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"Inhotim é um monumento à onipresença do dinheiro sujo do mercado de arte"

A fortuna de Bernardo Paz, que colocou a cidade mineira de Brumadinho no circuito da arte mundial, foi construída à base de trabalho infantil e escravo, desmatamento ilegal e grilagem de terras. Artigo de Bruna de Lara publicado no site https://theintercept.com em 8/6/18. +

Faz menos de um ano que o reinado de Bernardo de Mello Paz ruiu. Em agosto, o idealizador do Instituto Inhotim, maior museu a céu aberto da América Latina, foi condenado em primeira instância a nove anos de prisão por lavagem de dinheiro. Quatro meses depois, já longe da presidência do Inhotim, o empresário foi condenado a outros cinco anos por evasão fiscal. Agora, uma investigação da revista Bloomberg Businessweek, assinada pelo repórter Alex Cuadros, autor do best seller Brazillionaires, revela novidades: a fortuna que colocou a cidade mineira de Brumadinho no circuito da arte mundial foi construída à base de trabalho infantil e escravo, desmatamento ilegal e grilagem de terras.
Inhotim era sequer um sonho distante quando, em 1973, Paz foi trabalhar com o sogro na Itaminas, uma companhia de minério de ferro. Mais interessado no lucro do que em projetos sociais, como escreve Cuadros, o empresário passou a incorporar outras mineradoras e se apossou de terras ocupadas há décadas por agricultores familiares. Através da Replasa Reflorestadora SA, Paz cultivou mais de 20 mil hectares de eucalipto no cerrado mineiro. As árvores – fontes do carvão que esquentava as máquinas de fundição das mineradoras – foram plantadas na nascente de córregos, infringindo a legislação ambiental. A água, antes abundante, secou. Os agricultores foram expulsos.
“Foi uma humilhação”, desabafou o filho de um agricultor ao jornalista, lembrando-se do dia em que funcionários da Replasa chamaram a polícia para enxotá-los de uma colheita. Hoje com 41 anos, José Gonçalves Dias começou a trabalhar aos 10, sem qualquer registro, em uma carvoaria contratada pela Replasa, para ajudar a família. Às vezes, os pés da criança, calçados apenas com chinelos, sofriam queimaduras. Sua irmã Maria do Rosário Gonçalves Dias, que aos 14 anos trabalhava diretamente para a Replasa espalhando pesticidas, também não tinha equipamento de proteção. Um advogado da empresa nega as denúncias.
Apesar dessas acusações, Paz só virou manchete em 1986, quando sete trabalhadores morreram no rompimento de uma barragem de rejeitos da Itaminas. Um funcionário afirma que a estrutura, sobrecarregada, foi construída sem uma planta adequada. Duas décadas depois, outras violações foram reveladas. Em 2007, descobriu-se que uma das fornecedoras de carvão das empresas de Paz empregava 36 pessoas em condições análogas à escravidão. Os trabalhadores eram obrigados a comprar suas próprias serras-elétricas e viviam em um local infestado por escorpiões. No ano seguinte, algumas das empresas de Paz tiveram que pagar mais de 13 milhões de dólares em multas pelo uso de carvão proveniente de desmatamento ilegal.
Em 2009, as infrações do cultivo de eucalipto de Paz foram pegas pela fiscalização. Naquele mesmo ano, Dias e outros agricultores decidiram ocupar a plantação. O grupo foi expulso por mais de 70 policiais, mas o processo judicial que se seguiu acabou revelando mais uma possível ilegalidade do empresário. O aluguel das terras, concedido pelo governo, seria ilegal, descobriu o advogado e ativista André Alves de Souza, que entrou com uma ação judicial questionando a posse de Paz.
Segundo a Procuradoria-Geral de Minas Gerais, a transação foi comandada por um servidor envolvido em um esquema de venda de terras públicas. Ainda assim, Paz nunca deixou o local. A ação continua em andamento, mas já surtiu efeito sobre os negócios da Replasa e seu dono. Hoje, a maior parte das plantações está parada, e Paz teve que empenhar um complexo de produção de um subproduto do minério de ferro como garantia para pagamento de suas diversas multas.
“O Inhotim é um monumento à onipresença do dinheiro sujo do mercado de arte”, escreve Alex Cuadros. Em abril deste ano, Paz se comprometeu a transferir a posse de 20 obras expostas em seu museu, todas em seu nome, para o governo – é o equivalente a 100 milhões de dólares em impostos atrasados. Em contrapartida, convenceu o governo a mantê-las em Inhotim. Trata-se do “truque mais brilhante da carreira de Paz”, conclui o repórter: decidir como os impostos que nunca pagou devem ser gastos.
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Artigo de Bruna de Lara publicado no site https://theintercept.com em 8/6/18.

Para combater o tráfico de bens culturais

O ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, disse ontem, no seminário “Proteção e circulação de bens culturais — Combate ao tráfico ilícito”, em São Paulo, que criará dentro da estrutura da pasta a Secretaria de Direito Autoral e Propriedade Intelectual, com um setor voltado especificamente ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais e à pirataria. Matéria de Alessandro Giannini publicada originalmente no site do O Globo (oglobo.com), em 05/06/18. +

O ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, disse ontem que criará dentro da estrutura da pasta a Secretaria de Direito Autoral e Propriedade Intelectual, com um setor voltado especificamente ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais e à pirataria. O anúncio foi feito na abertura do seminário “Proteção e circulação de bens culturais — Combate ao tráfico ilícito”, em São Paulo.

Promovido pelo MinC em conjunto com o Itaú Cultural, o seminário foi criado na esteira do caso do roubo de oito gravuras do acervo da Biblioteca Nacional, que posteriormente foram compradas em uma casa de leilões inglesa e revendidas para o Itaú Cultural. O crime aconteceu em 2004 e só veio a público no início deste ano, quando o autor do roubo, Laéssio Oliveira, preso no Rio, revelou o ocorrido em carta à Biblioteca Nacional.

— No Brasil, não temos feito o suficiente para tratar desse assunto — disse Sá Leitão. — É preciso fazer essa autocrítica. Mas também temos condições de colocar o país entre os que melhor tratam o combate ao tráfico de bens culturais.

“ATRASADOS”

Segundo o ministro da Cultura, desde 2015 funciona dentro da pasta uma comissão interministerial de combate ao tráfico ilícito de bens culturais. Esse grupo, que contava com a participação de outras pastas, como a da Justiça e a da Segurança Pública, estava “meio esquecido”. A ideia é retomá-lo, diz Sá Leitão, para estudar e implementar políticas públicas de proteção ao acervo cultural público e privado.

— Considerando toda a riqueza dos nossos bens culturais, é impressionante que estejamos tão atrasados nesse campo — observou ele. — É impressionante que ainda não tenhamos na Polícia Federal um departamento para cuidar especificamente desse assunto. Na Lava-Jato, por exemplo, foram identificados indícios de lavagem de dinheiro sujo usando obras de arte.

Fizeram parte da mesa Marlova Noleto, representante do escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, e Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

Para Saron, dois pontos são fundamentais na realização do seminário, que termina hoje.

— Um ponto é a criação de políticas públicas objetivas e claras para a proteção de nossos bens culturais — disse ele. — E outro é divulgar isso para o maior número de pessoas.
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Matéria de Alessandro Giannini publicada originalmente no site do O Globo (oglobo.com), em 05/06/18.

Vale mais que pesa

Nos dias que antecederam a SP-Arte, em abril, galerias estrangeiras e brasileiras que traziam obras do exterior para o evento se viram obrigadas a arcar com um custo extra, cobrado pelos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Galeão. À diferença do que ocorria em anos anteriores, as peças transportadas em caráter temporário para o país passaram a ser submetidas a tarifas de armazenagem calculadas sobre seu valor de mercado —até então, adotava-se como referência o peso bruto. O preço de uma tela, afinal, não tem relação com as dimensões físicas da mercadoria. Em exemplo prático das consequências da mudança, uma galeria que trouxe trabalhos de um artista argentino pagaria, segundo a tabela usada anteriormente, cerca de R$ 200 pela permanência em Guarulhos. Pelo novo critério viu-se obrigada a gastar R$ 17 mil. Artigo publicado originalmente no jornal "Folha de São Paulo". +

Nos dias que antecederam a feira de arte de São Paulo (SP-Arte), em abril, galerias estrangeiras e brasileiras que traziam obras do exterior para o evento se viram obrigadas a arcar com um custo extra, cobrado pelos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Galeão.

À diferença do que ocorria em anos anteriores, as peças transportadas em caráter temporário para o país passaram a ser submetidas a tarifas de armazenagem calculadas sobre seu valor de mercado —até então, adotava-se como referência o peso bruto.

Tratando-se de obras de arte, é óbvio que a variação pode ser enorme. O preço de uma tela, afinal, não tem relação com as dimensões físicas da mercadoria.

Em exemplo prático das consequências da mudança, uma galeria que trouxe trabalhos de um artista argentino pagaria, segundo a tabela usada anteriormente, cerca de R$ 200 pela permanência em Guarulhos. Pelo novo critério viu-se obrigada a gastar R$ 17 mil.

Em outro episódio, o Masp conseguiu reverter, em decisão judicial provisória, uma cobrança de R$ 243 mil sobre trabalhos oriundos da Tate Modern, de Londres.

