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“Tragam seus filhos para ver gente nua”

Pais que levaram os filhos para ver “gente nua” em museu de Paris falam da tentativa de censura à arte no Brasil. Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br +

Uma campanha para incentivar os pais a levar os filhos para ver gente nua. Poderia ser no Brasil, mas é no Museu d’Orsay, em Paris.
Há dois anos, banners com a mensagem “tragam seus filhos para ver gente nua” foram espalhados pelo transporte público da cidade, o que, de acordo com os organizadores, foi um sucesso e não resultou em polêmicas.
A proposta é retomar a campanha neste mês. Depois que o artista Wagner Schwartz foi acusado de pedofilia, junto com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, depois de um vídeo que uma criança toca o corpo dele nu durante uma performance, imagino se uma ideia como seria posta em prática no Brasil.
Perguntei a visitantes do D’Orsay, que é repleto de esculturas e quadros representando a nudez, o que eles pensam tanto sobre a campanha e também expliquei a eles o ocorrido no Brasil.
Para a francesa Martine, de 57 anos, a iniciativa francesa é muito boa. “É uma outra maneira de ver o corpo, interpretada pelos artistas de uma outra época, quando o corpo não tinha a mesma visão que hoje”.
Ela, cujo filho tem 32 anos, disse que se ele fosse criança o traria do mesmo modo ao museu, “sem nenhuma dificuldade”.
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Para Martine, o que ocorreu no Brasil foi um exagero. “Pedofilia não tem nada a ver com isso. Há um artista que tira fotos de pessoas nuas, fotos magníficas. Não tem nada de chocante”, opina.
O inglês Peter, 80, traria o neto. “É importante que as crianças apreciem a arte”, afirma. Sobre o caso do Brasil, ele acredita que a orientação cabe aos pais. “A criança precisa entender que não é sexual, que é arte. O papel dos pais é fazê-la entender isso e observar suas crianças. O mais importante é que a criança que vá assistir a uma performance como essa tenha a maturidade necessária.”
O alemão Holger, 50, tampouco vê problemas na nudez. No entanto, ele avalia que essa percepção depende da cultura. “Aqui na Europa, é menos complicado do que em outras partes do mundo. Às vezes, coisas que têm a ver com religião são muito diferentes. É uma questão de tempo que as coisas se tornem mais fáceis”, declara.
Alessandra, italiana de 56 anos, defende que a nudez pode ser interpretada e apreciada de outro modo quando o assunto é arte. “Para não chegar à pornografia, depende da idade das crianças, da educação cívica e moral”, observa.
No caso específico do Brasil, ela diz que as instalações modernas não devem ultrapassar “a moral pública e individual”.
E que “se isso (uma criança poder tocar o corpo de um artista nu) fazia parte de uma interpretação artística… Depende de qual parte do corpo. Eu acho que não é grave”, pondera.
A americana Susan, 71, discorda da reação de setores da sociedade brasileira à performance de Schwartz. Perguntada sobre a campanha do museu francês, ela traria seus filhos sem problema algum. “É história. É um trabalho clássico. As crianças precisam ver isso”, diz.
Seu conterrâneo Bill, 61, não vê problemas em nenhum dos casos. “É parte da vida. Um fato da vida. Isso aparece nos livros. Se apresentado corretamente pelos pais, não há problema”.
A também americana Liana, 42, trouxe a filha Sofia, 11, para visitar o museu. Para ela, nudez na arte é uma forma de apreciar a forma humana. E ela mesma pergunta à filha o que acha. “Eu não gostaria de ver isso (risos)”, diz Sofia, 11.
A russa Julia, 43, que veio acompanhada do filho adolescente e da irmã, também avalia como parte da arte ver pessoas nuas, mas critica a possibilidade de uma criança tocar o corpo de um artista.
“Ele poderia pensar melhor sobre as consequências e não fazer isso”. Mesmo assim, ela discorda do ponto a que chegaram as críticas. “Não é correto acusá-lo de pedofilia”.
Também encontrei brasileiros. O primeiro aceitou dar entrevista, mas decidiu interrompê-la logo no início quando seu grupo disse que ia entrar na instituição. O outro também aceitou ser entrevistado, mas diante das perguntas, preferiu não participar. “Sou ultraconservador”, justificou.
No Museu d’Orsay estão obras dos séculos XIX e XX, assinadas por, entre outros, Van Gogh, Auguste Rodin e Paul Gauguin. A nudez aparece principalmente nas esculturas, com referências ao ideal de beleza da Grécia Antiga.
Mas o nu também é utilizado para falar de tristeza, solidão, da condição humana, sua existência, divisões sociais, miséria, inocência, valores culturais, natureza.
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Artigo de Willy Delvalle , de Paris, publicado no portal http://www.diariodocentrodomundo.com.br

Em Paris, proibição do Museu do Louvre a escultura gera polêmica

O Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea. A escultura “Domestikator" é habitáculo de 12m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada. Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17. +

Após o fechamento da "Queermuseu", a interdição da mostra no Rio e o escândalo causado pela performance "La Bête", no Museu de Arte Moderna de SP, muitos olhos se voltaram à Europa.

O farol da civilização, porém, pisca quando o maior museu do mundo interdita uma obra por razão duvidosa.
Por um lado, a França irradia ideias arrojadas e nortes morais, sociais e políticos.

Um museu como o d'Orsay, em Paris, lança campanhas para atrair o público jovem, sobretudo crianças, com slogans que deixariam o pastor-prefeito Marcelo Crivella (PRB) de topete arrepiado. "Tragam seus filhos para ver gente nua", diz um deles, sobre a tela "Mulher Nua Deitada" (1907), de Auguste Renoir.

Mas, no outro lado do rio Sena, o Museu do Louvre acaba de vetar uma obra na tradicional Feira Internacional de Arte Contemporânea, que ocorre de 19 a 22 de outubro.

"Domestikator", escultura-habitáculo de 12 m de altura que sugere um homem copulando com um animal, deveria ser exposta ao ar livre, mas a obra do ateliê holandês Van Lieshout não foi autorizada.
Em público, a direção do museu culpou o calendário: não haveria tempo para que o trabalho fosse aprovado pelas comissões encarregadas.

Contudo, como revelou o "Le Monde", o presidente do Louvre, Jean-Luc Martinez, foi explícito em carta enviada à direção do evento: "circulam rumores na internet que atribuem a esta obra uma visão brutal demais, que pode ser mal interpretada pelo nosso público tradicional".

"É de uma hipocrisia total", reagiu o artista holandês Joop Van Lieshour. "Em Bochum (Alemanha), turmas inteiras de colégios vieram conhecer o 'Domestikator'." Para ele, "se crianças viram algo de sexual, é porque já têm idade para ver essas coisas".

"É ridículo, senão ilegal!", protesta a advogada Agnès Tricoire, fundadora do Observatório da Liberdade de Criação, que defende artistas censurados. "Se seguirmos a lógica, teremos de listar telas que deveriam ser retiradas."

A ONG francesa ressalva que a arte pode ter limites. A pedofilia, por exemplo, aceita na literatura (como em "Lolita", de Nabokov), é um dos tabus que provocam reações.

Daí a definição de Tricoire: "A pedofilia num desenho é uma coisa. Mas, obviamente, jamais aceitaríamos que uma criança participasse de ato sexual numa obra de arte".

Se na França a classificação por faixa etária se limita ao cinema e ao teatro, como no Brasil, nos museus ela fica por conta do curador.

A direita francesa pode ser atuante, como demonstrou em protestos contra o casamento homossexual. A escultura "Dirty Corner", do judeu Anish Kapoor, é bom exemplo. Exposta nos jardins do Palácio de Versalhes, a obra recebeu pichações antissemitas em setembro de 2015.

Meses antes, a escultura inflável "Tree", do americano Paul McCarthy, que lembra um brinquedo erótico, já havia sido vandalizada no centro de Paris, enquanto o artista recebia bofetada de um moralista mais exaltado.
Em tempo: o museu Centre Pompidou, também em Paris, já se ofereceu para abrigar o 'Domestikator'.
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Matéria de Maurício Torres Assumpção para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 17/10/17.

Masp abre mostra sobre sexualidade com obras de artistas consagrados

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. E essa mostra de trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon, Edgar Degas, Édouard Manet, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Robert Mapplethorpe, Victor Meirelles e Adriana Varejão. Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17. +

O Museu de Arte de São Paulo (Masp) inaugura na próxima sexta-feira, 20, a mostra Histórias da Sexualidade, que faz parte do foco temático do Museu em 2017. A exposição fica no Masp até o dia 9 de fevereiro de 2018.

Entre os artistas que terão suas obras expostas estão Francis Bacon (1561-1626), Edgar Degas (1834-1917), Édouard Manet (1832-1883), Pablo Picasso (1881-1973), Paul Gauguin (1848-1903), Suzanne Valadon (1865-1938), Robert Mapplethorpe (1946-1989). Brasileiros como Victor Meirelles (1832-1903) e Adriana Varejão (1964) também terão trabalhos na mostra. Entre outros.

A exposição chega num momento em que a discussão sobre sexualidade na arte está em alta, dentro e fora do Brasil. Por aqui, instituições culturais estão discutindo a criação de um manual para exposições.

Em torno da mostra Histórias da Sexualidade estão sendo apresentadas ao longo do ano exposições de artistas brasileiros e internacionais, cujos trabalhos, segundo o Masp, suscitam questionamentos sobre corporalidade, desejo, sensualidade, erotismo, feminismo, questões de gênero, entre outros. São eles: Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Henri de Toulouse-Lautrec, Miguel Rio Branco, Guerrilla Girls, Pedro Correia de Araújo e Tunga.

Em artigo publicado nesta terça, 17, no jornal Folha de S. Paulo ("Mostra no Masp sobre sexualidade reforça que censura é inaceitável"), o diretor presidente do Masp, Heitor Martins, apresentou a exposição e fez ressalvas, lembrando que "o único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro e o necessário diálogo".

"É preciso criar condições para que todos nós –cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades– possamos viver de forma harmoniosa e escutando uns aos outros", escreveu Martins.

"Por isso mesmo, a radicalização, a intolerância, o cerceamento da liberdade de expressão, não devem e não podem ser aceitos. O Masp, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais", prosseguiu. O diretor reforça que a exposição pretende construir um "debate consistente e sólido".

