destaques
conteúdo
publicidade
notícias

Secretaria de Cultura anuncia reforma do Museu de Arte de Brasília (MAB)

O secretário de Cultura, Guilherme Reis, assinou a ordem de serviço que permite o início das obras. Agora, o órgão aguarda a liberação de um financiamento para começar a mexer no prédio. A obra, custeada em cerca de R$ 9 milhões, vai recuperar o prédio que está abandonado e fechado desde 2007. Matéria de Nahima Maciel publicada originalmente no site do jornal “Correio Braziliense”. +

Os últimos passos para o início da reforma do Museu de Arte de Brasília (MAB) foram dados durante a semana, quando o secretário de Cultura, Guilherme Reis, assinou a ordem de serviço que permite o início das obras. Agora, o órgão aguarda a liberação de um financiamento do Banco do Brasil (BB) para começar a mexer no prédio, que fica no Setor de Hotéis e Turismo Norte (SHTN), ao lado da Concha Acústica.

Orçada em cerca de R$ 9 milhões, a obra vai recuperar o prédio que está abandonado, e fechado desde 2007, em consequência de uma recomendação do Ministério Público. Segundo Reis, a licitação foi feita e a empresa responsável pela obra será a Engemil Engenharia, com sede em Brasília. “Foi dada para essa empresa uma ordem de serviço, mas falta o financiamento da obra. Para que haja aderência a esse financiamento, estou trabalhando feito doido hoje para entregar a documentação necessária. E ainda está faltando um alvará para começar a obra”, destaca o secretário.

Inicialmente, a obra seria financiada pela Terracap, mas, temendo uma eventual suspensão dos trabalhos por conta de sucessivas crises financeiras, o Governo do Distrito Federal (GDF) decidiu financiar a reforma. “Se verificou que haveria dificuldade e poderia ter descontinuidade. E não dá mais para parar nada. Indo para o BB, esse dinheiro é depositado integralmente e garante a continuidade da obra no tempo certo e no andamento contínuo sem interrupção”, garante o secretário de Cultura. A intenção é, caso o financiamento seja liberado, fazer um ato com os artistas da cidade para marcar o início da obra ainda na próxima semana.

Atualmente, o prédio que abrigou o MAB durante mais de duas décadas está completamente abandonado. A reforma, além de recuperar a estrutura do edifício, vai criar um espaço adequado às normas técnicas exigidas pela museologia, com direito à reserva técnica e climatização abastecida com energia fornecida por painéis solares que serão instalados no teto.
Climatização
A saga do MAB é antiga. O museu foi alvo de algumas licitações e projetos de reforma que prometiam instalações à altura de um acervo que inclui Tarsila do Amaral e Iberê Camargo, mas, na maioria das vezes, se tratava apenas de uma maquiagem. Infiltrações, reserva técnica que ficava em um porão e não comportava a quantidade de obras nem a climatização adequada, sol que batia diretamente nas obras eram alguns dos problemas do prédio. As condições eram tão ruins que obras como uma pintura de Tomie Ohtake foram danificadas.

No ano passado, o MAB chegou a ganhar um projeto básico e licitação, que acabou suspensa por conta da crise financeira enfrentada pelo GDF. Na época, a obra estava orçada em R$ 3. 245.985,92, valor considerado insuficiente para completar a reforma necessária ao prédio. Foi então feito outro projeto e outra licitação, dessa vez incluindo o valor total da obra, três vezes maior que o projeto do ano passado.

O MAB foi criado em 1985 e, desde então, ocupou o prédio ao lado do Hotel Brasília Palace. No local, funcionaram uma casa de baile e uma churrascaria. O acervo do museu é formado por 1.360 obras e tem alguns dos melhores nomes da arte brasileira. Desenhos de Tarsila do Amaral, pinturas de Tomie Ohtake, Beatriz Milhazes e Nuno Ramos, esculturas de Amilcar de Castro e Franz Weisman estão na coleção, hoje guardada na reserva técnica do Museu Nacional da República. Eventualmente, o diretor dessa instituição, Wagner Barja, monta exposições temporárias para que o acervo não fique longe dos olhos do público.
|
Matéria de Nahima Maciel publicada originalmente no site Jô jornal “Correio Braziliense”, em 22/09/2017.

Como curadores usaram LinkedIn, Ebay e Moxie para achar tesouros esquecidos

No projeto Pacific Standard Time: LA/LA, especialistas de arte foram excelentes, algumas vezes até kafkanianos, para rastrear trabalhos que nunca antes tinham sido vistos. Uma nova prática de arqueologia da história da arte pode encontrar artistas dignos que foram ignorados, empurrados para as margens ou não devidamente colocados em contexto por uma geração anterior de historiadores. Texto de Julia Halperin para o portal Artnet (www.news.artnet.com), em 15/09/17. +

Em março, Staci Steinberger, uma assistente de curador de artes decorativas e design no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA), fez uma emocionante descoberta no eBay.

Ela estava trabalhando furiosamente para rastrear objetos de design para a exposição "Found in Translation: Design na Califórnia e no México, 1915-1985", que aborda a troca de influências entre o México e a Califórnia. Mas ela não conseguiu encontrar um bom exemplo de uma lareira Mayan Revival, que se tornou popular na Califórnia no final da década de 1920.

"Estas são coisas que ainda estão em casas", diz ela, "ou foram destruídas".

Steinberger estava quase perdendo as esperanças quando um colega passou um link do eBay. O vendedor estava oferecendo uma lareira de 1923-1932, feita pela Companhia Califórnia Clay Products.

"Como as boas pessoas de museu fazem, fomos vê-lo pessoalmente, fizemos nossa pesquisa e obtivemos um bom preço", diz ela. O artefato de barro está agora em exibição pela primeira vez em mostra que abre para o público neste fim de semana.

A lareira é apenas uma das muitas descobertas feitas por estudiosos no início do projeto "Pacific Standard Time: LA/LA,", a iniciativa de US $ 16 milhões dedicada à arte latina e latino-americana.

Uma significativa parcela de obras em mais de 70 instituições culturais participantes, no sul da Califórnia, nunca foram publicadas ou exibidas em museus anteriormente - o que significa que os curadores tiveram que fazer grandes esforços para encontrá-los. Podemos chamar isso de pesquisa extrema.

Seguindo os Leads

Os curadores dizem que fortes concessões da PST: LA / LA, e um processo de planejamento de cinco anos estendidos, tornaram mais fáceis a eles buscar caminhos improváveis.

"É realmente ter um pressentimento, olhar para algo e dizer: ‘Precisamos seguir essa tendência’", diz Cecilia Fajardo-Hill, que co-organizou "Mulheres Radicais: Arte Latino-americana, 1960-1985” no Hammer, uma das exposições mais ambiciosas da iniciativa.

Todo curador tem suas próprias histórias de estradas e viagens sinuosas para rastrearem materiais. Na LACMA, além de se aproximarem do eBay, os estudiosos se deixaram levar ao Facebook e ao LinkedIn. As redes sociais permitiram que esses encontrassem parentes de artistas e designers que haviam se perdido na história.

Na REDCAT, um centro de artes contemporâneo em Los Angeles, a equipe viajou de barco para uma parte remota da República Dominicana para visitar um dos dois diretores sobreviventes da performance “Palabras Ajenas” (1967), um drama anti-guerra do Vietnã do artista argentino León Ferrari. O evento épico de oito horas não é realizado desde 1972; A REDCAT irá colocá-lo na íntegra pela primeira vez no sábado.

Os conservadores do Getty Research Institute, enquanto isso, trabalharam com colegas da Argentina e do Brasil durante três anos para estudar a composição técnica das obras da coleção de Patricia Phelps de Cisneros, agora vista na exposição "Making Art Concrete".

"Fiquei atordoado com as descobertas que emergiram", disse Cisneros na conferência de imprensa da Getty na terça-feira (12/9).
Às vezes, no entanto, o processo de pesquisa prolongado limitava-se ao kafkaniano. Pia Gottschaller, especialista sênior em pesquisa no Getty Research Institute, passou meses tentando descobrir a orientação adequada para o Objeto ativo (cubo vermelho / branco) de Willys de Castro (1962), um cubo vermelho e branco que funde a pintura e a escultura .

Ela ficou emocionada quando encontrou uma imagem arquivística de uma exposição inicial que incluiu o trabalho. Infelizmente, no entanto, Castro criou dois cubos muito parecidos - um em vermelho e um em azul - e porque a foto estava em preto e branco, era impossível distingui-los.
No final, a Gottschaller desenhou um modelo de trabalho e fotos de arquivo para determinar que historicamente foi mostrado incorretamente e precisava girar 90 graus.

Essas descobertas, aliadas a análises forenses abrangentes, permitirão aos estudiosos exibir com maior precisão e preservar melhor essas obras no futuro. Mas "não se trata apenas do aspecto técnico", diz Gottschaller. A compreensão de como os objetos enganosamente simples foram feitos "aumenta a apreciação das pessoas", ela observa. "Menos elementos existem, o mais magistral que você tinha que ser".

Histórico da retração

Para alguns curadores, o processo de pesquisa envolveu um pente fino através da história da arte para encontrar artistas dignos que foram ignorados, empurrados para as margens ou não devidamente colocados em contexto por uma geração anterior de historiadores.

"Foi-nos dito tantas vezes que essas pessoas não eram ninguém", disse Farjado-Hill sobre os mais de 100 artistas na exposição Hammer "Radical Women".

Da mesma forma, Bryan Barcena se deparou com uma escassez de estudos no processo de organizar a exposição individual do artista brasileiro Anna Maria Maiolino no Museu de Arte Contemporânea (MOCA), Los Angeles.

"Quando eu comecei a trabalhar na exposição, não havia uma base de dados real de seu trabalho", diz Barcena, assistente de pesquisa da MOCA. "A bolsa de estudo era míope, e principalmente focada no formal. Não havia considerado a rede da artista".

Para ajudá-lo a processar exatamente onde Maialino se encaixava em seu contexto histórico mais amplo, ele criou um mapa de torbellino de todas as influências entrecruzadas no mundo da arte brasileira. O resultado parece um pouco como o que pode acontecer com Carrie Mathison, da Homeland, quando organizou uma exposição de arte.

As redes também desempenharam um papel importante na exposição "Axis Mundo: Redes Queer em Chicano LA", organizada pela MOCA e o Arquivo Nacional de Homossexuais e Lesbian, que está cheio de material nunca antes visto. Muitos dos artistas viveram em Los Angeles durante décadas, mas nunca foram mostrados pelas instituições de arte convencionais.

"Era sobre escavar uma história que estava sob a superfície", diz David Frantz, curador do ONE National Gay and Lesbian Archive.
Ao pesquisar a mostra, Frantz visitou a unidade de armazenamento familiar do artista Ray Navarro. Lá, em uma caixa, ele encontrou um tríptico, Equipado (1990), que o artista fez no mesmo ano em que morreu com AIDS. Como Navarro ficou cego e surdo, ele contratou seu amigo, artista colega Zoe Leonard, para fabricar o trabalho para ele.

É uma série de imagens dos dispositivos de mobilidade que Navarro usou para navegar no hospital em seus últimos meses com legendas irônicas e sugestivas embaixo. "Sabíamos que havia várias versões [do trabalho] - não sabia que havia um terceiro", diz Frantz.
Muitas outras obras agora visualizadas na mostra "Axis Mundo" foram empurradas na parte traseira de arquivos ou em pilhas de papéis em um armário. "É realmente sobre serendipidade", diz Frantz. "Algumas pessoas apenas salvam coisas. E, graças a Deus, eles fazem”.
|
Matéria de Julia Halperin para o portal de arte “Artnet” (www.news.artnet.com), em 15/09/17.

Uma mãe à espera

A volta de Rafael Braga para casa. Artigo de Juliana Passos para a revista Piauí), editada no site da revista em 19/09/2017. +

Fazia dois dias que a catadora de sucata Adriana Braga esperava pela volta do filho, Rafael Braga Vieira, 29 anos, preso em dezembro de 2013 por porte de dois frascos de produtos de limpeza – que a polícia disse ser matéria-prima para a confecção de bombas usadas em manifestações. No meio da tarde da última sexta-feira, sem saber o que fazer, ela foi dormir. “Já dormi, já acordei. E nada de ninguém”, reclamou.
Na quarta à noite, a Justiça havia autorizado o cumprimento da pena em prisão domiciliar a Rafael, que pleiteava o direito de tratar em casa uma tuberculose adquirida na cadeia. Sem informação sobre os trâmites legais, a mãe aguardou por ele durante todo o dia de quinta. Telefonei para ela ao cair do sol para dar a notícia. “O Rafael vai ser solto amanhã, sexta”, eu disse. Ela respondeu de forma resignada: “Nunca me dizem nada.” Seus rins doíam tanto que acabara de voltar do médico.
Naquele dia, Adriana Braga pulou da cama cedo. Para convencer os filhos menores a irem ao colégio – dois meninos, irmãos de Rafael somente por parte de mãe –, ela mentiu que ele só chegaria no sábado. Estava grudada ao telefone à espera de notícias, mas, nas poucas vezes em que ele tocou, eram parentes.
A residência dos Braga, onde me recebeu, fica na Vila Cruzeiro, no subúrbio do Rio. É também seu local de trabalho: ela e o marido mantêm um depósito de itens recolhidos na rua – partes de armários e televisões, sempre prontos para venda. Um vaso de gerânios cor-de-rosa enviados por movimentos sociais de São Paulo por conta do habeas corpus enfeitava a mesa. “As flores estão até murchando de tanto esperar”, constatou.
Aos 47 anos, ela usava um vestido de renda preto, que caía bem em seu corpo esguio; calçava sandálias e tinha as unhas dos pés pintadas com esmalte também preto, adornado por flores brancas. “Minha cunhada faz muito bem as unhas.” Naquele dia, Adriana Braga não foi para a rua atrás de sucata. Acomodada em uma cadeira, explicou sua rotina de desencontros depois da prisão do filho. Duas semanas atrás, contou, pegou um ônibus, um trem e uma van para cumprir um trajeto de mais de duas horas, mas não conseguiu encontrá-lo na penitenciária Alfredo Tranjan, no Complexo Penitenciário de Gericinó, onde ele deveria estar.
Foi outra viagem perdida, como a que tinha feito há cerca de um mês. Por causa da tosse frequente, Rafael Braga fora internado – a família e os advogados não foram informados.
Ele havia sido diagnosticado com tuberculose, passou a receber tratamento na ala médica do complexo penitenciário e os advogados do Instituto de Defensores dos Direitos Humanos realizaram um novo pedido de habeas corpus para retirá-lo da prisão. O primeiro pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. “Mãe, tem muita gente aqui na mesma situação”, comunicou por telefone. Disse que um colega de cela havia morrido ao seu lado. Ele seria liberado somente depois de outro pedido, desta vez no Superior Tribunal de Justiça.

Oalmoço para a espera de Rafael ficou pronto pouco antes do meio-dia. Feijão, arroz, macarrão e carne de panela. Só quem comeu foi o avô materno, que tem passado mais tempo em casa após ser diagnosticado com cardiomegalia, também conhecida como doença do coração grande. Auxiliar de pedreiro, José Evangelista de Freitas, de 65 anos, já agendou visita ao INSS para o próximo mês para solicitar sua aposentadoria. “Não tenho mais condições de carregar peso”, contou.
O marido de Adriana, Gildo Santos, com quem ela está casada há dez anos, chegou um pouco mais tarde. “Nada ainda?” Adriana balançou a cabeça em sinal negativo. O padrasto, sem almoçar, se recolheu no quarto do casal. Estava exausto depois de uma jornada que iniciara às 4 horas da manhã como catador nas áreas próximas do bairro, em especial um conjunto de prédios vizinhos. Naquele dia, pela ausência de Adriana, teve que trabalhar pelos dois.
Não demorou muito para que os filhos menores, Mateus e Felipe, chegassem do colégio, eufóricos pela possibilidade de rever o irmão mais velho. Sob os olhares da mãe, eles entram numa brincadeira de luta corporal, brincam com um pião de madeira criado pela professora da escola – feito de CD, bola de gude e tampinha de garrafa de refrigerante. “Eles ficam assim agitados quando tem gente diferente em casa”, comenta Adriana.
A euforia duraria pouco. Entediadas pela espera, as crianças foram levadas por uma vizinha. A falta de notícias sobre a chegada, que deveria acontecer entre uma e três da tarde, deixou a mãe mais uma vez sonolenta. “Nem sei mais o que fazer.” Diante da tevê ligada, ela passou a prestar atenção em um programa chamado Casos de Família, que disseca, de modo sensacionalista, relacionamentos familiares, frequentemente com os protagonistas – pais, irmãos e parentes em geral – se digladiando no estúdio.
“Para mim, ciúmes é doença”, sentenciou, ao analisar brevemente o caso daquela tarde. Ela disse que nunca sentiu ciúmes das mulheres que, com frequência, paqueravam seu marido. Ele também nunca reclamou com ela, “mesmo quando eu usava roupa curta”. Gildo é seu terceiro companheiro. “Os outros eram lixo, por isso, deixei.” Entre eles, o pai natural de Rafael, Reginaldo Pião Vieira. A mãe se mudou para Aracaju com o filho ainda pequeno. O pai sempre prometia visitá-los, mas nunca foi. Rafael não tem lembranças dele, que mora em Minas. Na única vez em que veio ao Rio, em 2014, não visitou o filho na cadeia. “Ele tem vontade de conhecer o pai. Eles são muito parecidos. Quando esteve aqui, todos achavam que era o Rafael que tinha voltado”, disse.
O telefone tocou e ela correu para atender. Era um advogado, que garantia que seu filho havia sido liberado naquele momento, 16h30. Adriana calculou que a viagem levaria uma hora. Tensa, levantou-se, abriu a porta de casa e foi caminhar a esmo pelo bairro.

Os materiais que levaram Rafael Braga Vieira à prisão estavam na rua, segundo a versão que ele deu para a polícia. Encontravam-se na entrada do casarão antigo onde costumava dormir depois de fazer seu trabalho como catador no Centro do Rio. Sua busca era por itens que pudesse vender na Feira de Antiguidades da Praça XV aos sábados. Entre os objetos que rendiam a melhor venda estavam porta-retratos e fotografias antigas. Segundo o relatório da Polícia Civil, os produtos de limpeza que ele portava tinham “mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov”. Braga disse não ter feito coro nas manifestações daquele dia.
Foi direto para Bangu. A família só soube da prisão seis meses depois. “Ele costumava voltar para casa de 15 em 15 dias, mas de vez em quando dava uma sumida”, contou a mãe, quando nos encontramos pela primeira vez, duas semanas atrás. Ela atribui os sumiços à perda da avó, morta há sete anos e responsável pela criação do menino até a adolescência. “Desde que ela morreu, ele nunca mais visitou a casa onde ela morou.”
Depois de dois meses sem ter notícias do filho, a mãe pediu que um outro irmão de Rafael fosse procurá-lo pelo Centro da cidade. Nada. Souberam por uma vizinha que ele estava preso. O paradeiro só foi descoberto pelas advogadas do Instituto de Defensores de Direitos Humanos em dezembro de 2013.
A integrante da Assembleia Popular da Grande Tijuca, Sara Boechat, foi a responsável por levar Adriana Braga a reuniões que dariam início a uma campanha para soltar seu filho. Sara morreu em novembro de 2014, mas a campanha continuou reunindo doações financeiras permitindo assim que não faltem itens essenciais, além do suporte emocional. “Eles são como uma família, estão sempre preocupados comigo.”
Rafael Braga chegou a progredir para o regime semiaberto em 2014. Arranjou emprego e teve permissão, no final do ano seguinte, para ficar livre da cadeia, com o uso de tornozeleira. Foi quando voltou a morar com os familiares. Menos de dois meses depois, em janeiro de 2016, no entanto, foi novamente preso quando ia à padaria. Acusação: associação ao tráfico de drogas. No processo, as testemunhas, todas policiais, informaram que Rafael Braga Vieira carregava uma sacola com 0,6 gramas de maconha, 9 gramas de cocaína e um sinalizador. Foi condenado a 11 anos e 3 meses de prisão e levado de volta para a cadeia.

