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Universidade interfere em desenho de mulheres nuas e artista retira obra

A artista Simone Barreto teve sua obra coberta. Outros dois artistas retiraram suas obras em protesto. Simone ainda comenta que ainda foi abordada para escolher outro desenho. "É sobre esse corpo negligenciado que todo mundo já vira a página todos os dias. É um corpo que não pode ser visto, não pode ser debatido. Não é a mulher idealizada e objetificada pelo homem. É um corpo que tem sangue, pelo e cicatriz". Matéria de Rubens Rodrigues originalmente publicada no jornal O Povo em 17/10/17. +

O curador Ivo Mesquita selecionou 18 artistas cearenses para a XIX Unifor Plástica. No entanto, a edição que tem como tema "Uma constelação para Sérvulo Esmeraldo" foi aberta na noite desta terça-feira, 17/10, na Universidade de Fortaleza (Unifor), com uma ausência. Convidada para expor o trabalho "Todas as Coisas Dignas de Serem Lembradas", a artista Simone Barreto afirma que dois de seus 33 desenhos que abordam o corpo da mulher, desejo e sexualidade foram censurados. Ela optou por retirar da exposição toda a obra.

Em entrevista ao O POVO Online, Simone conta que montou a vitrine com seus trabalhos no último sábado, 14. No domingo, 15, ainda segundo a artista, representantes da Universidade teriam pedido que ela sinalizasse a classificação indicativa da obra. No dia seguinte, no entanto, lhe foi pedido que os dois desenhos fossem retirados ou trocados por outros. Em uma das figuras em questão, duas mulheres fazem sexo. Na outra, uma delas está com tinta vermelha simbolizando a menstruação. Simone recusou mudar os desenhos, justificando que a obra não faria sentido montada de outra forma.

"Eles disseram que eu poderia escolher outro desenho, virar a página. Para eles é muito simples, mas esse é o objeto do meu trabalho", afirma. "É sobre esse corpo negligenciado que todo mundo já vira a página todos os dias. É um corpo que não pode ser visto, não pode ser debatido. Não é a mulher idealizada e objetificada pelo homem. É um corpo que tem sangue, pelo e cicatriz".
Nesta manhã, 17, Simone diz que encontrou a vitrine onde seus cadernos estavam dispostos em local "escondido". "Eles disseram que os cadernos só ficariam lá se eu tirasse os desenhos. E o pior: eles cobriram. Deixaram só a cabeça de fora", relata.
Simone diz que a Universidade "interferiu diretamente" na obra. "Faculdade e museu são lugares de pensamento crítico, de discussão e arte", continua. "Mas disseram que a universidade é um lugar que recebe crianças, tirando o corpo de discussão". Ainda nesta noite, durante abertura da mostra, um grupo protestou contra a situação. Pelo menos dois artistas retiraram suas obras também em protesto.
Contatado, o curador Ivo Mesquita diz que acompanhou as "negociações" e que a decisão foi da Universidade. "Eu só posso lamentar essa situação desagradável". Ivo pediu para que a reportagem retornasse o contato uma hora depois, mas as ligações não foram mais atendidas. O curador é ex-diretor do Museu de Arte Moderna (MAM) na capital paulista e, em Fortaleza, fez a curadoria das primeiras mostras do Museu da Fotografia.

O POVO Online pediu para falar com dirigentes da Unifor que acompanham o evento, mas a assessoria de imprensa informou que só responderia por nota. Não houve retorno até a publicação desta matéria.
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Matéria de Rubens Rodrigues originalmente publicada no jornal “O Povo”, em 17/10/17.

Phillips vende Rolex de Paul Newman por US$ 17,8 milhões e bate recorde

O relógio Rolex de Paul Newman, estimado em US $ 1 milhão, seria o destaque do primeiro leilão de relógios da Phillips de NY. O que ninguém esperava era que o relógio Daytona, feito a mão, que o ator usava em filmes, festas e fotos para revistas, fosse vendido por US$ 17,8 milhões, depois de 12 minutos de aquecida disputa, e batesse o recorde mundial. Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site Artnet News, em 27/10/17. +

Observadores sabiam que o relógio Rolex de Paul Newman, avaliado em US$ 1 milhão, seria o destaque do primeiro leilão de relógios da Phillips de NY, em 26/10/17. Mas o quem ninguém esperava era que o relógio Daytona, feito a mão, que o ator usava em filmes, festas e fotos para revistas, fosse vendido por US$ 17,8 milhões.
A venda esmagou o recorde anterior para um relógio, US$ 11,1 milhões para um Patek Philippe de aço inoxidável, que a Phillips vendeu em novembro passado.
O "Paul Newman" ganhou status lendário na comunidade dos relógios, tanto porque é considerado um dos mais cobiçados do mundo (o jornal "The New York Times" o comparou com a "Mona Lisa" dos relógios) e porque, até o anúncio da venda, em agosto, poucas pessoas fora da família Newman sabiam onde ele estava.
O relógio foi dado a Newman pela esposa, a atriz Joanne Woodward, que o inscreveu com a mensagem "Conduz-me cuidadosamente".
O leilão foi um grande sucesso para a casa de leilões, com um total de US$ 28,8 milhões, o maior número para um leilão de relógios, com todos os 49 lotes vendidos.
"O mercado de relógios tem sido uma história de sucesso extraordinário e uma história de crescimento igualmente extraordinário", disse o CEO da Phillips, Edward Dolman, à Artnet News no início deste ano.
"Quem teria pensado que um Patek Philippe de aço inoxidável fosse vendido por mais de US$ 11 milhões em um leilão? Se você dissesse isso três ou quatro anos atrás, as pessoas pensariam que você estava louco. Mas é o exemplo perfeito de uma categoria que se beneficiou enormemente da riqueza global e do reconhecimento global".
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Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site Artnet News, em 27/10/17.

Embalos Noturnos - Entrevista com Nan Goldin

Nan Goldin tornou-se famosa com a projeção de slides conhecida como A balada da dependência sexual (1978-1996), uma coleção de retratos e momentos íntimos de amigos, amantes e artistas, feitos enquanto frequentava o antigo centro boêmio de Nova York. A dedicação com que investiu sobre os instantâneos fotográficos e a abertura com que expôs sua “tribo” fizeram com que seu trabalho influenciasse não só a fotografia de arte, como também a moda, o cinema e a música. Entrevista de Philip Larratt-Smith publicada originalmente no site da revista Zoom (www.revistazum.com.br), em 03/10/17. +

Nan Goldin nasceu em Washington, D.C., em 1953, e foi criada em Boston, antes de mudar-se para Nova York. Tornou-se famosa com a projeção de slides conhecida como A balada da dependência sexual (1978-1996), uma coleção de retratos e momentos íntimos de amigos, amantes e artistas, feitos enquanto frequentava o antigo centro boêmio de Nova York. A projeção foi apresentada pela primeira vez numa boate da cidade em 1979, acompanhada de trilha sonora. Com o tempo, a edição das imagens foi ampliada e reformulada até atingir as 900 fotos que a compõem, exibidas ao longo de 45 minutos. Em 2003, inspirada pela lenda de Santa Bárbara, Goldin criou a projeção Irmãs, santas e sibilas, que aborda o suicídio de sua irmã mais velha e sua própria luta contra a depressão. Um de seus trabalhos mais recentes, feito a convite do Museu do Louvre, é a projeção de slides Scopophilia (2010), em que justapõe sua iconografia pessoal a obras clássicas de pintura e escultura, numa meditação sobre temas universais como o amor, o sexo, a beleza e a morte. A dedicação com que investiu sobre os instantâneos fotográficos e a abertura com que expôs sua “tribo” fizeram com que seu trabalho influenciasse não só a fotografia de arte, como também a moda, o cinema e a música. Goldin conversou com a ZUM entre Berlim e Nova York.

Philip Larratt-Smith: Em janeiro de 2015, você participou de uma performance em Berlim. Vamos começar falando disso?

Nan Goldin: Adoro trabalhar em colaboração. É um projeto com um grupo chamado Soundwalk Collective. Estão na praça faz 15 anos, músicos eletrônicos e músicos artistas. Pediram que eu fizesse uma leitura, então li uma peça de David Wojnarowicz. Montaram uma construção sonora inteira em torno dela.

Eram poemas do Wojnarowicz ou trechos do livro de memórias dele, Perto da navalha (1991)?

Trechos de Perto da navalha, que é minha bíblia pessoal. Li sete excertos diferentes, mas num fluxo contínuo. Minha voz e a música deles. Eram vários aspectos diferentes. Alguns políticos, outros pessoais, e termina com um muito sexual. Dos sete excertos, eles tinham escolhido “Não posso mais” (“I Can’t Go On”) por causa da política gay e da aids. E também um em que ele conta sobre a fase junkie. Para mim, este último era mero sensacionalismo. Eles sentem uma espécie de saudade daquele tempo que não viveram. O fim dos anos 1970 e começo dos 1980 em Nova York.

Todo mundo sente. Eu também sinto essa falsa saudade.

Eu não. Aquilo foi ótimo, mas, se você não viveu, não pode fazer nada. As pessoas continuam tentando. Em Berlim, tinha um vídeo sobre uma drag queen, e a mulher que fez o vídeo achava que era o David [Armstrong, fotógrafo] de drag. Então perguntei: “Sobre o que é?”, e ela respondeu: “É o David”. Houve aí um certo mal-entendido, como costuma haver quando se trata de gente. Quer dizer, é por isso que a história é a merda que é. Porque o povo pode dizer o que quiser sobre o que aconteceu e quem eram as pessoas.

Projetando sua própria fantasia.

Exato. Vi que fizeram um filme sobre o David logo depois que ele morreu, no ano passado, e fiquei furiosa.
Mas aquela época foi o último verdadeiro respiro da Nova York boêmia. Wojnarowicz, Basquiat, o Downtown 500 [trocadilho com o Forbes 500]. No prazo de uma década, todo aquele centro foi destruı´do e revitalizado pelas incorporadoras imobiliárias. Vim para Nova York em 1978, e o Mudd Club abriu na semana seguinte. Foi a época de maior agito. Tive muita sorte.

Louise Bourgeois costumava frequentar o Mudd Club quando tinha já seus 70 anos.

Ah, que incrível. Louise era genial. Por sorte, encontrei com ela algumas vezes.

Você foi a algum dos salões dominicais dela?

Uma vez. Fotografei a Louise. E mandei um garoto lindíssimo que me ajudava mostrar os negativos a ela.

Lance esperto.

Ele foi levar os originais para ela escolher. Isso porque sempre digo às pessoas que depois vão escolher a foto que preferem. E ela deu um jeito de garantir que eu cumpriria minha palavra, pois pegou uma tesoura e cortou os negativos de que não gostou, coisa que amei nela. Louise não ia se arriscar confiando na integridade dos outros.
Lembro de um cara que estava gravando uma entrevista com ela e perguntou uma coisa de que ela não gostou. Ela não quis responder, e o entrevistador disse: “Tudo bem, não precisa responder”. Mas ela falou: “Não. Quero que você volte a fita até antes dessa pergunta e apague essa parte”.

Estava coberta de razão. Eu queria que ela ainda estivesse conosco para poder falar com ela. Naquela época, eu era meio tímida demais. Quando vim para Nova York, os artistas realmente queriam ajudar uns aos outros, e agora é tanta rivalidade e inveja. Vivi um período bem longo em que as pessoas realmente se apoiavam. E ninguém tinha galeria. Não havia nenhuma.

Uma vez você me falou que, quando era mais nova, virar artista era como fazer voto de pobreza. Presumia-se que você não ganharia dinheiro nunca.

Isso. E que provavelmente você morreria pobre. O que, no meu caso, decerto vai acontecer mesmo. Era como um voto espiritual, como ser andarilho no deserto. Ainda sinto orgulho por nunca ter feito trabalhos para o mercado. Eu nem sabia o que era o mercado até sair uma vez com Donald Baechler [artista], em 1979; ele me levou ao 9th Circle, um antigo bar gay. Falou de Düsseldorf, Colônia, Milão, Sandro Chia, Francesco Clemente, Enzo Cucchi. Tinha a Escola de Düsseldorf, tinha Martin Kippenberger e os parceiros dele, aquela cena toda. Georg Baselitz. Os três Bs da Alemanha e os três Cs da Itália.

Era uma época alfabética.

Eu estava pensando nisso outro dia. O mundo artístico se baseava na colaboração entre o povo todo, o pessoal com mais sucesso ajudando o pessoal com menos sucesso. Existia um sentimento de comunidade muito bom. Você não precisava ter tal ou tal aparência, tal ou tal comportamento. Agora, esperam que você tenha uma espécie de persona educada, de tipo empresarial. Imagino que um pouco de excentricidade ajuda, mas o que se espera é que os artistas se comportem como todo mundo.

Vamos falar de outros fotógrafos. O que você acha do Jim Goldberg?

Jim Goldberg é um velho amigo. Conheço o Jim desde os anos 1970, acho que a gente se conheceu em Boston. Criado por lobos (1995) é um dos grandes livros de fotografia contemporânea. Para ser sincera, não vejo muitos trabalhos de fotografia. Tenho mais mania por pintura, pintura medieval e renascentista. A fotografia contemporânea que mais me interessa no momento é a da África. Tem por lá um trabalho incrível em andamento. Para mim, era a Suécia, mas agora passou a ser a África.

Christer Strömholm, que fez As amigas de Place Blanche (Les Amies de Place Blanche, 1983)?

É. E J. H. Engström. Gosto de todos eles, mas estou muito mais interessada no trabalho sociopolítico vindo da África. Que mescla o político e o pessoal. Tem Malick Sidibé e Seydou Keïta, do Mali, de outra geração. Um deles ainda está vivo. E são os que ficaram realmente famosos. David Goldblatt é um sul-africano branco que fez trabalho político por muito tempo. Mikhael Subotzky, outro branco sul-africano, fez uma instalação da parede ao teto sobre um projeto habitacional. Cada parede mostrava uma vista diferente. Noroeste, nordeste, sudeste, sudoeste, dos quatro lados diferentes do edifício, mostrando a vida em cada janela. Jodi Bieber, uma mulher que fotografou mulheres de lingerie.

Você esteve na África do Sul?

Não, nunca estive na África Subsaariana. O que me incomoda muito. Tem mais um que eu queria mencionar, não tão conhecido, Zwelethu Mthethwa. E estava fotografando em 1999. Era a primeira mostra sobre a aids em Turim, talvez em toda a Itália. E se chamava Terrível aids. Um fotógrafo africano que fotografava as pessoas em suas choças, principalmente. Não era evidente que eles estavam sofrendo de aids. Mas eram retratos muito bonitos. Cores muito fortes, cores extremas.

E William Eggleston?

Adoro o trabalho dele, mas só foi importante para mim depois que fiz a Balada. Soube dele mais tarde. Não me criei sabendo dele. Me criei com a santíssima trindade da época: Larry Clark, Diane Arbus e August Sander.

Quando foi que você viu Tulsa, de Larry Clark, pela primeira vez?

Em 1972. Estava morando com as drags e tinha tirado um monte de fotos delas em preto e branco, das quais algumas foram publicadas. Tem um monte de material bom que nunca foi publicado. E fui estudar porque queria pôr as drags na capa da Vogue. Então entrei num curso técnico, e não entendia nada, porque sou a pessoa menos técnica do mundo. Tive a sorte de encontrar um professor maravilhoso, chamado Henry Horenstein. Quando ele viu meu trabalho, em 1972, falou: “Já ouviu falar de Larry Clark?”. Foram as primeiras palavras que ele disse.
Naquela época, eu nunca tinha ouvido falar de nenhuma fotografia de arte. Só conhecia Guy Bourdin, Helmut Newton e Louise Dahl-Wolfe. Estava morando com as drag queens. E minha missão era ir todo mês às livrarias da Harvard Square e roubar a Vogue italiana e a Vogue francesa. E eu era boa nisso.

Era boa em afanar nas lojas?

Muito boa. Tenho orgulho em dizer. Mas eu era muito seletiva sobre as lojas de onde afanava.

Precisa ter bom gosto para afanar.