Ainda de acordo com o Museu, a programação anual pretende discutir múltiplas perspectivas sobre a sexualidade, "considerando, especialmente, narrativas descolonizadoras, que extrapolem conceitos ocidentais hegemônicos e de classes dominantes, e provoquem atritos entre acervos diversos".

Histórias da Sexualidade está inserida em um projeto mais amplo de exposições do MASP, que atenta para histórias plurais, que vão além das narrativas tradicionais, tais como Histórias da Loucura e Histórias Feministas (iniciadas em 2015), Histórias da Infância (em 2016) e Histórias da Escravidão (programada para 2018).

A exposição chega coincidentemente num momento em que o debate tomou conta das redes sociais no Brasil, e chegou até ao Ministério Público. No fim de setembro, a participação de uma criança em uma performance protagonizada por um homem nu deu início a nova polêmica sobre a liberdade artística. O teor dos comentários foi o mesmo daqueles que levaram ao cancelamento da exposição Queermuseu, alvo de protesto ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) em Porto Alegre.

HISTÓRIAS DA SEXUALIDADE
MASP. Av. Paulista, 1578, Primeiro andar. De 20/10/2017 a 9/2/2018. Indicação etária: 18 anos. R$ 30.
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Matéria publicada originalmente no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 17/10/17.

O Jockey volta à moda

O primeiro empreendimento da Vila Portugal no Jockey Club do Rio de Janeiro, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves. Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”. +

Quando criança, o carioca Luiz Gustavo Neves costumava acompanhar o pai – um turfista apaixonado – em suas longas tardes de apostas no Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro. À época, o Jockey Club Brasileiro já não ostentava mais o glamour das décadas de 40 e 50, quando os páreos faziam lotar as arquibancadas e os eventos sociais reuniam boa parte da elite carioca. Mas o terreno amplo – são mais de 300 mil metros quadrados encravados entre o Jardim Botânico, o Leblon e a Lagoa Rodrigo de Freitas – e a vista privilegiadíssima para o Corcovado eram suficientes para encantar o garoto.
Hoje, aos 36 anos e ainda sócio da instituição, Neves continua frequentador do lugar e, nos últimos tempos, tornou-se também um dos maiores entusiastas da revitalização da área. “Ficava triste de ver um local tão bonito sendo tão pouco aproveitado pela população”, diz Neves. “Queria fazer algo para mudar esse quadro.”

A chance surgiu quando Neves percebeu, em uma área abandonada do hipódromo, uma oportunidade para fazer negócios – e, de quebra, atrair muito mais gente à região. Neves uniu-se ao amigo Francisco Pellegrino, de 37 anos, para viabilizar a Vila Portugal, um complexo de galerias e restaurantes que, aos poucos, começa a tomar forma, ocupando o que antes eram apenas ruínas de uma antiga vila operária. “Queríamos fazer algo que tivesse relação com o bairro”, diz Neves. “Por isso, pensamos no polo cultural. O Jardim Botânico tem muitos ateliês e um circuito de arte reconhecido.”

O primeiro empreendimento da Vila Portugal, a Carpintaria, abriu as portas em novembro de 2016 e já se transformou em um dos endereços mais bacanas do Rio de Janeiro. Projeto da renomada galeria paulistana Fortes Vilaça (agora, Fortes D’Aloia & Gabriel), o local, além de apresentar trabalhos de diferentes artistas, vai abrigar eventos e encontros para discussões culturais, num galpão feito sob medida para o empreendimento, com vistas para a pista de corrida e as montanhas. Em junho, entra em operação o Camolesi, misto de restaurante, pizzaria, cervejaria e clubinho de jazz, que terá no comando o empresário Cello Macedo (dono de outras casas famosas no Rio) e o artista Vik Muniz. Outros dois negócios estão prestes a ser finalizados – a primeira galeria de Oskar Metsavaht, o fundador da Osklen, e uma nova unidade da já tradicional Nara Roesler. “O entusiasmo com que esse grupo embarcou na nossa ideia foi fundamental para a viabilidade do projeto”, diz Neves.

A primeira turma a apostar na Vila Portugal foi o trio Márcia Fortes, Alessandra D’Aloia e Alexandre Gabriel, da Carpintaria – apresentado a Neves e Pellegrino por intermédio dos artistas Otávio e Gustavo Pandolfo, OSGÊMEOS. “A ideia inicial, nas conversas com o Neves e o Pellegrino, era montar quatro restaurantes e uma galeria de arte. Mas nós os convencemos a dar mais ênfase à parte cultural”, conta Márcia Fortes. “O projeto, então, se encaminhou para as três galerias e o clube de jazz.”

A exposição Uma Canção para o Rio, feita com a colaboração de dois curadores de Los Angeles, Douglas Fogle e Hanneke Skerath, marcou a estreia da Carpintaria na Vila Portugal. Márcia explica que a mostra explorou a relação entre as artes visuais e a música por meio de um conjunto de obras assinadas por artistas brasileiros e do exterior – entre os quais Martin Creed, Hélio Oiticica, Nuno Ramos, Barrão e Rivane Neuenschwander. “A Carpintaria tem um conceito: ser um espaço para o diálogo cultural entre artistas e o mercado, por meio de shows, exposições e debates”, afirma Márcia. “Acho, enfim, que essa é a vocação da Vila como um todo.”

Idealizado pela primeira vez em 2010, o projeto da Vila Portugal foi marcado por uma série de obstáculos. O primeiro deles foi chegar a um modelo de negócios que atendesse tanto à necessidade dos novos ocupantes como dos sócios e frequentadores do Jockey. As negociações com a diretoria do clube arrastaram-se por mais de um ano. No final, chegou-se ao seguinte: os galeristas e empresários são responsáveis pelos custos de revitalização ou das novas construções, e pagam diretamente ao Jockey o valor dos aluguéis – em contratos de oito anos. Neves e Pellegrino ficam com um percentual sobre cada contrato.

Resolvido esse impasse, a dupla de amigos ainda precisou lidar com a morosidade para a obtenção de todas as licenças e autorizações – além de uma resistência dura da Associação de Moradores do Jardim Botânico. O grupo chegou a fazer uma denúncia no Ministério Público, acusando o clube por crimes ambientais e contra o patrimônio cultural. “Foi um erro nosso”, diz Neves. “Boa parte da confusão se deu por uma falha de comunicação.” A situação foi resolvida depois que o projeto foi apresentado de forma detalhada durante várias reuniões, com grupos de moradores e também do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, órgão da prefeitura responsável pela preservação de edifícios de valor histórico e arquitetônico.

“Tudo é aprendizado”, diz Neves, que não esconde a satisfação ao falar da empreitada. Ele e Pellegrino são agora sócios da Negroni, uma consultoria especializada em prospectar áreas degradadas ou ociosas com bom potencial para revitalização. Outros três projetos já estão engatilhados, um deles com o próprio Jockey. Além do Hipódromo da Gávea, o clube também é dono de um complexo de três prédios no centro da cidade. “O Rio está cheio de possibilidades para projetos como o da Vila Portugal”, diz Neves. “E nós estamos com a maior disposição para executá-los.”
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Matéria originalmente publicada no site da revista “Época Negócios”, em 18/08/17.

Retrato de Jesus “Salvator Mundi”, de Da Vinci, pode arrecadar US$ 100 milhões

A pintura de Leonardo, datada de cerca de 1500, é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. A casa de leilões Christie's de Nova York também venderá ao seu lado a versão de Warhol da Última Ceia. Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17. +

A Christie's fez uma revelação nesta manhã (10/10) ao anunciar dois lotes de grande impacto para o próximo leilão de novembro: a enorme obra com 60 painéis “Last Supper” (A Última Ceia) de Andy Warhol, com uma estimativa de US$ 50 milhões, ao lado de uma obra mais peso pesado ainda: a impressionante e última obra-prima conhecida de Leonardo da Vinci, “Salvator Mundi”, que traz a estimativa de US $ 100 milhões.
As obras foram anunciadas na sede da casa de leilões no Rockefeller Center com observações de uma série de executivos, incluindo os co-chefes do departamento de arte do pós-guerra e contemporâneo Loïc Gouzer e Alex Rotter, juntamente com o especialista sênior do antigo mestre, Alan Wintermute, e o chefe do departamento do Old Master Francois de Poortere.
O Leonardo foi consignado pelo bilionário russo Dmitry Rybolovlev, conforme um representante de confiança da família confirmou para Artnet News. Ele comprou o trabalho em 2013 por US$ 127,5 milhões. (Christie's afirmou apenas que o trabalho vem de uma coleção privada européia.) Tanto o Leonardo quanto o Warhol possuem garantias de terceiros.
Explicando a decisão de colocar o Leonardo ao lado do Warhol na venda contemporânea, Gouzer disse que isso reflete no "diálogo entre esses dois artistas", bem como a propensão da Christie’s por empurrar fronteiras e "perturbar" as categorias de vendas. Ele alcançou sucesso com os recentes esforços na criação de chamadas vendas híbridas que combinam ofertas surpreendentes de arte clássica com obras contemporâneas de ponta.
Wintermute delineou a história da pintura de Leonardo durante a conferência de imprensa. Datada de cerca de 1500, a obra é uma das 20 obras menos conhecidas do artista e, segundo notícias, é a última em mãos privadas. Ela foi registrada pela primeira vez na coleção do Rei Charles (1600-1649), passou por um leilão em 1763 e foi redescoberta em 2005. Em 2011, foi exibido na Galeria Nacional em Londres.
A pintura foi considerada durante um bom tempo como se fosse um trabalho feito por um seguidor de Leonardo e foi vendida na Sotheby's London em 1958 por apenas £ 45. Wintermute notou observou que o trabalho foi examinado pelo Museu Metropolitano de Arte e considerado autêntico.
Desde que ressurgiu, o “Salvator Mundi” esteve envolvido em várias complexas e severas batalhas legais. A mais famosa aconteceu quando o trabalho incitou uma longa luta entre Rybolovlev e seu antigo assessor de arte, Yves Bouvier, que comprou o trabalho em 2013 de três concessionários em uma venda negociada pela Sotheby's “entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões", de acordo com um relatório do New York Times. Então, Bouvier supostamente vendeu para Rybolovlev por muito mais do que pagou.
"Como sabemos agora, em maio de 2013, Yves Bouvier adquiriu o Salvator Mundi de da Vinci por US$ 80 milhões", diz o porta-voz, acrescentando que o giro acrescentou "uma margem grotesca e não autorizada" de US $ 47,5 milhões. "Agora, o próximo leilão deste trabalho finalmente acabará com um capítulo muito doloroso para a família Rybolovlev".
A obra de Leonardo foi exibida por apenas duas horas na Chritie's e, em seguida, enviada para um tour mundial por Hong Kong, Sãn Francisco, e Londres, antes de retornar a Nova York em 15/11 para o leilão.
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Matéria de Eileen Kinsella originalmente publicada no site da artNet (artnet.com), em 10/10/17.

