destaques
conteúdo
publicidade
notícias

Incêndio provoca embate entre UFRJ e governo

Um dia depois do incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio, a discussão sobre as causas do acidente evidenciou um embate entre o governo federal e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Parece que o problema não parece ser só de falta de recursos. "Temos que enfatizar a discussão sobre prioridades dos gastos públicos." Matéria de Francisco Góes e Thaís Carrança publicada originalmente no jornal "Valor Econômico", em 04/09/18. +

Um dia depois do incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio, a discussão sobre as causas do acidente evidenciou um embate entre o governo federal e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), à qual o museu é ligado, sobre a disponibilidade de recursos para a universidade. O reitor da UFRJ, Roberto Leher, afirmou que houve redução de recursos, o que, indiretamente, afetou o museu, que completou 200 anos em 2018. Com acervo de 20 milhões de itens, o museu, que também abriga atividades acadêmicas e científicas e foi incorporado pela UFRJ em 1946, sofria com a falta de reformas e com problemas de manutenção.

Leher disse que a universidade, como outras do país, vive um contexto de grande restrição orçamentária. "A UFRJ não tem orçamento [suficiente] para manutenção de todos os seus prédios", disse Leher. A secretária-executiva do Ministério da Fazenda, Ana Paula Vescovi, afirmou, no entanto, ao participar de evento em São Paulo, que o orçamento da UFRJ cresceu 15% de 2015 a 2017 e que o problema não parece ser só de falta de recursos. "Temos que enfatizar a discussão sobre prioridades dos gastos públicos."

Estudo da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados mostra que a verba federal destinada ao museu caiu de cerca de R$ 980 mil em 2013 para R$ 644 mil em 2017, recuo de 34%. Em 2018, até agosto, os pagamentos totais somavam R$ 98 mil. Os montantes consideram valores efetivamente pagos, considerando orçamento do exercício e restos a pagar de anos anteriores.

O museu não tem orçamento próprio, por ser vinculado à UFRJ, disse Cláudio Tanno, consultor da área de educação da Câmara. Além dos recursos da universidade - que incluem verbas de funcionamento, contemplando manutenção e reparo -, a instituição recebe também verbas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), para bolsas, e do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), para modernização.

Considerando apenas os recursos da UFRJ, o montante era de R$ 637 mil em 2013 e R$ 764 mil em 2014, caindo a R$ 279 mil em 2015. Nos anos seguintes, o valor voltou a subir, acima dos R$ 400 mil, mas sem recuperar o nível anterior a 2015. Neste ano, o valor pago pela UFRJ está em R$ 46 mil até agosto. A maior parte dos desembolsos se concentra no fim do ano, o que explica em parte a redução de recursos em 2018, mas ainda assim, na visão de Tanno, os pagamentos parecem menores do que em exercícios anteriores.

Para o consultor, o aperto está relacionado à restrição orçamentária, tornada mais evidente com o teto de gastos. "O MEC tem um limite orçamentário e as universidades federais também, como as despesas de pessoal e Previdência estão crescendo além da inflação - limite do teto -, elas acabam comprimindo a parte de custeio, gastos que não são de natureza obrigatória", diz Tanno.

Interlocutor ligado à equipe econômica observou que o orçamento destinado à UFRJ cresceu e que a decisão de alocação dos recursos cabe à universidade. Dados do Ministério da Fazenda e do MEC, aos quais o Valor teve acesso, apontam que o gasto com pessoal tomou espaço de outros, como custeio e investimentos.

Para um economista especialista em contas públicas, a combinação entre má gestão e restrição orçamentária cria um ambiente propício para o surgimento de problemas do porte do incêndio de domingo. Ele discorda de que exista ligação direta entre o teto dos gastos e a tragédia. "Com ou sem teto, existe restrição orçamentária", afirma.

Para o economista Sérgio Besserman, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e atual presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, os problemas não pode ser resumidos à questão orçamentária. "É um tremendo problema, a falta de prioridade à ciência e ao conhecimento também, mas jogar toda a responsabilidade do incêndio nisso é faltar com um pedaço da história, que é a falta de planejamento, de prioridades bem definidas e de gestão de risco", afirma. "A falta de recursos é grave, mas o incêndio talvez pudesse ter sido evitado se sucessivas administrações tivessem priorizado evitar esse risco", completa.

Eduarda La Rocque, ex-secretária municipal de Fazenda do Rio durante a gestão Eduardo Paes, avalia que a situação é resultado da desfuncionalidade do Estado brasileiro. "Há outros prédios públicos correndo esse risco", diz a economista. "Há uma mistura de erro de gestão e má alocação dos poucos recursos disponíveis", acredita.

Em nota, a UFRJ cobrou mudança no sistema de financiamento das universidades federais do país. "A matriz orçamentária existente no Ministério da Educacão não aloca nenhum recurso para os prédios tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e para os museus universitários", diz a nota. "Este momento devastador deve ser um alerta para as forças democráticas do país, no sentido de preservação do patrimônio."

O diretor-adjunto do Museu Nacional, Luiz Fernando Dias Duarte, mostrou-se insatisfeito com a situação tanto da instituição como da universidade, ainda na noite de domingo, logo depois que o incêndio tinha tomado conta do prédio, como afirmou à GloboNews:

"Nunca conseguimos nada diretamente do governo federal. O museu faz parte da UFRJ, que vive à míngua. Faz parte do Ministério da Educação, que também e cada vez mais vive à míngua. Fizemos um esforço intensíssimo nos últimos anos para conseguir emendas parlamentares que nos ajudassem a segurar este patrimônio. As emendas eram sistematicamente contingenciadas. Só conseguimos algumas pequenas, de parlamentares mais lúcidos."

Havia expectativa, por parte da UFRJ, antes do incêndio, que houvesse uma "mudança de escala" nos recursos disponíveis. A previsão era amparada por um contrato assinado, em junho, com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no montante de R$ 21,7 milhões, via Lei Rouanet. Os recursos seriam aplicados na terceira fase do plano de investimento de revitalização do museu. O primeiro desembolso do contrato entre o BNDES, a Associação de Amigos do Museu Nacional e a UFRJ, cujo prazo total de execução seria de quatro anos, estava previsto para outubro, no valor de R$ 3 milhões.

Questionado se é normal que transcorra um prazo de quatro meses entre a assinatura do contrato e a liberação da primeira parcela de recursos, o BNDES afirmou: "Após a assinatura do contrato, em junho, o museu formalizou o pedido para a primeira liberação de recursos em julho. O desembolso efetivo de tais recursos pelo BNDES depende do cumprimento de uma série de condições contratuais e legais, inclusive no que diz respeito a vedações impostas pela legislação eleitoral. O desembolso ocorre de forma parcelada ao longo do período de execução do projeto (no caso de 48 meses)".

O banco acrescentou que os recursos da primeira parcela previstos para outubro seriam utilizados para a elaboração dos projetos executivos de prevenção e combate de incêndio e de sistemas elétricos, estimada em seis meses, e somente com o projeto executivo pronto seriam iniciadas as obras de implantação desses sistemas de segurança. De acordo com o banco, ainda que os recursos tivessem sido desembolsados logo após a assinatura do contrato, os investimentos efetivos na implantação de tais sistemas ainda não teria ocorrido. "Cabe observar que o museu teve dois projetos anteriores, 1995-2005 e em 2006-2013 (sem apoio do BNDES) que não endereçaram tais problemas de segurança."

Ontem, no início da noite, em entrevista na frente do museu, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio, o ministro da Educação, Rossieli Soares, afirmou que serão repassados R$ 15 milhões. São R$ 10 milhões imediatos, via UFRJ, para garantir a segurança do prédio e do acervo que sobrou. E R$ 5 milhões para projetos básico e executivo para recuperação efetiva do prédio, em parceria com a Unesco.

O governo também conta com parcerias do setor privado, via Lei Rouanet, nas obras de recuperação. O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, previu que o projeto deve estar pronto para permitir o início das obras no fim de 2019, começo de 2020. Em nota, a assessoria do presidente Michel Temer informou que ele articulou a criação de rede de apoio econômico para viabilizar a reconstrução do Museu Nacional no tempo mais breve possível. Segundo o comunicado, a parceria será firmada, inicialmente, com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Vale e Petrobras. (Colaboraram Silvia Rosa, Estevão Taiar, Rafael Rosas, Alessandra Saraiva, Daniela Chiaretti e Andréa Jubé, de São Paulo e Brasília)
|
Matéria de Francisco Góes e Thaís Carrança publicada originalmente no jornal "Valor Econômico", em 04/09/18.

Casa Firjan abre as portas no RJ como centro de inovação

Dividido entre o palacete histórico e o prédio recém-construído, espaço será inaugurado no início de agosto. Artigo da jornalista Sofia Cerqueira para a revista “Veja Rio” e editada no site https://vejario.abril.com.br/cidades/casa-firjan-abre-as-portas-ao-publico-como-um-centro-de-inovacao/ +