Estou falando de integridade. Você não rouba de loja pequena. Só de loja das grandes redes. O que eu sabia de fotografia vinha da moda. Então fiz aquele curso para aprender a usar uma câmera e acabei sendo apresentada à fotografia de arte. Eu não sabia nada de arte contemporânea nos anos 1970.

Que reação você teve quando viu o trabalho de Larry pela primeira vez? Foi como descobrir uma alma gêmea, ou foi uma coisa que moldou seu trabalho de alguma maneira?

Não diria que foi uma influência, não. Acho que foi em 1973. Eu estava interessada no lado da droga. Naquela altura, eu já tinha sido e deixado de ser junkie.

Quando você começou a usar?

Logo antes de fazer 18 anos…

Estava curiosa?

Era uma grande aspiração minha.

Você precisa ter metas.

Eu sei, foi o que eu disse. Nas reuniões dos aa, eles sempre falam: “Bom, nenhum de nós queria ser junkie”. E eu sempre falo: “Bom, na verdade eu queria”. E como sou uma workaholic, consegui o que queria. Não foi através do William Burroughs, foi mais através do Velvet Underground. Eu queria ser junkie. Tinha toda uma relação romântica com a heroína.

Então, Tulsa foi uma influência enorme, mas não sobre a maneira como olho ou fotografo as coisas. Nunca ninguém me influenciou realmente nisso. Nunca tentei tirar fotos como algum outro fazia. Mas Tulsa foi uma permissão. A ideia de que eu podia fazer um trabalho que fosse mais pessoal, não tão objetivo. A Balada provocou uma grande mudança no mundo da foto, mas Tulsa tinha provocado uma grande mudança em meu mundo. Não sei por que não foi reconhecido como merecia. Talvez fosse avançado demais para a época.

Larry era uma espécie de clássico underground. Uma vez, ele me contou que Lou Reed costumava ficar do lado de fora do prédio onde morava, no West Village, com um exemplar de Tulsa. Larry só achava o cara um pouco estranho, até que um dia, por alguma razão, vieram a se falar. Ao que parece, Reed tentou que Andy Warhol incluísse algum material de Larry na revista Interview, mas Warhol disse: “Ah não, é real demais”.

Não sei o quanto ele era clássico em 1972, quando Henry me apresentou ao trabalho dele. Pois aquele livro foi feito em 1971. Larry teve uma enorme influência em mim, e sempre lhe dou os créditos por isso. Ele falou publicamente coisas bem ruins sobre mim, mas tudo bem. Estava morando com as drags e tinha tirado um monte de fotos delas em preto e branco, das quais algumas foram publicadas. Fui estudar porque queria pôr as drags na capa da Vogue.

Por que você acha que ele fez isso?

Quando fiz uma retrospectiva da carreira no Whitney, em 1996, ele falou que montei a foto de mim mesma espancada, que pus uma peruca e me produzi. Penso que o fato de eu estar usando batom é trágico, quando olho a foto. Quer dizer, foi um mês depois de eu ter sido espancada, e estava em Buffalo dando uma palestra porque precisava dos 500 dólares ou o que fosse, e foi um mês depois da cirurgia, e meu olho caiu, e tive de voltar correndo para o hospital e passar por outra cirurgia. Então a ideia de que eu tinha me produzido era ridícula.

As pessoas sempre te comparam com o Larry, mas para mim é como misturar alhos com bugalhos.

É uma coisa em que a questão de gênero pesa muito, creio eu. Não me importo que me chamem de artista mulher. Além disso, não creio que a relação dele com as pessoas em Tulsa fosse lá grande coisa. Creio que acabaram processando ele. Mas isso também aconteceu quando a Balada saiu. Tinha gente que não queria que suas imagens fossem usadas, pessoas que estavam passando pelo processo de criar uma vida nova ou com raiva de mim por ter uma voz pública. Então eu retirei as imagens.

Para mim, todo o mecanismo psíquico é outro. O trabalho de Larry está mais no âmbito do id, é uma série de identificações narcisistas. Já o seu tem mais a ver com o luto e a melancolia. O fato de que você estava fotografando seu ambiente e ele o dele é uma questão secundária. É apenas o tema.

É, mas esta foi a grande novidade. Muito à frente da época. Não havia mais ninguém lançando livros como Tulsa. Paul Strand, Walker Evans, Harry Callahan, esses eram os astros no mundo da fotografia. Então, Larry era um autêntico renegado. E foi realmente o primeiro a lançar um livro como aquele, feito a partir da experiência pessoal. E a Balada foi o que veio a seguir. Não apareceu nada no meio. Para mim, é realmente muito importante que meu trabalho ajude as pessoas. Acho que Larry jamais se importou com isso.

Você acha então que o trabalho do Larry é mais niilista?

Pura autoexpressão, e dane-se o público.

Quando você diz “o id”, está falando do inconsciente?

Isso. Vejo o trabalho do Larry como o resultado de uma regressão a comportamentos arcaicos e operando no campo do id.
É disso que tratam os filmes dele.

Você gosta dos filmes dele?

De Kids (1995), não gosto. Gosto de Juventude violenta (2001) e de Kids e os profissionais (1998). Kids é cheio de chavões, e além disso é feio e maldoso. É tudo muito chapado. Todos os personagens são sórdidos e mesquinhos.
Queria dizer mais uma coisa sobre o Larry. Creio que, talvez para muitos de nós, apareçam partes nossas que nem sabemos que estamos mostrando em nosso trabalho. Partes que não aparecem de outra forma. Larry parece estar sempre procurando a aprovação do pai. Como se quisesse voltar atrás para ser como aquele pessoal. Ele não tem a ligação profunda com seus temas como eu tenho. Ele não se limita a fotografar skatistas, ele mesmo anda de skate aos 50 anos.

Larry teve alguns problemas iguais aos seus por mostrar imagens de adolescentes transando e se drogando. Lembra a exposição dele, Diga olá ao passado, no Palais de Tokyo, em Paris, em 2010?

Eu estava lá.

Eu também, mas não consegui entrar porque bloquearam tudo. E o prefeito de Paris falou que nenhum menor de 18 anos podia entrar.

Chega a ser irônico, pois os garotos nas imagens do Larry têm menos de 18. Isso também aconteceu comigo. Desde os anos 1980, colocam aviso em minhas mostras. O melhor foi o da Fundação Lambert, em Avignon. Tinha um cartaz dizendo: “Meninada, preparem seus pais. Talvez eles não estejam preparados para essa obra” ou “Todos os pais devem estar sob a supervisão dos filhos”. Maravilhoso.

É um momento conservador no mundo inteiro. As pessoas não entendem o trabalho do Larry. Acham que está expondo imagens pornográficas de adolescentes. Muitos dizem: “Ah, é um pedófilo”.

Também dizem isso de mim. O governo britânico me chamou de pedófila, e teve de vir o Elton John me defender. Crianças são lindas, mas agora é perigoso falar qualquer coisa sobre elas. Mesmo com amigos, a linguagem tem de ser…

Cuidadosa. Eu estava com um amigo brasileiro no Chelsea, almoçando numa mesa grande, coletiva. O garoto ao lado da gente começou a fazer caretas e sorrir para nós. Meu amigo devolveu o sorriso e começou a conversar com ele, e a mãe encarou a gente, tipo: “Fiquem longe do meu menino”.

“Ou chamo a polícia.” Virou uma caça às bruxas. É assim que é comigo, mesmo sendo mulher. Vivo puxando conversa com crianças, e as mães me olham como se eu fosse raptá-las. Não sou homem, então não podem me imaginar como pedófila, aí me imaginam como sequestradora.

Quando você é, na verdade, uma bruxa.

Sou mesmo. Obrigada. Tomo como um grande elogio.

A ideia da sexualidade latente nas crianças passa longe. Ficou uma coisa totalmente inaceitável. Faz pouco tempo, você publicou um álbum de fotos infantis, Éden e depois (2014). Quais eram suas intenções?

Em meu trabalho recente, tento comentar como as crianças são sexualmente polimorfas, e as pessoas me olham horrorizadas. As duas meninas que estão na imagem que me deu fama de “pedófila”, as duas irmãs dançando, são minhas vizinhas em Berlim. Estavam 100% envolvidas naqueles momentos e adoraram. Elas adoram as fotos e me adoram. Não havia nenhum tabu. São filhas de meus amigos e não são criadas dessa maneira. E todos nós rimos com as fotos. As que eu não expus são ainda mais incríveis. E teriam sido ainda mais mal interpretadas. Aconteceu no Brasil, com minha mostra no Rio de Janeiro.

Li outro dia que tentaram aprovar uma lei na França obrigando os professores a contar a história da Chapeuzinho Vermelho como menino e o Lobo Mau como menina… O argumento é que você não pode ter essa menina medrosa na floresta porque reforça os estereótipos de gênero.

Estou tão cheia de tudo isso… Eu era contra o uso de pejorativos para raças ou qualquer coisa assim, mas esse stalinismo que acabou surgindo não tem nada a ver. Estou farta do politicamente correto. Não estou nem aí para o que eu digo. Não estou mesmo. Em certo sentido, creio que fui uma predecessora do politicamente correto.

Em seu trabalho?

Cresci com o movimento feminista. Sempre apareci como bissexual, sempre vivi com gays ou drags. Nunca deixei que ninguém usasse uma linguagem que fosse pejorativa. Mas é isso, e só. Todo o resto é ridículo.

Houve uma mudança dos anos 1960 para os anos 1990. Passou-se da ideia de se libertar da opressão e da interferência dos outros para a adesão às atitudes e códigos corretos.

Vivi cerca de um ano na comunidade separatista lésbica em Provincetown [Massachusetts]. Naqueles tempos, só eu usava batom ou pérolas, então elas me chamavam de “perolinha”. Só eu usava salto alto. Ah, se eu fosse jovem agora, quando todas as lésbicas são tão gostosas. Mas, naqueles tempos, todo mundo usava camisa de flanela, tomava chá de ervas e fazia massagem – gosto de massagem, mas era essa a vida delas. Camisa de flanela marrom.

O mundo gay ficou muito careta.

Quando conheci a Cookie [Mueller], ela estava com a Sharon [Niesp] fazia anos, mas também queria ficar com um cara. E eu entendia plenamente. Ela não vivia no mundo lésbico, vivia no mundo masculino gay. E foi onde cresci.

Você se identifica mais com os homens gays do que com as mulheres lésbicas?

Ah, sim. Acho que sou um gay negro com corpo de mulher. No começo – com 17, 18, 19 anos – vivi como drag queen. Foi o que formou minha identidade. Eu não tinha nenhuma percepção de mim mesma como mulher, como algo separado. E não me arrependo nem um pouco.

Você tinha namorados nessa época?

Tinha, mas eles não gostavam, então deixei de ter.

Você se sentiu atraída por mulheres desde cedo?

Desde muito cedo. A gente fazia aquelas festas do pijama no subúrbio, em que todo mundo dormia na própria casa, e eu levava aquilo muito a sério [risos]. As outras garotas ficavam escandalizadas de ver o quanto eu levava a sério.

Que idade você tinha quando beijou uma garota pela primeira vez?

Tinha 12, 13 anos. Àquela altura, já tinha tido experiências sexuais com um cara. Muito mais velho que eu. Isso aos dez anos. Não sei se lamento ou não. Ainda não me decidi.

Você era muito nova?

Era, mas estava apaixonada. Coisa que acontece muito com meninas novas quando são seduzidas por caras mais velhos. Elas se apaixonam.

Vamos voltar à fotografia. Você não teve formação específica em fotografia.

Isso. O que tenho é uma noção de cor e uma noção de enquadramento, mas não foi uma coisa que aprendi. É totalmente autodidata ou só… instintivo.

É uma artista que por acaso usa uma câmera.

Meu trabalho não é mais tão antifotografia. Agora tem muito mais beleza.

E por que isso?

Talvez brandura. Eu me abrandei com o tempo. O principal é que eu costumava viver no escuro e na noite cerrada, e assim tudo era com muito flash. Agora não gosto de flash, nem um pouco. Então acho que tem uma diferença enorme no espectro de cores e tem luz no trabalho. E isso começou nos anos 1980.

Isso reflete uma mudança de sensibilidade, de atitude sua em relação ao mundo?

As duas coisas. Começou em 1989, quando eu tinha acabado de sair da reabilitação e descobri a luz do dia. Fazia uns dez, 15 anos que eu não via a luz do dia quando fui para a reabilitação. Nos anos 1980, costumava levantar faltando 15 minutos para as três da tarde, para dar tempo de ir ao banco, pois não existia caixa eletrônico. Depois, quando começou a ter caixa eletrônico, eu ficava acordada a noite toda e dormia o dia inteiro, anos, anos e mais anos. Nos últimos dois anos, entre a Balada e a reabilitação, vivi em isolamento completo.

Você mencionou a Diane Arbus como parte desse triunvirato de fotógrafos. Quando conheceu o trabalho dela? Foi na mostra do MoMA em 1972?

Quem me apresentou ao trabalho dela foi aquele cara, o Henry Horenstein. Eu morava com as drags, e elas detestavam a Arbus por causa da maneira como ela fotografava as drags. Eu também detestava. Ela tinha essa necessidade de despir as pessoas. Não conseguia respeitá-las como eram. O trabalho dela, a meu ver, vem de uma patologia profunda, muito profunda, de tentar se pôr na pele do outro, literalmente. Isso é o genial do trabalho dela, mas não respeita algumas coisas que eu respeito.

Como assim?

Bom, também não tenho nenhuma fronteira. Mas sempre adorei as drags. Nunca enxerguei uma drag queen como um homem vestido de mulher. Nunca. Nunca me passou pela cabeça. E para ela, muitas vezes, é uma tentativa de revelar alguma coisa. Uma maneira de mostrar quem ela é, penso eu, seu sofrimento, sua busca pessoal de uma identidade. É o que sinto quando olho seu trabalho.

Cada fotografia é um enfrentamento.

Isso de se experimentar na pele dos outros é que é legal nela. Raríssimas pessoas têm a capacidade de criar empatia ou… não sei se ela se põe numa posição de empatia, mas essa capacidade de tentar sentir ou a curiosidade de sentir o que outra pessoa sente é muito rara.

Creio que ela via a identidade como algo intrinsecamente traumático.

Concordo. Ela fotografava pessoas que tinham traumas, mas nunca considerei as drag queens traumatizadas. Não eram homens e não eram mulheres. Eram uma espécie própria, e isso era verdade desde que eu era menina. Então, também tenho problemas com o trabalho dela. Mas tenho algumas coisas suas. Comprei o Homem de trás pra frente (1961). Sempre gostei dele. O mais importante para mim – e se eu pudesse ter um que não tenho e provavelmente nunca terei – é o Gigante judeu em casa, com os pais (1970). É lindo e comovente, realmente de muita empatia. Então muitos deles parecem quase autobiográficos. Dei uma Arbus de presente às irmãs Rodarte. Aquela do cenário hollywoodiano vazio com cisnes no lago… Muito sombria. Sempre acho que um presente deve ser uma coisa de que você gosta especialmente.

O que você pensa sobre a série Sem título (1970-71)?

Ah, adoro. Muita gente tentou fazer aquilo. Assim como muita gente fotografou muito mal drag queens nos anos 1970 e 1980. Peter Hujar fez um trabalho parecido nos anos 1970, mas era incrível. Ele fotografou num daqueles lugares para cegos. São fotos espantosas. Hujar nunca recebeu nem de longe a atenção que merece, porque não há nenhum sensacionalismo no que ele faz.

Tenho amigos que foram fotografados pela Arbus, e eles dizem que ela esperava até revirarem os olhos ou fazerem alguma coisa que parecesse levemente bizarra, e aí tirava a foto. Achavam que ela era um pouco voyeurista e vicária, tentando deixar as coisas esquisitas. Mas não é o que você vê em seus grandes trabalhos. O trabalho em 35 milímetros de crianças, desde o começo, é incrível.

Warhol foi uma referência importante para você? O que acha dos filmes da Factory?

Os filmes dele, a casa de Warhol. O ateliê. A coisa toda. Os warholianos despertavam meu interesse bem mais do que o próprio Warhol.