Vão a leilão 95 obras de arte do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira

As obras que pertenciam à coleção do ex-banqueiro haviam sido desviadas para a Europa e para os Estados Unidos e, com ajuda de procuradores a Justiça brasileira e a Interpol, decidiram a devolução de todas essas peças para serem leiloadas. Edemar construiu sua coleção de arte com recursos ilícitos, fruto de crimes financeiros e lavagem de dinheiro, e depois desviou uma parte das peças para o exterior de forma ilegal. Matéria de Silas Martí par ao jornal “Folha de São Paulo”, em 07/10/17. +

Noventa e cinco obras de arte que pertenciam à coleção do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira e haviam sido desviadas para a Europa e para os Estados Unidos serão devolvidas agora à massa falida do extinto Banco Santos para que sejam leiloadas.

Procuradores em Nova York e Boston, que trabalharam com a Justiça brasileira e a Interpol para determinar o paradeiro das obras, decidiram nesta semana pela devolução de todas essas peças.

De acordo com investigadores, Edemar construiu sua coleção de arte com recursos ilícitos, fruto de crimes financeiros e lavagem de dinheiro, e depois desviou uma parte das peças para o exterior de forma ilegal, tentando evitar que fossem confiscadas.

Segundo Vanio Aguiar, administrador da massa falida, as 95 peças valem cerca de US$ 4 milhões e serão leiloadas na Sotheby's, uma das maiores casas de leilão de Nova York, e os recursos revertidos para pagar credores.

Entre os trabalhos, está uma escultura de bronze do modernista britânico Henry Moore. Avaliada em US$ 1,5 milhão, essa é uma das obras mais valiosas do acervo do ex-banqueiro. Ela foi encontrada em agosto, em Paris, e depois enviada aos EUA.

Há ainda obras de brasileiros como Adriana Varejão, Jac Leirner e Vik Muniz, três dos nomes mais valorizados no mercado internacional, e peças de estrangeiros também disputadas em leilões, entre elas obras do indiano Anish Kapoor, da francesa Louise Bourgeois, do americano Man Ray, do húngaro Laszlo Moholy-Nagy e do modernista mexicano Rufino Tamayo.

"Essas obras foram usadas para mascarar um audacioso esquema criminoso de Edemar Cid Ferreira", afirmou o procurador Joon Kim, de um distrito de Manhattan. "Graças aos nossos esforços, elas serão devolvidas a seus proprietários de direito, a massa falida do banco de Ferreira."

Esse conjunto parece ser o último lote de obras que ainda faltava voltar ao controle da massa falida. As obras devolvidas agora, no caso, estavam espalhadas pelos EUA e também pela Europa, em galpões na Holanda, na França e na Suíça, mas foi reunido em Nova York pelos investigadores para que pudessem ser repatriadas ou vendidas.

Há dois anos, duas peças importantes de Edemar que estavam nos EUA, uma tela de Jean-Michel Basquiat avaliada em até US$ 12 milhões e uma escultura de US$ 900 mil, foram entregues aos gestores da dívida do banco.

Em novembro de 2016, um leilão das obras do banqueiro que estavam em sua casa no Morumbi arrecadou R$ 11,8 milhões. Há outras 600 peças avaliadas em R$ 6 milhões sob a guarda do Museu de Arte Contemporânea da USP e que serão vendidas.

No total, R$ 103 milhões já foram arrecadados pela massa falida com a venda de obras de arte de Edemar.

ROMBO

O Banco Santos quebrou em 2005, deixando um rombo de R$ 3,4 bilhões. Edemar foi condenado por crimes financeiros e lavagem de dinheiro, mas a sentença foi anulada por erros processuais, porque advogados de outros réus não puderam fazer perguntas ao ex-banqueiro.

Quando soube da decisão da Justiça americana de entregar as últimas 95 obras, Edemar disse que concorda que elas sejam vendidas para pagar credores do Banco Santos, mas critica o fato de a apreensão delas ser determinada por uma decisão judicial anulada.

"Meu negócio é pagar os credores", disse o ex-banqueiro. "Não vou brigar para reaver essas obras. Elas pertencem aos credores. Não tem problema. O que não pode é usar uma ação criminal anulada como base para isso."

Ele também negou que essas peças tenham sido compradas com recursos ilícitos e que foram desviadas de maneira ilegal para o exterior.

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Matéria de Silas Martí para o jornal “Folha de S. Paulo”, em 07/10/17.

Guerrilla Girls tomam o Masp e denunciam sexismo

Entre cartazes de toda a carreira do coletivo americano, o cartaz original do Metropolitan, atualizado para a mostra do Masp, faz a mesma pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? No Masp, apenas 6% dos artistas em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos. Vestidas com máscaras de gorilas, as três das integrantes mostram que o sexismo domina o circuito das artes e intera “É o velho preconceito de ver o homem como gênio criador e a mulher como musa”. Matéria de Antonio Gonçalves Filho par ao jornal “O Estado de S. Paulo”, 28/09/17. +

O cartaz publicado abaixo, de 1989, o mais conhecido da história do coletivo Guerrilla Girls, foi atualizado para a mostra Guerrilla Girls Gráfica – 1985-2017, que o Masp abre hoje, 28, às 20 horas, para convidados, e amanhã para o público. No cartaz original, que mostra uma segunda versão (ca. 1824/30) da Grande Odalisca de Ingres com cabeça de gorila, elas criticavam o Metropolitan de Nova York por ter menos de 5% de artistas mulheres no acervo, sendo 85% dos nus femininos. E perguntavam: “Mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan?” Essa história de militância feminista remonta a 1985, quando as Guerrilla Girls criticaram o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York por montar uma exposição com 165 artistas, dos quais só 13 eram mulheres. Nascia nesse protesto o coletivo de artistas mulheres que há 32 anos inferniza a vida de curadores, diretores de museus e colecionadores, denunciando o chauvinismo no mundo da arte.

O cartaz original do Metropolitan, atualizado para a mostra do Masp, faz a mesma pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? E mostra números não muito diferentes do Metropolitan: no Masp, apenas 6% dos artistas em exposição são mulheres, mas 60% dos nus são femininos. Vestidas com máscaras de gorilas, três das integrantes do coletivo Guerrilla Girls receberam a reportagem do Estadão para confirmar que o sexismo domina o circuito das artes e falar de sua missão artística. “Combatemos a discriminação e defendemos os direitos humanos”, sintetizam as garotas guerrilheiras, que jamais revelam a identidade e até nas entrevistas usam o disfarce de gorilas.

“Nós fomos as Gorilla Girls antes de ser Guerrilla Girls por lapso de uma redatora, que confundiu os nomes gorilla e guerrilla”, diz uma delas, concluindo: “Foi um erro iluminador, pois sugeriu o uso das máscaras de gorilas, disfarces que nos dão maior liberdade de expressão”. As gorilas guerrilheiras já assinaram centenas de projetos e participaram de mostras importantes como a Bienal de Veneza, sempre criticando as instituições que as convidam. Faz parte do show. Na exposição do Masp, um dos 117 cartazes que elas exibem foi feito para a bienal italiana, em 2005. Ele replica uma cena do filme La Dolce Vita, de Fellini, em que Marcello Mastroianni cavalga uma loira numa festa, comentada pelo seguinte texto: “Onde estão as mulheres de Veneza? Abaixo dos homens”. E confirmavam com números: 91% dos expositores eram homens, isso um século após a criação da Bienal italiana, em 1895, em que apenas 2,4% dos artistas eram mulheres.

A quem imputar a culpa pela discriminação das mulheres no mundo da arte? A resposta das guerrilheiras: aos homens ricos e brancos. São eles que sustentam os museus com doações em dinheiro e obras de arte. Resultado: museus não mais servem ao propósito de documentar a história da arte, mas a história do poder e do dinheiro – e elas demonstraram, em 1989, que o valor pago por uma tela de Jasper Johns (US$ 17,7 milhões) poderia comprar obras de 67 mulheres artistas consagradas, entre elas Diane Arbus, Dorothea Lange, Frida Kahlo e Georgia O’Keefe. “É o velho preconceito de ver o homem como gênio criador e a mulher como musa”, comenta uma das garotas.

O coletivo de mulheres ampliou o foco, incluindo em seus projetos guerrilheiros outros grupos discriminados (gays, negros, transexuais), como mostram os cartazes expostos no Masp. Um deles, irônico, prova que até o Senado americano é mais progressista do que Hollywood: no Senado, 75% dos homens são brancos; em Hollywood, 94% dos cineastas são igualmente caucasianos. Politizadas, as “gorilas” também assinam um cartaz (de 2016) em que trocam as datas cívicas dos EUA no governo Trump por: Mês da Ku Klux Klan; Mês da Deportação, etc. “Trump levou o otimismo que a América tinha com Obama”, comenta uma das ativistas. E no resto do mundo? “As pessoas dizem que há mais mulheres dirigindo instituições como a Tate ou galerias de arte, mas esse desequilíbrio é sistêmico, pois tanto nos museus como nas galerias os homens ainda dominam.” É só fazer o levantamento (e elas são boas nisso): a coleção permanente da Tate Modern tem 959 artistas homens. E só 335 mulheres.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho par ao jornal “O Estado de S. Paulo”, 28/09/17.

