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Os mistérios do corpo segundo Tunga

O autor discorre a obra do artista multidisciplinar pernambucano Tunga (aliás, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão), morto em junho do ano passado, aos 64 anos, que agora tem mostra individual no Masp. Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 14/12/17. +

Artista multidisciplinar, o pernambucano Tunga (aliás, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão), morto em junho do ano passado, aos 64 anos, criou uma obra em que trabalhos mais antigos se desdobram em novas peças, mantendo sua interdependência e carregando em sua morfologia um código sintático alquímico. Foi pensando nessa “espécie de cosmologia” particular do artista que os dois curadores da mostra Tunga: O Corpo em Obras, no Masp, Isabella Rjeille e Tomás Toledo, organizaram a exposição de forma a propor ao visitante um percurso sem cronologia ou hierarquia entre as 86 peças provenientes do ateliê do artista, de acervos institucionais e coleções particulares.

Tunga foi uma espécie de Joseph Beuys brasileiro – nem tanto pelo parentesco neodadaísta, mas pelo uso de materiais insólitos e a recorrência a princípios alquímicos. O visitante verá na exposição tacapes feitos com ferro trançado e por vezes amalgamados a longas cabeleiras de cobre. Verá também que ele usou maquiagem na pátina de esculturas e em desenhos, além de aquarelas com figuras no limiar do desaparecimento, em que formas humanas se integram a elementos da natureza (a rara série Quase Auroras ). Por fim, deverá concluir que, assim como Beuys fez arte com materiais que salvaram sua vida na guerra da Crimeia (feltro e banha), Tunga recorreu a ímãs, cobre, ferro e chumbo para construir um “corpo” alquímico, formado da fusão de elementos antagônicos.

Os trabalhos mais antigos da exposição são desenhos de 1974, exibidos pela primeira vez no MAM do Rio. Apesar do sugestivo título da série, Museu da Masturbação Infantil, dificilmente o visitante vai encontrar nela um insinuação figurativa que o justifique. No entanto, bem ao lado da série, o que era pura abstração vira figuração explícita num conjunto de desenhos feito posteriormente. Nele, corpos se entrelaçam como serpentes, tendo suas cavidades preenchidas por bizarras formas pontiagudas, entre elas dentes, a única parte da ossatura humana visível a olho nu.

O neoplatônico Plotino sempre foi a inspiração de Tunga. Ele voltou ao filósofo e à alquimia para gerar corpos marcados pela energia da conjunção. Tunga, no fim da vida, chegou a fazer uma exposição em que tornava clara essa sua ligação hermética com a “via úmida”, uma das técnicas usadas pelos alquimistas no passado para transformar a matéria, unindo o princípio ativo masculino (enxofre) com o feminino (o mercúrio, volátil). A curadora da exposição, Isabella Rjeille, acrescenta outra referência de Tunga, Santo Agostinho, para justificar a presença de tantos baldes, dedais e sinos em suas esculturas.

“O pai de Tunga (o escritor Gerardo Mello Mourão) costumava contar para o filho a parábola do menino que Agostinho vê na praia, tentando transportar toda a água do oceano para um buraco na areia”, conta a curadora. Santo Agostinho fica fascinado com a inocência do garoto, advertindo-o sobre a tarefa impossível que se dispôs a realizar, recebendo como resposta que é mais fácil armazenar a água do que tentar, como o santo, compreender o enigma da Trindade.

Tudo em Tunga vem em trios, observa o curador Tomás Toledo, citando as tranças, as serpentes entrelaçadas, os tacapes (simbolizando o elemento masculino) recobertos por tranças (o feminino) e as últimas esculturas (dedos compridos que viram elementos fálicos com pernas e seios). Três esculturas da última exposição de Tunga, em bronze, que lembram as formas do surrealista Hans Arp, foram doadas ao Masp, que faz agora a primeira exposição monográfica do artista no museu.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”, em 14/12/17.

"Dá vontade de dar um tiro na cabeça", diz Bernardo Paz, criador de Inhotim

Em depoimento à juíza federal Camila Velano, Paz se defendeu energicamente da acusação feita pelo Ministério Público Federal. Disse passar por maus momentos. "Eu sofrendo o diabo, e não pegaram nada. E depois sou acusado de lavagem de dinheiro e uma série de coisas. Aí, cara, dá vontade de dar um tiro na cabeça, porque ser brasileiro nesse país não vale a pena", desabafou. Matéria de Rubens Valente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/12/17. +

Junho de 2015. Com longos cabelos brancos, gesticulando muito e às vezes batendo o dedo na mesa, o empresário Bernardo de Mello Paz, criador do museu do Inhotim, presta depoimento à juíza federal Camila Velano que, dois anos depois, iria condená-lo por lavagem de dinheiro.

Como mostra o vídeo de 54 minutos do interrogatório obtido pela Folha, Paz se defendeu energicamente da acusação feita pelo Ministério Público Federal. Disse passar por maus momentos. Tomava tranquilizantes, havia "desmaiado" no dia anterior, vivia "no cheque especial" e se dizia desiludido com o país e indignado com a acusação.

"Nesses últimos dois anos, eu tive fiscalização de ponto a ponto da Receita Federal e não pegaram nada. Eu tive intervenção do Ministério Público Estadual de seis meses lá dentro. Eu sofrendo o diabo, e não pegaram nada. E depois sou acusado de lavagem de dinheiro e uma série de coisas. Aí, cara, dá vontade de dar um tiro na cabeça, porque ser brasileiro nesse país não vale a pena", desabafou.
O empresário comentou sua vida atribulada. "Eu vejo a minha vida ter passado como um vento. Não posso nem escrever aquele [livro] 'Confesso que Vivi', porque eu não vivi. Passei pela vida. Tive seis mulheres, que saíram fora de mim porque eu passava 24 horas por dia trabalhando."

BOTEQUIM

A juíza descreveu as principais acusações do Ministério Público e pediu que Paz apresentasse sua defesa.
Ele começou a contar a longa história da criação do Inhotim –"preciso contextualizar a situação para não parecer um bandidinho de botequim", justificou–, mas foi interrompido pela juíza.

"Adoraria conhecer a história do Inhotim", disse ela, mas o instou a se ater aos termos da denúncia, para que sua defesa não ficasse prejudicada.

A juíza pediu detalhes de saques e movimentações financeiras das empresas de Paz.
"Eu não tinha a menor condição de saber o que estaria acontecendo com os pagamentos de todas as empresas, não tenho a menor possibilidade", respondeu.

Segundo ele, seu grupo de empresas chegou a movimentar "R$ 3 bilhões, R$ 2 bilhões". "Minha vida, em termos financeiros, é uma bagunça", disse. "Eu só sei que eu não gasto nada porque eu moro dentro de Inhotim e ali eu trabalho e ali eu como."
Paz reconheceu que tinha dificuldades para explicar qual o papel que cada empresa representava no seu grupo empresarial e como os recursos transitavam entre as contas. Ele disse que chegou a ter 29 empresas em seu nome.

"A BMP funciona como holding. Os recursos atravessavam de uma empresa para outra, entendeu? O problema é esse, eu não consigo explicar essas coisas. Olha, eu não tenho um tostão, não tenho nem aqui nem lá fora. Pode olhar toda a minha vida. Eu sou um cara que luto por ideal, eu quero deixar um legado."

Para os crimes de lavagem de dinheiro, a legislação exige que o Ministério Público aponte qual infração penal teria dado origem ao dinheiro que depois foi "lavado" no sistema financeiro.

No caso de Paz, o procurador Carlos Alexandre Menezes apontou o suposto crime de sonegação. A leitura dessa imputação, pela juíza, deixou o empresário exaltado. Ele reconheceu as dívidas das empresas, mas não que os valores tenham sido sonegados.
"Sonegação? Não tem uma sonegação fiscal! É tudo escriturado e contabilizado. Eu nunca permiti que isso acontecesse. Eu nunca fui criminoso e não queria que me tachassem disso um dia. Foi tudo registrado e contabilizado. Eu vou pagar tudo."

Ao final, a juíza perguntou se Paz queria "falar mais alguma coisa em relação aos fatos em sua defesa".

"Eu vou dizer à senhora. Hoje cuido de uma orquestra de crianças, 180 crianças, de 200 mil crianças de periferia, de 180 mil pessoas simples de comunidades ao redor, [...] cuido de todos os quilombolas, seis quilombolas, da região, e vejo nos olhos deles, na cara deles, a felicidade."

"Da vida a gente não leva nada, não leva dinheiro, não leva nada. [...] Eu estou vivendo assim para o outro ser feliz. Igual ontem, estava lá o pessoal da Academia Brasileira de Letras, quatro deles lá, e disseram, 'Bernardo, o que você construiu aqui nos dá orgulho de ser brasileiro'. Essas palavras me animam a continuar, mas não me trazem nenhuma felicidade."
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Matéria de Rubens Valente publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, em 14/12/17.

Por posição de patrocinador, artistas e estilistas deixam projeto do Masp

Com ligação do presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, com movimentos e personalidades da direita, artistas abandonam projeto que une artes visuais e a moda da coleção Masp Rhodia, realizada entre 1960 e 1970. +

A iniciativa de moda mais ousada da nova gestão do Museu de Arte de São Paulo está ameaçada por questões políticas. A coleção Masp Riachuelo teve baixas significativas.

A ligação do presidente da Riachuelo, Flávio Rocha, com movimentos e personalidades da direita – a exemplo do MBL (Movimento Brasil Livre), em cujo congresso discursou em novembro último, e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB)– foi o motivo dado pelos artistas para a debandada do projeto que une artistas visuais e estilistas e que reedita a coleção Masp Rhodia, realizada entre 1960 e 1970.

Os estilistas Lucas Magalhães e Giuliana Romanno, e suas respectivas duplas, os artistas Sandra Cinto e Iran do Espírito Santo, deixaram a escalação da iniciativa, cujo resultado será exposto em 2020.

O pintor Caetano de Almeida, que faz par com o estilista Alexandre Herchcovitch, também comunicou sua desistência à direção do museu.

Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, a Riachuelo "esclarece que respeita a decisão dos artistas que optaram por deixar o projeto" e que "seguirá com os demais artistas e estilistas selecionados para a exposição, prevista para 2020".
A companhia também afirma que as "opiniões políticas de seus executivos e de todos os seus colaboradores não influenciam suas coleções e parcerias".

"Sabia desde o início que a Riachuelo patrocinava e fiquei em uma saia justa, sem saber como reagir. Aceitei fazer, mas, depois do que aconteceu com a 'Queermuseu', [mostra sobre sexualidade cancelada em setembro após pressão de movimentos da direita, inclusive o MBL], a situação ficou insustentável", explica Iran do Espírito Santo.

Espírito Santo diz ter devolvido o adiantamento, de valor não divulgado, pago pelo Masp para o desenvolvimento das peças.
"Como artista, como posso aceitar parceria de uma empresa que patrocina um grupo que ataca museus e artistas? Não dormiria tranquilo."

O artista ainda cita entre os motivos de sua desistência uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte, em setembro, que questionava os contratos de terceirizados do Grupo Guararapes, dono da Riachuelo, no Estado nordestino.
Procurada, a estilista Giuliana Romanno não quis comentar o caso.

O pintor Caetano de Almeida disse, por telefone, que "não julga pessoas". "Ele [Flávio Rocha] pode apoiar quem quiser, desde que não invada a minha seara."

Almeida afirma ter enviado a Herchcovitch seus desenhos e disse ao diretor do museu, Adriano Pedrosa, que poderia colocá-lo nos arquivos do Masp, mas sem o uso do seu nome.

"Essa história é algo pessoal que causou muito sofrimento. Não cobrei cachê, acho a ideia muito importante, mas não quero participar dela."

Até a publicação deste texto, a artista plástica Sandra Cinto não foi localizada para comentar o caso. Seu parceiro no projeto, o designer mineiro Lucas Magalhães, confirmou a saída de ambos, mas não quis falar sobre o assunto.
O estilista Ronaldo Fraga, dupla de Ibã Huni Kuin, afirma que continua no projeto e respeita a posição dos colegas, embora acredite que "posições políticas não devam interferir na produção cultural".

"É um projeto muito importante, que rompe os limites da moda e da arte. Em um período de crise como este, em que a cultura está parada e nada acontece, é importante haver empresas dispostas a investir na arte", diz Fraga.

VISÕES CONFLITANTES

Desenvolvido ao longo de três anos, o projeto quer reunir 30 artistas e 30 estilistas brasileiros para criar um mínimo de 60 figurinos.
A lógica é a mesma da parceria entre o museu e a indústria química Rhodia Têxtil, que a partir dos anos 1960 expôs peças de vestuário concebidas por nomes como Alfredo Volpi (1896-1988), Willys de Castro (1926-1988), Aldemir Martins (1922-2006) e Lula Cardoso Ayres (1910-1987).

Na versão atual, a cocuradora Patrícia Carta, que não quis falar sobre a desistência dos artistas, montou duplas com expoentes da costura nacional, entre eles Reinaldo Lourenço, Gilda Midani e Andrea Marques.
O diretor artístico do museu, Adriano Pedrosa, fez a ponte com os artistas visuais, entre eles Beatriz Milhazes, Alexandre da Cunha e Leda Catunda.

Ainda não se sabe quais artistas plásticos serão escalados para suprir as desistências.
Por e-mail, Adriano Pedrosa afirma que respeita a posição política de cada um e que compreende o fato de o clima de polarização política influir na realização de projetos artísticos como o Masp Riachuelo.

