Cultura (www.brasil.gov.br/cultura), em 09/07/17.

Por que a Internet não vai mudar o jogo da representação de artistas

Em um excerto de seu novo livro, “The Great Reframing - How Technology Will -and Won’t - Change the Gallery System Forever”, Tim Schneider, colunista de mercado de arte do portal de arte Artnet.com, avalia por que os galeristas e marchands não querem uma revolução digital. Texto em inglês. +

In any marketplace where quality and value are almost entirely subjective, most buyers crave expert guidance. And the primary art market is a textbook example.
Even among relatively experienced collectors, a tacit assumption animates the gallery sector: Anyone with the confidence, passion, and resources to open a for-profit exhibition space in such an uncertain industry must know what he’s doing, at least to some extent. And the less knowledgeable the buyer is, the more willing he will usually be to trust in a purported specialist.

Unfortunately, such trust is not always warranted.
Unlike, for example, an attorney’s need to become bar-certified or a securities broker’s need to pass the Series 7 exam, an aspiring gallerist requires no formal scholarly or business training to sell art circa 2017.

In fact, opening an American gallery today demands less verified evidence of expertise than installing home-entertainment systems, braiding hair, or pumping gas—three occupations for which certain US states still require specific training or certification exams.
Professional associations exist in the art trade, but they are generally by-invitation-only groups with little practical impact. Case in point: As of June 2017, the most prominent such organization in the US, the Art Dealers Association of America, still did not count Larry Gagosian as a member.

Instead, the art-sales business has historically had a different kind of barrier to entry: real estate. By controlling a physical exhibition space, a gallerist doesn’t just become a business owner. He automatically becomes a gatekeeper to the primary market.
Yes, his long-term success depends on other criteria as well, such as his sales acumen, management skills, and social savvy. But in the short-term, as soon as someone acquires a space, he acquires a patina of authority and the power to affect the financial futures of at least a small number of artists.

Asymmetry of Power
In light of the above, it’s little wonder that many artists develop deep-seated frustrations with the traditional gallery system. Gallery representation gives them their best chance at establishing sustainable careers, and yet gallerists themselves may have little exposure to art history, little vision for the discipline’s future, and/or little interest in nurturing the talent on their roster.
In the most extreme cases, galleries can merely be the end result of copious wealth, ample free time, and a fascination with the glamour of the art scene—in other words, a somewhat edgier alternative to time-honored vanity projects like opening a bar or restaurant.
This means that the careers of a vast number of artists—who, in fairness, require no more formal training to go into business than dealers—hinge in large part on the potentially questionable judgments of a comparatively low number of gallerists, who are incentivized to minimize the amount of talent they allow into the system at any given time.
These circumstances have historically made selling art a money-losing proposition for the overwhelming majority of living artists. Gallerists simply have too much market influence and too little financial motivation to make their rosters inclusive on a mass scale. With few other options to sustainably monetize their work, most talent has been shut out of the game almost entirely.

Even before Gagosian, Zwirner, et al became global brands, every physical gallery at every level of the hierarchy already acted as a rubber stamp of basic quality in a marketplace short on signaling.

To use a bit of retail parlance, since gallerists maintain near-total control over who receives physical shelf space, the pure fact that they are showing particular artists’ works communicates to the public that those artists deserve attention. And since collectors also consciously or subconsciously grasp the gallery system’s importance in legitimizing artworks—aesthetically, financially, and socially—they also tacitly agree (via their open wallets) that it’s usually wiser to acquire based more on who is selling the work than on who created it, let alone what it looks like.
To use an imperfect comparison, then, the issue isn’t just that being exhibited by Zwirner does for an artist’s work what being branded and sold in an Hermès store does for a patterned scarf—meaning, instantly transforms it into a sought-after, and therefore expensive, luxury good. It’s also that being exhibited by even a quaint local gallery provides a baseline assurance of “quality.” And even this modest amount of security is worth a significant upcharge.

Digital Dream Deferred
Of course, the internet has complicated this scenario. The traditional gallery system no longer dominates artists’ ability to reach potential buyers. It is now possible for talent everywhere to sell work on primary-market platforms without the co-sign of a supposed expert. And this prospect means that, in 2017, securing representation is less important than ever to an artist’s ability to generate some amount of revenue from his passion.
But this apparent win for democracy is not changing the game quite as quickly as some may have hoped. Clare McAndrew’s 2017 art market report—which, I should remind you, is a study whose numbers I view as skeptically as the punch bowl at an orientation-week frat party—alleges that the online market grew 4 percent year on year from 2015 to 2016. More importantly, though, she acknowledges that this estimate failed to live up to long-held expectations in a fairly dramatic way.
She writes, “The rates of growth… for the last two years are significantly less than the growth rates forecast three or four years ago when estimates predicted double-digit increases in sales in the sector in excess of 20 percent.”

What’s happening here?
A closer look at the underlying dynamics suggests a reality that neither unrepresented artists nor Silicon Valley wants to hear. Open-access e-commerce may solve one of the longest-standing and most distressing problems in the art market, specifically by allowing any and all artists with an internet connection to slip past the traditional gatekeepers and reach buyers directly.
However, this new sales platform also creates (or at least, intensifies) a new problem—one that may be just as antagonistic to rank-and-file artists’ prospects as the old system of exclusivity and discrimination.

A Zero-Sum Game
To try to predict the impact of independent online-sales platforms on contemporary artists, it’s useful to look at three creative media where the model is somewhat more developed: books, music, and film (by which I mean everything from feature-length movies to episodic series to YouTube content).
Before diving into those comparisons, though, we must first acknowledge an important distinction. With the exception of digital artworks—assuming they’re marketed in a progressive way—fine art is what economists call a “rival good,” or a resource whose consumption (see: acquisition) by one party directly affects its availability to another.
A simpler way to say this is that collecting art is generally a zero-sum game. If I buy one of Andy Warhol’s Jackie paintings, you can’t own the same one unless, or until, I decide to resell it. And this scarcity element helps launch the price for sought-after works into orbit.
Books, music, and film, on the other hand, all generally qualify as “nonrival goods.” Scale becomes the route to profitability, whether we’re talking about an Oprah’s Book Club selection, a smash pop single, or a Hollywood blockbuster. The profit from each individual sale is relatively small, but those small profits add up to a large total when sellers get to collect them thousands or, even millions, of times.
Art is the opposite: Instead of making a small profit a large number of times, the gallerist or dealer seeks to make a large profit a relatively small number of times.
Despite this fundamental difference, however, online mass-media sales trends are still useful omens for online art-sales trends. Why? Because their shared reliance on the internet introduces some of the same crucial market dynamics to both.

The Tyranny of Options
Since any author, musician, filmmaker, or contemporary artist can now use an open-access e-commerce platform to reach potential consumers directly, opening a browser tab to peruse independently released works in any of these media now resembles opening a porthole from inside a fully submerged submarine.
The result is an instant flood—one liable to overwhelm the buyer and, in the process, make most independent artists as indistinguishable from one another within their discipline as the individual water droplets barreling into a breached vessel 20,000 leagues beneath the sea.
I call this phenomenon the tyranny of options. It reflects that, to some extent, technology’s overthrow of the traditional gatekeepers backfires. Yes, an open-access market for creative works of any kind is vastly more democratic than the traditional gatekeeper-controlled one.
But such a marketplace also becomes vastly more difficult for the average buyer to navigate. The reason being that the gatekeepers—be they record labels, Hollywood studios, or gallerists—still double as their medium’s most reliable signals of quality. Remove the former and you necessarily remove the latter.
Open-access e-commerce platforms thus strip artwork of many of the traits that made its marketing, valuation, and sale so unique in the pre-digital era. They effectively challenge this niche medium to play by mass-medium rules.

Therefore, any artist who fails to square this circle should expect his number of sales, as well as his profit margins on those sales, to be very low. And in a globalized marketplace sans gatekeepers, the sheer scale of competition means that this outcome will, in all probability, remain the standard for artists.
To look at the results from the collector’s point of view, we’re likely to be left with the phenomenon George Packer captured in a 2014 story about Amazon’s effect on the publishing market: “When consumers are overwhelmed with choices, some experts argue, they all tend to buy the same well-known thing.”
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This is the second of two excerpts from our art-market columnist Tim Schneider’s new book, The Great Reframing, which delves into the primary art market’s fraught relationship with technology. The full book is now available for download on Kindle.

* foto: Abertura da exposição de Julian Schnabel na Galeria Gagosian, em 21/02/2008, em Beverly Hills - Califórnia.
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Texto de Tim Schneider publicado originalmente no portal internacional de arte www.artnet.com em 29/06/17.

A cultura dos 10% mais ricos

Os governos só buscam diminuir privilégios quando são pressionados +

A cultura dos 10% mais ricos por Marcus Faustini, O Globo






A Warwick Commission on the Future of Cultural Value tornou pública uma pesquisa que mexeu com a comunidade artística e cultural da Inglaterra e as esferas de governo que trabalham com fomento às artes e direitos culturais por lá. O recado é direto: apesar de ter uma extensa política de apoio à produção artística, o financiamento público está beneficiando principalmente obras e ações para plateias que pertencem às camadas mais ricas e com menos diversidade étnica da sociedade inglesa. Se for considerada, a pesquisa pode criar uma mudança de rumo radical na história das políticas de arte e cultura.