Artistas acusam prefeitura do RJ de censura a evento

Em meio à polêmica do veto à vinda da exposição “Queermuseu” para o Rio, um novo episódio deixou em alerta artistas da cidade. Prevista para ser inaugurada ontem no Castelinho do Flamengo, na Zona Sul da cidade, a quarta edição do evento “Curto-circuito” reuniria cerca de 50 artistas, performances e duas peças teatrais. Mas tanto os artistas quanto o público que foi para o espaço ontem para assistir ao primeiro espetáculo, “Bicha oca”, encontraram os portões fechados. A justificativa da administração era de uma pane elétrica — um cartaz colado no portão informava que o local “está com a visitação suspensa”. Artigo de Nelson Gobbi para o jornal "O Globo" +

Em meio à polêmica do veto à vinda da exposição “Queermuseu” para o Rio, um novo episódio deixou em alerta artistas da cidade. Prevista para ser inaugurada ontem no Castelinho do Flamengo, na Zona Sul da cidade, a quarta edição do evento “Curto-circuito” reuniria cerca de 50 artistas, performances e duas peças teatrais. Mas tanto os artistas quanto o público que foi para o espaço ontem para assistir ao primeiro espetáculo, “Bicha oca”, encontraram os portões fechados. A justificativa da administração era de uma pane elétrica — um cartaz colado no portão informava que o local “está com a visitação suspensa”.

Julie Brasil, uma das artistas da mostra coletiva, acusa a prefeitura de censura.

— Todas as obras haviam sido aprovadas, mas, durante a montagem, começou a circular a possibilidade de censura, e dois trabalhos foram retirados. Hoje eu fui ao Castelinho do Flamengo para ver minha obra, que é cinética, e dei com os portões fechados. Lá dentro, outras obras tinham sido retiradas, e depois nos disseram que havia uma pane elétrica e que a exposição estava suspensa até segunda ordem — acusa a artista, autora da obra “Após a chacina, doamos os órgãos dos nossos filhos”. — Mas os computadores estavam funcionando normalmente, e as luzes dos andares superiores estavam acesas no início da noite.

“OUTUBRO DA DIVERSIDADE”

O Coletivo FLSH afirmou que teve retiradas das paredes as fotos de “nus que expressam a diversidade entre os corpos, valorizando suas singularidades” e que aguarda ainda “posicionamento da prefeitura para esclarecer a situação, inclusive sobre o paradeiro das obras de arte”.

— Isso é ainda mais grave porque estamos incluídos no “Outubro da diversidade”, programação temática criada pela Secretaria de Cultura. Que diversidade é essa que está sujeita a uma censura moral? — questiona Julie.

A Secretaria Municipal de Cultura rebate as acusações dos artistas, reforçando a informação da pane elétrica e que a programação do Castelinho está mantida e será retomada assim que um laudo técnico for finalizado. A SMC informa ainda que as obras da exposição estão devidamente guardadas no interior do prédio e toda a programação do “Outubro da diversidade” segue em 16 equipamentos da prefeitura, sem que nenhuma outra ocorrência tenha sido notificada.
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Artigo de Nelson Gobbi para o jornal "O Globo"

Polêmica chega ao MINC

Em uma semana em que os debates sobre os limites da arte se tornaram mais acalorados e saíram da esfera dos museus para a política, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, atirou mais lenha à fogueira. O ministro incluiu um artigo na minuta da regulamentação da Lei Rouanet, que veta a apresentação de propostas que “vilipendiem a fé religiosa, promovam a sexualização precoce de crianças e adolescentes ou façam apologia a crimes ou atividades criminosas”. Artigo de Nelson Gobbi e Alessandro Giannini para o jornal "O Globo". +

Em uma semana em que os debates sobre os limites da arte se tornaram mais acalorados e saíram da esfera dos museus para a política, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, atirou mais lenha à fogueira. Conforme adiantou ontem a coluna de Ancelmo Gois, no GLOBO, o ministro incluiu um artigo na minuta da regulamentação da Lei Rouanet, que veta a apresentação de propostas que “vilipendiem a fé religiosa, promovam a sexualização precoce de crianças e adolescentes ou façam apologia a crimes ou atividades criminosas”. Para representantes de diferentes áreas do setor, a inclusão do artigo na lei abre um perigoso precedente para a censura.
— Achei que vivêssemos em um Estado laico, mas o Brasil se torna cada vez mais acanhado. Estamos presenciando uma espécie de ditadura coletiva, muito próxima do que foi o início do nazismo. A Alemanha dos anos 1930 também utilizou a publicidade para criar um estado de histeria coletiva, para conduzir as pessoas para um sentimento fanático — protesta o artista visual Ernesto Neto. — Este tipo de censura vai inibir a criação e a imaginação, e qualquer produção depende disso para existir. É triste ver um país com tamanha riqueza que abre mão de suas referências multiculturais para se manter ligado apenas às europeias, e de uma Europa que nem se reconhece mais.
Para Eduardo Barata, presidente da Associação dos Produtores de Teatro (APTR), a medida parece “censura travestida de legalidade”:
— Tudo depende do ponto de vista. Fazer uma peça em que Jesus Cristo é travesti é vilipendiar a fé religiosa? Se a novela da Gloria Perez for transcrita para o palco, isso vai configurar apologia ao crime? Uma obra de arte não pode ter esse tipo de amarra. Nossos projetos são avaliados por técnicos. Com uma recomendação dessas vai ser difícil aprovar qualquer coisa. O único acesso que temos a fomento de cultura é pela Lei Rouanet. Vamos ter que ir à Justiça?
O ministro também se envolveu em outra polêmica: em vídeo publicado ontem pela repórter Juliana Braga, da coluna de Lauro Jardim, do GLOBO, Sá Leitão comenta, numa reunião com a bancada evangélica da Câmara dos Deputados, organizada pelo deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que, no seu entender, a performance “La bête”, no MAM-SP — na qual uma criança acompanhada da mãe tocou nas mãos e pés do coreógrafo Wagner Schwartz, nu — “apresenta um claro descumprimento do que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente”. Sá Leitão também falou da exposição “Queermuseu”, suspensa em Porto Alegre, ao defender a necessidade da classificação indicativa em eventos de artes visuais. O ministro, que admitiu não ter visto a mostra e somente ter tido acesso a imagens isoladas, disse que não havia formado juízo sobre seu conteúdo, mas que “cabe às pessoas que, porventura, tenham se sentido ofendidas que recorram à Justiça, e a Justiça que se pronuncie”.
— É uma posição muito infeliz. Ainda que ele a coloque como uma opinião pessoal, dita pelo ministro da Cultura tem outro peso. Ele está fazendo um juízo de valor sobre uma exposição que não viu, fazendo coro a esta cruzada moralista. Abre um precedente perigoso — critica Gaudêncio Fidélis, curador de “Queermuseu”.

JUDICIALIZAÇÃO DA ARTE

Para o jurista e professor Lenio Streck, a sugestão do ministro agrava o processo de judicialização da arte, que resulta em episódios como o da peça “O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, com a atriz trans Renata Carvalho no papel de Jesus, impedida de ser apresentado no Sesc de Jundiaí (SP), em 15 de setembro.
— Há uma espécie de colonização do cotidiano pela Justiça. Estamos criando cidadãos de segunda classe, tutelados pelo estado. Há uma subjetividade na arte que não cabe ser avaliada pela Justiça, o bom ou mau gosto não está previsto em lei. Essa interpretação, em última instância, acaba sendo feita por quem julga o caso. Depende da subjetividade do magistrado.
Procurado pela reportagem, Sérgio Sá Leitão não se pronunciou para entrevista até a conclusão desta edição. À coluna de Ancelmo Gois o ministro enviou nota ressaltando que o Código Penal já considera crime o que foi destacado no artigo: “O que eu combinei com a bancada cristã é que, como estes temas já são configurados como crime, vamos reproduzir, sem uma vírgula a mais ou menos, na normatização da Lei Rouanet estes artigos do Código Penal”. Sobre o vídeo da reunião, enviou nota à coluna de Lauro Jardim afirmando ter manifestado opinião “sobre este assunto enfatizando que foi em caráter pessoal, pois não sou juiz, jurista ou membro do Ministério Público; nem psicólogo” e que a “interação física de uma criança com um adulto nu que não é seu pai ou mãe, por indução direta da mãe, na frente de dezenas de pessoas, independentemente do contexto específico, configura uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento em maior ou menor grau dos artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente”.
Em meio ao clima hostil, um protesto com cerca de 30 pessoas no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, que sedia a mostra “Faça você mesmo sua Capela Sistina”, com obras de Pedro Moraleida (1977-1999), levou medo a frequentadores. O ato foi encabeçado pelo deputado estadual João Leite (PSDB), derrotado na última eleição para prefeitura da cidade.
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Artigo de Nelson Gobbi e Alessandro Giannini para o jornal "O Globo".

Entre deputados, ministro da Cultura diz que MAM descumpriu lei

Sérgio Sá Leitão afirmou durante reunião com deputado e tesoureiro da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), que na performance a interação de uma criança com um adulto nu por indução direta da mãe "configura como uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento dos artigos do ECA." Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 05/10/17. +

"Houve um claro descumprimento no que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente", disse o ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão sobre a interação entre criança e um artista nu no MAM-SP (Museu de Arte Moderna) durante a performance de "La Bête" na última terça-feira (26/09). A obra gerou protestos inflamados contra a instituição.

A afirmação do ministro ocorreu durante uma reunião, realizada nesta quarta-feira (4/10), com o deputado e tesoureiro da Frente Parlamentar Evangélica, Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). O vídeo foi divulgado pela revista "Veja".

Em certo momento do encontro, o deputado indaga o ministro se o ocorrido no MAM pode ser considerado crime. Sá Leitão, no entanto, desvia da pergunta e afirma que "cabe às pessoas que eventualmente tenham se sentido prejudicadas recorram à Justiça."

Procurado pela Folha, o ministro afirma que a interação física de uma criança com um adulto nu por indução direta da mãe, "configura como uma situação potencialmente prejudicial ao desenvolvimento emocional dela e configura o descumprimento dos artigos do ECA."

O ministro avalia que uma criança não tem capacidade de compreender plenamente que a situação se trata de uma performance.

"O corpo naquele contexto é uma simulação não erótica de um objeto artístico interativo criado antes dela nascer por uma artista que ela provavelmente não conhece — embora em boa parte das situações da vida contemporânea o corpo nu seja socialmente sexualizado", afirma.