"Vivemos em um momento de muitas polêmicas e debates, porém continuamos com nossos trabalhos e projetos, respeitando a opinião e visão de cada um, ainda que algumas vezes elas possam ser conflitantes", disse Pedrosa.

Leia a íntegra da nota da Riachuelo:
A Riachuelo esclarece que respeita a decisão dos artistas que optaram por deixar o projeto realizado em parceria com o MASP para o desenvolvimento de uma coleção de moda e afirma que seguirá, junto ao MASP, com os demais artistas e estilistas selecionados. A íntegra da coleção MASP Riachuelo será apresentada ao público em uma exposição, prevista para 2020.

A companhia informa, ainda, que as opiniões políticas de seus executivos e de todos os seus colaboradores não influenciam suas coleções e parcerias.

Esclarece, também, que jamais foi autuada por trabalho análogo à escravidão em seus 70 anos. A ação movida pelo Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte alegando subordinação estrutural não se aplica às oficinas cadastradas pelo programa Pró-Sertão e que prestam serviços para a Riachuelo.

Estas têm total poder de decisão para quais marcas vão produzir, pois são empresas com configuração jurídica própria e autonomia na condução de seus negócios e de seus funcionários.

Pedro Diniz, é especializado na cobertura de moda, do mercado à cultura pop.
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Matéria de Pedro Diniz publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 09/12/17.

Instagram revoluciona uso de imagens e influencia artistas e museus

Autora discute a produção e a circulação de obras de arte na era do Instagram. Aplicativo tem transformado a relação com as imagens, a ponto de haver quem compare o fenômeno a movimentos como futurismo e surrealismo, em termos de impacto e criação de linguagem. Artistas e museus adaptam-se à nova tendência. Matéria de Nathalia Lavigne publicada originalmente no caderno Ilustríssima do jornal “Folha de São Paulo”, em 10/12/17. +

"Domine, Quo Vadis?" é o título de uma pintura de Annibale Carracci (1560-1609) que retrata um episódio pouco representado na arte: um encontro de são Pedro com Jesus ressuscitado, enquanto o apóstolo planejava fugir da perseguição aos cristãos.
Acuado e surpreso, como aparece no canto direito do quadro, Pedro teria feito a pergunta do título ("Senhor, aonde vais?"), ouvindo de Jesus que iria até Roma para ser crucificado pela segunda vez. A partir desse episódio, o apóstolo desiste de fugir e volta à cidade, onde morre como mártir.

A pintura de Carracci, artista italiano da escola de Bolonha e precursor do barroco na Itália, pertence ao acervo da National Gallery, em Londres, mas não está entre as obras mais famosas do museu. Sua reprodução, pouco conhecida, apareceu recentemente no Instagram do artista Nino Cais (@ninocais), sobreposta a uma fotografia de dois homens nus.

A montagem encontra eco no contexto das polêmicas sobre nudez e tentativas de censura em exposições, iniciada em setembro com o encerramento da mostra "Queermuseum", em Porto Alegre, da qual Nino fazia parte.

Um quadro de temática religiosa vedando uma foto de nus masculinos, enquanto Jesus surge também com o corpo desnudo; o jogo de pernas em contraposição, como numa dança descompassada, cada um a seu modo; o braço de Jesus apontando outro caminho à frente, quase um gesto de resistência que cabe bem aos tempos de perseguições políticas e religiosas de hoje.

Pouco do que a obra originalmente representava permanece nas leituras dessa nova imagem. Por outro lado, o alcance proporcionado pelas redes sociais faz com que sua reprodução possa ser vista ao mesmo tempo por milhares de pessoas, algo inimaginável pelo artista ao retratar o episódio do "Quo Vadis?" no começo do século 17.

MUNDO DE IMAGENS

A composição integra uma série recente iniciada por Nino no Instagram, um espaço que ele define como uma "biblioteca de pensamentos, um caderno de anotações visuais".

Para quem coleciona e reinventa imagens de todos os tipos como ele, a rede estaria mais para uma biblioteca de Babel, um arquivo sem fim de quase tudo que se pode encontrar no mundo hoje, de obras de arte aos registros mais banais. Goste-se ou não, a onipresença das câmeras de celular é uma realidade irremediável.

Em "O Museu Imaginário" (1947), o francês André Malraux parece antecipar boa parte do fenômeno que vivemos hoje com a intensa circulação de imagens de obras de arte pelas redes sociais.

Ele define a ideia de imaginário associada aos museus como o resultado de diversos processos de metamorfoses. O primeiro ocorre quando os objetos são retirados de seu contexto original e levados para o museu, onde se desligam de sua função anterior e podem ser contemplados como obras de arte.

Essa mudança ocorre especialmente no século 19, com a criação dos museus públicos modernos. São esses espaços, para ele, que impõem uma nova relação com a ideia de obra de arte. "Um crucifixo românico não era, de início, uma escultura; a Madona de Cimabue não era, de início, um quadro; nem sequer a Atena de Fídias era, de início, uma estátua", escreve.

Também no século 19 foi criada a fotografia, responsável por outro processo de metamorfose das obras. Nos livros de arte, elas passam a ser contempladas sem nenhuma indicação de escala; uma escultura monumental pode ser vista nas mesmas proporções de uma pintura pequena.
A era digital parece ter elevado à enésima potência esse processo de transformações. As obras, reproduzidas incessantemente pela câmera do celular e publicadas em redes sociais, passam a circular sem origem e destino definidos.

Para o americano David Joselit, autor de "After Art" (depois da arte), vivemos na era da imagem nômade —e esse processo de circulação é o contexto mais relevante hoje no campo artístico.

O historiador da arte argumenta que o conceito de aura de Walter Benjamin —espécie de essência de uma obra original, um "aqui e agora" da experiência contemplativa— já não é compatível com o atual cenário de difusão de imagens, especialmente com a internet móvel. Para Joselit, a ideia de que a arte pertença a um tempo e lugar específico é impensável hoje.

A obra de Carracci que aparece na colagem de Nino, por exemplo, foi encontrada em uma edição de bolso sobre pinturas italianas, um dos inúmeros livros acumulados na mesa de seu ateliê em São Paulo, de onde nascem suas colagens.

Na imagem que ele criou e postou no Instagram, a pequena reprodução parece recobrar dimensão próxima ao formato de um quadro, com tamanho suficiente para esconder partes mais explícitas dos corpos nus da foto de trás.

INSTAGRAMISMO

Desde que foi lançado, em outubro de 2010, o Instagram vem transformandoa maneira como nos relacionamos com as imagens. Os estimados 700 milhões de usuários do aplicativo compartilham cerca de 80 milhões de fotos diariamente.

Lev Manovich, teórico em cultura digital e um dos principais pesquisadores de redes sociais na atualidade, cunhou o termo "Instagramism" (instagramismo) para definir esse fenômeno contemporâneo, comparando-o, em termos de impacto e produção de linguagem visual própria, às revoluções trazidas pelos "ismos" dos movimentos modernos de vanguarda na virada do século 20, como o futurismo e o surrealismo.

A diferença, para ele, está no alcance que o instagramismo possibilita pela cultura do compartilhamento, permitindo autoria compartilhada na definição da linguagem.
A particularidade do Instagram em relação a outras redes sociais está na primazia da imagem e nas possibilidades que ela oferece para o usuário controlar a apresentação.

Esse controle se dá tanto pelas escolhas no grid de três colunas —a definição da sequência de imagens se aproxima de um papel curatorial, transformando as interfaces pessoais em pequenas galerias— como pelas inúmeras ferramentas de edição disponíveis.
Contrariando, de certa forma, a ideia de espontaneidade que acompanhava o aplicativo em sua criação, postar uma foto passou a envolver uma série de decisões que terminam por moldar a identidade de um perfil e determinar as conexões que irá atrair.

Essas decisões, em geral, não são nada aleatórias: envolvem conhecimentos específicos difundidos pela cultura do "how-to", vídeos e textos tutoriais que ensinam como criar um perfil esteticamente coerente, quais os melhores horários para postagens etc.

A pesquisa de Manovich, compilada no livro "Instagram and Contemporary Image" (Instagram e imagem contemporânea, 2017), é o primeiro trabalho multidisciplinar sobre a rede, combinando estudos de mídia, história da arte e análise de dados. Seu laboratório em Nova York conta mais de 16 milhões de imagens, arquivadas desde 2012.

Com esse acervo, Manovich desenvolveu projetos como "On Broadway" (2015) —instalação feita a partir de um mapeamento de postagens ao longo da avenida que atravessa Nova York, utilizando geolocalizadores— e "Selfiecity" (2014) —estudo sobre este tipo de foto tendo como material 3.200 selfies postadas em cinco cidades do mundo, incluindo São Paulo.

Como em outras redes sociais, o Brasil tem forte presença no Instagram: aparece como o terceiro país com maior movimentação (5,79%), atrás da Rússia (8,61%) e dos Estados Unidos (17,12%).

SMARTPHONES

A criação do Instagram também influenciou uma mudança importante na forma como os museus lidam com a popularização de smartphones nas galerias.

Em 2011, o Metropolitan Museum of Art de Nova York retirou as placas que pediam aos visitantes para guardar os celulares. Aos poucos, a iniciativa foi adotada por instituições no mundo todo. Fotos e postagens das obras passaram a ser incentivadas como poderosa estratégia de marketing.

Se a invenção da fotografia no século 19 responde por enorme transformação na arte, a popularização de celulares com câmeras e da internet móvel vem promovendo mudança igualmente significativa.

Transformadas em uma nova imagem já no primeiro contato —o ato de ver e fotografar parece ter se tornado um só—, as obras existem cada vez mais em uma dimensão imaginária, reproduzidas a todo tempo. Por outro lado, pela lógica das redes, vê-las ao vivo em museus nunca foi tão importante —o que é um grande paradoxo, já que a contemplação dura em geral alguns poucos segundos, tempo suficiente para fazer um "story" ou postar a foto com o geolocalizador.

Nesse sentido, Malraux parece trazer contribuição interessante aos tempos atuais ao afirmar, ao contrário de Benjamin, que as reproduções não representam ameaça à ideia da aura.

Para o francês, as obras sobrevivem ao esquecimento graças aos museus imaginários dos livros de arte. "[Aquela imagem] leva-nos a contemplar as obras-primas que nos são acessíveis; não a esquecê-las; e, sendo inacessíveis, que conheceríamos nós, sem a reprodução?"

OBRA OU IMAGEM?
Os artistas tampouco passaram incólumes por essas transformações. Alguns deles já utilizam o Instagram como meio específico para o desenvolvimento de trabalhos, ainda que nem sempre esteja claro o que distingue uma obra propriamente dita de uma simples imagem postada na rede.

"O Instagram é sempre a primeira exibição do meu trabalho", afirma Nino. Essa galeria digital, hoje com 12 mil seguidores, às vezes é usada para testar esboços de alguma nova série, outras vezes serve de abrigo definitivo: muitas obras começam, terminam e existem apenas ali, ao lado de selfies, trabalhos de outros artistas e raras fotos de viagens.

As colagens com as pinturas italianas —que incluem ainda uma interessante composição com uma imagem renascentista de são Sebastião (1477-79), de Antonello da Messina, dividindo a tela com outro nu masculino em pose atlética— a princípio foram concebidas exclusivamente para o Instagram. "Mas pode ser que depois virem outra coisa", diz Nino.

O tema ganhou força nos últimos meses, quando a artista americana Cindy Sherman liberou ao público o acesso de sua conta no Instagram (@_cindysherman_), até então mantida privada e com um pseudônimo.;

As imagens mais recentes mostravam a americana interessada na já quase banalizada lógica das selfies, utilizando ferramentas de edição de aplicativos digitais, entre eles o Facetune e o simulador de maquiagem Perfect365.

Mas seu interesse não está no uso que em geral se faz desses recursos. O que ela procura não é a perfeição da imagem, e sim a sua deformação, sinalizando como o uso extremo desses artifícios produz um resultado quase grotesco.

Talvez por se tratar de uma artista que há 40 anos fotografa a si mesma exibindo-se nas mais diversas identidades, cuja obra antecipou aspectos hoje ainda mais banalizados na era das redes —do narcisismo exacerbado à facilidade como identidades são moldadas e desfeitas a cada semana—, a revelação de seu perfil atraiu um interesse imediato do mundo da arte.
Houve quem recomendasse sua galeria pessoal como a exposição do ano e houve quem a classificasse como uma produção mais fraca da artista.
E houve o crítico Jerry Saltz (@jerrysaltz), da "New York Magazine", outra figura célebre no reino da arte no Instagram. Para ele, as imagens de Sherman ali postadas não são nem uma coisa nem outra: "Ela nunca disse que eram um trabalho".
Em entrevista à Folha, ele afirma que a página "é mais uma forma de ver a artista pensando alto, e isso é incrível. Parece um processo de desenho, em que podemos ver uma falha, algo que não se desenvolve. Ao mesmo tempo, é a partir desse pensamento que pode surgir uma ideia, o que é sempre divertido acompanhar".