Em 2011, as manifestações urbanas protagonizadas por jovens acenderam a luz vermelha para o governo britânico e para aqueles que trabalham no campo das artes. Uma das respostas foi tornar o envolvimento de jovens do entorno um dos eixos centrais das propostas de ações de instituições de arte e cultura que baseiam seus trabalhos em regiões com habitações populares. Instituições que possuíam essa missão em seus programas acentuaram práticas nesse sentido. Passados alguns anos, o resultado é visível: a participação de jovens nos espaços de decisão artística e de gestão aumentou em várias organizações. E jovens começaram a ocupar o lugar de referência em diversas situações. Seshie Henry, do I am Next, é dos exemplos. Realizou uma importante mobilização de jovens da cena alternativa do hip hop em apoio às vítimas do incêndio recente na Grenfell Tower

Já a atual pesquisa aponta que o “dinheiro das artes está financiando projetos para um público de esferas de elites, apenas”. Tanto as escolhas artísticas até o modo de circulação foram colocadas em xeque com o resultado da pesquisa. O dinheiro público acaba beneficiando apenas os 10% mais ricos da população, mantendo desigualdades, diminuindo a capacidade que a cultura possui de ser um espaço de diversidade e concentrando renda em determinados grupos. No teatro, na música, nas artes visuais é gritante, como aponta a pesquisa, a concentração da audiência nesses segmentos. Nenhuma sociedade se desenvolve com esse tipo de privilégio, nem sua indústria criativa, tampouco seu equilíbrio de direitos e justiça social.

O debate, de pouco fácil digestão para quem está confortável num determinado lugar da cadeia de produção e redes de criação, foi colocado para inspirar mudanças. É o tipo de escolha artística e estética que é feita que faz isso acontecer? É o modo como circulam as criações e ações? É o valor do ingresso? É algo que já está estruturado nas entranhas culturais e que leva a essas escolhas? São questões radicais que permeiam neste momento as diversas comunidades culturais inglesas.

Qualquer mudança naquilo que é feito no campo da arte e da cultura deve ir no ponto central: seu sistema. Mesmo que esse não seja claro para muitos, ele existe e interfere na experiência que temos com as expressões de arte e cultura. Um sistema que envolve financiadores, distribuição, legitimação, reconhecimento, visibilidade e determina invisibilidades, por exemplo. Pensar a audiência como um dos elementos desse sistema é uma mudança importante que pode ajudar a revelar como desigualdades foram sendo naturalizadas. Para quem usa como exemplo a cultura europeia sempre que pretende diminuir o que acontece no Brasil, não vale dizer que desta vez a discussão não importa. O debate sobre a audiência é um dos mais radicais em curso em grandes cidades que são referência na indústria criativa.

O britânico Paul Heritage, conhecido aqui no Brasil pelo constante trabalho de intercâmbio entre Inglaterra e Brasil, liderando a organização People's Palace Project, avalia: “É um momento super rico nas conversas sobre arte no Reino Unido. Pesquisas apoiadas pelo governo britânico sobre o valor de cultura, como o Warwick Commission, mostram que há uma nova tendência no ar. Diante dos rasgos do tecido social, a arte tem que reencontrar seu papel fundamental que vai muito além do valor econômico das indústrias criativas”.

É preciso um levante de ideias e pressões sobre todas as esferas de governos para manter a cultura na agenda da diversidade e da diminuição das desigualdades. Os governos só buscam diminuir privilégios quando são pressionados. Quando eles falham, aqueles que fazem pesquisas e criam ideias possuem um papel decisivo para manter a diversidade e a diminuição das desigualdades no horizonte do debate público. Por aqui, o atual ataque do governo Temer, que reduz o Ministério da Cultura a um escritório de facilitações de negócios do seu núcleo duro de governo, não pode deixar o debate da cultura amuado, como se não restasse mais esperança. É preciso botar na agenda da sociedade brasileira, outra vez, o debate sobre a cultura.
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Coluna de Marcus Faustini originalmente publicada no jornal "O Globo" em 27/07/17.

Contra "neoescravismo", crítico Paulo Herkenhoff quer negros em museus

Segundo o crítico, a crise política e econômica corrói o Brasil e abala as instituições, mas ao mesmo tempo abre caminho para que estudos valorizem trabalhos que antes eram às margens, em sua maioria os negros, e analisa a presença de índios na performance de Ernesto Neto na atual Bienal de Veneza. +

Um dos críticos de arte e pensadores mais relevantes do país, Paulo Herkenhoff vem liderando ao longo dos últimos anos uma batalha pela igualdade racial -não só nas ruas, mas também nas coleções dos grandes museus.

Na visão dele, a crise política e econômica que corrói o Brasil abala as instituições, mas ao mesmo tempo vem abrindo caminho para que "críticos, historiadores e curadores sérios" abandonem o mainstream e passem a estudar e valorizar trabalhos de nomes antes às margens, em grande parte de negros.

Em mais de três décadas de trabalho, Herkenhoff foi um dos curadores do MoMA, em Nova York, esteve à frente do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu Nacional de Belas Artes, foi diretor artístico de uma das mais celebradas edições da Bienal de São Paulo, em 1998, e comandou o MAR, o Museu de Arte do Rio, até o ano passado, quando pediu para deixar o cargo.

O estopim para a decisão foi um convite de outra liderança do museu ao sul-africano Brett Bailey para que encenasse ali sua polêmica peça de teatro em que atores negros são confinados, lembrando os zoológicos humanos criados para entreter a sociedade europeia do século 18.
"Ele foi impedido de fazer a peça por militantes do movimento negro", diz Herkenhoff. "É um diretor de teatro branco que discute racismo com negros dentro de gaiolas. Achei muito violento e racista, degradante a situação. Tinham posto ele lá à minha revelia, contra minha vontade."
Mesmo depois de deixar a direção do museu, o crítico continua sendo um consultor da coleção, numa tentativa de construir ali um dos maiores acervos de arte afro-brasileira contemporânea.

Ele também escreve um livro sobre a história dos negros nas artes visuais do país, analisando desde a obra de escravos até nomes em ascensão na atualidade. Alguns deles podem ser vistos agora na mostra com obras da coleção do Itaú Cultural, que Herkenhoff organizou na Oca.
Na montagem, ele defendeu que a esquerda faça um mea-culpa e analisou a presença de negros e índios nas artes visuais, em especial a polêmica performance na atual Bienal de Veneza, para onde Ernesto Neto levou índios que ocuparam uma oca de crochê.

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

NEGROS NA ARTE
Falar de afrodescendentes com muita desenvoltura para mim é um pouco complicado porque não sou negro. Meu companheiro é negro, e volta e meia vejo lembranças de situações de racismo vividas por ele. As contradições da sociedade brasileira têm um de seus sintomas mais graves e profundos na situação dos negros. Ninguém precisa me dizer que há um racismo claro na sociedade brasileira. Vivemos um neoescravismo.

Mas há uma tomada de consciência dos artistas. Essa geração hoje é muito afirmativa da crítica que quer fazer, e essa crítica passa por questões e políticas do poder e pelo fortalecimento das religiões afro nesse momento profundo de intolerância. Estão construindo um discurso alegórico, às vezes mais direto, criando modelos de convivência.
Nunca vou achar que a arte muda a sociedade, mas pode mudar como as pessoas se aproximam da sociedade para além da arte, porque, no fundo, esses artistas fazem uma arte além da arte. É o direito de ser negro, afrodescendente pleno, igual como cidadão. Nesses termos, isso é diferente de uma obra cuja finalidade está em si mesma.

MODA E OPORTUNISMO

Se houver [oportunismo na inclusão desses artistas nas coleções], isso é algo que também está respondendo a pressões da sociedade. Há instituições sérias que, de repente, acordam. Claro que há interesses políticos, mas são instituições sérias, curadores, historiadores e críticos que abrem mão do mainstream.

Essa é uma linha de prioridade, que tem se expandido nos últimos tempos.

SITUAÇÃO DO MASP
Estou no conselho do Masp, e acho o Masp hoje um museu excepcional. Ele está buscando a sua história. Mas, como é uma história de 50 anos revista em quatro ou cinco, parece que está pensando só no próprio passado, mas isso no futuro vai mudar. O que não é respeitável vai ser esquecido, e o que fica é o melhor.
Há uma vontade de estabelecer novas dinâmicas, e o Masp está assumindo riscos.

POLÍTICA CULTURAL
Nós temos de ter a volta de um governo democrático honesto. O PT evita fazer um mea-culpa, mas tem de fazer. Não pode ser uma esquerda que rouba, mas faz. Isso é fundamental. Acho que é preciso uma revisão ética para não deixar dúvidas de que há novos valores para o país.
Não é questão de voto. É uma questão de voto por falta de escolha. Quais são as lideranças efetivas de direita, esquerda e de centro que estão surgindo? É trágico. Precisamos de esquerdas que possam fazer uma revisão.