Criado por Aloisio Magalhães (1927-1982), um dos maiores designers brasileiros, o conceito do estilingue é bem objetivo. Em resumo, estabelece que, quanto mais se afasta um objeto da forquilha, aproximando-o do passado, maior será o impulso em direção ao futuro. A imagem também se aplica na descrição da Casa Firjan, em Botafogo, que abre as portas ao público em 3 de agosto. Instalado no centenário Palacete Guinle-Linneo de Paula Machado, símbolo da união de duas famílias que marcaram a história do empresariado brasileiro, o espaço se volta para o amanhã, como um centro de inovação. Em uma experiência pioneira no país, o modelo busca atrair não só empresários, empreendedores e inovadores, mas o público em geral. Com um investimento de 119 milhões de reais, o novo endereço à disposição dos cariocas tem como foco os desafios da nova economia e do mercado de trabalho, da teoria à prática. Ou seja: soluções serão propostas, pensadas, debatidas e testadas, tudo no mesmo lugar. Reunindo um casarão histórico, um prédio novo de quatro andares, duas casas geminadas e um jardim — são 10  000 metros quadrados de terreno e 7 500 de área construída —, o complexo abrigará palestras, workshops, cursos, aulas imersivas e laboratórios, além de atividades culturais, como exposições, apresentações musicais, sessões de cinema ao ar livre e um restaurante aos cuidados da chef Flávia Quaresma. “A multiplicidade é uma das marcas da inovação. Por isso, seremos um local conectado com outras referências dessa área. Aqui a divergência ideológica e o conflito de gerações serão bem-vindos”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira.
Misto de polo de estudos, centro cultural e think tank (fábrica de ideias), a Casa Firjan começou a ser delineada em 2011, quando o lugar foi comprado. A proposta original era de um espaço voltado para a indústria criativa. Com os parâmetros do mercado em franca modificação e o futuro impondo adaptações, o projeto foi ampliado. “A criatividade está em tudo, mas fomos além. Queremos ter a função de um radar e antecipar as mudanças tecnológicas, comportamentais e dos modelos de negócio que impactam toda a população”, explica Cristiane Alves, gerente-geral de estratégia e desenvolvimento da Firjan. Não por acaso, transformação é o tema que norteia o primeiro ciclo de atividades da casa. A programação inicial inclui uma grande exposição que se espraiará pelas construções do terreno. Com fotos e objetos, a mostra aborda dos pioneiros da indústria no Rio às mudanças nas profissões verificadas nas últimas décadas. Haverá ainda uma coletiva de artistas plásticos como Raul Mourão, Túlio Pinto e Adriana Eu. Com proposta interativa, um túnel está sendo montado no jardim. Na instalação, o visitante terá a chance de fazer perguntas sobre o futuro a Iara, um sistema operacional como a popular Siri, do iPhone. O público poderá conhecer sozinho o lugar (10 reais a entrada inteira e 5 reais para idosos, estudantes e moradores de Botafogo) ou fazer um passeio guiado. Periodicamente, também serão exibidos filmes e documentários, projetados na fachada do prédio recém-construído. “Todas as atividades estão comprometidas com a geração de reflexão e a oferta de ferramentas para lidar com essa economia em transformação”, reforça Gabriel Pinto, gerente da Casa Firjan.
O desafio de manter um espaço alinhado com o que está sendo pensado e executado mundo afora, de fato, é um trabalho hercúleo. A pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, em muitos casos, não faz mais sentido. Dados do Fórum Econômico Mundial mostram que 65% das crianças que estão entrando na escola hoje trabalharão em profissões que ainda não existem. Tem mais: 47% das profissões atuais desaparecerão em 25 anos. Com a intenção de atender do recém-formado ao profissional que enfrenta a extinção de sua função, passando por quem busca empreender ou é um simples curioso, a Casa Firjan oferecerá inicialmente 1 200 vagas para cursos (250 gratuitas, a ver no site da Firjan), a preços que vão de 600 a 1 200 reais, em média. A parte educacional ficará no prédio novo, onde há computadores e maquinário de última geração. As atividades irão de aula aberta — uma master class, que funciona como uma imersão ministrada por um nome de destaque — a oficinas-relâmpago e cursos mais longos. O ecletismo ditará os temas: marketing digital, liderança, design thinking, inteligência artificial, prototipagem, empreendedorismo e branding, entre mais de trinta possibilidades. Há ainda espaços colaborativos, onde ocorrerão hackathons e desafios variados. Os estudantes também poderão pôr a mão na massa em laboratórios com impressoras 3D, cortadoras a laser e scanners. “Com o intuito de engajar o público mais extenso possível, os laboratórios estarão disponíveis para quem quiser desenvolver um produto com a supervisão dos nossos profissionais”, afirma Cristiane Alves, à frente da área de estratégia e desenvolvimento.
Para montarem a Casa Firjan, profissionais da Federação das Indústrias visitaram centros de ponta na Europa, como o Waag Society & Fablab, em Amsterdã, e o Space 10, referência em estudos de futuro, em Copenhague. A nova economia é assunto no mundo todo. Há poucas semanas, o tema foi destaque numa reunião da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na França. O espaço de inovação carioca terá uma agenda de reflexão, concentrada no palacete histórico, com debates, palestras e workshops. Entre os encontros já previstos estão um com a neurocientista americana Vivienne Ming e outro com representantes da firma holandesa Circo, especializada em design circular, ou seja, aquele em que a concepção do produto já prevê o descarte, com o mínimo de resíduo. “Vamos trabalhar a economia do conhecimento, usando plataformas de mobilização e difusão. Para funcionar, as parcerias são fundamentais”, destaca Joaquim Falcão, professor de direito da FGV e membro da ABL, que presidirá o conselho da casa. A ideia é formar uma rede, tanto com referências lá de fora quanto com espaços de pensamento locais, como a Casa das Garças, dedicada à política econômica. Com o intuito de reforçar seu time, a Firjan pinçou profissionais que já se dedicavam ao tema, caso de Maria Isabel Oschery, ex-chefe do escritório de Atlanta da MJV, consultoria global dedicada a transformar negócios através da inovação. “Diversidade é uma das chaves nessa área. Podemos ter aqui tanto um empreendedor nato do Dona Marta quanto um especialista estrangeiro”, diz ela, coordenadora de conteúdo da Casa Firjan.
Futuro e passado se encontram no mesmo endereço. Erguido no início do século XX, o palacete da São Clemente, em estilo eclético francês, tem sua construção atribuída aos arquitetos Joseph Gire e Armando da Silva Telles, que assinam também o Palácio Laranjeiras. Com um porte chochère — pórtico destinado a carruagens —, imponentes vitrais e pisos em mosaico de madeira e pastilhas de vidro com folhas de ouro, a sede da Casa Firjan é uma atração à parte. Além dos atributos arquitetônicos que tem, o local é um símbolo do poderio de uma família. Inicialmente de Cândido Gafrée, sócio de Eduardo Palassin, patriarca dos Guinle, ele não chegou a morar no imóvel. Deu-o de presente à afilhada, Celina Guinle, filha do sócio, na época do seu casamento com Linneo de Paula Machado, importante fazendeiro paulista e fundador do Hipódromo da Gávea. Embora muito se fale do estilo perdulário dos Guinle, a família foi grande empreendedora. Entre outros, deteve por 100 anos a concessão do Porto de Santos. Além de Celina, que teve quatro filhos e ficou viúva nos anos 40, viveu na casa seu irmão Guilherme. “Ele foi de importância crucial no desenvolvimento do país. Foi um dos responsáveis pela construção da CSN e precursor da exploração de petróleo no Brasil”, diz Clóvis Bulcão, autor do livro Os Guinle. Junto com a restauração da mansão, foi erguido um prédio com tudo o que a modernidade preconiza. Com fachada de vidro, telhado verde, brises de madeira que regulam a incidência do sol e detalhes em amarelo, a cor do conhecimento, o imóvel prevê economia de energia e reaproveitamento de água pluvial. “A sustentabilidade, os espaços multiúso e o cuidado em não tirar o protagonismo do palacete deram o tom do projeto”, explica o arquiteto Thorsten Nolte, vencedor do concurso realizado pela Federação das Indústrias.
O empresário Guilherme Guinle: um dos antigos moradores do casarão em Botafogo
A Casa Firjan surge num momento em que cada vez mais se aventam novas tecnologias, como a internet das coisas (objetos do cotidiano, como geladeira ou carro, conectados à rede, agindo de modo inteligente e sensorial), enquanto modelos de negócio, consumo e trabalho são postos em xeque. Se no passado os ciclos de conhecimento levavam 100 anos, esse período caiu para uma década com a web, e agora se estima que, em breve, esse tempo seja reduzido para doze horas. Quando se imaginaria, por exemplo, que o maior concorrente dos hotéis viria de uma tela de computador ou celular, na forma de aplicativo (Airbnb)? “Os ciclos estão cada vez mais curtos. Ninguém mais se prepara para ficar trinta anos numa empresa. É uma época de dor, mas também de muita oportunidade”, avalia Renato Mendes, autor do livro Mude Ou Morra, com palestra já agendada no centro de inovação em Botafogo. Para diminuir a ansiedade diante de tantos desafios, e da velocidade com que se apresentam, o espaço oferecerá atividades socioemocionais, como o mindfulness. Mas nada de certezas absolutas nem discursos cristalizados. “A cada seis meses vamos analisar o mercado e repensar o conteúdo”, explica o gerente do endereço, Gabriel Pinto. Como o cenário que se apresenta, a Casa Firjan estará sempre se transformando.
#
Artigo da jornalista Sofia Cerqueira para a revista “Veja Rio” e editada no site https://vejario.abril.com.br/cidades/casa-firjan-abre-as-portas-ao-publico-como-um-centro-de-inovacao/

Exposições históricas inspiram nova mostra

Para a exposição MAM 70, o curador do museu, Felipe Chaimovich, evitou se basear apenas em uma cronologia. “Nos 60 anos do MAM, houve uma grande exposição na Oca com um andar inteiro dedicado à parte documental, num sentido cronológico. Isso já foi feito”, diz. Portanto, o caminho a ser seguido foi o de mostras históricas do museu em várias épocas, desde Do Figurativismo ao Abstracionismo (1963) a Ecológica (2010). Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 5/9/2018. +

Para a exposição MAM 70, o curador do museu, Felipe Chaimovich, evitou se basear apenas em uma cronologia. “Nos 60 anos do MAM, houve uma grande exposição na Oca com um andar inteiro dedicado à parte documental, num sentido cronológico. Isso já foi feito”, diz. Portanto, o caminho a ser seguido foi o de mostras históricas do museu em várias épocas, desde Do Figurativismo ao Abstracionismo (1963) a Ecológica (2010).
Para o curador, todas essas exposições resgatam um caráter experimental mantido pelo MAM até hoje. “O grande desafio do momento, quando o acesso virtual a imagens não obriga ninguém a visitar um museu, é criar experiências presenciais que sejam insubstituíveis.” Para isso, ele acredita, é preciso inovar. “Já colocamos uma cozinha dentro do museu e um grupo de dança no espaço expositivo”, relembra.
Ainda segundo ele, o museu deve estar aberto ao diálogo. “O MAM tem uma vocação pedagógica e é legítimo que o público questione o museu”, analisa. “Mas é preciso que sejam respeitadas regras de convívio”, afirma ao relembrar os protestos violentos feitos por movimentos conservadores após a polêmica com a performance La Bête, de Wagner Schwartz, em 2017.
Para completar a mostra, o MAM recebe de volta a Aranha de Louise Bourgeois, emprestada pelo Itaú e que fica em exposição até dezembro. “A aranha é um marco para o museu.”
#
Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 5/9/2018.



História dividida

“O museu é uma escola”, anuncia o Museu de Arte Moderna de São Paulo na fachada da instituição, com uma obra homônima do artista Luis Camnitzer, parte de uma exposição comemorativa dos seus 70 anos, inaugurada esta semana. “É fundamental que o museu estabeleça a sua identidade como um lugar de experimentalismo e o educativo é parte importante”, afirma o curador da instituição, Felipe Chaimovich, sobre a escolha da obra que dá as boas-vindas à nova mostra MAM 70: MAM e MAC USP. Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 05/09/18. +

“O museu é uma escola”, anuncia o Museu de Arte Moderna de São Paulo na fachada da instituição, com uma obra homônima do artista Luis Camnitzer, parte de uma exposição comemorativa dos seus 70 anos, inaugurada esta semana. “É fundamental que o museu estabeleça a sua identidade como um lugar de experimentalismo e o educativo é parte importante”, afirma o curador da instituição, Felipe Chaimovich, sobre a escolha da obra que dá as boas-vindas à nova mostra MAM 70: MAM e MAC USP.
Como o próprio nome indica, a exposição é não apenas um balanço dos 70 anos do museu, mas também é sobre uma história compartilhada com o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Fundado em 1948, o MAM doou, em 1963, toda a sua coleção à época para a fundação do MAC. “A coleção dos anos 40 e 50 é uma matriz dos dois museus, que serviram como um impulso seminal para o desdobramento de outras instituições, como a Cinemateca Brasileira e a Bienal de São Paulo”, afirma Felipe.
Para a exposição, algumas das obras doadas ao MAC retornam à antiga casa, na Sala Paulo Figueiredo. São trabalhos icônicos de nomes como Alexander Calder e Jean Arp, além de obras adquiridas pelo MAM nas bienais de São Paulo, evento inicialmente realizado pela instituição, e de Veneza. Na época, prêmios especiais dados por patrocinadores aos artistas garantiam doações ao museu. “O MAM ampliou o seu acervo dentro dessas bienais”, afirma a professora Ana Magalhães, da USP, que fez a curadoria com a colega Helouise Costa e o próprio Felipe.
Nessa curadoria conjunta, os três se basearam não numa cronologia, mas em temas surgidos a partir de exposições históricas do MAM ao longo dos anos: são eles a formação de coleções, a missão pedagógica, a expansão da fotografia e o desafio da contemporaneidade. Por isso, nesse setor inicial, estão presentes obras da mostra Do Figurativismo ao Abstracionismo, como quadros de Fernand Léger e Joan Miró, e ainda aquisições vindas de bienais, como Natureza-Morta (1951) de Maria Leontina, e História de Mar (1952), trabalho de Mattia Moreni inspirado em Guernica, de Picasso, que nunca esteve exposto no MAC.
A sala conta ainda com uma lembrança anterior à inauguração do MAM, as antigas exposições de reproduções de obras de arte que aconteciam na atual Biblioteca Mário de Andrade. “Antes da criação do museu, a biblioteca havia assumido a função de divulgar o colecionismo da arte moderna”, explica Helouise Costa. “Trouxemos as reproduções porque elas tiveram um papel importante na consolidação do Modernismo.”
História conjunta. Para a exposição, a maior sala do MAM foi reservada para contar a história dos dois museus após a doação de 1963, seguindo os quatro temas definidos pela curadoria. Para a escolha das obras, estavam à disposição os acervos completos do MAM e do MAC. “Nos dividimos em relação aos temas e isso nos levou à escolha das obras”, diz Magalhães. Segundo a professora, em nenhum momento foi estabelecido um limite para uso de obras de uma instituição ou de outra.
Assim como as bienais, os Panoramas de Arte Brasileiras realizados pelo MAM serviram para ampliar o acervo do museu, e são lembrados na segunda sala expositiva. “O MAM começou uma nova coleção em 1968 focada em arte brasileira”, diz Felipe. “Com os Panoramas e novas exposições, a coleção, então, acabou se tornando mais experimental e cada vez mais reflexiva sobre o que é a arte brasileira.” Obras de Alfredo Volpi e Rubem Valentim, apresentadas nos Panoramas, são relembradas na exposição.
Inspirado pelo MAM, o MAC também quis manter para si o mesmo caráter de colecionismo. “Quando inaugurado, o MAC quis continuar a conexão com eventos como a Bienal de São Paulo”, afirma Ana Magalhães. A exposição, dessa forma, conta com obras adquiridas pelo MAC ao longo dos anos, de nomes como Wesley Duke Lee e Maria Bonomi.
Ambas as instituições, desde a década de 1970, fizeram grandes apostas na fotografia e em trabalhos multimídia, que também são lembradas na mostra comemorativa. “A exposição ajuda a pensar o histórico da musealização da fotografia”, acredita Magalhães. “Num primeiro momento, só os fotoclubistas eram expostos, ainda no final dos anos 40, mas não entravam no acervo. Só nos anos 80 entraram no MAM.” Já o multimídia ganhou destaque no MAC já a partir de 1976. “Até mesmo o uso do termo multimídia na época foi muito precoce, é algo que se discute muito hoje.”
Os acervos dos dois museus, na mostra, se misturam e levantam o questionamento: por que o Museu de Arte Moderna possui tantas obras contemporâneas, e o Museu de Arte Contemporânea conta com tantos trabalhos modernos? “Esses nomes dizem muito mais sobre o momento em que as instituições foram criadas do que sobre o conteúdo de seus acervos”, explica Costa. “O contemporâneo, inclusive, é algo que se adapta ao longo do tempo. As obras de 40, naquela época, eram contemporâneas.”
Para Felipe Chaimovich, também é natural a presença do contemporâneo no MAM. “O museu tem uma representatividade muito grande do que foi produzido a partir dos anos 60”, ele diz. “Mas todas as exposições do MAM são feitas com um caráter experimental, algo completamente contemporâneo. Então acredito que o modo como o museu se posiciona é que faz a sua coleção tão contemporânea.”
#
Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 05/09/18.