Aquela foto do Rene Ricard fumando crack que aparece na Balada é incrível.

Ele era gênio. Conheci o Rene aos 17 anos, por aí, no passeio público de Boston. Ele veio até mim e perguntou: “O que você acha de aparecer em Minha pequena Margie [seriado televisivo dos anos 1950]?”. Eu nunca tinha visto. Ele estava me escalando para um Warhol, e eu era tímida demais para aquilo. Ele queria que eu fosse a Nova York fazer um teste para a filmagem ou coisa assim. E nunca vi a exibição. Foi como conheci o Rene, e a gente sempre se adorou, mas ele dava um pouco de medo. Foi uma das pessoas mais inteligentes que conheci, e tinha uma língua que era uma arma carregada, como ele dizia. Então ele realmente assustava um pouco.

Você quer dizer maldoso?

Brilhante. Se o cara é maldoso, mas é burro, é o mesmo que nada. Só faz diferença se o cara é inteligente. Ele não controlava muito bem a coisa. Mas foi também uma das pessoas mais amorosas que conheci. Uma noite, passei por uma crise séria, fui presa etc. e tal… Quando saí da cadeia, estava que era um trapo, e ele veio, ficou comigo a noite toda, eu histérica por ter sido presa, e ele sempre no maior amor e respeito por mim. Mas falava coisas maldosas sobre todo mundo.

Era a personalidade dele, como o escorpião. Gary Indiana me contou uma grande frase do Rene: “Olha, alguém tem de foder o Andy Warhol”.

Ele era único. Bom, voltando ao povo do Warhol. Como jovem adolescente, eu era maluca pela Viva, Candy Darling, Jackie Curtis, depois que vi A revolta das mulheres (1971); Holly Woodlawn, Ultra Violet e Andrea Feldman, que se matou. Era meu sonho, o ambiente da Factory.

As mulheres na Factory eram muito interessantes, enquanto os caras heterossexuais não tinham interioridade nenhuma. Veja-se Joe Dallesandro.

Pois é. Ele era um objeto. Existem muitas teorias sobre o controle do Warhol sobre as mulheres – quase como o Charles Manson, por quem também sou obcecada.

Warhol parecia viver uma idealização extrema, depois seguida por uma desilusão total com essas mulheres, e aı´ as descartava brutalmente. A mesma coisa se repetia sempre. Edie era sua deusa, até ele enjoar dela. Viva endoideceu quando Warhol deu o fora nela. Para não falar de Valerie Solanas.

Li o Manifesto scum (1967), de Solanas, quando saiu. Tenho o original em algum lugar. “Um homem é capaz de atravessar um pântano de muco e mijo para conseguir a buceta de uma mulher.” Eu adorava isso. Ainda adoro.

Vamos falar de Jack Smith. Quando você viu Criaturas flamejantes (1963)?

Eu estava com 15 anos, e fui para aquela escola hippie gratuita. David Armstrong e eu íamos ao cinema todo dia, ou três vezes por semana. Estava passando Criaturas flamejantes no Boston College, fomos assistir, foi incrível. Ainda considero uma obra-prima, e a trilha sonora também… Eu me lembro claramente daquela sessão. Nas outras vezes que vi depois, não foi a mesma coisa.

Quando era adolescente, minha maior influência foi o cinema. Principalmente diretores italianos, e também Warhol e Paul Morrissey, que dirigiu os últimos filmes da Factory, Carne (1968), Lixo (1970) e Calor (1972). Vi inúmeras vezes. O mesmo com Fellini e Antonioni. Antonioni só melhora. Com Fellini, a primeira vez é sempre a melhor. Mas Satyricon… Na adolescência, David e eu vimos Satyricon umas dez vezes. A gente se vestia como os personagens. Agora, bem neste momento, vejo uma relação na minha cabeça, flashes de relação entre Satyricon e Salò, do Pasolini.

Bom, então conheci Jack Smith só por cima. Se ele ainda estivesse vivo, provavelmente nem lembraria meu nome. Havia um lugar chamado Rafiq’s, de um palestino. Nos anos 1980, eu fazia uma projeção de slides lá a cada duas semanas, ou a cada dois meses. Eu levava o projetor e ficava segurando na mão durante toda a projeção, e a lâmpada queimava, e eu ia correndo até minha casa para pegar outra, e o carrossel dos slides encrencava. O público inteiro consistia nas pessoas das fotos. Era para elas que eu fazia a projeção. Era como um filme caseiro. E retirava as fotos quando a pessoa ficava brava por não ter saído bem. Todo mundo tinha uma espécie de…

Opinião?

Não. Elas apagavam ou censuravam as imagens com base na vaidade própria.

Parece muito colaborativo.

É, era sim. Foram diversas pessoas em diversas épocas da minha vida que me ajudaram a montar as diversas versões. Cada versão era diferente da outra. Às vezes tinha uma hora e meia, outras vezes 20 minutos. Por muitos e muitos anos, as drag queens em preto e branco estiveram no meio disso. Esses slides realmente bizarros que eram feitos a partir dos negativos, sendo que já havia um novo processo para isso. Então eram muito contrastados, arranhados e pareciam bem velhos. As drags apareciam entre os capítulos sobre os homens e as mulheres. Me lembro de gente dizendo que era sua parte preferida da projeção. E aí, em meados dos anos 1980, François Hébel, que na época dirigia os Encontros de Arles, me convidou para apresentar a Balada lá, e sugeriu que eu retirasse as drags. Ele pensou que eu ia ficar louca da vida com ele, mas na verdade achei a ideia interessante. Então, agora há uma projeção separada de slides das drags, e a Balada ficou muito mais concentrada em homens e mulheres.

A Balada sempre teve um componente musical?

Sempre. No começo, eu tinha um namorado que sabia tudo sobre vinis e colocava discos para tocar. Era um dj já em 1980, tocando discos para a Balada. Não se tornou dj, mas era tipo um esboço de dj num tempo em que isso não constituía a habilidade mais suprema que você podia ter, como é agora.

A Balada se transformou no testemunho de toda uma geração. É uma máquina do tempo de um momento cultural irremediavelmente perdido. Quando você fez a primeira versão, de 1981…

Não é só a época. São as pessoas que estão irremediavelmente perdidas.

…você não estava pensando naquela qualidade quando mostrou a primeira versão, em 1981.

Não, porque todo mundo ainda estava vivo.

Aí veio a crise da aids…

Drogas também. Drogas, hiv, suicídio, câncer. Uma parte disso vem com esse lado de ir envelhecendo, mas a grande questão na crise da aids é que as pessoas na faixa dos 30 anos ainda não perderam toda a sua comunidade. Em geral, isso é uma coisa que acontece muito mais tarde na vida da gente.

Sei que você coleciona relicários religiosos. Para mim, a Balada veio a ter essa aura de um relicário fotográfico amplo… Vestı´gios e presenças de pessoas. O formato de projeção de slides é como uma reanimação que traz de volta essas pessoas, que agora existem apenas como imagens.

A maioria das imagens na Balada é, na verdade, pré-aids. No dia em que ouvimos falar pela primeira vez de aids, estávamos em Fire Island, lendo algum artigo de revista sobre o novo câncer gay, e caímos na risada. Eu estava com Cookie e Sharon, Bruce Balboni, French Chris e alguns outros. Metade já morreu ou é soropositivo.
Uma parte de seu trabalho mais recente também tem essa qualidade de relicário. Irmãs, santas e sibilas se afasta do tipo de iconografia padrão que as pessoas costumam associar a você.
O trabalho começa com Santa Bárbara, sobre a qual fiz um trabalho enorme, que não está lá. Ficou reduzido a um capítulo bem, bem pequeno. Mas passei cerca de um ano percorrendo toda a França e a Itália atrás de Santa Bárbara, e até os Estados Unidos. Só no Natal é que percebi que a melhor pintura de todas estava em Lisboa. Mas, fotografando, fiquei com um material imenso sobre Santa Bárbara, em 4 de dezembro, dia de sua morte, na Catânia, Sicília, onde há uma enorme procissão de Santa Bárbara nesse dia. Filmei durante três dias, uma filmagem incrível. Fui a lugares onde as freiras supostamente tinham pedaços dos ossos dela. Fui a cada um dos lugares onde Santa Bárbara viveu, onde era venerada ou onde havia pinturas e imagens dela. Não era tão conhecida assim, e olha que acompanho um monte de santos. Tenho um monte de imagens de Santa Bárbara. Então, ela era como que o ponto central do trabalho.

Originalmente, foi encomendada para o Hospital da Salpêtrière, em Paris, onde Charcot desenvolveu seu trabalho sobre a histeria. Também tinha a ver com minha irmã [que se chamava Barbara], que vivia sendo internada. Além disso, havia uma torre na igreja do hospital relacionada com Santa Bárbara, e toda a história em torno dela tem a ver com uma torre. Então foi isso que deu base a todo o projeto do cenário. Para mim, aquele trabalho só foi apresentado duas vezes, em Salpêtrière e em Arrou, numa igreja do século 12 que também tinha uma torre. É uma instalação.

A Balada tem um elenco variável de personagens, mas Irmãs, santas e sibilas gira em torno da díade composta por você e sua irmã. As imagens das feridas que você inflige a si mesma, com queimaduras de cigarro no braço esquerdo, são pungentes. Parece uma espécie de luto, quando os sentimentos negativos se interiorizam e atacam o ego, mas também parece uma identificação com sua irmã, que te permite conservar a imagem interiorizada dela.

A perda de minha irmã piora com o tempo. A sociedade americana nos dá dois meses para superar a morte de alguém. Talvez a gente nunca supere. Depende de quem e como, mas o suicídio é de uma espécie muito peculiar, pois pode te levar a perguntar: “O que eu poderia ter feito?”.

Uma morte por câncer é como a mão de Deus ou força maior, enquanto…

O suicídio é uma escolha, mas uma escolha sobre a qual os outros sentem que podiam ter influído. Quer dizer, todo o meu lance aos 11 anos de idade, quando rompi com minha família, foi que eu sentia que era escolha dela, e todo mundo tentava tomar a responsabilidade para si. Mesmo que fosse por um terrível sentimento de culpa, de alguma maneira eles estavam mais uma vez tirando sua autonomia, que nunca lhe permitiram ter. A coisa de maior autonomia no mundo é o suicídio. É a única escolha verdadeira que temos em nossa vida.

Você pensa muito em suicídio?

Às vezes. Pensei diariamente nisso durante a maior parte da minha vida.

O que te impediu de se suicidar?

Ah não, dá um tempo, né, rapaz [risada]. De fato, foi provavelmente o que me permitiu sobreviver. Ter algo a que recorrer.

O sentimento de que você pode simplesmente pôr um fim na coisa é libertador. Sentir que ainda tem controle pelo menos sobre isso.

Verdade. Esse pensamento pode ajudar a atravessar períodos realmente ruins, mas também pode se tornar um horror em si mesmo, quando você convive com ele como um impulso diário. Passei por um período em que me recuperei disso por um tempo e aí volta, vai embora, volta outra vez. Costumava ser uma decisão diária, e aí há meses em que não penso nisso, às vezes até muitos meses em que não penso nisso. As coisas que me moldaram mais profundamente aconteceram em torno da morte de minha irmã e de tudo o que aprendi em poucas horas sobre a maneira como funciona a sociedade, como funciona a família. O grau de negação era inacreditável. Refiro-me a minha mãe. Ouvi ela dizer à polícia: “Falem para as crianças que foi um acidente”. As coisas que me moldaram mais profundamente aconteceram em torno da morte de minha irmã e de tudo o que aprendi em poucas horas sobre a maneira como funciona a sociedade, como funciona a família.

Ela mentiu.

Era negação. A história da sociedade americana é de negação. Ouvi quando ela falou aquilo, e para mim deu, acabou. Tive um troço, foi isso. Tinha 11 anos e falei para calarem a boca e pararem de falar sobre a culpa deles, que foi escolha dela e que lhe dessem o respeito que ela merecia. Fui a única olhando minimamente para fora de mim mesma. Entende? Porque a culpa é uma coisa muito autocentrada. É dolorosa demais. O sentimento de culpa de meu pai era real, horrível, e permaneceu pelo resto da vida dele. Minha mãe foi diretamente para o revisionismo. Reescreveu a história e ainda continuou a insistir que podia ter sido um acidente.

É um dos grandes tabus na vida, a maternidade. Existe muita pressão para simular uma realização plena, sem conflitos, quando na verdade pode ser uma coisa psicologicamente muito complexa para a mãe. A mãe que tem um filho e não quer ter, ou quer se livrar dele ou até matá-lo. Jenny Holzer fez um trabalho sobre isso. Pega bem esse terceiro trilho.

Terceiro trilho. Gostei disso. Bonito.

Quando um trabalho toca no conteúdo latente.

Não me interesso pelo trabalho que vem da cabeça. Exceto algumas coisas de Duchamp.
Marcel Duchamp é como Warhol, no sentido de que as pessoas usam o exemplo dele como uma autorização para fazer o que fazem.
Não me interesso em refazer o trabalho de outros artistas. Não faço isso nem com meu próprio trabalho. As pessoas não entendem direito a natureza da influência. Muitos cineastas, artistas visuais e escritores também abriram minha cabeça, mas nunca tentei ser nenhum deles.

Uma parte do problema, hoje em dia, é que o mercado é forte demais.

É o que existe hoje em dia. Tudo é um mercado de futuros. Não existe o mundo da arte, só o mercado financeiro. É pavoroso. Como ficar observando a mudança climática. É tarde demais, não podemos fazer nada com a mudança climática, e não sei se podemos fazer alguma coisa a esse respeito também.

Você vai muito ao cinema em Berlim?

Às vezes, mas aqui não tenho amigos de cinema. Estão passando os filmes favoritos de Susan Sontag em Berlim. Um deles é um dos meus favoritos também, realmente obscuro, mas agora está com legenda em inglês. Chama-se Condenação (Verhängnis, 1994), que significa “destino”, e foi feito por Fred Kelemen, aluno de Béla Tarr. Superlento, supersombrio, em termos tanto visuais quanto emocionais. Sombrio até onde dá.

Então você está no clima para ele.

Sempre estou no clima para isso, meu querido.

Sontag não faz meu gênero. Gostava de alguns ensaios dela dos anos 1960.
Bom, ela foi a pessoa mais inteligente que conheci na vida. Mas também uma das mais frias. Mantivemos uma amizade em Berlim, com altos e baixos, por algum tempo. Robert Wilson também… Uma vez teve um coquetel em meu apartamento em Berlim com Robert Wilson e Susan Sontag, e você não conseguia nem respirar. O ego deles era tão grande que…

Não sobrava oxigênio para mais ninguém?

Exato. Uma vez ouvi Susan Sontag conversando com meu querido amigo Oswald, e ela dizia: “Bom, elas são burras, mas têm uma inteligência visual”. Estavam falando de mim e da Annie Leibovitz. Nem me magoou. Só achei engraçado. Quer dizer, não me considero parte do mesmo clube cerebral da Annie Leibovitz, me desculpe. Para Susan, eu não tinha inteligência suficiente porque não me lembrava de fatos que não me interessavam. Outra vez jantei com a Susan, e então fomos encontrar a Annie no Paris Bar, e estávamos atrasadas. Quando chegamos lá, a Annie estava muito chateada por ter ficado ali sozinha. Aí a Susan falou para ela: “Mas qual o problema? Você não tem vida interior?”. Creio que é uma das coisas mais cruéis que ouvi alguém dizer a outro alguém, que supostamente é seu amante.
Imagino que é o tipo de coisa que a gente nunca esquece.

Ex-viciados ou viciados na ativa lembram cada detalhezinho do que ouvem.

Você se sente numa rememoração total?

Não, antes fosse. Morro de inveja. Quando eu era viciada, anotava tudo. Tenho volumes e mais volumes de notas. Escrevia enquanto trepava, para você ter uma ideia.
Devia ser realmente irritante para o cara ou a garota, dependendo de quem estava ali na hora.

[Risada] Era sim, mas se acostumavam. Não, não completamente. Mas eu escrevia durante todas as conversas. Ia para o banheiro e escrevia e, sabe, escrevia todas as palavras que ouvia. Estava preocupada com minha memória. E aí parei de repente.