Na minha visão, a grande figura do século 21 no Ministério da Cultura foi o Juca Ferreira. Não havia narcisismo.
O que era o Marcelo Calero como ministro? Ele não tinha nenhuma vontade museológica. Só preenchia os dotes físicos do secretariado do [ex-prefeito] Eduardo Paes, no Rio. Era bem-apessoado, como todos os "Dudu boys", os secretários do Paes, que eram jovens e bem-apessoados.

Na situação atual o Marcelo Araújo [ex-secretário de Estado da Cultura paulista e atual presidente do Instituto Brasileiro de Museus] é a melhor pessoa para ser ministro.

ÍNDIOS NA ARTE
Nos anos 1960, o Brasil tomou mais consciência do genocídio dos povos indígenas. E alguns setores da sociedade foram muito ativos, entre eles os artistas, como Claudia Andujar e Cildo Meireles.

Um segredo aí para a gente entender o que é razoável [na representação dos índios na arte] é a noção de gueto do Cildo. Ele diz que numa situação de isolamento e enclausuramento a energia circula com mais densidade, como se fosse um buraco negro. E os exemplos que ele cita são o Harlem no período entre as grandes guerras e os índios brasileiros na selva.

Quando, no século 19, levam índios americanos para a Bienal de Veneza, havia ali ainda um entendimento de que os índios são uma extensão da história natural. Hoje acho que existe outro grau de consciência dos índios.

Quando o Ernesto Neto, que é um leitor assíduo do [antropólogo] Eduardo Viveiros de Castro antes que isso virasse moda, leva índios para lá, ele está buscando criar uma possibilidade de um diálogo.

Entendo que os índios hoje têm uma relação com sua própria história e uma relação com a sociedade nacional e global. Eles estão repovoando a selva. Não querem comprar carne no supermercado, querem viver sua experiência.

Eu acho que a intenção do Ernesto é muito mais criar um território para uma cultura indígena específica. Ele levou uma etnia específica a Veneza. Dizer que eles estavam dentro de jaulas ali é fazer uma leitura mecanicista.
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Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo” em 05/06/17.

Basquiat bate recorde ao ser vendida por US$ 110,5 mi em leilão na Sotheby"s

O recorde anterior do artista havia sido atingido em 2016, vendido por US$ 57,2 milhões em um leilão da Christie's. +

Uma pintura do norte-americano Jean-Michel Basquiat atingiu um recorde nesta quinta-feira (18) ao ser vendida por US$ 110,5 milhões em um leilão da casa Sotheby's em Nova York. A obra, que exibe um crânio preto sobre um fundo azul, foi leiloada após dez minutos do início da venda, uma duração pouco habitual.

O recorde anterior do artista havia sido atingido em maio de 2016, quando outro quadro de grande formato (2,38 x 5 m), também sem título, foi vendido por US$ 57,2 milhões em um leilão da Christie's.

Nesta quinta, o lance inicial foi fixado em US$ 57 milhões. O leilão se converteu rapidamente em um duelo entre um comprador presente na sala e outro que acompanhava a venda pelo telefone.

O primeiro chegou a oferecer US$ 97 milhões, mas acabou deixando que o adversário levasse o quadro por US$ 98 milhões, valor que já contabiliza gastos e comissões.
A pintura não vinha a público desde que foi leiloada em 1984. Naquela época, a obra datada de 1982 foi comprada por um colecionador anônimo que desembolsou cerca de US$ 19 mil.

Para Grégoire Billaut, responsável pela divisão de arte contemporânea da Sotheby's nova-iorquina, trata-se de "provavelmente um dos três ou quatro melhores quadros do artista".

A venda desta quinta-feira é mais uma prova, talvez desnecessária, de que Basquiat ainda reina na arte contemporânea quase 30 anos após sua morte por overdose, aos 27 anos.

Toda uma nova geração de compradores disputa suas obras, que já ocupam diversos museus do mundo.
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Matéria originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 18/05/17.

Morre o colecionador de arte Sérgio Fadel, aos 74 anos

Junto com sua esposa, o advogado era dono de um dos mais abrangentes acervos do país, uma coleção que abarca desde o Brasil holandês até o século XXI. +

O colecionador de arte Sérgio Fadel, dono de um dos mais abrangentes acervos do país, morreu nesta manhã, no Rio de Janeiro, vítima de complicações cardíacas, aos 74 anos. O velório será nesta quinta-feira, a partir das 9h, no cemitério São João Batista, em Botafogo. O sepultamento está previsto para as 11h.

As 1,5 mil obras de Fadel e sua esposa, Hecilda, ocupam três apartamentos no Leme e uma casa numa fazenda próxima ao Rio. Um dos apartamentos funciona como uma verdadeira reserva técnica, cheio de obras. A coleção, iniciada em 1964, abarca desde o Brasil holandês até o século XXI. Parte dela foi exposta numa das mostras inaugurais do Museu de Arte do Rio (MAR), "A vontade construtiva na coleção Fadel", em março de 2013.

Para o curador Paulo Herkenhoff, responsável por "A vontade construtiva na coleção Fadel" e que trabalhou durante quase dez anos como assessor do acervo, Fadel entendeu a importância de montar uma coleção de arte brasileira e era um apaixonado pelas obras.
- Sérgio Fadel entendeu a arte brasileira e a necessidade de construir a sua história de um modo que o Estado brasileiro não foi capaz de fazer no século XX. É uma história que vai do período colonial, com Frans Post, até o século XXI - diz o curador. - Ele amava os quadros, sabia a história de cada um.

Herkenhoff destaca ainda que Fadel era "o maior emprestador de obras para exposições" no país e, mais recentemente, no exterior.
- Não havia curador que não sonhasse em expor com ele, ter acesso a sua coleção, porque o "não" era quase que proibido. O doutor Sérgio entendia que toda curadoria enriquecia o sentido simbólico das obras. Mais uma vez, fez o que era o papel do Estado. Ele entendia que a coleção tinha que estar à disposição do Brasil. E também do mundo nos últimos tempos.

O crítico de arte e curador Leonel Kaz afirma que Fadel capturou "espécimes absolutamente raros e extraordinários" dos séculos XIX e XX. Peças de importância para uma história cultural do Brasil, aponta Kaz.
- A primeira coisa que me lembro é a "Mulher de rosa", de Di Cavalcanti. É uma peça que nos deixa sem fala diante dela. O Sérgio tinha obras formidáveis, como os estudos originais dos painéis "Samba" e "Carnaval", os mais importantes afrescos brasileiros, no Teatro João Caetano.

Contudo, Kaz demonstra preocupação quanto ao destino da coleção após a morte de Fadel. Ele lembra que o MAR foi concebido, inicialmente, para receber o acervo de Sérgio e Hecilda, mas a família decidiu por fim não tornar pública a coleção.

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A coleção Fadel, junto com a de Gilberto Chateaubriand no Museu de Arte Moderna (MAM) e a de João Sattamini no Museu de Arte Contemporânea (MAC) em Niterói, fazem parte da memória coletiva da arte brasileira. Fica a preocupação com o destino deste acervo.

Evandro Salles, diretor cultural do MAR, conta que toda a equipe ficou abalada com a notícia, pois Fadel e sua família eram importantes colaboradores do museu. Apesar do acervo não ter ido para o MAR, o colecionador sempre cedeu suas obras para exposições. Fadel tinha uma produção representativa da iconografia do Rio de Janeiro, explica Salles.

- Nesses quatro anos do MAR, ele foi um dos mais importantes parceiros.
A coleção dele sempre esteve presente e sempre teve a maior boa vontade para emprestar as obras necessárias para realizar os projetos. É uma família de alta responsabilidade cultural. Eles têm clareza do significado da coleção e que ela deve estar disponível para instituições como o MAR - afirma o diretor.
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Matéria originalmente publicada blog do colunista Ancelmo Gois, no site do jornal “O Globo” (www.oglobo.globo.com) em 10/05/17.

Galerias são a engrenagem da arte contemporânea em São Paulo

Conheças as 17 principais galerias de arte da cidade, saiba o porquê da relevância desses disputados espaços e quais exposições podem ser visitadas durante o mês de maio. +

A cidade de São Paulo é um microcosmo empolgante dentro do cenário de arte contemporânea internacional, graças ao seu acervo de galerias de arte. A cidade que abriga a segunda mais antiga Bienal do mundo, vem se tornando, cada vez mais, um importante pólo de produção de arte impulsionado pela recente internacionalização desse mercado.

Na última década, a arte contemporânea brasileira alcançou relevância internacional, comprovada pelo interesse de renomadas instituições como MoMA, Metropolitan, Tate, Pompidou e Reina Sofia, ao realizar exposições de importantes artistas históricos nacionais. A arte contemporânea brasileira também ganhou destaque nas principais feiras de arte do mundo, como na Arco (Madri), Frieze (Londres e Nova York) e a Art Basel de Miami. Neste período, museus da cidade passaram a fazer parcerias com importantes instituições de outros continentes, com mostras de excelência conceitual e histórica que agradam também ao grande público.