Hoje com mais de 250 mil seguidores, o perfil de Saltz constitui um dos mais interessantes mapeamentos da miscelânea de imagens nessa rede. Os trabalhos muitas vezes aparecem sem identificação ou em fotomontagens —exemplos mais próximos da realidade das redes.
Chistes com personalidades e com o modus operandi das artes são frequentes: o artista Jeff Koons já apareceu com uma fantasia de teletubbie, o galerista Larry Gagosian ganhou o apelido de Larry Gogo, numa comparação com Lady Gaga, e Klaus Biesenbach, diretor do MoMA, virou o protagonista de uma versão do filme "Uma Noite no Museu", uma piada sobre a publicidade ostensiva para os bailes de gala.
Ironias à parte, Saltz também sabe utilizar a rede como um fórum de debate crítico sem cair na superficialidade. Seus seguidores costumam se envolver com afinco em discussões sobre as postagens, algumas com mais de 400 comentários, das quais ele participa ativamente.

NUDEZ DELETADA

O perfil de Saltz também ficou conhecido pelas postagens de arte erótica que sempre estiveram na mira da censura em redes sociais. Entre suas imagens deletadas já esteve a de uma pintura francesa do século 17, na qual pelos pubianos de um homem estão à mostra.

De acordo com os critérios oficiais do Instagram, pinturas e esculturas que representem nudez são permitidas. A restrição a nus diz respeito apenas a fotografias e algumas partes do corpo. Como se vê, o controle feito com base em algoritmos não é livre de falhas.
Uma dessas imagens postadas recentemente por Saltz fez sucesso entre seus seguidores brasileiros: o detalhe ampliado de uma ilustração em que um homem aparece fazendo sexo com uma cabra.

A cena, como lembrou a artista Erika Verzutti nos comentários, é a mesma da pintura "Cena de Interior II", de Adriana Varejão, acusada de promover zoofilia, uma das motivações para o fechamento da exposição "Queermuseum", no Santander Cultural.
Desde esse primeiro episódio de ataques a museus por grupos de extrema direita, desenvolveu-se no Instagram uma intensa batalha de hashtags entre pessoas que defendiam as instituições e aquelas que as criticavam.

O ápice ocorreu após a performance de Wagner Schwartz na abertura da 35ª edição do Panorama da Arte Brasileira, no MAM-SP (Museu de Arte Moderna de São Paulo).

De um lado ficaram os que compartilhavam à exaustação a imagem descontextualizada da criança interagindo com o artista nu, marcada com a hashtag #pedofilianaoearte, com pouco mais de 1.300 postagens; do outro, os que se manifestavam a favor do museu, com versões do cartaz "Somos Todos MAM", que virou o nome da tag, com quase 2.000.

No segundo grupo, ganhou força o compartilhamento de imagens de nudez na arte como estratégia de protesto —e muitas pessoas passaram a ter suas postagens removidas pelo Instagram.
O debate sobre a censura das redes e as contradições nos critérios do que é considerado impróprio não é novo, mas voltou à tona com esses episódios.

Enquanto mamilos femininos são deletados sob qualquer circunstância, fotos mais eróticas parecem circular livremente. Ou, pior, imagens sem nenhum sinal de nudez às vezes são excluídas após alguma denúncia anônima, sem chance de defesa.
Um caso famoso envolveu Rupi Kaur (@rupikaur_), artista canadense de origem indiana. Ela comprou briga com o Instagram ao ter uma imagem de sua série "Period" (menstruação) apagada. A fotografia não mostrava nada além de uma menina inteiramente vestida e com a calça do pijama suja de sangue.

Aqui no Brasil, a artista Aleta Valente (@ex_miss_febem2) usou esse episódio como referência para uma série em que também se retrata menstruada. Na imagem mais conhecida, ela aparece vestida de branco e tem um dos pés atrás da cabeça, com a legenda: "O patriarcado está vazando. A misoginia está vazando. Não seremos censurados".

Um dos exemplos mais interessantes de artistas que passaram a explorar a autorrepresentação como performance utilizando as redes, Aleta tem um histórico de censura por essas plataformas.

Seu primeiro perfil no Instagram, @ex_miss_febem, foi deletado em janeiro por excesso de denúncias. No Facebook, a foto mencionada viralizou entre grupos antifeministas, resultando em verdadeiro linchamento virtual.

MASP

A abertura da exposição "Histórias da Sexualidade" no Masp (Museu de Arte de São Paulo), da qual Aleta também participa, inaugurou outro capítulo nas polêmicas sobre o compartilhamento de obras com nudez.

A princípio proibida para menores de 18 anos e agora apenas com classificação indicativa, a mostra também não podia ser fotografada. Desde que o museu passou a permitir fotos em suas galerias, em 2014, essa foi a primeira vez que os vigias controlavam os visitantes em qualquer movimentação suspeita com o celular.

Depois que a restrição etária foi revista, o museu aparentemente flexibilizou o controle. Mas, no dia da abertura, até quem tentava registrar o nome das obras nas fichas técnicas foi repreendido.

Para uma instituição que incentiva a lógica do compartilhamento utilizando sua conta quase exclusivamente para repostar fotos de visitantes, a atitude soou estranha. A resposta oficial sobre a decisão foi um tanto evasiva: dizia apenas que muitos proprietários dos direitos autorais não permitiram que se fotografasse essa mostra.

O mais curioso é que a informação foi dada pelo perfil do museu no Instagram (@masp_oficial), nos comentários a uma foto feita às escondidas na noite de abertura pela artista Santarosa Barreto, na qual ela criticava a proibição.

A obra compartilhada, por ironia, era o pôster da americana Zoe Leonard, "Read My Lips Before They're Sealed" (leia meus lábios antes que sejam selados, 1992), com a imagem frontal e em close de uma vagina.

Em tempos de controle e vigilância cada vez mais proeminentes, o episódio serve ao menos para indicar um caminho possível: na arte ou nas redes, quase sempre há alguma brecha para a resistência.
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Matéria da curadora e jornalista Nathalia Lavigne publicada originalmente no caderno Ilustríssima do jornal “Folha de São Paulo”, em 10/12/17.

Marina Abramovic: A artista está presente mas o dinheiro sumiu

A artista cancelou seus planos grandiosos para um instituto de arte, sem no entanto esclarecer o que aconteceu com os US$ 2,2 milhões que arrecadou ao longo de quatro anos para o projeto. Matéria publicada originalmente no portal DasArtes, em 14/11/17. +

Segundo o The New York Post, a artista internacionalmente conhecida, Marina Abramovic, cancelou seus planos grandiosos para um instituto de arte, sem no entanto esclarecer o que aconteceu com os US$ 2,2 milhões que arrecadou ao longo de quatro anos para o projeto, incluindo doações de Jay-Z e quase 5.000 doadores, em uma campanha de crowdfunding pelo site Kickstarter.

A artista, que tornou-se mundialmente famosa por encarar as pessoas na mostra “A Artista está presente”, no MoMA em 2010, vinha buscando apoio para construir o Instituto Marina Abramovic, voltado para a preservação da arte da performance e um local para os artistas realizarem grandes experimentos. Abramovic, nascida na Iugoslávia, também disse que “mudaria a economia local” em Hudson, NY, da mesma forma que o Sundance Film Festival colocou no mapa a cidade Park City, nos EUA, e o Museu Guggenheim transformou a espanhola Bilbao.

Abramovic, de 70 anos, firmou parceria com o renomado arquiteto holandês Rem Koolhaas para ressuscitar um teatro em ruínas em um espaço elegante de 33 mil metros quadrados, onde os visitantes teriam que entregar seus celulares e se comprometer com uma experiência de seis horas. No mês passado, a artista revelou que estava abandonando o projeto, depois de saber que o seu valor excederia o orçamento previsto em US$ 31 milhões.

Seu anúncio supreendeu os moradores de Hudson e os doadores, chocados, questionam o que ela fez com o dinheiro. Além da campanha de 2013 de Kickstarter, que arrecadou mais de US$ 660 mil, seu instituto sem fins lucrativos arrecadou mais US$ 1,5 milhão em doações entre 2011 e 2015, de acordo com demonstrações fiscais. O rapper Jay-Z fez “uma doação substancial” à campanha de Kickstarter, segundo os relatórios de imprensa.

Alguns doadores do Kickstarter queixaram-se de que eles não receberam suas recompensas prometidas por contribuir com o instituto e outros se perguntaram como suas contribuições foram gastas, ou não, e queriam uma contabilidade.
Quando perguntado se Abramovic devolveria o dinheiro, uma porta-voz da artista disse que todo o dinheiro arrecadado pelo Kickstarter, além de recursos adicionais, foi para pagar a empresa do arquiteto Rem Koolhaas.

“Os fundos foram criados não somente para a renovação em si, mas especificamente para os esquemas e o estudo de viabilidade”, disse a porta-voz. “Eles foram usados exatamente para esse propósito”.

Os doadores da campanha receberam conjuntos de DVDs do “Método Abramovic”, no qual a artista demonstra como beber um copo de água, assinada por ela.

“Eu deveria receber uma cópia assinada do DVD por uma doação de US$ 200 em 2013 e ainda estou esperando por isso”, escreveu um doador do Kickstarter em agosto.

Abramovic confirmou através de sua porta-voz que ela pretende vender o prédio e usar parte dos recursos para pagar impostos não pagos. Os pilares do edifício, que foi construído em 1933 como um teatro comunitário e depois usado como um centro de tênis coberto, correm o perigo de desmoronar e o interior abandonado está coberto de ervas daninhas e excrementos de pombo, disse um morador de Hudson.

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Matéria publicada originalmente no portal DasArtes, em 14/11/17.

Cronograma: Como Salvator Mundi passou de £ 45 a US$ 450 milhões em 59 anos

A pintura, comercializada como o último Leonardo da Vinci em mãos privadas, tem uma história para um longa-metragem. Matéria publicada originalmente no site Artnet News (artnet.com), em 15/11/17. +

O “Salvator Mundi” de Leonardo da Vinci acaba de ser vendido na Christie's por US $ 450,3 milhões, tornando-se a obra de arte mais cara vendida na História. Mas não há muito tempo, um comprador de olhos de águia o comprouem um leilão por apenas £ 45. Como chegamos daqui até aqui? Nós compilamos uma linha de tempo útil da história da pintura abaixo. Você realmente não pode fazer essas coisas.

• 1500 - Por volta desta época, Leonardo da Vinci pinta Salvator Mundi, provavelmente para o rei Luís XII da França e Anne da Bretanha, pouco depois das conquistas de Milão e Gênova.

• 1625 - Acreditou ter sido encomendado pela Família Real Francesa, a pintura acompanha a rainha Henrietty na Inglaterra quando se casa com o rei Carlos I.

• 1651 - O rei Charles I morre em 1649, e logo depois, a tela é usada para resolver parte de sua dívida maciça. Abrange um valor enorme de £ 30.
• 1763 - Depois de permanecer na coleção da família real há anos, a pintura desaparece - e não aparece novamente por 150 anos.

• Final do século XIX - A pintura entra na coleção do Sir Frederick Cook, com sede na Virgínia.

• 1958 - Salvator Mundi aparece no leilão de Sotheby's London em 25 de junho de 1958. Atribuído a Boltraffio, que trabalhou no estúdio de da Vinci, é vendido por £ 45 a alguém chamado "Kuntz".

• 2005 - A tela surge novamente em uma venda imobiliária americana. O vendedor de arte de Nova York, Alexander Parish, compra por outro preço de barganha de US $ 10.000.

• 2013 - Tendo autenticado como uma trabalho autêntico de Leonardo, Parish e um consórcio de outros comerciantes vendem o quadro para o "rei do autocarro" Yves Bouvier em uma venda privada da Sotheby's por um valor de US $ 75-80 milhões. Mais tarde naquele ano, Bouvier volta atrás e o vende por US $ 127,5 milhões para o bilionário russo Dmitry Rybolovlev.

• 2017 - Rybolovlev coloca a pintura à venda na Christie's. Obtém US $ 450,3 milhões.
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Matéria publicada originalmente no site Artnet News (artnet.com), em 15/11/17.

O ocaso do museu

Museu de Arte Moderna da Bahia, o mais importante do estado, estão uma exposição de tapumes e uma performance de visitantes vagando com expressão de desalento. Em julho de 2013, o ex-governador Jaques Wagner anunciou uma ampla reforma no MAM, um “presente” pelo seu cinqüentenário, com um orçamento de R$ 15,7 milhões. Quatro anos depois, a promessa não foi materializada. Matéria de Tatiana Mendonça originalmente publicada no jornal “A Tarde”, em 04/12/17. +

Em cartaz no Museu de Arte Moderna da Bahia, o mais importante do estado, estão uma exposição de tapumes e uma performance de visitantes vagando com expressão de desalento. No cair da tarde de uma terça-feira de novembro, um grupo de turistas percorreu o corredor que leva ao Parque das Esculturas. Deparou-se com um portão fechado e uma placa onde se lia: “Desculpe os transtornos, estamos em manutenção”. O guia que os acompanhava tentou contornar a decepção sugerindo que olhassem pelo “buraquinho”, um pequeno quadrado com vista para um cenário de abandono.

Em julho de 2013, o ex-governador Jaques Wagner anunciou uma ampla reforma no MAM, um “presente” pelo seu cinquentenário. Com orçamento de R$ 15,7 milhões, as obras incluíam o casarão principal, as oficinas, a capela, o café, o cinema, o restaurante e o Parque das Esculturas, além da criação de novos espaços, como uma biblioteca e um estúdio para residências artísticas. A previsão era que durassem 12 meses, de modo que os visitantes que viessem para a Copa já pudessem visitar um novo museu.