Meia hora depois de voltar de sua caminhada pelo bairro, a mãe se acomodou em uma cadeira na sala pouco antes de ouvirmos uma buzina. Ela ficou imóvel. Sem pensar, corri para a janela a tempo de ver as portas de um carro estacionado na esquina se abrirem. De longe, reconheci um dos advogados. “Seu filho chegou, dona Adriana!”, eu disse. Rafael desembarcou do carro com um envelope cheio de remédios. Dentro de casa, ela disfarçou o nervosismo: “Justo agora que eu ia tomar meu café.”
Sem se mover, perguntou se o filho vinha sozinho, e só então se levantou e caminhou em direção à porta. Ao descer as escadas da casa, ela viu Rafael subindo os poucos metros da rua acompanhado de jornalistas com câmeras ligadas. Assustou-se e correu para dentro de casa. Rafael dispensou os jornalistas e entrou sozinho para abraçar a mãe, estampando um sorriso enorme. Cumprimentou também a irmã, o avô e o padrasto, também sorrindo, também sem dizer nada. Ninguém chorou.
Dulcineia Silva, sua vizinha e muitas vezes companheira de garimpo pela Zona Sul do Rio, irrompeu na sala para lhe dar um abraço. As câmeras entraram, e a mãe se encolheu em um canto da sala. Rafael, sorridente, pediu a ela que falasse para a imprensa. Ela se recusou. Alguém pediu para que eles se abraçassem para um registro fotográfico.
Os advogados informaram à família sobre as próximas etapas do processo. Eles reforçam que, ainda que mais confortável, Rafael continua preso e que não é possível se deslocar além da frente de casa. Ele se espantou: tinha entendido que não precisaria mais voltar ao presídio. Até que o tratamento seja terminado, os advogados esperam ganhar em segunda instância.
Após a conversa, novos abraços e comemoração por parte da equipe de advogados e apoiadores. A notícia da chegada já estava nas redes sociais. “O que é preciso de mais urgente?”, alguém perguntou em um grupo de WhatsApp. Um advogado que viu a mensagem, preocupado em entreter Rafael no tempo da prisão domiciliar, quase berrou: “um videogame!”
A casa ficou mais calma em cerca de uma hora. Quando os advogados e a imprensa se foram, Rafael decidiu tomar o café recém-preparado pela mãe. Em seguida, tomou um banho e trocou de roupa. De volta ao portão, repassou com a mãe as orientações sobre não ultrapassar o limite da frente da residência, e que as únicas saídas serão para o tratamento médico na unidade de saúde do bairro. Tudo deveria ser cumprido à risca para não dar margem para uma volta à prisão. Ao retornar à sala, ele soltou uma das parcas frases que diria naquele dia, ao olhar para seus dois irmãos mais novos: comentou que os meninos cresceram enquanto ele esteve preso. “Criança cresce muito rápido.”
Um primo que ainda estava por lá passou a atualizá-lo das novidades do bairro. A mãe ainda conversava com alguns vizinhos e visitantes, dizia que, se não fosse os remédios para os rins, já teria começado a comemorar tomando uma cerveja na frente de casa, ouvindo música. Mas tudo bem, o filho tinha voltado.
#
Artigo de Juliana Passos para a revista Piauí), editada no site da revista em 19/09/2017.

Obra de arte volta para museu de MS após ser apreendida

A pintura "Pedofilia" da artista mineira Alessandra Cunha retirado do Marco (Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul) foi devolvido ao museu nos último dias da exposição. A devolução foi feita a partir de negociação entre o secretário de Cultura e Cidadania de Mato Grosso do Sul, Athayde Nery e a polícia. Matéria publicada originalmente no portal G1 MS, em 16/09/2017. +

A obra “Pedofilia”, da exposição “Cadafalso”, apreendida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, voltou a ser exposta neste sábado (16/9) no Museu de Arte Contemporânea (Marco), no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande.

O quadro, que foi lacrado e retirado do museu na quinta-feira (14) por apologia à pedofilia, foi devolvido sem nenhuma embalagem e recolocado em uma das paredes do museu. Na sexta-feira (15), o secretário de Cultura e Cidadania de Mato Grosso do Sul, Athayde Nery, fez um acordo com a polícia para retirar a obra da delegacia e devolver ao museu, sob a condição da classificação de 18 anos ser respeitada.

"É uma questão de manter os dois lados. A liberdade de expressão, com a artista aqui, e também a questão de respeito à observação das autoridades em relação à idade limite", afirmou Nery.

A coordenadora do Marco, Lúcia Montserrat, comemorou o retorno do quadro e lembrou que a intenção da artista é provocar reflexão.

"Você não sai daqui da sala passivo. Você cresce com esse olhar, com esse questionamento que ela traz. E é muito importante, e eu acho assim, é muito bonito o trabalho, é muito suave, ao mesmo tempo que o tema é pesado", avaliou Lúcia.

A mostra "Cadafalso" da artista mineira Alessandra Cunha está exposta no Marco desde junho. Mesmo após a polêmica, o museu decidiu manter o calendário e a exposição ficará aberta até domingo (17), sem ser prorrogada.

Para a autora Alessandra Cunha, a exposição é uma forma de alertar sobre crimes sociais e provocar reflexão.

"Cada pintura faz uma determinada denúncia sobre os crimes sociais que a gente convive com isso diariamente e às vezes não falam, não têm como demonstrar. Então, eu fiz as pinturas para demonstrar que isso acontece e muito que precisa dar um basta. Não faz apologia a nada", afirmou a artista.

Polêmica

Na quinta-feira (14), a mostra foi tema de debate na Assembleia Legislativa e três deputados registraram boletim de ocorrência contra a artista plástica Alessandra Cunha, de Minas Gerais.

Eles alegaram que as obras possuem conteúdo erótico e fazem apologia à pedofilia. Além da retirada das obras, eles pediram a inclusão da artista no cadastro estadual de pedófilos.
No mesmo dia, a tela foi lacrada e apreendida pela polícia. Para o delegado da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Fábio Sampaio, o quadro faz apologia ao estupro de vulnerável. "Existiu sim o crime de apologia”.

Na sexta-feira (15), um grupo de artistas protestou na região central de Campo Grande contra a apreensão da obra e contra censura. Reunidos na praça Ary Coelho, os manifestantes utilizaram máscaras simulando mordaças e ficaram com as mãos presas por uma fita. Alguns dos integrantes estavam com chicote como sendo ditadores e coronéis contra arte.

Contrariando o que o delegado declarou ao apreender o quadro, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MP-MS) se manifestou e afirmou não considerar a obra uma apologia à pedofilia.

Depois da polêmica, a classificação etária da exposição, que termina no domingo (17), passou de 12 para 18 anos. Alessandra Cunha mora em Uberlândia (MG) e disse que, se quiserem incluí-la no cadastro de pedófilos, vão ter que provar.
|
Matéria publicada originalmente no portal G1 MS, em 16/09/2017.

Novos murais de Banksy aparecem na galeria Barbican e homenageia Basquiat

Últimos dois trabalhos do artista de rua britânico Banksy se divertem com a abordagem de tolerância zero aos graffiti em torno de galeria Barbican, em Londres, próxima a data da abertura da exposição panorâmica do americano Jean-Michel Basquiat. Matéria de Anny Shaw para o site The Art News Paper, em 19/09/17. +

O Barbican Centre está “em discussão" com a cidade de Londres sobre como preservar os dois murais do artista de rua britânico Banksy, que apareceu perto da galeria no domingo.

As obras prestam homenagem a Jean-Michel Basquiat, que originalmente era um artista de graffiti e é tema de uma grande abertura no Barbican esta semana - quase 30 anos depois que ele morreu.

Um mural retrata pessoas que fazem filas sob uma roda gigante com coroas para carros de passageiros; Basquiat frequentemente assinou seu trabalho com uma coroa ou a etiqueta SAMO (que representava “same old shit” ou "a mesma merda de sempre"). Aparentemente, zombando da abordagem de tolerância zero da Barbican ao graffiti, Banksy postou a imagem em sua conta do Instagram com a legenda: "A nova exibição de Basquiat é inaugurada no Barbican - um lugar que normalmente está muito interessado em limpar qualquer graffiti de suas paredes".

A outra pintura é de uma figura de estilo Basquiat sendo interrompida e procurada pela polícia. Banksy postou este trabalho com a legenda: "Retrato de Basquiat sendo recebido pela polícia metropolitana - uma colaboração (não oficial) com a nova exposição Basquiat".

“Boom for Real”, que é a primeira exposição em larga escala do trabalho da Basquiat no Reino Unido, inclui mais de 100 trabalhos ao lado de raridades em fotografia, filme e arquivos.

Uma porta-voz do Barbican confirmou que as obras de Banksy foram pintadas no domingo e que a galeria está "em discussão" com a cidade sobre "como cuidar das peças". Ela acrescenta: "A exposição, Boom for Real, analisa a vida e o legado de Basquiat, inclusive, como mostram estes graffitis [de Banksy], e sua contínua influência sobre os artistas de hoje".
|
Matéria de Anny Shaw para o site The Art News Paper (www.theartnewspaper.com), em 19/09/17.

Deputados pressionam, e polícia apreende quadro em exposição no MS

A Polícia Civil de Campo Grande (MS) apreendeu um quadro que integrava exposição realizada no Marco (Museu de Arte Contemporânea) do Mato Grosso do Sul após um grupo de deputados estaduais registrar um "boletim de ocorrência" contra a exposição da qual a obra fazia parte. Fundado em 1991, o museu é administrado pela Fundação de Cultura do governo do Estado. Artigo de Rubens Valente publicado no jornal "Folha de S. paulo" em 16/09/17. +

A Polícia Civil de Campo Grande (MS) apreendeu um quadro que integrava exposição realizada no Marco (Museu de Arte Contemporânea) do Mato Grosso do Sul após um grupo de deputados estaduais registrar um "boletim de ocorrência" contra a exposição da qual a obra fazia parte. Fundado em 1991, o museu é administrado pela Fundação de Cultura do governo do Estado.

A obra é de autoria da artista plástica Alessandra Cunha, de Uberlândia (MG), conhecida como Ropre, e integrava a exposição "Cadafalso", da mesma artista, com outras 31 obras. O quadro traz a figura de uma menina vestida de saia e blusa, ao centro, e duas silhuetas de homens nus, sem contato com a criança, que aparece cercada no que seria um quarto fechado. Ao fundo, um olho derramando uma lágrima. À esquerda, escrita de trás para frente, foi pintada a frase: "O machismo mata violenta humilha".

Segundo os organizadores da exposição, o quadro intitulado "A Pedofilia" é uma crítica à exploração sexual de crianças, e não apologia. Eles mostraram imagens em que um cartaz afixado na porta de entrada do museu advertia que a exposição era recomendada para maiores de 18 anos. A peça foi apreendida pela polícia nesta quinta-feira (14), o que gerou protestos de artistas e professores universitários. Nesta sexta-feira (15), um grupo de 50 atores de teatro, alunos e professores de artes plásticas e artistas interditou um cruzamento movimentado no centro de Campo Grande para protestar contra a apreensão.

O fórum municipal de Cultura divulgou nota para repudiar a apreensão, considerada "uma extremada posição do pensamento ultraconservador que não oferece chances ao diálogo e ao entendimento do que sejam obras de arte". Segundo o fórum, a obra "não representa ofensa à moral, aos bons costumes, e muito menos é pornográfica, como querem [dizer] nossos zelosos representantes estaduais".

A exposição ocorria no Marco desde junho, mas só virou alvo de ataques na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul após o cancelamento da exposição "Queermuseu", pelo banco Santander, em Porto Alegre (RS). O tema foi debatido no plenário da Assembleia.

Em entrevista em vídeo ao site de notícias "Campo Grande News", o delegado da DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente) que fez a apreensão, Fábio Sampaio, disse que o quadro "induz à lascívia". "No quadro aparece a figura masculina de um homem aparentemente adulto e de uma criança, com conotação sexual. Como nesse caso induz a pessoas que vejam o quadro a prática da lascívia de um adulto com uma criança, e isso caracteriza crime. Então quando você expõe esse tipo de imagem para o público em geral você está fazendo uma apologia ao crime, no caso um estupro de vulnerável", diz o delegado, no vídeo. O policial afirmou que o quadro passará por "uma perícia".

Os deputados estaduais Herculano Borges (SD), Coronel David (PSC) e Paulo Siufi (PSC) estiveram na DPCA na tarde de quinta-feira, mesmo dia da apreensão. O deputado David, que foi comandante da Polícia Militar do Estado de 2009 a 2014, disse à imprensa de Campo Grande que a exposição é uma "agressão à família, aos bons costumes e à moral".

A diretora do Marco, Lucia Montserrat, disse à Folha que iria à delegacia de polícia na tarde desta sexta-feira para buscar esclarecimentos e depois informaria que medidas o museu poderá tomar sobre a apreensão.

A artista plástica Alessandra, procurada, não foi localizada. Ao site de notícias "Midiamax", Alessandra afirmou que "assusta um pouco saber que as pessoas não conseguem entender uma crítica óbvia [à pedofilia], mas é uma reação natural do machismo, que é justamente o que eu denuncio na minha série. Essa reação na contramão é o próprio machismo tentando reprimir as questões que a gente coloca contra ele".
#
Artigo de Rubens Valente publicado no jornal "Folha de S. paulo" em 16/09/17.

Mudança aprovada na ArtRio

Em sua primeira edição na Marina da Glória, a ArtRio foi aprovada por galeristas e pelo público. Segundo o cálculo inicial da organização (sem os números finais de domingo), a feira de arte recebeu cerca de 45 mil pessoas desde a última quinta-feira, um fluxo próximo ao do ano passado, o último em que foi realizada no Píer Mauá, onde o evento teve início, em 2010. Artigo de Nelson Gobbi publicado no jornal "O Globo" em 18/09/17. +

Em sua primeira edição na Marina da Glória, a ArtRio foi aprovada por galeristas e pelo público. Segundo o cálculo inicial da organização (sem os números finais de domingo), a feira de arte recebeu cerca de 45 mil pessoas desde a última quinta-feira, um fluxo próximo ao do ano passado, o último em que foi realizada no Píer Mauá, onde o evento teve início, em 2010. Para Brenda Valansi, diretora e idealizadora da ArtRio, o fato de a data da feira ter coincidido pela primeira vez com o Rock in Rio não chegou a interferir no público.

— São públicos distintos, embora muita gente de fora tenha aproveitado a vinda ao Rock in Rio para visitar a feira, e vice-versa. O espaço é um pouco menor que o do Píer, esperávamos um número menor de pessoas, mas ficou bem próximo ao dos outros anos — comenta Brenda, adiantando que a feira terá os mesmos moldes no ano que vem, quando será realizada entre 5 e 9 de setembro. — Não pretendo aumentar, acredito que chegamos ao formato ideal que o mercado comporta, ao menos por enquanto. Muitas galerias que não participaram este ano já me procuraram para vir em 2018. Seremos bem rigorosos na seleção, cobrando dos galeristas o que foi proposto nas aplicações.

Para os galeristas, a mudança de endereço trouxe melhorias em relação ao acesso e ao fluxo de pessoas, o que se refletiu também nos negócios. O consenso entre os expositores é que o retorno foi positivo, sobretudo quando se leva em conta o momento econômico do país.

— Vendi quase tudo o que trouxe, acho que o espaço contribuiu muito para isso. A circulação interna ficou agradável e o espaço externo, com a área de alimentação e a IDA (Feira de Design do Rio), funcionou muito bem. A vinda para a Marina trouxe um frescor, lembra a primeira edição da ArtRio — destaca Cássia Bomeny, dona da galeria que leva o seu nome.

Consultor da Mul.ti.plo, Maneco Muller acredita que a vinda para a Marina renovou o público e também trouxe novos colecionadores para o evento.

— Recebemos vários compradores entre 30 e 40 anos, interessados em arte e totalmente desprendidos para se informar, perguntar sobre as obras. Eles têm um perfil diferente dos colecionadores tradicionais. É ótimo ver isso, um sinal que o mercado se renova, apesar de toda a turbulência pela qual passamos — observa Muller.

Max Perlingeiro, da Pinakotheke, espera bons resultados após a feira, quando os contatos e prospecções realizados durante a ArtRio podem ser concretizados em vendas:

— Fizemos ótimos contatos com colecionadores importantes do Rio, de São Paulo, Fortaleza, Minas e do exterior. Para a gente, que atua no mercado secundário, a feira é uma grande vitrine. O pós-feira é o vai garantir o retorno, muitas vendas são fechadas meses depois.

O formato da ArtRio, com os programas Panorama (voltado às galerias tradicionais) e Vista (para estabelecimentos mais novos) no mesmo espaço, foi celebrado pelos novos galeristas.

— Nos anos anteriores, as galerias do Vista tradicionalmente ficavam nos últimos galpões do Píer Mauá, nem sempre o público ia até lá. Muitas vezes quem deixava para comprar uma obra no fim do dia acabava não voltando para buscar — conta Camila Tomé, da C Galeria. — Neste formato, a feira foi boa para todo mundo, para os pequenos e grandes galeristas e para o público, que teve acesso a uma diversidade maior de obras.

A advogada e colecionadora Thyna Mendes, que circulava na feira com a artista plástica Marilou Winograd, achou que a seleção de algumas galerias deixou a desejar, embora tenha gostado do que viu entre os novos artistas:

— A escolha de obras poderia ter sido melhor, senti que alguns artistas não estavam tão bem representados quanto poderiam. Mas, no geral, gostei da mudança, está agradável e de um tamanho que o mercado comporta.
#
Artigo de Nelson Gobbi publicado no jornal "O Globo" em 18/09/17.


Um setentão livre de dívidas

O equilíbrio nas contas do Masp, que completa 70 anos no mês que vem, se deve à gestão encabeçada pelo consultor de empresas Heitor Martins. O ex-presidente da Fundação Bienal foi empossado diretor-presidente do museu há exatos dois anos, em setembro de 2014. Uma de suas primeiras medidas foi ampliar o conselho deliberativo, que passou a ter 83 membros, e exigir deles uma contribuição inicial de cerca de R$ 150 mil e outra de R$ 30 mil a cada ano - os mandatos variam de dois a cinco anos. Artigo de Daniel Salles para o jornal "Valor Econômico". +

Setenta e cinco milhões de reais. Eis a quantia que o Masp devia em meados de 2014. O débito com a Vivo, a maior credora, era de R$ 45 milhões. O montante está relacionado com o prédio vizinho, comprado pela companhia telefônica em 2006 por R$ 13 milhões e doado ao museu. Pelo acordo firmado, o Masp deveria reformar o edifício e transformá-lo em um anexo, em cima do qual seria construída uO equilíbrio nas contas do Masp, que completa 70 anos no mês que vem, se deve à gestão encabeçada pelo consultor de empresas Heitor Martins. O ex-presidente da Fundação Bienal foi empossma torre com a logomarca da Vivo - vetada, em 2010, pelo Patrimônio Histórico. A ocupação seria dividida entre a instituição cultural e a companhia. Jamais finalizado, o projeto levou a Vivo a cobrar na Justiça o dinheiro investido, devidamente corrigido e acrescido de multas. O resto do rombo do Masp se explicava por dívidas fiscais na ordem de R$ 20 milhões e por um débito de R$ 10 milhões com fornecedores e instituições financeiras.