A Bienal, realizada desde 1951, sempre foi o evento de maior referência para o cenário, mas há 13 anos a cidade ganhou um novo fôlego com a chegada da feira anual SP-Arte – Feira de Arte Internacional de São Paulo, que transformou a cidade em um dos destinos mais importantes do mercado. Gestores dos mais importantes museus e algumas das mais poderosas galerias do mundo se aventuram no mercado de arte brasileiro para participar da feira, que atrai colecionadores, curadores, galeristas, artistas e público interessado.

Muitos artistas se questionam sobre como realizar uma exposição em uma dessas galeria de arte ou como apresentar seu trabalho a uma dessas galeria de arte. É um mercado acirrado, onde artistas de alto nível conceitual e estético disputam um lugar ao sol. O lugar ao sol significa passar a ser representado por uma das 17 galerias de arte paulistanas citadas nesta matéria. São essas galerias que promovem até 10 exposições por ano; trazem pesquisadores e curadores internacionais para assinar e organizar mostras de seus artistas; participam das mais importantes feiras de arte do mundo; e introduzem seus representados em importantes coleções públicas e privadas.

Os artistas da cidade também são apoiados por uma vibrante infra-estrutura cultural. Alguns são apoiados por organizações – desde instituições sem fins lucrativos até instituições públicas, fundações privadas, editais, residências artísticas e prêmios de arte.Mas quem realmente sustenta a efervescência do circuito de arte em São Paulo, são as galerias de arte.

Conheça nesta matéria um pouco mais sobras as 17 galerias mais influentes de São Paulo e saiba como funciona a representação de artistas nesses espaços.
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Texto de Tiago Santos publicado originalmente na site www.whatelse.com | 08/05/17

Cenário econômico brasileiro amortece as vendas da SP-Arte

Galerias da feira de São Paulo adaptaram suas seleções e ajustaram preços para atender à queda da demanda +

Mesmo antes da estreia da SP-Arte, maior feira de arte moderna e contemporânea da América do Sul (encerrada no último domingo), seus organizadores sabiam que as coisas não seriam fáceis. No ano passado, no auge da forte recessão econômica do Brasil e da turbulência política, as vendas registradas tiveram queda de 45%, depois de atingir um recorde histórico nos últimos anos.

A incerteza era visível e as 134 galerias participantes adaptaram suas seleções e ajustaram seus preços para atender à queda da demanda. Tanto que a gestão deste ano decidiu passou a chamar o evento de festival: além de destacar as inúmeras parcerias com museus e centros culturais, essa bandeira ajuda a arredondar o orçamento com o apoio do governo.

Os negociantes internacionais que apostaram na SP-Arte foram cautelosamente otimistas. “Acreditamos na economia aqui. É um mercado em evolução “, disse Markus Kormann, diretor da Thaddaeus Ropac. A galeria não marcou presença no ano passado mas voltou este ano convencida de que havia sinais de recuperação, ao ponto de trazer uma grande escultura Baselitz na faixa de US$ 3 milhões.

Nara Roesler, uma das maiores galerias do Brasil, com filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, também conseguiu fazer algumas vendas antecipadas, como um relevo acrílico de Abraham Palatnik e uma pintura de Tomie Ohtake. No entanto, optou por não divulgar os preços.

Outra importante negociante paulistana, Luisa Strina, vendeu obras contemporâneas de Cildo Meireles, Fernanda Gomes, Marepe e Mateo López, todas dentro da faixa entre US$ 20 e US$ 40 mil. O mesmo aconteceu com a Zipper, que vendeu quatro (de um total de seis edições) de um retrato de Adriana Duque na faixa de US$ 15 mil.

Além da mudança na escala, com trabalhos menores para acolher um mercado mais tímido, as galerias que mostram o trabalho histórico privilegiaram as décadas de 1970, 1980 e 1990, com obras mais acessíveis do que as da década de 1960, privilegiada nas edições anteriores.

Outras descobertas puderam ser feitas, mesmo para obras do passado mais recente. Obras de Rubem Valentim – artista afro-brasileiro que logo será apresentado em retrospectivas na Malba de Buenos Aires e Masp de São Paulo – foram um sucesso nos estandes de Almeida e Dale e Berenice Arvani. A Zipper também destacou o trabalho de Mario Ramiro, famoso por seu papel no coletivo 3Nós3, cuja prática multimídia envolvendo intervenção urbana, fotografias e som é relevante para o conjunto contemporâneo de hoje.
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texto publicado originalmente no site Touch of Class | 11/04/17

“A arte brasileira é uma caixa de pandora”

Curador da exposição de 30 anos do Itaú Cultural, Paulo Herkenhoff fala à Bravo! sobre a mostra, sobre sua trajetória e da importância da arte no atual momento político-econômico do Brasil. +

“Não vou nem dizer que minha família tinha uma escola com um museu de história natural”, brinca o curador Paulo Herkenhoff ao repassar uma vida dedicada às artes e aos museus. Um dos criadores e curadores do MAR (Museu de Arte do Rio ), além de idealizador do nome do museu carioca, Herkenhoff esteve à frente de uma série de instituições privadas e governamentais, como o Museu de Belas Artes do Rio e a Funarte. Foi o primeiro latino-americano a integrar a equipe de curadores do MoMa, de Nova York, e foi curador da Bienal de São Paulo que, segundo ele, não pode ser “um trampolim” para Kassel ou Veneza. “A Bienal tem de ser vista, por qualquer curador sério, como um ponto de chegada, um ponto final. Quem faz a Bienal de São Paulo não precisa fazer Kassel nem Veneza. Basta”, diz.

Agora Herkenhoff vai curar a exposição de 30 anos do Itaú Cultural, que acontece neste semestre, na Oca em São Paulo. A Bravo! conversou com o curador sobre o projeto da exposição, a arte no Brasil hoje, a coleção do MAR e sobre a Bienal. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Quais são as linhas mestras da exposição e como ela dialoga com a trajetória das exposições do Itaú Cultural?

A história do Itaú Cultural tem sido as exposições do acervo. O que a gente fez foi inverter esse processo. Como é comemorativo dos 30 anos, partimos de pensar a estrutura do Itaú Cultural, como um conjunto de trabalhos, projetos e programas que envolvem uma multidisciplinariedade. Percebemos que, do ponto de vista de artes plásticas, é um museu. Porque coleciona, registra, conserva, preserva, pesquisa, edita, expõe, educa, comunica e trata da sustentabilidade. Essas são tarefas de um museu hoje. E o instituto tem um acervo imenso, um dos maiores do país. E temos de levar em conta que a formação do acervo encontra núcleos muito estruturados e outros mais erráticos.

Como direcionou o olhar dentro da coleção?

A ideia é fazer uma exposição que tenha modos de ver a arte brasileira através daquilo que é a coleção do Itaú, com densidade conceitual, com um certo sentido de história, estando aberto para as rupturas e também considerando a dinâmica do mundo contemporâneo, a agenda que mais afeta o país, que angustia. Ou seja, como produzir leituras que possam de certa maneira instruir e instigar o público a fazer suas próprias leituras.

Serão muitos recortes, então.

Vamos celebrar esse colecionismo, sem encontrar uma lógica única. São focos de discussão. Nós vamos trazer à luz todos os setores da Instituição, mas sempre através da arte. A primeira questão que surge é a ideia de colecionar São Paulo. É um banco paulistano, com presença forte da família na cidade, se dedicando a museus e a outras instituições culturais. O Olavo Setúbal foi prefeito. Então tem um nexo muito forte com a cidade e isso se reflete na coleção. Existe, ao lado da [coleção] brasiliana, uma paulistânia, que se forma de uma maneira eventual, que pede leituras. É uma coleção de arte e de fotografias de São Paulo muito interessante.

Ela tem um recorte no século 20 ou se confunde com a brasiliana?

As duas se contaminam. Tem coisas importantes de São Paulo do século 18, 19, mas o que ficou, como foco, é mais o modernismo. Mas vamos ter também linhas de exploração. A arte afro-brasileira, a arte indígena.

Pinçando os artistas que eram modernos antes do modernismo?

O país não virou moderno nem modernista em 22. Já o era no século 19. De onde surgiram essas manifestações transformadoras? Podemos pensar na arte conceitual brasileira, por exemplo, que também é uma linha importante, mas pouco valorizada no mercado. Só nos últimos dois, três anos o mercado começa a acordar para ela.

Por que se dá esse descompasso entre o interesse pela arte conceitual no Brasil quando no mundo todo ela ganha força?

A arte conceitual agregava pouco valor, era tida como brincadeira, coisas muito irrisórias, como múltiplo.Tudo servia para diminuir o valor. Mas nos últimos tempos tem havido uma corrida. Isso tem a ver com o fato de a arte conceitual brasileira começar a ser observada por outras instituições de fora do país. Embora artistas como Cildo [Meireles] tivessem já o seu reconhecimento. Assim como Regina Silveira, entre outros. Mas há muita gente a ser descoberta. O Brasil é muito curioso. Porque existem pessoas muito interessantes a ser descobertas e existem histórias a serem redescobertas ou desnudadas, que é o caso da produção sobre a condição afro-brasileira.

Dentro dessa proposta de rever a atuação do Itaú Cultural, como fica o caso da performance na exposição? Reencenar uma performance não faz ela perder a força?