Um olhar para jovens artistas na 33ª edição da Bienal

Nas mostras individuais, nomes atuais como Bruno Moreschi, Luiza Crosman e Maria Laet dividem espaço com os homenageados deste ano, o guatemalteco Aníbal López, o paraguaio Feliciano Centurión e a brasileira Lucia Nogueira. Os três morreram na faixa dos 40 anos e tiveram obras produzidas nos anos 1990. “Foi uma geração muito importante, que trabalhou após as ditaduras”, explica Pérez-Barreiro, que acredita que é dever da Bienal resgatar esses nomes. “O fato de terem morrido tão jovens traz o risco de serem esquecidos”. Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 5/9/2018. +

Em sua 33.ª edição, a Bienal de São Paulo, sob a curadoria geral de Gabriel Pérez-Barreiro, decidiu lançar um olhar especial para jovens artistas. Nomes em ascensão e plena atividade dividem espaço, no Pavilhão, com artistas que morreram cedo, sem tanto reconhecimento.
Um dos maiores destaques desta edição é a brasileira Sofia Borges, que, aos 34 anos, assume a importante função de artista-curadora, ao realizar uma mostra própria no evento em que une suas obras às de outros artistas. Em A Infinita História das Coisas ou o Fim da Tragédia do Um, Sofia discute mitos, com trabalhos de artistas também jovens e contemporâneos dela, como Bruno Dunley e Rafael Carneiro, e nomes renomados, como Tunga, morto em 2016, e Leda Catunda.
“Para os artistas que fizeram novos trabalhos para essa exposição, o direcionamento foi a ideia de fluxo, que vamos desenvolver ao longo dos meses”, explica. A curadora vai fazer, durante todo o período da Bienal, projetos de ativação. “Vamos entender a exposição como obra.”
Além de Sofia, outros artistas-curadores desta edição também escolheram artistas jovens para os seus núcleos, como Cameron Rowland e Jennifer Packer na seção de Alejandro Cesarco e Lhola Amira e MameDiarra Niang na de Wura-Natasha Ogunji.
Nas mostras individuais, nomes atuais como Bruno Moreschi, Luiza Crosman e Maria Laet dividem espaço com os homenageados deste ano, o guatemalteco Aníbal López, o paraguaio Feliciano Centurión e a brasileira Lucia Nogueira. Os três morreram na faixa dos 40 anos e tiveram obras produzidas nos anos 1990. “Foi uma geração muito importante, que trabalhou após as ditaduras”, explica Pérez-Barreiro, que acredita que é dever da Bienal resgatar esses nomes. “O fato de terem morrido tão jovens traz o risco de serem esquecidos.”
#
Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 5/9/2018.

Bienal dos interativos

Entre as homenagens prestadas pelos artistas-curadores aos mortos, um dos pintores que mais justificam o título da Bienal, Afinidades Afetivas, éo sueco Ernst Johnson (18511906), escolhido pela também sueca Mamma Anderson, 56, que expõe suas pinturas ao lado de suas telas – um diálogo, no mínimo, perturbador. Johnson queria ser o Rembrandt da Suécia, mas a sífilis o desfigurou e a esquizofrenia o destruiu. Johnson tinha visões místicas e se pintou como o Messias. No fim da vida, foi socorrido por duas almas bondosas que o abrigaram numa mansão. Mamma Anderson mantém estreito vínculo com a pintura nórdica da virada do século de Johnson. Artigo de Antonio Gonçalves Filho editado n jornal "O Estado de S. Paulo" em 05/09/2018. +

Numa das mais concorridas entrevistas coletivas da história da Bienal de São Paulo (mais de 230 jornalistas de todo o mundo), o curador-geral da 33.ª edição da mostra internacional, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, 48, reafirmou ontem pela manhã o seu propósito de realizar uma exposição sem tema, justificando seu projeto de um modelo descentralizado de curadoria sintonizado com a liberdade artística. Trata-se, segundo ele, de um modelo menos hierárquico de mostra, que pretende contemplar um público bem variado, não necessariamente familiarizado com arte – afinal, na última edição da Bienal, mais de 900 mil visitantes (200 mil estudantes) passaram por ela no Ibirapuera.
Nesta edição, sete mostras foram montadas segundo esse modelo, com artistas assumindo também o papel de curadores, entre eles veteranos como o escultor carioca Waltercio Caldas, 72, que já participou de várias mostras e bienais internacionais, e a jovem paulista Sofia Borges, 34. Pérez-Barreiro lembrou que o artista-curador não é exatamente um modelo novo (considerando que os impressionistas já montavam as próprias exposições em sua época), mas tem o mérito de restabelecer uma prática menos autoritária que a ditadura curatorial dominante até a virada do século, em que os artistas deviam se submeter aos temas e caprichos do curador. Nesta edição, mais enxuta, a Bienal vai exibir 12 mostras individuais, nove delas comissionadas.
Há uma separação bem nítida entre as exposições dos artistas-curadores e os projetos individuais na expografia concebida por Álvaro Razuk, que recorreu ao conceito de arquipélago para isolar cada uma das “ilhas” dos artistas. Entre os projetos individuais estão os do paranaense Bruno Moreschi e da carioca Luiza Crosman, ambos os artistas nascidos nos anos 1980 e questionadores – Moreschi vai apresentar uma obra chamada Outra 33.ª Bienal, que leva em conta a opinião dos visitantes para propor novas ações na mostra internacional.
Pela primeira vez, segundo anunciou a assessoria da Bienal, a mostra faz uma parceria com o Spotify, e terá seu audioguia e playlists especiais na plataforma de streaming. A Bienal também terá um aplicativo com todos os conteúdos informativos da mostra. O cartaz da 33.ª Bienal foi concebido pelo artista gráfico Raul Loureiro, que reproduz a obra Formas Expressivas, do escultor abstrato franco-alemão Hans Arp (18861966), uma pintura em relevo sobre madeira de 1932.
Entre os artistas participantes desta 33.ª edição de Bienal estão pintores como Siron Franco, que exibe uma série de telas de 1987 – baseadas no trágico acidente radioativo com a cápsula de césio 137 abandonada num terreno baldio em Goiânia – e Vânia Mignone, que mostra uma série de pinturas recentes inéditas. Entre os escultores destaca-se o artista carioca Nelson Felix, que montou no pavilhão da Bienal uma instalação de esculturas (Esquizofrenia da Forma e do Êxtase) que se relacionam com uma peça fora do espaço expositivo. Vasos com cactos e chapas com ameaçadores pregos simulam, nas palavras do artista, um “coito violento com a arquitetura de Niemeyer da Bienal”.
Outro escultor, Tunga, morto há dois anos, é homenageado na mostra pelos artistas curadores Sofia Borges e Waltercio Caldas. Além dele, a Bienal presta tributo a três outros artistas mortos, o guatemalteco Aníbal López (1964-2014), o paraguaio Feliciano Centurión (1962-1996), cujos bordados guardam semelhança com os do cearense Leonilson (1957-1993), e a brasileira Lucia Nogueira (1950-1998).
Entre as homenagens prestadas pelos artistas-curadores aos mortos, um dos pintores que mais justificam o título da Bienal, Afinidades Afetivas, éo sueco Ernst Johnson (18511906), escolhido pela também sueca Mamma Anderson, 56, que expõe suas pinturas ao lado de suas telas – um diálogo, no mínimo, perturbador. Johnson queria ser o Rembrandt da Suécia, mas a sífilis o desfigurou e a esquizofrenia o destruiu. Johnson tinha visões místicas e se pintou como o Messias. No fim da vida, foi socorrido por duas almas bondosas que o abrigaram numa mansão. Mamma Anderson mantém estreito vínculo com a pintura nórdica da virada do século de Johnson.
Outra curadoria artística de grande impacto é a do escultor carioca Waltercio Caldas. Foi dele a frase, na coletiva de imprensa, que resume a proposta curatorial de Pérez-Barreiro, a de buscar afinidades entre artistas: “Arte é um rio que não tem mar, que vai em direção a não sei o quê”. É para achar uma resposta que os artistas existem. “Não posso aprisionar aquilo que não tem tamanho”, diz ele, sobre sua decisão de fazer uma curadoria não baseada em nomes, mas em objetos enigmáticos. No espaço que organizou, estão obras de outros grandes escultores (Sérgio Camargo, Tunga, José Resende, Gego).
A despeito de a Bienal não manter mais as salas históricas, a mostra traz obras de artistas que deixaram suas marcas no meio em que atuaram. É o caso da sala dedicada ao cineasta russo Ladislas Starevitch (18821965), pioneiro da animação stop motion. No curta animado La Revanche du Ciné-opérateur (A Vingança do Cameraman), realizado em 1912, ele acompanha a vida de um casal de besouros que herda uma boa caneca de cerveja. Detalhe: Starevitch usa besouros mortos de verdade, que ganham uma segunda vida na tela. Uma preciosidade quase tão desestabilizadora como o vídeo do holandês Roderick Hietbrink, 43, The Living Room, em que um carvalho (real) invade um apartamento modernista arrastando móveis e bibelôs pelo caminho. A Bienal será inaugurada na sexta (7) e fica aberta até 9 de dezembro.
#
Artigo de Antonio Gonçalves Filho editado n jornal "O Estado de S. Paulo" em 05/09/2018.