Você gravava compulsivamente as pessoas, como Warhol?

Não, mas ainda tenho as fitas da secretária eletrônica dos anos 1980. Tenho um monte de mensagens da Cookie. Fiquei sem ouvir as mensagens durante dois anos, porque as coisas estavam muito no ar. Desde a época em que a Balada saiu até 1988, não ouvi minha secretária eletrônica. Mas gravei tudo. Então, alguma hora quero voltar a elas. Quando morrer, quero que queimem meus diários.

Melhor você mesma queimar, pois do contrário não serão queimados.

Dizem que as pessoas mantêm diários só para serem lidos. O meu é o contrário.

A gente anota as coisas para se livrar delas. Foi algo que você pegou na escola?

Em Boston, frequentei uma escola que seguia a linha Summerhill. Foi lá que conheci o David. Era uma escola experimental. É um sistema de ensino basicamente sem cursos nem aulas. Muitos dos professores eram estudantes de pós-graduação no mit e nos davam câmeras Polaroid. Fiquei imediatamente obcecada com a coisa, e logo virei a fotógrafa da escola. Então eu tinha um papel. Era muito tímida, mas sabia tirar fotos.

Você sempre foi tímida?

Teve um período em que era tão extremamente tímida que chegava a doer. É isso que estou dizendo, fiquei literalmente sem falar por cerca de um ano, quando David me conheceu. Falava num fiapo de voz. Eu teria muito mais popularidade se tivesse continuado assim. [Risos] Mesmo. Não, nada excita mais os homens do que uma garota tímida. Mas superei minha enorme timidez ao perceber que outras pessoas eram tímidas e ao tentar ajudá-las. Estou pensando em escrever um livro de autoajuda. Com outro nome. Mas vou ganhar uma fortuna.

Uma segunda carreira.

Você sabe que meu trabalho tem a ver com isso?

É também uma autoterapia?

Para mim, sim, mas é também para ajudar os outros. Tenho complexo de Pigmalião.

Gosta de refazer os outros?

Não. Gosto de levá-los ao que têm de melhor. Gosto de lhes mostrar quem são.

Louise sempre dizia que as pessoas têm de elevar-se ao seu potencial máximo. É muito simples, mas é verdade. Cada um tem um potencial próprio. E essa é a história da vida.

Mas muitas vezes vejo isso na pessoa e ela não vê em si mesma. Então é uma maneira de fazer a pessoa sair do armário, não sexualmente, mas sair de si mesma.
Você está falando de identidade.

Estou falando do teu senso de um eu, de aceitar, na verdade de reconhecer como você é bonito. É esse o meu trabalho, sempre foi. I’ll Be Your Mirror. O título parece idiota, mas é isso mesmo. Vou ser teu espelho para te mostrar como você é bonito. Vou ser a luz à tua porta para te ajudar a encontrar o caminho de casa. Esse é o meu trabalho. Devolver as pessoas a si mesmas, como se estivessem perdidas.
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Nan Goldin (1953), fotógrafa norte-americana, é autora de A balada da dependência sexual (1986) e Scopophilia(2010), entre diversos outros trabalhos.
Philip Larratt-Smith (1979), canadense, é curador de exposições de arte contemporânea e vive entre Nova York e Copenhague.

Traduzido do inglês por Denise Bottman.
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Entrevista de Philip Larratt-Smith publicada originalmente no site da revista Zoom (www.revistazum.com.br), em 03/10/17.

Exposição Histórias da Sexualidade, em cartaz no MASP, bate recorde de visitação

Nos quatro primeiros dias de exposição, o museu teve um total de 11.000 visitantes, o que representa mais que o dobro em comparação com o mesmo período no ano passado. Matéria publicada originalmente no site do Glamurama (www.glamurama.uol.com.br). +

A abertura da exposição “Histórias da sexualidade”, no dia 19 de outubro, foi a mais movimentada deste ano no MASP, com a presença de 1235 pessoas. Além disso, nos quatro primeiros dias de exposição, o museu teve um total de 11.000 visitantes, o que representa mais que o dobro em comparação com o mesmo período no ano passado. Os números justificam as filas na área externa do MASP e também do lado de dentro – algumas vezes a fila se estende pela escada que liga o primeiro ao segundo andar.

Uma vez dentro da exposição, o congestionamento maior acontece na última sala, exatamente onde se encontra o quadro “Cena de interior II”, de Adriana Varejão. A tela foi um dos pivôs do cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que estava em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre. O quadro de Varejão foi acusado de fazer apologia a pedofilia e a zoofilia. A exposição segue em cartaz até o dia 14 de fevereiro de 2018. Agende-se!
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Matéria publicada originalmente no site do Glamurama (ww.glamurama.uol.com.br).

Advogados se unem para tentar barrar censura a menores em exposição no Masp

Artistas e movimentos sociais se reuniram em frente ao Masp para defender a abertura a liberdade de expressão e a arte durante a abertura da mostra Historias de sexualidade, restrita a maiores de 18 anos. +

Um grupo independente de 18 advogados composto por penalistas, constitucionalistas e representantes de galerias está se mobilizando para propor um novo sistema em que os próprios museus e exposições definirão em conjunto critérios para a classificação etária de suas mostras de artes visuais.

Encabeçado pelo escritório Hesketh Advogados, de São Paulo, o grupo quer fortalecer o diálogo na arte e derrubar a classificação etária de 18 anos da mostra “Histórias de Sexualidade”, definida pelo Masp após uma série de protestos que atingiram exibições como a “Queermuseu", de Porto Alegre, e a performance “La Bête”, no Museu de Arte de São Paulo (MAM), acusadas de promover pornografia e a pedofilia.

Atualmente, por analogia, as instituições de arte aplicam a portaria nº 368 do Ministério da Justiça, que legisla especificamente sobre o audiovisual. Nesse caso, quando existe indicação de 18 anos, menores de idade são proibidos de entrar em cinemas mesmo acompanhados de pais ou responsáveis. Esse é o caso da exibição do Masp, que também seguiu o Guia Prático de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça.

“Se você pegar esse manual, percebe que a indicação é apta apenas para obras audiovisuais, sem se aplicar à arte em si, que carece de legislação. A lei faz analogia, mas não é própria. Por isso o diálogo entre as instituições é tão importante”, diz ao UOLa advogada Lisiane Pratti, uma das responsáveis pelos trabalhos. “Nossa ideia é consolidar um manual, um conceito de classificação próprio às artes. Ela vai continuar existindo, mas com os pais podendo delimitar a entrada ou não.”

Neste primeiro momento de discussão, os advogados estão mapeando projetos de lei estaduais sobre o tema, propostos no calor da discussão sobre as mostras, para alertar sobre possíveis inconstitucionalidades. Segundo relatório assinado pelo grupo nesta terça (24), 13 propostas de 12 Estados apresentadas recentemente no Senado e Câmara dos Deputados ferem a constituição.

“Basicamente, elas dão espaço aos Estados legislarem a classificação indicativa, mas só quem pode agir é a esfera federal”, entende o grupo, que ainda pretende ouvir representantes de museus, galerias e exposições antes de encaminhar parecer a autoridades, o que deve acontecer até o fim deste ano. "O leque pode envolver questionamentos ao judiciário, mas ainda não sabemos."

“Diante desse cenário, é fundamental que seja iniciado amplo debate, envolvendo museus, galerias e demais instituições culturais, no tocante aos critérios que devem ser considerados para a aplicação da classificação indicativa às artes visuais, avaliando-se, inclusive, a adequação do já existente Guia Prático de Classificação Indicativa, elaborado pelo Ministério da Justiça”, escrevem os advogados.
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Matéria originalmente publicada no portal do UOL, em 26/10/17.

Assembleia proíbe representação de ato sexual e nudez em exposição no ES

O texto foi elaborado pelo deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). Como justificativa, o deputado afirma, no próprio PL, que o objetivo é “a promoção do bem-estar das famílias”, e é descrito como “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a nudez humana”. O projeto agora segue para sanção ou veto do Governo do Estado. Matéria de Manoela Albuquerque e Kaique Dias publicada originalmente para o portal do G1 ES, em 23/10/17. +

Um projeto de lei que proíbe pornografia e nudez em exposições artísticas e culturais em espaços públicos no Espírito Santo foi aprovado pela Assembleia Legislativa. A votação aconteceu em regime de urgência, na tarde desta segunda-feira (23).

O texto foi elaborado pelo deputado estadual Euclério Sampaio (PDT). Como justificativa, o deputado afirma, no próprio PL, que o objetivo é “a promoção do bem-estar das famílias”, evitando constrangimento aos cidadãos.

“Não se trata de punir manifestações quaisquer, senão as de natureza sexual que possam causar constrangimento aos cidadãos de diversas idades, crenças e costumes, portanto, o que se pretende com a matéria é a promoção do bem-estar das famílias do Espírito Santo”, escreveu.
No PL, o teor pornográfico em exposições é descrito como “expressões artísticas ou culturais que contenham fotografias, textos, desenhos, pinturas, filmes e vídeos que exponham o ato sexual e a nudez humana”.

A proibição, segundo o texto, não se aplica aos locais cuja exposição tenha fins estritamente pedagógicos.

Se sancionada a lei, o descumprimento acarretará em multa de R$ 3.186, 50, que pode ser duplicada, em caso de reincidência.
O projeto foi formulado no Estado após a performance de um de um artista nu no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo gerar polêmica. Um vídeo que viralizou no Facebook mostra quando uma criança de aproximadamente quatro anos toca no pé do homem.

A votação

O deputado Euclério Sampaio entrou com um requerimento de urgência do projeto, que foi aprovado.

A votação foi única no plenário em conjunto, com as comissões de Justiça, Cultura e Finanças dando parecer favorável pelo projeto. Apenas o deputado Sérgio Mageski foi contra o projeto, entre os deputados. Alguns parlamentares disseram que o projeto é “em favor da família”.
Duas emendas ao projeto foram colocadas e aprovadas pelas deputadas Janete de Sá (PMN) e pela deputado Luzia Toledo (PMDB). Uma delas excluiu das proibições obras de grandes artistas renomados e fotos de indígenas e a outra incluiu a necessidade de restringir a participação de pessoas com mais de 18 anos nesses dois casos.

Para o autor do projeto - que agora segue para sanção do Governo do Estado - Euclério Sampaio, o projeto valoriza a vontade da maioria. “A vontade da minoria não pode expor a maioria. Não posso valorizar o que dizem que é arte e não é. Há casos em que pode caracterizar como violência contra a mulher e estupro”, disse o deputado.

No plenário, o deputado citou a exposição em São Paulo e disse que a mãe da criança que tocou no homem nu “deveria ser presa”. Ele se posicionou contra Sérgio Mageski dizendo que “vai ter professora passando batom em menino”. Sampaio citou até o número de mulheres que morrem por estupro no Estado para justificar a ideia do projeto.

Sérgio Mageski, questionou, no plenário, a necessidade do projeto. Ele disse ainda que profissionais da área deveriam ter sido ouvidos na elaboração do projeto e antes da votação.

“A maioria das pessoas não tem acessos às exposições. A violência não é gerada por exposições de arte. Até porque a maioria das pessoas nunca botaram o pé numa exposição de arte. Deveríamos ter ouvido os artistas, ter ouvido o que se pensa sobre isso”, ponderou Mageski.
O deputado Enivaldo dos Anjos (PSD) também citou a questão, apesar de ter votado favoravelmente ao projeto. “Não se pode colocar a culpa das mazelas das sociedades nos artistas. É querer fazer censura”, disse, em plenário.

Artistas contra o projeto

O diretor do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Paulo Sérgio de Paula Vargas, questionou o projeto, em nota, e o classificou como retrógrado e inadequado.

Vargas falou também que haverá dificuldades de aplicação do projeto na prática, “pois não define quem vai julgar se uma determinada exposição artística”. Na opinião do especialista, o projeto pode dar margem a censuras indevidas.

“Do ponto de vista ético não cabe impor limite à arte, pois se assim o fizermos estaremos mutilando o seu princípio fundamental que reside exatamente no livre questionamento do status quo ou dos valores estabelecidos,que suscitam o debate e a reflexão, especialmente sobre a essência da vida e a natureza das coisas”, opinou.

O especialista disse também que impor limites ou censura à arte é próprio de sociedades submetidas a regimes de viés totalitário.
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Matéria de Manoela Albuquerque e Kaique Dias publicada originalmente para o portal do G1 ES, em 23/10/17.

Não pode haver limite à arte, afirma André Sturm, secretário de Doria

André Sturm, secretário municipal da Cultura, defende o MAM e diz que não pode haver limite à arte. "Mas nós temos de tomar cuidado em como a arte é apresentada para a sociedade", afirma. Matéria de Rogério Gentile publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 24/10/17. +

No dia 30 de setembro, o prefeito João Doria (PSDB) criticou uma performance no Museu de Arte Moderna após a divulgação de um vídeo no qual uma criança mexia no pé do artista, que estava nu. Na ocasião, disse que "tudo tem limite" e chamou a performance de "libidinosa".

André Sturm, secretário municipal da Cultura, defende o MAM e diz que não pode haver limite à arte. "Mas nós temos de tomar cuidado em como a arte é apresentada para a sociedade", afirma.

Na entrevista a seguir, Sturm diz que, ao assumir, encontrou uma secretaria aparelhada politicamente e que quase foi agredido por aqueles que tinham medo do que ele pudesse descobrir.

Folha- Ao falar do MAM, o prefeito disse que "tudo tem limite". Há limite para a arte?

André Sturm - De maneira nenhuma. Arte tem de ser livre. A originalidade e a criatividade fazem parte essencial da arte. Ao longo da história, artistas não foram compreendidos e depois viraram ícones. Mas esses são aqueles de que a gente lembra. Há uma série de coisas que não vamos lembrar no futuro. E há as que vamos dizer que tivemos o privilégio de conhecer. Então a arte tem de ser livre. Mas temos de tomar cuidado em como é apresentada. É importante haver classificação indicativa, que não tem caráter de censura, mas de informação. Minha mãe tem 75 anos. Não gostaria de acompanhá-la em uma exposição que tem cena de sexo, ficaria constrangido.

O MAM diz que a sala estava sinalizada. O prefeito exagerou?

Não cabe a mim analisar o que o prefeito fala, mas acho que ele tratava de uma questão mais ampla. De que as coisas precisam ter algum tipo de limite. Não acho que ele tinha todas as informações. Foi pressionado e quis fazer uma manifestação. Para mim, o que ele defende é um limite entre a arte e o acesso das crianças. Não acho que quis dizer que tem de ter limite no que pode ser feito como arte.

Cabia o termo libidinoso?

Não havia nada de libidinoso. Era um homem deitado, não estava excitado. Não que ache isso, mas o que podia ser discutido ali é a atitude da mãe que leva uma criança àquela exposição. O museu não tem responsabilidade. Não era um homem nu andando pelo MAM e que mexeu na criança. Houve uma grande falta de informação. Gente que entrou na onda do pós-verdade, viu a manchete e saiu xingando. E outras que têm interesse em combater a arte e que se aproveitaram dessa situação.

Nestes meses, houve vaias, o gabinete foi invadido e o senhor quase foi agredido. Esperava tanta oposição?

Foi muito maior do que imaginava. Ainda me causa espanto. Houve muita violência. Claro, uma vaia aqui e outra ali estava no pacote.

Houve risco físico de fato?

Mais de uma vez. Na Câmara, quase fui linchado. Participava de uma audiência e, por uma hora e meia, todas as pessoas que se inscreveram me atacaram. Disseram que eu odiava criança e que ia promover o holocausto dos negros da periferia. Peguei o microfone e começou a gritaria. "Fora, Sturm!" Não dava para continuar. Muitas pessoas foram para perto da porta. Quatro guardas civis fizeram um murinho para eu passar. Fui saindo, até que um disse: "Corre que não vai dar para segurar". E saí correndo pela Câmara, com gente gritando "Pega!". Entrei por uma porta. Os guardas ficaram segurando enquanto as pessoas urravam. O vídeo está na internet. Gravaram e se orgulham disso. Uma mulher que diz: "Quero dar um tiro na cara dele".