Quatro anos depois, a galeria onde funcionavam o cinema e o café está coberta por um tapume branco. No casarão principal, a mostra coletiva Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte, inspirada no universo do escritor alemão, é delimitada por uma corda em frente à escada projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi, primeira diretora do museu. O segundo piso está interditado, por conta de obras no telhado. Parte da área onde acontece a JAM no MAM foi ocupada pelo canteiro da Construtora Pentágono, que suspendeu o serviço quando cessaram as verbas. A entrada do restaurante está bloqueada por mesas de escritório, e no Parque das Esculturas, o mato alto foi cortado recentemente, mas ainda é preciso restaurar as passarelas que dão acesso ao lugar. O píer, despedaçado, sequer foi incluído no projeto da reforma.

Crise no MAM

Museu de Arte Moderna da Bahia, em reforma desde 2013, perdeu relevância no cenário nacional
O museu não tem uma página na internet na qual possa prevenir esta situação aos visitantes desavisados, tampouco estampa o “desculpe os transtornos” em seu perfil no Facebook. Um ou outro usuário incumbe-se da missão em comentários no Google: “Local lindo para visitar, passar o fim de tarde e ver as exposições. Uma pena a reforma estar há tanto tempo parada, não termos mais o cinema do MAM e acesso a outra parte do museu ao ar livre“; “lugar lindo, mas tudo está fechado e sem qualquer aviso. As pessoas vêm ao engano”; “dói visitar. Tristeza em ver o abandono, as obras paradas. Vigilantes desatentos. Funcionários ausentes”; “está muito abandonado. Reformas que não acabam com aspecto que não irá terminar”.

No dia 3 de junho, o vice-governador e secretário de Planejamento do estado, João Leão, visitou o museu ao lado do diretor do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), João Carlos de Oliveira, responsável pela gestão do MAM. No encontro, Leão garantiu que as obras teriam “continuidade”. Do valor total, R$ 7, 7 milhões estão previstos para a segunda etapa, que inclui o restauro dos arcos criados pelo arquiteto Diógenes Rebouças na Avenida Contorno. “Este é o compromisso do governo estadual e será dada continuidade à preservação desse centro cultural que é referência das artes e da cultura, não somente para a Bahia, mas também para o Brasil”, afirmou Leão, segundo texto divulgado pela Secretaria de Cultura. Até agora, a promessa não foi materializada.

A Muito procurou João Carlos Oliveira para uma entrevista sobre a reforma no museu. O gestor solicitou que a reportagem aguardasse por “quinze dias” e informou, por meio da assessoria de comunicação, que, do contrário, não teria “nada a dizer”. Nem mesmo o diretor do MAM, o artista visual Zivé Giudice, sabe quando as obras serão retomadas. Em sua sala no museu, com vista para uma janelinha que enquadra o mar, contou que isso aconteceria em “breve, breve”, afirmação que soava mais como um desejo. Quando é este breve? “Isso eu não sei”.

Em nota enviada por e-mail, a Secretaria de Cultura informou que “tem feito todos os esforços para assegurar a retomada das obras no MAM com a maior brevidade possível e trabalha para que isso aconteça ainda em 2017”.
Após o fechamento desta reportagem, o governo anunciou que as obras serão retomadas nesta semana
Desertificação

Assim que as “dificuldades de orçamento, de dinheiro” forem contornadas, Zivé conta que a prioridade é concluir os espaços cuja reforma já está mais avançada. Na galeria do cinema, a etapa da construção está terminada, mas falta mobiliário e ar-condicionado, diz. Outra urgência que encabeça sua lista é restabelecer a operação do restaurante, criando um “espaço de convivência”. “Aí acaba com essa desertificação do museu”.

Naturalmente esplendoroso, abrigado num solar do século 16 debruçado sobre a Baía de Todos-os-Santos, é preciso jogar muito contra para transformar o MAM num deserto, especialmente num momento em que os museus brasileiros passam por um processo de popularização. O problema não é só que as pessoas estejam ficando menos tempo por lá, por não terem onde tomar um café, como Zivé sugere. Muita gente simplesmente deixou de ir até o MAM.

Em 2015, 98 mil pessoas visitaram os espaços expositivos do museu. Em 2016, foram 85 mil. Os números não incluem os frequentadores da JAM no MAM, mas ainda assim assombram quando comparados às cerca de 50 mil pessoas que o museu costumava receber por mês – sim, por mês – no final da década de 1990, que o alçaram à posição de mais visitado do Brasil. À época, o espaço era dirigido pelo museólogo baiano Heitor Reis, que passou 16 anos no cargo e hoje está à frente do Brazil Golden Art, primeiro fundo de investimento de arte no país.

Por e-mail, Heitor contou que iniciou sua gestão no MAM justamente com uma “grande intervenção estrutural no local, com reforma e ampliação”. “Demos início a um projeto de gestão totalmente voltado à contemporaneidade, possibilitando que o MAM funcionasse como um grande centro cultural, abrangendo educação e ações de diversas linguagens artísticas. Estabelecemos uma sinergia única com a população, conquistando um reconhecimento nacional que levou o museu ao status de mais visitado do país por mais de uma década”. Apesar de não ter contado se segue acompanhando a situação do MAM, ele disse acreditar que a nova direção do museu tem “todas as condições para fazer uma boa gestão, possibilitando que o museu retome o protagonismo histórico que sempre teve no Brasil”.

Zivé, que voltou a dirigir o museu depois de ter pedido demissão do cargo em 2016, por discordar da decisão do Ipac que autorizou a gravação no MAM do programa Esquenta!, da TV Globo, conta que está fazendo um “esforço tremendo”, “se virando”, para “dizer para a sociedade que o museu está vivo”. Uma de suas primeiras ações foi promover um encontro com artistas para implementar o que chamou de “Estado Bienal”, já que, por falta de verbas, a quarta edição da Bienal Internacional de Artes Visuais da Bahia, que deveria ter ocorrido no ano passado, não foi realizada. Os objetivos da reunião eram um tanto vagos, dentre eles o de “criar um espaço que possa contribuir para informar e transformar o meio da arte”. Uma pequena mostra de mesmo nome foi aberta na Galeria 3, com obras de artistas como Caetano Dias, Juarez Paraíso e Sérgio Rabinovitz.

No galpão, as oficinas permanecem, ainda que de modo mais tímido, com o apoio de artistas “voluntários”, que, além de doar ensinamentos, muitas vezes também precisam arcar com materiais para as aulas. Aos domingos, volta e meia acontece o projeto “O MAM abraça as crianças”, com oficinas de pintura, desenho, colagens, bordado e modelagens com argila. Em caráter embrionário também há a ideia de o museu abrigar um “coletivo de arte aplicada”, formado por designers. As futuras exposições igualmente vagueiam no campo das ideias: um panorama sobre a fotografia baiana e uma mostra com obras de Miguel Rio Branco, ambos sem programação definida.

O feirense Caetano Dias foi um dos artistas convidados por Zivé para apoiar o MAM. “Ele está fazendo um trabalho fantástico de aproximação com a comunidade, com novos artistas, e tudo isso sem recurso algum”. Para Caetano, o museu vive um momento crucial, em que “avança ou morre”. “Faço um pedido de socorro ao governo para que cuide da cultura baiana. O MAM precisa retomar sua missão de estimular políticas públicas para as artes visuais e dar visibilidade à produção dos artistas. Precisamos de um lugar em que as políticas para a cultura sejam discutidas de forma efetiva, plural, democrática, republicana. Afinal, a Bahia é a matriz da cultura brasileira. Isso não pode desaparecer”.

As conversas em torno da reforma do MAM intensificaram-se na gestão da artista visual Stella Carrozzo, que esteve à frente do museu entre 2010 e 2012. Ela conta que, na época, cada coordenador discutiu o projeto original com seu respectivo núcleo e encaminhou solicitações ao Ipac. “O problema era a situação que o MAM e outros museus já viviam há, pelo menos, dois anos, quando da decisão: contenção sistemática para um repentino aporte de verba tão significativo para a reforma”, lembrou de Buenos Aires, onde está fazendo mestrado em curadoria em artes visuais.

Antes do início das obras, Stella foi demitida e publicou uma carta aberta na qual contou como foi surpreendida com o anúncio da reforma. “Soube, há somente uma semana atrás, que a reforma do MAM-BA seria realizada em 2013, quando já tinha organizado todo o calendário expositivo do museu, inclusive com instituições estrangeiras e artistas convidados, o que vai gerar inúmeros transtornos para todos os envolvidos, reiterando um aspecto de informalidade e de pouco profissionalismo, contra o qual sempre lutamos”, escreveu na ocasião.

Para Stella, a reforma era e continua sendo necessária, mas deve “terminar já”. “É inaceitável e inacreditável que um museu como o MAM-BA permaneça no estado em que se encontra. É uma pena que a população não se manifeste publicamente”.

Falta de pessoal

Além de perder relevância no cenário nacional, o protagonismo do MAM está sendo esvaziado até mesmo na cena estadual. Nanci Novais, diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, conta que os alunos da EBA estão deixando de ter o museu como referência. “Antes, eles tinham o sonho de participar dos Salões de Artes Visuais, das grandes exposições que o museu abrigava, além de ser um espaço onde tinham a oportunidade de ver obras de artistas importantes de fora. É um prejuízo grande que o MAM esteja nesta situação. É tão triste que a gente fica até sem acreditar”.

Para expor trabalhos fora da escola, acabam buscando parcerias com o Palacete das Artes ou o Museu de Arte da Bahia, conta Nanci. Recentemente, ela visitou o MAM para conversar com Zivé e buscar caminhos de como a universidade pode se aproximar do museu. Nanci lembra que os problemas vão além da perenidade da reforma. Faltam materiais básicos para as oficinas – um dos pilares do projeto original de Lina Bo Bardi era justamente fazer do MAM um museu-escola – e pessoal para garantir o pleno funcionamento das atividades. Cerca de 60 funcionários contratados por meio de regime especial de direito administrativo (Reda) foram dispensados, entre técnicos, monitores, faxineiros e vigilantes.

Em julho, Nanci fez a curadoria da exposição Radiografia Urbana III, dos artistas alagoanos Vera Gamma e Rogério Gomes, que ocorreu no MAM. Ela conta que o processo de montagem da mostra foi “uma coisa chata, assim”, porque o museu não tinha pessoal nem para apoiar a divulgação. “Os artistas fizeram a exposição em todo o Brasil e aqui foi desse modo. Não tinha nem como explicar para eles...”.

Estado “terminal”

A Bahia perdeu exposições de Di Cavalcanti, Alfredo Volpi, Amilcar de Castro e de artistas do acervo da Fundação Edson Queiroz por causa da precariedade das instalações do Museu de Arte Moderna da Bahia. Essas mostras foram apenas algumas das que chegaram ao conhecimento do galerista Paulo Darzé. “Todos querem expor no MAM, oferecem as mostras, mas como é que faz? O museu não tem verba, não tem transporte, não tem segurança nenhuma. E nós estamos falando de obras caríssimas”.

Para o galerista, não dá para classificar o lugar que o MAM ocupa hoje entre os museus brasileiros. “Já foi o mais importante do Norte e Nordeste e o terceiro do Brasil. Hoje, não ocupa lugar algum. Não há exposições de vulto. O museu saiu do circuito nacional. Abriu mão do Salão de Artes Visuais, que era o mais importante do país, para embarcar numa Bienal que não mostrou a que veio. E agora se diz que o museu está em Estado Bienal. Está em estado terminal”.

Stella está pouco esperançosa de que essa situação mude a curto prazo. “Nas condições em que não só o MAM, como qualquer outro museu estadual vêm operando, é muito difícil exigir ou esperar uma atuação significativa no cenário estadual e nacional. Na verdade, não vejo na Bahia uma política cultural pública estabelecida, efetivamente preocupada com a democratização do acesso e produção das artes visuais, que viabilize projetos que funcionem a médio e longo prazos, e não com imediatismos”.

Muitos artistas e gestores culturais defendem que o MAM volte a ser gerido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, que tem como missão promover as linguagens artísticas, e não mais pelo Ipac, responsável pelo patrimônio material e imaterial. De todo modo, a mudança burocrática talvez não tivesse muitos efeitos práticos quando se trata de maior aporte de verbas e de uma gestão que esteja acima de descontinuidades políticas. Neste sentido, discute-se, há mais de 10 anos, a criação de uma associação de amigos do MAM, que administraria o local em parceria com órgãos públicos, como acontece nos principais museus do país e do mundo. Um estatuto da associação chegou a ser finalizado, mas o projeto não saiu do papel. Nascido como um museu voltado à comunidade, é hora de a comunidade voltar-se ao museu.
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Matéria de Tatiana Mendonça originalmente publicada no jornal “A Tarde”, em 04/12/17.