RUMO ÀS TREVAS

Em setembro, em entrevista à Folha, Leitão ponderou que os protestos que ocorreram contra a mostra "Queermuseu" são próprios da democracia. Entretanto, ele ponderou, quando manifestações artísticas são impedidas de acontecer, isso poderia culminar em um "caminho rumo às trevas".
Na ocasião, o ministro afirmou que as obras presentes no evento são "fortes e contundente" e qualificou os recentes episódios que levaram ao fechamento da exposição "Queermuseu" como interpretação "medíocre e lamentável" das artes.

Ele disse ainda que impedimentos, como no caso do "Queermuseu", poderiam ser evitados com um projeto de lei que implantasse classificação indicativa para exposições, como ocorre no cinema.
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Matéria de Isabella Menon para o jornal “Folha de São Paulo”, em 05/10/17.

Queermuseu, vinda, veto e volta

Um movimento de artistas articula o financiamento da remontagem da coletiva Queermuseu em um dos equipamentos culturais cariocas, como Escola de Artes Visuais do Parque Lage ou no Galpão Bela Maré. Uma reunião foi agendada pela produtora Paula Lavigne, a fim de estudar propostas para arrecadar fundos para trazer a mostra ao Rio. Matéria publicada originalmente no portal da revista DasArtes, em 05/10/17. +

“Queermuseu”, a exposição mais polêmica dos últimos anos, estava prevista para vir a cidade do Rio de Janeiro, no Museu de Arte do Rio (MAR), provocando reações entusiásticas e negativas ao mesmo tempo.

Em poucos dias, uma reviravolta.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), prometeu no último domingo que não iria permitir a chegada da exposição à cidade, e cumpriu. O Museu de Arte do Rio (MAR), que procurava um acordo com o curador da mostra, censurada em Porto Alegre após uma onda de ataques conservadores, encerrou as negociações para trazer a exposição aos cariocas.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, questiona cinco pessoas se querem uma “exposição de pedofilia e zoofilia”. Todas, obviamente, respondem negativamente. Em tom de deboche, Crivella disse: “Saiu no jornal que vai ser no MAR. Só se for no fundo do mar”. Após o anúncio, segundo o jornal O Globo, o prefeito encomendou à secretária de Cultura, Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, que estudasse como impedir a exposição. “A população do Rio de Janeiro não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia”, disse Crivella em declarações recolhidas pelo jornal. Questionado como a Prefeitura teria poder de vetar a mostra, ele respondeu: “O povo do Rio de Janeiro tem”.

“Diante do exposto, lamentamos o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização de “Queermuseu”, disse uma nota publicada pelo museu.

Ainda segundo o jornal O Globo, um dia depois do MAR desistir de montar a exposição “Queermuseu”, posição definida na reunião do Conselho Municipal do Museu de Arte do Rio (Conmar) após a oposição do prefeito, a mostra interrompida no Santander Cultural, em Porto Alegre, pode ter nova chance de vir para o Rio. Um movimento de artistas articula o financiamento da remontagem da coletiva em um dos equipamentos culturais cariocas — Fabio Szwarcwald, diretor-presidente do Parque Lage, manifestou interesse em receber a mostra na Escola de Artes Visuais, posição reforçada ontem pelo secretário estadual de Cultura, André Lazaroni. Uma reunião foi agendada hoje pela produtora Paula Lavigne, a fim de estudar propostas para arrecadar fundos para trazer a mostra ao Rio e para uma campanha de conscientização contra a difamação de manifestações artísticas e de seus autores.

— Para montar a exposição no Rio precisaríamos de algo em torno de R$ 300 mil, é uma quantia possível com a doação de obras de alguns artistas. É totalmente viável montar a exposição em outro museu ou centro cultural, já que o prefeito proibiu sua realização no MAR. Poderia ser no Parque Lage ou no Galpão Bela Maré, por exemplo — aponta Paula. — As diretrizes que precisamos definir são em relação a uma campanha para informar a população sobre o valor destas obras de arte, que estão sendo criminosamente deturpadas por razões políticas.

Para a produtora, o momento é de reação da classe artística contra um movimento conservador, encabeçado pela classe política.
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Matéria publicada originalmente no portal da revista Das Artes (www.dasartes.com.br), em 05/10/17.

Carta pública de diretores, curadores e profissionais das instituições culturais

Manifesto de absoluto repúdio pelas ações orquestradas contra espaços institucionais de arte, assim como a toda e qualquer tentativa de cercear, constranger, desqualificar ou proibir as legítimas atividades artísticas que se desenvolvem no Brasil. +

Brasil, 2 de outubro de 2017

Curadores e diretores de museus e instituições culturais brasileiras, em consonância com os princípios constitucionais de direito à diversidade, à liberdade de expressão e à prática democrática da cidadania, vêm em conjunto manifestar o mais absoluto repúdio pelas ações orquestradas contra espaços institucionais de arte, assim como a toda e qualquer tentativa de cercear, constranger, desqualificar ou proibir as legítimas atividades artísticas que se desenvolvem no Brasil, construídas responsavelmente pelas instituições culturais.

São notoriamente falsas as alegações de incitação à pedofilia e de apologia ao sexo nas obras ou nas exposições que têm sido objeto dessas ações.

Porque lidam com o universo do simbólico, do imaginário e do discurso, as práticas artísticas e culturais são fundamentais para o presente e para o futuro de sociedades calcadas na diversidade, no respeito e na educação. Limitar e impedir artistas, curadores e instituições é uma clara política de retrocesso face ao processo histórico que implantou um estado democrático de direito no Brasil.
Como bem definiu Mário Pedrosa, a arte "é o exercício experimental da liberdade" e é dentro de sua prática que resistiremos a esse trágico e obscuro momento no que se refere ao respeito mútuo e à garantia da liberdade de expressão.


Adriano Pedrosa, diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, MASP – São Paulo
Agnaldo Farias, curador geral do Museu Oscar Niemeyer, MON – Curitiba
Ana Pato, curadora do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – São Paulo
Ana Paula Cavalcanti Simioni, docente e pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, IEB-USP – São Paulo
Ângela Mascelani, curadora do Museu Casa do Pontal – Rio de Janeiro
Antônio Grassi, diretor executivo de INHOTIM, Brumadinho – Minas Gerais
Áurea Vieira, gerente de relações internacionais do Sesc São Paulo – São Paulo
Beatriz Lemos, curadora do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – São Paulo
Benjamin Seroussi, diretor executivo da Casa do Povo – São Paulo
Bernardo de Souza, diretor do Museu Iberê Camargo – Porto Alegre
Beth da Matta, diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, MAMAM – Recife
Bitu Cassundé, curador do Museu de Arte Contemporânea do Ceará, MAC-CE – Fortaleza
Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand, presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ – Rio de Janeiro
Carlos Barmak, coordenador educativo do Museu da Casa Brasileira – São Paulo
Carlos Gradim, diretor presidente do Instituto Odeon/Museu de Arte do Rio - MAR – Rio de Janeiro
Carlos Roberto Brandão, diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP, MAC-USP – São Paulo
Carolina Vieira, coordenadora do Programa de Formação Básica de Artes Visuais do Porto Iracema das Artes – Fortaleza
Cauê Alves, curador do Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia - MuBE – São Paulo
Clarissa Diniz, curadora do Museu de Arte do Rio, MAR – Rio de Janeiro
Cláudia Saldanha, diretora do Centro Cultural Paço Imperial – Rio de Janeiro
Cristina Freire, docente e curadora Museu de Arte Contemporânea da USP, MAC-USP – São Paulo
Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo – São Paulo
Denise Grinspum, coordenadora da área de educação do Instituto Moreira Salles, IMS – Rio de Janeiro e São Paulo
Diego Matos, curador do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – São Paulo
Eliana Souza Silva, Centro de Artes da Maré – Rio de Janeiro
Emanoel Araújo, diretor curador do Museu Afro Brasil, São Paulo – São Paulo
Ennio Candotti, diretor geral do Museu da Amazônia, Musa – Rio de Janeiro
Evandro Salles, diretor cultural do Museu de Arte do Rio, MAR – Rio de Janeiro
Fernanda Lopes, curadora assistente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ - Rio de Janeiro
Fernando Cocchiarale, curador de artes visuais do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ - Rio de Janeiro
Flávio Pinheiro, superintendente-executivo do Instituto Moreira Salles, IMS – Rio de Janeiro e São Paulo
Gabriel Bogosian, curador adjunto do Galpão Videobrasil – São Paulo
Gabriel Pérez-Barreiro, curador da 33a Bienal de São Paulo – São Paulo
Gaudêncio Fidélis, curador de Queermuseu - cartografias da diferença na arte brasileira - Porto Alegre
Hugo Sukman, curador da nova sede do Museu da Imagem e do Som, MIS-RJ – Rio de Janeiro
Janaina Melo, gerente de educação do Museu de Arte do Rio, MAR – Rio de Janeiro
João Carlos de Figueiredo Ferraz, presidente da Fundação Bienal e do Instituto Figueiredo Ferraz – São Paulo
João Laia, curador do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil – São Paulo
Jorge Schwartz, diretor do Museu Lasar Segall / Ibram / MinC – São Paulo
Josué Mattos, curador do Museu de Arte de Santa Catarina – Florianópolis
Juliana Braga de Mattos, gerente de artes visuais do Sesc São Paulo – São Paulo
Júlio Martins, curador residente do Museu de Arte do Espírito Santo, MAES - Vitória
Justo Werlang, diretor Presidente da Fundação Iberê Camargo – Porto Alegre
Lenora Pedroso, diretora do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, MAC-PR – Curitiba
Lidia Goldenstein, vice-presidente da Fundação Bienal – São Paulo
Lisette Lagnado, curadora de ensino e programas públicos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage – Rio de Janeiro
Lucas Pessôa, diretor financeiro e de operações, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, MASP – São Paulo
Luciana Guimarães, superintendente da Fundação Bienal São Paulo – São Paulo
Luiz Alberto Oliveira, curador geral do Museu do Amanhã – Rio de Janeiro
Luiz Camillo Osório, curador do 35º Panorama da Arte Brasileira – Brasil por Multiplicação
Luiz Pizarro, curador de educação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, MAM-RJ – Rio de Janeiro
Luiza Mello, Galpão Bela Maré – Rio de Janeiro Marcello Dantas, curador Japan House – São Paulo
Marcelo Campos, curador associado do Museu de Arte do Rio - MAR e diretor do Departamento Cultural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ – Rio de Janeiro
Marcelo Velloso, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC Niterói
Marcio Doctors, curador da Casa Museu Eva Klabin, CMEK – Rio de Janeiro
Marisa Mokarzel, conselheira curatorial do Museu da Universidade Federal do Pará, MUFPA – Belém
Milene Chiovatto, presidente do Comitê de Educação e Ação Cultural do Conselho Internacional de Museus, CECA/ICOM
Moacir dos Anjos, pesquisador e curador da Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ – Recife
Orlando Maneschy, curador etc da coleção Amazoniana de arte da UFPA – Belém
Pablo León de La Barra, curador-chefe do Museu de Arte Contemporânea de Niterói - MAC-Niterói
Paulo Linhares, presidente do Instituto Dragão do MAR – Fortaleza
Paulo Miyada, curador do Instituto Tomie Ohtake – São Paulo
Priscila Arantes, diretora Artística e curadora do Paço das Artes – São Paulo
Raphael Fonseca, curador do Museu de Arte Contemporânea de Niterói - MAC-Niterói
Raquel Fernandes, diretora do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, MBRAC – Rio de Janeiro
Renan Andrade, diretor do Museu de Arte do Espírito Santo – MAES – Vitória
Ricardo Ohtake, presidente do Instituto Tomie Ohtake – São Paulo
Ricardo Resende, curador do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, MBRAC – Rio de Janeiro
Solange Farkas, diretora e curadora da Associação Cultural Videobrasil |Galpão VB – São Paulo
Wagner Barja, diretor do Museu Nacional da República – Brasília
Xico Chaves, diretor do Centro de Artes Visuais – CEAV Funarte
Zivé Giudice, diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia – Salvador.