Passados três anos, o mais importante museu da América Latina comemora o fato de ter equacionado toda sua dívida. Do valor devido à Vivo, R$ 35 milhões foram perdoados pela companhia, que, em troca, ganhou status de patrocinadora por cinco anos. O débito restante com a empresa foi parcelado em dez anos. As dívidas fiscais foram renegociadas por meio do Refis, programa de refinanciamento tributário, e serão quitadas até 2024. O dinheiro devido aos grandes fornecedores também foi renegociado. Já a quantia cobrada pelos pequenos credores e pelos bancos foi paga de imediato.

ado diretor-presidente do museu há exatos dois anos, em setembro de 2014. Uma de suas primeiras medidas foi ampliar o conselho deliberativo, que passou a ter 83 membros, e exigir deles uma contribuição inicial de cerca de R$ 150 mil e outra de R$ 30 mil a cada ano - os mandatos variam de dois a cinco anos.

Só estão desobrigados dos pagamentos os três representantes da esfera pública: André Sturm, secretário municipal de Cultura, José Luiz Penna, secretário estadual de Cultura, e Marcelo Mattos Araújo, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Da lista de novos conselheiros fazem parte o apresentador de TV Luciano Huck e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

A segunda medida para ampliar as receitas foi a criação de um grupo de patronos, que devem se reunir ocasionalmente para discutir rumos do museu e contribuir com uma taxa única de pelo menos R$ 25 mil. É o caso do economista Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central, e de José Olympio Pereira Neto, presidente do Credit Suisse no Brasil. Os interessados em ingressar no colegiado de jovens patronos devem ter até 39 anos e desembolsar R$ 5.000. O motivo da criação desse grupo é estimular pessoas mais jovens a se engajarem com a instituição e divulgarem sua programação. Uma das líderes é a publicitária Sofia Derani, de 25 anos. Criou-se ainda um conselho internacional, que se reúne em capitais como Nova York e Londres a cada seis meses. Dele faz parte o empresário Abilio Diniz. A contribuição exigida aos integrantes é de US$ 20 mil.

O reflexo no caixa do museu foi imediato. "Captamos quase R$ 10 milhões por ano com pessoas físicas e isso se deve ao engajamento de nossos conselheiros", diz Lucas Pessôa, diretor de operações e financeiro do Masp. "Nenhuma outra instituição cultural do país consegue fazer isso." Pessôa administra hoje um orçamento anual de R$ 38 milhões, três vezes maior que o disponível em 2013. Metade do dinheiro é amealhado por meio da Lei Rouanet - o museu foi o quarto maior captador no ano passado.

As doações de pessoas físicas respondem por um quinto do orçamento, e o dinheiro obtido com bilheteria, cafeteria, restaurante e venda de produtos, por um quarto do valor. A Prefeitura de São Paulo colabora com cerca de R$ 2 milhões por ano, o que corresponde a 5% do caixa.

A crise econômica não tirou o sono da instituição. "Uma estratégia importante do Heitor Martins foi fechar acordos de patrocínio plurianuais, de três a cinco anos", avalia Pessôa. "Quando a crise piorou, estávamos seguros por isso." Em março, mais uma iniciativa foi anunciada para salvaguardar o museu dos altos e baixos da economia. Trata-se de um "endowment" elaborado pelo escritório de advocacia Pinheiro Neto.

Os rendimentos do fundo, alimentado por doações privadas de empresas e pessoas físicas, poderão sustentar o museu caso as atuais fontes de renda sequem. A inspiração veio de museus como o J. Paul Getty, em Los Angeles, que dispõe de um "endowment" de mais de US$ 6 bilhões, e o de Belas Artes de Houston, cujo fundo é de mais de US$ 1 bilhão. Dos R$ 40 milhões que o Masp planeja ter inicialmente em seu "endowment", R$ 6 milhões já foram angariados.

Com as finanças em ordem, o museu pôde voltar a investir no setor de exposições. "Hoje temos um conforto financeiro que nos permite trabalhar de uma maneira muito melhor", diz Adriano Pedrosa, o diretor artístico. Ele hoje é assessorado por três curadores, três curadores assistentes e outros seis curadores adjuntos, como a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e o pesquisador Pablo León de la Barra. Antes, o time se resumia a um curador e a um assistente.

Um das primeiras conquistas de Pedrosa foi a volta do uso dos cavaletes de vidro como suporte para as obras, em 2015. No ano passado, ele começou a apostar em exposições de impacto, a exemplo de "Histórias da Infância", na qual obras como "As Meninas Cahen d'Anvers", de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), apareciam ao lado de fotos recentes de crianças. Resultado: o museu registrou em 2016 sua segunda melhor bilheteria, com 408 mil pessoas. O recorde de público, de 550 mil pessoas, pertence a 2012, ano da monumental exposição dedicada a Caravaggio (1571-1610) e seus seguidores.

A expectativa para 2017 é a de terminar ano com 450 mil visitantes em razão do sucesso de "Toulouse-Lautrec - em Vermelho", em cartaz até o mês que vem. Numa terça-feira de julho, quando a entrada é gratuita, cerca de 6.000 pessoas foram conferir a mostra a respeito do pintor francês (1864-1901). Foi o dia mais visitado na história do museu. "Essa exposição foi toda produzida por nós e recoloca o Masp em diálogo com o circuito internacional de museus", afirma Pedrosa.

Desde o dia 24, o museu exibe 66 obras do artista pernambucano Pedro Correia de Araújo (1881-1955), que serão usadas para discutir a sexualidade, com curadoria de Fernando Oliva. O Guerrilla Girls, coletivo feminista criado em Nova York em 1985, que só se apresenta com máscaras de gorila, será alvo de um mostra que entra em cartaz em setembro. A exposição seguinte, prevista para outubro, aborda as histórias da sexualidade. Para dezembro está marcada uma mostra com obras do pernambucano Tunga (1952-2016). Que venham mais 70 anos.
#
Artigo de Daniel Salles para o jornal "Valor Econômico".


Um executivo sem fronteiras

Fabio Luchetti fez uma pós-graduação no Centro Universitário de Belas Artes, tornou-se colecionador e investiu R$ 3 milhões para abrir sua galeria, a Adelina, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Queria um local fora do circuito habitual - Jardins, Pinheiros e Vila Madalena - e que pudesse abrigar uma área expositiva e uma educativa, como um híbrido entre espaço cultural e galeria. Artigo de Maria da Paz Trefaut para o jornal "Valor Econômico". +

A mediação de um conflito entre a artista plástica Carmela Gross e o Corpo de Bombeiros foi o que levou Fabio Luchetti, presidente da seguradora Porto Seguro, a despertar para o mundo das artes. Há dez anos, o executivo atuava na área de marketing e estava encarregado de adquirir obras para diversos ambientes da empresa. Eis que uma escultura, com lâmpadas fluorescentes e fios expostos, para ser colocada em uma rampa, foi tema de uma controvérsia. Os bombeiros foram à companhia e avisaram: "Isso não pode ficar assim, precisamos colocar uma canaleta de alumínio". Ao que Carmela respondeu: "De jeito nenhum. A obra é o que está aí".

A discussão durou uma semana, mas Luchetti conseguiu convencer os bombeiros dos valores intrínsecos da obra de arte, que permaneceu no lugar como o idealizado pela artista. Esse episódio marcou a vida do executivo: serviu para que ele descobrisse sua visão estética e percebesse que em arte não há unanimidade, é preciso provocar. Foi aí que decidiu estudar. Fez uma pós-graduação no Centro Universitário de Belas Artes, tornou-se colecionador e investiu R$ 3 milhões para abrir sua galeria, a Adelina, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Queria um local fora do circuito habitual - Jardins, Pinheiros e Vila Madalena - e que pudesse abrigar uma área expositiva e uma educativa, como um híbrido entre espaço cultural e galeria.

Luchetti tem uma visão particular do mundo das artes: galerias são como joalherias, compara. Só entra quem compra e quem é familiarizado com o meio. "Você está passeando na 5ª avenida, em Nova York, vai entrar na Tiffany? Não, fica até desconfortável. Se você entra em uma galeria, em geral, não conhece o artista, e aí fica sem graça de perguntar: 'Isso é papel ou tela?' Tela, responde o vendedor. Aí você vai embora achando melhor não perguntar mais nada."

Para quebrar essa barreira elitista, ele contratou uma educadora da Pinacoteca para ficar no espaço expositivo da Adelina Galeria, no balcão, atrás da porta. Ela convida quem passa para entrar. "Aí vai manicure, o cara do supermercado, e ela faz a mediação conforme o público. Percebe se é uma pessoa leiga, se é um entendido. Mas se entra um arquiteto, um colecionador, e pergunta preço, ela liga para vendedora, que desce para atender o cliente".

Hoje, cerca de 68% de tudo o que está exposto em São Paulo fica em galerias, revela pesquisa da Latitude sobre o mercado de arte contemporânea no Brasil. Foi esse dado que levou Luchetti a concluir que elas podem ser agentes de difusão artística, e não um mero showroom. Há seis meses, ao participar de um evento de galeristas no Itaú Cultural, no entanto, ouviu pessoas do mercado lamentando a situação atual. "Mas se você não começa a ter uma mudança hoje, daqui a dez anos vai continuar chorando", diz.

Não por acaso, o executivo tem planos de expansão. Em breve, na casa ao lado da galeria, será aberto um café com menu desenvolvido por Ana Soares, da rotisserie Mesa 3, e inspirado nos pratos preparados pela mãe do executivo, Adelina, que morreu quando ele tinha 35 anos. "Ela fazia macarrão de forno com noz moscada, um bife à milanesa que, durante a semana, a gente comia no pão, frio mesmo. Era uma delícia. Para a sobremesa, preparava torta de ricota e um sorvete de nozes, que era de comer ajoelhado", afirma.

A escolha do restaurante La Casserole para este "À Mesa com o Valor" também é carregada de afeto. Luchetti frequenta o lugar há anos. Gosta do ar bucólico da casa tradicional do largo do Arouche, no centro da cidade, que fica diante do mercado de flores e próximo de onde morou com um tio. Também conhece bem a proprietária, Marie-France Henri, que se aproxima para cumprimentá-lo. Em geral, ele escolhe uma opção no menu do dia ou o filé "au poivre" com batatas "à la creme", prato que pede durante este almoço.

O centro de São Paulo está em sua memória, desde quando havia bares nas calçadas e um certo clima europeu na rua Vieira de Carvalho, na avenida São Luís e na praça Dom José Gaspar. Tempos em que o seu programa era saborear um sanduíche na rua Sete de Abril, frequentar o Sesc Consolação, andar a pé, de bicicleta e jogar bola atrás do colégio Caetano de Campos. "A qualidade de vida aqui era espetacular", diz. "Aos domingos a gente ia ao Cine Metro, assistir a Tom & Jerry."

Nesta tarde de temperatura amena, Luchetti veste paletó azul-marinho e camisa branca. Os óculos quadrados de aro azul se destacam no rosto, emoldurado por cabelos curtos. Aos 51 anos, prepara-se para embarcar no segundo casamento. No primeiro, que durou 15 anos, teve dois filhos: Rodrigo, de 17 anos, e Bruno, de 10.

Seu único emprego na vida foi na seguradora Porto Seguro, em Campos Elíseos, também no centro. Entrou na empresa há 35 anos. Antes, havia feito pequenos trabalhos para uma distribuidora de remédios no Brás, como etiquetador, e nas lojas de couro da rua do Gasômetro. Na seguradora, passou por diversos cargos, da área de finanças à de marketing, e atravessou várias etapas. Talvez por isso, diz que sempre buscou uma gestão humanista, seja por meio da antroposofia, em cursos de liderança ou até pela atenção a questões complexas como o assédio moral ou o bullying no ambiente corporativo.

A vida do executivo também foi marcada por um drama familiar. O pai, o topógrafo Mauro Luchetti, italiano que veio para o Brasil aos 33 anos, sofreu um acidente e ficou dez anos sem andar. A mãe era professora e, além de Fabio, teve outro filho, hoje com 53 anos. A família de classe média-alta teve de baixar drasticamente o padrão. "Dos meus 8 aos 18 anos foi bem difícil. Mudamos do Brás para o centro e comecei a ajudar meu tio-avô, que era corretor de seguros", lembra ele, que frequentou o colégio Firmino de Proença, uma escola pública na Mooca, a mesma onde estudou o senador José Serra (PSDB-SP).

O convívio com o centro da cidade o levou a ter uma percepção lenta e contínua do processo de degradação urbana por que passa a região, em especial a área vizinha à Cracolândia, onde se localizam os escritórios principais da Porto Seguro. Não mudar para as avenidas Paulista ou Faria Lima, como fizeram muitas empresas, é uma premissa da seguradora. A empresa está há 40 anos nos Campos Elíseos. Dez mil pessoas trabalham ali.

Há cinco anos, Luchetti já havia comandado um outro projeto cultural. Vizinho à sede da seguradora, a empresa criou o teatro Porto Seguro, um propósito antigo da companhia: o de usar a cultura para dar impulso à revitalização dessa região do centro da cidade. A presença da empresa já é tão forte por ali que alguns vizinhos chamam informalmente o bairro de "Portos Elísios".

"Há uma infraestrutura de transportes ótima, com trem, metrô, ônibus. Se saíssemos do bairro, seria um tsunami. O comércio de Campos Elíseos é muito dependente de nossos funcionários. De salão de cabelereiro a restaurantes. Decidimos ficar para preservar e até para cuidar do bairro, para que seja bom para quem mora e porque as pessoas que vão trabalhar precisam de um mínimo de proteção."

Existem seguranças privados nos 15 imóveis que a empresa tem na região e uma logística de vans para transportar os funcionários até as estações de trem e metrô, para que não precisem passar pelo meio da Cracolândia. "As pessoas já tiveram mais medo. O que você tem é uma visão assustadora, como no filme 'Blade Runner' [O Caçador de Androides, 1982, de Ridley Scott]. Tem semana que vou com o carro blindado e passo para ver como está o ambiente". Para ele, a questão da Cracolândia é um drama no qual há verdade de todos os lados. Da vítima do crack, do usuário, do cidadão que mora próximo, do que tem comércio.

O problema ali não é só a Cracolândia, afirma Luchetti. "Há uma falta de preparo, também, dos comerciantes, que colocam lixo na hora errada. Os moradores de rua vão lá e revistam. Por isso, começamos um trabalho para educar os comerciantes". Cerca de 45 funcionários da Porto Seguro fazem vistoria no bairro, checam a iluminação, as calçadas. Esse exercício faz com que, assim, também comecem a cuidar dos bairros onde moram na extensão da cidadania praticada ali. Segundo as normas internas, todo funcionário pode dedicar duas horas por semana, pagas pela empresa, para qualquer trabalho voluntário.

A Porto Seguro é um conglomerado com 25 empresas, 15 mil funcionários, 7.000 prestadores exclusivos e 25 mil corretores autônomos. O seguro de carros representa 65% do faturamento, mas 45% no lucro - hoje, 55% já vem dos outros negócios. Por considerar que o maior patrimônio da empresa são as relações humanas, depois de se formar em administração, estudou filosofia e fez cursos sobre gestão. Um deles, em Madri, de alta performance em liderança, focado em medos.

Baseada numa visão antroposófica, a empresa considera que os ciclos duram sete anos e a visão de futuro muda a cada setênio. O mantra do momento, "a beleza está nos detalhes", tenta transmitir a ideia de que já que a tecnologia equipara muita coisa, as diferenças se dão nas sutilezas. "Concluímos que a gente vende atendimento. Através dos produtos, vendemos relacionamento. E nisso a gente tem que ser muito bom. Apesar de ter 15 milhões de clientes, você precisa ser único naquele momento. Porque o óbvio todo o mundo vai fazer".

Luchetti, que recebeu em 2017 o prêmio "Executivo de Valor" - que escolhe os melhores gestores de 23 setores da economia -, nunca imaginou que chegaria a ser presidente, cargo que ocupa do ponto de vista prático há 12 anos, mas, oficialmente, há cinco. Havia um receio de anunciar em 2006 que Jayme Garfinkel, ex-presidente, estava iniciando o processo de sucessão. "Como o mercado é muito pequeno, tememos gerar uma insegurança muito grande. Assumi o posto de vice-presidente executivo, que não era uma mudança relevante, quando ele foi para o cargo de presidente. Na prática, eu já era o CEO da Porto Seguro. O Jayme também é muito evolutivo, não gosta de rupturas. As coisas sempre vão se encaixando por marolas".

Em 2006, ao ser convidado por Garfinkel, Luchetti entrou em uma leve pane. "Pensei: 'Ele está louco'. É o pai dando a chave de um Porsche para o filho que fez 18 anos. Eu estava com 38 anos. E perguntei: 'Você tem certeza?' Como tudo na vida, a gente nunca acha que está preparado, sempre tem aquela insegurança".

O executivo conhecia suas sombras. Para enfrentá-las, fez sete anos de terapia junguiana e quatro coachs que resultaram em um processo dolorido de mudança. Seu maior desafio era ganhar poder e não se embriagar com ele. Por outro lado, assumia uma empresa que ia muito bem, mas que precisava ser renovada, pois já emitia sinais de dificuldade de crescimento. "Tinha que achar um caminho entre o continuísmo e a renovação. Era preciso proteger a identidade e as relações e fazer uma revolução em processos e recursos", avalia.

A imagem que Luchetti encontrou para identificar sua função era a de um restaurador de obras de arte. "No fundo, eu precisava restaurar uma obra de sucesso. Ela tinha que continuar preservando seus valores, mas precisava se renovar para não acabar. Isso controlava meu ego, de certa forma." O executivo diz que já foi mais racional, mas que sua visão sistêmica alavancou sua carreira. "Sempre resolvi muitos problemas para a organização. Onde havia problemas era para onde me levavam".

Nem por isso ele se diz pouco emotivo. "Choro com qualquer filme, com cachorro abandonado. Sou um chorão de marca maior. Escuto muito as pessoas, me sensibilizo muito". Parte importante de sua sensibilidade se destina à cidade onde vive: "O que a gente quer saber agora é qual é o projeto do município ou do Estado para recuperação do centro. Não é fazer o retrofit de um prédio e pronto. Passa por moradia e ocupação cultural. Todos os projetos de recuperação dos bairros, em qualquer grande metrópole do mundo, passam por projetos que conciliam moradia e cultura".

Ele enumera. No centro há Sala São Paulo, Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa (em reforma), Museu da Polícia Militar, Museu de Arte Sacra, Sesc Bom Retiro, Museu da Energia, espaço Porto Seguro, que tem complexo cultural com área expositiva, teatro, restaurante e café (investimento de R$ 50 milhões). "Se você olhar no Google Maps vai ver um monte de oportunidades, terrenos vazios. E se você não ocupa o espaço, alguém ocupa".

Ele pede um abacaxi de sobremesa e desiste, seduzido pela oferta do creme brullé. Depois do café, outras reuniões o esperam tarde afora. Muitas delas ligadas à gestão. Para ele, a ideia de que o bom funcionário deve vestir a camisa da empresa é velha. É preciso vestir sua própria camisa. "Por que uma pessoa tem um comportamento diferente quanto é CLT e quando é autônoma?", pergunta. "Porque ela espera atitude paternalista. A empresa tem de dar oportunidades, mas você precisa zelar pelo seu papel. O clichê de dono de negócio é o empreendedorismo. Mas isso, no fundo, é uma atitude. Não uma competência".
#
Artigo de Maria da Paz Trefaut para o jornal "Valor Econômico".