E o episódio no qual o sr. disse que ia quebrar a cara de um agente cultural?

Não é querer justificar. O episódio da Câmara aconteceu numa sexta, passei o fim de semana refletindo sobre a minha vida. Na segunda, perdi a cabeça. Tínhamos ficado um mês tentando resolver o problema das ocupações culturais. Descobri uma solução, um termo de cessão provisório, e chamei o pessoal de Ermelino Matarazzo. Estava certo de que finalmente ia tirar foto abraçado com os teoricamente inimigos. Quando falo qual era a solução, o rapaz começa a me confrontar, diz que não ia formalizar nada. Perdi a paciência e disse: "Vou quebrar sua cara". Pena que não filmaram. Estava sentado e ele veio na minha direção. Falei que não ia sujar a mão e saí. Não fui para cima dele.

Houve ainda a altercação com um colega do secretariado. O sr. é estourado, agressivo?

Nunca troquei soco com ninguém. Nem na infância, nem no futebol. Agora, tenho sangue. Uma hora você perde a cabeça. Esse foi um marco do ponto em que as coisas chegaram. Estava perto quando falei: "Você não deveria ter feito isso, é um sacana, não faça mais". Alguém filmou e virou home do UOL! Às 7h, havia três jornalistas me procurando para falar da tal crise na prefeitura! Era um não assunto, com todo o respeito. Vinte minutos depois, acertamos nossos ponteiros.

A que o sr. atribuiu a oposição a sua gestão? Insatisfação com o seu trabalho?

Mas não tinha nem começado a fazer! A primeira vez que fui ameaçado foi no dia 19 de janeiro. Estava numa visita a um centro cultural onde eu tinha deixado toda a equipe da gestão passada. Eram quase todos filiados ao PT. Tinha ouvido que faziam um bom trabalho e deixei. Pensei que ia ser abraçado. Havia umas cem pessoas. Fizeram uma fila e a cada três, duas me ofendiam. Diziam que eu estava acabando com a periferia. Dia 19 de janeiro! Não tinha feito nada nem deixado de fazer. Não tinha dado tempo. As pessoas podiam achar que eu ia mexer em algo. Mas então era sacanagem. Ou seja, por eu ser uma pessoa da área da cultura, estavam com medo que descobrisse o que havia aqui. Por isso, preferiam me derrubar e ter um secretario que, de repente, nada percebesse. Eram ataques de má-fé.

O que o sr. encontrou aqui?

Havia um aparelhamento. Ao assumir, troquei poucos cargos. Achei que estavam na secretaria para fazer cultura. Em fevereiro tive de exonerar um monte de gente. Ficavam boicotando. O interesse não era a cultura, mas a política. Havia um jogo do contra.

Que tipo de boicote?

Não cumprir com as obrigações. Aquele rapaz muito gentil de Ermelino Matarazzo [o do "Vou quebrar sua cara"] recebeu da secretaria R$ 400 mil em 12 meses! Ganhou um edital para fazer generalidades. Uma pessoa na secretaria era responsável por acompanhar o contrato e ela nunca tinha pedido prestação de contas. Foram R$ 400 mil numa casa de cultura com quatro pessoas! Assim estavam as coisas. De maneira nenhuma, diria que tinha corrupção. Mas havia um aparelhamento. Depois da eleição, contrataram 80 agentes comunitários de cultura! Apresentaram um plano de trabalho que podia ser qualquer coisa. Várias dessas pessoas que invadiram a secretaria são agentes.

Havia cabo eleitoral?

Num ano eleitoral é possível que tivesse. Mas não quero fazer essa acusação. O que acho mais crítico é que a secretaria tem de ter o cidadão como foco principal. A gente quer atender e estimular a criação artística. Mas o foco tem de ser a relação com a sociedade. Levar a produção cultural até a população. Na gestão passada, não havia essa preocupação. O foco era a relação com os coletivos artísticos. Se tivesse apresentação, ok, mas não era esse o foco.

Era dinheiro para pesquisa?

Para pesquisa, um debate muito rico e proveitoso... Nós suspendemos o edital da dança e fizemos mudanças. Uma delas foi exigir dez apresentações por ano. Do ponto de vista das pessoas que tinham esse edital, não deveria haver obrigação de se apresentar. Afinal, a pesquisa pode não estar pronta depois de um ano. Isso é inaceitável.

E difícil trabalhar com um prefeito que só pensa na eleição?

Por um bom período, o prefeito estava realmente focado 100% do seu tempo na cidade. Acho que em algum momento, pode ter começado a pensar nisso. Mas ele é detalhista e atento. Isso não mudou. Nunca liguei e deixou de me retornar logo. Não vejo diferença. Estamos menos juntos fisicamente, mas ele liga dos lugares mais variados. Tem um pique impressionante.

E a política de doações?

Reformamos a fachada do Theatro Municipal assim. Mas tudo é tão complicado na administração pública que algumas empresas desistem. Há muitas amarras. Quando leio que precisamos ter mais controle, me causa calafrio. As pessoas não têm ideia do que há de controle. Claro que tem de ter. Mas o fundamental é acabar com a impunidade. Foi pego, processo e punição.
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Matéria de Rogério Gentile publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 24/10/17.

Zé Celso perde para Silvio Santos e promete reagir

Em votação realizada na manhã desta segunda (23), o Condephaat tomou decisão favorável à construção de torres no terreno que pertence ao Grupo Silvio Santos e que fica ao lado do Teat(r)o Oficina. Foram 15 votos favoráveis às torres e sete contrários. “Foi um golpe contra a cultura, o Teat(r)o Oficina e o bairro do Bixiga”, afirmou José Celso Martinez Corrêa. O Oficina vai recorrer. Matéria do Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, me 23/10/17. +

Em votação realizada na manhã desta segunda (23), o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) tomou decisão favorável à construção de torres no terreno que pertence ao Grupo Silvio Santos e que fica ao lado do Teat(r)o Oficina. Foram 15 votos favoráveis às torres e sete contrários.

“Foi um golpe contra a cultura, o Teat(r)o Oficina e o bairro do Bixiga”, afirmou José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, ao Blog do Arcanjo do UOL, sobre a nova decisão do Condephaat.

“Ano passado o Condephaat reprovou as torres do Silvio Santos, mas este ano ele voltou com um advogado que teve a coragem de afirmar que nós tínhamos construído um teatro ilegal com o janelão. Faz quase 60 anos que estamos naquele lugar, eu faço teatro há quase 60 anos”, afirmou o diretor de 80 anos.

O Oficina luta há anos para que o terreno em seu entorno seja tombado, alegando que prédios tirariam a visão da grande janela do teatro projetado por Lina Bo Bardi e Edson Elito, que dá para o bairro do Bixiga e a cidade de São Paulo, com os quais as peças do grupo dirigido por Zé Celso dialogam. Segundo o Oficina, com a construção de torres no terreno ao lado, o teatro histórico ficará “encaixotado”.

O grupo propõe que o teatro no seu entorno se torne um parque público, com teatro ao ar livre.
Oficina vai recorrer

O Oficina vai recorrer da nova decisão do Condephaat, que no ano passado havia sido contrário às torres, mas voltou atrás nesta segunda (23), após nova ação do Grupo Silvio Santos.

“Vamos recorrer. Vamos pedir uma revisão desta decisão do Condephaat e também vamos entrar com ações no Ministério Público Federal e Estadual”, afirmou a atriz Camila Mota, vice-presidente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona.

Sem troca de terrenos

Chegou-se a cogitar a possibilidade de troca do terreno ao lado do Oficina, que seria intermediada pela Prefeitura de São Paulo, dando ao Grupo Silvio Santos outro terreno em troca. Houve uma reunião em agosto deste ano, unindo Silvio Santos, Zé Celso e prefeito João Doria. Contudo, segundo Zé Celso, o acordo não foi adiante.
“O Silvio Santos não quer trocar terreno, ele agora quer expulsão da gente pobre do Bixiga. Querem exterminar e matar esse bairro que é vivo e deu origem ao teatro contemporâneo brasileiro. É um crime fazer isso, é um genocídio que não pode acontecer”, declarou Zé Celso.
“Estou encenando ‘O Rei da Vela’ outra vez, 50 anos depois, uma peça que foi escrita por Oswald de Andrade na época da ascensão do nazismo e do fascismo. O ambiente do Brasil hoje é idêntico a esse, mas vamos resistir e reagir”, prometeu Zé Celso.
O Oficina lançou a hashtag #ficaoficina para quem desejar manifestar apoio à companhia nas redes sociais.

Outro lado

Procurado pelo Blog do Arcanjo do UOL, o Condephaat enviou a seguinte nota:

“Na reunião do Condephaat desta segunda-feira, 23 de outubro, o conselho do órgão decidiu favoravelmente ao recurso apresentado pelo Grupo Sílvio Santos para construção na área localizada no entorno do Teatro Oficina, com 15 votos favoráveis e 7 contra, obtendo assim maioria qualificada necessária para tal decisão. Desta maneira, o Grupo pode dar prosseguimento ao processo de obtenção do alvará para realização da obra. A decisão do Condephaat não isenta o Grupo Sílvio Santos de solicitar a aprovação dos demais órgãos competentes, incluindo os de preservação – Conpresp e IPHAN – uma vez que o local também é tombado nas esferas municipal e federal. Demais detalhes da discussão serão publicados em ata no Diário Oficial do Estado.”

O Grupo Silvio Santos não se manifestou sobre o caso, tampouco a Sisan, construtora responsável pelas torres.

Mais belo teatro do mundo

Fundado em 1958 e reconhecido internacionalmente, o Teat(r)o Oficina é o mais longevo grupo de teatro do Brasil e completará 60 anos de trajetória em 2018, sempre sob comando de Zé Celso.

Sua sede, projetada por Lina Bo Bardi, mesma arquiteta do Masp, em parceria com Edson Elito, rendeu ao lugar o título de o mais belo teatro do mundo, concedido pelo jornal inglês The Guardian em 2015.
A arquitetura conta com uma enorme janela de vidro que dialoga com o bairro do Bixiga e a cidade de São Paulo, que agora corre o risco de ser tapada pelas torres.

A disputa do terreno ao lado do Oficina para empreendimentos imobiliários inspirou a série “Castelo Rá-Tim-Bum”, da TV Cultura, na qual o Dr. Abobrinha vivia visitando o castelo mágico para tentar vendê-lo e construir prédios no lugar.
Pascoal da Conceição, ator que interpretou Dr. Abobrinha na série infantil, com várias passagens pelo elenco do Oficina, acompanhou com pesar a reunião do Condephaat nesta segunda. “Perdemos essa batalha, mas a luta continua”, afirmou.

Apoio de Fernanda Montenegro

No último sábado (21), quando estreou a peça “O Rei da Vela” no Teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, Zé pediu ajuda à sociedade para preservar o Oficina e o terreno no seu entorno. E reiterou o apoio dado por Fernanda Montenegro, que lhe enviou uma carta, ressaltando o trabalho artístico do grupo e seu teatro.

“A partir desse Bexiga, dessa Oficina, o Zé nos traz o desassossego mais provocador, mais tonitruante, mais triunfante de São Paulo e do Brasil culturalmente falando. O Oficina dá ao Bexiga a dimensão da inquietação da Arte na vida e projeta esse bairro à altura da cidade de São Paulo e do País. O Oficina é um marco histórico, cultural, visceral de uma Cidade, de um Estado. O que pretendem pôr no lugar? A desgraça do nada? A lama do nada?”, declarou Fernanda Montenegro.
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Matéria do Blog do Arcanjo por Miguel Arcanjo Prado (www.blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br), publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 23/10/17.

Mostra no Masp sobre sexualidade reforça que censura é inaceitável

Em várias nações europeias, a nudez é exposta em parques, praias e lugares públicos; a poligamia é aceita em países islâmicos; prostituição é prática legal em algumas nações e condenada em outras; há países onde o aborto é livre e outros onde não é. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como sua especificação etária. Opinião de Heitor Martins originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17. +

Sexo faz parte integral de nossas vidas; sem ele sequer existiríamos. Por isso mesmo, a sexualidade, nas suas mais diversas manifestações, tem desde sempre ocupado um lugar central no imaginário coletivo e na produção artística. "Histórias da Sexualidade", exposição que o Masp abrirá na próxima sexta-feira (20) para o público, traz amplo recorte dessa produção, com o objetivo de promover um debate sério, maduro e inclusivo, cruzando temporalidades, suportes e geografias.

A presente exposição é fruto de intenso trabalho em torno das várias histórias que o Brasil tem para contar.

Em 2016 inauguramos "Histórias da Infância", e nos últimos dois anos viemos trabalhando no atual projeto que foi antecedido por dois seminários internacionais sobre essas questões e que contou com a participação de especialistas e do público geral.
A exposição também se insere no contexto mais amplo da programação do museu, que neste ano vem tratando do tema da sexualidade com mostras de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Tunga, Guerrilla Girls, Pedro Correa de Araújo e Tracey Moffat.

"Histórias da Sexualidade" inclui mais de 250 obras, reunidas em núcleos temáticos e não cronológicos, sendo muitas delas pinturas fundamentais de nosso acervo: Degas, Manet, Ingres, Poussin, Picasso, Gauguin, Renoir, Perugino, Suzanne Valadon, Victor Meirelles.

Também traz trabalhos de artistas como Adriana Varejão, Ana Mendieta, Balthus, Egon Schiele, Francis Bacon, Jac Leirner, Mapplethorpe, Louise Bourgeois, Marta Minujin, Valie Export e Rego Monteiro.

Ainda que concebida em 2015, "Histórias da Sexualidade" não poderia ser mais atual. Episódios recentes, não só no Brasil mas em todo o mundo, trouxeram à tona –por meio de embates públicos, protestos e violentas manifestações nas mídias sociais– questões relativas à sexualidade e acerca dos limites entre direitos individuais e liberdade de expressão.

Não existem verdades absolutas. As fronteiras do que é moralmente aceitável deslocam-se a toda hora e no decorrer da história.
Esculturas clássicas, hoje consideradas símbolos da arte europeia, não poucas vezes tiveram seus sexos tapados por folhas de parreira e outros subterfúgios. Também os costumes variam entre culturas e civilizações.

Em várias nações europeias, a nudez é exposta em parques, praias e lugares públicos; a poligamia é aceita em países islâmicos; prostituição é prática legal em algumas nações e condenada em outras; há países onde o aborto é livre e outros onde não é. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como sua especificação etária.

O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo.

É preciso criar condições para que todos nós –cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades– possamos viver de forma harmoniosa e escutando uns aos outros.

Por isso mesmo, a radicalização, a intolerância, o cerceamento da liberdade de expressão, não devem e não podem ser aceitos. O Masp, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais.

"Histórias de Sexualidade" objetiva justamente promover, por meio da arte, um debate consistente e sólido a partir de um número muito significativo de obras –arte pré-colombiana, asiática, africana, europeia e latino-americana, pinturas e esculturas, vídeos e fotografias, assim como documentos e publicações "" que fazem parte deste catálogo de nuanças e diferenças, mas também de tudo que nos une e nos faz, cada um à sua maneira, humanos.

HEITOR MARTINS é diretor presidente do Masp e ex-presidente da Fundação Bienal
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HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
QUANDO de 20 de outubro de 2017 a 14 de fevereiro de 2018; ter. a dom. das 10h às 18h; qui., das 10h às 20h
ONDE Masp (av. Paulista, 1.578); tel (11) 3149-5959
QUANTO R$ 30 (inteira)
CLASSIFICAÇÃO 18 anos
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Opinião de Heitor Martins originalmente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17.