A performance varia muito. Uma Marina Abramovic depende da personalidade dela, mas talvez outras performances não dependam tanto do artista. Desde os anos 80 há colecionadores de performances, o próprio Museu de Arte Moderna de São Paulo tem performances em seu acervo. É um assunto que ainda não está totalmente resolvido. Há 100 anos, a própria dança se encontrava numa situação semelhante. Porque ainda não havia notação dos passos e dos movimentos da dança até que [Rudolf] Laban começasse a construir um vocabulário. Acho que tem muito espaço a percorrer, sobretudo entender quais são as possibilidades da arte no sistema capitalista como o nosso. Quais são as possibilidades de um artista ser um ativista, mais do que um administrador de ativos. Porque muitas vezes ele vira sócio da galeria e passa a fabricar produtos.

E perde o valor instrínseco da obra de arte?

Não necessariamente, mas existem filósofos hoje muito interessados em discutir a ética. Houve um pensador brasileiro, Ronaldo Brito, que disse que se um trabalho quer ser reconhecido como obra de arte, precisa passar pelo mercado. É uma posição. Mário Pedrosa dizia que para o mercado a arte é um presunto como outro qualquer. Isso foi dar no Nelson Leirner, no porco empalhado. Se o júri aceitasse o porco como arte, era sinal de que o júri não sabia diferenciar e aceitou um porco. E se o rejeitasse, teria rejeitado um porco que na verdade era arte [risos]. O júri estava condenado a errar.

Tem outros projetos com o Itaú Cultural para além da exposição?

Não, a ideia é pensar essa exposição. Pensar um pouco o que é a coleção até aqui. É uma oportunidade para avaliar a trajetória colecionística do Itaú. Uma instituição que no seus 30 anos foi capaz de dar saltos, de se rever, se transformar. É uma instituição extremamente inquieta, que não pára, que tem um processo dialético, de autocrítica, de observação das consequências do trabalho que faz que é muito forte. Eu sempre gosto de trabalhar me perguntando qual a missão de uma exposição. E coincidentemente o próprio instituto, neste momento, está discutindo a sua missão. E como todos os setores participam, a ideia é que seja uma exposição como uma construção coletiva. Essa discussão da missão é muito importante. Sempre digo que iniciativas como essa são daquela ordem da transformação do capital financeiro em capital simbólico, parte do capitalismo moderno.

E como entende o contexto atual da arte frente ao momento político-econômico do Brasil?

O Brasil vive uma situação periclitante. Os fatos históricos e o processo econômico criaram uma grande confusão. O contexto brasileiro que eu posso pensar numa exposição sobre uma coleção é o seguinte: o que é hoje a concentração geográfica de renda em relação aos museus? O Brasil se torna periférico a São Paulo, como centro do capital financeiro, o mercado de arte etc.? O que ocorrerá com os museus no Brasil? Há condições de seguirem esse movimento de estar no jogo? Muito difícil. A outra pergunta é a seguinte: o que é o custo social da arte e das atividades da arte num país como o Brasil? Há custos que são de país de economia avançada, mas o salário mínimo é baixo. São distorções. O desenho de um artista jovem brasileiro pode custar o mesmo que o desenho de um artista jovem americano ou alemão. Mas eles pagam imposto com mais clareza, o sistema fiscal é diferente, os direitos trabalhistas, o nível do salários per capita, enfim, são discrepâncias muito grandes que podem afetar a relação do Brasil com sua própria arte.

O senhor dirigiu o MAR (Museu de Arte do Rio), deixou a direção mas continua cuidando da coleção?

Hoje sou um voluntário. O que é interessante do MAR, como ideia de museu geral, é que ele tem focos na arte afro-brasileira, indígena, islâmica, judaica, colecionamos zeros. O MAR toma o acervo como algo quase que informe, que cada vez que você olha ele tem um relevo diferente, porque é muito poroso à vontade dos doadores. Temos a maior coleção de arte amazônica, eu vou muito à Amazônia, três vezes por ano.

De onde nasceu esse interesse pela Amazônia?

Circunstâncias, identificação. Quando eu trabalhava na Funarte, viajava muito e ali havia um campo muito forte de vontade de produzir e de pensar a Amazônia.

O que interessa mais é amazônia histórica, o legado indígena, ou a de agora, pulsante?

Tudo. Temos, por exemplo, alvarás manuscritos do século 18, temos obras do períodos da borracha, mas temos uma história da violência na Amazônia. Um grupo que lida com esse tema: Claudia Andujar, de São Paulo, mas também artistas de Belém como Armando Queiroz, Berna Reale. Também temos o maior grupo de obras de coletivos de São Paulo no acervo. São mais de 50 itens, trabalhos do BijaRi, da Frente 3 de Fevereiro, entre outros, Enfim, a coleção não é linear, ela segue as hipóteses, é porosa à participação esse acervo. Estamos começando uma coleção paulistânia. O Rio colecionou mal São Paulo.

O que define uma coleção?

Uma coleção nunca é espólio de vencedor, não é investimento, também não é acumulação pura e simples. É uma construção simbólica importante, que precisa levar em conta a história, a crítica, a vida dos artistas. Então, por exemplo, alguns podem achar uma besteira, mas eu acho interessante que em São Paulo tenha havido três ou quatro gerações da família Dutra, que pinta desde 1850. No Rio não tem, então estou construindo isso. Um pintor modernista tão bom como Toledo Piza, interessa. Qual é a São Paulo que interessa?

Depois da semana de 22 o Rio deu um pouco as costas a São Paulo?

O Rio tinha uma modernidade diferente, outra substância e outro enraizamento. É natural que a modernidade aflorasse, depois Mário de Andrade vai reconhecer isso, porque era uma cidade portuária, cosmopolita, capital da República, sede da diplomacia. Em 1920 já tinha escrita uma história da música moderna pelo Darius Milhaud. O grupo de artistas no Rio nesse período era muito grande. Acho que a questão no Brasil ficou muito em torno de 22 como um mito construído com certas funções, que apaga outras modernidades. A modernidade de Pernambuco, sobre a qual escrevi um livro, é totalmente independente do resto do Brasil, é uma relação direta com a França, antecipa-se muito. Sem dúvida que o artista mais maduro em 22, cujas obras nem estavam na exposição, era Vicente do Rego Monteiro, que tinha um projeto real de arte moderna naquela época, baseada em estudos de fato. Enquanto Tarsila [doAmaral] faz cinco, seis estudos da Negra, ele fez trezentos estudos de índios. Um outro empenho. Não um modelo estético para fazer sucesso, existe a busca de uma linguagem. Essa é uma diferença. E há a modernidade em Belém, que é de outra ordem. É a cidade que no século 19 está buscando a evolução da ciência, entender a Amazônia de outra perspectiva. Então falar assim de um evento, com todos os seus problemas, como sendo algo superior ao resto do Brasil é injusto. Mitos fundadores de uma hegemonia são mitos com uma vontade de hegemonia, esse é o problema.

E como vê a questão dos concretos depois?

A arte concreta naquele momento é subalterna do manifesto de Theo Van Doesburg, dos anos 20, o manifesto da arte concreta. Há alguma subalternidade a Max Bill, à teoria filosófica do [Konrad] Fiedler, que é um pensador do século 19 que fala da previsibilidade da arte, da objetividade absoluta. E o que se propaga muito é um artigo do Mario Pedrosa, de 56, 57, em que ele compara a sabença dos paulistas à intuição dos cariocas. Mas a partir dali os cariocas foram à luta. O que você vai ter de reflexão crítica sobre a linguagem e ao projeto construtivo, você não tem nada comparável em outra parte do Brasil. Você tem Almir Mavignier, [Abraham] Palatinik, Amilcar de Castro, Lygia Clark escrevendo belíssimamente, Hélio Oiticica, Lygia Pape escrevendo. E os dois, [Ferreira] Gullar e Mário Pedrosa. Não existe outro. E o artista de São Paulo que vai ficar próximo, muito envolvido, será Geraldo de Barros, que é um artista muito sensível e se afasta do Waldemar Cordeiro. Acho que o grande salto do Waldemar Cordeiro vai ser nos anos 60, com a crise dele com aquele projeto que não deu certo. O neoconcretismo é um conjunto muito específico de conceitos. Percepção fenomenológica, entender o comércio dos sentidos, o resgate do sujeito na estrutura geométrica, na subjetividade ou do artista ou do público. É uma abertura para a cor como fenômeno sensorial e não fenômeno plástico, rígido, físico apenas. A gestalt levando para uma dimensão da psicanálise. Há uma recuperação do lugar da arte na sociedade concreta dos excluídos com Hélio Oiticica e Lygia Pape.

Como foi sua experiência na Bienal?

Quando eu fiz a Bienal de São Paulo, eu pensei quero fazer uma Bienal que devolvesse ao país o custo financeiro dela. Não podia, então escolhi não fazer um tema, fazer um questão cultural. A antropofagia é um problema cultural. Para isso fiz algumas perguntas. Se fosse na Bahia, teria um foco no barroco, na afro-brasilidade. Se fosse em Minas, possivelmente também o barroco.

E se fosse em Belém?

