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O mercado de arte está louco?

A extravagante venda da obra de Leonardo na na Christie's de Nova York por US$ 450 milhões [...] causou não apenas incredulidade e espanto como também um tipo de perplexa repulsa. Isso, sentiram algumas pessoas, era simplesmente louco demais. Matéria de Jan Dalley do Financial Times publicada originalmente no jornal “Valor Econômico”, em 05/01/18. +

Nesta vida, tudo é possível. A venda extrapolava o palpite mais tresloucado de qualquer pessoa. Na noite de 15 de novembro, na Christie's de Nova York, fez história a batida do martelo ao lance de US$ 450 milhões. Ou, em outras palavras, a um preço que pouco se distanciava do US$ 1 milhão por polegada quadrada, pelo quadro "Salvator Mundi", de Leonardo da Vinci (1452-1519). Será que o mercado de arte tinha enlouquecido completamente? Teria perdido qualquer ligação com a razão, com a realidade?

No site do mercado de arte Artnet, Tim Schneider comparou a venda a "sair com o seu cachorro para o seu passeio habitual matinal e vê-lo ser arrebatado da rua por um pterodáctilo (réptil voador do período Jurássico Superior)". A extravagante venda da obra de Leonardo - ou, segundo os detratores, dos restos de uma imagem histórica muito parcialmente de autoria de Leonardo e muito grandemente de autoria de hábeis restauradores - causou não apenas incredulidade e espanto como também um tipo de perplexa repulsa. Isso, sentiram algumas pessoas, era simplesmente louco demais.

Foi talvez a primeira insinuação de que um mercado que é empolgante e estimulante estaria prestes a se tornar alarmante. Após o ano um pouco fraco de 2016, quando as leiloeiras viram seus totais cair em relação a temporadas anteriores, 2017 foi um ano incrível. Foram quebrados recordes e uma série de batidas de martelo aparentemente irracionais referendaram preços estonteantes por obras de Jean-Michel Basquiat (1960-1988) e outros. Nas cobiçadas categorias de arte do pós-guerra e arte contemporânea, preços nas últimas casas das dezenas de milhões de dólares se tornaram um tipo de novo normal. Como isso pode acontecer? De onde, diabos, vem esse dinheiro?

Georgina Adam, especialista no mercado de arte e comentarista do "Financial Times", tem explicação bem simples. "Pessoas muito ricas, hoje em dia, têm uma quantia absolutamente assombrosa de dinheiro disponível", diz. Em outras palavras, na era pós-colapso do excesso de liquidez, o grupo dos bilionários não apenas cresceu como também, em muitos casos, ampliou sua renda disponível.

No novo livro de Georgina, "Dark Side of the Boom: The Excesses of the Art Market in the 21st Century", um galerista entrevistado pela autora faz as contas. Se um casal tiver um patrimônio líquido de US$ 10 bilhões, exemplifica ele, talvez possa decidir aplicar 10% disso em arte ostentosa para as paredes de alguma de suas muitas casas: será US$ 1 bilhão investido em arte. Esse bilhão compra muita coisa: nesse contexto, US$ 40 milhões por um Picasso não parece tanto assim. E, na esfera da arte de primeira linha, é claro, sempre há o atrativo de possíveis lucros no futuro, o que não ocorre com jatinhos particulares, iates ou quaisquer outras aquisições dos super-ricos sujeitas à depreciação. Esse tipo de aritmética surreal só faz algum sentido, naturalmente, para menos que 0,1% do 1% mais rico, mas é suficiente para levar esse mercado a extremos até então inimagináveis.

Mas mesmo esses cálculos foram desafiados pela venda do Leonardo. Quando uma postagem nas redes sociais deu a notícia de que o "Salvator Mundi" seria exposto no Louvre Abu Dhabi, foi rapidamente seguida por uma surpresa: o comprador era um príncipe saudita pouco conhecido, Bader bin Abdullah bin Mohammed bin Farhan al-Saud.

Soube-se posteriormente que ele atuou como representante do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Mesmo assim, foi um certo anticlímax. Aquele preço astronômico deixou de parecer tão extraordinário - com um poço sem fundo de petrodólares, que diferença faz meio bilhão aqui, meio bilhão ali? Mais intrigante, talvez, seja a identidade do autor do lance de valor menor que - embora de forma mais lenta - seguiu os saltos dos lances, até a oferta definitiva, tida como imbatível, de US$ 30 milhões. O melhor palpite seria o Catar, que também vai abrir um novo museu nacional concorrente, um projeto resplandecente de Jean Nouvel, no ano que vem, e que, além disso, passa por uma rixa com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Tinha de ser uma compra ostentatória. Era impossível entender como a obra poderia ter sido comprada para fins de investimento. A esse nível de preço, os custos de compra e de venda são descomunais - no caso do Leonardo, só as comissões ultrapassavam US$ 50 milhões -, e mesmo para obras excepcionais o mercado é volátil.

O vendedor do Leonardo, o bilionário russo Dmitri Rybolovlev, pode ter ganhado a sorte grande com essa venda, mas outras obras de primeira linha que ele vendeu recentemente o fizeram amargar, no cômputo líquido, prejuízos punitivos.

A arte como investimento é um fenômeno relativamente novo. Até as aceleradas inflações dos preços do século XXI, o potencial de lucros era limitado e dilatado demais no longo prazo. Há muitos especialistas nessa área que ainda consideram a arte um investimento horrível - excessivamente pouco líquido, incerto demais e onerado por custos pesados -, mas o vertiginoso número de zeros, associado à falta quase total de regulamentação, não apenas atrai investidores incautos como também constitui um prato cheio para hábeis manipuladores do que Noah Horowitz, autor de "Art of the Deal: Contemporary Art in a Global Financial Market", descreve como "uma economia singular".

Como destaca Georgina, o setor não constitui, na verdade, um único mercado, mas uma série de mercados frouxamente ligados pelo fato estranho e inoportuno de que todos eles lidam com objetos culturais exclusivos. O segmento que conquista manchetes, o lugar onde se dá a atual corrida do ouro, são as obras de arte das eras do pós-guerra e contemporânea, e, depois dele, apenas a própria ponta de uma pirâmide íngreme. A grande área intermediária não é notícia.

Mas, em todo o segmento, não há transparência, quase não há regulamentação e impera cultura de sigilo quase obsessiva. Normalmente não ficamos sabendo o nome nem do comprador nem do vendedor nas transações dos leilões, e nas vendas privadas não ficamos sabendo sequer o preço - ou mesmo se ocorreu, na verdade, alguma venda. Não há registro de transações ou da propriedade de obras. O termo "uso de informações privilegiadas" não cabe - na verdade, se poderia dizer que todas as transações com arte dependem de algum grau de informação privilegiada. Trata-se de uma situação muito susceptível de abuso, e o negócio de arte tem seu lado escuso. O próprio princípio do anonimato é um choque para muitas pessoas alheias ao segmento.

Como teria dito Sharon Cohen Levin, ex-diretora de confisco de ativos do Ministério Público Federal americano em Manhattan, de acordo com o "New York Times", "pode-se ter uma transação em que o vendedor está registrado como 'coleção particular' e o comprador está registrado como 'coleção particular'. Em quaisquer outras áreas de negócios, ninguém conseguiria sair incólume com isso".

Outra surpresa é o sistema de garantias dos lotes a serem leiloados, por meio das quais um terceiro garante um preço no leilão (portanto a obra, na prática, é pré-vendida, o que isenta o vendedor de risco) em troca de uma parcela da renda para o caso de a obra ser vendida por um valor superior. Na prática uma forma sofisticada de aposta, esse procedimento é perfeitamente legal, sendo, no entanto, acusado por alguns especialistas de forçar os preços para cima. Mas não há nada que impeça o garantidor (que é anônimo, embora tenha tido acesso ao preço mínimo da obra, que também é, normalmente, secreto) de participar da disputa de lances ascendentes. Se o garantidor de US$ 100 milhões do Leonardo tiver sido ao mesmo tempo o autor do lance vencedor, terá registrado também um bom retorno financeiro sobre o preço final.

Hábitos do mundo da arte como esse vão além do ilusionismo da magia, tendem muito mais a pertencer à esfera da bruxaria financeira. Certamente nada têm a ver com a arte. Ou com os artistas, que muitas vezes são brutalmente comoditizados pelo mercado. Os preços das obras do pós-guerra e contemporâneas são alcançados apenas por muito poucas, que acabaram sendo transformadas em marcas: a Artnet informou que apenas 25 artistas renomados foram responsáveis por 44,6% dos totais arrecadados em leilão no segmento no primeiro semestre de 2017.

Olav Velthuis, professor da Universidade de Amsterdã, descreve isso como um mercado em que "o vencedor leva tudo", também típico do dos atores, músicos e atletas. Portanto, não surpreende encontrar uma questionável manipulação de preços de alguns dos nomes mais famosos. Se, por exemplo, um marchand ou colecionador possuir uma série de obras do artista X, é essencial que os preços de leilão do artista nunca pareçam perder força: o colecionador poderá, portanto, despachar agentes para todos os leilões disputados pela obra do artista X para puxar para cima os patamares da disputa de lances - e garantir o valor dos ativos que detém.

Com artistas já mortos, isso parece cínico, até triste, mas talvez não trágico. Onde coisas desse tipo podem realmente fazer a diferença é no que diz respeito aos talentos vivos, principalmente os jovens ou emergentes, que se veem vítimas dessa fábrica de lucros.

Georgina dá um exemplo do qual ouviu falar, que funciona da seguinte maneira: você compra dez obras de um artista jovem por, digamos, US$ 10 mil. Após plantar bocados de badalação aqui e ali por cerca de um ano, você leva uma das obras a leilão. Você e um coconspirador fazem lances cada vez maiores pela obra no leilão, digamos até US$ 100 mil. Quando o martelo for batido nesse nível - porque a principal maneira de determinar os preços, no mercado de arte, é simplesmente pelos preços já alcançados -, você poderá (devagar, sem pressa) vender todas as outras nove obras a preços analogamente inflados. Com um tremendo lucro.

Mais uma vez, nada disso é, na verdade, ilegal. E, pelo fato de esse tipo de coisa depender tanto do cinismo, e da credibilidade dos compradores - que acham que investiram precocemente no próximo grande nome -, é difícil sentir muita solidariedade para com alguém que faz parte desse triste cenário. A exemplo de muitas das brigas que irrompem no mercado da arte, ninguém, na verdade, dá tanta importância, porque isso é visto apenas como estratégia enganosa exercitada entre os ricos, que o fazem porque podem.

A exceção diz respeito ao artista, cuja carreira tem poucas chances de sobreviver a manobras desse tipo. Mesmo aqueles que parecem ter resistido com sucesso às regras da casa leiloeira muitas vezes fracassaram A famosa venda de Damien Hirst de sua nova obra pela Sotheby's, no próprio dia de 2008 em que o Lehman Brothers faliu, granjeou para o artista triunfantes 111 milhões de libras esterlinas - mas os preços inflados detonaram seu mercado. Como diz o crítico Will Harrison: "Em 2009... as vendas anuais em leilão de Hirst tinham encolhido 93%; desde então, cerca de um terço de suas obras não conseguiu ser vendido".

Desta vez, a falta de sorte foi dos colecionadores e investidores; a combalida reputação de Hirst só foi - para alguns - restabelecida por sua megaexposição em Veneza neste ano.

Muitos profissionais do mundo da arte relutam em prestar declarações sobre os revertérios e fracassos do mercado leiloeiro: notícias incessantemente boas são obrigatórias em um universo dominado pela opinião e a reputação. Mas leilões não são a única alternativa possível: na Art Basel Miami Beach há poucas semanas, seu diretor mundial, Marc Spiegler, destacou que as feiras de arte (ou seja, as galerias que participam delas) dominam atualmente 41% das vendas de obras do pós-guerra e contemporâneas.

Embora reconheça que o modelo de negócios das galerias está assediado por dificuldades, Spiegler reivindica uma posição de superioridade para elas por seu cuidado com a arte e os artistas: "Acredito nas galerias, acredito no papel desempenhado pelas galerias frente aos artistas - são elas que assumem o primeiro enorme risco, antes das mostras dos museus e das bienais, e, ao assumir esse risco, elas possibilitam as coisas para os artistas", diz ele.

No sistema das galerias, tanto quanto nas casas leiloeiras, porém, comentaristas não pertencentes ao mundo da arte sugerem crimes mais misteriosos do lado mais obscuro da arte. Thomas Christ, membro do conselho de administração do Instituto de Governança da Basileia, instituição sem fins lucrativos de combate à corrupção financeira, descreveu o mercado de arte como "o campo ideal para lavagem de dinheiro" da parte de "contrabandistas, traficantes de drogas, negociantes de armas e assemelhados".

Enquanto os outros setores estão cada vez mais apertados pela regulamentação, os ativos de arte são portáteis, difíceis de rastrear, e têm valor internacionalmente reconhecido. São, de fato, ideais. Georgina volta a apontar para a opacidade das transações nesse mercado. "A lavagem de dinheiro é muito difícil de comprovar, e raramente chega a conhecimento público - é por isso que todo mundo cita os mesmos cinco ou seis casos."

Mesmo assim, a doutrina do mundo da arte tem muitos casos de - por exemplo - o uso da arte como garantia para obter empréstimos em dinheiro "limpo", ou para transações cambiais ou para várias formas de elisão fiscal. Essas são apenas algumas das muitas formas pelas quais o mercado trata as obras de arte meramente como commodities comercializáveis. As marcas registradas dos artistas acionam as metas de preços; para além disso, parece muitas vezes não haver absolutamente qualquer consideração estética.

Talvez a manifestação mais melancólica disso se revele na tendência da estocagem. Com a elevação dos preços e o crescimento do internacionalismo, o aparentemente desinteressante campo da estocagem de obras de arte se tornou muito significativo. Acredita-se, em amplos círculos, que nada menos que 80% das obras de arte mundiais estejam estocadas: uma estatística que certamente faria qualquer artista e qualquer amante da arte estremecer.

Atualmente as obras de arte são regulamente compradas e vendidas sem sequer sair de suas protegidas prateleiras: "zonas francas" criadas na Suíça e em outros países não apenas oferecem cuidados especializados de longo prazo de obras como também paraísos fiscais, e luxuosas instalações para visualizar e negociar obras "in loco", de forma anônima. A maioria das transações realizadas nas zonas francas são, sem dúvida, legais, mas o potencial para negociações ilícitas é evidente.

Para além de qualquer questão da lei, no entanto, ou mesmo da moralidade, a ideia dessas instalações - prisões de segurança máxima de luxo que confinam milhões de dólares em soberbas obras de arte, punidas por serem caras demais - é horripilante. É, certamente, uma consequência insana de forças de mercado insanas que obras cuja única finalidade é serem vistas e apreciadas sejam trancafiadas.