Metropolitan diz que não removerá pintura de Balthus

O Metropolitan de Nova York disse que não retirará de exposição uma pintura de Balthus, a tela “Thérèse Dreaming” (1938), que foi alvo de uma petição online com de 8.700 assinaturas em cinco dias. O baixo-assinado afirma que o Met não deve "mostrar orgulhosamente" uma imagem que "romantiza a sexualização de uma criança". Matéria de Eileen Kinsella publicada no site do artNet (artnet.com), traduzida pela redação, em 05/12/17. +

O Metropolitan de NY disse que não removerá de exposição uma pintura de Balthus (1908–2001), a tela “Thérèse Dreaming” (1938), que foi alvo de uma petição online.
A petição que obteve mais de 8.700 assinaturas em cinco dias afirma que o Met não deveria "mostrar orgulhosamente" uma imagem que "romantiza a sexualização de uma criança". Um porta-voz do museu chamou a controvérsia de "uma oportunidade para o diálogo" sobre a "evolução contínua da cultura existente".
Mia Merrill, residente em Nova York, lançou a petição no site Care 2 em 30 de novembro. Desde então, quase atingiu seu objetivo de 9 mil assinaturas. A petição é encabeçada: "Metropolitan: Remova a sugestiva pintura de Balthus de uma jovem garota, Thérèse Dreaming". Merrill conta como ela ficou "chocada" por ver a pintura retratando uma jovem "em uma pose sexualmente sugestiva... Dado o clima atual em torno de agressões sexuais e alegações que se tornam mais públicas a cada dia, mostrando esse trabalho para as massas sem fornecer nenhum tipo de esclarecimento. O Met está, talvez involuntariamente, apoiando o voyeurismo e a objetivação das crianças".

Em resposta à petição, um porta-voz do Met forneceu a seguinte declaração para Artnet News:

"A missão do Metropolitan é ‘coletar, estudar, conservar e apresentar importantes obras de arte em todos os tempos e culturas, a fim de conectar as pessoas à criatividade, ao conhecimento e às ideias’. Momentos como este proporcionam uma oportunidade para o diálogo e arte visual é um dos meios mais significativos que temos para refletir tanto sobre o passado quanto para o presente, e incentivar a evolução contínua da cultura existente através de discussão informada e respeito pela expressão criativa".
De acordo com a descrição do trabalho de Balthus, ele retrata sua vizinha Thérèse Blanchard, que tinha entre 12 ou 13 anos na época.
Merrill observa que, quando a pintura foi incluída na exposição "Balthus: Gatos e Meninas - Pinturas e Provocações", em 2013, uma placa na entrada avisava os espectadores de que eles poderiam achar alguns trabalhos "perturbadores".
Depois de pedir a remoção da pintura, Merrill parece ter atenuado seu vocabulário, escrevendo em uma mensagem via Twitter para Artnet News hoje: "Eu não estou pedindo ao Met para destruir o trabalho. Estou pedindo que eles sejam mais conscientes em como eles contextualizam peças. Isso pode ser feito removendo a peça desta galeria ou fornecendo mais contexto na descrição da pintura. Eu consideraria esta petição um sucesso se o Met incluísse uma mensagem tão breve como: "Alguns espectadores acham essa peça ofensiva ou perturbadora, dada a paixão artística de Balthus com jovens".
Em uma revisão de 2013 da exposição de Balthus em The New Republic, o crítico Jed Perl chamou o artista de o "último dos místicos que transformaram a arte do século XX". Perl disse que os místicos são "reverenciados, revigorados, demonizados e ignorados e, em um ponto ou outro de sua longa carreira, Balthus foi considerado de todas as maneiras".
Perl acrescentou que as pinturas de meninas de Balthus "impediram a apreciação completa de sua conquista". Ele escreveu que essas obras "podem ser devidamente apreciadas somente quando as aceitamos como uma mística descaradamente, a carne é um símbolo do espírito, a autoconsciência da menina é um emblema do engajamento do artista com o mundo".
"Thérèse Dreaming" vem da Coleção Jacques e Natasha Gelman, que foi doada para o Met em 1998. O site do museu fornece detalhes detalhados sobre a propriedade da pintura e história da exposição. A obra foi originalmente comprada na Galeria Pierre Matisse em Nova York no mesmo ano em que foi pintada por US $ 438,40. Os Gelmans adquiriram isso em 1979.
A pintura apareceu em quase duas dúzias de shows de galerias e museus em todo os EUA, bem como em Londres, Colônia, Marselha, Cidade do México, Paris, Kyoto e Tóquio.
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Matéria de Eileen Kinsella publicada no site do artNet (artnet.com), traduzida pela redação, em 05/12/17.

Lubaina Himid ganha o Prêmio Turner 2017

A artista nascida em Zanzibar, na Tanzânia, levou um dos prêmios mais prestigiados para a arte contemporânea, premiando anualmente um artista que vive ou trabalha na Grã-Bretanha. Matéria de Caroline Elbaor e Javier Pes publicada originalmente no portal ArtNet, traduzido pela redação, em 05/12/17. +

A artista Lubaina Himid levou o Prêmio Turner 2017. Na cerimônia de entrega de prêmios, na terça-feira em 05/12, o artista agradeceu aqueles a quem "deram a ela sustento durante os anos difíceis".

O Prêmio Turner deste ano já esteve nas notícias antes da pequena lista ser anunciada. Em março, a Tate anunciou que as regras foram ajustadas para permitir que os artistas de qualquer idade sejam considerados pelos juízes. Desde 1991, apenas artistas com menos de 50 anos poderiam ser contendores, uma medida que se pensava como uma forma de impedir que ele se tornasse um prêmio de conquista da vida.

O Turner é um dos prêmios mais prestigiados para a arte contemporânea, premiando anualmente a um artista que vive ou trabalha na Grã-Bretanha para uma exposição excepcional ou projeto montado no ano anterior. Como vencedora, Himid recebe um valor de £ 25 mil (libras). Os outros classificados deste ano, Hurvin Anderson, Andrea Büttner e Rosalind Nashashibi, recebem cada um 5 mil libras esterlinas.

Nascida em 1954 em Zanzibar, na Tanzânia, Lubaina estudou design de teatro e depois fez mestrado em história cultural no Royal College of Art. É professora de arte contemporânea na Universidade do Lancashire Central. Suas recentes exposições individuais incluem as da Spike Island em Bristol e da Modern Art Oxford. Um pilar específico do site para a Trienal Folkestone este ano também impressionou.

Ela exibiu no Studio Museum em Nova York e representou a Grã-Bretanha na 5ª Bienal de Havana. E também recentemente foi representada pela galeria, o Hollybush Gardens de Londres.

Os jurados do Prêmio Turner 2017 foram Dan Fox, o co-editor do Frieze; o crítico de arte Martin Herbert; Mason Leaver-Yap, da Escola de Imagem em Movimento Bentons de Walker Art Center, em Minneapolis e curador associado do Instituto Kw de Arte Contemporânea em Berlim; e Emily Pethick, diretora do Showroom em Londres.

A exposição que acompanha a edição do prêmio 2017 apresenta o trabalho dos quatro artistas selecionados e são exibidos na Ferens Art Gallery em Hull (até 07/01/18), um destaque da cidade portuária de Yorkshire no centro das atenções, como a Cidade da Cultura do Reino Unido.
A apresentação do Turner Prize no próximo ano terá lugar no Turner Contemporary, em Margate, na costa sul da Inglaterra.
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Matéria de Caroline Elbaor e Javier Pes publicada originalmente no portal artNet, traduzido pela redação, em 05/12/17.

Censurada na China, instalação de Miguel Rio Branco é exposta no Rio

O artista plástico teve uma obra censurada pelo governo da China , na 6ª Trienal de Fotografia de Guangzhou. Ele diz que não lhe foi explicado o motivo da proibição, mas presume que a censura pode ser creditada ao conteúdo violento. Matéria de Isabella Menon publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 21/11/17. +

"Vocês podem chamar ele até de filho da puta, mas não chama de fotógrafo". Foi assim que o colecionador e diplomata Gilberto Chateaubriand apresentou Miguel Rio Branco durante um evento.

Avesso a rótulos, o artista plástico teve uma obra censurada pelo governo da China na última quarta-feira (15). Rio Branco estava escalado para expor na 6ª Trienal de Fotografia de Guangzhou, na China, mas teve sua obra censurada pelo governo chinês que avalia todas as obras que entram no país.

Ele diz que não lhe foi explicado o motivo da proibição, mas presume que a censura pode ser creditada ao conteúdo violento de "Sob as Estrelas, as Cinzas".

A obra sobrepõe fotos de tribos indígenas a imagens de estrelas e fotos da seção policial do jornal "O Povo" -publicação da chamada "mídia marrom", o periódico reproduzia fortes imagens de assassinatos.

"Em uma ditadura, não tem que se explicar nada", diz o cineasta, escultor, fotógrafo e pintor. E completa: "A criação artística não tem que ficar presa a um sistema".

"Sob as Estrelas, As Cinzas" pode ser vista na exposição "Wishful Thinking", inaugurada no Oi Futuro, no Rio.
"Isso pode se desenvolver desde os índios protegendo seus terrenos ou a proteção do terreno sobre a perversidade do traficante de drogas."

A videoinstalação foi realizada em 1992, para a exposição "Arte Amazonas", época do Eco92. Segundo o artista, o "trabalho é sobre a violência nata do homem".

É violento, mas eu acho que o trabalho não mostra as cenas de forma exibicionista", relata o artista. "Os cadáveres são fotos que eu tratei para não ficarem tão violentos."

Apesar do ocorrido, ele acredita que o governo brasileiro é pior do que o chinês. "Vivemos em uma democracia de bandidos. Os políticos têm que entender que trabalham para o povo e não para ganhar dinheiro", afirma. "Lá [na China], pelo menos não tem problema de corrupção."

Ele também explicita paixão por plantas, que têm espaço na mostra no Oi Futuro.
A sessão é uma adaptação da que foi exposta no MAM-SP, no 34º Panorama da Arte Brasileira, em 2015.
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Matéria de Isabella Menon publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 21/11/17.

Mostra é alvo de polêmica racial ao retratar brancos com a pele escurecida

A exposição "Pourquoi Pas?" (Por que Não?, em francês) da artista Alexandra Loras, que é ex-consulesa da França e colunista da Folha, aberta em 2/12 na Galeria Rabieh, foi acusada de por internautas de praticar o "blackface". Nas obras, Loras modificou, via Photoshop, retratos de personalidades brancas, escurecendo sua pele e inserindo traços associados a afrodescendentes, como Donald Trump, da rainha Elizabeth, Gisele Bündchen, Michel Temer, Xuxa e Carmen Miranda. Matéria de Isabella Menon publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, 29/11/17. +

Com a intenção de discutir a representação do negro na sociedade, Alexandra Loras, ex-consulesa da França e colunista da Folha, inaugura a exposição "Pourquoi Pas?" (Por que Não?, em francês) em 2/12, na Galeria Rabieh.
Ao divulgar no Facebook o novo projeto, Loras foi acusada por internautas de praticar o "blackface".

As obras que serão expostas são oriundas de edição —Loras modificou, via Photoshop, retratos de personalidades brancas, escurecendo sua pele e inserindo traços associados a afrodescendentes.

O "blackface" era uma prática adotada no século 19, em que atores brancos se pintavam com carvão para representar personagens negros de forma satirizada.

"Não é blackface", rebate Loras. "Eu sou negra e, como artista, tenho o direito de me expressar sobre o que está acontecendo na mídia, como a escravidão moderna."

Entre as 40 imagens expostas estão retratos de Donald Trump, da rainha Elizabeth, do papa João Paulo 2º, de Gisele Bündchen, Michel Temer, Xuxa e Carmen Miranda.

Comentários como "ver brancos de sucesso pintados como negro não aumenta nem um pouco minha autoestima como negra" ou "volta para a França" permearam a página oficial de Loras na rede social desde sábado (25).
Helio Beltrão, fundador-presidente do Instituto Mises, que promove estudos de cunho liberal, considera que não haja pratica racista nas obras. "Qualquer um que fizer a lição de casa vai descobrir que Loras é engajada no movimento negro."

No entanto, ele não acredita que ela esteja sendo alvo de excessos de correção política. Para ele as críticas são legítimas. "Só pode ser considerada uma ditadura do politicamente correto se houver algum patrulhamento ou censura à exposição", disse.

A ideia da artista desagradou o historiador Antonio Riserio, que considerou a mostra um exemplo de "blackfake", (mistura das palavras "preto" e "falso" em inglês).

"O que não falta no Brasil é preto famoso, de Pelé a Milton Nascimento, passando por Zezé Motta, etc. Ou seja: a 'provocação' dela nada tem de provocação mesmo."

MUNDO INVERTIDO

Loras diz que não pretende cancelar a mostra. Ela afirma que quis representar uma situação de 'mundo invertido'.
"É uma dinâmica para trazer empatia, para os brancos entenderem como o nosso mundo, tido como libertário e meritocrático, é um absurdo."

Em um país onde metade da população é negra, ela explica que sua provocação se destina a fazer o branco, que "não nos contrata, que nos inferioriza, enxergar que ele tem que ajudar a resolver [o racismo]."
A escritora Ana Maria Gonçalves questiona a ideia de Loras. "Um 'mundo invertido' é de fato o que queremos? Prefiro pensar em integração pelo desmonte do racismo que impossibilita oportunidades de ascensão para os negros, não em inversão."
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Matéria de Isabella Menon publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, 29/11/17.

Adriana Varejão reúne artistas em defesa do Inhotim

A artista plástica convocou artistas para uma reunião em seu ateliê no Horto, na Zona Sul do Rio, para discutir e esclarecer a real situação do Instituto Inhotim e a possibilidade de sua sobrevivência. O encontro com artistas, curadores, galeristas, investidores e gestores culturais, além do diretor-executivo di instituto, Antonio Grassi, discutiu-se a necessidade de que o museu e seu acervo sejam preservados, e que o instituto tenha a sua imagem dissociada das acusações de lavagem de dinheiro que pesam contra o empresário Bernardo Paz. Matéria publicada originalmente no jornal “O Globo”, em 28/11/17. +

Nesta segunda-feira, a artista plástica Adriana Varejão convocou artistas para uma reunião em seu ateliê no Horto, na Zona Sul da cidade, com o objetivo de "esclarecer a real situação do Instituto Inhotim e a possibilidade de sua sobrevivência", nas palavras da própria.