“Artnews”divulga sua lista de Top 200 colecionadores do mundo

Lista inlcui os brasileiros os brasileiros Andrea e José Olympio Pereira, Joseph Safra, Susana e Ricardo Steinbruch, Bernando Paz, Genny e Selmo Nissenbaum. Artigo editado no portal de arte twww.touchofclass.com.br. +

Os colecionadores de arte do topo da pirâmide podem ser comparados a um círculo secreto. Em uma época onde alguns deles abrem as portas de suas coleções em museus privados e revelam seus acervos com certo estardalhaço, outros jamais aparecerão em uma lista como essa – porque não têm a menor intenção de que pessoas de fora deste círculo conheçam as suas façanhas.
É por isso que foi tão espantoso quando Yusaku Maezawa postou no Instagram a pintura de Jean-Michel Basquiat comprada por ele por US$ 110 milhões na Sotheby’s, em maio. Ele não sussurrou a respeito, como outros fizeram no passado, correndo o risco de ser desacreditado. Ele revelou isso para quem tivesse acesso a esta plataforma de mídia social, uma das mais populares do mundo.
Neste espírito, para a 28ª edição do “Top 200 Collectors“, a ARTNews pediu para que seus entrevistados – alguns veteranos na lista e outros novatos – contassem um pouco a respeito de si mesmos. Quais são algumas das peças que adquiriram no ano passado? Quem os inspirou para começar a colecionar? Alguma vez houve uma obra de arte que escapou? As respostas recebidas são bem interessantes.
As respostas foram diversas, desde obras de grandes nomes – uma escultura de coelho de Jeff Koons, por exemplo – até para pinturas, esculturas e vídeos de artistas emergentes menos conhecidos. “Foi um ano movimentado”, Daniel e Estrellita B. Brodsky disseram quando relembraram o período – e é fácil imaginar que outros colecionadores ecoem este sentimento.

Os principais colecionadores do mundo em 2017 – entre os quais as aquisições recentes foram uma obra de preço recorde de Basquiat e um vídeo de Anicka Yi na Whitney Biennial – incluem nomes novos como Laura Arrillaga-Andreessen, fundadora do Centro de Filantropia e Sociedade Civil da Universidade de Stanford e seu marido, Marc Andreessen; o comediante e aficionado por arte Cheech Marin e o financista iraniano Mohammed Afkhami. Assim como David Geffen, magnata da mídia, está de volta.
Os 200 nomes do ranking vêm de 33 diferentes países, sendo a maior parte deles oriundos da América do Norte. Sete coleções da lista vêm da América do Sul, incluindo os brasileiros Andrea e José Olympio Pereira, Joseph Safra, Susana e Ricardo Steinbruch, Bernando Paz, Genny e Selmo Nissenbaum.
A maior parte dos colecionadores, 91%, dedicam parte de sua coleção à Arte Contemporânea, seguida de longe pela Arte Moderna (46%). Quando se trata de categorias de arte produzidas fora do eixo Europa – EUA, a maior porcentagem fica com a arte asiática (49%), seguida da arte latino-Americanaa (32%).
Confira a lista completa (em ordem alfabética, por sobrenome):
Roman Abramovich e Dasha Zhukova
Moscou
Arte moderna e contemporânea

Haryanto Adikoesoemo
Jakarta, Indonesia
Arte moderna e contemporânea indonésia e ocidental

Mohammed Afkhami
Dubai; Gstaad, Switzerland; Londres; Nova York
Arte moderna e contemporânea iraniana e arte internacional

Paul Allen
Seattle
Impressionismo; Arte moderna e contemporânea; Grandes Mestres

Laura Arrillaga-Andreessen e Marc Andreessen
Palo Alto, California
Pós-Guerra e Arte Contemporânea

María Asunción Aramburuzabala
Mexico City
Arte moderna e contemporânea

Hélène e Bernard Arnault
Paris
Arte contemporânea

Laura e John Arnold
Houston
Arte moderna, pós-guerra e contemporânea

Laurent Asscher
Monaco
Arte Moderna e Contemporânea

Hans Rasmus Astrup
Oslo
Arte contemporânea

Candace Carmel Barasch
Nova York
Arte contemporânea

Maria Arena e William Bell Jr.
Los Angeles
Arte moderna e contemporânea

Tracey e Bruce R. Berkowitz
Miami
Arte contemporânea

Ernesto Bertarelli
Gstaad, Suíça
Arte moderna e contemporânea

Debra e Leon Black
Nova York
Escultura chinesa, Arte Contemporânea; Impressionismo; Pintura Moderna, Grandes Mestres; obras sobre papel

Len Blavatnik
Londres; Nova York
Arte moderna e contemporânea

Neil G. Bluhm
Chicago
Arte pós-guerra e contemporânea

Barbara Bluhm-Kaul e Don Kaul
Chicago
Pós-Guerra e Arte Contemporânea

Lauren e Mark Booth
Connecticut
Arte contemporânea, especialmente esculturas outdoor

Karen e Christian Boros
Berlin
Arte contemporânea

Botín Family
Santander, Spain
Arte contemporânea

Irma e Norman Braman
Miami Beach
Arte moderna e contemporânea

Udo Brandhorst
Munich
Arte pós-guerra e contemporânea

Peter M. Brant
Greenwich, Connecticut
Arte contemporânea; Design; Mobiliário

Edythe L. e Eli Broad
Los Angeles
Arte contemporânea

Estrellita e Daniel Brodsky
Nova York
Arte Moderna e contemporânea Latino Americana e internacional; desenhos e pinturas de arquitetos, especialmente Le Corbusier

James Keith (J. K.) Brown e Eric Diefenbach
Nova York; Ridgefield, Connecticut
Arte contemporânea

Joop van Caldenborgh
Wassenaar, the Netherlands
Arte moderna e contemporânea, incluindo escultura, fotografia, livros de artista, vídeo e instalações

Edouard Carmignac
Paris
Arte contemporânea

Pierre Chen
Taipei
Arte moderna e contemporânea

Adrian Cheng
Hong Kong
Arte contemporânea chinesa e internacional

Halit Cingillioglu e Kemal Has Cingillioglu
Londres; Monaco
Impressionismo; Arte Moderna, pós-guerra e contemporânea

Ella Fontanals-Cisneros
Gstaad, Suíça; Madrid
Arte contemporânea internacional, vídeo e photography, com ênfase em arte geométrica abstrata e arte conceitual, focada na produção cubana e latino-americana

Patricia Phelps de Cisneros e Gustavo A. Cisneros
Caracas, Venezuela; Republica Dominicana; Nova York
Artistas latino-americanos do século 19, objetos etnicos amazônicos, arte e objetos coloniais da América Latina; Arte moderna e contemporânea latino-americana

Alexandra e Steven A. Cohen
Greenwich, Connecticut
Impressionismo; Arte moderna e contemporânea

Isabel e Agustín Coppel
Mexico City
Arte internacional

Eduardo F. Costantini
Buenos Aires
Arte Moderna e contemporânea da América Latina

Rosa e Carlos de la Cruz
Key Biscayne, Florida
Arte contemporânea

Dimitris Daskalopoulos
Atenas
Arte contemporânea, especialmente instalações em grandes formatos, escultura, desenhos, colagens, filmes e vídeos

Eric de Rothschild
Paris e Pauillac, France
Grandes mestres, Arte Moderna e Contemporânea

Tiqui Atencio Demirdjian
Londres; Venezuela
Arte da América Latina; Arte moderna e contemporânea

Beth Rudin DeWoody
Los Angeles; Nova York; West Palm Beach, Florida
Arte moderna e contemporânea

Lonti Ebers
New York; Toronto
Arte contemporânea

George Economou
Atenas
Arte moderna, pós-guerra e contemporânea

Stefan T. Edlis e Gael Neeson
Aspen, Colorado; Chicago
Arte pós-guerra e contemporânea

Carl Gustaf Ehrnrooth
Helsinki
Arte contemporânea escandinava, europeia e americana


Eisenberg Family
New Jersey; Nova York
Arte contemporânea

Lawrence J. Ellison
Woodside, California
Antiguidades e arte japonesa do início do século 20, arte europeia do final do século 19 e início do século 20

Caryl e Israel Englander
Nova York
Fotografia contemporânea; Arte moderna, pós-guerra e contemporânea

Bridgitt e Bruce Evans
Boston
Arte contemporânea

Susan e Leonard Feinstein
Long Island, Nova York
Arte moderna e contemporânea

Frank J. Fertitta III e Lorenzo Fertitta
Las Vegas
Arte moderna e contemporânea

Randi e Robert Fisher
San Francisco
Arte contemporânea

Aaron I. Fleischman
Miami Beach; Nova York
Arte Moderna e Contemporânea

Michael C. e Jennifer Rice Forman
Philadelphia
Arte Moderna e Contemporânea

Amanda e Glenn R. Fuhrman
Nova York
Arte contemporânea

Gabriela and Ramiro Garza
Aspen, Colorado; Mexico City
Arte contemporânea

Christy e Bill Gautreaux
Kansas City, Missouri
Arte contemporânea

David Geffen
Los Angeles
Arte Moderna e Contemporânea, especialmente Expressionismo abstrato

Yassmin e Sasan Ghandehari
Londres
Impressionismo; Arte pós-guerra e contemporânea

Danny Goldberg
Sydney
Arte moderna e contemporânea

Noam Gottesman
Nova York
Arte pós-guerra e contemporânea

Laurence Graff
Gstaad, Suíça
Arte moderna e contemporânea

Kenneth C. Griffin
Chicago
Pós-Impressionismo

Florence e Daniel Guerlain
Paris
Arte contemporânea, especialmente desenhos

Agnes Gund
Kent, Connecticut; Nova York; Peninsula, Ohio
Arte moderna e contemporânea

Christine e Andrew Hall
Palm Beach, Florida
Arte contemporânea

Diane e Bruce Halle
Arizona
Escultura contemporânea; Arte da América Latina

Prince Hans-Adam II von und zu Liechtenstein
Vaduz, Liechtenstein
Grandes Mestres

Janine e J. Tomilson Hill
Nova York
Grandes Mestres; Arte pós-guerra e contemporânea

Marguerite Hoffman
Dallas
Monocromáticos chneses, manuscritos medievais; arte pós-guerra americana e europeia

Maja Hoffmann
Zurich
Arte contemporânea

Frank Huang
Taipei
porcelana chinesa, pintura impressionista e moderna

Dakis Joannou
Atenas
Arte contemporânea

Edward “Ned” Johnson III
Boston
Pintura americana dos século 19 e 20; mobiliário e artes decorativas; arte e cerâmica asiáticas

Pamela J. Joyner e Alfred J. Giuffrida
San Francisco and Sonoma, California
Abstracionismo afro-americano; arte contemporânea sul-africana

Viatcheslav Kantor
Londres; Moscow
Arte contemporânea russa; arte russa e judaica do século 20

Nasser David Khalili
Londres
Documentos aramaicos (353–324 D.C.); arte islâmica; Esmaltes do mundo desde o século 18; arte Hajj (700-2000); Arte japonesa do período Meiji; Quimonos japoneses desde o século 18; arte espanhola em metal damasceno (1850-1900); Têxteis suecos (1700-1900)

Alison e Peter W. Klein
Eberdingen-Nussdorf, Germany
Arte aborígene; pintura e fotografia contemporânea

Jill e Peter Kraus
Dutchess County, Nova York; Nova York
Arte contemporânea

Marie-Josée e Henry R. Kravis
Nova York
Mobiliário francês; Arte moderna e contemporânea

Ananda Krishnan
France; Kuala Lumpur, Malaysia
Arte moderna

Grazyna Kulczyk
Poznan, Poland
Arte polaca e internacional pós-guerra e contemporânea

Pierre Lagrange
Londres
Arte pós-guerra e contemporânea

Guy Laliberté
Ibiza, Spain; Montreal
Arte contemporânea

Barbara e Jon Landau
Nova York
Pintura francesa e inglesa do século 19; Pintura e escultura renascentista e barroca

Steven Latner e Michael Latner
Toronto
Arte moderna e contemporânea

Joseph Lau
Hong Kong
Arte moderna e contemporânea, especialmente Warhol

Thomas Lau
Hong Kong
Arte moderna e contemporânea

Jo Carole e Ronald S. Lauder
Nova York; Palm Beach, Florida; Paris; Wainscott, Nova York; Washington, D.C.
Arte decorative do século 20; Antiguidades; armas e armaduras; expressionismo austríaco e alemão; Arte contemporânea; Arte Medieval; Mestres Modernos; Grandes Mestres; arte pós-guerra alemã e italiana

Leonard A. Lauder
Nova York
Cubismo

Liz e Eric Lefkofsky
Glencoe, Illinois
Arte contemporânea

Petra and Stephen Levin
Miami Beach
Arte Moderna e Contemporânea

Barbara e Aaron Levine
Washington, D.C.
Arte conceitual

Li Lin
Hangzhou, China
Arte contemporânea

Margaret Munzer Loeb e Daniel S. Loeb
Nova York
Arte feminista; Arte pós-guerra e contemporânea

Eugenio López Alonso
Los Angeles; Mexico City
Arte contemporânea

Jack Ma
Hangzhou, China
Arte moderna e contemporânea

Yusaku Maezawa
Japan
Arte contemporânea

Maramotti Family
Reggio Emilia, Italy
Arte informel; arte povera; Arte conceitual; Arte contemporânea; Neo-Expressionismo; New Geometry; transavanguardia

Maurice Marciano
Beverly Hills, California
Arte contemporânea

Martein Z. Margulies
Key Biscayne, Florida
Arte moderna e contemporânea

Cheech Marin
Los Angeles
Arte mexicana

Donald B. Marron
Nova York
Arte moderna e contemporânea

David Marteinez
Londres; Nova York
Arte moderna e contemporânea

Susan e Larry Marx
Aspen, Colorado; Marina del Rey, California
Arte pós-guerra e contemporânea, especialmente Expressionismo Abstrato e obras sobre papel

Dimitri Mavrommatis
Paris
Arte Moderna e pós-guerra

Raymond J. e Crystal McCrary McGuire
Nova York
Arte Africana e Afro-Americana

John S. Middleton
Philadelphia
Arte Americana dos séculos 19 e 20

Leonid Mikhelson
Moscow
Impressionismo; Arte moderna e contemporânea

Julie e Edward J. Minskoff
Nova York
Pós-guerra, Pop, Arte contemporânea americana e europeia

Victoria e Samuel I. Newhouse Jr.
Nova York
Arte moderna e contemporânea

Niarchos Family
St. Moritz, Switzerland
Grandes mestres; Impressionismo; Arte Moderna e Contemporânea

Genny e Selmo Nissenbaum
Rio de Janeiro
Arte Minimalista

Takeo Obayashi
Tokyo
Arte contemporânea

Daniel Och
Scarsdale, Nova York
Arte moderna e contemporânea

Maja Oeri
Basel, Suíça
Arte contemporânea

Thomas Olbricht
Berlin
Arte contemporânea; selos; objetos Wunderkammer

Michael Ovitz
Los Angeles
Arte African; Mobiliário Ming; Arte moderna e contemporânea

Bernardo Paz
Brumadinho, Brazil
Arte contemporânea

Andrea e José Olympio Pereira
São Paulo
Arte brasileira moderna e contemporânea

Marsha e Jeffrey Perelman
Palm Beach, Florida; Wynnewood, Pennsylvania
Arte pós-guerra e contemporânea

Ronald O. Perelman
Nova York
Arte moderna e contemporânea

Augusto Perfetti
Lugano, Switzerland
Arte contemporânea

Amy e John Phelan
Aspen, Colorado; Palm Beach, Florida
Arte contemporânea

François Pinault
Paris
Arte contemporânea

Ann e Ron Pizzuti
Columbus, Ohio; Nova York; Orlando, Florida
Design; Arte moderna e contemporânea

Sabine e Hasso Plattner
Heidelberg, Germany
Arte alemã; Impressionismo

Miuccia Prada e Patrizio Bertelli
Milan
Arte contemporânea

Lisa e John Pritzker
San Francisco
Arte moderna e contemporânea; fotografia

Penny Pritzker e Bryan Traubert
Chicago
Arte contemporânea

Sultan Sooud Al Qassemi
Sharjah, UAE
Arte árabe moderna e contemporânea

Qiao Zhibing
Shanghai
Arte contemporânea

Cindy e Howard Rachofsky
Dallas
Arte pós-guerra e contemporânea americana e europeia; arte pós-guerra japonesa e coreana

Emily e Mitchell Rales
Nova York; Potomac, Maryland
Arte moderna e contemporânea

Steven Rales
Washington, D.C.
Impressionismo; Arte moderna e contemporânea

Patrizia Sandretto Re Rebaudengo
Turin, Italy
Arte contemporânea

Bob Rennie
Vancouver, British Columbia
Arte contemporânea

Louise e Leonard Riggio
Bridgehampton, Nova York; Palm Beach, Florida
Arte moderna e contemporânea

Ellen e Michael Ringier
Zurique
Arte contemporânea; arte russa avant-garde

Linnea Conrad Roberts e George Roberts
Atherton, California
Arte contemporânea

Aby J. Rosen
Southampton, Nova York
Fotografia contemporânea; arte moderna e contemporânea

Hilary e Wilbur L. Ross Jr.
Palm Beach, Florida; Washington, D.C.
Arte moderna e contemporânea, especialmente surrealismo chinês e vietnamita

Rubell Family
Miami
Arte contemporânea

Betty e Isaac Rudman
República Dominicana
Arte da América Latina; numismática; arte Pre-Colombiana

Dmitry Rybolovlev
Moscow
Pintura dos séculos 19 e 20

Joseph Safra
Geneva; Nova York; São Paulo
Impressionismo; Grandes Mestres

Lily Safra
Geneva
Arte dos séculos 19 e 20

Elham e Tony Salamé
Beirut
Arte contemporânea

Nadia e Rajeeb Samdani
Dhaka, Bangladesh
Prata antiga; Design; arte Moderna e contemporânea internacional e do sudeste asiático

Marieke and Pieter Sanders
Haarlem, the Netherlands
Arte contemporânea americana e europeia; arte holandesa; escultura

Vicki e Roger Sant
New York; Washington, D.C.
Nova York: Arte contemporânea; Washington D.C.: arte do século com foco em Nabi

Louisa Stude Sarofim
Houston; Santa Fe, New Mexico
Arte Moderna e Contemporânea; obras sobre papel

Tatsumi Sato
Hiroshima, Japan
Arte contemporânea; arte primitiva

Sheri e Howard Schultz
Seattle
Arte contemporânea

Helen e Charles Schwab
Woodside, California
Arte Moderna e Contemporânea

Marianne e Alan Schwartz
Birmingham, Michigan
Grandes mestres; Gravuras dos séculos 19 e 20th da Europa e América

Uli Sigg
Mauensee, Switzerland
Arte contemporânea, especialmente chinesa

Peter Simon
Londres
Arte contemporânea

Elizabeth e Frederick Singer
Great Falls, Virginia
Arte Moderna e Contemporânea

Eric Smidt
Los Angeles
Nova York School; Arte contemporânea

Jerry I. e Katherine G. Farley Speyer
Nova York
Arte contemporânea

Susana e Ricardo Steinbruch
São Paulo
Arte Moderna e Contemporânea

Judy e Michael H. Steinhardt
Nova Yorkand Mount Kisco, Nova York
Antiguidades; Arte moderna, especialmente desenhos

Gayle e Paul Stoffel
Aspen, Colorado; Dallas
Arte contemporânea

Norah e Norman Stone
San Francisco and Napa Valley, California
Arte contemporânea

Julia Stoschek
Berlin e Düsseldorf, Alemanha
Arte contemporânea

Iris e Matthew Strauss
Rancho Santa Fe, California
Arte contemporânea

Sylvia and Ulrich Ströher
Darmstadt, Alemanha
Arte pós-guerra abstrata alemã; pintura contemporânea alemã

Brett e Daniel S. Sundheim
Nova York
Arte contemporânea

Lisa e Steve Tananbaum
Palm Beach, Florida; Westchester, Nova York
Pós-Guerra e Arte Contemporânea

Lauren e Benedikt Taschen
Berlin; Los Angeles
Arte contemporânea, especialmente Americana, Alemã e Britânica

Budi Tek
Jakarta, Indonesia; Shanghai
Arte contemporânea internacional, especialmente chinesa e ocidental

Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al Thani
Doha, Qatar
Arte Moderna e Contemporânea