Numa sociedade na qual o valor de obras de arte se tornou simplesmente monetário algo deu muito errado. (Tradução de Rachel Warszawski)
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Matéria de Jan Dalley do Financial Times publicada originalmente no jornal “Valor Econômico”, em 05/01/18.

Redação da Fuvest aborda recentes polêmicas sobre os limites da arte

Os candidatos da segunda fase da Fuvest 2018, que iniciou no domingo (7/1), tiveram como tema da redação dissertativa sobre a a polêmica com a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, cancelada em setembro de 2017 após protestos conservadores e religiosos, onde precisaram escrever a partir da pergunta: "Devem existir limites para a arte?". Matéria publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 08/01/18. +

Os participantes da segunda fase da Fuvest 2018, que teve início neste domingo (7), tiveram que escrever uma redação sobre os supostos limites para arte. A proposta para o texto trazia reportagem da Folha sobre a polêmica com a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, cancelada em setembro de 2017 após protestos conservadores e religiosos.

A exposição Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, promovida pelo Santander Cultural na capital gaúcha, contava com 270 obras que tratavam de questões de gênero e sexualidade.

Os organizadores cancelaram a mostra um mês antes do previsto por causa de ataques, sobretudo na internet. Grupos acusavam as obras de apologia à pedofilia, profanação, entre outras coisas. Por outro lado, artistas e militantes se posicionaram contrários ao cancelamento, que configuraria cerceamento à liberdade artística.

Os candidatos que buscam uma vaga na USP (Universidade de São Paulo) precisaram escrever um texto a partir da pergunta: "Devem existir limites para a arte?". Além de reportagem sobre o cancelamento da exposição, a prova trazia a nota oficial do Santander Cultural sobre o cancelamento.

A proposta ainda mencionou a obra Bandeira Branca, do artista Nuno Ramos, que, em 2010, confinou três urubus no vão central da Bienal. Após protestos de coletivos que lutam pelo respeito aos animais, a Justiça chegou a determinar a retirada dos animais. Também houve a menção a outros textos sobre a mesma temática.

É uma novidade para a Fuvest a escolha de um tema polêmico e recente como proposta de redação, pelo menos levando em conta provas dos últimos 20 anos. Tem sido mais comum a abordagens de temáticas filosóficas, sem indicações diretas a fatos recentes.
O professor de português e literatura Claudio Caus, do Cursinho da Poli, diz que a proposta facilitou a vida de estudantes, pela repercussão, mas a polêmica pode guardar armadilhas. "Poderia trazer um excesso de confiança para quem já tem posições prontas ou quadradas", diz. "O seguro seria a busca de um caminho mais equilibrado."

Maria Aparecida Custódio, professora do laboratório de redação do Objetivo, lembra que seria um risco escrever só sobre a exposição. "A Fuvest convida o candidato a tecer reflexões universais, para conhecer o repertório dele."
A fundação que organiza o vestibular exige que a redação seja uma dissertação de caráter argumentativo. O candidato deve sustentar um ponto de vista sobre o tema.

Neste domingo, a Fuvest aplicou a a redação e também dez itens de português. "A parte de português, com questões mais críticas do que conteudistas, não pareceu tão difícil quanto a prova da primeira fase", diz Caus, do Cursinho da Poli.
Célio Tasinafo, coordenador pedagógico do cursinho Oficina do Estudante, elogiou a qualidade do bloco de português e a diversidade de tipos textuais. "Teve textos historiográfico, acadêmico, propaganda, teve um texto filosófico do Montaigne [1533-1592]. Isso tudo resulta em uma prova trabalhosa em alguns sentidos", diz. "Exige do aluno o domínio de vocabulário e da norma culta, além de uma capacidade significativa de redação em todas as questões. Não bastava saber, o aluno deveria organizar muito bem as ideias."
Na segunda-feira (8), serão 16 questões sobre as disciplinas comuns do ensino médio: história, geografia, matemática, física, química, biologia e inglês.

A última prova, na terça (9), trará 12 questões de duas ou três disciplinas relacionadas diretamente à carreira escolhida pelo vestibulando. Todas as provas da segunda fase são constituída por questões discursivas –ao contrário da primeira parte, que trazia itens de múltipla escolha.

Foram convocados para a segunda fase 19.690 candidatos, que disputam 8.402 vagas para a USP. Outros 2.100 participantes fazem a prova como treineiros, por ainda não terem concluído o ensino médio em 2017.
Do total de convocados, 1.689 não compareceram. O que representa um índice de abstenção de 7,75%.
Outras 2.745 vagas da USP serão preenchidas pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada), a partir da nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). No total, a universidade oferece 11.147 vagas em 2018.
As inscrições para o Sisu abrem em 29 de janeiro. O resultado da primeira chamada da Fuvest ocorrerá no dia 2 de fevereiro.

COTAS

A partir deste ano, passa a valer o sistema de cotas. Do total, 37% das vagas de cada unidade deverão ser preenchidas por alunos de escola pública, com percentual mínimo de alunos pretos, pardos e indígenas.
Os índices deverão ser alcançados por meio dos dois sistemas de ingresso (Fuvest e Sisu), embora este último já reserve na inscrição um número fixo de vagas. A quantidade de vagas para cotistas vai aumentar gradualmente até atingir, em 2021, 50% do total em cada curso e turno.

A universidade vinha sofrendo uma forte pressão de setores da sociedade para aumentar a inclusão entre os alunos, sobretudo depois da aprovação da Lei de Cotas para as instituições federais de ensino superior.

Enquanto mais de 80% dos alunos de ensino médio estão em escolas públicas em São Paulo, a USP registrou no último ano 37% de ingressantes da rede. Esse índice não se repete em cursos tradicionais e concorridos, como medicina e engenharia.
A implementação de cotas foi definida em meados de 2017 e, segundo a reitoria, a adoção progressiva até 2021 foi necessária para que haja disponibilidade de recursos de permanência estudantil. A expectativa é que, com alunos oriundos de escolas públicas, aumente a demanda por bolsas como a de moradia e alimentação.

Desde 2014 a USP enfrenta uma crise financeira. A folha de pagamento tem comprometido praticamente a totalidade dos repasses recebido pelo governo do Estado. Dos R$ 4,6 bilhões recebidos pela estadual neste ano, 96,4% foram gastos com salários.
Ao longo da gestão do reitor Marco Antonio Zago, que se encerra neste mês, foram realizados planos de demissão voluntárias e contratações foram congeladas. O vice de Zago, professor Vahan Agopyan, assume a reitoria a partir deste mês, após vencer eleição interna e ser nomeado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).
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Matéria publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 08/01/18.

Mural de Eduardo Kobra é apagado na Rua Oscar Freire

A pintura"Genial é andar de bike" foi apagada no fim de semana (06 e 07/01) na rua Oscar Freire, em São Paulo. O mural retratava o físico alemão Albert Einstein andando de bicicleta e se tornou um movimentado ponto de fotos e "selfies" na rua. O artista diz ter ficado sabendo pelas redes sociais que sua pintura, realizada em 2015, foi apagada. O espaço de 14 metros de altura por 5,5 metros de largura pertence à loja Schutz, e segundo o comunicado da Arezzo, proprietária da marca, a área será ocupada por um projeto do coletivo SHN. Matéria de Nelson Gobbi publicada no jornal “O Globo”, em 07/01/18. +

Um dos murais mais conhecidos de Eduardo Kobra, "Genial é andar de bike", na rua Oscar Freire, em São Paulo, foi apagado neste fim de semana, causando uma comoção nas redes sociais e entre os transeuntes que presenciaram a equipe de pintura trabalhando no local. O muralista, que tem mais 100 obras de grandes dimensões espalhados pelo mundo e que é reconhecido pelo "Guiness world records" como o autor do maior grafite do mundo ("Etnias", na Praça Mauá), diz ter ficado sabendo pelas redes sociais que sua pintura, realizada em 2015, foi apagada.

O mural retratava o físico alemão Albert Einstein andando de bicicleta e se tornou um movimentado ponto de fotos e "selfies" na rua. O espaço de 14 metros de altura por 5,5 metros de largura pertence à loja Schutz, que dedica a sua fachada à arte de rua. Segundo o comunicado da Arezzo, proprietária da marca, a área será ocupada por um projeto do coletivo SHN.

— Estava no interior de São Paulo e soube que o grafite foi apagado quando foi marcado em dezenas de publicações no Instagram e no Facebook. Foi uma decisão da marca que eu não questiono, sou grato por terem cedido o espaço e terem custeado o material do mural. Só acho que tudo poderia ter sido feito de outra forma, gostaria de ter sido informado antes, era um mural pelo qual eu tinha muito carinho — lamenta Kobra.

Para o artista, que trabalha frequentemente com a questão da memória em suas obras, o fato de a obra ter criado uma identificação com a cidade pode explicar o número de postagens lamentando o apagamento do mural.

— A ligação das pessoas com esta obra era dessas coisas inexplicáveis da arte, não imaginava que teria essa repercussão. Eu entendo o caráter efêmero da arte de rua, devo ter perdido 90% dos trabalhos que fiz, sou bem desapegado em relação a isso. Mas considerava essa obra um presente à cidade de São Paulo. É só pensar em como as obras remanescentes do Keith Haring são preservadas em Nova York ou como a população de Londres tenta manter a todo custo os grafites do Banksy. Acho que cabe uma reflexão sobre isso — comenta Kobra.

Leia a nota da Arezzo na íntegra:

"O espaço de 5,5m x 14m de altura, que compõe a fachada da loja Schutz, à rua Oscar Freire, em SP, dedica-se a propagar a arte de rua. Tem como propósito apresentar novos artistas temporariamente com diferentes atuações em street art. Em 2015 o artista Kobra estreou com sua arte engrandecendo o projeto, agora o muro recebe a obra do coletivo de arte SHN, formado por Eduardo Saretta, Haroldo Paranhos e Marcelo Fazolin. A nova obra tem previsão para ser concluída amanhã (segunda-feira)".
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Matéria de Nelson Gobbi publicada no jornal “O Globo”, em 07/01/18.

Pinacoteca dedica 2018 às mulheres do Brasil e do mundo

A Pinacoteca se dedicará às mulheres este ano, com duas grandes exposições estrangeiras, além de três individuais de artistas que, apesar de brasileiras, não têm tanto destaque nacional. Inaugurando a programação em março, exposição da sueca Hilma Af Klint (1862-1944), a mãe do abstracionismo; em agosto a mostra retrospectiva Radical Women: Latin America Art (1960-1985), com obras da brasileira Lygia Clark. Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 01/01/18. +

Sob os olhos do alemão Jochen Volz, a Pinacoteca se dedicará às mulheres em 2018: serão duas grandes exposições estrangeiras, além de três individuais de artistas que, apesar de brasileiras, não têm tanto destaque nacional.

"Há uma preocupação de como corrigir a história da arte e vê-la com um pouco mais de cuidado", explica o diretor-geral do museu.

Mãe do abstracionismo, Hilma Af Klint (1862-1944) inaugura a programação feminina em março. Antes de Kandinsky -considerado por muitos como o pioneiro da arte abstrata-, a sueca já pintava, escondida, telas de três metros de altura por dois de largura no estilo.

Morta em 1944, Klint deixou no testamento um pedido curioso à sua família: que suas obras não fossem expostas por mais 20 anos. "Ela tinha uma visão de que, talvez, seus trabalhos ganhassem relevância só em uma geração futura", explica Volz.

Ele avalia que a artista teve um instinto de autoproteção e "optou por não mostrar para ninguém intervir".
Também vem do exterior a segunda grande mostra. Em agosto, a Pinacoteca recebe a "Radical Women: Latin American Art (1960-1985)".


Organizada pelo Hammer Museum de Los Angeles (Estados Unidos), a exposição dá voz a artistas latino-americanas pouco conhecidas. A pesquisa, feita por Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta, durou aproximadamente sete anos.

A mostra abriga trabalhos de 20 artistas brasileiras, como Lygia Clark (1920-1988) e Letícia Parente (1930-1991). Para o diretor, será uma ótima oportunidade para o público geral descobrir importantes artistas latinas que não costumam aparecer.

São obras feitas em um período no qual os artistas enfrentavam a ditadura militar em seus respectivos países, entre as décadas de 1960 e 1980. Até por isso, Volz acrescenta que é importante "não só olhar pela arte brasileira, argentina ou chilena, mas tentar mapear o continente inteiro".

Mas nem só de mulheres será o ano da Pinacoteca, artistas como Tunga, José Damasceno e José Antônio da Silva também estarão presentes no ano do museu.

Além deles, já no final do ano, Laércio Redondo trará certa inovação à Pinacoteca com uma coleção permanente em que mecanismos com cheiros serão colocados em espaços estratégicos do museu de acordo com uma pesquisa a ser realizada por ele sobre o acervo.

ONDAS RADICAIS

O segundo semestre de 2017, nas artes plásticas, foi marcado por polêmicas de grupos conservadores que se voltaram contra exposições de teor sexual, o que ocasionou, por exemplo, no cancelamento da "Queermuseu", em Porto Alegre.

Entretanto, o diretor-geral da Pinacoteca diz que manifestações como estas são "ondas radicais que vêm e vão". Essa onda, para ele, requer um momento de união entre as instituições, para aprendizado e troca de informações.
Fazendo um balanço de 2017 -ano em que o museu teve orçamento de R$ 30,8 milhões-, Volz destaca duas montagens. A primeira foi dedicada a Di Cavalcanti e "mostrou uma exposição rica e incrível que trouxe para muitos um outro olhar para o trabalho do artista".

A segunda foi a coletiva "Antologias", com 250 fotografias de 60 artistas. "Sem cronologia, foi possível pensar no acervo como registro e documentação."
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O ANO DELAS
Cinco trabalhos femininos em destaque

MARÇO
> Hilma Af Klint: Mundos Possíves

ABRIL
> Instalação de Ana Luiza D. Batista será exposta no segundo andar

JULHO
> Site specific de Laura Lima ocupará o Octógono

AGOSTO
> Radical Women: Latin America Art (1960-1985), com obras da brasileira Lygia Clark
> Retrospectiva da brasileira Valeska Soares, na Pina Estação

DEZEMBRO
> Primeira mostra institucional de Rosana Paulino na Pinacoteca.
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 01/01/18.

Calendário de arte 2018: quais as feiras e bienais de destaque do ano?