Um manual para alertar o público de exposições

Após episódios como a exposição Queermuseu e a performance de Wagner Schwartz na abertura do 35.º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM-SP), diretores de museus e instituições culturais se reuniram para discutir apossibilidade de criar um manual de procedimento a exposições e um processo de classificação indicativa. Matéria de Antonio Gonçalves Filho para o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 05/10/17. +

Os episódios recentes da exposição Queermuseu, fechada no Santander Cultural por pressão pública, e da performance do bailarino Wagner Schwartz na abertura do 35.º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna (MAM), que provocou protestos na porta da instituição, terminaram por mobilizar diretores de museus e instituições culturais, que se reúnem hoje, no Instituto Tomie Ohtake, para discutir, entre outros assuntos, a possibilidade de criar um manual de procedimento em relação a exposições, não contemplada pela Portaria 368, de fevereiro de 2014, do Ministério da Justiça, que regulamenta o processo de classificação indicativa. Entre as organizações está o próprio instituto, dirigido por Ricardo Ohtake, que foi secretário Estadual da Cultura entre 1993 e 1994.

Ohtake, que não enfrentou nesse período nenhuma manifestação pública pedindo o fechamento de exposições, considera um retrocesso os episódios do cancelamento da exposição Queermuseu (leia abaixo) pelo Santander Cultural e os protestos contra a performance do MAM – em que uma criança, acompanhada da mãe, toca a perna do bailarino Wagner Schwartz, performance em que aparece nu, filmada, transmitida fora de contexto pela internet e interpretada pelos manifestantes que foram ao MAM como um incentivo à pedofilia.

“Na época em que fui secretário de Cultura, fazia pouco tempo que tínhamos saído de uma ditadura e existia maior liberdade”, diz Ohtake. Ele defende o direito de expressão dos artistas, mas, como presidente da Associação Nacional de Entidades Culturais (Anec), considerou sensata a convocação de uma reunião para discutir os procedimentos que os museus devem adotar para evitar incidentes como os citados.

O presidente do Ibram, Instituto Brasileiro de Museus, Marcelo Araújo, manifestou sua preocupação diante dos recentes episódios e, como coordenador do comitê gestor do sistema brasileiro de museus, distribuiu uma nota em que o Ibram “repudia qualquer tipo de censura em torno da produção artística, mesmo que trate de temas ainda sensíveis para nossa sociedade, e reforça ser indispensável numa democracia a liberdade de expressão, produção e fruição artística”. Araújo, que foi diretor do Museu Lasar Segall e da Pinacoteca do Estado, disse ontem ao Estado que acha muito apropriado que os museus discutam essas questões, “visando a definição de procedimentos que os preservem como espaços de reflexão”.

Ricardo Ohtake não vê necessidade de uma classificação etária para as exposições de arte (a Portaria 368 diz que compete à União fazer essa classificação, mas passa ao largo das mostras). Antes, defende a ideia de criar um manual que informe como o museu deve agir com relação ao sistema de garantias dos direitos das crianças e dos adolescentes, tão enfatizado na referida portaria, alertando os pais sobre a existência de conteúdos inadequados a menores numa exposição. “Não estamos falando de censura à arte ou autocensura dos museus”, enfatiza Ohtake.

O diretor do Itaú Cultural, Eduardo Saron, que é vice-presidente da Anec, reforça essa declaração. A primeira notícia sobre a reunião das entidades culturais, veiculada na quarta, 4, pelo jornal O Globo, dizia que elas pretendem criar uma espécie de conselho nos moldes do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que contém todas as regras que devem ser seguidas pelas agências publicitárias. “Não é um Conar que se pretende criar, mas reunir instituições culturais em torno de três objetivos: conhecer o Estatuto do Menor, criar um manual para fazer a autoclassificação das exposições e poder informar corretamente o público sobre o conteúdo das mostras que vai ver”, resume Saron.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho para o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 05/10/17.

Mostra "Queermuseu" é vetada no Museu de Arte do Rio por decisão do prefeito

Mesmo o conselho consultivo (Conmar), que define a programação do Museu de Arte do Rio (MAR), ter deliberado pela vinda da exposição, a exibição não será realizada por decisão unilateral do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), e, atendo-se a este escopo, não pode se voltar contra uma decisão do prefeito. Matéria de Roberta Pennafort o jornal “O Estado de S.Paulo”, em 03/10/17. +

Apesar de o conselho que define a programação do Museu de Arte do Rio (MAR) ter deliberado pela vinda da exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira para a instituição, a exibição não será realizada, por decisão unilateral do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). As discussões sobre a mostra abriram uma crise entre o museu, que é da prefeitura, e o executivo municipal, que a considera imoral.

As mostras do MAR, desde sua inauguração, em 2013, são decididas internamente e referendadas pelo seu conselho consultivo (Conmar). O conselho se reuniu nesta terça-feira,(3/9). Com assento no Conmar, a Secretaria Municipal de Cultura, após o encontro, informou que as tratativas para trazer a mostra, retirada de cartaz mês passado do Santander Cultural, em Porto Alegre, porque movimentos conservadores a acusaram de “promover zoofilia e pedofilia”, não foram adiante por conta da posição do prefeito.

Já o Conmar enviou nota informando que “é favorável à realização da exposição, bem como a de qualquer outra atividade que contribua para o exercício da arte como fundamento de nosso processo civilizatório”. O texto diz que o órgão lamenta “o modo como este debate tem sido inflamado por intensas polêmicas, que levaram a Prefeitura do Rio de Janeiro, por ser este um museu de sua rede municipal de equipamentos culturais, a solicitar a não realização” da mostra.

A nota termina dizendo que o Conmar recomenda que o museu, “cumprindo com sua função pública, promova, abrigue e amplie o debate e as reflexões em torno do papel da arte, das instituições e de toda a sociedade para a construção da diversidade e da produção de diálogos calcados na escuta e no respeito às diferenças.”

A secretaria enviou informe explicando que o “Conmar não é um conselho deliberativo e, como tal, não possui poder de veto ante decisões do Executivo Municipal, que já se posicionou claramente pela não realização de ‘Queermuseu’”. A nota da secretaria diz ainda que o Conmar objetiva “o estudo de políticas públicas, a elaboração de diretrizes de programação e estratégias de fomento de atividades a serem realizadas naquele equipamento cultural”, e, atendo-se a este escopo, não pode se voltar contra uma decisão do prefeito.

Crivella é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, que se posicionou em sua página na internet contra a exposição, quando de seu cancelamento pelo Santander Cultural. Consta do site um texto que diz que as obras – de artistas de relevo internacional e inconteste, como Candido Portinari, Lygia Clark, Alfredo Volpi e Adriana Varejão – continham “perversidades” e que, por esta razão, a exposição “causou uma revolta quase que generalizada, classificando o que chamaram de ‘obra de arte’ como algo imoral e abominável a qualquer pessoa, independentemente da crença ou opção sexual.” Desde que assumiu a prefeitura, Crivella vem sendo criticado pela parte da população por não apoiar o carnaval e a Parada do Orgulho LGBTQ, motivado por suas convicções religiosas.

Na segunda-feira, o prefeito disse que não permitiria a vinda da mostra: “A população do Rio é soberana e não tem o menor interesse em exposições que promovam zoofilia e pedofilia. Já conversei com a nossa secretária (de Cultura, Nilcemar Nogueira) e não há a menor chance”. Ele acrescentou que “o povo carioca” tem poder de veto em relação à “Queermuseu”.
No domingo, o prefeito já havia divulgado em suas redes sociais um vídeo em que mostra seis populares rechaçando a exibição. Em seguida, aparece Crivella, em tom debochado, dizendo: “Tá vendo? É por isso que aqui no Rio a gente não quer essa exposição. Saiu no jornal que ia ser no MAR. Só se for no fundo do mar. No MAR do Rio, nããão”.

No mesmo domingo, o MAR informara que a exibição seria discutida pelo conselho esta semana. “Museu nenhum do Brasil ou do mundo faria qualquer ação para estimular pedofilia ou zoofilia, precisamos ter cuidado com as interpretações distorcidas e com o uso político dessas polêmicas. Pelo contrário, museus e centros culturais são lugares onde mais se pensa em conteúdos voltados à formação e educação de crianças e adolescentes”, declarou o diretor cultural do MAR, Evandro Salles, ao jornal O Globo.

Na segunda, o museu informou, sobre as tratativas para a exibição, que “diante dos episódios motivados por discursos de ódio e atos de violência, como os que ocorreram no último fim de semana, a segurança apresentou-se como fator prioritário nesta discussão”.