A armazenagem é uma imposição da Receita Federal, que precisa conferir a carga e liberá-la de acordo com os critérios tributários do país. Quanto mais ágil for a ação do órgão, menor o custo para quem traz a mercadoria.

Caso os funcionários estejam em greve ou operação-padrão —como se dava naquele período com os auditores do fisco—, o período se estende. Nessa hipótese, é beneficiado o aeroporto, que ganha por mais tempo de depósito.

A controvérsia em torno dos custos não diz respeito apenas a obras de arte, mas a um amplo espectro de atividades culturais.

Os aeroportos alegam que o regulamento da Agência Nacional de Aviação Civil desconsidera o valor da carga somente em casos especiais, como participação em “eventos de natureza científica, esportiva, filantrópica ou cívico-cultural”.

A questão reside justamente em definir o que é “cívico-cultural”, termo herdado de normas anteriores à reordenação do setor aéreo e à criação da agência reguladora.

As concessionárias dos terminais argumentam que o termo “cívico” remete a patriotismo, o que não incluiria, por exemplo, uma feira de arte paga. Já o Ministério da Cultura entende que muitos desses eventos servem para projetar o país no circuito internacional.

A pasta busca uma nova regulamentação, o que parece fazer sentido. Falta, pelo visto, a devida clareza nas normas hoje em vigor.
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Artigo publicado originalmente no jornal "Folha de São Paulo".

Coleções em movimento

O acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) acaba de ganhar um reforço. Em parceria inédita, a B3, resultado da fusão entre a BM&FBovespa e a Cetip, cedeu 66 obras ao museu por 30 anos em regime de comodato (sistema de empréstimo por tempo determinado). Artigo de Jacilio Saraiva para o jornal “Valor Econômico” editado em 1/6/18. +

O acervo do Museu de Arte de São Paulo (Masp) acaba de ganhar um reforço. Em parceria inédita, a B3, resultado da fusão entre a BM&FBovespa e a Cetip, cedeu 66 obras ao museu por 30 anos em regime de comodato (sistema de empréstimo por tempo determinado).

Do total do conjunto, 25 peças de nomes como Anita Malfatti (1889-1964) e Di Cavalcanti (1897-1976), ícones do modernismo brasileiro, serão apresentadas na exposição "Acervo em Transformação - Comodato Masp B3", a partir de 14 de junho no mezanino do Masp.

Para especialistas, a iniciativa pode ajudar na obtenção de novos empréstimos entre colecionadores e espaços expositivos no Brasil. Parte do acervo da B3 estava nos antigos escritórios da bolsa, no Rio e em São Paulo, e nunca foi exposta ao público. Dois novos contratos de comodato estão no radar do Masp.

"É a primeira vez, durante essa nova gestão, que uma empresa realiza um comodato de longo prazo conosco", afirma o presidente do Masp, Heitor Martins, no posto desde 2014. Outras parcerias vieram de colecionadores privados. "Dessa forma, mais organizações podem olhar para a instituição como uma possibilidade para a cessão de obras."

As conversas com a B3 começaram há quatro anos, e o convênio foi assinado em abril. Em geral, o Masp opera com doações de peças, enquanto os modelos de cessão de obras servem para receber conjuntos que possam preencher lacunas do acervo, diz Martins. É comum, nesse setor, que doações aconteçam após o término das parcerias.

O Masp mantém duas coleções no regime de transferência com prazo determinado. O comodato Foto Cine Clube Bandeirante originou-se em 2014, a partir da cessão de 275 fotografias e das doações de outras quatro obras por colecionadores particulares. Ao fim do trato, de 50 anos, toda a coleção será entregue ao museu.

Há dois anos, a instituição também recebeu a coleção Edith e Oscar Landmann, com cerca de 900 obras de arte pré-colombiana, datadas a partir de 1000 a.C. - Landmann, ex-presidente da Fundação Bienal de São Paulo, foi cônsul-geral honorário da Colômbia. "Potencialmente, metade da coleção será doada ao Masp."

Martins acredita que esse tipo de intercâmbio pode movimentar a programação dos museus, a maioria sem caixa para adquirir novas atrações para os visitantes. "Em razão das verbas limitadas que as instituições têm para fazer aquisições, os comodatos são uma forma de apresentar conjuntos excepcionais", diz. "Muitas vezes, são coleções que vêm a público pela primeira vez."

No Rio, o Museu de Arte Moderna (MAM) mantém um lote de mais de 10 mil peças em comodato desde 1993 - são do empresário, diplomata e colecionador Gilberto Chateaubriand. Em São Paulo, desde 2004 a Pinacoteca conserva um contrato até 2020 com a Fundação Nemirovsky, proprietária de uma das mais importantes coleções de arte moderna do país.

Para ganharem tração, essas iniciativas contam com o próprio trabalho dos museus, que garantem que as obras serão conservadas - algumas vezes restauradas - e exibidas para muito mais gente. Também podem ser emprestadas para outras casas, no Brasil e no exterior, injetando repercussão internacional nas coleções. "Estamos negociando, para comodato, dois outros conjuntos de arte moderna brasileira, de colecionadores do Sul do país e do Rio de Janeiro", diz o presidente do Masp.

O acervo cedido pela B3 é formado por 45 pinturas, 16 aquarelas e cinco esculturas, feitas a partir do século XIX. Quase todos os autores são brasileiros, com exceção de artistas que vieram morar no Brasil, como os italianos Ernesto de Fiori (1884-1945) e Antonio Ferrigno (1863-1940). Além de Anita Malfatti e Di Cavalcanti, há obras de pesos pesados da arte nacional, como Portinari (1903-1962) e Guignard (1896-1962).

"O conjunto permite compor uma vasta iconografia paulista do século XIX, desde vistas litorâneas de Santos, de Benedito Calixto [1853-1927], e do interior do Estado, de Edmund Pink [1790-1833]", afirmam Olivia Ardui e Guilherme Giufrida, assistentes curatoriais do Masp. Há ainda pinturas que mostram o centro da capital, como a rua 25 de Março e a região da praça Roosevelt.

No bloco referente ao século XX, há exemplares de Antônio Bandeira (1922- 1967) e Arcângelo Ianelli (1922-2009). O item mais recente é uma tela do paraense Emanuel Nassar, de 1986.

O Masp e a B3 não comentam o valor da série, mas para se ter uma ideia, há dez anos, durante leilão da coleção do escritor Jorge Amado, no Rio, uma tela de Anita Malfatti, "O Retrato de Oswald de Andrade", foi a mais valorizada do pregão, com um lance final de R$ 1,2 milhão.

Gilson Finkelsztain, presidente da B3, diz que a maioria das obras foi comprada antes mesmo das antigas BM&F e Bovespa abrirem capital, em 2007. "Os grandes responsáveis por termos esse acervo são os antigos conselheiros e diretores", afirma. Entre as peças, há itens cedidos, comprados ou encomendados. "Após tantos anos de história, fusões e diferentes gestões, fica difícil dizer quando começamos a reuni-las."

A história da B3 começou em 1890, com a antiga Bolsa Livre de São Paulo, que, em 1967, virou a Bovespa. Em 2000, aconteceu a integração da Bovespa com a Bolsa do Rio de Janeiro e, depois, com a BM&F, em 2008. No ano passado, houve a fusão entre BM&FBovespa e Cetip, formando a atual B3.

"Essas peças ficaram durante anos em nossas paredes, acompanhando reuniões de negócios e vendo o mercado subir e descer", diz Finkelsztain. "Agora, o Masp é ainda mais completo com as obras da B3, e a B3 é mais completa por ter seu acervo no museu."
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Artigo de Jacilio Saraiva para o jornal “Valor Econômico” editado em 1/6/18.
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"Acervo em Transformação - Comodato Masp B3" De 14 de junho a 29 de julho de 2018. No Masp, avenida Paulista, 1.578, São Paulo

Pesquisa mostra que #Metoo e feminismo provocam demanda por arte de mulheres

Mulheres artistas, há muito negligenciadas e subestimadas, são o item quente a ser observado nas vendas de arte enquanto o vigor do movimento #Metoo e o novo interesse pelos direitos das mulheres atingem o mundo da arte, de acordo com resultados divulgados em 30/5/18. Artigo de Ellen Wulfhorst e edição de Claire Cozens para os portais de notícias www.reuters.com e http://news.trust.org. A Thomson Reuters Foundation, o braço de caridade da Thomson Reuters, que cobre notícias humanitárias, direitos das mulheres, tráfico, direitos de propriedade, mudança climática e resiliência. +