No encontro, que contou com a presença de artistas, curadores, galeristas, investidores e gestores culturais, além do diretor-executivo de Inhotim, Antonio Grassi, discutiu-se a necessidade de que o museu e seu acervo sejam preservados, e que o instituto tenha a sua imagem dissociada das acusações de lavagem de dinheiro que pesam contra o empresário Bernardo Paz, seu fundador.

Como parte desta estratégia, Paz deixou hoje a presidência do Conselho Administrativo de Inhotim, e em seu lugar assumirá, na próxima segunda-feira, o economista Ricardo Gazel.

— A chegada do Gazel é importante neste momento em que estamos buscando cada vez mais autonomia e independência para Inhotim, que hoje nada tem a ver com os negócios do Bernardo (Paz) — disse Antonio Grassi.
‘Um museu como Inhotim não pode ficar associado à imagem de uma única pessoa. O momento é o de garantir transparência, segurança jurídica e a confiança dos nossos atuais e futuros patrocinadores.’

- ANTONIO GRASSI

Diretor-executivo de Inhotim
— Gazel já foi diretor de Inhotim (entre setembro de 2012 a novembro de 2013) e depois passou a trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). É um nome que conhece o mercado, que tem boas relações internacionais, e precisamos cada vez mais fortalecer Inhotim dentro e fora do país. Um museu como Inhotim não pode ficar associado à imagem de uma única pessoa. O momento é o de garantir transparência, segurança jurídica e a confiança dos nossos atuais e futuros patrocinadores. — complementou ele.

Segundo Grassi, a manutenção de Inhotim custa R$ 35 milhões ao ano, e em 2017, 90% desse valor foi obtido por recursos via Lei Rouanet, patrocínio direto e bilheteria.

— No início de Inhotim, há dez anos, o Paz arcava com a maior parte desse valor, e viemos, ano a ano, trabalhando para que o museu seja absolutamente sustentável e autônomo, sem depender de recursos dele, e sim de um conjunto de mantenedores. É esse o nosso objetivo daqui pra frente, manter e ampliar nossos patrocinadores e patronos.
Durante o encontro, artistas como Carlos Vergara e Vik Muniz, assim como a empresária Paula Lavigne, discutiram a formulação de estratégias jurídicas, políticas e de comunicação que tenham como objetivo fortalecer a imagem de Inhotim, assim como afirmar a sua importância e seu valor como patrimônio público.

— Defender Inhotim é uma questão e uma tarefa do estado brasileiro. Inhotim é um patrimônio público, que recebe milhares de brasileiros todos os anos e que foi capaz de construir, ao longo desses anos, um trânsito internacional fundamental para os artistas brasileiros. — afirmou Vergara.

OBRAS PARA PAGAR DÍVIDAS

A reunião aconteceu dias depois de Bernardo Paz, idealizador de Inhotim, fazer uma proposta de quitar com obras de arte — um conjunto de obras avaliado em US$ 190 milhões, ou R$ 617,5 milhões — sua dívida com o Estado de Minas Gerais, que hoje é de R$ 150 milhões.

Originalmente a dívida chegava a R$ 500 milhões, mas foi renegociada após o empresário aderir ao Plano de Regularização de Créditos Tributários, o Regularize — o programa oferece descontos significativos e possibilita que o devedor possa pagar em dinheiro, bens imóveis e obras de arte.

Hoje, apesar de ter cedido as terras que comprou e as edificações que ali ergueu para o Instituto Cultural Inhotim, Bernardo continua dono de um acervo de cerca de 1.500 obras de arte, 700 delas em exposição, todas cedidas em comodato ao instituto.

Se aceita a proposta de pagamento acenada por Paz, o governo do Estado de Minas passaria a ser o proprietário de parte deste acervo. Segundo o advogado-geral de Minas, Onofre Batista, para que seja aceita a oferta de Paz deve representar “uma parte substancial do acervo de Inhotim”:

— Se não for, nada feito: nosso interesse é que o estado passe a ser dono de Inhotim e garanta sua existência pelos próximos cem anos, com suas obras conservadas pelo instituto — disse ele ao GLOBO, na semana passada. — Hoje, elas pertencem a um privado, e ele pode dizer que não as quer mais lá.

Grassi disse ver com bons olhos a proposta de que parte do acervo passe a pertencer ao Estado. Segundo o diretor, o importante é manter o Instituo aberto e o acervo em exibição. Para ele, a medida eliminaria riscos como o de que quadros e esculturas "venham a ser penhorados como pagamento de alguma outra dívida de Bernardo Paz", ou que entrem em futuras disputas por parte de herdeiros. Para ele, a proposta é uma troca de guarda e não de lugar:
— Se a proposta for aceita, a propriedade das obras muda, mas elas não sairão de Inhotim — disse. — Acho que esse acordo vai garantir que essas obras permaneçam em exposição e bem cuidadas e protegidas pelo museu, já que, de acordo com o estado, o instituto permaneceria com o comodato dessas obras.

O diretor afirmou, no entanto, que o Instituto nada tem a ver com a negociação, já que é uma Oscip e não pertence mais a Bernardo. Em fevereiro deste ano, Bernardo doou ao Instituto Inhotim todas as edificações e terrenos que compreendem a área de visitação do museu, com aproximadamente 140 hectares.

Apesar de Paz ter oferecido uma proposta quatro vezes maior que a dívida renegociada, o advogado-geral de Minas, Onofre Batista, disse ao GLOBO que não haveria “troco": "A negociação não prevê retorno de dinheiro que tenha sido pago a mais".

No momento, o Estado planeja realizar uma consultoria para avaliar a oferta, que inclui cerca de 15 lotes de obras, alguns com até 190 peças. Entre as obras que estão sendo consideradas estão “Celacanto provoca maremoto” e “Linda do Rosário”, de Adriana Varejão, e “Glove Trotter” e “Inmensa”, de Cildo Meireles.

A Secretaria estadual de Cultura e Turismo de Minas já deu um laudo inicial sobre a importância das obras em negociação. O processo de avaliação oficial delas deve começar o mais rapidamente possível, com acompanhamento judicial, via Ministério Público Estadual.

Condenado em primeira instância a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro, o empresário Bernardo Paz, idealizador de Inhotim, nega as acusações do Ministério Público Federal de Minas Gerais (MPF-MG), em parte acolhidas pela juíza substituta da 4ª Vara do Tribunal Federal Regional Camila Franco e Silva Velano.
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Matéria publicada originalmente no jornal “O Globo”, em 28/11/17.

Viagem da luz e poder

Em sua exposição individual, Carlos Nunes exibe em Fototaxia, que a Galeria Raquel Arnaud inaugurou no último dia 9, obras que revisitam Duas séries do pintor alemão Josef Albers (1888-1976), um dos grandes mestres da Bauhaus. Como companhia, o fotógrafo Ding Musa ocupa o mezanino da galeria com sua exposição Do Discurso Político Brasileiro, que visita o centro do poder em Brasília como raras vezes se viu desde as fotos históricas de Marcel Gautherot (1910-1962). Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”. +

Duas séries do pintor alemão Josef Albers (1888-1976), um dos grandes mestres da Bauhaus, vêm à memória quando se vê alguns dos trabalhos do artista Carlos Nunes em sua exposição Fototaxia, que a Galeria Raquel Arnaud inaugurou no último dia 9 e que permanece aberta até 20 de janeiro de 2018: a primeira é a conhecida série Homenagem ao Quadrado, que Albers começou ainda nos anos 1950, aos 62 anos. A segunda é sua série Variant/Adobe ( 1947).

O paulistano Nunes, uma das grandes revelações da marchande Raquel Arnaud, comemora em 2017 dez anos de sua estreia no circuito (numa exposição coletiva argentina), dedicando justamente uma das séries de sua mostra individual, Caro Albers, ao alemão que marcou a história da arte com a série anteriormente mencionada – a de pinturas saturadas com a figura do quadrado em expansão.

Nunes, aos 48 anos, é um artista internacionalmente premiado, com residência artística no Japão e Espanha. Também é um talento que não tem medo da história. Revisita na mesma exposição Albers e o suprematista russo Kazimir Malevitch (1878-1935). Fazendo companhia ao amigo, o fotógrafo Ding Musa ocupa o mezanino da galeria com sua exposição Do Discurso Político Brasileiro, visita ao centro do poder em Brasília como raras vezes se viu desde as fotos históricas de Marcel Gautherot (1910-1962), que registrou os primórdios do Distrito Federal.

Albers. Na exposição de Car- los Nunes, Fototaxia, o artista recorre a diversas técnicas, da assemblage à performance gravada em vídeo, para investigar a ação da luz sobre suportes variados. Nunes explica que usou a fototaxia (ou fototropismo) – resposta de seres vivos a estímulos luminosos – para investigar o sentido de deslocamento provocado pelo colapso de um sistema.

Assim, na série Lampejos, um conjunto de desenhos resulta de um curto circuito provocado junto à superfície do papel. Em outra série, que demorou nove meses para ser feita, papéis dobrados foram expostos à luz do sol, tendo sua cor original alterada. Juntando-os numa collage que remete à série Variant/Adobe (1947) de Albers, ele inverte a equação do pintor alemão, que, nesse trabalho, recorreu à fachada de casas mexicanas populares para criar retângulos verticais numa composição diagramática. Nunes, a exemplo de Albers, dá ênfase à cor por meio de um arranjo geométrico, mas o que importa mesmo são as células que entram ao acaso na zona iluminada pelo sol, alterando a cor original do papel de seda.

Em outra parede da galeria, Nunes apresenta a série Caro Albers, composta por 12 pranchas que brincam com a fixação do alemão pelo monocromatismo, usando apenas papéis brancos de diferentes tonalidades. Como um esquimó, capaz de diferenciar cada uma dessas tonalidades, Nunes investiga a expansão albersiana e busca o grau zero da pintura, como fez no passado o inventor do suprematismo Malevitch. A obra-prima do russo, Branco Sobre Branco (1918), negava a forma inteiramente em defesa da ideia da obra. Nunes, ao contrário, usa o suprematismo para reforçar a forma de Albers construída pela cor. A busca pela cor real levou Nunes a radicalizar, usando as cinzas de um papel queimado para desenhar sobre uma folha imaculada.

Centro do poder. Numa outra direção, a do comentário político, o fotógrafo Ding Musa penetra no espaço máximo das decisões, o gabinete da presidência da República, para examinar como se constrói o discurso na política. Ao registrar vários edifícios do Planalto Central, quase todos sem personagens humanos, Musa faz um trabalho totalmente documental que, de certa forma, se adapta perfeitamente à linha construtivista eleita pela marchande Raquel Arnaud desde seu ingresso no mercado de arte. A exemplo do amigo Carlos Nunes, também Musa já começa a expor em importantes galerias no Exterior – sua mostra mais recente foi na Galeria Osnova, em Moscou, entre junho e julho deste ano.

A série de fotografias de Ding Musa sobre Brasília começou há dez anos e foi transformada em dois livros artesanais de tiragem limitada que estão em exposição na galeria ao lado das fotos. Entre essas imagens, destaca-se naturalmente a sala do presidente da República, simetricamente desenhada para comportar duas bandeiras e uma tapeçaria (Músicos, 1958) de Di Cavalcanti, que não é uma elegia ao trabalho, mas ao samba.
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Matéria de Antonio Gonçalves Filho publicada no jornal “O Estado de S. Paulo”.

Dalton Paula é o único brasileiro a participar da Trienal do New Museum em NY

O artista participa da “Trienal do New Museum - Songs for Sabotage”, e incluirá mais de 30 artistas de 19 países. A 4ª edição da mostra foca na relação entre os objetos de arte e os artistas da sociedade, com meditações sobre a circulação de imagens e os legados do colonialismo e do racismo. Matéria publicada originalmente na revista Das Artes, em 16/11/17. +

O New Museum revelou a lista para a “Trienal do New Museum” de 2018, que abre em 13 de fevereiro até 27 de maio. Curado por Gary Carrion-Murayari e pelo vice-diretor e curador-chefe do Instituto de Arte Contemporânea de Miami, Alex Gartenfeld, a exposição será intitulada “Songs for Sabotage”, e incluirá mais de 30 artistas de 19 países – um grupo muito menor que o último trienal, em 2015, que incluiu 51 artistas. Na lista está o artista brasileiro Dalton Paula.

A exposição, que é a quarta edição da trienal, focará a relação entre os objetos de arte e os artistas da sociedade, com meditações sobre a circulação de imagens e os legados do colonialismo e do racismo sistêmico intercalados. “A exposição equivale a um pedido de ação, um envolvimento ativo e uma interferência nas estruturas políticas e sociais que os exigem urgentemente”, diz um comunicado de imprensa.