Facebook censura fotos de Sebastião Salgado de tribo indígena da Amazônia

O Facebook impediu que usuários compartilhassem o especial da Folha “Sebastião Salgado na Amazônia”, publicado no último domingo (2). Artigo editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 5/9/2018. +

O Facebook impediu que usuários compartilhassem o especial da Folha “Sebastião Salgado na Amazônia”, publicado no último domingo (2).
A série de reportagens inclui fotos dos índios suruwahas em seus trajes tradicionais, com os corpos parcialmente nus.
O diretor de cinema Roberto Gervitz compartilhou no seu perfil pessoal, cujas publicações são visíveis por qualquer pessoa na rede, o link do site do jornal para as imagens.
Cerca de três horas depois, foi surpreendido com uma mensagem do Facebook: “sua publicação viola nossos Padrões da Comunidade sobre nudez ou atividade sexual. Ninguém mais pode ver a sua publicação”.
A medida tomada pelo Facebook é absurda, disse Gervitz. O diretor afirma que nunca teve dificuldades de postar conteúdos parecidos na rede antes.
Na tarde de segunda-feira (3), a reportagem tentou compartilhar o mesmo link em outro perfil.
A rede social classificou o post como “spam” e, mesmo depois que o usuário confirmou a autoria da publicação, o conteúdo permaneceu indisponível.
Não é a primeira vez que o Facebook remove imagens de índios por considerar que elas violam suas regras contra nudez.
A conta da Funai (Fundação Nacional do Índio) na rede social foi bloqueada durante sete dias no fim de agosto por uma foto em que índias da tribo Waimiri Atroari estão com seios à mostra.
A fundação fez um post no Instagram, aplicativo de compartilhamento de fotos que pertence ao mesmo grupo econômico do Facebook, em que criticou a decisão.
Segundo a Funai, foi a terceira vez que a empresa bloqueou seu perfil. A rede pediu desculpas pelo ocorrido e restituiu o acesso à página da fundação e à publicação original.

OUTRO LADO

Procurado, o Facebook pediu desculpas pelo ocorrido e informou que o post com o link do especial havia sido “incorretamente removido”.
“Apesar de nossos Padrões da Comunidade não permitirem nudez, buscamos compreender o valor histórico, noticioso e cultural durante o processo de análise de conteúdos”, afirmou em nota.
Na tarde desta terça (4), o post publicado pela reportagem estava disponível na rede.
A empresa informou também que se comprometeu, em abril deste ano, a desenvolver um mecanismo de “recurso de apelação”. Ele permitirá que os usuários questionem a remoção de conteúdo por nudez, atividade sexual, discurso de ódio ou violência explícita.
#
Artigo editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 5/9/2018.

Louvre tem equipe antifogo 24 horas

Uma companhia de 67 bombeiros trabalha no mais importante museu da França, o Louvre, para evitar incêndios como o que destruiu o Museu Nacional no Rio. Os agentes não atuam apenas em circunstâncias emergenciais – em média cinco princípios de incêndio por ano –, mas 24 horas, todos os dias, monitorando 6 mil sensores de incêndios e equipamentos de segurança espalhados por 14,5 quilômetros de corredores. Artigo de Andrei Netto para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 04/09/2018. +

Uma companhia de 67 bombeiros trabalha no mais importante museu da França, o Louvre, para evitar incêndios como o que destruiu o Museu Nacional no Rio. Os agentes não atuam apenas em circunstâncias emergenciais – em média cinco princípios de incêndio por ano –, mas 24 horas, todos os dias, monitorando 6 mil sensores de incêndios e equipamentos de segurança espalhados por 14,5 quilômetros de corredores.
Em toda a Europa os principais museus contam com brigadas especializadas para evitar que o patrimônio cultural vire cinzas do dia para a noite. Ou sofra com inundações ou falhas nos encanamentos.
No Louvre, todos os dias, a equipe verifica o parque de 2 mil extintores e gerencia os dispositivos de alarme. Toda intervenção é feita por equipes a pé, não autorizadas a correr no museu. A companhia não tem carros de bombeiros nem grandes escadas, mas dois veículos elétricos sem sirene autorizados a rodar a no máximo 15km/h para transporte de materiais. Os agentes são treinados para efetuar remoções de obras de arte, se possível usando luvas de seda brancas, e atentos aos detalhes frágeis de cada obra.
Em Madri, museus como Reina Sofia contam também com sistemas para reduzir o nível de oxigênio nas salas, diminuindo o risco de propagação do fogo.
#
Artigo de Andrei Netto para o jornal "O Estado de S. Paulo" editado em 04/09/2018.

Museus de SP investem em câmeras e vigilância

A Pinacoteca – o museu mais antigo da cidade, fundado em 1905 pelo governo do Estado – mantém como obrigação, em contrato, investir 6% da verba em segurança. “Nos últimos 12 anos temos feito investimento regular em tecnologia, equipamento e no treinamento de pessoas”, diz o diretor financeiro da instituição, Marcelo Dantas. Artigo de Pedro Rocha para o jornal " O Estado de S. Paulo" editado em 4/9/18. +

Para evitar tragédias como a que aconteceu no Museu Nacional, no Rio, importantes museus paulistas investem na vigilância de seus espaços 24 horas, na instalação de câmeras de segurança e detectores de fumaça, e na revisão periódica de alarmes e sistemas anti-incêndios.
A Pinacoteca – o museu mais antigo da cidade, fundado em 1905 pelo governo do Estado – mantém como obrigação, em contrato, investir 6% da verba em segurança. “Nos últimos 12 anos temos feito investimento regular em tecnologia, equipamento e no treinamento de pessoas”, diz o diretor financeiro da instituição, Marcelo Dantas.
Segundo Dantas, os três itens citados são fundamentais para evitar incêndios no museu. A Pinacoteca também conta com uma central de monitoramento com mais de 150 câmeras e com detectores de fumaça. Se um detector é acionado, rapidamente, pelas câmeras, é possível ver a origem do fogo. “As equipes, então, já fazem o diagnóstico.” A instituição tem ainda diferentes tipos de extintores de incêndio, mas evita os chamados sprinklers, que podem danificar as obras.
Procurado após o incêndio no Museu Nacional, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) informou que a brigada de incêndio da instituição conta com sete bombeiros 24 horase sete dias por semana nas suas dependências, além de 18 seguranças que se revezam no monitoramento do edifício.
Os hidrantes, extintores e alarmes, segundo a instituição, são constantemente checados e as instalações elétricas, revisadas com frequência. “Recentemente, trocamos os alarmes contra incêndio e, neste momento, estamos trocando as portas corta fogo”, diz o Masp, por meio de nota.
O Masp afirma que recebeu dos bombeiros, em 2008, a classificação de baixo risco de incêndio, uma vez que não armazena grandes quantidades de materiais combustíveis pois a edificação é constituída basicamente de concreto e vidro. Em museus que sofreram incêndios recentemente, as estruturas eram, em grande parte, de madeira.
Preocupação. Para especialistas, a segurança preocupa mais em museus fora de São Paulo. A consultora de arte brasileira Bianca Cutait, membro de 17 museus pelo mundo, cita que o Museu de Arte do Rio de Janeiro (Mar) possui uma rachadura preocupante. Para a professora Maria Eleutério, da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), instituições com arquivos em papel devem reforçar os cuidados. “A Biblioteca Nacional, por exemplo, tem acervo combustível.”
#
Artigo de Pedro Rocha para o jornal " O Estado de S. Paulo" editado em 4/9/18.



Gasto com segurança foi zero neste ano

Alvo de um incêndio de grandes proporções, o Museu Nacional não gastou nada neste ano para a compra de equipamentos ou materiais de segurança. Também não foi feito nenhum pagamento para serviços de manutenção de imóveis ou aquisição de materiais para essa finalidade. Levantamento da ONG Contas Abertas mostra ainda que, nos últimos quatro anos, os desembolsos realizados com essas atividades estão bem abaixo do que se imaginaria para um prédio daquela dimensão e, sobretudo, com 200 anos. Artigo editado no Jornal "O Estado de S. Paulo". Autoria de Camilla Turtelli, Marcelo Godoy, Lygia Formeti, Roberta Pennafort e Marco Antonio Carvalho. +

Alvo de um incêndio de grandes proporções, o Museu Nacional não gastou nada neste ano para a compra de equipamentos ou materiais de segurança. Também não foi feito nenhum pagamento para serviços de manutenção de imóveis ou aquisição de materiais para essa finalidade. Levantamento da ONG Contas Abertas mostra ainda que, nos últimos quatro anos, os desembolsos realizados com essas atividades estão bem abaixo do que se imaginaria para um prédio daquela dimensão e, sobretudo, com 200 anos.
Entre 2015 e 2017 foram gastos R$ 16.971 com a compra de equipamentos e materiais de segurança. Já para a aquisição de materiais e serviços de manutenção de imóvel, o gasto foi de R$ 250.236 (valores corrigidos).
Dados da Comissão Mista de Orçamento (CMO) da Câmara dos Deputados mostram também que nos últimos cinco anos os repasses da União ao Museu Nacional, no Rio, encolheram mais de 49%. Em 2013, foi R$ 1,3 milhão em pagamentos, em valores corrigidos pela inflação. No ano passado, foram R$ 665 mil. Neste ano, os pagamentos até agosto não chegam a R$ 100 mil. Em 2018, de acordo com o levantamento, foram utilizados R$ 51.880 para programa de bolsa de estudos e R$ 46.235 para outras despesas.
Para dar uma dimensão dos recursos gastos com o museu, o Contas Abertas fez uma comparação entre os valores pagos no ano passado pelo museu e os gastos para lavar 83 carros oficiais da Câmara dos Deputados. O custo anual foi de R$ 563.333,56, 89% dos desembolsos feitos em 2017 pelo museu.
O Ministério da Educação (MEC) disse que não repassa verbas diretamente ao museu, uma vez que a gestão é feita pela Universidade Federal do Rio (UFRJ). Já o reitor da instituição, Roberto Leher, atribuiu a incapacidade de investir em segurança à restrição orçamentária imposta à UFRJ. Segundo ele, a maior parte da verba repassada tem sido usada no custeio, como contas de luz. Para o projeto anti-incêndio, Leher disse ter contatado o BNDES, de onde havia obtido em junho financiamento de R$ 21,7 milhões. Outros museus. Outro levantamento mostra que o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) gastou só 20,8% da verba (R$ 1,7 milhão) que tinha para ser usada em investimento, manutenção e conservação de suas 30 instituições no País em 2017. Ao todo, o orçamento da autarquia previa gastos de R$ 8,3 milhões com implementação, instalação e modernização de espaços e equipamentos e com a promoção e fomento à cultura. Esses são os dois itens do orçamento onde estão, segundo o Ibram, contidos esses gastos.
A diferença entre o previsto no orçamento e o executado está ligada ao contingenciamento de gastos. O primeiro efeito é a diferença entre o previsto e o empenhado – ou seja, gasto autorizado, mas ainda não pago. Até ser pago, o dinheiro passa ainda por outra peneira.
Um exemplo disso é o total pago na rubrica “Implantação, instalação e modernização de espaços e equipamento”. Ela foi de só 6,4% do que foi empenhado no ano passado pela direção do órgão. Foram gastos R$ 168,6 mil dos R$ 2,6 milhões empenhados – a dotação orçamentária era de R$ 5,9 milhões.
Os 30 museus controlados pelo Ibram tem 295 mil peças em seus acervos, sem contar documentos e livros. Os maiores são o Museu Histórico Nacional, no Rio, com 164 mil peças; o Museu do Ouro, em Sabará (MG), com 44 mil; e o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, com 22 mil.
O primeiro deles detém coleções numismáticas e filatélicas. O acervo do Museu do Ouro é constituído por mobiliário, porcelanas, imagens religiosas e objetos usados na mineração nos séculos 18 e 19. O de Belas Artes mantém coleções importantes, como a de pintores brasileiros no século 18, modernistas e obras de estrangeiros.
Além disso, os R$ 4,2 milhões em emendas parlamentares destinadas ao Ibram em 2017 também não foram pagos. O órgão recebeu R$ 159 mil do PAC dos R$ 391 mil que haviam sido empenhados, segundo dados fornecidos em março por Lei de Acesso à Informação (LAI).
Sobre o custeio, o órgão pagou até o fim de março 78,9% do total empenhado para manutenção administrativa dos museus – R$ 58,4 milhões dos R$ 74,1 milhões empenhados. A diferença devia ser saldada este ano.
O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que o investimento em museus em três anos, considerando todos os mecanismos, chegou a R$ 600 milhões. Ele minimizou o fato de o Ibram ter tido dispêndio pequeno em 2017 na rubrica para modernização de equipamentos culturais.
#
Artigo editado no Jornal "O Estado de S. Paulo". Autoria de Camilla Turtelli, Marcelo Godoy, Lygia Formeti, Roberta Pennafort e Marco Antonio Carvalho.