Mulheres artistas, há muito negligenciadas e subestimadas, são o item quente a ser observado nas vendas de arte enquanto o vigor do movimento #Metoo e o novo interesse pelos direitos das mulheres atingem o mundo da arte, de acordo com resultados divulgados recentementena.
De obras de novatas mais jovens, como Jenny Saville, para grandes nomes como Georgia O'Keefe, a arte feminina está em crescente demanda, disse Barnebys, um dos principais sites de busca de leilões, que acaba de lançar o 2018 Art Market Report.
A evidência da crescente estatura das mulheres na arte ocorre em meio à renovada consciência global dos direitos das mulheres, à campanha #Metoo contra o assédio sexual e à violência, e um exame mais detalhado de questões como a falta de diretores do sexo feminino em Hollywood.
As artistas femininas estão em menor número nas principais coleções de artistas masculinos, cujas obras têm preços muito mais altos, mas isso está mudando, de acordo com Pontus Silfverstolpe, um dos fundadores da Barnebys, com sede em Estocolmo.
"Quando escrevermos sobre a cena artística de hoje em livros históricos de arte no futuro, veremos impressões claras dos efeitos do #Metoo, a luta pela igualdade e feminismo", disse ele à Thomson Reuters Foundation.
A tendência está refletindo tanto nos preços de venda quanto nas buscas online, disse ele.
O relatório da Barnebys extraiu dados de mais de 65 milhões de lotes vendidos em leilão por mais de 3.000 casas de leilões em todo o mundo.
“As artistas a serem observadas são a pintora nigeriana Njideka Akunyili Crosby; a abstrata Cecily Brown; a americana Laura Owens; a criadora de colagens Barbara Kruger; Nathalie Djurberg e Petra Cortrigh, que trabalham em vídeo e outras mídias, e Saville, que cria nus femininos impressionantes”, disse Silfverstolpe.
Os nomes mais conhecidos incluem O’Keefe; a expressionista abstrata Joan Mitchell; o escultor e artista de instalações Cady Noland; a pintora abstrata Agnes Martin e a japonesa Yayoi Kusama, disse ele em uma declaração que acompanha o relatório.
"Muito mais foco agora está sendo dado com razão ao talento feminino que não foi cantado ou ofuscado por razões políticas e sociais no passado", disse Silfverstolpe no comunicado.
"As vendas on-line vão florescer enquanto os compradores tentam obter a melhor arte das mulheres antes que os preços disparem."
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Artigo de Ellen Wulfhorst e edição de Claire Cozens para os portais de notícias www.reuters.com e http://news.trust.org. A Thomson Reuters Foundation, o braço de caridade da Thomson Reuters, que cobre notícias humanitárias, direitos das mulheres, tráfico, direitos de propriedade, mudança climática e resiliência.

Nova técnica de restauro pode ter levado a descoberta de desenho de Michelangelo

Cientistas da Universidade de Florença descobriram uma nova técnica inovadora de restauração, para remover fitas sensíveis de peças antigas. A descoberta pode ter dado uma pista para a origem de um desenho do século XVI, da Capela Sistina, que possivelmente pode ser de Michelangelo. Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site do Artnet (artnet.com), em 22/05/18. +

O mundo da restauração artística se move um pouco mais devagar que os outros. Você sabe que este é o caso quando um novo método para remover fita adesivas de impressões e desenhos vira notícia.

Mas aqui estamos nós. Esta semana, um grupo de pesquisadores da Universidade de Florença publicou um estudo através do Proceedings of National Academy of Sciences detalhando a nova técnica inovadora, que emprega um hidrogel de retenção de água com nano-gotículas de solventes orgânicos para remoção da pressão em fitas sensíveis de peças antigas (conhecida como PSTs) sem danificar o substrato por baixo. A emulsão penetra lentamente na superfície e suaviza o adesivo por baixo sem tocar no papel. Basta aplicar o gel no topo da fita, reduzi-lo ao tamanho e, em seguida, retire-o.

O desenvolvimento é maior do que parece. A fita, no fim das contas, é um pesadelo para os restauradores. Por um lado, ele é usado para uma ampla variedade de propósitos, incluindo matte, conservação temporária ou simplesmente para aderir ou prender o trabalho a outro objeto. Também é quase impossível removê-lo sem comprometer a integridade do papel - um problema que só piora com o tempo.
É por isso que um método de remoção não invasivo é um divisor de águas.

Até agora, os cientistas restauraram desenhos danificados com fita de Maria Helena Vieira da Silva, Stanley William Hayter e Lucio Fontana, entre outros. Mas seu maior golpe ocorreu quando conseguiram remover um pedaço de fita presa a um desenho do século XVI da Capela Sistina. Por baixo, eles descobriram a inscrição “di mano di Michelangelo” (“da mão de Michelangelo”).

Se o desenho foi realmente ou não de Michelangelo ainda é incerto; o trabalho ainda está sendo investigado por autenticadores (e alguns relatórios iniciais sugerem que a assinatura foi erroneamente escrita por um colecionador após o fato). No entanto, é difícil negar o impacto potencial da nova técnica.
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Matéria de Taylor Dafoe publicada originalmente no site do Artnet (artnet.com), em 22/05/18.

Exilado após ameaças de religiosos, brasileiro expõe em Nova York

A primeira mostra do brasileiroAntonio Obá em solo americano na filial nova-iorquina da Mendes Wood DM reúne obras que aludem às tradições e rituais afro-brasileiros. A fase pode ser vista como um novo reajuste no foco, já que o artista baiano foi perseguido e sofreu ameaças de morte, após uma performance em que ele rala uma Nª Sr ª Aparecida de gesso para cobrir o seu corpo nu. Líderes políticos e religiosos protestaram contra a ação do artista, com insultos, vídeos e até pedras nas mãos. Matéria de Silas Martí publicada originalmente no site do jornal “Folha de São Paulo”, em 29/05/18. +

Um espelho cego no canto da galeria não reflete nada ao seu redor. E as pinturas e desenhos em volta dele mostram só vestígios de corpos, imagens fugidias de mãos e pés que lembram mais fósseis distantes do que os ossos de um homem descarnado.
Esses novos trabalhos de Antonio Obá na filial nova-iorquina da Mendes Wood DM, que faz agora a primeira mostra do brasileiro em solo americano, podem ser vistos como tentativa de reajustar o foco.

Quando partiu para o que chamou de autoexílio no ano passado, esse artista fugia de ameaças de morte no Brasil. Uma performance em que ele ralava uma imagem de gesso de Nossa Senhora Aparecida e cobria seu corpo nu com o pó branco que restava da santa detonou uma onda de fúria.

Líderes políticos e religiosos protestaram contra a ação do artista com insultos e vídeos pedindo a sua detenção. Um grupo de manifestantes chegou a cercar uma exposição de Obá com pedras nas mãos.

"Houve uma perseguição bem efetiva. Descobriram o número do meu celular, e passei a receber mensagens de ameaça", conta Obá, em Nova York. "Foi angustiante, porque você não sabe o grau de loucura desses grupos conservadores nem o que essas cabeças podem acabar provocando."

No rastro dessas ameaças, Obá também foi um dos artistas censurados na exposição "Queermuseu", fechada no ano passado pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, após nova pressão de grupos conservadores —depois de um esforço de financiamento coletivo, a mostra será reaberta no Rio, no mês que vem.
Lá vão estar as hóstias em que Obá escreveu nomes de partes do corpo, entre elas língua, vulva e vagina, outra peça que despertou a ira católica.

O corpo, em especial a presença do corpo negro desse artista que retrata um Brasil sincrético e mestiço nos imaculados cubos brancos das galerias de arte, sempre esteve no centro dos trabalhos de Obá.

Mas agora é como se esse corpo perdesse a pele, o sexo e a nitidez. No lugar da pedrada que foi "Atos da Transfiguração", a performance com a imagem sacra, seus novos trabalhos retratam fantasmas, vultos irreconhecíveis a meio caminho da dissolução.

"É a ideia de uma sombra", diz o artista. "É algo que já não é nem homem nem mulher. O trabalho ganhou uma característica mais silenciosa com a saída do Brasil. Foi um processo de interiorização, uma necessidade de reorganizar esse corpo todo fragmentado. Não é mais um autorretrato."

No centro da galeria do Upper East Side, um dos bairros mais ricos e menos negros de Manhattan, está uma pilha de búzios; as mesmas conchas cobrem o corpo de uma pessoa deitada numa pintura.
Obá construiu todas essas obras aludindo a tradições e rituais afro-brasileiros noutro lugar ligado a histórias de violações contra o corpo negro.

Em Bruxelas, a "cidade bonita, dourada e luminosa" onde viveu nos últimos meses, ele conta que estudou fotografias chocantes de negros com pés e mãos decepadas no Congo por não baterem as cotas de extração de borracha.
Lembrando os corvos que escurecem o céu da capital da Bélgica, essas mãos separadas do corpo formam uma nuvem negra em torno de um vulto anônimo cravejado de búzios em outra das suas pinturas ali.

Mesmo que mais ambíguo, trocando a força dos atos pelos maus presságios, Obá não abandonou o registro da violência. Toda agressão calcada na intolerância, seja pela cor de sua pele ou por motivos religiosos, ressurge transfigurada nesses trabalhos que parecem pensados para desarmar um momento de ódio.

Enquanto seus desenhos, aquarelas e pinturas lembram ossadas, ou só o rastro de uma violência consumada, outras duas obras na exposição subvertem o universo da religião.

Uma tela branca toda furada por pregos, que lembra obras da vanguarda minimalista, ilustra a visão do artista sobre o ato de pregar os ensinamentos de Cristo, a ideia de como um corpo também pode ser "invadido pela palavra" com a violência do martelo.