Masp abre "Histórias da Sexualidade" com obras que vão além do nu artístico

A exposição, que se distribui em três espaços do museu, "nunca foi tão necessária", afirma a curadora Lilia Schwarcz."Uma série de direitos que julgávamos assegurados, na verdade, encontra-se em risco". Com conteúdo de violência, sexo explícito e linguagem imprópria, a exposição foi classificada para 18 anos, que impede que um menor, mesmo se acompanhado dos responsáveis, tenham acesso à mostra –o Ministério da Justiça não determina a classificação para instituições culturais, que devem fazê-lo por si, seguindo manual da pasta. Matéria de Isabella Menon originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 19/10/17. +

Engana-se quem acredita que o Masp aproveita a onda de conservadorismo que vem resultando em críticas a exposições no Brasil para chamar atenção para a mostra que inaugura nesta quinta (19) e que dialoga sobre questões de sexualidade e gênero.

Na verdade, a instituição colocou a mostra em sua programação em 2016, quando foi introduzido o projeto "Histórias da Sexualidade", que inclui além dela um ciclo de palestras sobre o tema.
A exposição, que se distribui em três espaços do museu, "nunca foi tão necessária", afirma Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de história do Masp, em entrevista à Folha."Uma série de direitos que julgávamos assegurados, na verdade, encontra-se em risco".

Com conteúdo de violência, sexo explícito e linguagem imprópria, a exposição foi classificada para 18 anos.
A faixa, autoatribuída pelo museu, impede que um menor, mesmo se acompanhado dos responsáveis, tenham acesso à mostra –o Ministério da Justiça não determina a classificação para instituições culturais, que devem fazê-lo por si, seguindo manual da pasta.

A exposição conta com um batalhão de 150 nomes fortes para o ambiente artístico, que vão desde Renoir (1841-1919), a contemporâneos, como Adriana Varejão –o Masp escolheu sua "Cena de Interior 2", que foi alvo de críticas no "Queermuseu" em Porto Alegre, por, segundo manifestantes, fazer incitação à zoofilia.

As mais de 300 obras estão divididas em nove temas, como "Corpos Nus", "Jogos Sexuais", "Religiosidades".
Cibelle Cavalli Bastos e Alexandre da Cunha, por exemplo, estão na ala "Totemismo", dedicado à representação dos órgãos sexuais.

A obra "Xannayonnx Portal" pode parecer só uma grande espuma rosa. Bastos explica que o trabalho foi construído sobre uma indagação: "E se todos tivéssemos uma genitália híbrida?".
"A alma de uma pessoa não tem gênero, e a energia do masculino e feminino não garante o que a pessoa é."
Para ela, um mundo ideal seria o do filme "Avatar" (2009), onde o alienígena "gruda o rabinho no cabelo [para reproduzir]. Seria incrível se fizéssemos isso".

Do título ao uso de materiais, a obra de Cunha carrega um forte teor sexual."Morning", para ele, é uma expressão que remete à "sensualidade, do acordar para um ciclo".

Além disso, ele utiliza a camiseta como fundo do quadro, em vez da tela habitual; a peça de roupa, diz, está ligada ao "comum uso sobre a pele e o corpo humano". Materiais que a sobrepõem formam relevos que fazem alusão "até mesmo à genitália", explica.

QUEBRA DE PARADIGMAS

Militante dos direitos LGBTs e de profissionais do sexo, Amara Moira participou do ciclo de seminários do projeto em 2016.

Moira, que é travesti, diz ver o Masp como uma instituição "elitizada", "excessivamente pautada por padrões europeus, brancos, masculinos, colonizadores". "Para apreciá-la, a pessoa precisa ter intimidade com os valores e ideais que a produziram."

Por isso, Amara Moira defende a introdução de temas como a sexualidade e gênero para dentro do museu.
"A sociedade começa a se dar conta de que, se quer mesmo discutir sexualidade, pessoas trans e prostitutas devem obrigatoriamente participar do debate."
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Matéria de Isabella Menon originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo”, em 19/10/17.

Moralismo e vazio legal dificultam autoclassificação em exposições

A reação contra elites liberais no terreno moral e contra movimentos identitários não é exclusividade do Brasil, onde vivemos uma espécie de reprise na internet da "revanche da província". É uma situação problemática, já que as artes têm suas especificidades, sua história e suas linguagens –que nem sempre podem ser reduzidas a padrões, por exemplo, do cinema ou do teatro. Matéria de Marcos Augusto Gonçalves para o jornal “Follha de São Paulo”, em 19/10/17. +

Está em curso no Brasil uma onda de ataques a exposições e a artistas que ultrapassou os limites da divergência e da liberdade de expressão para ingressar no terreno da difamação.

A acusação de pedofilia, por exemplo, imputada por grupos ultraconservadores nas redes sociais ao artista que apresentou a performance "La Bête" no Museu de Arte Moderna de São Paulo é insustentável à luz da lei –e o inquérito sobre o caso chegará a esta conclusão.

A reação contra elites liberais no terreno moral e contra movimentos identitários não é exclusividade do Brasil, onde vivemos uma espécie de reprise na internet da "revanche da província" (lembrando aqui uma expressão usada pelo crítico Roberto Schwartz ao analisar as reações ideológicas que se seguiram ao golpe de 1964).

O ultraconservadorismo e a "guerra cultural", como se sabe, estão presentes em diversos países. E já vêm de décadas –pelo menos desde 1989 quando a galeria de arte Corcoran, em Washington, cancelou, sob pressões comandadas por parlamentares de direita, a mostra itinerante do fotógrafo Robert Mapplethorpe prevista para chegar àquele espaço.

É nessa atmosfera de caça às bruxas que o Masp inaugura a exposição "Histórias da Sexualidade".
Pela primeira vez a instituição terá uma mostra de arte com classificação indicativa para maiores de 18 anos.
Há, segundo especialistas, uma lacuna na legislação no que tange a museus e exposições. Esse vazio leva essas instituições a terem que trabalhar com normas genéricas ou analogias com a regulamentação para filmes e outros espetáculos.

É uma situação problemática, já que as artes têm suas especificidades, sua história e suas linguagens –que nem sempre podem ser reduzidas a padrões, por exemplo, do cinema ou do teatro.

O Masp consultou um escritório de advocacia, que com base na legislação vigente considerou que a mostra encaixava-se na faixa dos 18 anos. Não se trata apenas de "nu artísticos". Há obras transgressoras e agressivas diretamente associadas a sexo explícito e violência –tópicos que justificariam a autoclassificação escolhida.

Algumas pessoas do meio artístico consideraram a decisão muito conservadora, um recuo diante dos ataques.

Defendem que teria sido melhor optar por 16 anos, faixa em que os pais poderiam decidir levar filhos mais novos. Afinal, se com 16 anos pode-se votar, porque não ver conteúdos sexuais que qualquer um facilmente consegue acessar na internet?

Sugeriu-se também que as obras mais " pesadas" poderiam ser reunidas numa sala fechada. Em tese seria possível, mas um cercadinho "hard-core" quebraria a narrativa da curadoria –e poderia parecer um tanto bizarro.
O caso indica que cabe ao meio artístico se mobilizar (como está ocorrendo) para propor uma regulamentação que faça sentido e não se deixe contaminar pelo clima de exasperação do momento.
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Matéria de Marcos Augusto Gonçalves para Análise no jornal “Follha de São Paulo”, em 19/10/17.

Deputados do Rio votam classificação indicativa para exposições de arte

Entra na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes; levantada pela deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB). Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17. +

Entrará na pauta de votação da Assembleia Legislativa do Rio nesta quinta-feira, 19, um projeto de lei que prevê a elaboração de um manual que estabeleça classificação indicativa para exposições e outras manifestações artísticas com a presença de crianças e adolescentes. As normas seriam elaboradas pelo governo do Estado, com o objetivo de “garantir e preservar os direitos das crianças e adolescentes do Estado” e de atender ao “clamor popular” que surgiu a partir de mostras consideradas por parte da população inadequadas para menores.

A autora do PL é a deputada da bancada evangélica Tia Ju (PRB), que se diz preocupada com a presença de crianças em exposições como a Queermuseu, banida do Santander Cultural, em Porto Alegre, e do Museu de Arte do Rio (MAR) e a performance La Bête, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ambas foram atacadas por movimentos conservadores, que viram pedofilia e zoofilia nas obras, e defendidas por artistas e curadores, que clamam pela liberdade de expressão e ressaltam o livre arbítrio dos pais das crianças.

Tia Ju nega que seja movida por desejo de censura às artes. “Não queremos censurar, mas classificar. Sou professora de educação infantil e pedagoga, uma admiradora das artes. Mas alguém tinha que tomar essa iniciativa. O Executivo vai determinar quem vai elaborar o manual. Tenho apoio da maioria da Alerj. Apresentei o projeto na semana retrasada e está entrando em votação rapidamente porque é uma situação de urgência”, afirmou ao Estado, nesta quinta-feira.

“Classificação não é um bicho de sete cabeças. É só uma forma de preservar as crianças e os adolescentes. A arte é subjetiva e eles ficam numa situação de vulnerabilidade. Vamos evitar os desgastes que tivemos. As duas exposições só deveriam ser para maiores de 18 anos. Não era para ter criança ali interagindo (com um artista nu, em La Bête), mesmo com a mãe do lado. No momento em que um pedófilo, um abusador ficar na frente da criança na vida real, ela não vai saber discernir, não tem maturidade”.

A criação do “manual de classificação indicativa em eventos de diversos públicas e representações artísticas voltados para crianças e adolescentes” é justificado por Tia Ju da seguinte forma: “Este projeto de lei tem por objetivo garantir e preservar os direitos de crianças e adolescentes em nosso Estado, especialmente no momento em que o país vive um momento de incertezas jurídicas e lacunas provocadas por falta de regulamentação especial, em que o Judiciário vem sendo constantemente acionado para cumprir determinações e ações que seriam de encargo dos poderes Legislativo e Executivo.”

Os produtores apontariam as idades indicadas seguindo os parâmetros estabelecidos no texto. O manual classificaria exposições de arte, espetáculos teatrais, shows e “outras exibições ou apresentações abertas ao público” tendo como norte “a responsabilidade de garantir à pessoa e à família as informações necessárias para defender de diversões públicas inadequadas crianças e adolescentes, nos termos da Constituição Federal e dos artigos 252 e 253 do Estatuto da Criança e do Adolescente.”

Os artigos mencionados no PL se referem ao aviso à entrada dos locais de exibição quanto à inadequação da permanência de menores no recinto e ao anúncio de peças teatrais, filmes ou outros espetáculos sem indicação de idade. Pelo ECA, essas infrações podem ser punidas com multa de três a 20 salários mínimos.

Pelo PL, o manual teria sete faixas, sendo a primeira “especialmente recomendada para crianças e adolescentes”, a segunda, “livre – para todo o público”, e as seguintes, “não recomendadas” para menores de dez, 12, 14, 16 e 18 anos.

O texto diz ainda que “todo cidadão interessado está legitimado a averiguar o cumprimento das normas de classificação indicativa, podendo encaminhar ao órgão estadual responsável pela atividade de classificação, ao Conselho Tutelar, ao Ministério Público, ao Poder Judiciário e ao Conselho Estadual de Defesa da Criança e do Adolescente representação fundamentada nas obras e diversões abrangidas por esta lei.”

A deputada Tia Ju argumenta que a competência para a criação da classificação é estadual, e que não haveria conflito caso o governo federal também amplie a classificação indicativa já existente – diante dos protestos contra as exposições recentes, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, tem defendido a extensão da classificação para além dos filmes, games e programas de TV.
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Matéria de Roberta Pennafort originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 19/10/17.

Contra censura nas artes, ato reúne manifestantes no vão do Masp

Manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas. O objetivo do ato desta quinta era “esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo, pois o artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”. Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17. +

"O artista é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo." Essa era a palavra de ordem entoada pelo grupo reunido pelo coletivo #342Artes no vão livre do Masp, nesta quinta (19).

Os manifestantes se reuniram para protestar contra os recentes episódios conservadores contra manifestações artísticas, como o encerramento prematuro da exposição "Queermuseu" Santander Cultural, em Porto Alegre, e as acusações de pedofilia detonadas após uma criança interagir com artista nu na abertura do 35º Panorama da Arte Brasil, no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O objetivo do ato desta quinta era "esclarecer o processo de calúnia que estamos sofrendo", segundo a marchande Márcia Fortes, da Galeria Fortes Vilaça.

Dentro do museu da av. Paulista, acontecia a inauguração para convidados da exposição "Histórias da Sexualidade", que o próprio Masp classificou como não apropriada para menores de 18 anos.
"Não lido com o medo [de retaliação à mostra do Masp], lido com o amor e o respeito", explica Fortes. "A arte é importante, um povo sem arte é um povo triste."

Professor da Ebac (Escola Britânica de Arte Contemporânea) e artista plástico, Roger Bassetto disse nunca ter achado que "fôssemos precisar fazer esse tipo de manifestação".

"Arte é subjetividade e não quer dizer só uma coisa, há múltiplas interpretações", diz Bassetto. Na opinião do professor, as pessoas contrárias a essas exposições "precisam classificar tudo como 'isso é pedofilia'". Para ele, é necessário que haja tolerância.

Além da manifestação, houve também a leitura de uma carta. O documento, que reunia mais de 800 assinaturas de artistas, intelectuais e profissionais de distintas áreas, foi lido no vão do museu pela artista plástica Renata Lucres, antes do início do ato.

A carta, disponível no site pelademocracia.com, diz que o grupo atua em prol da liberdade de expressão e que "militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública –be sem espírito republicano–, membros da burocracia de estado no Judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas".
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 20/10/17.

Masp fora da lei

O Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17. +

Acho que o Masp se acovardou ao organizar uma exposição sobre sexualidade em que não admite a presença de menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos responsáveis. Pior, o faz com base numa interpretação de dispositivos legais e infralegais que me parece francamente inconstitucional.

O ponto central é que o constituinte de 1988 sabiamente retirou do Estado a possibilidade de determinar o que os cidadãos podem ou não dizer, escrever, ler, assistir, encenar etc. O banimento da censura aparece duas vezes na Carta, no art. 5º, IX e no 220.

Só o que o constituinte reservou para a União, na tentativa de proteger menores, é a competência para proceder a uma classificação etária de diversões públicas, tomando o cuidado de especificar que ela tem caráter apenas "indicativo" (art. 21, XVI). Isso significa que a classificação é uma simples sugestão, a ser ou não acatada pelos pais — o que é razoável, considerando que o grau de maturidade de cada jovem assim como os valores de cada família variam.

Grupos conservadores adoram se socorrer em normas programáticas do ECA, como o "direito ao desenvolvimento moral" (que significam qualquer coisa e, portanto, nada), para tentar justificar impulsos liberticidas. Mas quem ler o ECA com atenção verificará que ele em nenhum momento proíbe menores de visitar nenhum tipo de exposição. Diz só que informações sobre a natureza do espetáculo e a faixa etária a que se destina precisam ser afixadas em local visível. Trata a classificação etária como "recomendação", isto é, um conselho, para o qual os pais podem, se quiserem, dar uma banana.

O que há é a portaria nº 1.100 que admite o poder dos pais de passar por cima da classificação etária, exceto quando ela for de 18 anos. Salvo melhor juízo, tal dispositivo carece de base legal e contraria a Carta.

É triste quando até museus param de brigar para que adolescentes tenham acesso à arte.

Hélio Schwartsman, é bacharel em filosofia, publicou 'Pensando Bem...' (Editora Contexto) em 2016.
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Matéria de Hélio Schwartsman para o jornal “Folha de São Paulo”, em 20/10/17.

Paradeiro de obra-prima de Rodin, desaparecida desde 1920, é descoberto

O busto de mármore, avaliado em US$ 12 milhões, estava esquecido sobre um pedestal em um prédio público de Nova Jersey. A escultura foi vista pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920. Matéria publicada originalmente no site Toucharte On via The Art Newspaper, em 17/10/17. +

Um busto de mármore que representa Napoleão Bonaparte, criado por Auguste Rodin, apareceu em um prédio municipal em Madison, Nova Jersey. O grandioso trabalho do escultor francês foi visto pela última vez em uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, na década de 1920.