Sem estrutura antifogo e seguro, Museu Nacional perde 90% do acervo

Não havia porta anti-incêndio nem sprinklers. Os detectores de fumaça não funcionaram. A água nos hidrantes não era suficiente. Não havia seguro contra incêndio e o acervo não estava segurado. E as verbas de manutenção caem há anos. Foi assim que se perdeu no incêndio de anteontem 90% do acervo do Museu Nacional, no Rio. Artigo de Roberta Pennafort para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 4/9/2018. Colaboraram Lígia Formeti, Felipe Frazão, Fábio Grellet, Denise Luna, Vinícius Neder, Márcio Dolzan, Marco Antônio Carvalho e Roberta Jansen. +

Não havia porta anti-incêndio nem sprinklers. Os detectores de fumaça não funcionaram. A água nos hidrantes não era suficiente. Não havia seguro contra incêndio e o acervo não estava segurado. E as verbas de manutenção caem há anos. Foi assim que se perdeu no incêndio de anteontem 90% do acervo do Museu Nacional, no Rio.
“Sobrou talvez uns 10%”, estimou a vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo. Segundo ela, só a reconstrução do prédio custará R$ 15 milhões. “A gente estava preocupado com incêndios. Tivemos problemas de falta de verba e burocrática”, lamentou. “A culpa é de todos. A gente fica com muita raiva.” Cristiana relatou que não tem informações sobre a principal peça da instituição, o fóssil de Luzia, o mais antigo das Américas. O crânio ficava em uma caixa não localizada.
A Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil do Rio mantém interditada a construção, por considerar que existe grande risco de desabamento interno. Podem desabar trechos remanescentes de lajes, parte do telhado e paredes divisórias.
O incêndio de grandes proporções começou por volta das 19h30 de anteontem e durou até por volta das 2 horas de ontem. Segundo o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, há duas possibilidades em investigação: queda de um balão ou curto-circuito. “Parece que o fogo começou por cima, no alto, e foi descendo. O Museu Nacional já estava fechado, a brigada de incêndio não estava mais lá e os vigias demoraram a perceber o incêndio.”
Foi quando um grupo de funcionários entrou no prédio em chamas para tentar salvar o que fosse possível. Segundo relatos, de 30 a 40 servidores – incluindo aposentados e o reitor da Universidade Federal do Rio (UFRJ), Roberto Leher – se deslocaram até o local. O biólogo Paulo Buckup ficou das 20h30 até 22 horas, até ser retirado por bombeiros. “Na hora só pensei que ali estavam a minha vida e a de colegas.”
A ação dos bombeiros durou mais de seis horas e consumiu 600 mil litros de água, parte retirada de um lago da Quinta da Boa Vista. A Cedae, estatal de saneamento, negou que tenha faltado água nos hidrantes e destacou a dimensão do fogo.
A Associação Amigos do Museu Nacional incluiu, em dois projetos encaminhados ao Ministério da Cultura para pedir recursos, alertas sobre o funcionamento inadequado do sistema de prevenção a incêndios e riscos associados à grande quantidade de material inflamável guardado no palácio.
O museu informava que era necessário modernizar e ampliar os equipamentos de detecção de fumaça, com sensores inteligentes e por infravermelho, além de alarmes. Os detectores não funcionavam por causa da altura do prédio. Ainda era preciso remodelar o sistema de extintores para “prevenir ocorrências de maior monta”.
A investigação caberá agora à Polícia Federal. Mas não está descartada a colaboração com policiais do Rio. O reitor da UFRJ e o diretor do Museu Nacional, Alex Kellner, culparam o governo federal pela falta de recursos. Eles lembraram que a partir de 2015 foi desenvolvido um projeto de recuperação do edifício histórico, mas a liberação do dinheiro – cerca de R$ 21 milhões, do BNDES – só saiu este ano.
Segundo o banco de fomento, a demora ocorreu por adequações no projeto – a versão original previa o desenho de um sistema de combate a incêndio, mas não sua implementação – e pela necessidade de aval de órgãos fiscalizadores, urbanísticos, ambientais e de patrimônio. Depois, o ministro da Educação concordou: “A responsabilidade existe e é histórica.”
Reconstrução. O MEC destinará R$ 10 milhões para reformas emergenciais do Museu Nacional e outros R$ 5 milhões para obras posteriores. “A reconstrução deve demorar de três a quatro anos”, afirmou Rossieli Soares. O reitor Leher disse que planeja instalar um anexo em 2019 para retomar aulas e pesquisa. Já o ministro Sá Leitão informou que há empresas privadas e bancos interessados em patrocinar obras, sem dar detalhes.
O caso teve repercussão internacional. “Aquele edifício, além de ter albergado monarcas, era um testemunho de inúmeros momentos decisivos de nossa história”, lamentou o chefe da Casa Imperial, d. Luiz de Orleans e Bragança.
#
Artigo de Roberta Pennafort para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 4/9/2018.

Colaboraram Lígia Formeti, Felipe Frazão, Fábio Grellet, Denise Luna, Vinícius Neder, Márcio Dolzan, Marco Antônio Carvalho e Roberta Jansen.

Em tom nostálgico, MAM celebra seus 70 anos revendo o acervo que perdeu

Mesmo coerente com a história dos museus (MAM e MAC), a exposição resulta um tanto burocrática, com peso demais para artistas menores e um atrito entre suas várias alas, em especial a última, dedicada a uma grande instalação de Nelson Leirner e a com trabalhos de Rodrigo Braga, resumindo o que Felipe Chaimovich, curador do MAM, defende como a vertente ecológica desse acervo.Artigo de Silas Martí editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 4/9/2018. +

Os mais velhos ainda lembram. Um dos maiores museus do país ficava escondido no terceiro andar de um prédio na Sete de Abril, no centro paulistano, com entrada pelo elevador dos fundos.
Foi ali, há sete décadas, que o Museu de Arte Moderna primeiro tentou trazer a São Paulo uma amostra das vanguardas estéticas que corriam a Europa e os Estados Unidos.
Uma das vedetes da exposição inaugural, um móbile todo branco do americano Alexander Calder flutuava no salão como sinal de uma nova era. A peça batizada pelo artista como floco de neve foi, apesar do nome gélido, o prelúdio de um momento de enorme ebulição no cenário artístico.
Setenta anos depois, agora emprestado da coleção do Museu de Arte Contemporânea da USP, esse mesmo trabalho é a âncora visual de uma das salas da mostra que repassa a história do MAM, alojado desde a década de 1980 numa galeria de vidro debaixo da marquise do parque Ibirapuera.
O endereço antes provisório, reformado por Lina Bo Bardi sob as linhas sinuosas desenhadas por Oscar Niemeyer, acabou se tornando uma morada permanente.
Quis o destino que o irmão gêmeo do MAM fosse parar do outro lado da avenida. Quando o MAC trocou a Cidade Universitária pelo antigo prédio do Detran, também de Niemeyer, o entrelaçamento histórico dessas duas instituições ficou ainda mais evidente.
Tanto que o que mais aparece nesse recorte do melhor do MAM em suas sete décadas de existência são obras do MAC.
Os dois museus, no caso, têm a mesma origem. Ciccillo Matarazzo fundou a instituição dedicada ao modernismo em 1948, num espaço improvisado na metalúrgica da família. Três anos depois, com a primeira edição da Bienal de São Paulo, o MAM foi engordando seu acervo com as obras apresentadas no evento.
Mas tudo mudou em 1963. Um tanto cansado da burocracia do museu, Matarazzo doou para a Universidade de São Paulo sua riquíssima coleção de arte de vanguarda, arrematada num momento em que a Europa ainda apagava os incêndios da Segunda Guerra. O MAC surgiu então forjado da espinha dorsal do velho MAM, que se esvaziou.
E só voltou a encher anos mais tarde, embora o foco fosse outro. Desde então, o MAM construiu uma grande coleção de arte contemporânea, deixando a modernidade para a instituição vizinha.
O fato de ambos os museus terem se repensado ao longo do tempo, aliás, funciona agora como o denominador comum da comemoração. "É superar impasses históricos e pensar daqui por diante o futuro das duas instituições", diz Helouise Costa, uma das curadoras à frente da exposição.
Nesse ponto, fica nítido que os nomes desses dois museus já não definem seus acervos, e que a ideia de modernidade —mais do que um momento histórico específico— ainda conduz os anseios dos vizinhos.
Um exemplo é a ala de fotografia da exposição, em que obras contemporâneas de Mauro Restiffe ecoam os contornos modernos das célebres "Fotoformas" de Geraldo de Barros, repisando a ideia de que todos ali tinham o novo —nesse caso, encarnado pelo geometrismo— como farol.
"O imaginário modernista está presente o tempo todo", diz Ana Magalhães, também à frente da mostra. "Isso está muito impresso nas coleções."
Mesmo coerente com a história dos museus, a exposição resulta um tanto burocrática, com peso demais para artistas menores e um atrito entre suas várias alas, em especial a última, dedicada a uma grande instalação de Nelson Leirner e a com trabalhos de Rodrigo Braga, resumindo o que Felipe Chaimovich, curador do MAM, defende como a vertente ecológica desse acervo.
Esse recorte irregular, no entanto, joga luz sobre a riqueza da história. Em tempos de museus pegando fogo, nunca é demais relembrar vontades do passado que moldaram as grandes coleções do presente. Lado a lado no Ibirapuera, MAM e MAC parecem fazer aqui um manifesto político pela união de seus acervos.
#
Artigo de Silas Martí editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 4/9/2018.


Tradição no exterior, apólice de seguro é praticamente inexistente no Brasil

Nenhum museu brasileiro em qualquer esfera, federal, estadual ou municipal, tem seguro para proteção do acervo permanente, que incluiria também a cobertura a danos nos edifícios, afirma o especialista em gestão de segurança da seguradora e resseguradora britânica JLT, Roberto Muniz. De acordo com o profissional, no Brasil, apenas exposições temporárias ou galerias privadas costumam contratar seguros para as obras. Artigo de Sérgio Tauhata editado no jornal "Valor Econômico" em 4/9/2018. +