Ao lado, uma barra de madeira sustenta velas acesas, que, ao longo da mostra, se tornam um amontoado de cera. O defunto que velavam está fora do campo de visão, mas restam as manchas esbranquiçadas de um lamento negro.
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Matéria de Silas Martí publicada originalmente no site do jornal “Folha de São Paulo”, em 29/05/18.

Controvérsia e crise nos 70 anos do MAM do Rio

O anúncio da venda do quadro N.º 16, o único Jackson Pollock em exposição no Brasil, que mobiliza parte da classe artística que critica a decisão. Estima-se que a obra renda cerca de R$ 80 milhões, a constituírem um fundo que renda dividenda para a instituição ao longo dos anos. O Pollock será leiloado dentro de quatro meses, e já recebeu duas propostas de compra. Matéria de Roberta Pennafort publicada originalmente no site do jornal “O Estado de S. Paulo”. +

Um dos principais museus do País, com uma coleção das mais completas de arte moderna e contemporânea brasileira, um histórico de exposições seminais e papel importante na formação de artistas da geração 1960, o MAM-RJ virou notícia este ano mais por suas dificuldades econômicas do que pelas comemorações de suas sete décadas de atividades.

O anúncio da venda do quadro N.º 16, o único Jackson Pollock em exposição no Brasil, mobiliza há dois meses parte da classe artística, que critica a decisão da direção de se desfazer da tela em nome da almejada autossustentabilidade. Estima-se que a obra, presenteada à instituição pelo magnata norte-americano Nelson Rockefeller em 1952, renda cerca de R$ 80 milhões, a constituírem um fundo.

A decisão gerou controvérsia, entre outras razões, pelo fato de ser incomum um museu brasileiro vender uma obra de seu acervo para se capitalizar, especialmente uma raridade. A motivação do presidente, Carlos Alberto Chateaubriand, e do conselho do Museu de Arte Moderna, integrado por outros 19 colecionadores eminentes, passa por uma palavra que o Brasil está acostumado a ouvir: a crise.

O agravamento das dificuldades econômicas que o País e o Rio, em particular, vêm passando nos últimos três anos fez minguar patrocínios. Hoje, resta apenas o da Petrobrás, mantenedora de um museu privado que, por sua programação (cerca de 25 mostras por ano), relevância e longevidade, é confundido com uma instituição pública.

As receitas do MAM, que vêm do Vivo Rio (casa de shows anexa), do aluguel do prédio para festas, de doações e outras fontes, somam R$ 3,8 milhões anuais, quando o necessário seriam, estima a direção, entre R$ 6,5 milhões e R$ 7 milhões. Isso inclui a Cinemateca do MAM, centro de referência que guarda mais de 8,4 mil títulos e público cativo (40 mil pessoas em 2017, um terço do público do museu), e um rico acervo de documentos sobre cinema e artes plásticas. Esse cenário financeiro está sendo investigado por uma consultoria para que se chegue a um diagnóstico preciso.

Uma das obras mais valiosas do museu – a maior preciosidade é uma escultura de Brancusi avaliada em US$ 80 milhões (mais de R$ 280 milhões) –, o Pollock será leiloado dentro de quatro meses, no Brasil, e a expectativa é que o valor sirva a um endownment (fundo que renda dividendos para a instituição ao longo dos anos). O museu já recebeu duas propostas e a ideia é que a tela fique no País.

“Uma das propostas é de até mais do que R$ 80 milhões. Todo mundo acha uma pena vender. Também acho. Queria estar anunciando uma aquisição. Mas qual museu fez isso nos últimos 30 anos? Eu não conheço”, diz o presidente, filho do colecionador Gilberto Chateaubriand, cuja importante coleção, com 16 mil obras, está em comodato no MAM desde 1993.

“Não adianta vender uma obra hoje, outra amanhã. Será essa só. O foco do museu é arte moderna e contemporânea brasileira. A última vez que houve pedido de empréstimo do Pollock foi em 1996. Poucos lembram dele. A gente tem que perder essa mania no Brasil de ser contra o capitalismo, de achar que o Estado vai ser o provedor de tudo. Não é possível passar 90% do tempo buscando recursos. O MAM já nasceu na crise. Temos que olhar para frente.”

Hoje, falta caixa para preencher lacunas do acervo, o que, espera a direção, será contornado com a criação de um fundo de aquisição de obras, originado no endownment. Também é preciso olhar para a manutenção do prédio. Em 1978, a joia modernista sofreu um incêndio que destruiu 90% do acervo, Picassos, Dalís, Mirós, Matisses e dezenas de artistas brasileiros.

Além dos 70 anos da fundação do MAM, por empresários e da tragédia com o fogo, 2018 fez coincidir os 60 anos do edifício, de traçado de Affonso Reidy, com jardins de Burle Marx e vista colossal da Baía de Guanabara. O aniversário será lembrado até 2019 em mostras de arte e cinema, ainda não divulgadas.

Para o curador, Fernando Cocchiarale, há muito o que se celebrar. “Temos coleções importantes, mas os milionários do Rio preferem fazer doações para o MoMA (de Nova York) e para instituições de São Paulo”, aponta. “O Brasil está naufragando, o Rio, abaixo da linha da miséria... É preciso botar na balança: de um lado, são 16 mil obras; de outro, um Pollock.”

O argumento não convence mais de cem artistas e curadores que assinaram manifesto contra a venda do Pollock, e que a consideram uma solução simplista. “Depois vão vender Brancusi? Max Bill? A conta não fecha: daqui a cinco anos o dinheiro acaba. O museu é privado, mas tem função pública. Poderiam vender algo da Coleção Chateaubriand, não do museu”, afirma Luiz Zerbini. Waltercio Caldas, que se iniciou nas práticas artísticas em aulas no MAM, em 1964, se diz “perplexo”. “O museu sempre esteve em crise, mas conseguiu ser dinâmico todos esses anos. (O Pollock) é uma perda grande.”
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Matéria de Roberta Pennafort publicada originalmente no site do jornal “O Estado de S. Paulo”.

Maria Auxiliadora da Silva

Crítica do curador alemão radicado em São Paulo Tobi Maier para a revista "Artforum" editada em maio de 2018. A mostra permaneceu em cartaz no MASP, em São Paulo, até 3/6/18. +

O Brasil foi a última nação ocidental a abolir a escravidão, em 1888, e 130 anos depois o Museu de Arte de São Paulo dedicou seu programa de 2018 às histórias afro-atlânticas como parte de sua missão maior, adotada no ano passado, para se tornar "diversa, inclusive e plural". Para inaugurar este ciclo de programação, a exposição "Maria Auxiliadora: Vida Cotidiana, Pintura e Resistência" foi aberta logo após o Dia Internacional da Mulher, em maio. Esta exposição, com curadoria de Fernando Oliva e Adriano Pedrosa, revisita seu trabalho, negligenciado há décadas por ser considerado irrelevante para as narrativas modernas e neoconcretas que dominam a arte brasileira desde os anos 1950.
Nascida em 1935 em uma família de ex-escravos, da Silva rejeitou a “boa pintura” como entendida pelo modernismo europeu e também afastou rótulos como primitivos ou ingênuos; Além disso, ela se distanciou do elitismo em um país com uma vasta desigualdade de oportunidades. Permanecendo fiel ao seu programa realista de retratar o cotidiano e seu entorno imediato, o artista usou tinta a óleo de cores vivas, bem como adesivo de plástico e até mesmo seu próprio cabelo para fazer suas pinturas. Oitenta e uma obras dos últimos seis anos de sua breve carreira estão expostas em sete seções que tratam de temas-chave: religiões afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda e seus espíritos personificados, conhecidos como orixás; auto-retratos; casais; rural; urbano; interiores; e eventos populares como carnavais. De estilo uniforme, mas rico em detalhes, seu trabalho combina imagens escritas, gestuais e musicais; "Bar com Gafieira", de 1973, por exemplo, mostra uma banda no palco em frente a uma comunidade de dança feliz (gafieira sendo um tipo de samba). Muitas vezes sabotando perspectiva, suas pinturas são caracterizadas por superfícies de baixo relevo, emprestando plasticidade aos corpos representados e seu traje exuberante. Um grupo de obras em grande parte sem título apresenta cenas dos rituais do candomblé e homenageia as divindades do orixá. "Briga", 1973, descreve uma briga em um cenário típico de bar. Também vemos figuras jubilantes dançando em "Capoeira", 1970; celebrando em "Festa Junina", 1969; ingressar nas atrações do "Parque de Diversões", 1970; ou em uma praia em "Banhistas", 1973. A industrialização e a rápida urbanização de São Paulo parecem muito distantes; o artista frequentemente descreve as simbioses entre humanos, plantas e animais na periferia da cidade. As dificuldades e estigmas experimentados pelo artista aparecem, por exemplo, em "Mobral", 1971, que mostra um grande grupo de adultos (alguns dormindo ou chorando) participando do programa de alfabetização de adultos, implementado em 1968 pelo regime militar, chamado Movimento Brasileiro de Alfabetização, abreviada como MOBRAL - que também é uma gíria que significa “ignorante”. Diagnosticada com câncer em 1972, a artista se retratou pintando no céu cercada de anjos em "Autorretrato com Anjos", 1972, antes de morrer. com a idade de trinta e nove anos, em 1974.
Atualmente, o Brasil enfrenta uma onda de violência policial, que recentemente culminou no assassinato da ativista de direitos humanos Marielle Franco, a única mulher negra na Assembléia da cidade do Rio de Janeiro, em meados de março. Como Da Silva, Franco (que teria completado 39 anos em julho) estava procurando não se unir à estrutura de poder do Brasil, mas superá-lo. Ao testemunhar as alegrias e lutas da vida afro-brasileira, o trabalho de Lula é um importante testemunho da luta contra a amnésia e a marginalização.
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Crítica do curador alemão radicado em São Paulo Tobi Maier para a revista "Artforum" editada em maio de 2018. A mostra permaneceu em cartaz no MASP, em São Paulo, até 3/6/18.