Programação de feiras e bienais de arte pelo mundo em 2018. Matéria publicada originalmente no site do TouchArte (www.touchofclass.com.br), em 02/01/18. +

A cada ano, as grandes feiras internacionais de arte impulsionam o mercado, atraindo milhares de visitantes, colecionadores e aficionados em geral. Para não perder os principais eventos de 2018, preparamos um calendário para você já começar a sua programação.

Feiras de Arte

Brasil
- SP-Arte/2018 – 12 a 15 de abril

Américas
- ZONAMACO: México Arte Contemporáneo, na Cidade do México (México) – 7 a 11 de fevereiro
- Armory Show – 8 a 11 de março
- Frieze Art Fair | Nova York – de 3 a 6 de maio
- TEFAF New York Spring – 4 a 8 de maio
- ArteBA – 24 a 27 de maio
- TEFAF New York Fall – 27 a 31 de outubro
- Art Basel | Miami Beach – 6 a 9 de dezembro

Europa
- Arco Madrid: Feria Internacional de Arte Contemporáneo em Madri (Espanha) – 21 a 25 de fevereiro
- TEFAF Maastricht – 9 a 18 de março
- Art Basel – 14 a 17 de junho
- Frieze Art Fair | London – 4 a 7 de outubro
- Frieze Masters – 4 a 7 de outubro
- FIAC – 18 a 21 de outubro

Ásia
- Art Dubai – 21 a 24 de março
- Art Basel | Hong Kong – 29 a 31 de março

Bienais e outras exposições

4ª New Museum Triennial (Nova York, EUA)
13 de fevereiro a 27 de maio

21ª Bienal de Sydney (Sydney, Austrália)
16 de março a 18 de junho

11ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, Brasil)
6 de abril a 3 de junho

13ª Bienal de Dakar (Dakar, Senegal)
3 de maio a 2 de junho

10ª Bienal de Berlim (Berlim, Alemanha)
9 de junho a 9 de setembro

Manifesta 12 (Palermo, Itália)
16 de junho a 4 de novembro

10ª Bienal de Liverpool (Liverpool, Inglaterra)
14 de julho a 28 de outubro

12ª Bienal de Gwangju (Coreia)
7 de setembro a 11 de novembro

33ª Bienal de São Paulo (SP, Brasil)
7 de setembro a 9 de dezembro

12ª Bienal de Shanghai (China)
10 de novembro a 10 de março de 2019

11ª Bienal de Taipei
17 de novembro a 10 de março de 2019.
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Matéria publicada originalmente no site do TouchArte (www.touchofclass.com.br), em 02/01/18.

Gestos e rostos no Congresso Nacional em obra da artista Sofia Borges

Na exposição “Corpo a Corpo: a disputa das imagens”, em cartaz no IMS Paulista, a artista Sofia Borges apresenta duas séries fotográficas feitas no Congresso Nacional, em Brasília, com imagens fragmentadas, arrancadas da cenografia parlamentar e diluídas em uma multiplicidade de gestos, no momento preciso em que o Senado escolhia um novo presidente. Texto de Sofia Borges e Jacques Leenhardt publicado originalmente no site da revista Zum, em 13/12/17. +

A máscara, o gesto, o papel, da artista Sofia Borges, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo em cartaz no IMS Paulista, constitui-se de duas séries de imagens feitas no Congresso Nacional, em Brasília. Realizada em fevereiro de 2017, a obra surge em um Brasil agitado pelas tensões políticas que o atravessam desde a destituição da Presidenta Dilma Roussef. O clima deletério é apenas um dos aspectos da crise institucional extremamente profunda, da qual as investigações e delações da Operação Lava Jato oferecem um testemunho infinitamente repetido. No turbilhão desses dois dramas da vida democrática brasileira, o Congresso tornou-se foco de uma atenção inquieta. É sob esse clima de suspeita generalizada que Sofia Borges realiza seu trabalho na capital federal, no momento preciso em que o Senado escolhia um novo presidente.

A artista se posicionou no alto, longe da cena, nas tribunas reservadas aos jornalistas, cujo dispositivo arquitetônico do edifício os mantém distante do lugar dos debates. A presença desses representantes do público na sede do parlamento é, em qualquer lugar, um dos símbolos da ordem democrática. No entanto, a barreira arquitetônica faz com que o olho vigilante do povo se encontre a uma distância de onde só se pode ter uma visão global do que se trama nesse lugar emblemático do poder. A percepção que o espectador tem do jogo político revela-se, portanto, incompleta, quase abstrata.

É a partir dessa realidade que Sofia Borges constrói sua instalação, em que os atos da decisão política se encontram reduzidos a uma série de imagens fragmentadas, arrancadas da cenografia parlamentar pela teleobjetiva. A solenidade da ação política fica assim diluída em uma multiplicidade de gestos que representam somente o que há de mais banal no cotidiano dos profissionais da coisa política. A potência da dramaturgia democrática se perde.

A dupla escolha feita por Sofia Borges, de se posicionar a uma grande distância do evento e de dele se aproximar por meio da teleobjetiva, produz, assim, um efeito crítico potente com relação ao funcionamento da instituição. Esse aspecto técnico não tem nada de anódino. O recurso de ampliação ótica, teoricamente destinado a tornar a cena política mais próxima, reforça o sentimento de que o debate democrático tem lugar em um universo outro, em um mundo de regras próprias, que fogem à compreensão do cidadão. Nas fotografias, o grão da imagem dá prova disso. Ele é a marca de um esforço de aproximação que paradoxalmente torna perceptível de imediato a distância que afasta o cidadão.

Um dispositivo no espaço

O trabalho de Sofia Borges se distancia do que seria uma reportagem sobre aquilo que ela assistiu no Senado. Ao contrário, trata-se de uma exposição, em todos os sentidos da palavra. O mundo político, seus gestos e seus rostos são aqui expostos, submetidos a nossos olhares. De maneira geral, a exposição enquanto dispositivo de conhecimento é perfeitamente caracterizada pela vitrine tal como a conhecemos nos museus ou nas lojas. A vitrine dá a ver os documentos ou os objetos a um espectador que deles está apartado por um vidro. Aqui, é a lente fotográfica que funciona como vidro separador. Há também a maneira como as imagens são apresentadas no espaço. As fotografias de Sofia Borges não estão dispostas nas paredes como seria de praxe em uma exposição de fotografias. Elas flutuam no espaço, de modo que o espectador se encontra envolto em um ambiente de imagens. Assim se cria uma promiscuidade inabitual com as figuras da política que ele reconhece sem havê-las conhecido.

Sofia Borges reúne, em duplas dispostas na frente e no verso de caixas suspensas, imagens de rostos e imagens de mãos. Trata-se de dois registros icônicos do universo político, em que se articulam gesto e palavra, seu fundamento. Tal estrutura de dupla face, bastante incomum, reforça por sua vez a ambivalência do que ela expõe. Além disso, presas ao teto por um jogo de cordas e polias, essas imagens transformam os sujeitos políticos que elas mostram em marionetes aparentemente animadas por um misterioso manipulador escondido. Suspensas por seus fios, elas formam um desfile de imagens de festa forense, violentamente presentes e ao mesmo tempo irreais.

Através desse jogo complexo de distância e de proximidade, A máscara, o gesto, o papel chama atenção para o abismo que separa os gestos graves da democracia – o debate e o voto de que o Senado e a Câmara dos Deputados são guardiões – e o mundo da troca de favores e da conivência, no espetáculo ambíguo que as fotografias evocam. A artista insiste nesse hiato, nessa discordância entre a solenidade do lugar e a banalidade das coisas que o olhar envolve.

Bocas sem rosto

As fotografias de rostos realizadas por Sofia Borges reproduzem quadros que o pintor Urbano Villela dedicou aos diferentes presidentes do Senado. Ela os fotografou no Museu Histórico, em que essas pinturas “imortalizam” – a palavra talvez soe exagerada para políticos que em geral são rapidamente esquecidos – os ex-presidentes do Senado. É preciso lembrar que tais galerias de retratos políticos constituem frequentemente um objeto polêmico. A obra de Sofia Borges não escapa a esse contexto. Para a artista, trata-se de trabalhar essas imagens políticas com os meios da arte, de conferir-lhes uma significação ao deslocá-las de seu contexto original.

Assim, Sofia Borges selecionou alguns desses retratos pintados e arrancou-lhes da aura tradicional, própria ao mediumpictural. Ela então impôs a esses rostos um enquadramento tão fechado que seus olhos foram eliminados, concentrando-se apenas em suas bocas. Privados dos olhos que confeririam alguma humanidade a tais caras, os órgãos da palavra tornam-se mudos. Atrás de seus sorrisos congelados, a linguagem permanece retida por trás de lábios cerrados ou de dentes rígidos como grades de uma prisão. Toda palavra está presa e o voo da volúpia típica das tribunas já não é ouvido, tampouco a eloquência do famoso Demóstenes. Tal é o paradoxo que produzem essas imagens: o órgão da palavra através do qual a democracia se constrói está mudo. A palavra e seu poder de convicção estão ausentes dessas fotografias. Rostos parcialmente ocultos aparecem como meias verdades e seus lábios cerrados sinalizam um adormecimento da palavra pública.

Mãos

No verso dessas bocas silenciosas, a artista apresenta uma sequência de closes-up de mãos que se saúdam, se cumprimentam, trocam coisas. Simbolizam todo o comércio de que o Congresso é a um só tempo o teatro, aberto aos olhos de todos, e a coxia, secreta e enigmática. As mãos oferecem um tipo de semiótica da conivência, o deciframento de uma linguagem codificada a que Sofia Borges confere lugar central. Tudo se passa nesse templo do poder, como se a política se resumisse a esses intercâmbios mudos, de proximidade calorosa e tátil que liga parceiros em acordos tácitos. Longe de serem expressão de um corpo humano identificado, essas mãos aparecem apenas como órgãos de uma linguagem gestual, de uma ciência dos signos reservada aos iniciados. Olhem para aqueles que saem da obscuridade e se aproximam: Quais contratos estão selando? Quem sustenta quem? Esses abraços trocados na fricção de tecidos preciosos solidarizam os corpos e constrangem os espíritos.

Essas mãos, sobre as quais recai a luz da fotógrafa, também falam do pertencimento social de um regimento político que embranquece sob as cúpulas do Congresso. Poucas mulheres aparecem, como se nos encontrássemos em um velho club londrino, cercados de velhacos em matéria de eleição. Como nos romances de Balzac, a prega impecável de um terno e a seda da gravata se constituem uma verdadeira carteira de identidade para seus proprietários. Esses detalhes das vestimentas dizem muito sobre o fechamento de uma pequena casta sobre seus rituais e privilégios.

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

O lugar do poder?

Colocando em cena a “representação nacional” em sua arte tão peculiar de fazer gestos e emitir palavras mudas no Congresso de Brasília, o dispositivo de dupla face escolhido pela artista fala da ambivalência das significações. Como uma gangrena, ela corrói as imagens e as palavras, tornando problemática qualquer tentativa de falar verdadeiramente daquilo que é representado.

As teorias sobre a fotografia são claras nesse aspecto: toda fotografia, em sua mais forte presença, na evidência de seu hic et nunc (aqui e agora), fala da ausência do que ela mostra. O povo e sua vontade que, teoricamente, deveriam ali estar representados, nem está presente, nem é representado no espaço sagrado do parlamento onde as imagens foram tomadas. Elas falam da democracia, mas sob o ângulo de sua presença/ausência.

Afinal, o que se vê nessas fotografias? Primeira evidência: não se vê nem a Câmara dos Deputados, nem o Senado. Nem mesmo os homens políticos. Apenas signos que simbolizam seu mundo: signos do poder.

As fotografias de Sofia Borges, ao produzirem uma variação da escala a que a televisão nos habitou a ver o mundo político, ao conferirem, pelo zoom e pelo detalhe ampliado, uma presença mais forte, pervertem os códigos da representação política. Ao despertar o olhar do espectador para a qualidade de um tecido, para o segredo indecifrável de uma anotação manuscrita ou para a pilosidade de uma mão, Sofia Borges convida o espectador a multiplicar as interpretações transgressivas de um espetáculo tradicionalmente recebido com indiferença. Suas ampliações hiperbólicas reduzem toda figura sagrada ao profano. Os signos se tornam obscenos. Propulsados para o proscênio, eles se transformam em sintomas e, em seguida, em estigmas. É assim que a câmara fotográfica, considerada objetiva, incapaz por natureza de mostrar algo diferente daquilo que de fato posou diante de seu olho de vidro, torna-se uma máquina crítica, próxima do lápis do caricaturista.

Como a imagem passa de representação fotográfica anódina à potência caricatural, sem que nada seja acrescentado? É exatamente isso que distingue o olhar cotidiano da obra de arte. É com esse o trabalho da forma que Sofia Borges conquista o estatuto de mestre.

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Sofia Borges (1984) expôs seus trabalhos no Museu Coleção Berardo, de Lisboa (2013), Foam, Amsterdã (2016), 30ª Bienal de São Paulo (2012), entre outros. Em 2016 lançou o livro The Swamp [O pântano], vencedor do First Book Award da editora inglesa Mack.

Jacques Leenhardt (1942) é filósofo e sociólogo suíço, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), em Paris, e presidente de honra da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Foi membro do conselho curatorial da Fundação Iberê Camargo entre 2010 e 2014.
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Texto de Sofia Borges e Jacques Leenhardt publicado originalmente no site da revista Zum, em 13/12/17.

Lisette Lagnado se desliga da EAV do Parque Lage

"A falta de repasses do estado e o desmantelamento da equipe original vem comprometendo a qualidade do meu trabalho, o que me impede de permanecer na estrutura atual", escreveu a curadora em sua carta de desligamento. +

Caros professores, funcionários e amigos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage,

Comunico meu desligamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Cheguei no início de 2014, a convite de Marcio Botner, Presidente da organização social Oca Lage, então responsável de dois equipamentos de prestígio na cidade, a Casa França-Brasil e a EAV Parque Lage, para atuar como sua vice-presidenta.

Em agosto de 2014, com a saída da diretora da Escola, assumi o cargo, ainda na gestão da Oca Lage, iniciando um novo programa de ensino e exposições.

Quando o estado rompeu com a OS, a então Secretária de Cultura Eva Doris Rosental me pediu para permanecer no cargo.

Em fevereiro deste ano, Eva Doris foi exonerada e o novo Secretário de Cultura nomeou o economista e colecionador Fabio Szwarcwald para meu lugar. Assumi então a função de Curadora de Ensino e Programas Públicos.

Domingo passado, das 11h às 23h, foi aberta a mostra-happening "Escola em Transe", em comemoração aos cinquenta anos do filme Terra em Transe de Glauber Rocha.