Nenhum museu brasileiro em qualquer esfera, federal, estadual ou municipal, tem seguro para proteção do acervo permanente, que incluiria também a cobertura a danos nos edifícios, afirma o especialista em gestão de segurança da seguradora e resseguradora britânica JLT, Roberto Muniz. De acordo com o profissional, no Brasil, apenas exposições temporárias ou galerias privadas costumam contratar seguros para as obras.
A diretora de seguros patrimonial e responsabilidade civil da Marsh Brasil, Eduarda Tenes, também reforça esse cenário. "É possível que grande parte dos museus no Brasil não tenha seguro", diz.
Conforme Muniz, "lá fora os museus normalmente contam com seguros", que, além de incêndios e catástrofes naturais, costumam incluir cobertura contra roubo, vandalismo e até terrorismo. Para a contratação da apólice as instituições precisam cumprir regras de segurança, que influenciam no valor do prêmio.
"As seguradoras têm engenheiros e outros profissionais capacitados que fazem inspeções e apontam as recomendações de segurança que forem compatíveis com os riscos identificados", diz. Conforme Muniz, "as principais instituições de países desenvolvidos realizam fiscalizações periódicas para garantir o cumprimento das medidas definidas no mapeamento de riscos e toda equipe é treinada para cumprir as determinações de segurança".
Para Eduarda, mesmo lá fora, no entanto, esse tipo de cobertura "tem uma colocação muito complexa, dado que o objetivo do seguro é indenizar os bens no estado em que eles se encontravam no momento do sinistro e pelo valor de reposição".
Na avaliação da diretora da Marsh, em relação a obras de arte torna-se muito difícil estimar o valor dos bens e, em grande parte das situações, é virtualmente impossível reparar o dano ou a perda, em particular, em acervos muito grandes ou peças mais raras. Ainda assim, a apólice ajuda conter o custo do sinistro.
No exterior, aponta Eduarda, os principais seguros para museus são de risco patrimonial, para garantia dos bens, e de responsabilidade civil para garantia em casos de danos a terceiros. As principais exposições dos museus estão relacionadas a danos materiais, danos da natureza e roubo, além da exposição de responsabilidade civil geral, afirma.
Muniz pondera, entretanto, que os valores cobertos pelo seguro de museu não precisam ser feitos pelo valor de mercado do acervo ou poderiam abranger, ao menos, as instalações. "A instituição pode estabelecer os limites que desejar", diz. A proteção ainda pode ser contratada para coleções e obras específicas.
De acordo com Muniz, como referência, a taxa média de seguro anual para um acervo permanente pode ser estimada entre 0,10% e 0,20% do valor avaliado para a coleção. "Dessa forma, por exemplo, o prêmio anual para um acervo de US$ 500 milhões pode ser estimado entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão", diz. Ele ressalva que os valores variam de acordo com os problemas percebidos, ou seja, quanto pior a gestão de risco da instituição, mais cara fica a apólice, a ponto de inviabilizar a contratação.
No Brasil, a falta de contratação de seguros por parte de museus públicos pode ocorrer, muita vezes, porque a instituição não consegue cumprir os padrões de segurança mínimos. "Você pode considerar que, se a instituição não está dentro do padrão recomendado, não se pode fazer o seguro", afirma. O especialista acrescenta que "o mercado até aceita um certo nível de desacordo das recomendações, mas tem um nível mínimo" a ser cumprido.
O problema da falta de segurança pode impactar até mesmo exposições temporárias, que sempre têm seguro por exigência do colecionador que empresta a obra. "Na minha experiência, muitas vezes, [as obras] ficam expostas a condições, diria até péssimas do ponto de vista de gestão da segurança", afirma. Segundo Muniz, "em inspeções, nos deparamos até mesmo com instituições que não tinham sequer uma brigada anti-incêndio organizada".
As instituições privadas que têm seguro de acervo costumam contar, segundo o especialista da JLT, com sistemas de segurança muito mais rigorosos, que incluem monitoramento 24 horas e até salas específicas para exibição e proteção de acervos especiais. "Áreas que lidam com materiais inflamáveis, por exemplo, oficinas e próprio depósito do acervo permanente, em geral, precisam estar isoladas e preferencialmente até em uma outra edificação."
A contratação da proteção, na prática, representa um processo de transferência de risco através do mercado segurador. Com isso, as instituições expositoras conseguem agregar os serviços de gerenciamento de risco, realizado pelas empresas especializadas, com mapeamento periódico de vulnerabilidades.
#
Artigo de Sérgio Tauhata editado no jornal "Valor Econômico" em 4/9/2018.

Museu Nacional: só 2 dos 13 programas presidenciais falam em proteção a museus

Apenas o Programa do PT e o de Marina Silva citam museus. O PT diz que fortalecerá o Iphan e o Ibram para “proteção e promoção do patrimônio cultural e de fortalecimento da política nacional de museus”. Marina Silva, candidata da Rede, incluiu a política de valorização de museus em seu programa: “Nos comprometemos a oferecer condições de funcionamento a museus, arquivos e bibliotecas”, diz seu programa. Artigo de Raphael Kapa para a seção Lupa, da revista “Piauí”, editado por Cristina Tardáguila e Natália Leal, e publicado em 3/9/2018 no site HTTPS://PIAUI.FOLHA.UOL.COM.BR/LUPA/COLABORADOR/RAPHAEL-KAPA/ +

Apenas o Programa do PT e o de Marina Silva citam museus. O PT diz que fortalecerá o Iphan e o Ibram para “proteção e promoção do patrimônio cultural e de fortalecimento da política nacional de museus”. Marina Silva, candidata da Rede, incluiu a política de valorização de museus em seu programa: “Nos comprometemos a oferecer condições de funcionamento a museus, arquivos e bibliotecas”, diz seu programa. Artigo de Raphael Kapa para a seção Lupa, da revista “Piauí”, editado por Cristina Tardáguila e Natália Leal, e publicado em 3/9/2018 no site HTTPS://PIAUI.FOLHA.UOL.COM.BR/LUPA/COLABORADOR/RAPHAEL-KAPA/


Na noite do último domingo (2/9/2018), um incêndio de mais de cinco horas destruiu a maior parte do acervo do Museu Nacional, mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Enquanto as chamas consumiam o edifício histórico, que completava 200 anos em 2018, candidatos e políticos de diferentes espectros ideológicos foram às redes sociais denunciar o descaso dos governos com a instituição. O próprio ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, em entrevista à GloboNews, disse que a tragédia era resultado de negligência.
Por conta da dimensão da perda e da repercussão midiática, é bem provável que a cultura finalmente entre na pauta da campanha eleitoral. Por conta disso, a Lupa checou como os candidatos à Presidência da República trataram a preservação do patrimônio cultural e a política de museus nos programas de governo que registraram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Veja a seguir o resultado:

ALVARO DIAS
O candidato do Podemos não traz nenhuma proposta para preservação do patrimônio cultural ou para a valorização de museus. No campo da cultura, a única promessa é “Cultura livre com Cartão Cultura”.

CABO DACIOLO
O candidato do Patriota não menciona nenhuma política voltada especificamente para a cultura em seu programa.

CIRO GOMES
O pedetista destaca um capítulo de seu programa para promessas relacionadas à cultura, entretanto não faz nenhuma menção direta à valorização de museus. O tópico que tangencia o tema promete “preservação e ampliação de nosso patrimônio artístico-cultural”.

EYMAEL O candidato do DC faz três promessas amplas para a cultura, incluindo “resgate e valorização da cultura e da identidade nacional”. Não há nenhuma menção sobre valorização ou política de museus.

GERALDO ALCKMIN
O tucano atrela as políticas culturais a pautas econômicas em seu plano de governo. Afirma que o desenvolvimento da indústria criativa auxiliará o empreendedorismo em cultura. Também diz que reconhece as diversas manifestações artísticas como parte de um desenvolvimento econômico. O candidato não traz nenhuma proposta sobre a preservação do patrimônio cultural ou uma valorização dos museus.

GUILHERME BOULOS
O candidato do PSOL dedica oito páginas do seu programa à cultura e define oito promessas para a área, incluindo 2% do PIB. Entretanto, Boulos não apresenta nenhuma proposta relacionada de forma direta à política de museus.

HENRIQUE MEIRELLES
O emedebista não expôs nenhuma proposta para a área da cultura, preservação do patrimônio cultural ou museus em seu programa.

JAIR BOLSONARO
O candidato do PSL também não menciona propostas para a cultura e política de museus.

JOÃO AMOÊDO
Na disputa representando o partido Novo, João Amoêdo não traz nenhuma proposta relacionada à preservação de patrimônio cultural. Neste campo, somente afirma que implementará “novas formas de financiamento de cultura, do esporte e da ciência com fundos patrimoniais de doações”

JOÃO GOULART FILHO
Dos 20 pontos em seu programa, o representante do PPL dedica um à cultura. Ainda assim, não há nenhuma menção direta à valorização de museus. As propostas tratam sobre restabelecer uma política cultural e focar em produzir ambientes digitais de memória.

PROGRAMA DO PT
O PT, que teve Lula considerado inelegível na última sexta-feira, afirma em seu programa de governo que fortalecerá o Iphan e o Ibram para “proteção e promoção do patrimônio cultural e de fortalecimento da política nacional de museus”.

MARINA SILVA
A candidata da rede incluiu a política de valorização de museus em seu programa. Ela afirma o seguinte: “Nos comprometemos a oferecer condições de funcionamento a museus, arquivos e bibliotecas”

VERA LUCIA
Representante do PSTU na corrida presidencial não inseriu nenhuma proposta relacionada a política de museus em seu programa.
#
Artigo de Raphael Kapa para a seção Lupa, da revista “Piauí”, editado por Cristina Tardáguila e Natália Leal, e publicado em 3/9/2018 no site HTTPS://PIAUI.FOLHA.UOL.COM.BR/LUPA/COLABORADOR/RAPHAEL-KAPA/

Pinacoteca recorre de decisão sobre taxas

A Pinacoteca do Estado de São Paulo anunciou que vai recorrer de uma decisão do desembargador Luis Antonio Johonson Di Salvo, do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, em São Paulo, que derrubou uma liminar concedida em favor do museu num caso envolvendo o aeroporto de Viracopos, em Campinas. Artigo de Pedro Rocha editado no jornal "O Estado de S. Paulo" em 31/08/18. +

A Pinacoteca do Estado de São Paulo anunciou que vai recorrer de uma decisão do desembargador Luis Antonio Johonson Di Salvo, do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região, em São Paulo, que derrubou uma liminar concedida em favor do museu num caso envolvendo o aeroporto de Viracopos, em Campinas. A decisão judicial é do dia 17 de agosto, mas só agora veio a público, cassa a determinação que garantia à Pina o direito de pagar as taxas de armazenagem na chegada de obras de arte ao País, por Viracopos, numa tabela por peso e com valor reduzido, por se tratar de um evento cultural.
As obras em questão fazem parte da exposição Mulheres Radicais – Arte Latino-Americana, 1960-1985, que, com a liminar anterior, foi aberta sem problemas em São Paulo, onde segue até novembro. Com a nova decisão da Justiça, porém, as taxas a serem pagas devem ser aplicadas fora da tabela especial do Aeroporto de Viracopos, a de número 9, e sim por outra tabela por peso, a 8, juntamente ainda com uma outra tabela de taxação, a 7, que cobra pelo chamado valor CIF, que é a soma das parcelas relativas ao custo, seguro e frete da carga importada.
Em Viracopos, a taxa é de 0,75% do montante e a porcentagem aumenta com o tempo em que as cargas passam armazenadas. De acordo com a Pinacoteca, com a nova decisão, o valor cobrado, então, passa de R$ 1.079 para cerca de R$ 56 mil.
É mais um capítulo de uma novela que vem se desdobrando desde o início do ano, com galerias de arte, e teve um destaque maior com a feira SP-Arte, em abril, e com exposições do Masp e do Instituto Tomie Ohtake em maio e junho, que também tiveram problemas nos aeroportos. Em alguns casos, a cobrança foi ainda maior, já que se aplicava pela tabela 11, de cargas de alto valor, que levam em consideração os preços das obras de arte, que poderiam chegar a milhões de reais. Até o caso mais recente, da Bienal de São Paulo, as instituições culturais conseguiram vitórias na Justiça com liminares e no decorrer dos processos.
No caso da Pinacoteca, foi a primeira vez que um desembargador concordou com os argumentos dos aeroportos. O que vem ocorrendo, na verdade, não é por mudanças na lei, e sim uma reinterpretação da lei vigente. Nos contratos de concessão dos aeroportos, baseados na Portaria n.° 219/GC5, de 27 de março de 2001, da Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, são definidas as taxas para “cargas que entrarem no País sob o regime de Admissão Temporária destinadas, comprovadamente, aos certames e outros eventos de natureza científica, esportiva, filantrópica ou cívico-cultural”.
O termo que vem causando a polêmica é justamente o “cívico-cultural”, que sempre foi entendido como qualquer evento de natureza cultural. Os aeroportos do País fazem diferentes alegações, a depender dos casos, que questionam o termo. No exemplo da exposição de obras do Tate Modern, de Londres, no Masp, o próprio aeroporto de Campinas declarou que “tais eventos, como exposições de obras de artes, por exemplo, não podem ser qualificados como ‘cívico-cultural’, tendo em vista que têm fins lucrativos e há a cobrança para que a população visite o espaço”. O Masp, na época, alegou que não tem fins lucrativos e abre de graça ao público em determinados dias da semana.
Em sua decisão referente à Pinacoteca, o desembargador Luis Antonio Johonson Di Salvo questiona a parte “cívica” da mostra, que possui obras de mais de 100 artistas de 15 países da América Latina, 27 delas brasileiras, como Lygia Clark e Lygia Pape. “O evento é, obviamente, cultural, e muito relevante; mas não é um evento cívico.”
Para resolver a questão, os ministérios da Cultura e dos Transportes, Portos e Aviação Civil montaram, em conjunto, uma comissão para avaliar o tema. Depois de reuniões com os dois lados, a comissão, de acordo com a assessoria de imprensa do MinC, deve apresentar novas resoluções para o tema já nas próximas semanas.
Enquanto isso, para as instituições culturais, o clima é de preocupação. “Não só para a Pina, mas para todos os museus, é algo que nos assusta”, diz o diretor de relações institucionais da Pinacoteca, Paulo Vicelli.
#
Artigo de Pedro Rocha editado no jornal "O Estado de S. Paulo" em 31/08/18.