Sheikh Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani
Doha, Qatar; Londres; Nova York
Pós-Guerra e Arte Contemporânea

David Thomson
Toronto
Grandes mestres, Arte Moderna e Contemporânea

Steve Tisch
Los Angeles; Nova York
Arte Moderna e Contemporânea

Anne e Wolfgang Titze
Arosa, Switzerland; Vienna
Minimalismo e arte conceitual

Jane e Robert Toll
Bucks County, Pennsylvania
Impressionismo francês; Arte Americanaa

Robbi e Bruce E. Toll
Palm Beach, Florida; Rydal, Pennsylvania
Escultura do século 20; arte Americanaa; pintura isabelina e jacobiana; impressionismo; pós-impressionismo

Rose-Marie e Eijk van Otterloo
Naples, Florida
Pintura flamenco e holandesa de grandes mestres

Walter Vanhaerents
Brussels
Arte contemporânea

Patricia Pearson-Vergez e Juan Vergez
Buenos Aires
Arte Moderna e Contemporânea internacional, especialmente argentina

Francesca von Habsburg
Vienna
Arte contemporânea

Alice Walton
Fort Worth, Texas
Arte Americanaa; Arte contemporânea

Wang Jianlin
Beijing
Arte Moderna e Contemporânea

Wang Wei e Liu Yiqian
Shanghai
Arte e porcelana chinesa; arte contemporânea internacional, incluindo chinesa, asiática, europeia e Americanaa

Wang Zhongjun
Beijing
Arte moderna

Jutta e Siegfried Weishaupt
Laupheim, Alemanha
Pós-Guerra e Arte Contemporânea, especialmente Expressionismo abstrato, Zero e Pop

Alain Wertheimer
Nova York
Arte Moderna e Contemporânea; Arte asiática

Abigail e Leslie H. Wexner
Columbus, Ohio
Arte moderna europeia; Arte moderna Americanaa

Reinhold Würth
Niedernhall, Alemanha; Salzburg, Austria
Arte medieval; arte pós-guerra e contemporânea; objetos Wunderkammer, especialmente esculturas em marfim, taças nautilus, canecas e caixas decorativas

Elaine Wynn
Las Vegas
Arte Moderna e Contemporânea

Stephen A. Wynn
Las Vegas
Arte Moderna e Contemporânea

Tadashi Yanai
Tokyo
Arte Moderna e Contemporânea

Yang Bin
Beijing
Arte moderna e contemporânea chinesa

Anita e Poju Zabludowicz
Londres
Arte contemporânea

Jochen Zeitz
Segera, Kenya
Arte contemporânea africana

Helen e Sam Zell
Chicago
Arte Moderna e Contemporânea, particularmente Surrealismo

Dasha Zhukova
Londres; Moscou; Nova York
Pós-Guerra e Arte Contemporânea

Protesto no Sul tem bombas e performances

Uma manifestação contra o encerramento antecipado da mostra “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, que ficaria em cartaz no Santander Cultural até outubro, terminou em confusão e bombas de efeito moral disparadas pela Brigada Militar ontem, em frente à instituição, em Porto Alegre. Artigo de Naira Hofmeister, especial para o jornal "O Globo", de Porto Alegre, com equipes do Rio e de Brasília. +

Uma manifestação contra o encerramento antecipado da mostra “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira”, que ficaria em cartaz no Santander Cultural até outubro, terminou em confusão e bombas de efeito moral disparadas pela Brigada Militar ontem, em frente à instituição, em Porto Alegre. O conflito ocorreu depois de troca de agressões entre o youtuber Arthur do Val, militante do Movimento Brasil Livre (MBL), e manifestantes. Mais cedo, houve momentos de tensão em função da presença de militantes “de direita, patriotas e pró-Bolsonaro”, segundo definição do próprio grupo. Por toda a tarde, manifestantes gritaram palavras de ordem a favor da liberdade de expressão, e artistas, alguns nus, fizeram performances na porta do centro cultural, que estava fechado.

Filho da artista Lygia Clark (1920-1988), que teve duas obras na mostra, Alvaro Clark foi a Porto Alegre especificamente para a manifestação. Ele lembrou ainda que o fato não tem precedentes no Brasil. “Nem durante a ditadura. Vi Antonio Manoel subir na marquise do MAM nu, e não houve prisões”, referindo-se a um ato de 1982. Curador da mostra, Gaudêncio Fidelis também esteve lá: “Desrespeitaram os artistas e não pensaram nas consequências para o futuro da arte no Brasil”. Fidelis contou que recebeu propostas de instituições e secretarias de cultura interessadas em levar a mostra para outras cidades, incluindo um aceno do secretário de Cultura de BH, Juca Ferreira, que disse ver a exposição “com simpatia”.

O Ministério da Cultura informou que solicitou à Rainmaker Projetos e Produções, proponente da “Queermuseu”, “uma prestação de contas parcial, para que seja avaliada a extensão dos impactos gerados pelo cancelamento da mostra”. O MinC argumentou que não cabe à pasta a avaliação do conteúdo dos beneficiários da Lei Rouanet, mas apenas análise técnica das propostas.

BATE-BOCA NA CÂMARA

A polêmica chegou à Câmara dos Deputados, quando o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) leu ontem no plenário a informação de que a Promotoria da Infância e da Juventude não havia encontrado “referência a pedofilia” na mostra. Parlamentares, alguns da bancada evangélica, hostilizaram Wyllys: “Bando de vagabundos! É um acinte à sociedade e ao cidadão”, gritava Major Olímpio (SD-SP). Uma das obras que viraram pivô para o cancelamento da exposição, a série “Criança viada”, de Bia Leite, aliás, já havia sido exposta na Câmara, no encerramento do XIII Seminário LGBT, em 2016.
#
Artigo de Naira Hofmeister, especial para o jornal "O Globo", de Porto Alegre, com equipes do Rio e de Brasília.


Artistas denunciam censura

O cancelamento da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural, em Porto Alegre, virou alvo de acalorados debates e acusações. Artigo de Nelson Gobbi publicado no jornal "O Globo" em 12/09/2017. +

O cancelamento da exposição “Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira” no Santander Cultural, em Porto Alegre, virou alvo de acalorados debates e acusações. Inaugurada no dia 14 de agosto, a mostra deveria ficar em cartaz até 8 de outubro, mas foi fechada depois que grupos pressionaram a instituição contra o que chamam de promoção de pedolofia, zoofilia e blasfêmia. Ao saberem da decisão, artistas, curadores, produtores de arte, mas também economistas, professores e profissionais de diversas áreas se manifestaram contra a posição do Santander. Ontem à tarde, a instituição anunciou que irá devolver à Receita Federal os R$ 800 mil captados pela Lei Rouanet para realizar a exposição. ONGs e entidades que se dedicam à promoção dos direitos LGBT marcaram para hoje, às 15h30m, em frente ao Santander Cultural, um ato em repúdio à decisão e em defesa da liberdade de expressão. Herdeiros da artista Lygia Clark (1920-1988), que tem duas obras na coletiva, prometeram participar. Além disso, circula na internet um manifesto, que até ontem à noite contava com cerca de 3.800 assinaturas reivindicando a reabertura da mostra.

Curador da exposição, Gaudêncio Fidelis disse que se sentia ameaçado por postagens nas redes sociais, dada a proporção que o debate tomou. Curador de duas edições da Bienal do Mercosul (em 2005, como adjunto, e em 2010, como curador-geral), Fidelis afirma que a decisão do instituto abre um precedente perigoso:

— Acredito que nunca tivemos no período democrático o caso de toda uma exposição ser cancelada por questionamentos morais do seu conteúdo. Em dois, três dias, os grupos articulados para depreciar a mostra, ligados ao MBL (Movimento Brasil Livre) conseguiram criar uma narrativa totalmente deturpada das obras apresentadas, que viralizou rapidamente. O fato de a instituição ceder aos apelos desses grupos em vez de se colocar ao lado dos artistas aumenta a gravidade desse episódio. A partir de agora, qualquer grupo poderá se sentir no direito de dizer o que a arte deve ser, e o que as pessoas devem ver, escutar.

No domingo, o banco divulgou nota oficial justificando o fechamento, e ontem, em mensagem aos clientes, lamentou que o conteúdo da exposição tenha sido considerado ofensivo “por algumas pessoas e grupos”. O MBL acusa “Queermuseum” de “desrespeitar símbolos, crenças e pessoas”. Em sua página no Facebook, o movimento alegou: “A mostra promove intolerância religiosa e tem uma postura intransigente. É o típico trabalho sujo feito para denegrir ainda mais os já marginalizados pela sociedade”.

As obras que provocaram mais indignação no grupo são “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva”, de Fernando Baril, “Travesti da lambada e deusa das águas”, de Bia Leite, que traz essa inscrição sobre a imagem de duas crianças, e “Cenas do interior II”, de 1994, de Adriana Varejão, que reúne pessoas e animais.

Adriana expressou, em nota, sua posição: “Esta é uma obra adulta feita para adultos. A pintura é uma compilação de práticas sexuais existentes, algumas históricas (como as chungas, clássicas imagens eróticas da arte popular japonesa) e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo Brasil. O trabalho não visa defender essas práticas. Não faço apologia a nada; como artista, apenas busco jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do meu trabalho, a reflexão adulta.”

Fernando Cocchiarale, curador do Museu de Arte Moderna do Rio, disse ser lamentável que grupos possam ditar o conteúdo exibido numa instituição:

— O fato de obras de qualquer natureza estarem expostas não quer dizer que as pessoas sejam obrigadas a vê-las, ninguém precisa se defrontar com elas se não quiser. O debate está dentro dos objetivos da arte, desde que feito dentro dos limites da sociedade de direito. Afrontar a liberdade de expressão e criação é um retrocesso que não imaginávamos ver em uma sociedade desenvolvida.

Curadora da exposição da fotógrafa americana Nan Goldin no Museu de Arte Moderna em 2012 — após o Oi Futuro, onde a mostra seria realizada inicialmente, tê-la cancelado alegando que algumas imagens, ao envolver crianças, feriam o Estatuto da Criança e do Adolescente — Ligia Canongia também lamentou o episódio:

— A arte é um dos raros territórios em que o cidadão pode, ou deveria poder, se manifestar sem medo de opressões. Atos de censura não só demonstram um Brasil arcaico e preconceituoso, como alimentam o desrespeito e a ignorância.

“CENSURA EM ESTADO”, DIZ PAULO SÉRGIO DUARTE

Um dos mais engajados artistas dos anos 1960 e 70, com obras censuradas pela ditadura, Antonio Manuel diz que não esperava se deparar novamente com “tamanho retrocesso”:

— É como no caso de “Repressão outra vez”, uma obra minha de 1968. Estamos testemunhando a volta dos julgamentos morais sobre a arte, que é maior do que toda essa mesquinharia.

O crítico e historiador de arte Paulo Sérgio Duarte classificou o episódio como “uma das mais graves ocorrências culturais negativas desde a redemocratização do país”:

— Trata-se de censura em estado puro acompanhada de ações políticas diretas que poderão imperar caso se multipliquem ações semelhantes e não houver ampla mobilização de todos os democratas contra esse fechamento da exposição.
#
Artigo de Nelson Gobbi publicado no jornal "O Globo" em 12/09/2017.


Curador de mostra cancelada diz que Santander infringiu regras básicas

Gaudêncio Fidelis, curador da exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", mostrou decepção com a posição do Santander Cultural, que neste domingo (10) validou protestos contra obras de teor supostamente sexual e cancelou mostra em sede de Porto Alegre. Artigo de Gustavo Fioratti, Isabella Menon e Fernanda Canofre publicado no jornal "Folha de S. Paulo" em 12/09/2017. +

Gaudêncio Fidelis, curador da exposição "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", mostrou decepção com a posição do Santander Cultural, que neste domingo (10) validou protestos contra obras de teor supostamente sexual e cancelou mostra em sede de Porto Alegre.
"O Santander infringiu as regras mais básicas de direito, de respeito e de consideração aos artistas presentes, sem inclusive consultar a curadoria e sem considerar que estávamos realizando um trabalho de construção de conhecimento", reclama.
"Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, encerramos antecipadamente a mostra", informou o banco em comunicado.
A controvérsia começou na quarta (6), 26 dias após a inauguração da mostra, quando vídeos mostrando obras de Adriana Varejão e de Bia Leite viralizaram na internet.
A primeira retrata situações sexuais em contexto histórico passado, e a segunda é uma pintura que apresenta duas crianças, sobre cujas imagens foram inseridas as frases "criança viada deusa das águas" e "criança viada travesti da lambada".
"Incita a pornografia e a pedofilia", diz visitante em um dos vídeos compartilhados pelo grupo ativista MBL (Movimento Brasil Livre).
Manifestantes também afirmaram que a exposição continha caráter zoófilo, devido à obra "Cena de Interior 2" (2013) de Varejão, na qual é retratada, em um detalhe, a relação sexual de duas pessoas com um animal.
A artista afirma que a pintura é uma compilação de práticas existentes, algumas históricas e outras baseadas em narrativas literárias ou coletadas em viagens pelo país.
"O trabalho não visa julgar." Ela afirma que seu objetivo é "jogar luz sobre coisas que muitas vezes existem escondidas. É um aspecto do trabalho, a reflexão adulta".
O que incomodou o MBL, segundo Kim Kataguiri, foi o fato de a exposição "ser direcionada para alunos de escolas públicas e privadas", o que a curadoria da exposição nega. O ativista diz que o MBL não protestaria se a mostra fosse voltada para adultos.
Segundo Kataguiri, ele se informou sobre o perfil alvo da mostra no projeto que o Santander inscreveu na Lei Rouanet. Não há, no formulário, indicação de que a mostra seja dirigida a crianças.
O que há é um campo específico intitulado "democratização", que fala sobre o projeto educativo da mostra.
No texto, está escrito que o programa pretende "aproximar o público escolar das diversas linguagens da arte".
Se o conteúdo específico indicado pelos grupos que se incomodaram com a obra de Varejão fosse veiculado em obra audiovisual, seria necessário, pela legislação, que o produto cultural apontasse uma classificação indicativa.
Porém, segundo o Ministério da Justiça, não há lei que demande essa mesma prática em exposições.

INCENTIVO FISCAL
Em comunicado divulgado na segunda (11), o banco Santander pediu "sinceras desculpas a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição 'Queermuseu'".
A assessoria do banco informou que vai abrir mão do benefício fiscal – a mostra foi realizada com R$ 800 mil captados via Lei Rouanet.
Com três obras expostas, o designer gráfico Sandro Ka afirma que o fechamento "foi uma surpresa desagradável".
Ka diz que o Santander bancou uma ideia muito importante, "que é falar de diversidade, dar visibilidade a questões importantes do cotidiano", por isso acredita que o banco deveria rever sua posição.
Celio Godin, fundador e presidente do Nuances, grupo que luta pela livre expressão sexual, diz que ataques à população LGBT são uma espécie de bode expiatório para que grupos de extrema direita e conservadores possam veicular suas ideias.
Entre esses incômodos, segundo ele, está o fato de o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr. (PSDB), ter se manifestado em rede social a favor da retirada da mostra. Depois, ele apagou a postagem.
#
Artigo de Gustavo Fioratti, Isabella Menon e Fernanda Canofre publicado no jornal "Folha de S. Paulo" em 12/09/2017.

Após protestos, Santander Cultural encerra exposição queer um mês antes

Em protesto contra o encerramento da mostra, o Nuances - Grupo Pela Livre Expressão Sexual organiza nesta terça-feira (12) à tarde, em frente ao Santander Cultural, o Ato pela Liberdade de Expressão Artística e Contra a LGBTTFobia, "em defesa da liberdade de expressão artística e das liberdades democráticas". Artigo publicado no "Jornal do Comércio" em 10/09/2017. +

Poucos dias antes de completar um mês em cartaz no Santander Cultural (Sete de Setembro, 1.028), no Centro de Porto Alegre, a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na América Latina teve de ser fechada e encerrada neste domingo (10), após protestos - segundo informações preliminares que vêm circulando nas redes sociais - em que pessoas contrárias ao teor das obras teriam causado tumulto em frente ao museu, ainda neste sábado, em manifestação contra a exposição.
O Jornal do Comércio buscou informações junto ao Santander Cultural, mas só obteve informações da segurança, presente na portaria do local, de que de fato a exposição, que funcionaria das 14h às 19h neste domingo, está fechada em razão de "imprevistos" ocorridos ontem. No início da tarde, o Santander Cultural emitiu uma nota em que afirmou estar recebendo diversas manifestações críticas a respeito da exposição e confirmou o encerramento da mostra neste domingo.
"O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia", diz o texto. "Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana", afirma a nota da instituição.
Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a Queermuseu é formada por mais de 270 obras (oriundas de coleções públicas e privadas) que percorrem o período histórico de meados do século XX até os dias de hoje. A iniciativa explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura. A exposição foi aberta na metade de agosto, com entrada franca, e seguiria até 8 de outubro. A mostra foi viabilizada pela captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet.
Em protesto contra o encerramento da mostra, o Nuances - Grupo Pela Livre Expressão Sexual organiza nesta terça-feira (12) à tarde, em frente ao Santander Cultural, o Ato pela Liberdade de Expressão Artística e Contra a LGBTTFobia, "em defesa da liberdade de expressão artística e das liberdades democráticas".
#
Artigo publicado no "Jornal do Comércio" em 10/09/2017.

Exposição sobre diversidade sexual é encerrada após ataques em Porto Alegre

A mostra “Queermuseu”, que iria até 08 de outubro no Santander Cultural, encerra antes do previsto após ataques e críticas de pessoas insatisfeitas com o conteúdo da exposição na página do facebook do museu. Matéria originalmente publicada no portal do G1- RS em 10/09/17. +

O museu do Santander Cultural, em Porto Alegre, foi fechado e a exposição em cartaz, denominada “Queermuseu”, foi cancelada, neste domingo (10), após ataques registrados nas redes sociais e no interior da exposição nos últimos dias.

Em comunicado no Facebook, a instituição afirmou que "o objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia". A exposição entrou em cartaz no dia 15 de agosto e ficaria até o dia 8 de outubro.

Algumas imagens foram consideradas ofensivas por quem contestou a exposição, que classificaram o conteúdo como um "incentivo à pedofilia, zoofilia e contra os bons costumes". A exposição reunia mais de mais de 270 obras, de 90 artistas plásticos.

As mensagens, de tom exaltado, incentivam a protestos contra o banco. A exposição Queermuseu, de acordo com a própria instituição, é uma iniciativa inédita que explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura em períodos diversos.
A assessoria de imprensa do Santander Cultural informou que alguns visitantes chegaram a tentar filmar as obras, o que é proibido.

O G1 tentou contato com o curador da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, mas ele preferiu não se manifestar, pois entende que a posição do banco esclarece o cancelamento suficientemente.
Somente a entrada do museu ficou fechada neste domingo. O café, o cinema e a loja no interior do Santander Cultural receberam o público normalmente. O museu deve voltar a ser aberto, em novembro, com uma nova exposição.

Para coordenador de ONG, decisão é "uma vergonha"
"Quando sofreram na pele o que a população LGBT sofre todo dia, fizeram a opção de não bancar e cancelar a exposição". Esta é a opinião de Gabriel Galli, jornalista e coordenador da ONG Somos, que defende os direitos igualitários para a população LGBT. "O Somos fica com vergonha dessa situação."

E as críticas levantadas sobre as obras da Queermuseu são infundadas, na visão de Gabriel. "Com todo o respeito, [as críticas] vêm de pessoas que não fizeram um esforço mínimo pra compreender o que a obra queria dizer". Sobre uma suposta ofensa ao cristianismo, Gabriel fala que as obras da exposição questionam o papel da religião na sociedade, o que não deve ser considerado como um ataque.