Seria a questão da modernização nessa relação entre selva e indústria moderna, enfim. Mas como estava em São Paulo. Qual seria a real questão de São Paulo? Vinte e dois é uma ficção, um namorico. Em São Paulo, para mim, é o modernismo. Mas não o modernismo de respostas, de enlatados. Escolhi Oswald de Andrade e não tenho a menor dúvida de que ele fez a cabeça da Tarsila. Ela não tinha aquela cabeça toda. Ele era muito generoso. Mas, voltando, a antropofagia é realmente uma questão cultural, de busca de autonomia cultural. Encontro sustentação teórica em Mário Pedrosa, quando escreve sobre terceiro mundo versus a cultura na União Soviética e no capitalismo e a busca de autonomia dentro disso. Depois têm Ferreira Gullar, “Vanguarda e Subdesenvolvimento”, baseado em Lukács, Haroldo de Campos estudando a antropofagia a partir de Engels, acreditando que sociedades dependentes, subalternas, dominadas, poderiam ter uma autonomia cultural, e o “Manifesto do Terceiro Mundo”, do Artur Barrio. O Brasil estava pronto, e antropofagia não é uma receita. Não é um modelo de forma para você copiar, é uma busca de autonomia de linguagem.

É uma atitude que está viva no Brasil de hoje?

Eu acho que a arte brasileira é uma caixa de pandora. Quantos artistas não existem para ser descobertos, para ser recuperados? O Brasil tem muito a descobrir e muita subalternidade a ser denunciada, muito projeto de poder simbólico a também a ser posto abaixo. Então eu faço o que posso.

Entrevista de Guilherme Werneck publicada originalmente na Revista Bravo! | 21/02/17.

Damien Hirst lança espetáculo de naufrágio em Veneza

Esculturas monumentais do artista britânico ocupam os museus de François Pinault, na Itália. +

"Deixe-se admirar". Com estas palavras, a curadora Elena Geuna deu as boas-vindas à imprensa para “Tesouros do Inacreditável Naufrágio” (9 de abril a 3 de dezembro), uma grande exposição com novos trabalhos de Damien Hirst em Veneza, depois de uma década em exibir na cidade.

A mostra é monumental e ambiciosa, um tributo à antiga escultura da Grécia, de e Roma, dos astecas, e de civilizações na China, África, Índia, Bali, entre outros. Uma mostra que exibe uma imaginação desencadeada em uma escala sem precedentes. Isto é o que a arte parece quando a ambição desenfreada atende recursos financeiros aparentemente ilimitados.

O show também inclui ícones da cultura pop que vão desde uma barreira de coral a figuras da Disney, como Mickey Mouse, a retratos do músico Pharrell Williams como um faraó em mármore branco; A cantora Rihanna como uma deusa egípcia em mármore vermelho; E Yolandi Visser, do duo sul-africano Die Antwoord, como uma deidade mesopotâmica em bronze e folha de ouro.

A exposição ocupa por completos dois museus franceses de François Pinault na cidade, o Palazzo Grassi e o Punta della Dogana.

As 190 obras em exibição, muitas das quais são esculturas de escala gigantesca, foram descobertas no leito do mar de acordo com a narrativa imaginária do espetáculo. A maioria das obras são de fato produzidas em uma edição de cinco, incluindo duas provas de artista que pertencem a Hirst. Um demônio sem cabeça de 60 pés de altura, segurando uma tigela preenche todo o pátio do Palazzo Grassi. Feito de resina pintada, a figura é inspirada por um desenho de William Blake da coleção Tate, e é o prório Colossus de Rodes de Hirst, uma escultura que ele está esperando para lançar em bronze.
Em Punta della Dogana há um bronze de 23 pés de altura de uma guerreira grega que se estende sobre um urso de pé, com os braços mo alto, ela segura uma espada em cada mão. O trabalho aparece incrustado em corais vermelhos, amarelos e roxos, mas os crescimentos marinhos foram cuidadosamente reconstruídos em bronze pintado.

A história ficcional que se conta na exposição é a de um navio cheio de obras encomendado, no segundo século, por um escravo libertado, Cif Amotan II, para um templo dedicado ao sol. O navio naufragou ao largo da costa da África Oriental e os tesouros que continha ficaram no fundo do mar até que foram recuperados por mergulhadores em 2008.

Outra sala da Punta della Dogana é dedicada a esculturas gêmeas da deusa hindu Kali lutando contra o monstro grego Hydra – com seus seis braços e sete cabeças de serpente - a antiga divindade indiana encontrando a criatura que lutou com Hércules pela primeira vez, Graças a Hirst.

No Palazzo Grassi, outro par improvável é Andrómeda, a princesa da mitologia grega, que Hirst retrata acorrentado a uma pedra, temendo a morte encomendada pelo deus do mar, Poseidon. Hirst acrescentou em segundo monstro, um tubarão gigante pulando para a boca de Andrómeda, lembrando o famoso tubarão-tigre preservado em formaldeído, bem como Steven Spielberg faria.

A variedade de materiais em exposição e o artesanato necessário para moldá-los em uma obras de arte é impressionante. Hirst empregou especialistas em uma série de países com as habilidades com pedras preciosas e metais.

Uma cabeça cortada de Medusa aparece na exposição em três versões diferentes: uma em cristal, outra em malaquita e, finalmente, em bronze, ouro e prata. Esta é a carta de amor de Hirst ao virtuosismo dos artesãos antigos: vitrines inteiras cheias de jóias de ouro que lembram a obra grega e romana; Um escudo de Aquiles banhado a ouro com batalhas intrincadamente detalhadas e cenas agrícolas; E finamente trabalhadas, esculturas de prata lembram a destreza de metalúrgicos renascentistas.
Hirst aparece na mostra na figura de um "colecionador" em bronze. A escultura, exposta no primeiro andar do Palazzo Grassi, retrata o torso carnudo do artista coberto no que parecem ser lesmas marinhas e coral. A presença de Hirst aqui, presidindo este espetáculo de sua própria criação, é uma homenagem ao poder do colecionador ao longo dos tempos, do imaginário escravo libertado que comissionou essas obras, ao artista que as imaginou e produziu e ao colecionador bilionário francês Pinault que ajudaou a financiar toda a operação (os organizadores recusam-se a discutir os custos).

Os críticos já estão divididos sobre o valor artístico da exposição. O Daily Telegraph declarou a exposição "uma loucura espectacular, inchada, uma enormidade que pode provar o naufrágio da carreira de Hirst", enquanto o Guardian descreveu-o como "um titânico retorno à forma", que "resgatou" Hirst.

Por sua parte, François Pinault acredita que esta exposição é uma novidade inovadora para o artista. "Por seu excesso, por sua ambição e, finalmente, por sua audácia, a mostra faz uma ruptura completa com tudo o que ele conseguiu até agora. Os trabalhos não se encaixam em nenhuma categoria estética convencional ou estrutura canônica ", diz o colecionador no catálogo da exposição.
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Texto de Gareth Harris e Cristina Ruiz publicado no The Arte Newspaper | 0704/17

‘Modelo das bienais está desgastado’, diz novo curador da Bienal de São Paulo

Espanhol Gabriel Pérez-Barreiro esteve à frente da Bienal do Mercosul e foi conselheiro da Fundação Iberê Camargo. +

Anunciado em janeiro como curador da 33ª Bienal de Arte de São Paulo, marcada para setembro de 2018, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, de 46 anos, sinalizou que pretende mudar o modelo temático que prevalece há cerca de 20 anos na mostra de arte contemporânea. Em entrevista ao jornal “O Glogbo”, Pérez-Barreiro disse que dois eixos serão contemplados em sua proposta: a forma como o curador se torna um protagonista do evento e a maneira como a instituição vai dialogar com o visitante médio. Enquanto começa um plano de trabalho, ele acompanha de longe a montagem de uma exposição que assina ao lado de Michelle Sommer no Museu Reina Sofía, em Madri, dedicada ao crítico Mário Pedrosa.

Todo novo curador que chega à Bienal tem o desafio de fazer diferente. O que você está pensando para a próxima edição?

A Bienal é uma instituição com 66 anos e uma história de continuidade, mas também baseada em mudanças internas. É um modelo interessante, diferente do de museus e de outras instituições. Ela está em um momento importante de sua trajetória, o que simplifica e dificulta ao mesmo tempo. Muitas coisas deram certo na última edição, mas tem questões que eu gostaria de focar. Uma delas é a Bienal necessariamente ter um tema. Esse modelo tem uma série de problemas, e um deles é limitar o potencial das obras de arte, que existem muito em função de um discurso prévio. A pergunta que me faço é: será que não é possível fazer o contrário? E se a obra de arte propuser uma estrutura, e não o assunto propuser uma leitura da obra? Outra questão é que a Bienal é um evento de massa, cuja última edição recebeu a visita de 900 mil pessoas. Qual é a relação que pode articular com esse grande público? O que se pode propor para muitas pessoas que têm um primeiro contato com a arte? Até que ponto a estrutura curatorial contribui para se aproximar do visitante não especializado? Parece óbvio, mas não é. Essas são as linhas que estão nesse momento de começo de trabalho.

Esse modelo de curadoria temática é consagrado internacionalmente, em eventos como a Bienal de Veneza e a Documenta de Kassel, por exemplo. Há outros?