A obra-prima, datada de 1908, estava sobre um pedestal acumulando poeira durante os últimos 85 anos. Geraldine Rockefeller Dodge, filha de William D. Rockefeller, doou o trabalho junto com o edifício erguido em 1935.
Pesquisas recentes feitas pela fundação descobriram que a Sra. Rockefeller Dodge, dedicada colecionadora de arte, havia adquirido o busto de Rodin em leilão da família de Thomas Fortune Ryan, um magnata do tabaco, que o havia emprestado ao Metropolitan Museum of Art em Nova York de 1915 a 1929.

A obra, que pesa mais de 300 quilos, foi autenticada por um especialista em Rodin. Agora, o busto será emprestado ao Philadelphia Museum of Art, no final deste mês, para o centenário de morte do artista.

Assinatura revelada
Por cerca de oito décadas, o busto olhou silenciosamente para baixo, de cima de um pedestal, na sala principal do prédio, pouco percebido pelos legisladores locais ou pelos transeuntes. Isso até 2015, quando a fundação contratou uma arquivista, estudante de graduação de 22 anos, chamada Mallory Mortillaro, que revelou a importância da escultura. “Ela estava passando o dedo pela base”, disse Nicolas Platt, presidente da Hartley Dodge Foundation, “sentiu uma marca cinza, pegou uma lanterna, pegou uma cadeira e examinou. Lá, estava a assinatura de A. Rodin”.

A fundação contatou o respeitado especialista em Rodin, Jérôme Le Blay, formado pelo Musée Rodin e fundador do Comité Rodin, que autentica o trabalho do escultor. “As primeiras fotos que me enviaram por email imediatamente me impressionaram”, diz Le Blay por e-mail. “Nós temos uma enorme base de dados e arquivos e foi bastante fácil para nós encontrar as origens deste mármore na oficina de Rodin”. Uma fotografia de 1910 mostra até o escultor posando ao lado do busto, oficialmente intitulado Napoleon enveloppé dans ses réves (Napoleão envolto em seus sonhos).

A fundação não anunciou que estava em posse de uma escultura que vale entre US $ 4 milhões e US $ 12 milhões até esta semana, devido a preocupações com segurança. Uma companhia de seguros havia advertido que uma obra de arte tão cara não poderia permanecer em um prédio municipal. Eles entraram em contato com museus que gostariam de tê-lo por empréstimo e, há duas semanas, o Philadelphia Museum of Art aceitou a oferta.

Auguste Rodin

Auguste Rodin (1840-1917) é visto frequentemente como o antepassado rebelde da escultura moderna, mas na verdade ele não levantou nenhuma revolta consciente contra a escultura de sua época. Rodin lutou pelo reconhecimento acadêmico, mas nunca conseguiu passar no exame de admissão da Academia de Artes de Paris.

Em vez disso, ele foi autodidata e desenvolveu um método exclusivo para a modelagem de formas complexas em argila e em gesso. Ainda vivo, muitas de suas obras mais famosas foram criticadas. Elas romperam com uma tradição de escultura idealizada e decorativa, com pouco espaço para abordar como assuntos mitológicos ou literários poderiam ser apresentados.

A característica distintiva de Rodin é uma modelagem realista, mas expressiva, do corpo, juntamente com um grande senso do conteúdo simbólico do tema. Lentamente, ele alcançou popularidade e conquistou seu espaço, especialmente após a decisiva participação na Exposição Mundial em Paris, em 1900.
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Matéria publicada originalmente no site Toucharte On (www.touchofclass.com.br) via The Art Newspaper, em 17/10/17.

Carta-manifesto pela democracia

Carta-manifesto produzida a partir de mobilização iniciada por artistas e críticos de arte, e que teve a adesão de diversos setores da sociedade civil – professores, advogados, engenheiros, psicanalistas, sociólogos, historiadores, cineastas, escritores, arquitetos, designers, jornalistas, fotógrafos, médicos, membros de movimentos sociais, etc.- para fazer frente a onda ultra conservadora que ameaça os direitos individuais, civis e sociais neste pais. Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão. Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/ +

Somos artistas, intelectuais e profissionais de várias áreas, que temos nos manifestado conjuntamente pela defesa da democracia desde 2015 e que, agora, nos colocamos ao lado das recentes iniciativas contra o recrudescimento da onda de ódio, intolerância e violência à livre expressão nas artes e na educação. Ódio, intolerância e violência que já vêm sendo impressos há tempos contra mulheres, homossexuais, negros e índios.
Somos radicalmente a favor da liberdade de expressão e circulação de ideias, crenças, informações e expressões artísticas. E evidentemente, acreditamos no livre debate de todas essas expressões.
Achamos, todavia, que é preciso nomear os focos de ataque às liberdades. Ficou evidente que militantes de direita, segmentos de igrejas neopentecostais, alguns políticos de grande responsabilidade pública – e sem espírito republicano –, membros da burocracia de estado no judiciário, da polícia e do Ministério Público estão atuando em conjunto contra produções e instituições artísticas. Eles censuram exposições, assediam os visitantes e funcionários dos museus e usam de redes sociais para detratar e ultrajar pessoas das quais discordam. Arrogantes, tais fundamentalistas evitam a leitura mais atenta dos trabalhos e saem à caça de indícios de indecência, leviandade, pornografia e heresia. Não há debate intelectual, não há questionamento, só violência e intolerância.
Foi assim que milícias reacionárias e antidemocráticas conseguiram provocar de maneira abrupta o encerramento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural, de Porto Alegre (RS). Em setembro, a polícia retirou a pintura Pedofilia, de Alessandra Cunha, do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande (MS); depois a justiça proibiu a apresentação da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, no Sesc de Jundiaí (SP). Vale lembrar ainda que as mesmas milícias iniciaram uma campanha contra o Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, por conta da performance La Bête, de Wagner Schwartz, com apoio irresponsável do prefeito de São Paulo, João Doria. E uma horda de fanáticos liderados pelo deputado João Leite tentou invadir o Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG), e destruir a produção de Pedro Moraleida.
Acreditamos também que não se trata de um ataque específico à produção artística. Mas trata-se de um fenômeno que começou a brotar em 2010 como oposição ao Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3); e que cresceu e foi adubado durante o processo de deposição da presidenta eleita Dilma Rousseff.
É óbvio que nem todos que foram a favor do impeachment sejam dessa linhagem antidemocrática. Mas estavam lá em peso os ativistas e agentes públicos arquiconservadores constrangendo pessoas de pensamento diverso. Eles que distribuíram adesivos para serem colados em tampas de tanque de combustível com a figura da presidenta em um contexto sexista, misógino e constrangedor; eles que atacaram políticos e militantes de esquerda em aviões, restaurantes e até em ambientes sensíveis como hospitais e velórios, eles que bateram e ameaçaram quem se vestia de vermelho.
Depois de consumado o impeachment – bem nomeado, um golpe parlamentar com a compra de votos de deputados capitaneada por Eduardo Cunha – passaram a subtrair ou tentar retirar um número significativo de conquistas obtidas pelos brasileiros a partir da Constituição de 1988. É assim que estão dia a dia limitando os direitos individuais, civis e sociais no Brasil, precarizando as condições de trabalho, ameaçando a liberdade de ensino nas escolas, a proteção ao meio-ambiente, a união de pessoas do mesmo sexo etc. Esse é o conjunto da obra que resulta do golpe de Estado.
Agora, o que necessitamos é ampliar ao máximo, acima de opções partidárias, ideológicas e religiosas, todas as forças democráticas para fazer frente, nas ruas, nas casas legislativas, nos tribunais e nos meios de comunicação disponíveis, às ameaças concretas às liberdades e conquistas sociais. Propomos a articulação de grupos, entre amigos e familiares, entre colegas de profissão para a organização de atos públicos e de ação nas redes sociais para defender e aprofundar o direito a um ambiente de livre circulação de ideias, e denunciar aqueles que querem ver o Brasil sem democracia.
Essa carta manifesto é uma resposta à escalada da extrema direita contra os direitos individuais, civis e sociais. Quem quiser, pode aderir pelo liberdadedemocratica1@gmail.com inserindo seu nome e profissão.
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Acesse a carta no lik https://pelademocracia.com/2017/10/19/carta-manifesto-pela-democracia-2/

Masp para maiores

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A “Histórias da Sexualidade”, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição, pelo peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores. Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17. +

É a primeira vez que o Museu de Arte de São Paulo (Masp), desde que foi fundado, em 1947, veta uma exposição para menores de 18 anos. A partir desta sexta-feira, dia 20, quando for inaugurada a exposição Histórias da Sexualidade, só maiores poderão ver as 400 obras reunidas pelos quatro curadores que respondem pela mostra sob supervisão do diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa. A decisão foi tomada com base na orientação do departamento jurídico da instituição – segundo Pedrosa, nem tanto para evitar o transtorno pelo qual passaram o Santander Cultural de Porto Alegre e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, mas “para seguir a legislação vigente”.

Os advogados do Masp, que fazem parte do Conselho do museu, foram favoráveis à classificação etária para a exposição, mas não fizeram circular o parecer – esse relatório permanece confidencial. Contudo, teve certamente nessa decisão o peso da polêmica que envolveu o MAM, alvo de protestos por causa da interação de uma criança com um performer nu, e o Santander de Porto Alegre, que suspendeu a exposição Queermuseu por causa de ameaças de grupos conservadores, inconformados com o conteúdo da mostra, rejeitada lá e no Rio.

Em tempo: uma obra que esteve na mostra Queermuseu, como Cenas de Interior II – uma “compilação de práticas sexuais existentes”, segundo a autora, Adriana Varejão – está na mostra do Masp. Trata-se de uma reinterpretação das chungas (tradicionais gravuras eróticas japonesas), também instaladas na exposição bem ao lado da pintura de Varejão e de quatro desenhos eróticos da surrealista parisiense Louise Bourgeois (1911-2010).

A rigor, a mostra do Masp é mais ousada que Queermuseu, pois contempla todas (ou quase todas) as formas alternativas de sexualidade, denunciando justamente como as tentativas de reprimir o erotismo (na arte e fora dela) descambaram para a violência. Há, por exemplo, uma série do premiado fotógrafo Juca Martins que acompanhou as históricas batidas policiais do delegado José Wilson Richetti quando o policial assumiu a delegacia seccional do centro e criou a Operação Cidade no governo Paulo Maluf, em 1980. Num só dia ele prendeu 152 pessoas, entre prostitutas, travestis e homossexuais.

Há na mostra histórias ocultas de personagens igualmente marginalizados por sua condição. É o caso da bailarina do impressionista francês Degas, que ocupa o centro de um dos nove núcleos temáticos da exposição, o do mercado do sexo. Uma das curadoras, Camila Bechelany, conta que a modelo da escultura de bronze, filha de uma pobre família belga, possivelmente era uma prostituta de 14 anos. Ladeada por outras colegas de profissão, ela tem a companhia, na mesma sala, de garotos de pro- grama com o sexo exposto no largo do Arouche, antigo ponto de prostituição masculina no centro de São Paulo.

Há uma profusão de obras de artistas brasileiros e estrangeiros de todas as épocas, que expõem de forma explícita a genitália, de uma tela do francês Ingres a uma ingênua pintura do mato-grossense Adir Sodré, que retrata a transgênero Roberta Close como uma ‘maja desnuda’ contemporânea. Há também esculturas, como a do carioca Chico Tabibuia (1936-2007), que também explorou o transgênero sobrenatural ao es- culpir um Exu com sexo duplo.

Os curadores selecionaram 40 obras do acervo do Masp entre as 400 emprestadas por outros museus, galerias e colecionadores particulares, entre elas obras de Picasso, Gauguin, Suzanne Valadon, Poussin e Victor Meirelles. Concebida em 2015, ou seja, dois anos antes das polêmicas que envolveram as exposições do Santander Cultural e Museu de Arte de São Paulo (MAM), a exposição, segundo o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, integra uma série dedicada à sexualidade na arte, da qual fizeram parte as individuais de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Henri de ToulouseLautrec, Tracey Moffatt, Pedro Correia de Araújo e Guerrilla Girls. A próxima será dedicada ao escultor pernambucano Tunga (1952-2016).

Histórias da Sexualidade, apesar do título, não segue a filosofia do francês Michel Foucault (1926-1984), garante Pedrosa. Em todo caso, a mostra, como Foucault, relaciona religião e sexualidade (com destaque para a série bíblica de Leon Ferrari e o São Sebastião – de Perugino e Mapplethorpe). “É um grande mosaico de várias histórias que se entrelaçam e podem ser tanto reais como fictícias”, define o diretor artístico do Masp.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal “Estado de São Paulo”, em 18/10/17.

Herdeiros dão "cara nova" para o centro de São Paulo

Casarões no Arouche e nos Campos Elísios são restaurados e ganham novos usos, como espaço cultural, de coworking e café. +

Fabio e Munir Candalaft Junior, de 53 e 55 anos, praticamente cresceram na região entre o Largo e a Rua do Arouche, na República, centro de São Paulo. Quando jovens, os irmãos de origem libanesa trabalharam com a mãe e o pai em lojas da família, no período em que o entorno era um dos mais nobres da cidade. Já adultos, eles migraram de bairro e escolheram outras profissões, mas, há menos de um ano, resolveram novamente se voltar para o local ao montar, no imóvel construído no início do século 20 e comprado pela família na década de 70, o espaço cultural e de eventos No Arouche.

Com janelas multicoloridas, o sobrado ganhou uma “cara 2017” após os irmãos Candalaft observarem que muitos filhos de amigos haviam se mudado para o centro. Aberto dois fins de semana por mês, o espaço reuniu 25 expositores, apresentações musicais e 2 mil visitantes nos dois primeiros dias.

Na parte interna, traz grafites de 12 artistas convidados pelo arquiteto do projeto, Gabriel Menezes, do Estúdio 011. “A ideia é trazer a arte de rua para dentro do prédio, para quem entra se sentir na rua”, ressalta o arquiteto.

A 1,5 quilômetro dali, um casarão foi inaugurado neste mês na esquina da Rua Guaianases com a Alameda Nothmann, em Campos Elísios. O proprietário, que recebeu a casa há dois anos, batizou o local de Casa Don’Anna em homenagem à sua avó Anna Silva Telles, primeira moradora do imóvel. O casarão poderá ser reservado para eventos e terá um espaço de coworking; o porão abrigará o Café Paulista; e o quintal receberá o Jardim das Orquídeas, um ponto de encontro para amantes da planta, de acordo com um dos responsáveis pelo espaço, Sergio Oyama.

Conjunto de imóveis

Construída em 1912 com projeto do escritório de Ramos de Azevedo, a Casa Don’Anna foi tombada pelo Estado em 2013 dentro do “Conjunto de Imóveis do Campos Elísios”.
Dele, faz parte também a fachada de sobrados da esquina da Alameda Barão de Piracicaba com o Largo Coração de Jesus, na antiga Cracolândia, que passa por um processo de revitalização, bancado pelos irmãos Flávio e Célia Gomes Torres, de 55 e 51 anos, respectivamente.

De acordo com Flávio, a recuperação da fachada é um antigo sonho de seu pai, o imigrante português Isolino Gomes Torres, que, a partir da década de 1950, comprou aos poucos os sete pequenos imóveis que hoje compõem o casarão. A ideia, contudo, antes era inviável por causa da aglomeração de usuários de droga na região.

“O prédio merecia um trato, até pela situação do bairro em si. É nossa obrigação colaborar”, diz. “Se fosse em Paris, um prédio lindo desse, a gente estaria feito, mas o contexto não valoriza”, completa o empresário.

Mesmo nos momentos mais difíceis, Célia não cogitou vender o imóvel, que assumiu com o irmão após o pai adoecer, em 2014. “Uma vez eu vi o forro: as madeiras são encaixadas de um jeito diferente, lindo”, conta.

Ela afirma que o imóvel foi um dos que menos sofreu com a degradação da região, porque o pai era criterioso com os moradores, muitos dos quais são os mesmos há décadas, como a diarista Maria Júlia Santana, de 54 anos. Amante de “coisas antigas”, ela diz que não se imagina vivendo em outro local. “Casei aqui, tive filha aqui (hoje com 27 anos). Quando precisava, o seu Isolino até dava uma olhada nela”, conta.