E sobre acusações de incentivo à pedofilia, Gabriel explica o que seria um mal-entendido. "Uma das obras fala em "criança viada". Isso é uma piada, que surgiu de um jornalista que fez brincadeiras com suas fotos de criança. Encarar isso como pedofiliar é muito absurdo", esclarece. Na visão dele, a conexão entre gays e transexuais com casos de pedofilia já vem de anos, mas é absurda. "Isso é uma crítica muito baixa".
"Não há obras que tenham aspectos que possam chocar", opina Gabriel, sobre o Queermuseu. "E mesmo que houvesse, arte é pra isso".
A ONG Somos, juntamente com outras organizações de defesa da diversidade sexual, irá promover um ato de protesto, em frente ao Santander Cultural na terça-fera (12). Além disso, eles preparam uma nota de repúdio ao cancelamento da exposição.

Leia a íntegra da nota publicada no Facebook do Santander Cultural

“Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu - Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.

Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09. Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.”
|
Matéria publicada originalmente no site do portel G1 RS (www.g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul), em 10/09/17, às 19h.

Mantido em segredo há duas décadas, diário íntimo de Leonilson vem à tona

"Frescoe Ulisses" -o nome foi escolha do artista- é um mergulho bem mais profundo em sua vida, dos momentos de glória, de viagens constantes a Nova York, Londres, Amsterdã e Paris, até a descoberta da doença que o mataria em pouco tempo. Artigo de Silas Martí publicado no caderno "Ilustrada" do jornal "Folha de S. Paulo" em 12/08/2017. +


SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO




Leonilson não escreveu, mas deixou uma série de gravações como essa transcritas numa autobiografia mantida em segredo há quase duas décadas. O volume, numa rara fotocópia guardada por uma amiga do artista, ronda como fantasma o recém-lançado catálogo que lista a obra completa deste que foi um dos maiores nomes da arte do país no fim do século passado.

Enquanto um livro elenca todos os dados de sua obra plástica, sua vida íntima continua escondida à sua revelia.
Numa das fitas cassete que deixou, ele contava que daria de presente as gravações a um amigo, para que transformasse suas confissões desarranjadas numa espécie de autobiografia autorizada.
Seis anos depois da morte de Leonilson, vitimado pela Aids, aos 36, em 1993, "Frescoe Ulisses" estava pronto, mas não foi publicado por um veto de seus herdeiros.
Na época, o ato causou um racha entre os amigos do artista e sua família, que não queria expor a homossexualidade de Leonilson -o pivô da controvérsia eram trechos em que ele narrava um encontro com um soldado israelense no banheiro de um avião.
"Fiquei olhando pra ele e perguntei se ele achava estranho aquilo. Ele falou que não", contou o artista. "Eu passei a mão na barriga dele e ele já tava excitado. Ele é bem magro e pálido, mas tem um pau grande e bonito. Teve uma hora que ele caiu pra um canto da parede e ficou encostado e era uma imagem linda porque ele tinha aquele rosto lindo, aquele cabelo escorrido, os olhos profundos e aquele pau. Ele gozou rápido na
pia e eu nem tinha gozado."
O episódio de poucos minutos se desdobra à exaustão em comentários do artista, que fantasia sobre o tal garoto página atrás de página, dando versões e desfechos distintos a um romance impossível.
Mais do que uma aventura erótica, essas suas lembranças distorcidas revelam muito sobre a solidão que tanto atormentou Leonilson em vida e que transparece em sua obra. Nesse sentido, são os alicerces secretos do mundo quebrado, atravessado de paixões não correspondidas que arquitetou em milhares de pinturas, desenhos e bordados.
"Tá faltando alguém. A verdade é que eu ando pela casa e tá faltando um colchão de casal aqui", narra o artista. "Tá faltando alguém pra me dar uns beijinhos quando eu acordo. Tá faltando alguém pra me abraçar por trás, me beijar o pescoço e esfregar a língua na minha orelha, lamber o bico do meu peito e me jogar na cama."
Uma parte bem menos direta e franca dessas gravações já embasou -com o aval da família- dois documentários -um curta de Karen Harley lançado há duas décadas e "A Paixão de JL", que Carlos Nader estreou há dois anos.
Mas "Frescoe Ulisses" -o nome foi escolha do artista- é um mergulho bem mais profundo em sua vida, dos momentos de glória, de viagens constantes a Nova York, Londres, Amsterdã e Paris, até a descoberta da doença que o mataria em pouco tempo.
Editado por seu amigo Ricardo Ferreira Henrique, estudioso de literatura já morto e que havia se radicado em Berlim, o livro teve uma série de versões, algumas delas lidas pela irmã do artista, Ana Lenice Dias, a Nicinha, que não concordava com a edição.
Entre as exigências, reveladas pela correspondência entre Henrique e a artista Leda Catunda, que intermediou o contato com a família, estava cortar detalhes de seus encontros sexuais e
trocar os nomes de seus amantes, parentes e amigos.
Todos eles, a não ser seus galeristas, aparecem na versão final como personagens da "Odisseia", de Homero. Mas não foram alterados nem apagados os -poucos, mas intensos- relatos sobre sexo.
No rastro da publicação de seu catálogo completo, que lista suas 3.400 obras, a pressão vem aumentando para que saia também seu diário íntimo, algo que a família agora se inclina a autorizar.
"Uma hora vai ser publicado, é questão de tempo", diz o galerista Eduardo Brandão, que foi um dos melhores amigos do artista. "É uma farsa isso não estar no catálogo quando tanta gente estuda Leonilson. Esse livro é maior do que ele, fala de uma geração inteira, da dor de uma geração."
O momento da descoberta da Aids, aliás, coincide com um hiato nas gravações. Leonilson volta a falar só um mês depois do exame. Enquanto avança a doença, suas últimas páginas ficam mais secas, clínicas, uma contagem exasperante das células de defesa. Sua última frase foi "parece que levei uma surra".

*

Leia a seguir trechos de "Frescoe Ulisses", a autobiografia de Leonilson.

Às vezes eu acho que fico mudando de lugar mudando de lugar mudando de lugar para manter o frescor, pra manter a surpresa de querer que cada manhã seja diferente. Cada vez que eu acho que já sei um pouquinho daquele lugar eu já quero ir embora.

Eu também tenho que apertar um pouco o meu cinto, tenho que controlar mais minhas loucurinhas. Eu acho que eu não tenho que controlar nada, eu vou viver.

Eu acho que vou amá-lo pro resto da minha vida. Ele é bárbaro, ele é uma estrela no meu caminho. Ele é um puta cara. Quando a gente transava era meio complicado. Eu não tinha muito tesão por ele. Às vezes eu tenho tesão por ele. Outro dia a gente tava falando no telefone. Quase que eu me masturbei, eu fiquei pegando no meu pau. Eu fiquei excitado e fiquei até com vontade de me masturbar. A gente ficou falando besteira. Mas eu acho que eu gosto de transar com outro tipo de cara. O Calipso é pro coração e pra cabeça, mesmo eu acho que ainda não encontrei um cara que fosse pra tudo. Às vezes você encontra um cara pro pau e não encontra um cara pro coração.

Contei pra ele que tinha conhecido uma mulher que tinha me deixado fascinado, e ele falou que achava que eu devia arranjar uma namorada, que não importa se eu transo com rapazes, que eu devia arranjar uma namorada pra cuidar de mim quando eu chegasse em casa, ter alguém pra me fazer carinho à noite, pra às vezes eu acordar à noite e a gente transar, brincar. Eu não jogo fora a ideia, mas não sei.

Aqui cada minuto é completamente meu, eu não tenho pra onde correr, eu tenho que enfrentar a selva, eu tenho que encontrar os galos, os leões e as águias, eu tenho que encontrar a fera que me ataca e o cara que mata essa fera que tá me atacando, eu tenho que me confrontar todo minuto e isso me deixa super-entusiasmado. Eu tô precisando me perder e me achar. Eu tô precisando ficar longe. Eu tô precisando ficar distante e pensar o que é que tá acontecendo comigo.

Eu nunca entrei no banheiro de um avião com um cara, mas eu adorei. E eu tô completamente apaixonado por ele e eu sei que isso é só o começo. Acho que ele é o rapaz mais bonito que eu já vi. Ele é pálido, tem o cabelo sem cor. Eu entrei antes no banheiro, dei um tempinho. Não demorou muito, e ele entrou. Fiquei olhando pra ele e perguntei se ele achava estranho aquilo. Ele falou que não, normal. Eu perguntei o que você quer que eu faça. Ele falou o que você quiser. Eu comecei a desabotoar o casaco dele e passei a mão na barriga dele. Comecei a desabotoar a calça dele e ele já tava excitado. Ele é bem magro e pálido, mas ele tem um pau grande e bonito. Eu peguei e comecei a masturbá-lo. Ele perguntou se eu não ia me masturbar também. Eu perguntei pra ele se ele queria tocar em mim. Ele falou não, mas "eu quero ver você se masturbar também". Teve uma hora que ele caiu prum canto da parede e ficou encostado e era uma imagem linda porque ele tinha aquele rosto lindo, aquele cabelo escorrido, os olhos profundo, o nariz, a boca, a camiseta amarela, o pescoço e aquele pau. De repente, ele gozou. Ele gozou rápido na pia e eu nem tinha gozado nem nada.

De qualquer forma é deliciosa essa sensação de ficar voando por cima do Atlântico. Há um mês atrás eu tava voando de São Paulo pra Nova York, pra Paris. E agora eu voei de Paris pra Londres, pra Nova York. Isso foi um momento "Breakfast at Tiffany's" nessa tarde. Eu fico pensando nessa cidade onde as pessoas compram, compram, compram, compram coisas que elas não precisam. Essa cidade é ficção científica para mim. Mas o que eu queria dizer é que a coisa mais bonita que eu posso imaginar agora são os olhos do Circe, os olhos profundos e aquela boca e o pau dele, mas os olhos, os olhos profundos e dum verde ou dum azul. Circe, eu queria tanto você aqui juntinho de mim, beijando você, pegando no seu pau aqui juntinho nessa cama estreita. É a coisa que eu mais queria era ter você aqui pertinho de mim namorando, namorando, namorando sem ligar pro mundo.

A verdade é que eu ando pela casa e tá faltando um colchão de casal aqui. Tá faltando, tá faltando alguém. Por mais que eu tente disfarçar, tá faltando alguém aqui. Tá faltando alguém pra me dar uns beijinhos quando eu acordo, pra dizer que eu não preciso me preocupar, pra dizer que tudo é filho da puta, mas que a gente tá junto. Tá faltando alguém pra subir e descer a escada junto comigo. Tá faltando alguém pra dar um risinho malicioso. Tá faltando alguém pra eu apoiar o meu queixo no ombro. Tá faltando alguém pra me abraçar por trás, me beijar o pescoço e esfregar a língua na minha orelha, lamber a minha orelha e lamber o meu pescoço, lamber o bico do meu peito e me jogar na cama, fazer tudo comigo.

Muitas vezes eu gostaria de saber escrever. Juntar as frases pra formar um livro. Eu pensei várias vezes em escrever um livro. Quando eu comprei esse gravador, eu queria gravar vários pensamentos pra chegar num livro. E eu acabo gravando todas as besteiras que eu penso durante o dia, e tem dias que eu não gravo. Eu queria saber juntar palavras e fazer frases. As frases que eu escrevo são sempre frases apaixonadas, eu queria escrever frases apaixonadas dissimuladas num texto de verdade.

Hoje eu fiquei pensando nessa coisa de mercado. O Hipócrates 1º às vezes me diz que eu preciso fazer uma carreira de acordo com tudo que tá estabelecido. A gente precisa fazer dinheiro. É óbvio que eu preciso fazer dinheiro pra fazer minhas viagens, pra comprar material. Eu agora tava pensando, eu vi o anúncio da exposição do Vik Muniz na "Flash Art". Eu quero fazer os meus desenhos e ficar em paz. Seria superfácil fazer umas pinturas fáceis, umas pinturas bonitas e vender e trabalhar com um cara em Paris, um cara em Nova York. Na hora que eu vi o anúncio do Vik Muniz, eu falei "puta, que inveja". Mas dentro de mim, eu não tenho inveja nenhuma de nada disso. É difícil vender os meus trabalhos, às vezes me sacaneiam porque não vende direito, mas foda-se. Eu trabalho na direção oposta de todo mundo. Eu trabalho pra dentro de mim, as pessoas trabalham pra fora, as pessoas trabalham numa coisa onde sentimento é a parte menos importante, menos interessante de tudo. Nós somos muito naïves, nós somos muito terceiro-mundistas. É impressionante como esse caráter de poder do país influi.

Entrei na sauna a vapor, ele tava lá sentado, pelado, gostoso, com um pauzão. Ficou aquele flerte. Eu sentei perto dele, fiquei olhando pra ele, ele ficou olhando pra mim. Ele ficou pegando no pau dele. Eu olhei, ele tava com o pau duro. Ele veio em minha direção com aquele pau. Eu dei uma chupada nele. Ele falou pra eu levantar, que ele queria pegar no meu pau. Eu levantei, ele pegou no meu pau. Na hora que ele pegou no meu pau, ele começou a gozar. Eu gozei também. Eu tinha a maior fantasia com ele. Achava que nunca ia acontecer. Ficava imaginando ele pelado. Ele apareceu pelado na minha frente com o pau duro, um puta pau gostoso.
#
Artigo de Silas Martí publicado no caderno "Ilustrada" do jornal "Folha de S. Paulo" em 12/08/2017.

Como escolher a melhor residência artística na Europa?

Artistas de todo o mundo buscam residências no continente europeu para reforçar seus networks e currículos, mas a qualidade das experiências e as condições oferecidas variam, tornando difícil discriminar onde estão as verdadeiras joias. +

Para artistas que buscam reforçar seus currículos e networks, as residências podem ser a configuração perfeita, proporcionando espaços para criação, estimulando contextos e contatos com colegas, curadores e compradores, além de fortalecer suas redes e promover suas carreiras.
Mas, à medida que as residências artísticas proliferam, a qualidade das experiências e as condições oferecidas variam, tornando difícil discriminar onde estão as verdadeiras joias.
Em busca das melhores oportunidades que podem ser encontradas no continente europeu, a equipe europeia do portal "Artnet" conseguiu a opinião de especialistas experientes, entre eles, a artista vencedora do Prêmio Turner Laure Prouvost, a curadora do KW de Berlim Anna Gritz, o diretor e curador chefe do DRAF London Vincent Honoré, a artista Salomé Lamas, o curador independente João Laia e o curador do Institute of Things to Come Valerio del Baglivo.

Confira a lista
|

Villa Lena, Toscana, Itália.
A residência da Fundação Villa Lena ocorre entre abril e outubro de cada ano, no coração da Toscana. O programa oferece estadias de um ou dois meses com acomodação em sua vila do século XIX e espaços de estúdio de até 120 metros quadrados. Os residentes não recebem salário, mas a localização deslumbrante e a companhia de artistas (Sam Falls e Nina Beier estão entre os residentes deste ano) são o que torna Villa Lena tão desejável.

Akademie Schloss Solitude, Stuttgart, Alemanha.
Oferecendo residências que variam de 3 a 12 meses, o Schloss Solitude é um show de sonhos, situado num palácio de estilo rococó no nos arredores de Stuttgart que foi construído em 1764-69 como um refúgio de caça para Duke Charles Eugene. Bolsas de estudo para residentes incluem um ateliê, salário mensal de € 1.150 e despesas de viagem. A Akademie também oferece uma série de outras vantagens, incluindo o transporte de materiais para e de Stuttgart; seguro médico para estrangeiros e subsídios para comprar materiais e promover projetos.

Fundação Camargo, Cassis, França.
O Programa Principal da Fundação Camargo oferece aos seus residentes US$ 250 por semana (210 €) e os abriga em um local deslumbrante no sul da França, com vista para o Porto de Cassis. Funcionando como residências de oito semanas no outono, com estadias mais longas disponíveis na primavera (seis, oito ou onze semanas), alimentos e viagens são cobertos e crianças ou parceiros podem acompanhar o artista, pensador ou estudioso escolhido entre os 18 bolsistas anuais.

Tabakalera, San Sebastian, Espanha.
A instituição espanhola, localizada na bela cidade costeira de San Sebastian, no País Basco, oferece inúmeras residências interessantes para artistas e curadores. As residências atraem projetos de pesquisa artística daqueles que buscam alocar tempo, espaço e fundos para desenvolver e formalizar ideias. Com duração de um a três meses, a residência inclui um salário mensal de € 1 mil, seguro médico para estrangeiros, despesas de viagem, alojamento e espaço de estúdio, uma doação de pesquisa de € 4 mil e um orçamento de produção de até € 25 mil.

Künstlerhaus Schloss Balmoral, Bad Ems, Alemanha.
Os moradores de Balmoral Schloss moram em uma vila renascentista italiana de três andares, situada na histórica cidade termal de Bad Ems. São oferecidas duas bolsas residenciais de três meses a nove meses para artistas visuais internacionais, bem como uma bolsa de nove meses para um curador de língua alemã e inglesa. Os sortudos recebem alojamento e um salário mensal de € 1.400. O que é único nesta residência é que as bolsas são oferecidas em apenas um gênero ou tema artístico a cada ano.

Rolex Mentor e Protégé, Suíça.
Este programa de prestígio na Suíça é apenas para indenizações, e os jovens artistas talentosos devem aprovar sete painéis diferentes antes de serem acompanhados por artistas de destaque (Joan Jonas está entre os mentores deste ano) para um relacionamento de acompanhamento individual de um ano . Cada selecionado recebe CHF 25.000 (€ 22.000), bem como despesas de viagem e maiores. Um adicional de CHF 25.000 (€ 22.000) também está disponível para criar um novo trabalho após o fim do ano.

Fundação Rockefeller Bellagio Center, Lago de Como, Itália.
A residência Bellagio Arts & Literary Arts é para compositores, escritores, dramaturgos, poetas, video / cineastas, dançarinos, músicos e artistas visuais estabelecidos. Eles agora realizam um convite aberto anual para propostas (o próximo abre em outubro) que se alinham com os focos filantrópicos da Fundação Rockefeller. Até 120 residentes estão alojados em uma propriedade de 50 acres nas margens do Lago Como, para estadias até um mês.

Pavillon Neuflize OBC, Paris, França.
Esta residência, criada por Ange Leccia, abriga jovens artistas internacionais patrocinados por um curador do Palais de Tóquio por um período de oito meses de novembro a junho. Com foco na cena emergente da arte contemporânea, a residência de prestígio oferece uma subvenção mensal de € 1.000, um estúdio na Cité Internationale des Arts em Paris, acesso a espaços de trabalho do Palais de Tokyo e pagamento de todas as despesas relacionadas ao programa, incluindo pesquisa, viagens e custos de produção.

Programa DAAD Artists-in-Berlin, Berlim, Alemanha.
Um dos programas internacionais mais conhecidos do mundo, o DAAD oferece 20 residências em artes visuais, literatura, música e cinema. Um jurado nomeia artistas visuais para convite, e artistas em outros campos podem se candidatar. Com estadias de duração de cerca de um ano (seis meses para cineastas), as despesas de viagem e os cuidados de saúde são cobertos, e as parcelas de concessão mensais são oferecidas para despesas de vida e aluguel. Além disso, os artistas recebem um curso gratuito em alemão.

Iaspis, Estocolmo, Suécia.
O Programa Internacional de Estúdio de Artistas em Estocolmo é um programa de intercâmbio financiado pelo Governo sueco. Os residentes podem trabalhar em um dos 12 estúdios na Suécia, ou, para os artistas do país, vários estúdios no exterior. Os estúdios são anunciados uma vez por ano e as residências funcionam por seis meses (abril a setembro e outubro a março). Os candidatos podem candidatar-se a doações de trabalho de um a cinco anos que variam de 100.000-133.000 SEK (€ 10.500-14.000).