Arratia Beer Gallery, em Berlim, fecha após 12 anos de atividade

Inaugurada em 2006, é a mais recente vítima da crise que atinge as galerias médias, muito precionadas pelos valores dos aluguéis e os altos custos das feiras de arte. Artigo de Eileen Kinsella para o portal internacional de arte Artnet (www.artnet.com) editado em 27/8/2018. +

Adicione mais uma galeria à crescente lista de espaços de tamanho médio que fecham graças a um mercado implacável. Em carta agradecendo amigos e colegas, a co-fundadora da Arratia Beer, Euridice Arratia, anunciou que o respeitado espaço de Berlim foi fechado. A última exposição listada em seu website foi uma exposição coletiva intitulada “Uma figura de Brune na noite de inverno resiste à identidade”, encerrada em abril.
Arratia não deu uma razão para o fechamento. “Inicialmente comecei a galeria em 2006 com Elizabeth Beer. A partir daquele momento, tivemos o enorme prazer e privilégio de trabalhar e crescer junto com um grupo extraordinário de artistas”, escreveu ela em sua carta. Desde sua abertura em 2006, a galeria trabalhou com uma lista dinâmica de artistas, incluindo Maria Anwander, Patty Chang, Omer Fast, Holly Hendry, Mary Reid Kelley e Javier Téllez.
Arratia disse que muitos outros artistas, músicos, estilistas, artistas, escritores e curadores forneceram à galeria “apoio incondicional” ao longo dos anos. Ela também citou “colegas de museu e colecionadores comprometidos” pelo seu papel fundamental no apoio à galeria. A galeria foi considerada um pilar da Art Basel e outras grandes feiras até 2017, observou o colecionador Alain Servais em seu twitter.
O fechamento é parte de uma tendência desconcertante no mundo da arte. Numerosas galerias de tamanho médio se fecharam nos últimos anos, à medida que os proprietários lutam para enfrentar uma série de desafios econômicos, incluindo aluguéis exorbitantes e os altos custos associados à participação em feiras de arte a cada ano.
Muitos galeristas optaram por modelos alternativos, como operar como escritórios de arte, abrir mão de seus espaços físicos ou se afastar dos grandes centros de arte, na esperança de que o público e os colecionadores a sigam.
Recentemente, a NADA, a New Art Dealers Alliance, anunciou que estava se preparando para a feira de Nova York para dedicar seus recursos à programação de galerias. Trata-se de um esforço para encontrar modelos de negócios alternativos em meio ao aperto contínuo.
#
Artigo de Eileen Kinsella para o portal internacional de arte Artnet (www.artnet.com) editado em 27/8/2018.

Aos 93, morre o artista plástico e pioneiro do construtivismo Almir Mavignier

Nascido no Rio, ele vivia na Alemanha desde os anos 1960, quando foi estudar na Escola de Design de Ulm. Matéria publicada no jornal "Folha de São Paulo", em 04/09/18. +

O artista plástico carioca Almir Mavignier morreu na segunda-feira (3), aos 93 anos, em Hamburgo, Alemanha. Ele tinha um tumor no cérebro.

Um dos pioneiros da arte concreta no Brasil, Mavignier fundou, junto com a psiquiatra Nise da Silveira, o ateliê de arteterapia no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, nos anos 1940 —hoje, o hospital se transformou no Museu do Inconsciente.

Com Ivan Serpa e Abraham Palatnik, formou o primeiro núcleo de pintura abstrata do Rio de Janeiro. O interesse pela linguagem não figurativa foi despertado pelo contato com o crítico Mario Pedrosa.

Em 1950, uma visita à exposição dedicada ao concretista suíço Max Bill no Masp o transformaria. Foi ali que o jovem entrou em contato direto com a produção construtiva, que se torna sua influência central. No mesmo ano, fez sua primeira exposição individual.

Em 1960, o artista se mudou para Ulm, na Alemanha, onde frequentou a Escola de Design. Desde então, não voltou a viver no Brasil. “Ele não queria vir pois dizia que seu trabalho não era reconhecido aqui. Reclamava que as pessoas o chamavam de alemão”, relembra Flavio Cohn, da DAN Galeria, que representa o artista.

Depois da mudança para Ulm, seu trabalho se aproximou da arte óptica e foi exposto na Bienal de Veneza e Documenta de Kassel, em 1964. No ano seguinte, obras de Mavignier compuseram a exposição "Op Art, The Responsive Eye", no MoMA, em Nova York.

O galerista Cohn se lembra que Mavignier era muito rigoroso com o próprio trabalho. "Isso é percebido na sua precisão absoluta e clareza na produção e estética no resultado."

Mavignier deixa filho, neto e esposa.
|
Matéria publicada no jornal "Folha de São Paulo", em 04/09/18.

Insubstituível, acervo tinha desde fóssil mais antigo até meteorito

As dimensões do desastre e o dano generalizado ao prédio histórico já deixam claro que o acervo correspondente às áreas de arqueologia, paleontologia, invertebrados e história do Brasil sofreu destruição total ou quase total. O que pode ter se perdido? Matéria de Reinaldo José Lopes publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/09/18. +

No caso do incêndio do Museu Nacional da UFRJ, todos os clichês normalmente aplicados à perda do patrimônio científico e histórico estão corretos: o que foi tragado pelo fogo —pelo que se sabe até agora, o grosso das coleções, exposições e laboratórios do museu— tem valor incalculável e jamais poderá ser substituído.

Escrevo este texto com o incêndio ainda ardendo na Quinta da Boa Vista, o que significa que nenhuma contabilidade detalhada do que foi perdido pode ser feita.

No entanto, as dimensões do desastre e o dano generalizado ao prédio histórico já deixam claro que o acervo correspondente às áreas de arqueologia, paleontologia, invertebrados e história do Brasil sofreu destruição total ou quase total. A coleção de vertebrados, ao menos parte da de botânica e a biblioteca, localizadas num prédio anexo mais distante, foram poupadas.

Considerando as coleções já destruídas pelo incêndio, portanto, o que pode ter se perdido?

Para começar, o ser humano mais antigo achado até hoje no Brasil. Trata-se do esqueleto da jovem apelidada de Luzia, que viveu em Minas Gerais há cerca de 12 mil anos, quando ainda existiam mastodontes e dentes-de-sabre no cerrado. As feições singulares de Luzia e de outros habitantes da região de Lagoa Santa – que lembram mais as de aborígines da Austrália que a dos índios modernos – levaram antropólogos brasileiros a postular duas ondas distintas de migração para as Américas no fim da Era do Gelo.

Muitíssimo mais antigos que Luzia são (eram?) os dinossauros e pterossauros (répteis voadores) descobertos por cientistas do museu, como o Maxakalisaurus topai, dino herbívoro de 13 m de comprimento. O museu tinha acabado de realizar uma vaquinha virtual para renovar a área de exposição do fóssil.

A instituição bicentenária também era a casa da maior coleção de antiguidades egípcias da América Latina, num total de 700 peças que começaram a ser acumuladas em 1826, quarto ano do reinado de Dom Pedro 1º. Havia estelas (monumentos que equivalem a postes de pedra), estátuas, caixões e múmias, oriundos principalmente das antigas cidades de Tebas e Abidos.

Além do mais, engana-se quem acha que a destruição, por mais lamentável que seja, afeta apenas um patrimônio que corresponde basicamente ao passado. No que diz respeito a estudos sobre biodiversidade, por exemplo, acervos de museu são, em certo sentido, máquinas do tempo que viajam tanto para trás quanto para a frente.

Isso porque quem batiza formalmente uma nova espécie de animal ou planta quase sempre deposita num museu o exemplar conhecido como holótipo, o indivíduo de referência para aquele tipo de ser vivo, que servirá de base de comparação para pesquisas de toda sorte no futuro.

Ou seja, a perda de um museu não só faz sumir esses exemplares de referência, de importância histórica, como complica muito a vida de quem gostaria de poder compará-los com possíveis novas espécies. Isso, é claro, sem falar nos exemplares que já tinham chegado ao acervo e ainda não haviam sido analisados —como há poucos pesquisadores especializados nesse trabalho, a fila para descrição costuma ser grande.

“Perder holótipos de espécies descritas é uma dor imensa. Se a gente tentar dimensionar as espécies que ainda seriam descritas a partir do acervo, essa dor se transforma numa angústia sem fim”, diz o zoólogo Hugo Fernandes-Ferreira, professor da Universidade Estadual do Ceará.

Esse tipo de desastre afetará, duramente, quem ainda gostaria de poder examinar os 5 milhões de exemplares de insetos que estavam no museu —ou admirar o meteorito de Bendegó, um monstrengo espacial descoberto no sertão baiano em 1784 e levado para o Rio em 1888, quando Dom Pedro 2º ainda reinava.

O meteorito era o primeiro item do acervo que o visitante via ao entrar na instituição.
|
Matéria de Reinaldo José Lopes publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/09/18.

Incêndio que destruiu Museu Nacional, no Rio, durou mais de seis horas

Após seis horas de chamas, os bombeiros controlaram por volta das 2h da madrugada desta segunda-feira (3) o incêndio que atingiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio. O local possuía 20 milhões de itens e apresentava problemas de manutenção. Matéria de Nicola Pamplona e Laís Alegretti publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/09/18. +

Após seis horas de chamas, os bombeiros controlaram por volta das 2h da madrugada desta segunda-feira (3) o incêndio que atingiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio.

Cerca de 80 homens de 12 quartéis do Corpo de Bombeiros foram enviados ao local para combater o incêndio que começou por volta das 19h30 deste domingo (2). Parte do interior do edifício desabou. O fogo começou depois que o local já havia encerrado a visitação —tanto do museu quanto do zoológico, que também fica na Quinta da Boa Vista. Não há informações sobre vítimas.

Mais antigo do país, o Museu Nacional é subordinado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vem passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para a sua manutenção. Desde 2014, a instituição não vinha recebendo a verba de R$ 520 mil anuais que bancam sua manutenção e apresentava sinais visíveis de má conservação, como pareces descascadas e fios elétricos expostos.

A instituição está instalada em um palacete imperial e completou 200 anos em junho —foi fundada por dom João 6º em 1818. Seu acervo, com mais de 20 milhões de itens, tem perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. Menos de 1%, porém, estava exposto.

Segundo o comandante-geral dos Bombeiros do Rio, Roberto Robadey, o combate ao fogo foi prejudicado por falta de água nos hidrantes próximos ao edifício. Os bombeiros tiveram que apelar a caminhões-pipa e até para a água do lago próximo. Desde fevereiro, assim como as polícias e o sistema penitenciário, os bombeiros estão subordinados ao governo federal, devido à intervenção decretada pelo presidente Michel Temer (MDB) na segurança pública do estado.

Responsável pela gestão do museu, o reitor da UFRJ, Roberto Leher, criticou a atuação dos bombeiros no combate ao incêndio. Ele admitiu, porém, que a falta de verbas inviabilizou obras de melhoria da infraestrutura do palacete.