O Palacete e os jardins do Parque Lage receberam cerca de 6 mil pessoas, que podiam conferir tanto a mostra final dos alunos nas Cavalariças, com obras selecionadas de professores e ex-estudantes na Capelinha e Galerias 1 e 2, vitrines de documentação, performances, projeções de videoarte, sem contar a III Mostra de Impressos, a II Varanda Sonora e ateliês gratuitos do parquinho lage (núcleo recém-lançado para crianças).

Resultado de um esforço colossal de uma equipe reduzida, das áreas de ensino e produção, além de nossa Biblioteca | Centro de Documentação e Pesquisa, a exposição foi montada em tempo recorde. Graças a nossa determinação coletiva, foi possível apresentar mais de 300 trabalhos de cerca de 200 participantes em menos de 24 horas.

No entanto, foi aberta ainda incompleta, sem a lista de participantes nem fichas técnicas. Cabe informar que parte do atraso se deveu também à chegada tardia de trabalhos após a data prevista, ocorrendo inclusive na própria abertura.

Felizmente, alguns professores estiveram comigo no sábado e dúvidas foram esclarecidas por celular e fotografias com os demais. Puderam testemunhar a quantidade de trabalhos que precisavam subir para paredes monumentais, exigindo uma lógica interna para uma devida valorização.

Fiquei emocionada de ver como os funcionários do ensino e produção se desdobraram para garantir a cada integrante uma visibilidade digna.

É do conhecimento de todos que parte de minha equipe segue trabalhando sem remuneração regular, em condições adversas, pronta a atender solicitações das mais variadas que chegam da Secretaria de Cultura, da Direção e do corpo de professores e alunos. É isso que chamamos de "resistência": manter viva, alegre e atuante uma instituição de ensino a despeito da falta de financiamentos para nossos projetos pedagógico-culturais.

Ressalto que nada disso teria sido possível não fosse a colaboração de Rosa Melo (já exonerada), que se colocou à disposição de forma solidária e veio reforçar a montagem no sábado para podermos honrar a responsabilidade de entregar a exposição prometida.

Hoje, foi feito o levantamento dos ajustes necessários e levado para a Direção, que está ciente dos próximos passos.

Gostaria que cada professor transmitisse a suas respectivas turmas o que representou essa montagem em termos de complexidade e coragem no momento político que estamos vivendo. A EAV não é museu, nem galeria. É uma escola de arte!

Nos últimos meses, graças à mobilização de artistas consagrados, a Escola participou da Artrio e vendeu a tiragem inteira de múltiplos e arrecadou fundos necessários para garantir um programa de ensino público para 2018. O jantar beneficente também foi um sucesso.

No entanto, como se viu acima, a falta de repasses do estado e o desmantelamento da equipe original vem comprometendo a qualidade do meu trabalho, o que me impede de permanecer na estrutura atual.

Ciclos se fecham para que outros iniciem. Devo dizer que foram anos fundamentais para minha vida profissional e afetiva.

Deixo-lhes um forte abraço e meus melhores votos para seguirmos "firmes e atentos" para os novos movimentos de 2018!

Lisette Lagnado

Qi Baishi tornou-se o primeiro artista chinês a quebrar a marca de US $ 100 mi

A venda estabelece um novo recorde para uma obra de arte chinesa. O pintor Qi Baishi (1864-1957) tornou-se o primeiro artista chinês a se juntar ao clube dos US $ 100 milhões. Matéria de Eileen Kinsella publicada no site do artnet News (artnet.com) em 19/12/17. +

Um conjunto de painéis de Qi, “Twelve Landscape Screens” (1925), foi vendido por US $ 140,8 milhões (931,5 milhões de yuans) no domingo em Poly Beijing. É o preço mais alto já pago por uma obra de arte chinesa em leilão.
Apenas 15 outros trabalhos - por artistas como Andy Warhol, Pablo Picasso e Vincent van Gogh – foram vendidos em leilão por mais de US $ 100 milhões (contabilizando a inflação), embora alguns outros tenham sido vendidos em vendas particulares.

Poly Beijing não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários. A identidade do comprador também não foi divulgada.

A licitação foi "frenética" e realizada inteiramente nos telefones, conta Leon Wender, especialista em arte chinesa e co-fundadora da China 2000 Fine Art de Nova York, que participou da venda.

O artista - mais conhecido por sua caligrafia e a brush painting - criou o trabalho em 1925, quando tinha 62 anos, de acordo com uma descrição no site da Poly. "Pode ser considerado o estilo mais expressivo das transformações estilísticas de Qi Baishi, mas também é a maior dimensão do formato das 12 telas de paisagem", diz a casa de leilões.

O único outro exemplo do conjunto foi produzido em 1932 para o comandante militar de Sichuan Wang Zuanxu e atualmente está no Museu das Três Gargantas em Chongqing.

Wender diz que não ficou surpreso com o preço, informando a Artnet News por email que o artista é "o mais influente de todos os artistas chineses no século 20." (Outro fato interessante: Qi é particularmente conhecido por sua habilidade em pintar camarão).

O artista nasceu de uma família pobre em 1864 e trabalhou como carpinteiro antes de começar a viajar por toda a China aos 40 anos. Ele foi "altamente procurado por ambas as suas enormes contribuições para a pintura chinesa e a caligrafia, bem como uma excelente técnica de escultura de selo" diz Wender. “O conjunto de 12 obras tem proveniência revestida de ferro" e "condição surpreendente", acrescentou.

O artista já saiu nas manchetes em 2011, quando um tríptico, “Eagles on Pine Tree” (1946), obteve um preço final de US $ 65 milhões na casa de leilões da China Guardian em Pequim. No entanto, o trabalho foi vítima de problema generalizado da China com falta de pagamento - o comprador que ganhou o trabalho nunca pagou por isso. (Como resultado, o trabalho não aparece mais na base de dados de preços da artnet).

Antes do domingo, o recorde Qi em leilão era de US $ 28 milhões (195,5 milhões de yuans), definido em dezembro de 2016 na Poly International.

O leilão anterior para uma pintura chinesa foi de US $ 63,9 milhões pago em 2010 na Poly International para Di Zhu Ming, uma pintura de caligrafia de Huang Tingjian, de acordo com a base de dados de preços da artnet.
Na verdade, como com muitas vendas na China, pode ser aconselhável esperar até que o cheque esteja no correio antes de abraçar o recorde como um sinal de uma nova era no mercado. As incidências de não pagamento para a arte chinesa subiram sete por cento em 2016, de acordo com um estudo da artnet e da Associação de Leiloeiros da China. Apenas 51% dos compradores pagaram o trabalho que compraram em 2016, contra 58% em 2015.

Wender insiste que as coisas estão melhorando, dizendo a artnet News que a questão do não pagamento está "muito mais sob controle". Os depósitos necessários para oferecer, informações bancárias detalhadas, juntamente com uma base de clientes conhecida muito mais estabelecida, tornam o processo de compra muito mais confiável ".

Guardian observa que obras de arte chinesas são compradas e vendidas na maior parte do país, e a pintura chinesa e a caligrafia "representaram mais de 80% do mercado nacional de arte no ano passado".
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Matéria de Eileen Kinsella publicada no site do artnet News (artnet.com) em 19/12/17.

‘Velhice é o começo da despedida", diz diretor do museu Afro Brasil

Aos 77 anos, o baiano Emanoel Araujo passou por essas atividades e traçou uma trajetória de dedicação à memória da cultura afro-brasileira. Entrevista de Gustavo Fioratti publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 19/12/17. +

Artista, curador, colecionador e museólogo. Aos 77 anos, o baiano Emanoel Araujo passou por essas atividades e traçou uma trajetória de dedicação à memória da cultura afro-brasileira.

Ele foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo (entre 1992 e 2002) e fundou o museu Afro Brasil, que dirige desde 2004.
Nesta entrevista, fala sobre envelhecer em um país que considera "diabolicamente perverso", sobretudo por causa da percepção de que a escravidão resiste, 130 anos após a abolição da escravatura.

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Folha - O sr. era amigo da artista Tomie Ohtake, que morreu aos 101 anos. Vocês conversaram sobre velhice e morte?

Emanoel Araujo - Ninguém conversa sobre esse assunto. Há um tabu ocidental com a morte e a velhice. A velhice é um momento complicado. É um começo de despedida. Na velhice, a morte é um fato inexorável. Não há saída. A gente tem que driblar. Somos dribladores da velhice.

O sr. é um colecionador de obras afro-brasileiras. Como é a sensação de ver a coleção ganhar volume conforme você envelhece? É também um acúmulo de lembranças?

Até os 40 não. O colecionismo começa com amigos. Trocas com amigos. É uma ligação mais afetiva. Minha coleção é voltada para o resgate da cultura afro-brasileira. Terminou sendo uma ação constante, sobretudo em um país que não cuida da memória. Gosto de ter coisas que me seduzem. São uma companhia. Você não está só.

O que se perde na velhice?

Sobretudo muitos amigos. Essa é a coisa mais doída. Quando você abre sua agenda e percebe o quanto as pessoas partiram. É cruel.

E o que se ganha em troca?

O que você fez, o que você construiu. Aí aparecem as coisas, os convites, as homenagens, as medalhas, os títulos. Vem de um reconhecimento do seu trabalho.

É mais fácil aprofundar amizades quando jovem ou velho?

Jovem, absolutamente. Para o velho é impossível. A gente não tem mais energia e, sobretudo, tempo. Tempo passado e tempo presente não estão mais ambos presentes no tempo futuro. É difícil porque você passa a ser visto pelo que conquistou.
Ontem estava abrindo o carro no supermercado, passou um rapaz negro, queria pegar na minha mão. Tão engraçado. Minha reação foi achar que ele estava querendo ajudar um velho (ri). No entanto, ele queria ajudar uma pessoa que respeitava. Eu disse "não preciso". Ele respondeu, "tem gente para quem a gente precisa dar a mão por reconhecimento".

Conforme a idade avança, fatos históricos, incluindo a escravidão, parecem mais próximos ou mais distantes?

A escravidão pensada hoje é mais perversa do que quando eu tinha 40 anos. O que é estranho é que a questão com a escravidão se tornou mais próxima. Mais urgente e mais terrível. Quando você imagina que todas as coisas que se passaram há mais de 130 anos, que tudo recrudesceu, e que você tem bancadas querendo a volta da escravidão... Trabalho é sinônimo de escravidão no Brasil, um país de castas.

Entre brancos e negros?

E entre instituições e sociedade. É diferente nos Estados Unidos. O trabalho aqui não é remunerado. Você pode detectar isso nas favelas. É um surto pensar em uma favela que tenha milhares de pessoas, como a Rocinha. E que o tráfico tenha chegado de maneira tão terrível. O trabalho mal remunerado de um país escravocrata produziu favelas, a desigualdade, o racismo.

Isso contraria uma expectativa? Quando você era jovem, naturalmente, esperava que o percurso era melhorar?

Ouvia essa história desde que tinha cinco anos, de que éramos o país do futuro. De certa forma, trazia comigo essa esperança. O ensino era bom.
Com o tempo isso foi se deteriorando, com ditaduras, maus políticos. E o povo foi alijado. Cidadania é algo a ser conquistado. Não existe cidadania dada. Mas cidadão como, se você ganha R$ 900 por mês? O Brasil, deste ponto de vista, é diabolicamente perverso. Ainda hoje há um jornalista da Globo dizendo "isso é coisa de negro". Se você andar por São Paulo, vai ver muita gente abandonada, todos negros, todos loucos da loucura que é a
sociedade brasileira.

Quais eram as expectativas pessoais quando jovem? Elas se concretizaram?

O que queria era conseguir esse lugar que sabia que meus outros irmãos não conseguiriam. Trabalhei noite e dia para conquistar. Houve esse ponto de vista: ser uma pessoa diferente do que estava destinado a eles. Meninas se formaram, rapazes criaram complicações. O que conquistei foi poder me expressar como cidadão em um país que não nos dá cidadania.

Qual o significado da morte dos pais na vida de um homem?

É muito doloroso. Essa história de ficar órfão, que parece uma fantasia, é uma sensação de desamparo. Mais para uma pessoa como eu, que não pertence à terra onde mora.

O sr. vive com alguém?

Com meu cachorro.

É comum a ideia de ter família ou uma companhia. Como é envelhecer sem um parceiro?
Tive um relacionamento com uma pessoa que me abriu os olhos para a questão da sexualidade. Um antropólogo. Vivi com ele por anos, e quando vim para São Paulo, ainda tive outro relacionamento, mas depois eu disse "não".

Com quantos anos?

Depois dos 50 tive um ponto de vista de ressalva aos relacionamentos. Tive uma juventude, aos 30, 40 anos, naquela coisa, boate gay, noite. Mas não procurei uma cara-metade. Não comprei a ideia. Tive certa neutralidade com a questão sexual.

Como assim?

De certa forma, amoleci meus ímpetos. Um pouco porque estava imbuído com meu trabalho. Hoje sinto que poderia ter sido diferente. Mas não foi. E, evidentemente, essas coisas fazem falta.

Sente falta de companhia?

Sinto. Mas não procuro tampouco. Gosto de ser só. Talvez esteja sublimando a questão da solidão, mas acho que todo ser humano é solitário. E sou ciumento. É doentio. Talvez eu até tenha evitado tudo isso por causa do sofrimento de ser ciumento. Uma pessoa ciumenta como eu tem mais é que ficar só (risos).

O sr. se senta no banco reservado para o idoso no metrô?

Não tenho atestado de velhice. Entre pessoas normais, isso é bom. Mas você não está falando com uma. Tenho amigo que faz 60 e assume a velhice.
Tem carteira e todas as prerrogativas do velho. E tem só 60 anos (risos). Acho o fim do mundo (risos).
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Entrevista de Gustavo Fioratti publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 19/12/17.

Após ano febril, reviravoltas no mundo das artes plásticas são esperadas em 2018

Foi um ano febril este que chega ao fim. O mundo da arte ensaiou uma série de leituras poderosas de um mundo em convulsão, mas acabou refém de manobras de grupos políticos conservadores no Brasil e no resto do planeta. Matéria de Silas Martí, publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/12/17. +

Foi um ano febril este que chega ao fim. O mundo da arte —da Bienal de Charjah à Documenta de Kassel, na Alemanha, até o Panorama do MAM paulistano— ensaiou uma série de leituras poderosas de um mundo em convulsão, mas acabou refém de manobras de grupos políticos conservadores no Brasil e no resto do planeta –militantes que parecem não ter nada mais relevante a fazer que buscar em leituras estéticas capengas um espelho horrendo de sua pobreza de espírito.