Acho que esse modelo está se cansando. Está na hora de questionar o automatismo. Não há nenhuma lei escrita dizendo que precisa ser assim. Houve múltiplas maneiras de organizar a própria Bienal: binacional, concurso, premiação. O modelo atual tem 20 anos, e tudo tem um ciclo. No momento de sua criação foi uma grande novidade, uma resposta ao modelo da premiação, oriundo da Bienal de Veneza — que vem do século XIX. Foi fundamental uma reforma para falar de outras coisas, para articular um discurso mais unificado. Hoje, é o establishment. Até os temas ficaram meio parecidos: questões sociais, o estado do mundo, o desejo de convivência. Foi interessantíssimo, mas não sei se o público quer a cada dois anos ser tratado do mesmo jeito. Acho que é um bom momento para mudar. A instituição é sólida, nasceu para ser experimental. Vamos ver se há outros modelos.

Existem outras experiências de curadoria sem o uso do tema em outras mostras de arte fora do Brasil que possam servir como parâmetro?

A Bienal é um bicho muito diferente. Os museus e todas as instituições de arte contemporânea estão constantemente experimentando modelos diversos. Tem todo um ciclo novo (de bienais) que vai ser interessante observar. Por exemplo, a próxima Bienal de Veneza, que tem um tema muito geral, “Viva arte viva”. Estou curioso para ver como vai ser articulada. Mas tenho escutado uma coisa interessante. Sinto um desejo de questionar a massificação. Por que não uma Bienal com metade do tamanho? De fato, as mostras têm se reduzido, aqui mesmo. E não é uma questão orçamentária. Há um desejo de focar mais, de ficar mais tempo com os artistas, escapar desse modelo do supermercado e zoológico, que tem um pouco de tudo. É um desejo de limitar a escala e dar um pouco mais de profundidade aos artistas. Fizemos uma experiência na Bienal do Mercosul, na qual a gente escapou um pouco da temática. Era uma tentativa de ver que outras formas existem para apresentarmos outro tipo de experiência.

Qual a melhor maneira de criar um diálogo com esse público que não é especializado?

Estou preparando uma exposição sobre Mário Pedrosa no Museu Reina Sofía, em Madri. Chama-se “Mário Pedrosa — Da natureza afetiva da forma”. Uma pena, queria usar como título da Bienal, mas gastou essa ficha (risos). Acho que a minha aspiração máxima é criar um espaço no qual o visitante se sinta em condições de ter uma relação afetiva com a obra de arte. Isso tem que ser construído com a experiência física. Essa coreografia de conteúdo, essa maneira de falar institucionalmente para o público é muito importante. Essa é a prioridade, acima de qualquer coisa. Não é uma questão que pode ser jogada no educativo. Curadoria tem parte importante.

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Matéria de Alessandro Giannini originalmente publicada no jornal “O Globo” em 07/04/17.

Crise faz Fundação Iberê Camargo perder mais de 15 mil visitas

Hoje, quem passa em frente ao prédio que se tornou cartão-postal da cidade encontra um cenário bem menos promissor. Fachada com aspecto de descuido e portas que permanecem quase sempre fechadas são apenas alguns dos reflexos da crise. +

No ano de 2007, Porto Alegre ganhou projeção inédita na imprensa internacional. O despertar do interesse de veículos como o New York Times devia-se à inauguração, na cidade, de um imponente prédio projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, encomendado para abrigar a Fundação Iberê Camargo (FIC). A instituição, então coordenada por Maria Coussirat Camargo, viúva de Iberê, havia sido criada em 1995 para promover e preservar o legado do artista gaúcho. Com a nova sede, cerca de cinco mil obras e 20 mil documentos ganhavam, finalmente, um espaço apropriado.

A escolha de um arquiteto de renome não foi fortuita. Segundo o professor e cientista político Fernando Schüler, primeiro diretor da instituição, correspondia à estratégia de integrar Porto Alegre ao circuito artístico nacional e mundial. Antes da inauguração, o projeto inovador conquistou, em 2002, o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza. Ao longo dos anos, quem entrasse no museu teria a chance de conferir exposições de porte raro para padrões nacionais, como a dos pintores italiano Giorgio Morandi, em 2012, e sul-africano William Kentridge, em 2013; além do escultor italiano Marino Marini, em 2015.

Hoje, quem passa em frente ao prédio que se tornou cartão-postal da cidade encontra um cenário bem menos promissor. Fachada com aspecto de descuido e portas que permanecem quase sempre fechadas são apenas alguns dos reflexos da crise que, desde 2015, acomete a FIC. Em 2014, a FIC teve 71.829 visitantes. No ano seguinte, com a crise, passou para 70.674. Em 2016, a queda foi brusca, para 53.589 pessoas. Dependente exclusivamente de financiamento privado, a instituição viu seus recursos minguarem com a recessão econômica do País e do Rio Grande do Sul. A notícia inicial foi de que Vonpar, Itaú, Gerdau, Votorantim, IBM e Intercement reduziram em cerca de 30% os investimentos via patrocínio direto e leis de incentivo à cultura.
Dentre as empresas, era com a Gerdau que a instituição mantinha vínculo mais estreito. Havia nisso marcas de uma empreitada pessoal. Amigo de Iberê Camargo e admirador de sua obra, o empresário Jorge Gerdau esteve à frente de todo o processo de criação da FIC. O impacto causado pela redução do aporte financeiro coincidiu, ainda, com sua saída da presidência do conselho de administração da gigante da siderurgia. “O doutor Jorge teve o mérito de buscar atender a todos os desejos de Iberê”, ressalta Adriana Boff, ex-coordenadora editorial da casa, referindo-se a iniciativas como a Bolsa Iberê Camargo e o Programa Artista Convidado do Ateliê de Gravura.

Até deixar a instituição, Adriana cuidava diretamente de outro importante projeto, a produção do catálogo raisonné do artista. Segundo ela, a equipe vinha de um período eufórico de comemoração do centenário de Iberê Camargo, em 2014, quando precisou enfrentar o corte de verbas. “Não tivemos o tempo adequado para reestruturar atividades”, relata. Já em 2015, os principais projetos foram suspensos. No ano seguinte, funcionários foram demitidos, a catalogação da obra foi interrompida, e o museu anunciou a redução de seu horário de funcionamento para apenas dois dias da semana (atualmente, o espaço mantém uma exposição apenas com obras do acervo).

Superintendente cultural da FIC desde 2007, Fábio Coutinho lembra que a crise eclodiu no momento em que se iniciava um projeto de exposições internacionais, com mostras que iriam para Itália, Portugal e Alemanha. “Foi muito difícil telefonar para os museus e avisar que não poderíamos mais realizá-las. Felizmente, tudo foi perfeitamente compreendido, porque não há instituição artística no mundo que já não tenha passado por uma crise”. Outro caso emblemático pode ser visto no próprio Rio Grande do Sul. Em dezembro do ano passado, a Fundação Bienal do Mercosul chegou a anunciar o adiamento para 2018 da 11ª edição do evento, que deveria ocorrer neste ano. A aproximação entre esses casos revela, porém, uma semelhança intrínseca, que diz respeito ao modelo de financiamento. Em que medida as instituições deixaram de reconhecer os riscos nele existentes para que pudessem resguardar-se de eventuais falhas em seu funcionamento?

O empresário e colecionador Justo Werlang, que assumiu o cargo de diretor-presidente da FIC em dezembro, pondera que, quando se executa um projeto “elogiadíssimo”, em que a equipe cumpre padrões de excelência, existe uma tendência natural à acomodação. O executivo argumenta, entretanto, que inexiste no País uma legislação que incentive a criação de fundos de reserva capazes de garantir autonomia e estabilidade às organizações.

Com artigo publicado sobre o assunto, o professor Schüler constata a tradição, no Brasil, de dependência do financiamento estatal e empresarial, em detrimento de uma cultura de filantropia individual e de constituição de fundos patrimoniais. Ele salienta que, em países como Estados Unidos e Canadá, grandes orquestras, centros de arte e universidades desenvolveram historicamente o endowment fund, mecanismo de aplicação financeira do qual as entidades retiram apenas os resultados líquidos para custear seu orçamento. Dentro de suas possibilidades, a FIC iniciou, em dezembro, uma campanha para receber deduções do imposto de renda de pessoas físicas.

De acordo com Werlang, a ação não solucionou o problema, mas serviu para revelar a preocupação da sociedade. Não são poucas as queixas, por exemplo, sobre a sujeira da parte externa do prédio, que não recebeu a última limpeza semestral. O setor financeiro não divulga números, mas a manutenção do edifício é um dos itens mais dispendiosos.

Para se reerguer, a FIC também deve seguir indicações de uma consultoria, que sugeriu a interação maior com o público e a promoção de ações interligadas a outras áreas artísticas. A ideia é dissociá-la da imagem de um museu, para “que não apenas seja, mas que, ao englobar outras atividades, tenha um espaço expositivo”, explica Werlang, que diz não acreditar no risco de o reposicionamento levar a uma perda de identidade. Segundo o diretor, a figura do curador residente ajudará a evitar possíveis inconsistências. No início de março, a FIC anunciou o nome do professor e crítico de arte Bernardo José de Souza para exercer a função inédita.