É inaugurada a primeira estátua de uma mulher na praça do Parlamento de Londres

A artista Gillian Wearing, ganhadora do prêmio Turner, criou um memorial para Millicent Fawcett, a defensora do sufrágio feminino. A estátua foi encomendada pelo prefeito de Londres e pela iniciativa 14-18 Now, que está marcando o 100º aniversário da Primeira Guerra Mundial através de arte contemporânea e performances. Matéria de Javier Pes, publicada originalemnte no site do Artnet (news.artnet.com), em 24/04/18. +

A primeira escultura de uma mulher por uma artista na Praça do Parlamento de Londres foi revelada ao público na terça-feira. O memorial da artista vencedora do Prêmio Turner, Gillian Wearing, à sufragista feminina Millicent Fawcett se junta a 11 estadistas - incluindo Winston Churchill, Lloyd George, Gandhi e Nelson Mandela - no espaço público simbólico oposto às Casas do Parlamento. Abraham Lincoln fica nas proximidades do lado oposto da rua.

Fawcett é mostrada segurando uma bandeira com as palavras: "Coragem chama a coragem em todos os lugares." A ativista usou a frase para descrever a morte da sufragista Emily Davison, que foi morta quando ela marchou para a rua no Epsom Derby em 1913 para aumentar a conscientização pela causa.
A estátua foi comissionada para marcar o centenário das mulheres que pela primeira vez recebe o direito de votar no Reino Unido. (Embora até mesmo essa lei não se aplicasse a todos: em 1918, as mulheres ainda precisavam ter mais de 30 anos e membros da classe média proprietária para se qualificarem.) Fotografias de outros ativistas do sufrágio feminino, incluindo alguns homens, são exibidas como um friso no pedestal do memorial.

A estátua foi encomendada pelo prefeito de Londres e pela iniciativa 14-18 Now, que está marcando o 100º aniversário da Primeira Guerra Mundial através de arte contemporânea e performances. A escultura é apoiada pelo fundo centenário nacional do governo do Reino Unido. A primeira-ministra Theresa May falou na inauguração.
Como sufragista, Fawcett acreditava em campanhas cumpridoras da lei pelos direitos das mulheres, ao contrário das sufragistas que tomaram ação direta nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. As enérgicas eminentes Emmeline Pankhurst e suas filhas Christabel e Sylvia, assim como muitos de seus apoiadores, foram em greve de fome quando foram presos por atos como quebrar janelas e incêndio criminoso.

Mas as sufragistas também estão adquirindo uma nova estátua pública. Um monumento a Emmeline Pankhurst, da artista Hazel Reeves, será revelado em sua cidade natal, Manchester, no norte da Inglaterra, em dezembro. "É ótimo que haverá mais estátuas de mulheres este ano", diz Reeves. "Estamos com falta deles em geral."

Outra estátua de Emmeline Pankhurst está perto do Parlamento em Victoria Gardens desde 1930, com uma placa adicionada para reconhecer Christabel no final dos anos 50. Mas erigir uma estátua em Londres da filha socialista da Emmeline, a artista Sylvia Pankhurst, tem sido mais uma saga. Finalmente, deve ser revelado em Islington, norte de Londres, no final deste ano. Depois que uma oferta de financiamento do governo foi rejeitada, os defensores agora confiam no crowdfunding para financiar o projeto.

O desenhista da escultura, o falecido artista Ian Walters, originalmente esperava que o trabalho ficasse no College Green, em frente à Câmara dos Lordes e do outro lado da rua do memorial de sua mãe e irmã. Walters também criou a estátua de Nelson Mandela que fica na Praça do Parlamento - ao lado da nova chegada de Wearing, homenageando Fawcett.
Houve pedidos para que a primeira mulher a ocupar seu lugar como membro do Parlamento fosse mais bem honrada. Nascida nos EUA, Nancy Astor entrou na Câmara dos Comuns em 1919 como deputada conservadora, defendendo os direitos de mulheres e crianças. Ela manteve seu assento até 1945.

Controversamente, em janeiro, o Conselho de Westminster recusou uma proposta para instalar uma estátua de Margaret Thatcher, a primeira mulher a se tornar primeira-ministra do Reino Unido, na Parliament Square. O trabalho de Douglas Jennings teria ficado perto do memorial de Abraham Lincoln. Os custos teriam sido atingidos por doadores privados. Os conselheiros culparam a "saturação dos monumentos", dentro e ao redor da praça, e temiam que a escultura pudesse ser alvo de manifestantes, mesmo quando colocadas em um pedestal de mais de quatro metros de altura. Jennings diz à Artnet News que o comitê por trás da estátua de Thatcher “ainda tem esperança” de que ela será erguida em algum lugar em Londres, possivelmente não na praça.
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Matéria de Javier Pes, publicada originalemnte no site do Artnet (news.artnet.com), em 24/04/18.

Governo de Minas quer contratar Inhotim, sem licitação, para formar professores

Após fechar um acordo de transferência de obras de arte como forma de quitar dívidas, o governo de Minas Gerais iniciou processo de contratação do Instituto Inhotim por R$ 2,1 milhão, sem licitação, para formação de professores do estado. O procedimento, chamado "ratificação do ato de reconhecimento de inexibilidade de licitação", que foi publicado no Diário Oficial de Minas, é o primeiro passo para que o contrato com o museu seja assinado. Matéria de José Marques publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 10/05/18. +

Duas semanas após fechar um acordo de transferência de obras de arte como forma de quitar dívidas, o governo de Minas Gerais iniciou processo de contratação do Instituto Inhotim por R$ 2,1 milhão, sem licitação, para formação de professores do estado.

O procedimento, chamado "ratificação do ato de reconhecimento de inexibilidade de licitação", foi publicado no Diário Oficial de Minas nesta quinta-feira (10). É o primeiro passo para que o contrato com o museu seja assinado.

Nele, cita artigo da lei de licitações que permite a dispensa de concorrência pública na prestação de serviços técnicos de "profissionais ou empresas de notória especialização".

O museu, segundo o governo, prestaria serviço de "formação de professores da rede estadual para promoção e utilização dos acervos artísticos, botânico e patrimonial do Instituto Inhotim como recursos pedagógicos, para a acessibilidade, a inclusão e a valorização da identidade cultural".

No último dia 27, o dono do museu, Bernardo de Mello Paz, fechou um acordo com o governo que transferia a propriedade de 20 obras de seu acervo, inclusive quarto de Adriana Varejão, como "Celacanto Provoca Maremoto", painel que imita azulejos portugueses, e a escultura de azulejo “Linda do Rosário”.

Elas foram oferecidas por Paz como forma de quitar dívidas de ICMS das suas empresas de mineração que se arrastam por mais de 25 anos. O débito foi calculado em R$ 471,6 milhões e era considerado de difícil recuperação pelo estado.

O empresário, porém, aderiu ao Plano de Regularização de Créditos Tributários, lei estadual aprovada ano passado que dá desconto aos devedores e permite o pagamento com obras de arte. Com a redução, a dívida total de dez empresas de Paz, que integram o Grupo Itaminas de mineração, cai para R$ 111,8 milhões.

O valor das obras do museu a céu aberto, que é referência internacional, ainda não foi estabelecido.

O objetivo do acerto não é o valor financeiro das obras, mas assegurar que o museu a céu aberto, considerado referência internacional, continue funcionando em Minas por muito tempo.

Procurado, o governo de Minas Gerais diz que não há suspeições sobre a contratação de Inhotim para formar professores. "O contrato, que ainda não foi celebrado, não possui nenhum outro objetivo além da realização da formação", diz a Secretaria de Educação do estado em nota.

"[A contratação do] Instituto Inhotim dá continuidade a uma parceria firmada em 2015 e 2016, com o objetivo de promover a capacitação de educadores da rede estadual de Minas Gerais para promoção e utilização dos acervos artísticos, botânico e patrimonial do Instituto, recursos pedagógicos que possibilitam a valorização da identidade cultural, a inclusão e o acesso aos bens culturais", afirma a secretaria.

"Além das capacitações de 1.000 professores e a realização de mais de 9 mil visitas ao Instituto, o contrato prevê a distribuição para as escolas estaduais de 2 mil publicações de conteúdo educativo transversal, com os acervos de arte, botânica e patrimônio da instituição", acrescenta.