É triste que a história talvez marque 2017 como o momento em que protestos fizeram o Masp proibir uma mostra para menores de idade e provocaram até a agressão física de trabalhadores de museus como o MAM. Mas debaixo dessa agitação infeliz houve motivos para lembrar por que as artes visuais e seus templos são cada vez mais necessários na hora de vislumbrar um futuro menos intolerante e obscuro.

Numa agenda internacional carregadíssima, uma fraca Bienal de Veneza ao menos ressuscitou a figura de mestres como Paulo Bruscky e jogou os holofotes —merecidos— sobre jovens artistas como Cinthia Marcelle. A artista que transformou o pavilhão brasileiro numa espécie de jaula violentada não poderia ter construído um retrato mais contundente do Brasil atual.
Uma Documenta desmembrada entre Atenas e sua sede alemã habitual revelou, nas entrelinhas, fissuras que ainda abalam o establishment artístico europeu, entre uma Berlim todo-poderosa e uma Grécia ainda aos farrapos.

Mesmo um tanto sobrecarregada, houve momentos brilhantes nas duas pernas desta que é a maior mostra de arte contemporânea do mundo.

No Brasil, Nuno Ramos transformou o "Jornal Nacional" em canção de protesto, remixando falas de seus jornalistas para comentar o quadro instável na ressaca do impeachment. Enquanto isso, dois espaços culturais deslumbrantes surgiram em São Paulo, o Sesc 24 de Maio e o Instituto Moreira Salles da avenida Paulista, palco dos protestos contra e a favor da troca de comando em Brasília. E o erotismo, tão temido por quem vê monstros em museus, também esteve em alta, com mostras de fôlego no Masp, de Teresinha Soares a Toulouse-Lautrec, passando por Miguel Rio Branco e Tunga.

O ano que vem, quando o Brasil enfrenta eleições presidenciais e Donald Trump luta para manter o controle de seu partido sobre os parlamentares de Washington, talvez prometa novas reviravoltas. Enquanto isso, é certo que haverá mais uma Bienal de São Paulo, desta vez sob o comando de Gabriel Pérez-Barreiro, que pode estar armando uma reprise de sua Bienal do Mercosul de oito anos atrás, e uma grande retrospectiva de Tarsila do Amaral no MoMA, em Nova York. Suas telas coloridíssimas, aliás, abrem o calendário do museu nova-iorquino em fevereiro, uma espécie de Carnaval para espantar o baixo astral do inverno americano.
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Matéria de Silas Martí, publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/12/17.

Basquiat é o destaque de 2018

Uma retrospectiva do pintor norte-americano Jean-Michel Basquiat vai percorrer quatro cidades brasileiras a partir de 25 de janeiro, graças a uma iniciativa do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), abrindo uma temporada de grandes exposições em 2018. Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, 19/12/17. +

Uma retrospectiva do pintor norte-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988) vai percorrer quatro cidades brasileiras a partir de 25 de janeiro, graças a uma iniciativa do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), abrindo uma temporada de grandes exposições em 2018, entre elas mostras dedicadas a Mira Schendel (1919-1988), Ismael Nery (1900-1934) e Rubem Valentim (1922-1991). O ano, que registra em setembro a 33.ª edição da Bienal de São Paulo, marca também a internacionalização de outros nomes históricos. A modernista Tarsila do Amaral (1886-1973) ganha, a partir de fevereiro, uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova York. Volpi terá de uma só vez duasexposições na Europa, também em fevereiro, uma no Museu Nacional de Mônaco, com curadoria de Cristiano Raimondi, e outra realizada sob os auspícios da Sotheby’s em sua galeria londrina, a S/2, com curadoria da marchande Luisa Strina.

Começando pela retrospectiva de Basquiat, que abre no dia 25 de janeiro, no CCBB de São Paulo, passando depois por Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, esta será a maior exposição do artista no Brasil, realizada no mesmo ano em que Alemanha e França recebem mostras do disputado Basquiat (uma tela sua alcançou US$ 110 milhões num leilão, tornando-se a mais cara obra de arte americana já vendida). As 80 obras da retrospectiva de Basquiat, entre telas, desenhos e gravuras selecionados pelo curador Peter Tjabbes, pertencem à família do industrial Mugrabi, de origem síria, radicado nos EUA, um dos maiores colecionadores de Andy Warhol.

“Basquiat é um artista que tem tudo a ver com o Brasil, e isso não só por sua origem africana, mas pela força do grafite, que tomou as cidades brasileiras”, assinala o curador Tjabbes. Por coincidência, o Masp dedica o ano de 2018 a artistas que igualmente ajudaram a sedimentar as histórias afroatlânticas, comemorando os 130 anos da assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão. Entre as exposições monográficas organizadas pelo Masp só um artista não é de origem africana. Mas dedicou sua vida a pintar descendentes dos escravos: é o uruguaio Pedro Figari (1861-1938), modernista de primeira hora devotado ao registro de temas sociais e religiosos ligados ao candomblé.

Outro artista que, desde o início de carreira, trabalhou com referências religiosas africanas é o brasileiro Rubem Valentim (1922-1991), cujas composições de caráter geométrico foram estudadas por críticos como Giulio Carlo Argan e Theon Spanudis. Ainda que não se considerasse um construtivista, Valentim, hoje redescoberto por colecionadores e museus estrangeiros, é considerado um deles. “Ele foi o artista que mais canibalizou a estética europeia construtivista para se descolar dessa tradição e se apropriar de modo antropofágico de suas matrizes”, resume o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa.

Entre os artistas de ascendência africana que também estão na programação do Masp do próximo ano destaca-se o maior escultor barroco brasileiro, Aleijadinho (1730-1814), o pintor pré-modernista Arthur Timótheo da Costa (1882-1922), a pintora autodidata Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974) e o escultor contemporâneo Emanoel Araújo. As histórias de arte de origem afro do Masp contam com outro contemporâneo, o escultor norte-americano Melvin Edwards, de 80 anos, cuja inspiração natural vem de sua ancestral África (Marrocos e Nigéria, principalmente) e, curiosamente, do Brasil.

Segundo o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, a mostra que resume a temática deste ano do museu é Histórias Afro-Atlânticas, em junho, stravaganza com cinco curadores, entre eles a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, que conta com várias obras emprestadas de museus estrangeiros, entre elas telas de Géricault e Cézanne, cobrindo do século 16 ao 21.

O Museu de Arte Moderna (MAM) abre o ano, em janeiro, com uma exposição igualmente ambiciosa. São aproximadamente 80 obras de seu acervo e da coleção Roberto Marinho, cobrindo desde o abstracionismo informal dos anos 1940 (Antonio Bandeira) aos novos expressionistas dos anos 1980 (Jorge Guinle e integrantes do grupo Casa 7). No mesmo mês será aberta uma retrospectiva da pintora Mira Schendel com curadoria do crítico Paulo Venâncio, dedicada a investigar o uso de signos gráficos pela artista suíça que se transformou num dos vetores da arte contemporânea brasileira.

O MAM completa 70 anos em 2018. Vai comemorar a data, segundo o curador do museu, Flávio Chaimovich, unindo-se ao MAC (Museu de Arte Contemporânea) e partindo de quatro exposições seminais que foram setas orientadoras da programação do museu, segundo ele: a primeira, Do Figurativismo à Abstração, de 1948, seguida da mostra do fotógrafo Thomas Farkas, em 1949, da primeira Bienal de São Paulo (1951), criada para gerar uma nova coleção para o MAM, e, finalmente, uma exposição que mostra a “gênese de sua missão pedagógica” e que deu origem ao serviço educativo do MAM, marcado pela realização do Panorama da Arte Brasileira. Outras duas individuais importantes programadas para 2018 são a do pintor surrealista paraense Ismael Nery (1900-1934) e do gravador Arthur Luiz Piza (1928-2017).

Assim como esses artistas pioneiros brasileiros, o americano Basquiat, de ascendência afrocaribenha, personificou uma época turbulenta (anos 1980) marcada pela experimentação de novas mídias, como o grafite, numa Nova York que começava a perceber os artistas saídos do subterrâneo. Desfazendo o mito do garoto negro que vivia nas ruas da cidade, o curador de sua mostra no Brasil, Pieter Tjabbes, conta que ele, oriundo da classe média, frequentava museus com sua mãe. “O público brasileiro vai reconhecer em suas pinturas a influência de Cyu Twombly e das assemblages de Rauschenberg”, diz Tjabbes.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, 19/12/17.

Tarsila terá exposição no MOMA de NY

A primeira grande exposição individual Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil abre em 11/02/18 com cerca de 130 obras, da produção seminal modernista dos anos 1920 aos trabalhos de conteúdo social dos anos 1930. Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/12/17. +

O Museu de Arte Moderna de Nova York já anuncia de modo bombástico a retrospectiva da pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973) que será aberta dia 11 de fevereiro, Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil, primeira grande exposição individual sua numa instituição americana, que vai reunir 130 obras, da produção seminal modernista dos anos 1920 aos trabalhos de conteúdo social dos anos 1930. A organização da mostra é do venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador da 30.ª Bienal de São Paulo (2010).

A retrospectiva no MoMA segue a trajetória de Tarsila desde sua passagem por Paris nos anos 1920, onde estudou com André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, até sua pintura de caráter mais realista nos anos 1930, passando, naturalmente, pelo período antropofágico – o MoMA vai receber de empréstimo a tela Abaporu, ícone da pintura canibal de Tarsila do Amaral.

Outro pintor moderno que tem, finalmente, seu valor reconhecido lá fora é Volpi. Num esforço acadêmico e institucional, segundo o advogado Pedro Mastrobuono, presidente do Instituto Volpi, o Museu Nacional de Mônaco abre em fevereiro uma retrospectiva com 100 obras do pintor, cobrindo todos os períodos de produção do artista. No dia 15 do mesmo mês, a galeria S/2, da Sotheby’s, em Londres, expõe 12 obras selecionadas pela marchande Luisa Strina. É um ótimo teste para avaliar sua cotação na Europa. Nos EUA, o interesse de colecionadores norte-americanos por ele é grande: a galeria de Barbara Gladstone, de Nova York, vendeu metade da exposição que organizou em novembro.

“O curador da exposição em Mônaco, Cristiano Raimondi, quis organizar uma mostra didática com esboços e pinturas sobre cartão que deram origem a telas maiores, justamente para que Volpi não seja encarado pelos europeus como um artista ingênuo”, conta Pedro Mastrobuono, lembrando que a viagem de Volpi, nos anos 1950, por cidades italianas onde viveram grandes pintores, é uma prova do seu interesse pela tradição de Giotto e Cimabue. “Ele voltou extremamente impressionado pelas pinturas de Giotto na capela de Scrovegni, em Pádua, e isso pode ser atestado por suas telas que retratam santos”, completa.

O mundo artístico será muito agitado lá fora, em 2018: o MoMA, além da exposição de Tarsila, programou uma retrospectiva do performático norte-americano Bruce Nauman, um dos pioneiros da videoarte. A Tate Modern de Londres abre, no dia 8 de março uma grande mostra de Picasso, seguida em maio por umas exposição coletiva de fotógrafos que contribuíram para a sedimentação da arte abstrata no século passado.

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Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/12/17.

Esquema de lavagem de Paz inclui advogado

O esquema de lavagem de dinheiro que levou o criador de Inhotim, Bernardo Paz, a ser condenado a prisão repassou R$ 300 mil ao advogado Odo Adão Filho, preso em 2016 na Operação Aequalis, que investigou desvio de recursos públicos para a construção da chamada “Cidade das Águas”. Ele já foi braço direito do ex-deputado federal Narcio Rodrigues (PSDB). O desvio de recursos foi de R$ 14 milhões e também levou o ex-parlamentar à cadeia. Matéria de Leonardo Augusto publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 15/12/17. +

O esquema de lavagem de dinheiro que levou o criador de Inhotim, Bernardo Paz, a ser condenado a nove anos e três meses de prisão repassou R$ 300 mil a um advogado preso em 2016 na Operação Aequalis, que investigou desvio de recursos públicos para a construção da chamada “Cidade das Águas”, sob a responsabilidade da Fundação Hidroex, hoje extinta. O advogado é Odo Adão Filho, de Uberaba, no Triângulo Mineiro, que já foi braço direito do ex-deputado federal Narcio Rodrigues (PSDB), também ex-presidente do partido em Minas Gerais. O desvio de recursos na “Cidade das Águas”, que foi de R$ 14 milhões, segundo as investigações, também levou o ex-parlamentar à cadeia.

Narcio, que ficou três meses preso, era secretário de Ciência e Tecnologia do ex-governador de Minas, hoje senador, Antonio Anastasia (PSDB), que encerrou seu mandato em 2014. Foi ainda um dos principais interlocutores de Aécio Neves no período em que o hoje colega de bancada de Anastasia governou Minas. Os recursos teriam sido desviados entre 2012 e 2014. O ex-governador não figurou entre os investigados.

A “Cidade das Águas” seria construída em Frutal, também no Triângulo, que era base eleitoral de Narcio, para funcionar como um centro de estudos sobre meio ambiente. Obras chegaram a ser feitas, mas não foram concluídas. No ano passado, uma lei aprovada na Assembleia Legislativa extinguiu a Fundação Centro Internacional de Educação, Capacitação e Pesquisa Aplicada em Águas (Hidroex), vinculada à época à Secretaria de Ciência e Tecnologia.

Ao Ministério Público Federal (MPF), Odo Adão afirmou que, dos R$ 300 mil, ficou com R$ 80 mil “por serviços” e devolveu R$ 220 mil a Bernardo Paz. Segundo as investigações, uma empresa criada pelo idealizador de Inhotim, a Horizontes, teria recebido US$ 98,5 milhões, ou, hoje, cerca de R$ 328 milhões, de recursos repassados por companhias criadas em paraísos fiscais. A Horizontes funcionou como financiadora do Inhotim.

Além de Odo, empresas também teriam recebido recursos do esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao criador de Inhotim. As movimentações, ainda segundo o MPF, ocorreram entre 2007 e 2008. Em casos como o apontado pelas investigações, a transferência de recursos para pessoas físicas e jurídicas é chamada de pulverização. “O objetivo é dificultar o rastreamento dos recursos”, afirma o delegado da Polícia Federal Renato Sarquis, à época responsável pelo inquérito.

O advogado de Odo Adão na Aequalis, Leonardo Bandeira, afirma que seu cliente depôs como testemunha na ação envolvendo o esquema de lavagem de dinheiro que levou Bernardo Paz à condenação, e que seu cliente, nesse caso, não foi denunciado. O advogado de Paz, Marcelo Leonardo, à época da condenação, afirmou que a decisão pela condenação de seu cliente era injusta e que recorreria da sentença, o que já ocorreu.