Representantes de instituições culturais de diferentes estados e curadores divulgaram na segunda-feira uma carta pública à sociedade brasileira em que externam seu repúdio a ações orquestradas por movimentos conservadores contra exposições como a Queermuseu, e a Panorama da arte brasileira, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Ambas as mostras vêm sendo alvos de ataques virtuais e até reais – no sábado, chegou-se à agressão física contra funcionários da MAM –, que se baseiam na premissa, contestada por artistas e curadores, de que elas atentam contra o Estatuto da Criança e do Adolescente. A carta é assinada por 73 pessoas, como Adriano Pedrosa, diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), Antônio Grassi, diretor executivo de Inhotim (MG), Carlos Alberto Gouvêa Chateaubriand, presidente do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e Ricardo Ohtake, presidente do Instituto Tomie Ohtake.

O texto sai em defesa da liberdade de expressão e afirma que “limitar e impedir artistas, curadores e instituições é uma clara política de retrocesso face ao processo histórico que implantou um estado democrático de direito no Brasil”.
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Matéria de Roberta Pennafort para o site do jornal “O Estado de S.Paulo”, em 03/10/17.

Censurada em Porto Alegre, mostra "Queermuseu" será exibida no Rio

Exposição foi cancelada pelo Santander Cultura após protestos, pode abrir no Museu de Arte do Rio (MAR), mas ainda não há datas para abertura e diretor cultural do museu, Evandro Salles, confirmou as negociações com a Prefeitura do Rio de Janeiro. Matéria originalmente publicada no jornal “O Globo”, em 23/09/17. +

Conforme informou o colunista Ancelmo Gois, a mostra "Queermuseu", censurada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, será exibida no Rio de Janeiro. O local será o Museu de Arte do Rio (MAR). Ainda não há informações sobre a data da exposição.
O MAR falará sobre o assunto no início da próxima semana. O diretor cultural do museu, Evandro Salles, confirmou as negociações e disse que "há um interesse mútuo" de trazer a mostra para o Rio.

Procurado pelo GLOBO, Gaudêncio Fidelis, curador de "Queermuseu" não foi localizado até o momento. Em entrevista no dia 15, Fidelis chegou a falar em exibir a mostra em outras cidades — além do Rio, há expectativa de a exposição ir para Belo Horizonte.
— Recebemos propostas de várias cidades e estamos estudando. De Belo Horizonte, recebemos uma consulta de um assessor da secretaria de Cultura para saber se haveria o interesse de transferir a mostra para lá, caso a negociação se concretizasse. Aliás, eles obedeceram ao protocolo mais elementar, de consultar o curador para falar sobre a exposição, coisa que o Santander Cultural não fez.

ENTENDA O CASO

O Santander Cultural, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, anunciou, no dia 10 de setembro, o cancelamento da exposição "Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira", após protestos na instituição e nas redes sociais. Em nota, o centro cultural afirmou ter entendido que as obras expostas "desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas", o que não estaria alinhado com sua "visão de mundo". Críticos da mostra afirmaram nas redes sociais que alguns quadros representavam "imoralidade", "blasfêmia" e "apologia à zoofilia e pedofilia".

Aberta no dia 15 de agosto e prevista para acontecer até 8 de outubro, a "Queermuseu" contava com mais de 270 obras, oriundas de coleções públicas e privadas, que exploravam a diversidade de expressão de gênero. Na época em que a exposição foi anunciada, o Santander informava que "valoriza a diversidade e investe em sua unidade de cultura no Sul do País para que ela seja contemporânea, plural e criativa".
Entre os autores expostos na "Queermuseu", estavam Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Candido Portinari, Clóvis Graciano e Lygia Clark. A mostra reunia pinturas, gravuras, fotografias, colagens, esculturas, cerâmicas e vídeos.
Após o cancelamento, ainda ocorreu uma tentativa de a mostra "Queermuseu" ser reaberta em Porto Alegre. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), no entanto, negou um pedido de tutela antecipada para a reabertura da exposição.
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Matéria originalmente publicada no jornal “O Globo”, em 23/09/17.

Em SP, ministro da Cultura diz que vetos artísticos podem levar "às trevas".

Sergio Sá Leitão ainda ressaltou a importância em um momento que o setor artístico tem sofrido "ataques à liberdade de expressão" durante inuguração do Instituto Moreira Salles Paulista, em São Paulo. Matéria de Isabella Menon publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”, em 19/09/17. +

Durante a abertura oficial da sede paulistana do IMS (Instituto Moreira Salles), na manhã desta terça-feira (19/09), o ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, ressaltou a importância do centro cultural em um momento que o setor artístico tem sofrido "ataques à liberdade de expressão".

O ministro qualifica os recentes episódios que levaram ao fechamento da exposição "Queermuseu", à apreensão de uma obra no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande e à liminar na Justiça que tentou cancelar uma peça de teatro em Jundiaí (SP) como expressões de uma interpretação "medíocre e lamentável" das artes.

Leitão ponderou, durante entrevista à imprensa presente ao evento, que os protestos que ocorreram contra a mostra "Queermuseu" são próprios da democracia. Entretanto, quando manifestações artísticas são impedidas de acontecer, isso pode culminar em um "caminho rumo às trevas".

Os impedimentos, segundo o ministro, poderiam ser evitados com um projeto de lei que implantasse uma classificação indicativa também para exposições, como acontece no cinema.

Atualmente, a Constituição prevê que exposições sejam sujeitas à autoclassificação, ou seja, cabe à curadoria, artistas e responsáveis de museus definir a classificação indicativa em função às obras ali presentes.

Para Leitão –que define as obras apresentadas na exposição "Queermuseu" como "fortes e contundentes"–, considerações deveriam ser feitas aos proponentes dos projetos apresentados à Lei Rouanet quando trabalhos que possam "gerar qualquer tipo de reação" forem identificados.

Além do representante da pasta, o evento no IMS teve a presença do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e do secretário da Cultura, André Sturm, que representou o prefeito João Doria (PSDB). Sturm disse estar com "inveja branca" diante o instituto, localizado na avenida Paulista, que abre as portas ao público nesta quarta-feira (20).


INSTITUTO MOREIRA SALLES
ONDE: Avenida Paulista, 2.424
QUANDO: abre nesta quarta (20); de ter. a dom., das 10h às 20h; qui. das 10h às 22h; feriados (exceto às segundas), das 10h às 20h
QUANTO: grátis
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Matéria de Isabella Menon publicada originalmente no site do jornal “Folha de São Paulo”, em 19/09/17.

Lucros com arte exigem expertise

O economista Fabio Szwarcwald, que assumiu em março a direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, afirma que comprar obras de arte apenas com o intuito de realizar um bom negócio pode ser arriscado. "Trata-se de um mercado que não tem a mesma liquidez de ações, imóveis e fundos. Para se obter lucro é preciso esperar o momento adequado, caso contrário, há chances de prejuízo." Artigo de Suzana Liskauskas para o jornal "Valor Econômico". +

Saber diferenciar uma obra de Giuseppe Giannini Pancetti, pintor modernista brasileiro mais conhecido como José Pancetti, com cotação em torno de US$ 500 mil, de uma tela com paisagens marinhas criada por outros artistas da década de 40, no Brasil, cujo valor não passará de R$ 2 mil, pode ser mais difícil do que identificar os papéis de companhias com maior potencial de valorização nos próximos seis meses. Tão inebriante quanto o dia a dia do pregão, o mercado de arte como investimento requer, no entanto, muito mais que nervos de aço.
O economista Fabio Szwarcwald, que assumiu em março a direção da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, afirma que comprar obras de arte apenas com o intuito de realizar um bom negócio pode ser arriscado. "Trata-se de um mercado que não tem a mesma liquidez de ações, imóveis e fundos. Para se obter lucro é preciso esperar o momento adequado, caso contrário, há chances de prejuízo."
De acordo com Szwarcwald, em períodos de crise surgem ótimas oportunidades no segmento. quem tem o capital disponível."
Para Mario Fonseca, marchand e consultor de artes no Rio de Janeiro há cinco décadas, não se deve comprar obras de arte sem uma orientação adequada. "Quem nunca comprou ações raramente investe na bolsa sem um consultor financeiro. O investimento em arte funciona da mesma forma. "
A autenticidade é o passaporte para a rentabilidade. "Um bom marchand reconhece a procedência de um original e identifica uma falsificação. É preciso exigir o registro", diz Fonseca.
Szwarcwald explica que, atualmente, as obras são vendidas com um certificado de autenticidade. "Entre as décadas de 1930 a 1960, isso não era muito comum. Ao negociar obras desses períodos, deve-se checar a procedência com a ajuda de marchands, leiloeiros ou galeristas", diz.
Uma opção para os estreantes pode ser um fundo de investimento, como o Brasil Golden Art - BGA Fundo de Investimento em Participação Multiestratégica, administrado pelo BNY Mellon Serviços Financeiros Distribuidora de Títulos e ativo desde fevereiro de 2011. Heitor Reis, gestor do BGA e ex-diretor de museus na Bahia, explica que o fundo foi desenvolvido no momento em que a arte contemporânea brasileira estava em alta.
"O fundo é uma espécie de private equity das artes, com início, meio e fim, previsto para fevereiro de 2018, quando todo o patrimônio terá sido realizado. O fundo reúne 70 cotistas, entre pessoas física e jurídica, e um patrimônio de 600 obras que representam todo o panorama da arte contemporânea nos últimos sete anos. Iniciamos há dois anos o processo de desinvestimento e temos conseguido resultados acima do CDI", afirma Reis.
Em função da crise no Brasil, Reis explica que o foco para negociação das obras que compõem o patrimônio do fundo é o mercado externo, principalmente os EUA. "Temos uma galeria que nos representa em Nova York, a Leon Tovar, e participamos de alguns leilões na Christie's e na Philips ".
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Artigo de Suzana Liskauskas para o jornal "Valor Econômico".

Basquiat de Yoko Ono pode valer R$ 12 Milhões em Leilão

A pintura de Jean-Michel Basquiat da coleção de Yoko Ono está indo a leilão. O trabalho, intitulado "Cabra", pode vender até US $ 12 milhões na venda de arte contemporânea da Sotheby's em Nova York. Matéria de Katya Kazakina para o site do Bloomberg (www.bloomberg.com), em 28/09/17. +

O trabalho, intitulado "Cabra", pode vender até US $ 12 milhões na venda de arte contemporânea da Sotheby's em Nova York em 16 de novembro, disse a casa de leilão nesta quinta-feira (28/09).