Segundo o órgão, outros 1.000 professores foram formados em 2016. "Durante o curso, os professores trocaram experiências, conheceram melhor a estrutura e normas de funcionamento do museu e debateram as variadas abordagens pedagógicas possíveis de serem realizadas por meio dos acervos. Os docentes exploram o espaço do Instituto Inhotim buscando desenvolver, cada um a partir das suas próprias particularidades, o desenho de circuitos de visitação específicos para as suas turmas de estudantes", afirma a nota.

"Desta forma, os professores tornam-se mediadores do contato dos jovens com os acervos artísticos e ecológicos de Inhotim. A intenção é capacitar os educadores para que as visitações não se concretizem simplesmente como experiências intuitivas, mas sejam vivenciadas pelos estudantes dentro de uma proposta pedagógica. E também que os acervos sejam trabalhados em sala de aula, a partir das publicações que são disponibilizadas."
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Matéria de José Marques publicada originalmente no jornal "Folha de São Paulo", em 10/05/18.

Interview Magazine, fundada por Andy Warhol, fecha após 50 Anos

A revista de vanguarda da cultura pop, desde 1969, e conhecida por suas entrevistas espontâneas com artistas e titãs da cultura pop, foi fechada. O encerramento ocorre após anos de alegadas dificuldades financeiras e uma série recente de ações judiciais contra a empresa. Matéria de Sarah Cascone publicada originalmente no site do Artnet (artnet.com), em 21/05/18. +

A venerável revista Interview, fundada por Andy Warhol em 1969 e conhecida por suas entrevistas espontâneas com artistas e titãs da cultura pop, foi fechada. O encerramento ocorre após anos de alegadas dificuldades financeiras e uma série recente de ações judiciais contra a empresa.

A notícia do fim da publicação foi relatada pela primeira vez por membros da equipe no Twitter.
Este foi um ano tumultuado para a Interview, que foi temporariamente desalocada de seus escritórios do Soho em fevereiro, por não pagar aluguel. Naquele mesmo mês, a ex-COO Deborah Blasucci, que trabalhou para a empresa por 30 anos, entrou com uma ação multimilionária contra o proprietário Peter Brant, alegando a demissão sem justa causa.

O diretor editorial de longa data, Fabien Baron, renunciou em abril e processou sua ex-empresa no início deste mês, alegando que a ele e sua esposa, a estilista Ludivine Poiblanc, são devidos a mais de US $ 600 mil em faturas não pagas. O diretor de criação Karl Templer, que foi acusado de assédio sexual em uma exposição sobre a indústria da moda no Boston Globe, também deixou a revista em abril. (Ele negou as acusações contra ele.)

Vários estabelecimentos informaram que a revista está entrando no Capítulo 7 da Falência. Os registros judiciais não estavam disponíveis no momento da publicação, mas a Interview Inc. forneceu a seguinte declaração:

Hoje, a Interview, Inc. (a "Empresa"), que possui e publica a Interview Magazine, e suas duas propriedades, buscou proteção sob o Capítulo 7 do Código de Falências dos Estados Unidos. A Companhia vem operando com prejuízo financeiro e vinha financiando suas perdas e custos de sua operação, por meio de empréstimos obtidos de seu credor garantido. As perdas, no entanto, continuaram aumentando, e a Companhia não acreditou que sua condição financeira melhoraria no futuro previsível.

A Companhia estará liquidando sob as disposições do Código de Falências dos Estados Unidos. Todos os ativos da Companhia serão liquidados e distribuídos a seus credores de acordo com a lei. ”

Interview é conhecida por oferecer conversas íntimas com atores famosos, artistas, músicos, modelos de moda e outras estrelas, bem como fotografias elegantes. Durante os dias de Warhol, a revista tinha uma identidade visual distinta, com capas ilustradas de celebridades do artista Richard Bernstein. Às vezes, era descrito como "A Bola de Cristal do Pop". Warhol, que conduzia o perguntas e respostas para a revista, disse uma vez que, quando estava bêbado, "digo a todos que podem estar na capa da entrevista".

Dois anos após a morte de Warhol em 1987, a Interview foi adquirida por Brant, um magnata imobiliário e jornalístico também conhecido por sua extensa coleção Warhol. (Brant decorou o escritório da publicação com quatro Maosilkscreens pelo artista.)

A empresa de Brant, Brant Publications, também é dona da Art in America e da Magazine Antiques, que comprou em 1984 com sua primeira esposa, Sandra Brant. (Divulgação completa: este repórter trabalhou para a Brant Publications, principalmente como assistente editorial da Art in America, de 2010 a 2014, e escreveu dois artigos on-line para a Interview, pelos quais ela nunca foi paga).

A revista fez ping-pong várias vezes com sua administração nas últimas duas décadas. Quando Brant se divorciou de Sandra em 1995, ela assumiu as três revistas com sua namorada, a ex-editora chefe da Entrevista, Ingrid Sischy. Em 2008, Brant comprou a participação de 50% da Sandra na empresa e relançou a Interview com o editor-chefe fundador, Glenn O'Brien, retornando ao comando. Baron assumiu o ano seguinte.

Em 2015, Brant vendeu suas publicações que não eram da Interview - uma quarta, a Modern, fundada em 2009 - para a Artnews S.A., editora da ARTnews, por uma participação majoritária naquela empresa. No ano seguinte, a BMP Media Holdings da Brant comprou a Artnews S.A., que pediu falência. Todas as quatro publicações artísticas retomaram o compartilhamento de um escritório com a equipe da Interview, mas tornaram-se parte de um grupo editorial independente, a Art Media Holdings LLC.

No momento da publicação, Peter Brant não respondeu à solicitação da Artnet News para comentários. A locação no escritório de publicações está pronta para ser renovada em novembro, e as revistas de arte devem continuar operando nas instalações até então.
Os escritórios da revista estão fechados a partir de hoje, e não está claro se algum problema adicional será publicado. Chamadas telefônicas feitas a um número listado no site da Interview não foram atendidas; a linha parece ter sido desconectada.
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Matéria de Sarah Cascone publicada originalmente no site do Artnet (artnet.com), em 21/05/18.

Exposição com 338 obras faz ótimo apanhado do Brasil não cordial

Raramente se vê em um museu brasileiro uma pesquisa tão densa e impactante como a realizada para a exposição "Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964", em cartaz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Texto de Fabio Cypriano editado no jornal "Folha de S. paulo" em 22/05/18. +


Raramente se vê em um museu brasileiro uma pesquisa tão densa e impactante como a realizada para a exposição "Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964", em cartaz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo.
Em 338 obras, a mostra com curadoria de Heloisa Espada traça um panorama visual de 75 anos "do protagonismo das elites sociais no uso da violência como forma de resolução de conflitos", escreve no catálogo da mostra Angela Alonso, presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e colunista da Folha.
Aliás, outro grande mérito da mostra é o catálogo, com textos didáticos e aprofundados sobre cada um dos conflitos, resultando em ótimo manual da história do Brasil não cordial, derrubando de vez o mito da cordialidade nacional.
"Conflitos" tem três partes: A República da Degola (1889-1916); A República dos Bombardeios (1923-35); As Ruas da República (1954-64).
Não se trata, contudo, de exposição entediante por seu caráter um tanto enciclopédico, já que além da perspectiva histórica trata da transformação da linguagem fotográfica de maneira física.
Nela, é possível conhecer desde aparatos complexos como as "projeções photo-elétricas", ou lanternas mágicas, usadas por Flávio de Barros para exibir de forma sensacionalista imagens da Guerra de Canudos (1896-1897), até álbuns com cabeças degoladas na Revolução de 1932.
Em todo conflito, como atesta a mostra, a narrativa é estratégia essencial para a conquista de adeptos, e fotografias foram sistematicamente utilizadas para glorificar o vencedor, como se percebe já na primeira imagem que abre a exposição.
Nela, um grupo de militares tem no centro o cabo e carrasco Sebastião Juvencio, que olha diretamente para a câmera enquanto segura a cabeça de um rebelde, prestes a ser degolado no Paraná, em 1894. A barbárie, aqui, é vista sem vergonha.
Constata-se ainda como narrativas oficiais passam a ser questionadas pelos fotojornalistas, com imagens nem sempre favoráveis ao poder.
Ao mesmo tempo, esses fotógrafos e empresas de comunicação também são postos em xeque, a exemplo da imagem de carros do jornal O Globo tombados pela população, em 1954, após o suicídio do presidente Getúlio Vargas.
Apesar de terminar no golpe civil-militar de 1964, a mostra revela muito sobre o Brasil atual, e aí está outro de seus méritos: tratar do passado para melhor entender o presente tão polarizado do país.
A conclusão não pode ser outra além da constatação de que conflito sempre existiu, a violência é parte do cotidiano, e o país está longe de qualquer pacificação.
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Texto de Fabio Cypriano editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 22/05/18.
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CONFLITOS: FOTOGRAFIA E VIOLÊNCIA POLÍTICA NO BRASIL 1889-1964
Quando até 29/7, de ter. a dom., das 10h às 20h, qui. até 22h.
Onde IMS (Instituto Moreira Sales), av. Paulista, 2.424, tel. (011) 2842.9120


Construtivismo de Sergio Camargo, enfim, seduz o mercado americano

Mostra apresenta peças de mármore e madeira criadas ao longo de três décadas, do auge do construtivismo no Brasil, nos anos 1960, até a sua morte, em 1990. Texto de Silas Martí editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 22/05/18. +