Sarquis afirma ter reunido durante o inquérito todos os elementos necessários para que o indiciamento de Bernardo Paz por lavagem de dinheiro fosse feito. “A base para a decisão foi o laudo financeiro feito pela perícia da Polícia Federal com base em informações repassadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), depois de quebras de sigilo”, afirmou. Segundo as investigações, o esquema teria utilizado pelo menos um posto de gasolina na “pulverização” apontada nas apurações.

Segundo as investigações do Ministério Público Estadual, responsável pela Operação Aequalis, Odo seria representante de um grupo português que teria feito acerto com Narcio Rodrigues para repasses de recursos para campanhas eleitorais em 2012. Em troca, o tucano se comprometeria a ajudar o grupo em supostos negócios com o Estado. Narcio, Odo e outras 13 pessoas foram denunciadas por crimes como organização criminosa, obtenção de vantagem indevida, lavagem de dinheiro e peculato. A Operação Aequalis foi deflagrada em 30 de maio de 2016. Odo foi preso em 3 de junho e conseguiu habeas corpus um mês depois.
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Matéria de Leonardo Augusto publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 15/12/17.

O Metropolitan Museum of Art recebe um presente de US $ 80 milhões

Doado por Florence Irving e seu falecido marido, Herbert Irving, esse é o maior presente na memória recente do museu. O dinheiro será usado para estabelecer um fundo de doação irrestrito para aquisições de fundos menores e individuais que irão ajudar na aquisição de arte asiática, bem como programação e publicações relacionadas. Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site artNet (artnet.com), em 16/11/17. +

O Metropolitan Museum of Art em Nova York recebeu uma doação de US $ 80 milhões do grupo de empresas do casal Florence Irving e de seu falecido marido Herbert Irving, fundador da empresa de distribuição de alimentos Sysco. Este é o maior presente individual na história recente da instituição. (A doação de US $ 65 milhões de David Koch em 2013 foi a última doação que chegou perto).

O dinheiro será usado para estabelecer um fundo de doação irrestrito para aquisições de fundos menores e individuais que irão ajudar na aquisição de arte asiática, bem como programação e publicações relacionadas. Os Irvings estiveram entre os maiores apoiadores da arte asiática do museu; e o nome deles já adorna uma ala dedicada ao tema. Em 2015, os colecionadores ávidos doaram cerca de 1.200 obras de arte ao departamento.

Um porta-voz do Met não respondeu imediatamente um pedido para detalhar exatamente como a doação de US $ 80 milhões será distribuída pelos departamentos. Mas o novo presente dará suporte à arte da China, Japão, Coréia, Sudeste Asiático, Ásia do Sul e Himalaias, com especial atenção às artes decorativas chinesas e arte indiana e do sudeste asiático, de acordo com o museu.

"Este presente adicional é verdadeiramente transformador para o museu, e assegurará que o legado da bolsa de estudos, a programação e a formação de uma coleção (os Irvings) tenham sido tão fundamentais na construção que continuará a prosperar", disse o presidente do Met, Daniel Weiss, em declaração.

“Esse recente presente é de fato transformador ao Met, e irá certificar que o legado da academia, programação, e a construção das coleções (dos Irvings) que tem sido tão essencial em si que vão prosperar”, disse o presidente do Met, Daniel Weiss, em uma afirmação.

Além da doação de hoje ao Met, Florence Irving também anunciou presentes de US $ 700 milhões para a Universidade de Columbia e o hospital New York-Presbyterian para pesquisas sobre câncer. Suas doações coletivas para essas três instituições agora totalizam mais de US $ 1 bilhão.

As últimas notícias são particularmente um importante voto de confiança para o museu, que trabalhou para lutar contra um déficit e se recuperar após de uma tumultuada partida de seu ex-diretor, Thomas Campbell.

O anúncio foi divulgado ao lado do último relatório anual do orçamento do Met, o que sugere que suas finanças estão se estabilizando. O museu projetou um déficit de US $ 15 milhões até o final do ano fiscal, mas terminou com uma queda de US $ 10,1 milhões.

O museu também adicionou quase US $ 300 milhões para essa doação, que agora representa cerca de US $ 2,9 bilhões (o maior de qualquer museu nos EUA, atrás do Getty). Weiss disse ao jornal “New York Times” que o museu está no caminho certo para eliminar o déficit até 2020.

No entanto, ainda há muito trabalho a fazer. Weiss disse ainda ao “Times” que a incerteza permanece em torno da administração do Met Breuer, instalado numa antiga casa do Whitney Museum of American Art, que o museu se comprometeu a alugar até pelo menos 2023.

"É um compromisso maior fazê-lo funcionar do que pensávamos", disse Weiss. "Se continuarmos além de oito anos, queremos ter um modelo operacional sustentável que ainda não o fizemos. Estamos agora analisando como fazer isso de forma mais eficiente. Há uma quantidade significativa de angariação de fundos envolvida".
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Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site artNet (artnet.com), em 16/11/17.

Ralph Rugoff é nomeado o Diretor Artístico da Bienal de Veneza 2019

Ele é o primeiro curador baseado no Reino Unido a conquistar essa cobiçada posição e o primeiro americano a preencher o cargo desde Robert Storr em 2007. Matéria de Javier Pes publicada originalmente no site do artNews (www.artnet.com), em 15/12/17. +

O curador americano, residente em Londres, Ralph Rugoff, diretor da Hayward Gallery de Londres, é o primeiro curador morador do Reino Unido a conquistar o papel de prestígio e o primeiro americano a preencher o cargo desde Robert Storr em 2007.

“Estou absolutamente entusiasmado com essa nomeação", disse Rugoff em um comunicado. "A Bienal de Veneza é a exposição mais antiga e de prestígio do gênero internacional". Ele observou que planeja permanecer em sua posição atual no Hayward enquanto aborda a Bienal.

Não é estranho a Rugoff fazer malabarismos em um dia trabalho com projetos extracurriculares. Ele foi o curador da Bienal de Lyon em 2015 e co-organizou recentemente o programa de conversas no Frieze London. (O programa centrou-se na capacidade dos artistas de perturbar as ideias convencionais do real - um tópico altamente discutido na era das notícias falsas.)

Na Hayward, Rugoff desenvolveu uma reputação de exposições originais e um programa que atrai um público amplo. Ele organizou mostras de grupos intrigantes e ambiciosos em torno dos temas da luz, a arte outsider, do humor e da arquitetura brutalista. Ele também supervisionou exposições individuais de artistas que vão desde Martin Creed e Tracey Emin para Carsten Höller e Ed Ruscha. O Hayward deve reabrir depois de uma renovação em 25 de janeiro com uma exposição de trabalho do fotógrafo Andreas Gursky

Durante o encerramento do ano passado, Rugoff organizou o programa off-site "The Infinite Mix", que foi um sucesso de crítica e público. A exposição reuniu 10 obras de vídeo em larga escala dentro de um antigo prédio de escritórios chamado The Store. A maioria dos artistas - incluindo Cyprien Gaillard, Ugo Rondinone e Rachel Rose - compuseram, encomendaram ou remixaram trilhas sonoras que se relacionavam com o elemento visual de seu trabalho de maneiras inesperadas.

Em uma declaração, o presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta, disse que a nomeação de Rugoff sublinhou que a exposição pode "envolver os espectadores diretamente com as obras de arte de tal forma que a memória, o inesperado, a possível provocação, o novo e o diferente podem estimular suas visões, suas mentes e suas emoções ".

O diretor nascido em Nova York liderou o Hayward por mais de uma década. Antes disso, ele era o diretor do CCAT Wattis Institute for Contemporary Arts em São Francisco.

Rugoff estava trabalhando como jornalista de artes em Los Angeles quando ele mergulhou pela primeira vez na curadoria em 1990. Essa primeira mostra, "Just Pathetic", apresentou o trabalho de Chris Burden, David Hammons, Mike Kelley e Cady Noland, entre outros. A exposição ocorreu depois que o falecido Kelley ouviu Rugoff dar uma palestra sobre a arte do fracasso, o constrangimento e o mundano, e o encorajou a transformá-la em uma exposição.

A Bienal de Veneza deve ser realizada de 11 de maio a 24 de novembro de 2019.
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Matéria de Javier Pes publicada originalmente no site do artNews (www.artnet.com), em 15/12/17.

Os mistérios do corpo segundo Tunga

O autor discorre a obra do artista multidisciplinar pernambucano Tunga (aliás, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão), morto em junho do ano passado, aos 64 anos, que agora tem mostra individual no Masp. Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 14/12/17. +

Artista multidisciplinar, o pernambucano Tunga (aliás, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão), morto em junho do ano passado, aos 64 anos, criou uma obra em que trabalhos mais antigos se desdobram em novas peças, mantendo sua interdependência e carregando em sua morfologia um código sintático alquímico. Foi pensando nessa “espécie de cosmologia” particular do artista que os dois curadores da mostra Tunga: O Corpo em Obras, no Masp, Isabella Rjeille e Tomás Toledo, organizaram a exposição de forma a propor ao visitante um percurso sem cronologia ou hierarquia entre as 86 peças provenientes do ateliê do artista, de acervos institucionais e coleções particulares.

Tunga foi uma espécie de Joseph Beuys brasileiro – nem tanto pelo parentesco neodadaísta, mas pelo uso de materiais insólitos e a recorrência a princípios alquímicos. O visitante verá na exposição tacapes feitos com ferro trançado e por vezes amalgamados a longas cabeleiras de cobre. Verá também que ele usou maquiagem na pátina de esculturas e em desenhos, além de aquarelas com figuras no limiar do desaparecimento, em que formas humanas se integram a elementos da natureza (a rara série Quase Auroras ). Por fim, deverá concluir que, assim como Beuys fez arte com materiais que salvaram sua vida na guerra da Crimeia (feltro e banha), Tunga recorreu a ímãs, cobre, ferro e chumbo para construir um “corpo” alquímico, formado da fusão de elementos antagônicos.

Os trabalhos mais antigos da exposição são desenhos de 1974, exibidos pela primeira vez no MAM do Rio. Apesar do sugestivo título da série, Museu da Masturbação Infantil, dificilmente o visitante vai encontrar nela um insinuação figurativa que o justifique. No entanto, bem ao lado da série, o que era pura abstração vira figuração explícita num conjunto de desenhos feito posteriormente. Nele, corpos se entrelaçam como serpentes, tendo suas cavidades preenchidas por bizarras formas pontiagudas, entre elas dentes, a única parte da ossatura humana visível a olho nu.

O neoplatônico Plotino sempre foi a inspiração de Tunga. Ele voltou ao filósofo e à alquimia para gerar corpos marcados pela energia da conjunção. Tunga, no fim da vida, chegou a fazer uma exposição em que tornava clara essa sua ligação hermética com a “via úmida”, uma das técnicas usadas pelos alquimistas no passado para transformar a matéria, unindo o princípio ativo masculino (enxofre) com o feminino (o mercúrio, volátil). A curadora da exposição, Isabella Rjeille, acrescenta outra referência de Tunga, Santo Agostinho, para justificar a presença de tantos baldes, dedais e sinos em suas esculturas.

“O pai de Tunga (o escritor Gerardo Mello Mourão) costumava contar para o filho a parábola do menino que Agostinho vê na praia, tentando transportar toda a água do oceano para um buraco na areia”, conta a curadora. Santo Agostinho fica fascinado com a inocência do garoto, advertindo-o sobre a tarefa impossível que se dispôs a realizar, recebendo como resposta que é mais fácil armazenar a água do que tentar, como o santo, compreender o enigma da Trindade.

Tudo em Tunga vem em trios, observa o curador Tomás Toledo, citando as tranças, as serpentes entrelaçadas, os tacapes (simbolizando o elemento masculino) recobertos por tranças (o feminino) e as últimas esculturas (dedos compridos que viram elementos fálicos com pernas e seios). Três esculturas da última exposição de Tunga, em bronze, que lembram as formas do surrealista Hans Arp, foram doadas ao Masp, que faz agora a primeira exposição monográfica do artista no museu.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 14/12/17.

"Dá vontade de dar um tiro na cabeça", diz Bernardo Paz, criador de Inhotim

Em depoimento à juíza federal Camila Velano, Paz se defendeu energicamente da acusação feita pelo Ministério Público Federal. Disse passar por maus momentos. "Eu sofrendo o diabo, e não pegaram nada. E depois sou acusado de lavagem de dinheiro e uma série de coisas. Aí, cara, dá vontade de dar um tiro na cabeça, porque ser brasileiro nesse país não vale a pena", desabafou. Matéria de Rubens Valente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/12/17. +

Junho de 2015. Com longos cabelos brancos, gesticulando muito e às vezes batendo o dedo na mesa, o empresário Bernardo de Mello Paz, criador do museu do Inhotim, presta depoimento à juíza federal Camila Velano que, dois anos depois, iria condená-lo por lavagem de dinheiro.

Como mostra o vídeo de 54 minutos do interrogatório obtido pela Folha, Paz se defendeu energicamente da acusação feita pelo Ministério Público Federal. Disse passar por maus momentos. Tomava tranquilizantes, havia "desmaiado" no dia anterior, vivia "no cheque especial" e se dizia desiludido com o país e indignado com a acusação.

"Nesses últimos dois anos, eu tive fiscalização de ponto a ponto da Receita Federal e não pegaram nada. Eu tive intervenção do Ministério Público Estadual de seis meses lá dentro. Eu sofrendo o diabo, e não pegaram nada. E depois sou acusado de lavagem de dinheiro e uma série de coisas. Aí, cara, dá vontade de dar um tiro na cabeça, porque ser brasileiro nesse país não vale a pena", desabafou.
O empresário comentou sua vida atribulada. "Eu vejo a minha vida ter passado como um vento. Não posso nem escrever aquele [livro] 'Confesso que Vivi', porque eu não vivi. Passei pela vida. Tive seis mulheres, que saíram fora de mim porque eu passava 24 horas por dia trabalhando."

BOTEQUIM

A juíza descreveu as principais acusações do Ministério Público e pediu que Paz apresentasse sua defesa.
Ele começou a contar a longa história da criação do Inhotim –"preciso contextualizar a situação para não parecer um bandidinho de botequim", justificou–, mas foi interrompido pela juíza.

"Adoraria conhecer a história do Inhotim", disse ela, mas o instou a se ater aos termos da denúncia, para que sua defesa não ficasse prejudicada.

A juíza pediu detalhes de saques e movimentações financeiras das empresas de Paz.
"Eu não tinha a menor condição de saber o que estaria acontecendo com os pagamentos de todas as empresas, não tenho a menor possibilidade", respondeu.