O melhor para artistas emergentes

Estes são provavelmente os que têm as condições econômicas menos atraentes (na melhor das hipóteses, as despesas e a acomodação estão cobertas), mas ninguém disse que ser um artista emergente legal era fácil ou lucrativo.

Bethanien, Berlim, Alemanha.
Esta residência de Berlim é um verdadeiro rito de passagem para artistas emergentes. Muitos, de fato, continuam na cidade após o ano em Bethanien. Os custos são cobertos por bolsas internacionais, que incluem uma subvenção mensal para os custos de vida durante a duração da estadia dos artistas (a quantidade específica depende do financiador e do tempo de permanência). A subvenção também abrange o aluguel de estúdio, um montante fixo para materiais e a apresentação de um projeto final nas galerias Künstlerhaus Bethanien.

Gasworks, Londres, Inglaterra.
A instituição do sul de Londres organiza até 16 residências a cada ano, convidando artistas internacionais emergentes a viver e trabalhar em Londres por três meses. Os residentes são selecionados através de chamadas abertas e recebem acesso 24 horas a um estúdio na Gasworks; um quarto individual dentro da Gasworks Residences House; despesas básicas de vida e transporte em Londres; e despesas de viagem.

Rupert, Vilnius, Lituânia.
Este centro de arte ultramoderno da Lituânia tornou-se um local de peregrinação para artistas, curadores e escritores desde o lançamento em 2013, apesar de suas residências não serem particularmente bem dotadas. As residências realmente custam dinheiro: 450 € por mês para aluguel de estúdio, utilitários, suporte administrativo e duas visitas ao estúdio. (Uma advertência a esta ressalva: metade das residências são de graça, graças ao apoio do Conselho Lituano para a Cultura e outras subvenções).

Cripta747, Turim, Itália.
Turim está se tornando um centro para artistas emergentes na Itália, e essa residência, que dura seis a oito semanas, é a introdução perfeita à vida no berço de Arte Povera. Os residentes recebem uma bolsa de € 5.500 para toda a estadia, que abrange um subsídio diário, acomodação, aluguel de estúdio na Cripta747 e custos de produção.

Triângulo Marselha, Marselha, França.
A cena da arte na cidade portuária no sul da França é decididamente próspera: uma comunidade artística crescente, sol, praias e sua própria feira de arte boutique, Art-O-Rama, são apenas algumas das vantagens para os jovens artistas que procuram por um período lá. As residências de três meses oferecem aos artistas uma sala em um apartamento no centro da cidade, um estúdio, uma concessão de produção de €1.000, suporte técnico, assistência na busca de materiais, técnicas, parcerias e visitas de estúdio para profissionais.

Wiels Residency, Bruxelas, Bélgica.
Bruxelas está se tornando um dos melhores destinos de artistas na Europa e é fácil ver por que: a cidade possui rendas baratas, uma comunidade de artistas conviventes e uma animada cena de arte composta de instituições interessantes, galerias, organizações sem fins lucrativos e feiras de arte. WIELS é uma das instituições mais interessantes da cidade, e sua residência de um ano está provando ser um viveiro de arte emergente. A WIELS oferece aos seus residentes um espaço de trabalho individual (de 45 metros quadrados) e um contexto destinado a promover o intercâmbio com a vida artística e cultural de Bruxelas.

O Santo Graal dos Jovens Artistas: Holanda
Poucos países combinam com a Holanda quando se trata de financiar as artes visuais. Na verdade, alguns dos mais generosos e mais prestigiados programas de residência são baseados lá, tornando-os dignos de sua própria seção dedicada por si só.

Rijksakademie, Amsterdã.
A Rijksakademie oferece residências para cerca de 50 artistas, com uma duração de um ano, com a possibilidade de uma extensão de ano. Os residentes se beneficiam de um estúdio, um orçamento de trabalho de € 1.500 e um salário de € 12.200, além de infra-estrutura para pesquisa e produção.

De Ateliers, Amsterdã.
A De Ateliers oferece períodos de trabalho de dois anos, com um salário anual de €13.655 e um estúdio privado. A taxa de tutorial para 2017-2018 é de € 3.200, que é deduzido do salário.

Jan Van Eyck Academie, Maastricht.
Este instituto pós-acadêmico oferece 35 a 40 residências por ano, com duração entre seis e doze meses. Os residentes recebem um salário mensal de € 900, a partir do qual os custos de aluguel e de vida são deduzidos (os quartos custam cerca de € 350-500 por mês). A taxa de inscrição no Van Eyck é de € 2.750 anualmente. Cada participante obtém um estúdio, um orçamento de produção individual de 2.000 € por ano e conselhos de artistas experientes, designers, curadores e críticos de arte, que fazem visitas regulares ao estúdio.

Diogene Bivaccourbano_R, Turim, Itália.
Esta residência oferece estadias aproximadamente de dois meses em Turim, onde os artistas vivem e trabalham dentro de um bonde. Os residentes recebem uma doação de pesquisa de € 6.000, orientação dos artistas do grupo Diogene ("um grupo artístico auto-identidade de pessoas que trabalham em conjunto para criar um lugar para refletir e trocar idéias sobre as questões e os meios da prática artística contemporânea"), e a oportunidade de trabalhar com estudantes nas escolas locais.

Caribic Walking Residency, vários locais.
Há pouca informação sobre o processo desta residência itinerante, exceto que um artista residente hospeda outro e, em uma intensa experiência de dois dias, andam juntos, geralmente de uma cidade para outra, compartilhando ideias. A lista de residentes caribenhos recentes é impressionante, incluindo Amalia Ulman, Jeremy Shaw e Paul Simon Richards.

Bauhaus Residence, Dessau, Alemanha.
Em 2016, o Património Mundial da UNESCO foi revivido pela Fundação Bauhaus Dessau para as residências de três meses nas emblemáticas Casas dos Mestres. Essas três casas geminadas eram populares entre os coletivos de artistas na década de 1920 e hospedaram os gostos de Walter Gropius e Wassily Kandinsky. Os residentes recebem um espaço de trabalho e de trabalho na Muche / Schlemmer House, um subsídio mensal de € 1.200, e apresentações finais de seus trabalhos na Casa Gropius.

Residência SKLAD, Sokhumi, Abkhasia.
Os residentes da SKLAD podem apoiar a cena artística regional de Abkhasia, um estado pouco conhecido e apenas parcialmente reconhecido ao noroeste da Geórgia. O programa é projetado em torno de um período de um ano e até seis residentes podem permanecer por pelo menos duas semanas na cidade costeira do Mar Negro da Sokhumi. Oferece acomodações, orçamentos individuais modestos para materiais e um espaço de exposição / estúdio de 150 m2, onde os residentes devem apresentar trabalho no final da sua estadia.

COLLIDE Artists Residency, Genebra, Suíça.
Esta residência única procura desenvolver conhecimento especializado nas artes através de uma conexão com uma ciência fundamental. O programa oferece uma residência totalmente financiada com dois meses de experiência na Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN) em Genebra e um mês na Fundação para Arte e Tecnologia Criativa (FACT) em Liverpool, bem como um prêmio de CHF 15.000 (€ 13,000).
|
Matéria de Lorena Muñoz-Alonso & Naomi Rea para o artnet News, em 04/09/17.

Projeto bilionário, o Louvre Abu Dhabi, abrirá as portas em novembro

A inauguração do museu nos Emirados Árabes foi confirmada para o dia 11 de novembro deste ano, com um tesouro de 300 obras emprestadas pelos principais museus da França, não só do Louvre, mas também do Musée d’Orsay, do Centre Georges Pompidou e de Versailles. +

A inauguração ocorre uma década depois que a França e os Emirados Árabes Unidos assinaram um acordo de 30 bilhões de euros (10 bilhões de dólares) que iniciou o projeto. O presidente francês, Emmanuel Macron, deverá participar do corte de fita.

O museu da Ilha Saadiyat possui uma coleção de mais de 600 obras de arte que abrangem o de 3 mil anos a.C. até o presente. Talvez o elemento mais destacado do projeto seja o tesouro de 300 obras emprestadas pelos principais museus da França, incluindo não só do Louvre, mas também do Musée d’Orsay, do Centre Georges Pompidou e de Versailles, entre outros.

Os empréstimos representam um intercâmbio cultural sem precedentes entre as duas nações – e constituem um rolo de destaque da história da arte ocidental, das pinturas de Leonardo Da Vinci e Giovanni Bellini a Paul Gauguin e Piet Mondrian.

Abu Dhabi pagou a França US$ 525 milhões para licenciar o nome do “Louvre”, e US$ 750 milhões adicionais para contratar pessoal da França para supervisionar as obras emprestadas, de acordo com o Washington Post. O acordo inclui o empréstimo de exposições por 15 anos e o empréstimo de obras de arte por uma década.

A coleção não será organizada cronologicamente. Em vez disso, as obras serão unidas por temas como o alvorecer da globalização, a representação do poder e a representação do divino. Uma galeria dedicada a textos religiosos antigos abrirá uma folha do “Alcorão Azul”, uma Bíblia gótica, um Pentateuco e textos do Budismo e do Taoísmo.

Fora do museu, as instalações locais específicas dos artistas contemporâneos Jenny Holzer e Giuseppe Penone receberão visitantes. O complexo também inclui um centro de estudo, um museu para crianças, restaurantes e uma loja.
|
Matéria publicada originalmente no site da revista Das Artes, (www.dasartes.com.br/noticias), em 06/09/17.

Museu à beira do oceano

Artigo da jornalista e editora Paula Alzugaray para a mostra "A Invenção da Praia: Cassino", em cartaz no Istituto Europeo di Design, no Rio de Janeiro, entre 11/9 e 16/9/17. +

Para Katuschak e Domingo, minha avó dançarina e meu pai artista de cinema

Em reportagem de capa do Diário Carioca, em 8 de agosto de 1936, um político conhecido como “senador dos cassinos” é cobrado por uma explicação, atitude ou gesto que esclarecesse os escândalos envolvendo a Prefeitura do Rio de Janeiro. “Vamos, Senador, Vida às Claras, ao Menos Uma Vez...”, exclama a chamada. Contrariando as expectativas, diz o texto, o homem permaneceu em silêncio, recolheu-se à sombra e à omissão, “quando seu dever de representante da Nação era destruir as acusações ou renunciar o mandato”.
O senador dos cassinos é mais um folião da corrupção infiltrada nos grandes bailes de máscaras da política nacional. A história dos laços entre um senador frequentador da Urca, os dirigentes de um estaleiro e o responsável por um órgão público da cidade, nos anos 1930, repete-se na esbórnia generalizada hoje entre políticos, empresários e funcionários públicos. Nada mudou. Silêncio e omissão são as leis da política brasileira.
Talvez por isso as ruínas do Cassino da Urca sejam tão ameaçadoras. Elas revelam um flagrante entrelaçamento entre passado e presente, entre luz e sombra. Os escombros do que um dia foi a estrela soberana na noite carioca, a casa noturna mais frequentada da América Latina, encobrem não apenas casos notórios, mas fatos incógnitos que nunca chegaram a ser desmascarados. Através das frestas nas paredes adivinham-se os risos e os rumores que selaram tramas, conspirações, sabotagens, crimes cinematográficos, como o noticiado assalto de joias, arquitetado pelo chefe da Seção de Roubos e Furtos da Diretoria Geral de Investigações (DGI) do Rio, com o envolvimento estratégico do porteiro do cassino [1].
Sobre as brancas areias da Urca, nesse palácio de vícios e prazeres, reunia-se a fina flor da boemia artística carioca. A inauguração do Cassino da Urca, em 1933, coincide com o nascimento da era de ouro da música popular brasileira – 1932 foi o Carnaval de Noel Rosa – e com os tempos sombrios de ditadura e de guerra. Tempos de vigilância e paranoia, quando os artistas da noite eram fichados pela Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) do Estado Novo.
Então lugar de insubmissão, o cassino é hoje um museu do esquecimento. Longe de suas feições originais – descaracterizadas em décadas de ressignificações e abandono –, sem que se possa recorrer a fichários, álbuns ou arquivos que documentem e elucidem seus dias de gloria e ruína, o cassino ganha discernimento no projeto A Invenção da Praia. Na forma de espectros e reinvenções, os trabalhos realizados por 12 artistas convidados reelaboram sua arqueologia e sua memória.

A invenção da identidade

Em sua presença invisível e inquietante, os ratos, evocados a participar do trabalho de Laura Lima, se relacionam tanto com a corrupção tramada nos salões do cassino, quanto com as narrativas e os corpos de todos aqueles profissionais que foram mergulhados na clandestinidade em 1946, após repentina proibição dos jogos de azar e o fechamento do Cassino da Urca.
Em 1940, quando se contavam oficialmente 79 cassinos no Brasil, os conúbios ilícitos eram tais que o governo Vargas, tido como “sócio” das casas de tavolagem, teria estabelecido uma lei que dispunha que, se um dia o jogo fosse proibido, o Estado pagaria indenização aos proprietários e as dívidas trabalhistas com os funcionários demitidos [2]. Paradoxalmente, a sociedade vivia marcada por uma política de punição corporal de pensamento higienista, articulada por uma rede de investigação a pretexto de defesa da ameaça comunista.
Esse “regime de corpos”, segundo o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior, considerava o artista da noite suspeito até prova em contrário. “Por ser um corpo fora do normal, por ter habilidades que não são comuns a um corpo que, naquele momento, no Brasil, era pensado como um corpo masculino, rígido, militarizado, corpo higienizado e moralizado” [3].
A guerra na Europa reforçava fronteiras dentro do território brasileiro. Nomadismo, para o Estado, era antagônico ao controle. Era preciso um documento de salvo-conduto para passar de um estado a outro. Artistas de cassinos, que transitavam por toda a costa sul-americana, do Recife a Buenos Aires, eram alvo número 1. Para circular livremente, fazia-se necessário falsificar, disfarçar, fantasiar.
Assim nasceram as personalidades exóticas, exuberantes e fantasiosas dos artistas da noite. Como a princesa bailarina Alda Bogoslowa, supostamente nascida na Rússia entre 1891 e 1892. Segundo notícia do Diário de Pernambuco (1929), ela teria pertencido ao elenco do Theatro Imperial Russo, passado por Áustria, Alemanha e Holanda com grande reconhecimento, e pelo cabaré Folies Bergère, em Paris, antes de chegar ao Recife para dançar no Imperial Cassino [4]. Ou como Magdalena de Mejia, conhecida na vida artística como Lidia Campos, nascida em Rosário, na Argentina. Cantora em cabarés, dancings e cassinos, na Argentina travestia-se de Mariak de Mendonça, a Soberana da Canção Brasileira; e, no Brasil, era anunciada como La Reina del Tango [5].
Rato (2017), de Laura Lima, evoca essas identidades perdidas. Assim como a videoinstalação Travessia (2017), de Sonia Guggisberg, que, ao abordar as migrações contemporâneas, trabalha com vidas em estado de suspensão. Com cenas e sons captados no Mar Mediterrâneo e em campos de refugiados em Malta, Lampeduza e Grécia, Travessia integra uma pesquisa a respeito do redesenho de identidades, empreendido por migrantes que deixam a terra natal e se lançam ao mar, sem certezas nem destino.
A morte na praia é a imagem que a todos devora. Os fragmentos de naufrágios – de barcos e vidas – trazem a angústia dos projetos que acabam na areia. Especialmente hoje, com a tragédia cotidiana dos refugiados sírios. E com a derrocada da cultura como pilar da sociedade.

Camarim das atrizes

Em 1925, o espanhol Juan Gris pinta La Guitarre Devant de La Mer, natureza-morta com violão diante de uma janela aberta para o mar. O elemento mais comentado da paisagem é o triângulo branco que viria a representar um veleiro. Mas não chama menos atenção a semelhança dos morros ao fundo com o Pão de Açúcar [6].
A paisagem cubista de Gris poderia ter sido pintada desde a escotilha de um barco ancorado em uma manhã no Rio, no momento em que “o furo do ambiente calmo da cabine cosmoramava pedaços de distância no litoral” [7].
Quando o Pão de Açúcar era um teorema geométrico, para Oswald de Andrade e para os modernistas brasileiros, a dançarina espanhola impunha desafio semelhante aos pintores cubistas franceses e espanhóis. Pentes, leques, cordas de guitarra e sinuosidade das ciganas andaluzas eram mais sugestivos e propensos à abstração geométrica do que os recursos das dançarinas francesas de cancã.
Nos anos 1930, uma dançarina espanhola de nome russo iluminou as noites do Cassino da Urca. Mas pouco restou sobre ela. Apagadas, as vedetes que jazem à sombra da centelha luminosa de Yolanda Penteado, Elvira Pagã, Eros Volúsia, Virginia Lane, Íris Bruzzi e Luz del Fuego (estas, sim, evocadas em biografias, documentários e exposições), impõem um desafio para quem delas tenta se aproximar. Se hoje elas são tênues rastros, em seu tempo foram impositivas.
“Buscando a individualidade, aquelas vedetes atuaram na desconstrução da vida puritana, questionaram a ordem patriarcal da sociedade e advogaram a emancipação da mulher. Sua audácia resultou numa biopolítica da corrosão do poder”, afirma Paulo Herkenhoff [8]. Assim como as artistas modernas (Tarsila, Anita, Maria), Mariak, Magdalena e Katuschak quebraram paradigmas e foram determinantes para a mudança do papel da mulher na sociedade brasileira.
É sobre essa presença afirmativa que se debruça Laercio Redondo. Em Como “Vaes” Você/ Espectro de Carmen Miranda (2017), elaborado para a Invenção da Praia, Redondo retorna à personagem que centralizou sua pesquisa em 2010 (Carmen Miranda – Uma Ópera da Imagem). Ao pinçar um trecho enigmático da marcha de Ary Barroso, imortalizada por Carmen, o artista macula a superfície caricata do mito. Ao destacar a frase – claro é o passado, escuro é o futuro – vai em busca da dimensão do corpo performático e político da cantora, seu senso de humor e uso deslumbrante de influências da cultura afro-brasileira. No Grill Room da Urca foi inventado o Brasil exótico.
Do fosso de orquestra onde se apresentaram as mais animadas big bands que o Rio de Janeiro conheceu emanam as vozes de 26 poetas mulheres. Elas integram o projeto de performance expandida Alto-mar (2017), de Katia Maciel, composto de leituras de poemas que contêm a palavra MAR. Ao tornar o antigo palco do cassino ponto de encontro de poetas ao longo de sete dias corridos, Alto-mar alcança as alturas dos timbres sonoros de outros carnavais. O projeto aproxima a poesia – aqui expandida em leituras coletivas e em ações públicas e políticas – ao campo da performance; e amplifica a voz feminina na poesia contemporânea.
Nas tertúlias de Alto-mar, há amplo diálogo com os saraus modernistas. Chega-se a avistar, ao longe, os eventos notáveis do ano em que o edifício foi inaugurado, 1922, como Hotel Balneário. Mesmo ano da publicação de Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, e da Semana de Arte Moderna. Ano da aprovação do plano geral do bairro da Urca, atendendo à nova demanda imobiliária de terrenos à beira-mar.
As instâncias do dia e da noite, do moderno e do contemporâneo, encontram-se na imagem da “a moça de salto que mergulha no mar”, no poema Casa Moderna, de Katia Maciel.