Lembra um laboratório ou mesa cirúrgica. Suas esculturas brancas e pretas alinhadas debaixo dos holofotes ao longo de uma base retangular são pequenos ensaios para monumentos —objetos delicados com ambições de grandeza que traem a nudez de suas formas geométricas.
Todo o repertório de traços e gestos de Sergio Camargo na primeira mostra do escultor brasileiro nos EUA parece estar mais exposto do que nunca, como se pronto para a dissecação.
Lá estão peças de mármore e madeira criadas ao longo de três décadas, do auge do construtivismo no Brasil, nos anos 1960, até a sua morte, em 1990.
É estranho pensar que um país com apego tão forte ao minimalismo tenha levado tanto tempo para voltar os olhos a um artista como Camargo, que, embora já despertasse a atenção de colecionadores nos leilões, só agora tem uma exposição de fôlego em Nova York.
Na cidade que viu surgir alguns dos maiores heróis dessa corrente estética, fica mais nítido como só por seus aspectos formais as obras de Camargo teriam trânsito fácil entre a crítica e o mercado aqui.
E o interesse dos nova-iorquinos que abarrotaram duas salas da galeria Sean Kelly para ver esses trabalhos não deixa dúvida sobre essas afinidades.
O espetáculo na obra de Camargo, como em muitos dos minimalistas americanos, está no contraste entre o brilho e a opacidade, que destaca a volumetria calculada, maquinal e modular de suas esculturas.
Lado a lado, relevos idênticos em mármore negro e branco, peças em que uma fina haste na diagonal liga duas placas formando um ângulo reto, ilustram esse ponto.
Enquanto o branco absorve a luz, o negro se torna uma espécie de espelho, refletindo os holofotes. Mas são abstrações, como salas, palcos ou monumentos de pedra que parecem forjados sem esforço do ar e da carga etérea da luz.
Sem pedestais e com plataformas, a montagem da mostra reforça esse aspecto, transformando as peças em quase joias, embora às vezes desvalorize trabalhos menores.
No ponto em que se distancia de um minimalismo mais cerebral, também estão ali alguns relevos de parede, as peças de madeira em que parece plantar uma floresta de toquinhos sobre a superfície da tela. O caos orgânico diante da ordem mais pura e artificial das máquinas e da geometria.
A beleza das obras não se tornou menos assombrosa com o tempo; o risco, aqui, é transformar seu pensamento em mera decoração, como se, para compensar o atraso de sua chegada ao mercado americano, entregassem uma overdose fetichista sem o rigor que ele admirava.
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Texto de Silas Martí editado no jornal "Folha de S. Paulo" em 22/05/18.

Disposições sobre relações entre museus e associações de amigos de museus

A Instrução Normativa nº 1, de 17/5/2018 da Legislação Federal dispõe sobre as relações entre os museus e as associações de amigos de museus, no âmbito do Poder Executivo Federal. Foi assinada pelo presidente do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), Marcelo Mattos Araújo. +

O PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS - Ibram, no uso da atribuição constante no inciso IV do art. 20 do Anexo I ao Decreto nº 6.845, de 7 de maio de 2009, c/c o art. 58 do Regimento Interno do Ibram, e o § 1º do art. 31 do Decreto nº 8.124, de 17 de outubro de 2013, considerando a deliberação da 28º Reunião da Diretoria Colegiada, realizada em 22 de março de 2018, resolve:

CAPÍTULO I
DAS DISPOSIÇÕES PRELIMINARES

Art. 1º Esta Instrução Normativa estabelece critérios, requisitos e os procedimentos que orientam as relações entre os museus e as associações de amigos de museus, no âmbito do Poder Executivo Federal, na forma prevista nos arts. 48 a 54 da Lei nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009, e nos arts. 30 e 31 do Decreto nº 8.124, de 17 de outubro de 2013.

Art. 2º Para os fins desta Instrução Normativa, consideram-se:

I - museu: instituição sem fins lucrativos, de natureza cultural, que conserva, investiga, comunica, interpreta e expõe, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação, contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico, artístico, científico, técnico ou de outra natureza cultural, abertos ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento;

II - museus do Poder Executivo Federal: todas as instituições museológicas vinculadas ao Poder Executivo Federal, situadas no território nacional;

III - museus administrados pelo Instituto Brasileiro de Museus - Ibram: todas as instituições museológicas vinculadas ao Poder Executivo Federal integrantes, sucedidas ou administradas pelo Ibram, nos termos dos arts. 7º e 8º da Lei nº 11.906, de 20 de janeiro de 2009; e

IV - associação de amigos de museus: as sociedades civis, sem fins lucrativos, constituídas na forma da lei civil, que preencham os requisitos previstos no art. 50 da Lei 11.904, de 2009.

CAPÍTULO II
DAS RELAÇÕES ENTRE OS MUSEUS DO PODER EXECUTIVO FEDERAL E AS ASSOCIAÇÕES DE AMIGOS DE MUSEUS

Art. 3º As associações de amigos de museus do Poder Executivo Federal ficam condicionadas ao prévio reconhecimento dessa condição, por ato administrativo do respectivo museu, ou, conforme o caso, da instituição à qual o museu esteja vinculado, nos termos do art. 50 da Lei 11.904, de 2009, e do artigo 31 do Decreto 8.124, de 2013.

§ 1º Os museus estabelecerão os procedimentos que deverão ser adotados e a documentação necessária para o reconhecimento previsto no caput.

§ 2º O ato de reconhecimento levado a efeito pelo museu ou, conforme o caso, pela instituição à qual o museu esteja vinculado, terá validade a contar da data da publicação da decisão no Diário Oficial da União - DOU.

Art. 4º São requisitos para obter o reconhecimento como associação de amigos de museus do Poder Executivo Federal, dentre outras condições que possam ser exigidas pelos respectivos museus:

I - ostentar a qualidade de sociedade civil, sem fins lucrativos, constituída na forma da lei civil;

II - constar em seu instrumento de criação ou de constituição, como finalidade exclusiva, o apoio, a manutenção e o incentivo às atividades dos museus a que se refiram, especialmente aquelas destinadas ao público em geral;

III - não haver restrição à adesão de novos membros, pessoas físicas ou jurídicas;

IV - não remunerar os componentes da diretoria; e

V - constar em seu instrumento de criação ou de constituição que, no caso de dissolução da associação, o seu patrimônio líquido será destinado a entidade congênere, de fins idênticos ou semelhantes, ou, em não havendo entidade congênere, ao museu ao qual se vincula.

Art. 5º Para cumprimento do disposto no art. 53 da Lei nº 11.904, de 2009, e dos arts. 30 e 31 do Decreto nº 8.124, de 2013, o museu ou, conforme o caso, a instituição à qual o museu esteja vinculado poderá solicitar às associações de amigos de museus quaisquer documentos ou informações.

Art. 6º Para a manutenção do reconhecimento, as associações de amigos de museus deverão:

I - manter a sua documentação atualizada; e

II - apresentar os seus balanços, acompanhados do relatório de atividades, conforme determinação do museu ou, conforme o caso, da instituição à qual o museu esteja vinculado, no prazo de 120 (cento e vinte) dias, contado do encerramento do exercício.

Art. 7º O museu ou, conforme o caso, a instituição à qual o museu esteja vinculado, por seus órgãos próprios e independentemente de notificação ou aviso, poderá verificar a atuação, a regularidade e o cumprimento dos objetivos sociais ou estatutários por parte das associações de amigos de museus.

Art. 8º O reconhecimento da associação de amigos de museus será revogado, garantido o exercício da ampla defesa e do contraditório, nas seguintes hipóteses:

I - inobservância ao disposto no art. 5º desta Instrução Normativa;

II - descumprimento de compromissos ou projetos assumidos;

III - prática de infração à legislação ou à execução de ações consideradas prejudiciais aos interesses e à imagem dos museus; e

IV - por interesse do museu ou da própria associação de amigos, a qualquer tempo, desde que haja notificação escrita do interessado na revogação com antecedência mínima de 90 (noventa) dias, sem prejuízo da continuidade dos projetos em andamento.

Art. 9º Para o cumprimento do disposto no art. 54 da Lei nº 11.904, de 2009, as associações de amigos de museus deverão:

I - tornar públicos seus balanços periodicamente;

II - permitir quaisquer verificações determinadas pelos órgãos de controle competentes, prestando os esclarecimentos que lhes forem solicitados;

III - permitir acesso irrestrito a registros, informações, sistemas, pessoas e propriedades físicas relevantes à execução de auditorias, resguardado eventual sigilo; e

IV - encaminhar ao respectivo museu ao qual estiverem vinculados, até o mês de maio de cada ano, relatório a respeito da arrecadação e aplicação de seus recursos financeiros, relativos ao exercício anterior.

Art. 10. É vedada às associações de amigos de museus a realização de ações e projetos de duração indeterminada.

Art. 11. Os museus do Poder Executivo Federal que não estejam vinculados ao Ibram podem, se assim o desejarem, adotar os procedimentos e a ficha cadastral utilizados pelos museus administrados pelo Ibram.