Segundo ele, seu grupo de empresas chegou a movimentar "R$ 3 bilhões, R$ 2 bilhões". "Minha vida, em termos financeiros, é uma bagunça", disse. "Eu só sei que eu não gasto nada porque eu moro dentro de Inhotim e ali eu trabalho e ali eu como."
Paz reconheceu que tinha dificuldades para explicar qual o papel que cada empresa representava no seu grupo empresarial e como os recursos transitavam entre as contas. Ele disse que chegou a ter 29 empresas em seu nome.

"A BMP funciona como holding. Os recursos atravessavam de uma empresa para outra, entendeu? O problema é esse, eu não consigo explicar essas coisas. Olha, eu não tenho um tostão, não tenho nem aqui nem lá fora. Pode olhar toda a minha vida. Eu sou um cara que luto por ideal, eu quero deixar um legado."

Para os crimes de lavagem de dinheiro, a legislação exige que o Ministério Público aponte qual infração penal teria dado origem ao dinheiro que depois foi "lavado" no sistema financeiro.

No caso de Paz, o procurador Carlos Alexandre Menezes apontou o suposto crime de sonegação. A leitura dessa imputação, pela juíza, deixou o empresário exaltado. Ele reconheceu as dívidas das empresas, mas não que os valores tenham sido sonegados.
"Sonegação? Não tem uma sonegação fiscal! É tudo escriturado e contabilizado. Eu nunca permiti que isso acontecesse. Eu nunca fui criminoso e não queria que me tachassem disso um dia. Foi tudo registrado e contabilizado. Eu vou pagar tudo."

Ao final, a juíza perguntou se Paz queria "falar mais alguma coisa em relação aos fatos em sua defesa".

"Eu vou dizer à senhora. Hoje cuido de uma orquestra de crianças, 180 crianças, de 200 mil crianças de periferia, de 180 mil pessoas simples de comunidades ao redor, [...] cuido de todos os quilombolas, seis quilombolas, da região, e vejo nos olhos deles, na cara deles, a felicidade."

"Da vida a gente não leva nada, não leva dinheiro, não leva nada. [...] Eu estou vivendo assim para o outro ser feliz. Igual ontem, estava lá o pessoal da Academia Brasileira de Letras, quatro deles lá, e disseram, 'Bernardo, o que você construiu aqui nos dá orgulho de ser brasileiro'. Essas palavras me animam a continuar, mas não me trazem nenhuma felicidade."
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Matéria de Rubens Valente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/12/17.

Por posição de patrocinador, artistas e estilistas deixam projeto do Masp

Com ligação do presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, com movimentos e personalidades da direita, artistas abandonam projeto que une artes visuais e a moda da coleção Masp Rhodia, realizada entre 1960 e 1970. +

A iniciativa de moda mais ousada da nova gestão do Museu de Arte de São Paulo está ameaçada por questões políticas. A coleção Masp Riachuelo teve baixas significativas.

A ligação do presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, com movimentos e personalidades da direita – a exemplo do MBL (Movimento Brasil Livre), em cujo congresso discursou em novembro último, e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB)– foi o motivo dado pelos artistas para a debandada do projeto que une artistas visuais e estilistas e que reedita a coleção Masp Rhodia, realizada entre 1960 e 1970.

Os estilistas Lucas Magalhães e Giuliana Romanno, e suas respectivas duplas, os artistas Sandra Cinto e Iran do Espírito Santo, deixaram a escalação da iniciativa, cujo resultado será exposto em 2020.

O pintor Caetano de Almeida, que faz par com o estilista Alexandre Herchcovitch, também comunicou sua desistência à direção do museu.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, a Riachuelo "esclarece que respeita a decisão dos artistas que optaram por deixar o projeto" e que "seguirá com os demais artistas e estilistas selecionados para a exposição, prevista para 2020".
A companhia também afirma que as "opiniões políticas de seus executivos e de todos os seus colaboradores não influenciam suas coleções e parcerias".

"Sabia desde o início que a Riachuelo patrocinava e fiquei em uma saia justa, sem saber como reagir. Aceitei fazer, mas, depois do que aconteceu com a 'Queermuseu', [mostra sobre sexualidade cancelada em setembro após pressão de movimentos da direita, inclusive o MBL], a situação ficou insustentável", explica Iran do Espírito Santo.

Espírito Santo diz ter devolvido o adiantamento, de valor não divulgado, pago pelo Masp para o desenvolvimento das peças.
"Como artista, como posso aceitar parceria de uma empresa que patrocina um grupo que ataca museus e artistas? Não dormiria tranquilo."

O artista ainda cita entre os motivos de sua desistência uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte, em setembro, que questionava os contratos de terceirizados do Grupo Guararapes, dono da Riachuelo, no Estado nordestino.
Procurada, a estilista Giuliana Romanno não quis comentar o caso.

O pintor Caetano de Almeida disse, por telefone, que "não julga pessoas". "Ele [Flávio Rocha] pode apoiar quem quiser, desde que não invada a minha seara."

Almeida afirma ter enviado a Herchcovitch seus desenhos e disse ao diretor do museu, Adriano Pedrosa, que poderia colocá-lo nos arquivos do Masp, mas sem o uso do seu nome.

"Essa história é algo pessoal que causou muito sofrimento. Não cobrei cachê, acho a ideia muito importante, mas não quero participar dela."

Até a publicação deste texto, a artista plástica Sandra Cinto não foi localizada para comentar o caso. Seu parceiro no projeto, o designer mineiro Lucas Magalhães, confirmou a saída de ambos, mas não quis falar sobre o assunto.
O estilista Ronaldo Fraga, dupla de Ibã Huni Kuin, afirma que continua no projeto e respeita a posição dos colegas, embora acredite que "posições políticas não devam interferir na produção cultural".

"É um projeto muito importante, que rompe os limites da moda e da arte. Em um período de crise como este, em que a cultura está parada e nada acontece, é importante haver empresas dispostas a investir na arte", diz Fraga.

VISÕES CONFLITANTES

Desenvolvido ao longo de três anos, o projeto quer reunir 30 artistas e 30 estilistas brasileiros para criar um mínimo de 60 figurinos.
A lógica é a mesma da parceria entre o museu e a indústria química Rhodia Têxtil, que a partir dos anos 1960 expôs peças de vestuário concebidas por nomes como Alfredo Volpi (1896-1988), Willys de Castro (1926-1988), Aldemir Martins (1922-2006) e Lula Cardoso Ayres (1910-1987).

Na versão atual, a cocuradora Patrícia Carta, que não quis falar sobre a desistência dos artistas, montou duplas com expoentes da costura nacional, entre eles Reinaldo Lourenço, Gilda Midani e Andrea Marques.
O diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa, fez a ponte com os artistas visuais, entre eles Beatriz Milhazes, Alexandre da Cunha e Leda Catunda.

Ainda não se sabe quais artistas plásticos serão escalados para suprir as desistências.
Por e-mail, Adriano Pedrosa afirma que respeita a posição política de cada um e que compreende o fato de o clima de polarização política influir na realização de projetos artísticos como o Masp Riachuelo.

"Vivemos em um momento de muitas polêmicas e debates, porém continuamos com nossos trabalhos e projetos, respeitando a opinião e visão de cada um, ainda que algumas vezes elas possam ser conflitantes", disse Pedrosa.

Leia a íntegra da nota da Riachuelo:
A Riachuelo esclarece que respeita a decisão dos artistas que optaram por deixar o projeto realizado em parceria com o MASP para o desenvolvimento de uma coleção de moda e afirma que seguirá, junto ao MASP, com os demais artistas e estilistas selecionados. A íntegra da coleção MASP Riachuelo será apresentada ao público em uma exposição, prevista para 2020.

A companhia informa, ainda, que as opiniões políticas de seus executivos e de todos os seus colaboradores não influenciam suas coleções e parcerias.

Esclarece, também, que jamais foi autuada por trabalho análogo à escravidão em seus 70 anos. A ação movida pelo Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte alegando subordinação estrutural não se aplica às oficinas cadastradas pelo programa Pró-Sertão e que prestam serviços para a Riachuelo.

Estas têm total poder de decisão para quais marcas vão produzir, pois são empresas com configuração jurídica própria e autonomia na condução de seus negócios e de seus funcionários.

Pedro Diniz, é especializado na cobertura de moda, do mercado à cultura pop.
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Matéria de Pedro Diniz publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 09/12/17.

Instagram revoluciona uso de imagens e influencia artistas e museus

Autora discute a produção e a circulação de obras de arte na era do Instagram. Aplicativo tem transformado a relação com as imagens, a ponto de haver quem compare o fenômeno a movimentos como futurismo e surrealismo, em termos de impacto e criação de linguagem. Artistas e museus adaptam-se à nova tendência. Matéria de Nathalia Lavigne publicada originalmente no caderno Ilustríssima do jornal “Folha de São Paulo”, em 10/12/17. +

"Domine, Quo Vadis?" é o título de uma pintura de Annibale Carracci (1560-1609) que retrata um episódio pouco representado na arte: um encontro de são Pedro com Jesus ressuscitado, enquanto o apóstolo planejava fugir da perseguição aos cristãos.
Acuado e surpreso, como aparece no canto direito do quadro, Pedro teria feito a pergunta do título ("Senhor, aonde vais?"), ouvindo de Jesus que iria até Roma para ser crucificado pela segunda vez. A partir desse episódio, o apóstolo desiste de fugir e volta à cidade, onde morre como mártir.

A pintura de Carracci, artista italiano da escola de Bolonha e precursor do barroco na Itália, pertence ao acervo da National Gallery, em Londres, mas não está entre as obras mais famosas do museu. Sua reprodução, pouco conhecida, apareceu recentemente no Instagram do artista Nino Cais (@ninocais), sobreposta a uma fotografia de dois homens nus.

A montagem encontra eco no contexto das polêmicas sobre nudez e tentativas de censura em exposições, iniciada em setembro com o encerramento da mostra "Queermuseum", em Porto Alegre, da qual Nino fazia parte.

Um quadro de temática religiosa vedando uma foto de nus masculinos, enquanto Jesus surge também com o corpo desnudo; o jogo de pernas em contraposição, como numa dança descompassada, cada um a seu modo; o braço de Jesus apontando outro caminho à frente, quase um gesto de resistência que cabe bem aos tempos de perseguições políticas e religiosas de hoje.

Pouco do que a obra originalmente representava permanece nas leituras dessa nova imagem. Por outro lado, o alcance proporcionado pelas redes sociais faz com que sua reprodução possa ser vista ao mesmo tempo por milhares de pessoas, algo inimaginável pelo artista ao retratar o episódio do "Quo Vadis?" no começo do século 17.

MUNDO DE IMAGENS

A composição integra uma série recente iniciada por Nino no Instagram, um espaço que ele define como uma "biblioteca de pensamentos, um caderno de anotações visuais".

Para quem coleciona e reinventa imagens de todos os tipos como ele, a rede estaria mais para uma biblioteca de Babel, um arquivo sem fim de quase tudo que se pode encontrar no mundo hoje, de obras de arte aos registros mais banais. Goste-se ou não, a onipresença das câmeras de celular é uma realidade irremediável.

Em "O Museu Imaginário" (1947), o francês André Malraux parece antecipar boa parte do fenômeno que vivemos hoje com a intensa circulação de imagens de obras de arte pelas redes sociais.

Ele define a ideia de imaginário associada aos museus como o resultado de diversos processos de metamorfoses. O primeiro ocorre quando os objetos são retirados de seu contexto original e levados para o museu, onde se desligam de sua função anterior e podem ser contemplados como obras de arte.

Essa mudança ocorre especialmente no século 19, com a criação dos museus públicos modernos. São esses espaços, para ele, que impõem uma nova relação com a ideia de obra de arte. "Um crucifixo românico não era, de início, uma escultura; a Madona de Cimabue não era, de início, um quadro; nem sequer a Atena de Fídias era, de início, uma estátua", escreve.

Também no século 19 foi criada a fotografia, responsável por outro processo de metamorfose das obras. Nos livros de arte, elas passam a ser contempladas sem nenhuma indicação de escala; uma escultura monumental pode ser vista nas mesmas proporções de uma pintura pequena.
A era digital parece ter elevado à enésima potência esse processo de transformações. As obras, reproduzidas incessantemente pela câmera do celular e publicadas em redes sociais, passam a circular sem origem e destino definidos.

Para o americano David Joselit, autor de "After Art" (depois da arte), vivemos na era da imagem nômade —e esse processo de circulação é o contexto mais relevante hoje no campo artístico.

O historiador da arte argumenta que o conceito de aura de Walter Benjamin —espécie de essência de uma obra original, um "aqui e agora" da experiência contemplativa— já não é compatível com o atual cenário de difusão de imagens, especialmente com a internet móvel. Para Joselit, a ideia de que a arte pertença a um tempo e lugar específico é impensável hoje.

A obra de Carracci que aparece na colagem de Nino, por exemplo, foi encontrada em uma edição de bolso sobre pinturas italianas, um dos inúmeros livros acumulados na mesa de seu ateliê em São Paulo, de onde nascem suas colagens.

Na imagem que ele criou e postou no Instagram, a pequena reprodução parece recobrar dimensão próxima ao formato de um quadro, com tamanho suficiente para esconder partes mais explícitas dos corpos nus da foto de trás.

INSTAGRAMISMO

Desde que foi lançado, em outubro de 2010, o Instagram vem transformandoa maneira como nos relacionamos com as imagens. Os estimados 700 milhões de usuários do aplicativo compartilham cerca de 80 milhões de fotos diariamente.

Lev Manovich, teórico em cultura digital e um dos principais pesquisadores de redes sociais na atualidade, cunhou o termo "Instagramism" (instagramismo) para definir esse fenômeno contemporâneo, comparando-o, em termos de impacto e produção de linguagem visual própria, às revoluções trazidas pelos "ismos" dos movimentos modernos de vanguarda na virada do século 20, como o futurismo e o surrealismo.

A diferença, para ele, está no alcance que o instagramismo possibilita pela cultura do compartilhamento, permitindo autoria compartilhada na definição da linguagem.
A particularidade do Instagram em relação a outras redes sociais está na primazia da imagem e nas possibilidades que ela oferece para o usuário controlar a apresentação.

Esse controle se dá tanto pelas escolhas no grid de três colunas —a definição da sequência de imagens se aproxima de um papel curatorial, transformando as interfaces pessoais em pequenas galerias— como pelas inúmeras ferramentas de edição disponíveis.
Contrariando, de certa forma, a ideia de espontaneidade que acompanhava o aplicativo em sua criação, postar uma foto passou a envolver uma série de decisões que terminam por moldar a identidade de um perfil e determinar as conexões que irá atrair.