A lista de artistas segue completa abaixo.
• Cian Dayrit (1989, Manila, Filipinas, vive e trabalha em Rizal, Filipinas)
• Violet Dennison (1989, Bridgeport, CT, vive e trabalha em Nova York, Nova Iorque)
• Tomm El-Saieh (1984, Port-au-Prince, Haiti, vive e trabalha em Miami, FL)
• Janiva Ellis (1987, Oakland, Califórnia, vive e trabalha em Los Angeles, CA)
• Claudia Martínez Garay (1983, Ayacucho, Peru, vive e trabalha em Amsterdã, Países Baixos)
• Haroon Gunn-Salie (1989, Cidade do Cabo, África do Sul, vive e trabalha entre Joanesburgo, África do Sul e Belo Horizonte, Brasil)
• Matthew Angelo Harrison (1989, Detroit, MI, vive e trabalha em Detroit, MI)
• Tiril Hasselknippe (1984, Arendal, Noruega, vive e trabalha em Oslo, Noruega)
• Habitantes (fundada em 2015, Nova York, NY, por Pedro Neves Marques e Mariana Silva)
• KERNEL (fundada em 2009, Atenas, Grécia por Pegy Zali, Petros Moris e Theodoros Giannakis, vive e trabalha em Atenas, Grécia)
• Manolis D. Lemos (1989, Atenas, Grécia, vive e trabalha em Atenas, Grécia)
• Zhenya Machneva (1988, Leningrado, Rússia, vive e trabalha em São Petersburgo, Rússia)
• Chemu Ng’ok (b. 1989, Nairobi, Quênia, vive e trabalha em Grahamstown, África do Sul)
• Gresham Tapiwa Nyaude (1988, Harare, Zimbábue, vive e trabalha em Harare, no Zimbabwe)
• Daniela Ortiz (1985, Cusco, Peru, vive e trabalha em Barcelona, Espanha)
• Lydia Ourahmane (1992, Saïda, Argélia, vive e trabalha entre Oran, Argélia e Londres, Reino Unido)
• Hardeep Pandhal (1985, Birmingham, Reino Unido, vive e trabalha em Glasgow, Reino Unido)
• Dalton Paula (B. 1982, Brasília, Brasil, vive e trabalha em Goiânia, Brasil)
• Julia Phillips (1985, Hamburgo, Alemanha, vive e trabalha em Nova York, Nova Iorque)
• Wong Ping (1984, Hong Kong, vive e trabalha em Hong Kong)
• Anupam Roy (1985, West Bengal, Índia, vive e trabalha em Nova Deli, Índia)
• Manuel Solano (1987, Cidade do México, México, vive e trabalha na Cidade do México, México)
• Diamond Stingily (b. 1990, Chicago, IL; vive e trabalha no Brooklyn, NY)
• Song Ta (1988, Leizhou, China, vive e trabalha em Guangzhou, China)
• Wilmer Wilson IV (1989, Richmond, VA, vive e trabalha na Filadélfia, PA)
• Shen Xin (b. 1990, Chengdu, China, vive e trabalha em Amsterdã, na Holanda)
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Matéria publicada originalmente na revista Das Artes, em 16/11/17.

Escultura que pertenceu a Edemar é leiloada por R$ 6,6 milhões

Obra do mestre modernista inglês Henry Moore que pertenceu ao banqueiro Edemar Cid Ferreira foi leiloada por US$ 1,98 milhão pela Sotheby´s de Nova York. O valor arrecadado será revertido para os credores que perderam dinheiro com a falência fraudulenta do Banco Santos. Outras 94 obras para serem leiloadas. Matéria de Mario Cesar Carvalho publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 16/11/17. +

Uma escultura do mestre modernista inglês Henry Moore (1898-1986) que pertenceu ao banqueiro Edemar Cid Ferreira foi leiloada por US$ 1,98 milhão na noite desta terça (14) pela Sotheby´s de Nova York. O valor arrecadado, equivalente a R$ 6,6 milhões, será revertido para os credores que perderam dinheiro com a falência fraudulenta do Banco Santos.

Há outras 94 obras para serem leiloadas, mas elas têm valor mais baixo do que o Henry Moore, um dos criadores da escultura moderna.

As obras de arte que pertenceram ao banqueiro já renderam R$ 112 milhões, segundo Vanio Aguiar, que administra a massa falida do banco. Ao todo, o valor recuperado chega a R$ 1,5 bilhão, ainda de acordo com Aguiar.

O Banco Santos quebrou em 2005, deixando um rombo de R$ 3,4 bilhões. Edemar chegou a ser condenado a 21 anos de prisão em dezembro de 2006 por gestão fraudulenta de instituição financeira, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, a maior pena já aplicada a um banqueiro no país. O processo, porém, foi anulado em 2015 com o argumento de que o juiz federal que julgou o caso, Fausto Martin de Sanctis, cometeu erros na fase de interrogatório dos réus que comprometiam toda a ação. Com a anulação do processo, os crimes a que ele responde estão prescritos.

Edemar foi preso duas vezes, mas está em liberdade em São Paulo. Ele diz viver de favor, numa casa próxima ao casarão que construiu no Morumbi. O imóvel, um projeto do arquiteto Ruy Ohtake, será leiloado no próximo dia 20 com lance mínimo de R$ 78 milhões.

A escultura que pertenceu a Edemar, batizada "Woman", foi criada entre 1957 e 1958, fundida em bronze numa série de seis peças e tinha 1,5 metro de altura. Edemar exibia a obra em sua casa no Morumbi, zona sul de São Paulo, e pouco antes de o Banco Central intervir no Banco Santos, em 2005, ele retirou a obra do país.
A Folha revelou em 2006 que o banqueiro havia tirado do país as obras mais caras de sua coleção para evitar que fossem confiscadas pela Justiça. A mais caras dessas obras era justamente o Henry Moore leiloado em Nova York nesta terça. O banqueiro pagou US$ 1,475 milhão pela obra em 3 de junho de 2003, segundo arquivos da chamada Cid Collection obtidos pela Folha.

A escultura de Henry Moore estava em Paris, em nome de uma empresa offshore de um advogado de Edemar, Herberto Alfredo Vargas Carnide, que morreu em 2011. A Justiça americana considerou que Carnide era apenas um laranja de Edemar e decidiu que deveria ser devolvida à massa falida do Banco Santos.
Tanto a justiça brasileira quanto a americana consideram que toda a coleção foi produto de crime, comprada com recursos desviados pelo banqueiro.

As reportagens da Folha foram usadas pelo FBI, a polícia federal americana, e pela Interpol para rastrear as obras. Foram recuperadas mais de cem telas, esculturas e fotografias.

Por conta das flutuações do mercado de arte, a obra recuperada que atingiu o valor mais alto foi uma tela do artista norte-americano Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Ele foi comprada por US$ 825 mil e foi leiloada em outubro do ano passado em Londres por 10,565 milhões de libras, o equivalente hoje a R$ 46 milhões.
A tela de Basquiat custou pouco mais do que a metade do valor do Henry Moore, mas alcançou um valor que equivale a quase sete vezes o preço da escultura.

Edemar sempre negou que tenha tirado as obras do país ilicitamente. Segundo ele, os trabalhos foram vendidos antes da quebra do banco.
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Matéria de Mario Cesar Carvalho publicada originalmente no jornal “Folha de S. Paulo”, em 16/11/17.

Vendido por R$ 1,5 bi nos EUA, quadro de Da Vinci é o mais caro da história

Em menos de 20 minutos, a peça que abriu a venda da noite ofertada a US$ 70 milhões chegou ao valor obsceno de US$ 450,3 milhões, cerca de R$ 1,5 bilhão, arrancando aplausos, suspiros e murmúrios incrédulos de colecionadores espremidos na Christie's, em Manhattan. +

Uma tela de Leonardo Da Vinci retratando Cristo com uma esfera de cristal na mão é a obra de arte mais cara já vendida na história —US$ 450,3 milhões, cerca de R$ 1,5 bilhão, foi o preço pago por ela num leilão em Nova York nesta quarta-feira
(15).

Em menos de 20 minutos, a peça que abriu a venda da noite ofertada a US$ 70 milhões chegou a esse valor obsceno, arrancando aplausos, suspiros e murmúrios incrédulos de colecionadores espremidos na Christie's, em Manhattan.

"É um momento histórico", dizia Jussi Pylkkanen, o leiloeiro, minutos antes de bater o martelo. Ele já vinha se contorcendo no púlpito, impulsionando para cima o valor dos lances, a cada telefonema ou plaquinha levantada por alguém na plateia.
Seu preço final é mais do que o dobro dos US$ 179,4 milhões pago por uma tela de Picasso leiloada há dois anos, até agora a mais valiosa já arrematada em venda pública.

É OU NÃO É?

O "Salvator Mundi", antes de se tornar a pintura mais cara vendida em toda a história, considerando leilões e vendas privadas, teve um histórico de preços tão eletrizante quanto os minutos antes de selar seu destino como vedete do mundo da arte dominado pelos ultrabilionários.

Desde que foi pintada pelo mestre renascentista, há 500 anos, o valor da tela também veio oscilando como um eletrocardiograma, dependendo da crença que vingava no momento —muitos estudiosos ainda atribuem o quadro não a Da Vinci, mas a um de seus vários discípulos.
Mesmo podendo ser uma espécie de filho bastardo de Da Vinci, o quadro passou boa parte de sua existência nas mãos da nobreza. Esteve na coleção de três reis ingleses, entre eles Charles 1º, e foi leiloado pelo filho do duque de Buckingham no século 18.

Depois de um tempo sumida, a tela ressurgiu no século 20 na coleção de um colecionador britânico, que dizia se tratar de obra de um discípulo. Em 1958, ela acabou sendo vendida, em péssimo estado de conservação, por menos de míseros US$
10 mil.

Seu último dono, agora algumas centenas de milhões de dólares mais rico, era o bilionário russo Dmitry Rybolovlev, que pagou US$ 127,5 milhões por ela em 2013.
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Matéria de Silas Martí publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo”.

Christie"s faz melhor leilão de tela impressionista em 10 anos

A casa de leilões realizou seu melhor leilão de arte impressionista e moderna em uma década, chegando perto de estabelecer um novo recorde para um van Gogh, e recordes estabelecidos Vuillard, Magritte, Fernand Léger, Jean Crotti, Suzanne Duchamp e Emil Nolde. Matéria de Eric Platt do Financial Times publicada originalmente no jornal “Valor Econômico”, em 16/11/2017. +

A Christie's realizou na segunda-feira seu melhor leilão de arte impressionista e moderna em uma década, chegando perto de estabelecer um novo recorde para um van Gogh. Foi o início de uma semana de vendas que poderá render pelo menos US$ 1,3 bilhão.

O leilão de segunda-feira levantou US$ 479,3 milhões com 60 lotes, superando sua estimativa mais conservadora para a noite, muito embora lances por várias obras tenham sido insuficientes e mais de 10% dos lotes não tenham sido vendidos. Assentos ficaram vazios na sala de leilões do Rockefeller Plaza, onde geralmente os participantes dos leilões ficam de pé.

Mas quando houve interesse, como aconteceu com obras de Vincent van Gogh, Pablo Picasso, René Magritte e Edouard Vuillard, a sala ficou agitada.

Os lances por um óleo sobre tela de van Gogh intitulado "Laboureur dans un champ" (Campo com lavrador) passaram de US$ 44 milhões para US$ 55 milhões numa única oferta e o martelo acabou batendo nos US$ 72 milhões, após quatro minutos de disputa. O vencedor fez o lance por telefone para Rebecca Wei, presidente da Christie's na Ásia.

Com as taxas pagas ao leiloeiro por seus serviços, o preço pago pela obra subiu para US$ 81,3milhões. Foi pouco menos que o recorde estabelecido para o artista em 1990, de US$ 82,5 milhões. O preço desembolsado pela pintura que retrata um campo de trigo, um cavalo e um lavrador em cores que vão do amarelo-girassol, lilás e azul-celeste ficou bem acima da estimativa de US$ 50 milhões. A obra foi concluída seis semanas após van Gogh ter sido removido de seu estúdio e internado em um asilo em Saint-Rémy.

Recordes foram estabelecidos na segunda-feira para Vuillard, Magritte, Fernand Léger, Jean Crotti, Suzanne Duchamp e Emil Nolde.

A tela abstrata de Léger em óleo sobre aniagem "Contraste de formes" foi vendida por US$ 62 milhões, abaixo da estimativa mais conservadora para a obra, de US$ 65 milhões. Com as taxas pagas à Christie's, o preço subiu para pouco mais de US$ 70 milhões. A obra foi pintada em 1913, no auge do movimento cubista, e é parte de uma série em que Léger "leva suas estruturas abstratas ao seu extremo lógico", segundo o Guggenheim Museum.

A Christie's disse que o total arrecadado na segunda-feira foi sua maior venda noturna de arte moderna e impressionista desde novembro de 2007. As vendas da noite totalizaram cerca de US$ 416 milhões antes das taxas adicionais. Isso ficou entre a estimativa da casa de leilões para a noite, de algo entre US$ 360 milhões e US$ 476 milhões.

"A temporada deste ano obviamente está melhor que a do ano passado", disse Guillaume Cerutti, CEO da Christie's, após o leilão. "A oferta [de obras disponíveis para vender no ano passado] provavelmente foi menor que a que estamos tendo este ano. Talvez tenha havido um problema com o fornecimento... e este ano está sendo diferente. Mais coleções e grandes lotes estão indo a mercado."

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Matéria de Eric Platt do Financial Times publicada originalmente no jornal “Valor Econômico”, em 16/11/2017.