Basquiat, que morreu aos 27 anos em 1988, está quebrando recordes no mundo da arte. Em maio, uma de suas pinturas obteve US $ 110,5 milhões na Sotheby's, o preço mais alto para qualquer artista americano em leilão. Uma lona de 1982 que retrata o boxeador Sugar Ray Robinson foi vendida por cerca de US $ 24 milhões no ano passado. A primeira grande exposição retrospectiva de suas obras está em exibição na Barbican Art Gallery, em Londres.

“Eu tive o prazer de possuir e viver com essa obra-prima por mais de duas décadas", disse Ono em um comunicado. "Chegou o momento de encontrar uma nova casa".

Ono comprou a pintura do negociante de arte Tony Shafrazi em 1993, de acordo com a Sotheby's. Basquiat criou a imagem, que retrata um crânio com chifres, entre 1981 e 1982, como uma homenagem a Muhammad Ali. O artista deu o nome para a tela em espanhol , "cabra", mas também significou como um acrônimo para "O maior de todos os tempos", um apelido de Ali, disse Sotheby's.

Parte do valor arrecadado beneficiará a Spirit Foundation, a organização de caridade fundada por Ono e John Lennon em 1978, disse Sotheby's. A casa de leilões garantiu um preço mínimo não divulgado independentemente de as obras serem vendidas ou não.
O Basquiat está sendo exibido na Sotheby's em Hong Kong até dois de outubro. Será também exibido em Londres entre 06 e 08/10 e retornará a Nova York para exibição na Sotheby's a partir de 03/11/17.
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Matéria de Katya Kazakina para o site do Bloomberg (www.bloomberg.com), em 28/09/17.

Manifestantes fazem ato de apoio ao MAM após polêmica e protestos

O grupo formado por artistas, curadores, donos de galerias, diretores de museu fizeram ato de desagravo em favor do museu, com cartazes "Somos Todos MAM". Matéria publicada originalmente no portal do G1 (www.g1.com), em 02/10/2017. +

Um protesto neste domingo (2) defendeu o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) após o espaço se tornar alvo de críticas em razão de uma menina, que estava acompanhada da sua mãe, ser filmada tocando no pé do artista fluminense Wagner Schwartz, que se apresentou nu.

Artistas, curadores, donos de galerias, diretores de museu fizeram ato de desagravo em favor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). De mãos dadas, eles deram um abraço simbólico no museu e levaram cartazes com a frase “Somos todos MAM”.

A manifestação foi uma resposta a protestos que criticaram o museu desde que o caso se tornou público. Na sexta-feira (29), por exemplo, mulheres levaram cartazes à porta do museu, na região do Paraíso, com frases como "pedofilia é crime" e "contra a pedofilia e a erotização infantil".

O segundo protesto ocorreu na tarde de sábado (30), na porta do MAM. Houve agressões a visitantes e colaboradores. Funcionários do museu e manifestantes foram levados para o 27º DP, no Campo Belo, onde foi registrado um boletim de ocorrência. O caso foi registrado como calúnia, difamação, injúria e lesão corporal. Todos prestaram depoimento e foram liberados em seguida. As investigações serão realizadas pelo 36ºDP, na Vila Mariana.

A apresentação do artista Wagner Schwartz ocorreu na terça-feira (26), na estreia do 35º Panorama de arte Brasileira, tradicional exposição bienal que aborda a arte no país e propõe reflexão sobre a identidade brasileira. Segundo o MAM, o evento era aberto a visitantes que estivessem no local. O museu também informou que havia sinalização sobre a nudez na sala onde a performance ocorria.

A performance chamada “La Bête” foi inspirada em um trabalho de Lygia Clark. “Bichos” é considerada a obra viva da artista, pois sua intenção era de que a arte ultrapassasse os limites da superfície de um quadro. A série de esculturas com dobradiças permite que o espectador se torne figura atuante na obra, e foram construídas com formas geométricas para que não se parecessem animais, mas que permitissem uma visão livre do que a peça representava.
Em “La Bête”, o premiado artista Schwartz, que trabalha há quase 20 anos com coreografia, manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série e se coloca nu, vulnerável e entregue à performance artística, convidando o público a fazer o mesmo com ele.

De acordo com o MAM, o público presente na performance era formado essencialmente por artistas e, uma das pessoas que prestigiou a apresentação foi a performer e coreógrafa Elisabeth Finger acompanhada da filha. O vídeo que viralizou nas redes sociais mostra o momento em que Schwartz está deitado, e mãe e filha, tocam seus pés.
O MAM repudiou as agressões que vem sofrendo nos últimos dias por parte de grupos radicais em sua sede no Parque Ibirapuera. Segundo o museu, o trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico e se limitou a uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas.
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Matéria publicada originalmente no portal do G1 (www.g1.com), em 02/10/2017.

Protesto contra performance no MAM tem agressão física e vira caso de polícia

Após protesto de sexta-feira (29), o grupo de manifestantes realizou um novo protesto neste sábado (30) e provocaram confusão com funcionários do museu. GCM levou envolvidos para a delegacia. Matéria publicada originalmente no portal do G1 em 01/10/2017. +

O MAM (Museu de Arte Moderna) publicou uma nota neste domingo (1) em que repudia as agressões físicas e verbais sofridas nos últimos dias após manifestantes realizarem protestos depois de uma menina, que estava acompanhada da sua mãe, ser filmada tocando no pé do artista fluminense Wagner Schwartz que se apresentou nu. A exposição acabou virando caso de polícia e a repercussão negativa provocou até agressões físicas. (Leia a nota na íntegra abaixo).

A primeira manifestação ocorreu na última sexta (29) em frente ao MAM no Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo. Na ocasião, mulheres levaram cartazes com frases como "pedofilia é crime" e "contra a pedofilia e a erotização infantil". A Guarda Civil Metropolitana e a segurança do museu foram acionadas.

Já o segundo protesto ocorreu na tarde deste sábado (30). Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública), por volta das 15h30 os guardas-civis foram acionados e encontraram várias pessoas exaltadas na porta do MAM que trocaram agressões verbais e até físicas. Funcionários do museu e manifestantes foram levados para o 27º DP, no Campo Belo, onde foi registrado um boletim de ocorrência. O caso foi registrado como calúnia, difamação, injúria e lesão corporal. Todos prestaram depoimento e foram liberados em seguida. As investigações serão realizadas pelo 36ºDP, na Vila Mariana. A apresentação do artista Wagner Schwartz ocorreu somente na terça-feira (26), na estreia do 35º Panorama de arte Brasileira, tradicional exposição bienal que aborda a arte no país e propõe reflexão sobre a identidade brasileira. Segundo o MAM, o evento era aberto a visitantes que estivessem no local. O museu também informou que havia sinalização sobre a nudez na sala onde a performance ocorria.

A performance chamada “La Bête” foi inspirada em um trabalho de Lygia Clark. “Bichos” é considerada a obra viva da artista, pois sua intenção era de que a arte ultrapassasse os limites da superfície de um quadro. A série de esculturas com dobradiças permite que o espectador se torne figura atuante na obra, e foram construídas com formas geométricas para que não se parecessem animais, mas que permitissem uma visão livre do que a peça representava.
Em “La Bête”, o premiado artista Schwartz, que trabalha há quase 20 anos com coreografia, manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série e se coloca nu, vulnerável e entregue à performance artística, convidando o público a fazer o mesmo com ele.
De acordo com o MAM, o público presente na performance era formado essencialmente por artistas e, uma das pessoas que prestigiou a apresentação foi a performer e coreógrafa Elisabeth Finger acompanhada da filha. O vídeo que viralizou nas redes sociais mostra o momento em que Schwartz está deitado, e mãe e filha, tocam seus pés.
Reação

O MBL divulgou um vídeo nas redes sociais em que chama a apresentação de “repugnante”, “inaceitável”, “erotização infantil”, “afronta”, “crime”, e afirma que a criança “se sentiu constrangida”. O grupo acrescenta que o vereador Fernando Holiday (DEM) vai “tomar as providências sobre o caso da criança induzida a ato libidinoso”.
O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) chamou os envolvidos de "canalhas" e categorizou a atividade como "pedofilia". O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) considerou as cenas "revoltantes" e os envolvidos "destruidores da família".

Em nota (veja a íntegra ao final da reportagem), o MAM informou que a sala estava "devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística". O museu também afirmou que “o trabalho não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark”.

Nota
O Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM repudia as agressões que vem sofrendo nos últimos dias por parte de grupos radicais em sua sede no Parque Ibirapuera. Na sexta-feira, o museu foi invadido e seus colaboradores e visitantes foram alvo de ofensas e agressões verbais, em claro ato intimidatório.

No sábado, o museu foi palco de novo protesto patrocinado pelo mesmo grupo de indivíduos, que desta vez, além das agressões verbais, cometeram atos de violência física contra visitantes e colaboradores.

Em resposta às agressões, o museu registrou dois boletins de ocorrência, nos quais constam também as denúncias de ameaças de danos ao patrimônio e à integridade física sofridas pelo museu, por meio de telefonemas anônimos e mensagens em plataformas de mídias sociais.

O MAM esclarece mais uma vez que a performance 'La Bête', realizada na abertura da Mostra Panorama da Arte Brasileira, se deu com a sala sinalizada, incluindo a informação de nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis.

O trabalho apresentado na ocasião não tem conteúdo erótico e se limitou a uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark, historicamente reconhecida pelas suas proposições artísticas interativas.

O museu reitera ainda que a criança que aparece no vídeo veiculado por terceiros era visitante e estava acompanhada e supervisionada por sua mãe e que as referências à inadequação da situação são resultado de desinformação, deturpação do contexto e do significado da obra.
O MAM considera pertinente o debate para o aprimoramento e difusão do marco legal de classificação indicativa no ambiente museológico, ao mesmo tempo em que defende a liberdade de expressão na produção cultural.

O museu agradece às manifestações de apoio que tem recebido de instituições culturais, de artistas e do público em geral e segue empenhado em esclarecer e estimular um diálogo construtivo, tolerante e plural com todos os segmentos da sociedade para o fortalecimento da cultura e da nossa democracia.
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Matéria publicada originalmente no portal do G1 (www.g1.com), em 01/10/2017.