A invenção da praia

Em 1915, a Lapa ainda tinha PRAIA. Chamava-se Praia das Areias de Espanha. Hoje em seu lugar está a Praça Paris. Alguns séculos antes de a praia tornar-se o mais promissor projeto de espaço democrático da vida carioca, a Urca não passava de terreno pantanoso. Antigos mapas apontam que essas terras onde o Rio de Janeiro foi fundado em 1565, eram uma ilha. Um aterro no século 17 ligou a ilha ao continente. Outro aterro, em 1922, inventou a Praia da Urca.
Na Urca não cabem os arrastões, fenômeno analisado em videoinstalação de Lula Buarque de Hollanda. Os quatro canais de Arrastão (2017) discorrem sobre três tempos de existência dessa prática coletiva milenar, unindo duas margens do Atlântico. A narrativa inicia no Benin, onde os arrastões são consagrados à retirada da rede de pesca do mar, se arrastam para a zona sul carioca em domingo de sol, anos 1990, quando tomam a forma de atos libertários de ocupação do espaço público, e termina em 2017, como tática de guerrilha, estratégia organizada de roubo em tempos de crise econômica.
Arrastão é força da natureza social. Mesmo com toda barreira e esforço de civilizar a Praia de Ipanema e a Praia da Urca, as mitologias do Dilúvio preponderam.
A estas forças se impõem o Quebra-mar (2017), a segunda obra concebida por Katia Maciel especialmente para o projeto. É sugestivo como a imagem de uma onda que atinge repetidamente a parede marmórea do cassino na videoinstalação em três telas de Maciel reflete na forma como uns trabalhos da exposição respingam, ou rebatem em outros.
Como uma projeção do Quebra-mar, ela imagina: “Teve aquela vez em que o mar invadiu o salão e o espetáculo continuou”. O episódio vira matéria prima para as Memórias de Areia (2017), de Giselle Beiguelman, que coleciona histórias reais ou inventadas sobre o cassino, materializadas em objetos. Depois, transforma estas memórias em forminhas de areia para um happening coletivo na praia.
Memórias de Areia presume a ruína e a praia como páginas em branco. Como foi a areia de Iperoig (atual Ubatuba-SP) para o padre José de Anchieta, que entre os índios tamoios, escreveu um poema de 5.785 versos, varrido pelo mar e depois transposto da memória para o papel.
De presenças varridas pelo mar fala o tríptico fotográfico Sem Título (Ausência) (2011), de Maria Laet, que documenta as etapas de desaparição das marcas de um corpo na areia da praia. De perda das tradições do mar fala Maurício Adinolfi, que traz a este projeto sua atuação compartilhada com populações litorâneas em situação crítica e sua pesquisa sobre as relações do homem com o rio e o mar. Realizado com cordas marítimas e ossos de uma baleia jubarte, Leviathan 1.0 (2017) parte de uma investigação sobre a pesca de baleia no litoral fluminense, os barqueiros da região, seus resquícios e as relações com a cidade.
Tudo o que na ruína é sombra, é hipervisibilidade na praia. Lembremos que os enigmas não cabem na lógica da praia, onde tudo está explícito. “Estamos no império do visível; não há fundos falsos onde se esconder nem margem para segredos” [9], afirma o escritor Alan Pauls, integrante da primeira edição do projeto A Invenção da Praia (Paço das Artes, SP, 2014).
Do paradoxo entre hipervisibilidade e desaparecimento fala a série inédita Praia do Cassino (2017), de Caio Reisewitz. No Rio Grande do Sul, na maior e mais deserta praia do mundo, em seus 254 quilômetros de linha reta, ondas altas e ventos fortes, se prestam as condições ideais para as visões de imagens metais, as fabulações de habitantes noturnos de um cassino que não se sabe ao certo se chegou a inaugurar. Uma ruína a mais, na sequência de embarcações encalhadas na Praia do Cassino – 287 contabilizadas –, a imensa construção de pedra não alcançaria ser a grande atração turística do mais antigo bairro balneário do Brasil (1890). Naufragou antes de acontecer.
Retrato fiel da ruína brasileira, o cassino fantasma do RS evoca a lembrança de uma utopia modernista que nunca virou realidade. O Museu à Beira do Oceano (1951), de Lina Bo Bardi, encomendado pela Prefeitura de São Vicente-SP para ser edificado sobre as areias da praia, e nunca realizado. É para a memória desse edifício – e sua espetacular fachada de 90 metros de cristal voltada para o oceano Atlântico – convidamos a tocar a Ópera do Vento (2017) de Nino Cais, uma orquestra de 80 conchas marítimas, em papel. Ou o baixo escultórico da série Desenho Sonoro (2015), de Chiara Banfi, a ser dedilhado por longas unhas vermelhas espectrais – ou, ainda, pelas mãos do público. E Carmen Miranda, anunciada em cartazes distribuídos pela cidade, em sessões diariamente programadas, AO VIVO (2017), intervenção sonora de Bruno Faria.
É para a ruína do futuro que dedicamos os ratos, os navios fantasmas, as moças de salto e os arrastões. Para, quem sabe, encontrar entre os espectros, como diria Vila-Matas, uma verdade não demonstrável.

P.S.: Um 14º trabalho, em eterna construção, é o texto A Mulher Que Perdeu a Sombra – uma biografia emocional da dançarina espanhola do cassino.

notas

1 Policiaes accusados de receber dinheiro de ladrões! Rio de Janeiro: Diário de Notícias, 9 de janeiro de 1935
2 Castro, Ruy. A Noite do Meu Bem. São Paulo: Companhia das Letras. P. 22
3 Hoffmann, Clarice e Muniz de Albuquerque Júnior, Durval. O Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos 1935-1958. http://obscurofichario.com.br/
4 Com a pesquisa da jornalista pernambucana Clarice Hoffmann, foram digitalizados e disponibilizados no Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos 429 fichas e prontuários pertencentes ao SSP-Dops/PE, de mulheres e homens, brasileiros e estrangeiros, que protagonizaram uma movimentação ocorrida na cidade do Recife no campo das artes e das diversões (entre dançarinas, sapateadores, cantores, transformistas, pugilistas, telepatas, cartomantes e ilusionistas), entre as décadas de 1930 e 1950. Esse fichário não apenas constitui um precioso memorial de personagens, como também uma saborosa cartografia de teatros, cassinos, bares, rádios e cinemas operante no Recife de meados do século 20.
http://obscurofichario.com.br/fichario/alda-bogoslowa/
5 http://obscurofichario.com.br/fichario/magdalena-giamarelli-de-mejia-3/
6 The Spanish Night – Flamenco, Avant-Garde and Popular Culture 1865-1936, Madri, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2008, pg 235.
7 Andrade, Oswald. Memórias Sentimentais de João Miramar. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. P. 85
8 Herkenhoff, Paulo. Tarsila e Mulheres Modernas no Rio. Rio de Janeiro: Museu de Arte do Rio, 2015
9 Pauls, Alan. A Vida Descalço. São Paulo. Cosac Naify, 2013. P. 27
#
Artigo da jornalista e editora Paula Alzugaray para a mostra "A Invenção da Praia: Cassino", em cartaz no Istituto Europeo di Design, no Rio de Janeiro, entre 11/9 e 16/9/17.

(Revisado por Hassan Ayoub em 29/8/2017)

Arquitetura e identidade: a extravagância neo-andina nas fotos de Tatewaki Nio

O fotógrafo nipo-brasileiro Tatewaki Nio traz seu olhar para ensaio da Revista Zum (IMS) com a série “Neo-andina” feita na localidade de El Alto, no altiplano boliviano, onde edifícios extravagantemente coloridos, projetados e construídos pelo arquiteto autodidata Freddy Mamani Silvestre, são seus protagonistas. Matéria de Guilherme Wisnik. +

Edifícios extravagantemente coloridos, coroados por chalés com telhados pontiagudos, em meio a paisagens pobres e monocromáticas, característica de áreas suburbanas do chamado Terceiro Mundo. Essas edificações, projetadas e construídas por Freddy Mamani Silvestre – arquiteto autodidata que começou a carreira como trabalhador da construção civil –, são os protagonistas da série Neo-andina, de Tatewaki Nio, feita na localidade de El Alto, no altiplano boliviano. Tive a felicidade de acompanhá-lo em uma de suas viagens de trabalho, e assim pude tanto observar de perto o seu processo de investigação, estabelecendo diálogos com ele, quanto conhecer a realidade complexa desse lugar, com sua geografia, história e cultura muito singulares.

Nio é japonês, mas vive no Brasil há quase duas décadas. Pesquisando na internet, seu atento radar captou esse interessantíssimo fenômeno cultural recente da Bolívia, cujo fundamento histórico se assenta em uma inesperada conexão entre aspectos profundamente identitários do lugar, por um lado, e novidades trazidas pela globalização, por outro. Por isso, duas advertências, aqui, são importantes logo de saída. Em primeiro lugar, não é a avaliação estética dessa arquitetura – isto é, a intenção de elogiá-la como genuína, ou de condená-la como vulgar – que move o interesse da pesquisa. Em segundo, o olhar do fotógrafo não mira El Alto, ou a arquitetura de Freddy Mamani, por um ângulo exótico. Quer dizer, não se trata de apenas exponenciar os contrastes ali presentes, como se esses edifícios constituíssem uma aberração terceiro-mundista. Mas sim de se aventurar a fundo na trama complexa que torna aquele fenômeno cultural possível, expandindo o campo de reflexão em torno dele.

Do ponto de vista do imaginário visual, as paisagens urbanas de El Alto lembram algo do oeste norte-americano: rarefeita, desolada, carente de espaços públicos. Com a diferença importante de que são mais pobres e, a todo momento, revelam a proximidade do universo rural, nas comidas, nas roupas das pessoas, na presença de animais. Mas quando olhamos para os estridentes Salões de Eventos projetados e construídos por Freddy Mamani e sua equipe, lembramos também de Las Vegas e de toda a paisagem comercial kitsch que se alastrou pelo mundo a partir do exemplo dessa cidade de cassinos perdida em meio ao deserto de Nevada. Analisando o aparato de signos plugados sobre as fachadas dos edifícios comerciais da cidade norte-americana, na virada dos anos 1960 para os 70, Denise Scott Brown, Robert Venturi e Steven Izenour cunharam o termo “galpão decorado”, que define uma tipologia de arquitetura banal revestida de ornamentos com alto poder de comunicação. Assistia-se então à decadência da forma arquitetônica em prol da ascensão do signo, da comunicação urbana, segundo a profecia dos autores de Aprendendo com Las Vegas (2003).
Nio realiza uma foto que potencializa o seu realismo fantástico, o seu aspecto ao mesmo tempo lúdico e sinistro, que aponta a falta de profundidade das coisas, sua superficialidade agressivamente colorida.

Muito do aspecto assumidamente cenográfico dessa arquitetura de “galpão decorado” aparece no ensaio feito por Tatewaki Nio em El Alto, focalizando os edifícios de Mamani. Um exemplo claro é a foto do Salão “El tren”, que ostenta um diamante na fachada. Ali, com o rígido enquadramento frontal conseguido pelo fotógrafo, que valoriza o encontro coincidente de arestas entre o edifício e o seu vizinho, incluindo suas partições térreas, ficamos com a impressão de que se trata de uma montagem bidimensional, uma colagem, e não de uma imagem real. Pois parecem improváveis as leituras de continuidade entre o volume lateral de blocos de tijolos aparentes, à esquerda, em perspectiva, e a fachada frontal do edifício, à direita, bruscamente interrompida, e que parece feita de papelão, isopor ou algo do gênero. Isto é, explorando a artificialidade própria à cena, Nio realiza uma foto que potencializa o seu realismo fantástico, o seu aspecto ao mesmo tempo lúdico e sinistro, que aponta a falta de profundidade das coisas, sua superficialidade agressivamente colorida – a recorrente paranoia pós-moderna –, na imagem de uma espécie de “cidade Potemkin” dos Andes [O termo “cidade Potemkin” se refere à lenda de que Grigory Potemkin – amante de Catarina II, conhecida como “a grande”, e governador da região da Crimeia – haveria construído uma falsa cidade desmontável de fachadas vazias, feita para impressionar a imperatriz russa em sua viagem à região, em 1787].

Penso que a emergência dessa arquitetura chamada “neo-andina” é um fenômeno cultural do mais alto interesse hoje. São construções aberrantemente coloridas, feitas muitas vezes com cores complementares e elementos com transições em degradê, e com espelhos e motivos ornamentais de gesso, que ficaram conhecidas como “cholets”. Isto é: os chalés do “cholos”, camponeses indígenas que habitam a cidade. São grandes salões de eventos, alugados para festas, incluindo térreos comerciais, e coroados com a casa do dono do imóvel no topo, feita com telhados inclinados, em forma de chalé. Uma arquitetura kitsch e exibicionista que contrasta fortemente com a paisagem do entorno: ruas de terra, e construções precárias de alvenaria de tijolo, que ostentam o desagradável aspecto de obras não terminadas. Mas, afinal, o que haveria de tão especial dos pontos de vista histórico e cultural nesse fenômeno arquitetônico e urbano, para além de um contraste sedutor do ponto de vista visual?

El Alto é uma cidade nova, situada ao lado (ou acima) de La Paz, que nasceu como um subúrbio daquela, na área plana e alta onde foi instalado o seu aeroporto, em 1965. Precário desde a origem, o assentamento urbano cresceu de forma desordenada e totalmente autoconstruída pelas pessoas pobres – “cholos”, de etnia predominantemente Aymara – que foram lá se instalando e vivendo do comércio informal que liga o altiplano (e, com ele, o Chile, o Oceano Pacífico e o Oriente) às áreas mais baixas e ricas da Bolívia, que chegam a Santa Cruz de la Sierra e ao Brasil. Muitos desses habitantes de El Alto são ex-mineiros, que perderam o trabalho com a onda de privatizações e o fechamento das minas (de prata, estanho e carvão) nos anos 80 e 90. E, por isso, trouxeram com eles uma forte consciência política para a cidade, baseada em uma profunda tradição sindical. Forma-se, aí, um novo fenômeno urbano de grande interesse.

Com a economia globalizada das últimas décadas, houve um importante deslocamento econômico dos setores da produção para os de serviços, favorecendo o surgimento de uma nova burguesia Aymara, que justamente controla o transporte de bens (incluindo a folha de coca) nesse grande “hub” geográfico do continente que é El Alto. É justamente essa nova classe social, que tem livre trânsito comercial com a China e a Índia, que adotou, ao menos em parte, a arquitetura de Freddy Mamani como símbolo de afirmação identitária e de status social, construindo seus imponentes Salões de Eventos – o que se fundamenta na prática indígena, de origem rural, de se oferecer festas cotidianamente, implicando aos convidados a necessidade de se retribuir o convite oferecendo novas festas, segundo o modelo de imbricamento cultural entre dívida e dádiva analisado por Marcel Mauss. O resultado é uma arquitetura que combina motivos locais – certas geometrias ornamentais próximas às das construções e cerâmicas pré-hispânicas de Tiwanaku, combinadas às fortes cores dos tecidos locais – com uma estética pós-moderna semelhante às de Bollywood e de Las Vegas.

Com essa mistura explosiva entre forte organização camponesa, tradição sindical, identidade indígena e grande entrada de capital internacional, El Alto se tornou um importante centro de resistência às políticas urbanas neoliberais, liderando as revoltas da chamada “guerra do gás” em 2003, que levaram à queda do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, e à ascensão de Evo Morales, eleito dois anos depois.

Misto de aldeia rural com grande subúrbio genérico de beira de estrada, El Alto fermenta uma experiência importante para a esquerda latino-americana nos sombrios dias atuais.

Com pouco apoio do Estado, a sociedade manteve sua organização comunal, com “juntas de vizinhança”, e uma forma de fazer política distante das relações tradicionais entre o público e o privado. Trata-se de um verdadeiro ensaio contemporâneo daquilo que alguns autores chamam de “a esfera do comum” (Commons), distinta da ideia mais tradicional de “esfera pública”, tal como apontado por David Harvey, baseando-se nas pioneiras pesquisas de campo feitas por Sian Lazar.

Voltando ao ensaio fotográfico de Tatewaki Nio, há, no mínimo, uma graça irônica em se transpor a frontalidade solene das fotos de arquitetura do casal Becher para a realidade aberrante e periférica do Altiplano andino, trocando-se o heróico vernáculo industrial europeu pelo desinibido pseudo-vernáculo pós-industrial latino-americano surgido em tempos de globalização. Contudo, a série fotográfica de Nio não se restringe à documentação frontal das fachadas dos Salões de Eventos, evitando essa simples transposição irônica de contextos pela manutenção de uma linguagem.
As referências de Mamani a Tiwanaku são fabulações, mais do que citações reais e precisas. Nem a própria relação de continuidade entre os Aymara e a civilização tiwanacota está demonstrada historicamente. Massacrada por séculos, essa população de origem indígena busca agora formas simbólicas de afirmação identitária, no momento em que, dadas as condições políticas e econômicas recentes, puderam ascender socialmente. Mais uma vez, aqui, o ensaio fotográfico de Tatewaki Nio é revelador, quando mostra cenas internas de festas nesses Salões de Eventos, bem como cenas posadas com mulheres que reafirmam a vestimenta tradicional indígena: a chamada “mujer de pollera” [pollera é o nome que se dá à saia tradicionalmente usada pelas índias e cholas bolivianas].

Focalizando grandes aglomerações nas ruas, em que se misturam multidões de pessoas, carros, vans, micro-ônibus, caminhões, barracas, e produtos expostos no chão, o fotógrafo registra com potência a sufocante experiência de proximidade que marca a vida cotidiana em El Alto. Uma proximidade promíscua, criada pela hipertrofia da informalidade, e que se mistura aos costumes festivos das populações Aymara e Quetchua. Como bem observou Nelson Brissac Peixoto, em artigo para a revista ZUM, o ensaio visual de Tatewaki Nio não fetichiza a arquitetura “neo-andina” de Mamani. Ao contrário, inclui a visão peripatética de um observador que olha esses edifícios caminhando pelas ruas da cidade, e portanto situando-os em relação ao contexto no qual se implantam, e do qual emergem. Uma relação tanto de contraste em relação à paisagem pobre e monocromática do entorno, quanto de diálogo com a rica cultura ornamental do lugar, presente nas roupas ou nas decorações dos micro-ônibus que aparecem recorrentemente em suas fotos.

Abstraído o referente externo da paisagem periférica de El Alto, o ambiente interno desses salões é de pura fantasia delirante, em meio a uma parafernália de cores, lustres, lajes e sancas curvas, capitéis em forma de cogumelo, e um céu artificial de pequenas lâmpadas por toda a parte. Mas engana-se quem pensa que os bons costumes do folclore local estão sendo conspurcados pela invencionice nada ortodoxa do arquiteto. Não é possível retrocedermos um modelo original do que seja o “tradicional” ou o “autêntico” nesse caso. O próprio chapéu das “cholas” bolivianas, tão característico de sua identidade, é o borsalino italiano, trazido pelos conquistadores europeus, e muito bem apropriado localmente desde então. Significativamente, nas fotos internas de Nio as cenas pulsam entre o real e fantasia – palavra tomada em seu duplo sentido –, não nos deixando nunca confortáveis para nos decidirmos por uma coisa ou por outra. Flutuando em meio a uma ambiência anti-tectônica que afronta toda ideia de solidez e de permanência histórica, nos deixamos levar pelo clima inebriante de uma espécie estranha de cassino no qual não há apostas, apenas dança. Entre o local e o global, no coração da América do Sul, uma nova forma de sociabilidade parece estar sendo agressivamente forjada. Precisamos ter olhos para vê-la.

Tatewaki Nio (1971) é um fotógrafo nascido no Japão que vive em São Paulo há cerca de 20 anos. Formado em sociologia pela Universidade Sophia (Tóquio), estudou fotografia no Senac-SP. Recebeu o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea em 2011 e foi contemplado com a residência fotográfica do Museu de Quai Branly em 2016 para realizar o projeto Neo-andina. Participou de exposições coletivas como a Confluências – Transatlântica 10 anos (2017), 18º Festival Sesc-Videobrasil (2013), X Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013) e Esquizofrenia Tropical – Photoespaña (2012).
Guilherme Wisnik é arquiteto, crítico e professor da FAU-USP. Foi curador da décima edição da Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013.
|
Matéria de Guilherme Wisnik publicada no site da revista ZUM – Instituto Moreira Salles, em 21/08/17.