Essas decisões, em geral, não são nada aleatórias: envolvem conhecimentos específicos difundidos pela cultura do "how-to", vídeos e textos tutoriais que ensinam como criar um perfil esteticamente coerente, quais os melhores horários para postagens etc.

A pesquisa de Manovich, compilada no livro "Instagram and Contemporary Image" (Instagram e imagem contemporânea, 2017), é o primeiro trabalho multidisciplinar sobre a rede, combinando estudos de mídia, história da arte e análise de dados. Seu laboratório em Nova York conta mais de 16 milhões de imagens, arquivadas desde 2012.

Com esse acervo, Manovich desenvolveu projetos como "On Broadway" (2015) —instalação feita a partir de um mapeamento de postagens ao longo da avenida que atravessa Nova York, utilizando geolocalizadores— e "Selfiecity" (2014) —estudo sobre este tipo de foto tendo como material 3.200 selfies postadas em cinco cidades do mundo, incluindo São Paulo.

Como em outras redes sociais, o Brasil tem forte presença no Instagram: aparece como o terceiro país com maior movimentação (5,79%), atrás da Rússia (8,61%) e dos Estados Unidos (17,12%).

SMARTPHONES

A criação do Instagram também influenciou uma mudança importante na forma como os museus lidam com a popularização de smartphones nas galerias.

Em 2011, o Metropolitan Museum of Art de Nova York retirou as placas que pediam aos visitantes para guardar os celulares. Aos poucos, a iniciativa foi adotada por instituições no mundo todo. Fotos e postagens das obras passaram a ser incentivadas como poderosa estratégia de marketing.

Se a invenção da fotografia no século 19 responde por enorme transformação na arte, a popularização de celulares com câmeras e da internet móvel vem promovendo mudança igualmente significativa.

Transformadas em uma nova imagem já no primeiro contato —o ato de ver e fotografar parece ter se tornado um só—, as obras existem cada vez mais em uma dimensão imaginária, reproduzidas a todo tempo. Por outro lado, pela lógica das redes, vê-las ao vivo em museus nunca foi tão importante —o que é um grande paradoxo, já que a contemplação dura em geral alguns poucos segundos, tempo suficiente para fazer um "story" ou postar a foto com o geolocalizador.

Nesse sentido, Malraux parece trazer contribuição interessante aos tempos atuais ao afirmar, ao contrário de Benjamin, que as reproduções não representam ameaça à ideia da aura.

Para o francês, as obras sobrevivem ao esquecimento graças aos museus imaginários dos livros de arte. "[Aquela imagem] leva-nos a contemplar as obras-primas que nos são acessíveis; não a esquecê-las; e, sendo inacessíveis, que conheceríamos nós, sem a reprodução?"

OBRA OU IMAGEM?
Os artistas tampouco passaram incólumes por essas transformações. Alguns deles já utilizam o Instagram como meio específico para o desenvolvimento de trabalhos, ainda que nem sempre esteja claro o que distingue uma obra propriamente dita de uma simples imagem postada na rede.

"O Instagram é sempre a primeira exibição do meu trabalho", afirma Nino. Essa galeria digital, hoje com 12 mil seguidores, às vezes é usada para testar esboços de alguma nova série, outras vezes serve de abrigo definitivo: muitas obras começam, terminam e existem apenas ali, ao lado de selfies, trabalhos de outros artistas e raras fotos de viagens.

As colagens com as pinturas italianas —que incluem ainda uma interessante composição com uma imagem renascentista de são Sebastião (1477-79), de Antonello da Messina, dividindo a tela com outro nu masculino em pose atlética— a princípio foram concebidas exclusivamente para o Instagram. "Mas pode ser que depois virem outra coisa", diz Nino.

O tema ganhou força nos últimos meses, quando a artista americana Cindy Sherman liberou ao público o acesso de sua conta no Instagram (@_cindysherman_), até então mantida privada e com um pseudônimo.;

As imagens mais recentes mostravam a americana interessada na já quase banalizada lógica das selfies, utilizando ferramentas de edição de aplicativos digitais, entre eles o Facetune e o simulador de maquiagem Perfect365.

Mas seu interesse não está no uso que em geral se faz desses recursos. O que ela procura não é a perfeição da imagem, e sim a sua deformação, sinalizando como o uso extremo desses artifícios produz um resultado quase grotesco.

Talvez por se tratar de uma artista que há 40 anos fotografa a si mesma exibindo-se nas mais diversas identidades, cuja obra antecipou aspectos hoje ainda mais banalizados na era das redes —do narcisismo exacerbado à facilidade como identidades são moldadas e desfeitas a cada semana—, a revelação de seu perfil atraiu um interesse imediato do mundo da arte.
Houve quem recomendasse sua galeria pessoal como a exposição do ano e houve quem a classificasse como uma produção mais fraca da artista.
E houve o crítico Jerry Saltz (@jerrysaltz), da "New York Magazine", outra figura célebre no reino da arte no Instagram. Para ele, as imagens de Sherman ali postadas não são nem uma coisa nem outra: "Ela nunca disse que eram um trabalho".
Em entrevista à Folha, ele afirma que a página "é mais uma forma de ver a artista pensando alto, e isso é incrível. Parece um processo de desenho, em que podemos ver uma falha, algo que não se desenvolve. Ao mesmo tempo, é a partir desse pensamento que pode surgir uma ideia, o que é sempre divertido acompanhar".

Hoje com mais de 250 mil seguidores, o perfil de Saltz constitui um dos mais interessantes mapeamentos da miscelânea de imagens nessa rede. Os trabalhos muitas vezes aparecem sem identificação ou em fotomontagens —exemplos mais próximos da realidade das redes.
Chistes com personalidades e com o modus operandi das artes são frequentes: o artista Jeff Koons já apareceu com uma fantasia de teletubbie, o galerista Larry Gagosian ganhou o apelido de Larry Gogo, numa comparação com Lady Gaga, e Klaus Biesenbach, diretor do MoMA, virou o protagonista de uma versão do filme "Uma Noite no Museu", uma piada sobre a publicidade ostensiva para os bailes de gala.
Ironias à parte, Saltz também sabe utilizar a rede como um fórum de debate crítico sem cair na superficialidade. Seus seguidores costumam se envolver com afinco em discussões sobre as postagens, algumas com mais de 400 comentários, das quais ele participa ativamente.

NUDEZ DELETADA

O perfil de Saltz também ficou conhecido pelas postagens de arte erótica que sempre estiveram na mira da censura em redes sociais. Entre suas imagens deletadas já esteve a de uma pintura francesa do século 17, na qual pelos pubianos de um homem estão à mostra.

De acordo com os critérios oficiais do Instagram, pinturas e esculturas que representem nudez são permitidas. A restrição a nus diz respeito apenas a fotografias e algumas partes do corpo. Como se vê, o controle feito com base em algoritmos não é livre de falhas.
Uma dessas imagens postadas recentemente por Saltz fez sucesso entre seus seguidores brasileiros: o detalhe ampliado de uma ilustração em que um homem aparece fazendo sexo com uma cabra.

A cena, como lembrou a artista Erika Verzutti nos comentários, é a mesma da pintura "Cena de Interior II", de Adriana Varejão, acusada de promover zoofilia, uma das motivações para o fechamento da exposição "Queermuseum", no Santander Cultural.
Desde esse primeiro episódio de ataques a museus por grupos de extrema direita, desenvolveu-se no Instagram uma intensa batalha de hashtags entre pessoas que defendiam as instituições e aquelas que as criticavam.

O ápice ocorreu após a performance de Wagner Schwartz na abertura da 35ª edição do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo).

De um lado ficaram os que compartilhavam à exaustação a imagem descontextualizada da criança interagindo com o artista nu, marcada com a hashtag #pedofilianaoearte, com pouco mais de 1.300 postagens; do outro, os que se manifestavam a favor do museu, com versões do cartaz "Somos Todos MAM", que virou o nome da tag, com quase 2.000.

No segundo grupo, ganhou força o compartilhamento de imagens de nudez na arte como estratégia de protesto —e muitas pessoas passaram a ter suas postagens removidas pelo Instagram.
O debate sobre a censura das redes e as contradições nos critérios do que é considerado impróprio não é novo, mas voltou à tona com esses episódios.

Enquanto mamilos femininos são deletados sob qualquer circunstância, fotos mais eróticas parecem circular livremente. Ou, pior, imagens sem nenhum sinal de nudez às vezes são excluídas após alguma denúncia anônima, sem chance de defesa.
Um caso famoso envolveu Rupi Kaur (@rupikaur_), artista canadense de origem indiana. Ela comprou briga com o Instagram ao ter uma imagem de sua série "Period" (menstruação) apagada. A fotografia não mostrava nada além de uma menina inteiramente vestida e com a calça do pijama suja de sangue.

Aqui no Brasil, a artista Aleta Valente (@ex_miss_febem2) usou esse episódio como referência para uma série em que também se retrata menstruada. Na imagem mais conhecida, ela aparece vestida de branco e tem um dos pés atrás da cabeça, com a legenda: "O patriarcado está vazando. A misoginia está vazando. Não seremos censurados".

Um dos exemplos mais interessantes de artistas que passaram a explorar a autorrepresentação como performance utilizando as redes, Aleta tem um histórico de censura por essas plataformas.

Seu primeiro perfil no Instagram, @ex_miss_febem, foi deletado em janeiro por excesso de denúncias. No Facebook, a foto mencionada viralizou entre grupos antifeministas, resultando em verdadeiro linchamento virtual.

MASP

A abertura da exposição "Histórias da Sexualidade" no Masp (Museu de Arte de São Paulo), da qual Aleta também participa, inaugurou outro capítulo nas polêmicas sobre o compartilhamento de obras com nudez.

A princípio proibida para menores de 18 anos e agora apenas com classificação indicativa, a mostra também não podia ser fotografada. Desde que o museu passou a permitir fotos em suas galerias, em 2014, essa foi a primeira vez que os vigias controlavam os visitantes em qualquer movimentação suspeita com o celular.

Depois que a restrição etária foi revista, o museu aparentemente flexibilizou o controle. Mas, no dia da abertura, até quem tentava registrar o nome das obras nas fichas técnicas foi repreendido.

Para uma instituição que incentiva a lógica do compartilhamento utilizando sua conta quase exclusivamente para repostar fotos de visitantes, a atitude soou estranha. A resposta oficial sobre a decisão foi um tanto evasiva: dizia apenas que muitos proprietários dos direitos autorais não permitiram que se fotografasse essa mostra.

O mais curioso é que a informação foi dada pelo perfil do museu no Instagram (@masp_oficial), nos comentários a uma foto feita às escondidas na noite de abertura pela artista Santarosa Barreto, na qual ela criticava a proibição.

A obra compartilhada, por ironia, era o pôster da americana Zoe Leonard, "Read My Lips Before They're Sealed" (leia meus lábios antes que sejam selados, 1992), com a imagem frontal e em close de uma vagina.

Em tempos de controle e vigilância cada vez mais proeminentes, o episódio serve ao menos para indicar um caminho possível: na arte ou nas redes, quase sempre há alguma brecha para a resistência.
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Matéria da curadora e jornalista Nathalia Lavigne publicada originalmente no caderno Ilustríssima do jornal “Folha de São Paulo”, em 10/12/17.

Marina Abramovic: A artista está presente mas o dinheiro sumiu

A artista cancelou seus planos grandiosos para um instituto de arte, sem no entanto esclarecer o que aconteceu com os US$ 2,2 milhões que arrecadou ao longo de quatro anos para o projeto. Matéria publicada originalmente no portal DasArtes, em 14/11/17. +

Segundo o The New York Post, a artista internacionalmente conhecida, Marina Abramovic, cancelou seus planos grandiosos para um instituto de arte, sem no entanto esclarecer o que aconteceu com os US$ 2,2 milhões que arrecadou ao longo de quatro anos para o projeto, incluindo doações de Jay-Z e quase 5.000 doadores, em uma campanha de crowdfunding pelo site Kickstarter.

A artista, que tornou-se mundialmente famosa por encarar as pessoas na mostra “A Artista está presente”, no MoMA em 2010, vinha buscando apoio para construir o Instituto Marina Abramovic, voltado para a preservação da arte da performance e um local para os artistas realizarem grandes experimentos. Abramovic, nascida na Iugoslávia, também disse que “mudaria a economia local” em Hudson, NY, da mesma forma que o Sundance Film Festival colocou no mapa a cidade Park City, nos EUA, e o Museu Guggenheim transformou a espanhola Bilbao.

Abramovic, de 70 anos, firmou parceria com o renomado arquiteto holandês Rem Koolhaas para ressuscitar um teatro em ruínas em um espaço elegante de 33 mil metros quadrados, onde os visitantes teriam que entregar seus celulares e se comprometer com uma experiência de seis horas. No mês passado, a artista revelou que estava abandonando o projeto, depois de saber que o seu valor excederia o orçamento previsto em US$ 31 milhões.

Seu anúncio supreendeu os moradores de Hudson e os doadores, chocados, questionam o que ela fez com o dinheiro. Além da campanha de 2013 de Kickstarter, que arrecadou mais de US$ 660 mil, seu instituto sem fins lucrativos arrecadou mais US$ 1,5 milhão em doações entre 2011 e 2015, de acordo com demonstrações fiscais. O rapper Jay-Z fez “uma doação substancial” à campanha de Kickstarter, segundo os relatórios de imprensa.

Alguns doadores do Kickstarter queixaram-se de que eles não receberam suas recompensas prometidas por contribuir com o instituto e outros se perguntaram como suas contribuições foram gastas, ou não, e queriam uma contabilidade.
Quando perguntado se Abramovic devolveria o dinheiro, uma porta-voz da artista disse que todo o dinheiro arrecadado pelo Kickstarter, além de recursos adicionais, foi para pagar a empresa do arquiteto Rem Koolhaas.

“Os fundos foram criados não somente para a renovação em si, mas especificamente para os esquemas e o estudo de viabilidade”, disse a porta-voz. “Eles foram usados exatamente para esse propósito”.

Os doadores da campanha receberam conjuntos de DVDs do “Método Abramovic”, no qual a artista demonstra como beber um copo de água, assinada por ela.

“Eu deveria receber uma cópia assinada do DVD por uma doação de US$ 200 em 2013 e ainda estou esperando por isso”, escreveu um doador do Kickstarter em agosto.

Abramovic confirmou através de sua porta-voz que ela pretende vender o prédio e usar parte dos recursos para pagar impostos não pagos. Os pilares do edifício, que foi construído em 1933 como um teatro comunitário e depois usado como um centro de tênis coberto, correm o perigo de desmoronar e o interior abandonado está coberto de ervas daninhas e excrementos de pombo, disse um morador de Hudson.

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Matéria publicada originalmente no portal DasArtes, em 14/11/17.