Beyoncé grávida do artista Awol Erizku é a foto mais curtida de todo os tempos

A foto de anuncio da gravidez de Beyoncé, feita pelo artista Awol Erizku, e postada em fevereiro de 2017, é a imagem mais curtida de toda a história do Instagram. +

É oficial: o artista Awol Erizku de Los Angeles, baseado em Nova York, é o autor da foto mais popular do Instagram no ano, postada pela superstar Beyoncé em fevereiro. A linda foto é carregada de referências históricas, mas a popularidade insana – de 11 milhões de curtidas e contando - é devida, claramente, ao fato de que as curtidas dobraram com o anúncio da gravidez da cantora, que deu a luz aos gêmeos Rumi e Sir Carter em julho. Além de estar na Top honrarias de 2017, a foto está classificada como a mais curtida de todos os tempos no Instagram.

Na medida em que 2017 chega ao fim, o Instagram compartilhou uma lista dos superlativos do ano da rede social, a partir dos usuários com mais seguidores – Selena Gomez, com 130 milhões de seguidores ou o jogador de futebol Cristiano Ronaldo, que tem 116 milhões de fãs - com as cidades mais “instagramadas”: Nova York, seguida de Moscou e Londres.

Mais uma vez, a suprema #love reinou na top hastag do ano, mas #art está na quinto posição com maior crescimento no ano, após #photography, #2017, #travel, and #instagood.

Intimidation, Censorship: The Far Right’s Assault on Brazil’s Art Scene

Artists and cultural professionals have been threatened and harassed by right-wing groups. Now, they must figure out what to do next. Artigo de Henri Neuendorf para o portal www.artnet.com editado em 30/11/17. +

Last week, curator Gaudêncio Fidélis appeared before the senate in Brazil’s capital to face allegations of “mistreatment of children and teenagers.” His offense: Organizing “Queermuseum: Cartographies of Difference in Brazilian Art,” an exhibition of more than 200 works of Modern and contemporary art that explored queerness and gender at the Santander Cultural Center in Porto Alegre. The venue closed the exhibition a month early, on September 10, following violent protests and pressure from conservative political groups.
The furor surrounding the show is just one example of the mounting challenges to artistic freedom in Brazil, which hangs in the balance as right-wing groups work to shut down exhibitions and intimidate artists whose work they consider immoral. Dealers, curators, and artists say they have received death threats. And many are unsure of what to do in the face of a particularly 21st century kind of violence: One that begins online, but often has real-world consequences.
Indeed, some of the works cited by senators as offensive during Fidélis’s hearing were not even included in the original exhibition—they had been fabricated on social media by members of far-right political groups.
“There has been action to try and criminalize artists in Brazil, and politicians at lower levels of government are trying to take advantage of this because we are experiencing a very rampant and strong growth of fundamentalism,” Fidélis told artnet News. “There is this whole discussion around censorship… The right wing is pushing that agenda forward in a way that I’ve never seen before in art and culture.”
Death Threats and Self-Imposed Exile
The violence, or threat of violence, has forced some artists, like Antonio Oba, out of the country. After right-wing groups spread a video of one of his iconoclastic performances on social media, he received so many death threats that he fled Brazil. He has been living in self-imposed exile in Brussels since mid-October.
“With the increase of these threatening messages, I wasn’t able to produce work; anguish and insecurity overshadowed my practice, and hindered my work as a professor as well,” he told artnet News. “Considering all of these factors, I left Brazil for an artistic residency in Europe.”
In the offending video, “Acts of Transfiguration: Disappearance of a Recipe for a Saint” (2015), Oba grinds a white statuette of the Virgin Mary into a powder and pours it over his black body—an act, he says, of catharsis for the Catholic Church’s perpetuation of racism and intergenerational poverty. Soon after the video began circulating online, the evangelical right labeled it immoral and called for it to be banned.
Days later, on September 19, a group of right-wing activists were waiting with rocks outside an exhibition venue where Oba was due to install his work for an exhibition tied to the PIPA art prize (Brazil’s equivalent to the Turner Prize).
The last straw came when right-wing congressman Magno Malta threatened to sue Oba for blasphemy. He condemned the artist for “grinding the image of the saint and pouring the dust on his penis” and called him a “piece of shit” and a “son of a bitch” in a nationally televised senate hearing.
“That was the moment where [fellow gallery artist] Paulo Nazareth and a lot of other artists said, ‘Get him out of here,’” said the Brazilian dealer Pedro Mendes. His gallery, Mendes Wood DM, represents Oba and decided to fly him to Europe. “This can easily go wrong, if a legal case starts he could lose his passport,” Mendes explained.
The dealer noted that he received death threats himself after posting a video of one of Oba’s performances to Instagram. He is currently in New York, where the gallery operates a small space. Of the right-wing activists, he said: “They felt empowered, they felt if they continue this cyberterrorism, they could actually fuck up the structures of the liberal voice. And they can do it because the government is complicit.”
Political Turmoil
The recent incidents are part of a complex chain of events closely aligned with the populism and isolationism sweeping the globe.
Buoyed by press statements, social media campaigns, and street demonstrations, fringe groups such as the Movimento Brasil Livre (Free Brazil Movement or MBL) have gradually pushed Brazil toward the right of the political spectrum. They advocate hard line conservative agendas and position themselves against former president Dilma Rousseff’s neoliberal economic program and progressive social policies.
MBL’s rise was largely driven by divisive online vitriol against Rousseff, who was ousted by the conservative right in an impeachment vote in August 2016. Conservative rival Michael Temer, who replaced Rousseff, notoriously temporarily dissolved the country’s cultural ministry. (He ultimately reinstated it after sustained pressure from cultural groups and leftist activists, who occupied government buildings in protest.)
Ahead of Brazil’s general elections in 2018, politicians have sought to capitalize on the movement to the right by mimicking the divisive rhetoric of MBL in campaign speeches.
In this heated and divisive environment, the political vitriol has spilled over into Brazil’s left-leaning cultural arena. On November 7, American academics Judith Butler and Wendy Brown were intercepted by right-wing protesters at Congonhas Airport in São Paulo. The protesters later burned an effigy of Butler outside a conference venue, where they were giving a lecture on the history of sexuality.
“These attacks directed at art institutions and individuals are a way to change the debate into a moral issue to avoid talking about economic injustice, corruption, and civil rights that are being removed,” São Paulo-based artist Ana Prata told artnet News. “We had a coup last year, and in my opinion everything that is happening is a consequence of this.”
Targeting the Cultural Sector
The first major uproar began in September, when conservative groups targeted an exhibition at the Santander Cultural Center in Porto Alegre. They alleged that the show, “Queer Museum: Cartographies of Difference in Brazilian Art,” promoted pedophilia and zoophilia. Protesters demonstrated in front of the museum and smashed windows of several branches of the Santander bank, which sponsors the venue.
At the start of October, images of a young girl—accompanied by a parent—touching the foot of a nude performance artist at São Paulo’s Modern Art Museum set off a firestorm of opposition. The performer had invited the audience to move his body as part of the performance, which was inspired by legendary Brazilian artist Lygia Clark’s interactive sculpture series Bichos.
Instead of condemning the attacks on freedom of speech and artistic expression, politicians including São Paulo’s mayor, João Doria (who is rumored to be lining up a bid for the presidency in next year’s election), went on the attack.
In a television address in mid-October, Doria criticized an exhibition on the history of sexuality at another museum, the Museu de Arte de São Paulo (MASP). Responding to public pressure, the museum restricted entrance to those over 18 years old. The move sparked counter-demonstrations by artists and cultural workers at the show’s opening. (The museum has now changed its policy to permit minors with adult chaperones.)
Strength in Numbers
In this politically charged environment, Brazil’s art scene is seeking strength in numbers, and some say the crisis has brought the community closer together. Fernanda Brenner, the artistic director of the São Paulo arts non-profit PIVO, is a driving force behind an open letter defending the right to artistic freedom in Brazil. The letter has garnered more than 1,000 signatures from leading Brazilian artists and cultural luminaries including Renata Lucas, Jac Leirner, and Nuno Ramos.
Like many others, Brenner feels the spate of recent incidents and the government’s refusal to condemn them amount to censorship. “I feel these recent attacks on freedom of speech, artists, and art institutions are an attempt to deviate attention from the atrocities this current government is trying to do in the National Congress,” she told artnet News.
But the Brazilian art world is not easily intimidated. Many of its members survived the country’s military dictatorship from 1964 to 1985, which also violently suppressed artistic freedom. Fernanda Feitosa, a collector and founding director of the São Paulo-based art fair SP-Arte, pointed out that while Brazil’s democracy has been bruised, it systems remain largely intact.
“I believe that Brazil has a solid legal system and the stability of cultural institutions in Brazil remains unshaken,” she said. “There are no signs yet that these minority groups are influencing the courts regarding legality or appropriateness of cultural exhibitions in the country.”
Fidélis, the Queermuseum curator, agrees, and is cautiously optimistic that the tide is slowly turning. “I think the strong reaction from the art world made people very conscious, and I feel like we’re somehow winning this fight,” he said. But, he warned, that the fight continues. “We cannot stop talking about this and fighting against these laws and against these initiatives that are very dangerous to democracy in Brazil.”
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Artigo de Henri Neuendorf para o portal www.artnet.com editado em 30/11/17.

Após condenação, Bernardo Paz renuncia à presidência do Inhotim

O empresário que idealizou o museu nos anos 1980 renunciou a presidência, depois de pedido de prisão por lavagem de dinheiro. O economista Ricardo Gazel assume. Matéria de Amanda Nogueira e Nathalia Durval publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo, em 28/11/17. +

Bernardo de Mello Paz, empresário que idealizou o Inhotim nos anos 1980, renunciou à presidência do museu nesta terça-feira (28).

A decisão foi divulgada após Paz ter sido condenado, em setembro, a nove anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro em movimentações financeiras de empresas das quais foi sócio. A defesa nega as acusações e já recorreu da sentença.

O economista Ricardo Gazel, que ocupou o cargo de diretor-executivo do instituto entre setembro de 2012 e setembro de 2013, assume a presidência do conselho.

Segundo a assessoria de imprensa do Inhotim, o afastamento partiu de uma iniciativa do empresário e seria uma tentativa de desatrelar sua imagem da do museu.

A renúncia reitera o discurso da defesa. À época da condenação, o advogado do empresário, Marcelo Leonardo, afirmou que os fatos listados pela Procuradoria não tinham relação com o instituto. "Eles dizem respeito a episódios de 2007 e 2008, relativos a empresas de mineração e siderurgia de que Bernardo foi sócio", disse.
Procurado pela reportagem, Leonardo não soube precisar os motivos que levaram seu cliente a deixar o cargo.
Referência em arte contemporânea e um dos maiores centros artísticos ao ar livre da América Latina, o Inhotim foi construído em uma fazenda de Paz em Brumadinho, nos arredores de Belo Horizonte. O instituto opera normalmente.

ENTENDA O CASO

A decisão da juíza federal Camila Franco e Silva Velano pela condenação de Paz havia sido publicada em setembro, mas só divulgada neste mês pelo Ministério Público Federal em Minas Gerais.
Maria Virgínia de Mello Paz, irmã do empresário, também foi condenada por participar do crime, mas teve pena menor, de cinco anos e três meses em regime semiaberto.

Segundo a Procuradoria afirmou na denúncia apresentada em 2013, o empresário e sua irmã praticaram lavagem de ativos de suas empresas, escondendo a origem e a natureza de recursos provenientes de sonegação de contribuições previdenciárias, nos anos de 2007 e 2008.

As movimentações que chamaram a atenção do Coaf (unidade de inteligência do Ministério da Fazenda que detecta operações irregulares no sistema financeiro) implicavam, entre outras empresas, a Horizontes Ltda., criada com a finalidade de manter o Instituto Inhotim a partir de doações de outras empresas.
De acordo com a Procuradoria, a Horizontes repassou a outras empresas de Bernardo Paz ao menos US$ 95 milhões que inicialmente haviam sido doados ao instituto.

OUTRO LADO

Marcelo Leonardo, que também é o representante legal de Maria Virgínia de Mello Paz, afirma que a condenação de seus clientes por lavagem de dinheiro é injusta.

"Ele é inocente e a decisão é injusta, por isso já recorremos para o Tribunal Regional Federal da Primeira Região, onde a gente espera que a decisão seja revertida e ele, absolvido", diz Leonardo.
Segundo a sentença, além das transações irregulares entre empresas de Paz, foram constatados saques em espécies nas contas do grupo "sem que se pudesse identificar o destino final dos valores".
O advogado afirma que as movimentações são alterações financeiras regulares.

DÍVIDAS

As acusações remetem ao período em que Paz foi proprietário do conglomerado Itaminas, composto por 29 empresas, a maioria na área de mineração e siderurgia.

Em 2010, o grupo foi vendido por US$ 1,2 bilhão para uma estatal chinesa a fim de liquidar as dívidas dos sócios, calculadas em cerca de US$ 400 milhões à época.

Paz ainda possui uma dívida de cerca de R$ 150 milhões com o governo de Minas Gerais e recentemente ofereceu obras do acervo do museu para quitar o valor.

Sua proposta lista cerca de US$ 170 milhões em trabalhos de artistas como Adriana Varejão e Cildo Meireles –se convertida a reais, a oferta chega a R$ 550 milhões, mais que o triplo devido.
Atualmente, as obras de arte são de propriedade de Paz, cedidas ao instituto a título de comodato. Em fevereiro, o empresário doou ao instituto todas as edificações e terrenos que formam a área de visitação do museu, com cerca de 140 hectares.
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Matéria de Amanda Nogueira e Nathalia Durval publicada originalmente no jornal “Folha de São Paulo, em 28/11/17.