Em livro sobre Iberê Camargo, a historiadora da arte Vera Beatriz Siqueira conta que, para ele, “um quadro pronto não servia para nada além de lhe fornecer os meios para continuar pintando e apontar os problemas da obra seguinte.” Na nova fase da instituição, este espírito irrequieto do artista pode se tornar um dos legados mais valiosos a ser preservados.
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Matéria de Júlia Corrêa originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 18/03/17.

Novas regras da Rouanet ampliam fiscalização e transparência em acesso à Cultura

Em um ambiente de escassez de recursos públicos e de grandes desafios na democratização do acesso, a nova instrução normativa estabelece limites anuais de captação de recursos por proponente e por projeto cultural, e ainda define o valor de cada item orçamentário. +

O Ministério da Cultura anunciou nesta terça-feira (21/3) um pacote de mudanças que vai corrigir as principais distorções da Lei Rouanet. Os mecanismos estabelecidos pela nova Instrução Normativa (IN 1/2017), que substitui a publicada em 2013 (IN 1/2013), visam garantir os fundamentos da Lei: fomentar a cultural nacional de forma descentralizada, democratizando o acesso aos recursos do incentivo fiscal e aos produtos culturais oriundos dos projetos apoiados via Lei Rouanet. As novas normas evitam a concentração por proponente (pessoa física ou jurídica que apresenta o projeto), por região do país, por projeto e por beneficiário (público que consome cultura).

Foram também criadas ferramentas tecnológicas para aumentar o controle, a fiscalização e a transparência dos projetos, que passarão a ter prestação de contas em tempo real. Além disso, as novas regras otimizam os fluxos de análise de projetos, o que deve reduzir o tempo médio entre a admissão de um projeto e sua execução e desonerar os gastos do Estado com a análise de projetos sem perspectiva real de viabilidade de execução.

Ao apresentar a nova IN, o ministro da Cultura, Roberto Freire, defendeu as alterações como resposta às críticas feitas à Lei de forma a garantir sua manutenção como principal mecanismo de incentivo à produção cultural do Brasil. "Algumas críticas eram pertinentes, como a concentração de recursos, priorizando determinadas regiões. Os resultados do desmantelo que o País sofreu num processo de desgaste que afetou o Ministério da Cultura e a Rouanet também exigiam de nós uma posição mais ofensiva, de definição de caminhos".

"Tivemos como principal preocupação a transparência dos processos. No Brasil de hoje, o acompanhamento da prestação de contas em tempo real é um avanço muito importante que será trazido à Lei Rouanet com a vinculação da conta única do Banco do Brasil e a publicação da movimentação dos recursos públicos no Portal da Transparência. Isso proporcionará que o passivo pendente de análise existente em cerca de 18 mil projetos seja desbastado", destacou o ministro.

Freire ainda explicou que as questões passíveis de regulamentação puderam ser realizadas via Instrução Normativa, sem a necessidade de uma reforma legislativa neste primeiro momento. "Com a IN não vamos engessar. Se efetivamente não tivermos respostas, poderemos fazer novas alterações, sempre levando em consideração as contribuições de produtores culturais e demais grupos diretamente envolvidos. Por ser IN, poderemos produzir quaisquer alterações sem atropelo naquilo que será apresentado como resultado para a cultura brasileira".

Seguem, abaixo, as principais soluções que a nova Instrução Normativa traz para sanar os gargalos atuais:
CONTROLE, FISCALIZAÇÃO E TRANSPARÊNCIA DOS PROJETOS CULTURAIS

Cenário atual: Ministério da Cultura acumula um passivo de 18 mil projetos culturais apoiados via Rouanet com prestação de contas pendentes de análise. A falta de uma ferramenta tecnológica para inserção eletrônica de notas fiscais contribuiu para o acúmulo de processos, pois as notas eram enviadas fisicamente (em papel) ao MinC.

Nova regra:
A prestação de contas será feita em tempo real a partir de um novo modelo de transação eletrônica, por meio de conta vinculada do Banco do Brasil, que possibilitará a comprovação virtual dos gastos. Estes serão informados ao MinC pelo Banco do Brasil em 24 horas após a movimentação da conta. O pagamento com recursos fruto de incentivo fiscal do governo ainda estará disponível no Portal da Transparência para o controle social. A medida vai evitar a utilização indevida dos recursos e permitir a identificação rápida de possíveis ilícitos cometidos. A movimentação dos recursos captados estará disponível no Portal da Transparência e será acessível a toda a sociedade.

O sistema eletrônico do MinC de apresentação de propostas culturais será interligado à Receita Federal, e terá trilhas de verificação de riscos, o que tornará possível a identificação imediata de proponentes com pendências com a União. As trilhas identificarão ainda a relação entre proponentes e fornecedores, alertando sobre conflitos de interesse na condução dos projetos.
DEMOCRATIZAÇÃO DO ACESSO AOS RECURSOS DO INCENTIVO FISCAL E DA PRODUÇÃO CULTURAL
Cenário atual: Nos últimos anos, empresas de grande porte foram responsáveis por enormes captações para a execução de projetos culturais utilizando-se de incentivo fiscal. A instrução normativa de 2013 não limitava a lucratividade de projetos incentivados com recursos públicos. Pela antiga regra, não havia limite de captação para valor do produto cultural (ingresso, catálogos, livros) nem teto de captação por projeto.

Nova regra:
Em um ambiente de escassez de recursos públicos e de grandes desafios na democratização do acesso, a nova instrução normativa estabelece limites anuais de captação de recursos por proponente e por projeto cultural, e ainda define o valor de cada item orçamentário. Também foi estabelecido limite de valor médio dos produtos culturais (ingressos, catálogos, livros) da ordem de R$ 150. Estes limites atendem uma demanda do Tribunal de Contas da União (TCU) que, em 2016, publicou acórdão recomendando ao MinC não aprovar projetos com excessiva lucratividade.

O valor dos tetos pode chegar a, no máximo, R$ 10 milhões por projeto, e a R$ 40 milhões por proponente/ano.

O teto por projeto é escalonado de acordo com o perfil do proponente: 1. Micro Empresário Individual (MEI) e Pessoa Física terão valor máximo de R$ 700 mil, com até quatro projetos; 2. Para os demais empresários individuais (EI), o valor máximo é de R$ 5 milhões, com até seis projetos; 3. Para Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI), Sociedades Limitadas (Ltda) e demais pessoas jurídicas, o valor máximo é de R$ 40 milhões, com até dez projetos. Estão isentos destes limites de captação de recursos produtos culturais que tratem do patrimônio, área museológica e Planos Anuais, devido à especificidade do alto custo dos mesmos.

Limite de lucratividade: a bilheteria ou o valor dos produtos culturais não podem ser maiores do que o custo total do projeto aprovado pelo MinC. Do total do valor do projeto, no máximo 20% poderá ser gasto com divulgação.

O produto cultural (espetáculo, show, teatro etc) deverá utilizar, no máximo, R$ 250 por beneficiário (público consumidor) – assim evita-se que projetos muito onerosos atendam um público restrito.

O custo de cada item orçamentário deverá estar de acordo com um modal de precificação, o que deve orientar o pagamento para contratação de fornecedores. Os valores foram estabelecidos a partir de uma métrica do que realmente foi apresentado pelos projetos que tiveram apoio via Lei Rouanet desde 2009.
DESCONCENTRAÇÃO REGIONAL E EQUILÍBRIO DA DISTRIBUIÇÃO DE ACESSO À CULTURA
Cenário atual: 80% dos projetos culturais apoiadas via incentivo fiscal (Lei Rouanet) se concentram na Região Sudeste. Em seguida vem a região Sul, com 11% dos recursos captados. A Região Nordeste capta 5,5%. A Centro-Oeste, 2,6%. E o Norte fica com apenas 0,8% dos recursos captados. Na regra antiga, não havia incentivo para desconcentração.
Nova regra: Projetos integralmente realizados nas Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm um teto maior, de R$ 15 milhões por projeto. Os custos de divulgação também podem ultrapassar os 20% do valor do projeto e chegar a 30%. Quem quiser apresentar mais do que o limite por perfil do proponente, terá um aumento de 50% no número de projetos e no valor total deles.
REDUÇÃO DE CUSTOS PARA O ESTADO
Cenário Atual: Atualmente, a cada quatro projetos aprovados pelo MinC, apenas um consegue captar os 20% necessários ao começo da sua execução – o que classifica o projeto como "executável". Portanto, o MinC despende recursos financeiros na contratação de pareceristas e tempo na emissão de pareceres técnicos de projetos sem efetiva possibilidade de execução., Não há atualmente exigência para que o proponente (pessoa física ou jurídica que apresenta o projeto) comprove que o seu projeto é "executável" antes de encaminhá-lo a um parecerista.

Nova regra: Antes de enviar o projeto para um parecerista, o Ministério vai priorizar os projetos que já tenham captado 10% dos recursos do orçamento aprovado. Deste modo, serão analisados com prioridade projetos com maior chance de execução viável.

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Notícia originalmente publicada no site do Ministério da Cultura (www.cultura.gov.br)em 21/03/17.