Autoestima

Feita pela Companhia do Restauro, a obra é uma “conservação para aumentar a autoestima do bairro”, define o diretor e arquiteto Francisco Zorzete. A restauração total é avaliada em mais de R$ 1,5 milhão, valor que a família não pretende investir agora.
Neste momento, o destino da região é avaliado por um conselho, composto por representantes da sociedade civil e do poder público, criado pela Prefeitura, que chegou a considerar a demolição no início do ano. “Todos os imóveis com fachadas tombadas serão preservados em qualquer proposta de requalificação do perímetro”, disse o Município, em nota.
Proprietário relata cansaço em luta por restauração

O número 267 da Rua Pedroso foi o lar de quatro gerações da família Sohn. Mais do que isso, contudo, o casarão, construído em 1927, é uma causa abraçada há 15 anos por um de seus herdeiros, o ator Paulo Goya, de 66 anos. Mesmo integralmente dedicado ao imóvel, tombado em 2002 pelo Município, ele relata cansaço nessa luta.
Desde 2005, calcula ter gasto quase R$ 1 milhão, junto com a irmã e dois primos, em obras e manutenção do Espaço Cultural Dona Julieta Sohn, conhecido como Casarão do Belvedere. “Se eu, com toda a minha experiência, minha vontade e meu desejo de preservação enfrento montanhas intransponíveis, imagina o coitado do proprietário que tem um imóvel de 50 metros quadrados tombado como bem”, lamenta ele, que relata ter recebido a notícia do tombamento por uma ligação de uma familiar que estava na ocasião “aos prantos”.

Com um fomento federal recentemente barrado na Justiça, Goya afirma que a estrutura do telhado da casa está tão comprometida que grande parte das atividades ocorre em um imóvel anexo. Mesmo com as dificuldades, ele afirma, que não vai desistir. “Até o fim da minha vida me verão defendendo esse patrimônio, essa casa, esse projeto. Não me calarão.”
A criação de um fundo para imóveis tombados é defendida pela arquiteta Nadia Somekh. “Os proprietários nem sempre têm recursos necessários para o restauro”, diz. Segundo ela, embora seja uma das principais alternativas para obter recurso, a Transferência do Direito de Construir (TDC) é “incipiente” por cauda da quantidade de tombamentos da cidade, mais de 3,5 mil.
Na prática, o TDC permite a “venda” da metragem construtiva não utilizada do terreno tombado para um terceiro, que poderá aplicá-lo em outro local.

Para o presidente do departamento paulista do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SP), Fernando Túlio Salva Rocha, ainda falta apoio técnico público para orientar os herdeiros sobre como conseguir recursos para requalificar propriedades antigas tombadas da cidade.
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Matéria de Priscila Mengue para o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 18/09/17.

O que é um museu?

Um ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”, que vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas. Mas ao passar do tempo, o conceito de museu mudou e hoje lutamos para construir espaços que não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso. Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17. +

Quem nunca ouviu o ditado popular que diz que “quem vive de passado é museu”? Isso vem do fato de que museu ainda está relacionado a um lugar que guarda coisas antigas, que não têm mais utilidade para ninguém, ou, num linguajar mais popular, coisas velhas mesmo!

Contudo já paramos para pensar qual a origem dessa história? Quando e por que se começou a reunir peças e objetos em forma de coleções? Qual a relevância que essa instituição teve ao longo dos séculos e que magnitude ela tem nos dias de hoje? Vejamos.

A origem etimológica da palavra museu vem do grego e quer dizer musas. As musas eram entidades da mitologia grega, filhas de Zeus e de Mnemosine, a deusa da memória. A casa das musas era o mouseion, uma mistura de templo com instituição de pesquisa voltada para o saber filosófico, onde eram depositados objetos preciosos oferecidos às divindades em sinal de agradecimento. A partir de então, todo objeto reunido ou compilado num determinado espaço com o intuito de contar ou resgatar alguma área do conhecimento passou a ser relacionado à palavra museu.

Na Europa medieval, por exemplo, as coleções eram a principal prerrogativa das casas nobres e da Igreja Católica, sendo consideradas verdadeiras relíquias da cristandade. Tinham na sociedade uma importância econômica muito significativa e eram até utilizadas para financiar guerras e outras despesas de Estado.

Entre os séculos 16 e 17, com a expansão do conhecimento do mundo propiciada pelas grandes navegações, estabeleceram-se na Europa os primeiros museus conhecidos como “gabinetes de curiosidades”. Tratava-se de locais preparados especialmente para guardar coleções altamente heterogêneas e assistemáticas de objetos das mais variadas naturezas e procedências. Essas galerias eram essencialmente inacessíveis à população em geral e as coleções, expostas apenas às pessoas convidadas à residência do proprietário.

A mudança do conceito de museu está vinculada a um processo histórico, como resultado da mentalidade de uma época. No fim do século 19, acompanhando as transformações das ciências em geral, os museus especializaram-se, tomando um novo caráter, sem, no entanto, deixarem de ser conservatórios das mais altas formas do patrimônio cultural da humanidade.


O Museu do Louvre, em Paris, por exemplo, foi a primeira instituição a revolucionar os conceitos de relacionamento com o público. Ele foi considerado, desde o início, o “museu do povo”. Além da finalidade conservatória e documental de classificação, pesquisa, exposição e divulgação de conjuntos de objetos de interesse e valor artístico, científico e técnico, outras funções culturais, mais amplas, passaram a integrar as atividades dos museus a partir de então.

Tal fato veio ao encontro das novas exigências de uma época em que o avanço tecnológico e científico provindo do século 20 fez com que o homem se voltasse para novas experiências e se apegasse ao que é material para contar a sua história. E os museus, que antes eram “santuários” discretos e clubes fechados, passaram a ter como principal pressuposto a aproximação do público. Assim, as práticas colecionistas “antigas” foram dando lugar ao aprofundamento científico, interdisciplinar e educativo dos museus.

Podemos dizer que a reformulação conceitual do espaço dos museus, mesmo enfrentando avanços e retrocessos, ganhou novo impulso nos anos 70 e 80 do século passado, sendo lícito considerar essa reorientação como uma verdadeira revolução na concepção do museu público e a constituição de uma museologia moderna.

Em 1986, o Conselho Internacional de Museus (Icom), fundado no Brasil em 1948, definiu o museu como “uma instituição permanente sem finalidade lucrativa, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que realiza pesquisas sobre a evidência material do homem e do seu ambiente, as adquire, conserva, investiga, comunica e exibe, com a finalidade de estudo, educação e fruição”.

Assim, é fundamentada nessa concepção de museu trazida pelo Icom que abro espaço para falar de um museu que pouco se conhece, mas tem uma grande importância na história de São Paulo: o Museu da Santa Casa de São Paulo (MSC-SP), que ocupa parte do complexo hospitalar construído no ano de 1884, conhecido na época como “Castelo da Misericórdia”, projetado pelo então engenheiro e arquiteto Luiz Pucci.

O MSC-SP nasceu em 2000 pela iniciativa do irmão mesário Augusto Carlos Ferreira Velloso, que, junto com o novo milênio, veio presentear a população paulista com o resgate da memória e da história da irmandade, que ao longo das décadas se mistura com a história e a evolução da cidade. Instalado na provedoria da Santa Casa, o museu é composto por objetos religiosos, textuais, iconográficos, pinturas, esculturas, mobiliários e instrumentos médicos, entre outros, que nos ajudam a reconstruir essa importante parte da memória paulista, contada por meio de peças coletadas dentro da própria Santa Casa ou doadas por médicos e irmãos que por lá passaram.

O MSC-SP, como instituição museológica, busca aperfeiçoar sua prática diária valorizando o ensino e a pesquisa, aproximando o visitante, de forma a criar empatia, identidade e reconhecimento com essa instituição que ao longo dos séculos vem prestando serviços à sociedade.

Que os museus que lutamos para construir hoje não sejam lembrados apenas como “guardiões” do passado, mas sejam verdadeiras fontes de informação e acesso, garantindo à sociedade, com seu acervo, o estudo e a reflexão sobre um patrimônio cultural que contribui efetivamente para a formação da diversidade brasileira.
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Matéria da Diretora do MSC-SP, June Locke Arruda originalmente publicada no jornal “O Estado de S. Paulo” (www.estadao.com.br), em 18/10/17.

Ministro e deputados batem boca em audiência sobre "Queermuseu" e MAM

O que se viu em audiência na Câmara aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" estavam a um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada e bombardeio de comentários absurdos dirigidos ao ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão. Até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada". Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” , em 18/10/17. +

A ideia era ouvir o ministro Sérgio Sá Leitão (Cultura) sobre o "Queermuseu", mostra gaúcha que, para críticos, fazia apologia a pedofilia e zoofilia, e a exposição no MAM paulistano que trouxe interação entre uma criança e um artista nu — ambas realizadas com incentivos fiscais da Lei Rouanet.
O que se viu em audiência na Câmara nesta quarta-feira (18), contudo, aproximou-se mais de um ringue que opôs ministro, deputados a favor "da família" e Glauber Braga (PSOL-RJ), voz solitária pró-mostras entre os colegas.

Já no fim do debate, apresentando-se como católico, Givaldo Carimbão (PHS-AL) perguntou se o ministro acharia razoável expor sua progenitora como artistas do "Queermuseu" o fizeram com Virgem Maria, a quem chamou de "minha mãe".

Obras da exposição cancelada satirizavam e sexualizavam a mãe de Jesus, como uma em que ela aparecia acalentando um macaco. Carimbão lançou a hipótese da mãe de Leitão retratada "de pernas abertas", com genitália à mostra.

Leitão se exaltou e, aos berros e com dedo em riste, acusou o deputado de "ofender minha falecida mãe".

"Ele baixou o nível e ofendeu diretamente a minha mãe, já falecida. De modo gratuito. Fez comentários absurdos. Superou o meu limite. Lamento profundamente", disse Leitão à Folha.

A audiência pública foi encerrada após a celeuma, gota d'água numa sessão acalorada que se estendeu por mais de duas horas.
A certa altura, Braga quase caiu no braço com Delegado Eder Mauro (PSD-PA). A um palmo de distância, em bate-boca com voz alterada, os dois foram apartados por seguranças da Casa e por um colega, Pastor Eurico (PHS-PE).

Mauro disse que não daria "porrada aqui dentro", mas estava disposto a levar a discussão às vias de fato fora da Câmara.
"Eu quero ver se tu é homem!", gritava o paraense a Braga, que respondeu com uma provocação: "Tá nervoso?".

"Tô defendendo criança inocente", rebateu o delegado. "Vai botar teu filho pra passar a mão em macho!", completou, com o dedo apontado para a cara do desafeto político.

Relembre polêmicas nas artes cênicas e visuais

O entrevero se alongou por quase cinco minutos, até que Alberto Fraga (DEM-DF), que presidia a audiência pública, sugeriu: ou a sessão continua "ou vocês caem na porrada".

Feliciano também brigou com Braga e o acusou de chamar sua mãe de "puta". Ameaçou deixar a sala e depois se desculpou pelo destempero ("a esquerda tira a gente do sério").

O clima no plenário 12 da Casa foi pesado do início ao fim.

Sob intenso bombardeio de deputados que evocavam a "defesa da família" contra a "imundice" da cena artística, Leitão lá estava como convidado a "prestar esclarecimentos sobre exposições realizadas com recursos públicos, onde foram constatados ilícitos penais que causaram reação social e que resultaram em conflitos com reflexo na segurança pública", conforme indicava a placa na porta.

Deputados questionaram a falta de uma condenação enfática do Ministério da Cultura às exposições, deram murros sobre a mesa para expor suas opiniões e levantaram cartazes com cenas das mostras que traziam "pornografia travestida de cultura".

A plateia foi dominada pela ala conservadora da Câmara, com vários membros da bancada evangélica, como Marco Feliciano (PSC-SP) e João Campos (PRB-GO), ex-presidente da frente religiosa. Também presente: a psicóloga Rozangela Justino, que trabalha no gabinete de um parlamentar aliado de Silas Malafaia, Sostenes Cavalcante (DEM-RJ), e que ficou conhecida por defender a terapia para pacientes homossexuais, apelidada de "cura gay".

Feliciano reclamou de obras do "Queermuseu", como a de "uma hóstia que trazia 'vagina' escrito".

Argumentou o deputado-pastor: a imprensa fez um "auê" quando, em 1995, um bispo da Igreja Universal chutou a imagem de uma santa. "Ok, isso foi crime", disse.

Mas por que a mídia se calou quando a mostra em Porto Alegre exibiu a performance "Atos da Transfiguração: Desaparição ou Receita para Fazer um Santo"?

Nela, o artista usa um ralador para transformar uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida em pó –depois jogado sobre seu corpo nu. Os episódios de 1995 e 2017 se equivalem no desrespeito à fé, segundo o deputado do PSC.

"Essas pornografias travestidas de cultura" estão "virando moda no Brasil", e tudo às custas do contribuinte, disparou Laerte Bessa (PR-DF). "A Constituição não fala em pornografia." Não adianta querer se impor isso num país com o nisso, que é um país de família."
Glauber Braga questionou: o que seus colegas querem? Que projetos, para usufruirem da Rouanet, passem por uma comissão avaliadora com Silas Malafaia e Feliciano?

Leitão se posicionou contra o "dirigismo cultural" e afirmou que "a liberdade de criação, expressão e manifestação" são direitos resguardados pela Constituição.

"Não podemos de maneira nenhuma incorrer na questão da censura."

O que não quer dizer que limites inexistam, continuou o ministro. Para evitar desrespeito ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), exposições devem ter classificação indicativa por força de lei, como já acontece no audiovisual, defendeu.

Feliciano rebateu: em certos casos, a classificação deveria ser "proibitiva, e não apenas indicativa", já que há pais dispostos a levar seus filhos para conferir obras "inadequadas". Foi o caso, a seu ver, da mãe da menina que interagiu com um homem nu no MAM.

Alberto Fraga abriu audiência criticando o "Quérmuseu" (colegas logo corrigiram a pronúncia aportuguesada para "Queermuseu", e ele riu e se desculpou: "Não sei falar inglês").

"As crianças que visitaram a mostra foram expostas a vídeos criminosos", afirmou, destacando um deles, em que "um homem recebe jato de sêmen". Também se mostrou desgostoso com o trabalho que faz alusão ao tumblr "Criança Viada", "muito apreciado pela comunidade LGBT".
"A virtude está no meio", afirmou Leitão. Citava Aristoteles para propor um diálogo "ponderado" que conciliasse os dois lados. Por hoje, ao menos, nada feito.

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Leia na íntegra a nota enviada pelo Ministério da Cultura:

O Ministério da Cultura vem a público prestar os seguintes esclarecimentos:

1) A convite das Comissões de Cultura e de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, participou hoje de audiência pública na câmara dos deputados;

2) Em sua fala, o ministro tratou da posição do Ministério da Cultura em relação a exposições artísticas realizadas recentemente em Porto Alegre e São Paulo, e prestou os esclarecimentos pedidos pelos deputados;

3) Sá Leitão reforçou a posição do MinC favorável à extensão da classificação indicativa para exposições de artes visuais;
4) O ministro respondeu com serenidade a todas as perguntas e compartilhou as informações pedidas, reafirmando sua convicção de que o assunto deve ser tratado com equilíbrio e racionalidade;

5) Em determinado momento da audiência, houve colocações ofensivas dirigidas ao ministro, sem qualquer relação com o objeto ou com o tom do conjunto da audiência.Diante das repetidas ofensas, o ministro encerrou sua participação;

6) Após o incidente, o deputado Alberto Fraga, da Comissão de Segurança, ligou para o ministro Sá Leitão e pediu desculpas em nome da Comissão e dos deputados que a compõem. O deputado Thiago Peixoto, presidente da Comissão de Cultura, fez o mesmo;

7) O ministro reitera seu respeito a todos os parlamentares e ao Congresso Nacional, e seu desejo de construir um debate amplo e respeitoso, fundado no verdadeiro diálogo, que possa contribuir de fato para o fortalecimento da cultura, da democracia e do estado de direito em nosso país.
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Matéria de Anna Virginia Balloussier originalmente publicada no jornal “Folha de São Paulo” (www1.folha.uol.com.br), em 18/10/17.