“É óbvio que a forma de combate não guardou proporção com o tamanho do incêndio. Percebemos claramente que faltou logística e capacidade de infraestrutura do Corpo de Bombeiros que desse conta de um acontecimento tão devastador com foi esse”, afirmou ele, em entrevista durante as operações de combate às chamas.

Inicialmente, foram enviadas equipes de quatro batalhões ao local, mas não havia água nos hidrantes próximos ao edifício. O combate às chamas foi feito com o apoio de caminhões-pipa e água de um lago dentro da Quinta da Boa Vista, parque na zona norte da cidade onde está o museu. “A própria equipe da prefeitura universitária orientou os bombeiros onde buscar água. Tivemos certamente problemas de logística. Essa dificuldade logística não é do âmbito do Museu Nacional”, continuou Leher.

O palacete imperial não tinha sistema de prevenção de incêndio, que seria instalado com verba de contrato de R$ 21 milhões para a restauração assinado com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em junho, quando o Museu Nacional comemorou 200 anos.

"Esta é uma edificação muito antiga, que foi concebida em um contexto em que não havia uso de energia, como usam as edificações acadêmicas. Nós temos laboratórios, áreas administrativas, informática, que têm grande uso de energia", disse Leher. A restauração, afirmou, previa a instalação de um sistema de prevenção de incêndio muito robusto".

Leher afirmou que a UFRJ não dispõe de recursos para custear as obras. "A UFRJ, como as demais universidades brasileiras, vive hoje em um contexto de muita restrição orçamentária. E é obvio que nesse contexto todas as áreas da universidade são afetadas", alegou.

O diretor do Museu Nacional, Alexander Kellner, cobrou responsabilidade do governo federal na alocação de recursos para o museu e pediu apoio para a reconstrução. Em maio, antes da comemoração do bicentenário, ele já alertava sobre as precárias condições do edifício.

ACERVO HISTÓRICO
O museu guardava o meteorito do Bendegó, o maior já encontrado no país, e uma coleção de múmias egípcias. Também o crânio de Luzia, a mulher mais antiga das Américas. Além de coleções de vasos gregos e etruscos (povo que viveu na Etrúria, na península Itálica).

Em maio, o diretor do Museu Nacional Alexander Kellner, 56, criticou a falta de verbas. “O maior acervo é este prédio, um palácio de 200 anos em que morou dom João 6º, dom Pedro 1º, onde foi assinada a Independência. A princesa Isabel brincava aqui, no jardim das princesas, que não está aberto ao público porque não tenho condições”, disse à Folha.

Um terço das salas de exposições estavam fechadas, incluindo algumas das mais populares, como a que guarda um esqueleto de baleia jubarte e a do Maxakalisaurus topai —o dinoprata, primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil.

Para reabrir a sala, interditada havia cinco meses após um ataque de cupins, o museu armou uma campanha de financiamento coletivo na internet —arrecadou R$ 58 mil, mais do que a meta de R$ 30 mil.

Mas a decadência física do prédio já era visível para os visitantes, que pagavam R$ 8 pelo ingresso inteiro. Muitas de suas paredes estavam descascadas, havia fios elétricos expostos e má conservação generalizada.

No bicentenário, a instituição celebrou com o BNDES um contrato de R$ 21,7 milhões para investir em sua restauração. Havia outra negociação milionária encaminhada para bancar uma grande exposição —a expectativa era de que cinco das principais salas fossem reabertas até 2019.

Alexandre Kellner dizia ser necessários R$ 300 milhões, investidos ao longo de pelo menos uma década, para executar o Plano Diretor do museu.

O diretor lembrou também que o último presidente a visitar o museu foi Juscelino Kubitschek (1956-1961). “O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado”, disse Kellner, em maio.
|
Matéria de Nicola Pamplona e Laís Alegretti publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/09/18.

Incêndio de grandes proporções atinge Museu Nacional na Quinta da Boa Vista

Um incêndio de grandes proporções atinge o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio. Mais antigo do país e com acervo com mais de 20 milhões de peças, o museu passava por dificuldades financeiras geradas pelo corte em seu orçamento. Matéria de Nicola Pamplona e Laís Alegretti publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/09/18. +

Um incêndio de grandes proporções atinge neste domingo (2) o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio. Mais antigo do país e com acervo com mais de 20 milhões de peças, o museu passava por dificuldades financeiras geradas pelo corte em seu orçamento.

Cerca de 80 homens de 12 quartéis estão no local combatendo as chamas desde às 19h30 —ainda há um grande foco de chamas na lateral do prédio. Parte do interior do edifício já desabou.

O fogo começou depois que o local já havia encerrado a visitação —tanto do museu quanto do zoológico, que também fica na Quinta da Boa Vista. Ainda não há informações sobre vítimas.

Segundo o comandante-geral dos bombeiros do Rio, Roberto Robadey, o combate ao fogo foi prejudicado por falta de água nos hidrantes próximos ao edifício. Os bombeiros tiveram que apelar a caminhões-pipa e até para a água do lago próximo.

A vice-diretora do Museu Nacional, Cristiana Serejo, disse que ainda não é possível avaliar a extensão dos danos, mas que acredita que praticamente todo o acervo foi destruído. Ela afirmou, porém, que algumas coleções, que estavam em um anexo, foram preservadas.

Serejo conseguiu salvar equipamentos de seu laboratório, que estava em uma ala que foi atingida pelo fogo mais tarde. “A gente arrombou uma porta e conseguiu tirar algumas coisas.” Também foi salva a coleção de tipos de malacologia, que estuda os moluscos.

Ela disse que havia um plano para instalar equipamentos anti-incêndio, com recursos do contrato para revitalização do museu. “A gente tinha consciência da fragilidade do museu, mas não deu tempo”, disse ela.

Do lado de fora, dezenas de pessoas acompanharam o trabalho dos bombeiros. Uma das frentes tentava isolar parte do edifício que ainda não havia sido atingida pelo fogo.

“É um prejuízo incalculável. A ciência e a história brasileira estão sendo queimadas”, lamentou o professor de geologia João Wagner Alencar Castro, funcionário da UFRJ que chegou ao museu por volta das 21h30 para acompanhar o trabalho de contenção dos danos.

Castro disse estimar que 20% do acervo ainda esteja preservado e que foi surpreendido pela proporção do incêndio, uma vez que a administração da instituição fez investimentos em brigada de combate a incêndio recentemente.

“Estamos muito emocionados. É como se tivesse morrido alguém muito próximo”, afirmou ele.

ACERVO HISTÓRICO

Mais antigo do país, o Museu Nacional é subordinado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e vem passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para a sua manutenção.

Desde 2014, a instituição não vinha recebendo a verba de R$ 520 mil anuais que bancam sua manutenção e apresentava sinais visíveis de má conservação, como pareces descascadas e fios elétricos expostos.

A instituição está instalada em um palacete imperial e completou 200 anos em junho —foi fundada por dom João 6º em 1818.

Seu acervo, com mais de 20 milhões de itens, tem perfil acadêmico e científico, com coleções focadas em paleontologia, antropologia e etnologia biológica. Menos de 1%, porém, estava exposto.

O museu guardava o meteorito do Bendegó, o maior já encontrado no país, e uma coleção de múmias egípcias. Também o crânio de Luzia, a mulher mais antiga das Américas. Além de coleções de vasos gregos e etruscos (povo que viveu na Etrúria, na península Itálica).

Em maio, o diretor do Museu Nacional Alexander Kellner, 56, criticou a falta de verbas. "O maior acervo é este prédio, um palácio de 200 anos em que morou dom João 6º, dom Pedro 1º, onde foi assinada a Independência. A princesa Isabel brincava aqui, no jardim das princesas, que não está aberto ao público porque não tenho condições", disse à Folha.

Um terço das salas de exposições estavam fechadas, incluindo algumas das mais populares, como a que guarda um esqueleto de baleia jubarte e a do Maxakalisaurus topai —o dinoprata, primeiro dinossauro de grande porte já montado no Brasil.

Para reabrir a sala, interditada havia cinco meses após um ataque de cupins, o museu armou uma campanha de financiamento coletivo na internet —arrecadou R$ 58 mil, mais do que a meta de R$ 30 mil.

Mas a decadência física do prédio já era visível para os visitantes, que pagavam R$ 8 pelo ingresso inteiro. Muitas de suas paredes estavam descascadas, havia fios elétricos expostos e má conservação generalizada.

No bicentenário, a instituição celebrou com o BNDES um contrato de R$ 21,7 milhões para investir em sua restauração. Havia outra negociação milionária encaminhada para bancar uma grande exposição —a expectativa era de que cinco das principais salas fossem reabertas até 2019.

Alexandre Kellner dizia ser necessários R$ 300 milhões, investidos ao longo de pelo menos uma década, para executar o Plano Diretor do museu.

O diretor lembrou também que o último presidente a visitar o museu foi Juscelino Kubitschek (1956-1961). "O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado", disse Kellner, em maio.

Neste domingo, o presidente Michel Temer afirmou que a perda do acervo do Museu Nacional é "incalculável" para o Brasil. "Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país", disse.

"Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros", diz a nota assinada por Temer.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que o governo começará nesta segunda-feira (3) a fazer o projeto de reconstrução do Museu Nacional.

"Já falei com o presidente Michel Temer e com o ministro da educação. Amanhã [segunda-feira] vamos começar a fazer o projeto de reconstrução do Museu Nacional. Para ver quanto é e como viabilizar", disse.

Historiadores e pesquisadores também lamentarem a tragédia.

A historiadora Mary del Priore disse que "não é o primeiro museu que queima". "Tivemos a Capela Imperial, na UFRJ, que foi queimada. Mas as pessoas apenas lamentam depois. Toda vez que o Museu Nacional precisou de verbas, o apoio da população era zero. Agora todo mundo chora", afirmou.

O historiador José Murilo de Carvalho chamou o incêndio de "catástrofe para a história e a cultura brasileira". "Não é um acervo importante para o Brasil, mas para pesquisadores internacionais também. Toda a coleção de dom Pedro 2º [está lá]. Agora nem sabemos se o prédio vai ficar de pé."

A historiadora Heloísa Starling lembrou da coleção da imperatriz Maria Leopoldina, que remonta o início do Museu Nacional.

"Ela tinha um compromisso de fazer circular um conhecimento melhor sobre o Brasil. E vai fazer isso por meio da botânica e da zoologia. Foi o que gerou nosso primeiro acervo científico de material de pesquisa. Fico pensando nela. É uma tragédia", afirmou Starling.

OUTROS MUSEUS INCENDIADOS

Em julho de 1978, um incêndio destruiu quase todo o acervo do MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro.

Só da exposição "Geometria sensível" foram devoradas pelo fogo 200 obras —80 eram telas do uruguaio Torres García. Em 40 minutos, o fogo já havia destruído também duas telas de Picasso, duas de Miró e centenas de obras de artistas brasileiros. O fogo, iniciado às 3h40m, foi debelado pelos bombeiros em duas horas e meia.

Do acervo, de mais de mil peças, incluindo também obras de Matisse, Dalí e Portinari, restaram apenas 50. O estrago foi tamanho que apenas nos anos 1990 as instituições internacionais voltariam a confiar no país para abrigar exposições de grande porte.

Mais recentemente, em 2015, o Museu da Língua Portuguesa, na Praça da Luz (região central de São Paulo), também foi atingido por um incêndio de grandes proporções. O bombeiro civil que trabalhava no museu morreu.

No dia da tragédia, o museu estava fechado para o público. Ele tinha três pavimentos, uma área de 4,3 mil m², e havia sido inaugurado em 2006.

Todo o acervo do museu, porém, era virtual e foi recuperado. Havia uma linha do tempo de 33 metros para reconstituir todo o caminho da língua portuguesa, africana e ameríndia até se encontrar no Brasil.

Ainda em obras, a previsão é que o museu reabra as portas no segundo semestre de 2019.
|
Matéria de publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 03/05/18.