CAPÍTULO III
DAS ASSOCIAÇÕES DE AMIGOS DOS MUSEUS ADMINISTRADOS PELO IBRAM

Art. 12. Cabe à direção do museu reconhecer por ato administrativo sua respectiva associação de amigos como legítima e pronta para produzir os efeitos decorrentes das ações previstas em seu Estatuto Social, instruindo o processo com nota técnica devidamente fundamentada.

Parágrafo único. O ato de reconhecimento da associação de amigos deverá ser publicado no DOU.

Art. 13. As associações de amigos de museus administrados pelo Ibram deverão preencher a ficha cadastral prevista no Anexo I a esta Instrução Normativa e enviá-la ao respectivo museu, juntamente com a seguinte documentação:

I - carta de apresentação da associação de amigos;

II - cópia autenticada do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ; e

III - cópia autenticada do ato constitutivo, estatuto ou contrato social em vigor.

Art. 14. As associações de amigos de museus administrados pelo Ibram deverão encaminhar ao respectivo museu, até o mês de novembro de cada ano, um Plano de Trabalho anual relativo ao ano subsequente.

Parágrafo único. O Plano de Trabalho deverá conter os planos, projetos e ações a serem realizados no decorrer do ano, em consonância com os Planos Museológicos dos respectivos museus.

Art. 15. Cabe à direção do museu:

I - aprovar o Plano de Trabalho anual e suas alterações, com base em nota técnica devidamente fundamentada;

II - apreciar e aprovar previamente, todos e quaisquer investimentos, benfeitorias e obras previstas no Plano de Trabalho anual, a serem realizados nas dependências do museu, devendo o processo estar instruído com nota técnica devidamente fundamentada; e

III - acompanhar, monitorar e avaliar a execução dos planos, projetos e ações de qualquer natureza, constantes do Plano de Trabalho anual das associações de museus.

Parágrafo único. O Plano de Trabalho e suas alterações deverão ser encaminhados pela direção do museu à Presidência do Ibram, para conhecimento, no prazo máximo de 30 (trinta) dias contado da sua aprovação.

Art. 16. A prática dos atos de gestão pela direção dos museus mencionados nos arts. 12 e 15 desta Instrução Normativa não elide o cumprimento das prescrições legais e normativas respectivas.

Art. 17. A Presidência do Ibram poderá solicitar informações e documentos visando a supervisão das atividades e procedimentos estabelecidos nesta Instrução Normativa.

Art. 18. . Fica vedado às associações de amigos de museus administrados pelo Ibram o desenvolvimento ou a participação em quaisquer atividades administrativas de competência dos respectivos museus.

Art. 19. Os museus administrados pelo Ibram poderão ceder espaço físico para uso das respectivas associações de amigos de museus, por prazo determinado, a título precário e mediante autorização específica, para projetos, atividades e ações previstas em seu Plano de Trabalho anual que tenham por objetivo a contribuição para o desempenho das funções e finalidades dos museus.

Art. 20. Fica vedada qualquer cessão, permissão ou autorização de uso:

I - de espaço físico dos museus administrados pelo Ibram para a utilização como sede, domicílio ou instalações administrativas de associações de amigos de museus; e

II - de espaço físico dos museus administrados pelo Ibram para o exercício de atividades de comércio pelas associações de amigos de museus sem que haja o devido procedimento licitatório, na forma da legislação vigente.

CAPÍTULO IV
DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art. 21. As associações de amigos de museus administrados pelo Ibram, bem como todos os demais museus do Poder Executivo Federal, deverão adequar-se às disposições desta Instrução Normativa, no prazo máximo de 120 (cento e vinte) dias contado de sua publicação.

Art. 22. Fica revogada a Instrução Normativa nº 1, de 27 de outubro de 2011.

Art. 23. Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de sua publicação.

Marcelo Mattos Araujo

ANEXO I

FICHA CADASTRAL

A _______________________________________________, com sede em ________________________________________________, inscrita no CNPJ sob o número ___________________________, neste ato representado (a) por ________________________________________________________, CPF n° _______________________, RG n°_________________________, nacionalidade _________________________, vem requerer ao (MUSEU) o seu reconhecimento como associação de amigos de museus. Para tanto, declara estar de acordo com os princípios, finalidades, organização e modos de funcionamento do (MUSEU), como também com as condições estabelecidas na Instrução Normativa nº xx, de xx de xxxxx de 2018, e mediante a apresentação dos seguintes documentos:

1.Carta de apresentação;

2.Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ

3.Cópia autenticada do Ato Constitutivo, Estatuto ou Contrato Social em vigor. Cópia autenticada do Cadastro de Pessoa Física e Carteira de Identidade do titular da instituição.

REPRESENTANTE DA INSTITUIÇÃO

Nome: ___________________________________________

CPF:_____________________RG:_____________________

Endereço:__________________________________________

Telefone: (___) _______________ (___) _______________

E-mail: ____________________________________

_____________________________

Local e data:

__________________________________________

Titular da Associação

Fonte: Diário Oficial da União - Seção 1, Ano CLV, nº 96, de 21 de maio de 2018, p.30

Este texto não substitui o publicado no DOU

Artista faz obra protesto e distribuiu a deputados contra Lei dos Agrotóxicos

Siron Franco resolveu distribuir para deputados, senadores e ministros 700 pratos de papelão com o tradicional símbolo de produto venenoso, em protesto contra a proposta em tramitação na Câmara que flexibiliza o projeto em análise sobre o assunto. Alei altera as regras de produção, comercialização e distribuição de agrotóxicos e tem causado polêmica no Congresso Nacional. Matéria de Gerson Camarotti, publicada originalmente no site do G1 (g1.com), em 20/05/18. +

O artista plástico Siron Franco resolveu distribuir para deputados, senadores e ministros 700 pratos de papelão com o tradicional símbolo de produto venenoso, em protesto contra a proposta em tramitação na Câmara que flexibiliza a Lei dos Agrotóxicos.

O projeto em análise na comissão especial sobre o assunto altera as regras de produção, comercialização e distribuição de agrotóxicos e tem causado polêmica no Congresso Nacional. Depois da votação do texto ter sido adiada quatro vezes, foi marcada uma nova sessão da comissão para 29 de maio.
“Quem faz isso não pensa no filho. E não pensa nem mesmo na própria saúde, pois corre o risco de comer alimentos com veneno”, disse Siron, que resolveu usar pratos de papelão na sua nova obra de protesto por ser material reciclável.

O parecer do relator Luiz Nishimori (PR-PR) flexibiliza a Lei dos Agrotóxicos e limita a atuação de órgãos de controle na autorização de produtos utilizados como pesticidas. Nishimori também propõe retirar a denominação "agrotóxico" e substituir por "produto fitossanitário".

O texto do relator propõe ainda que o Ministério da Agricultura seja o único órgão responsável por autorizar a produção e venda dos agrotóxicos. Há forte reação de ambientalistas ao texto.
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Matéria de Gerson Camarotti, publicada originalmente no site do G1 (g1.com), em 20/05/18.

Exposições ameaçadas

O Masp iniciou, na quinta, 17, uma parceria com a Tate Modern, de Londres, em que recebe seis obras do museu britânico para a exposição Acervo em Transformação. A mostra, porém, foi parar na Justiça, já que, na chegada das obras ao Aeroporto Internacional de Campinas, o museu foi notificado de uma cobrança maior na tarifa de admissão temporária. Por meio de um mandado de segurança, o museu reverteu a cobrança. Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 18/05/18. +

O Masp iniciou, na quinta, 17, uma parceria com a Tate Modern, de Londres, em que recebe seis obras do museu britânico para a exposição Acervo em Transformação. A mostra, porém, foi parar na Justiça, já que, na chegada das obras ao Aeroporto Internacional de Campinas, o museu foi notificado de uma cobrança maior na tarifa de admissão temporária. Por meio de um mandado de segurança, o museu reverteu a cobrança.
“Foi uma grande surpresa, não esperávamos que acontecesse com o Masp”, diz, ao Estado, o presidente do museu, Heitor Martins. A mudança na cobrança não se deu por novas leis, mas por uma reinterpretação da lei vigente. Nos contratos de concessão dos aeroportos, baseados na Portaria n.° 219/GC5, de 27 de março de 2001, da Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, são definidas as taxas para “cargas que entrarem no País sob o regime de Admissão Temporária destinadas, comprovadamente, aos certames e outros eventos de natureza científica, esportiva, filantrópica ou cívico-cultural”. Nesses casos, a tarifa, no aeroporto de Viracopos, baseada na Tabela 9 do Anexo 4, estabelece a cobrança por peso, de R$ 0,15 por quilo.
Ao chegarem a Viracopos, as obras da Tate, no entanto, foram cobradas por outra tabela, a 11, para “Carga Importada de Alto Valor Específico”. Por esta tabela, para desembarcar e armazenar as obras por um prazo de três dias, Viracopos cobraria cerca de R$ 243 mil, com base no valor das pinturas, que, somadas, são avaliadas em aproximadamente R$ 160 milhões. Se ficassem mais um dia, a tarifa chegaria a R$ 972 mil. Pela tabela 9, que foi aplicada após a decisão judicial, considerando apenas o peso, o Masp pagou R$ 130.
Em nota, a concessionária Aeroportos Brasil Viracopos, que administra o aeroporto de Campinas, condenou a decisão, por considerar que o termo “cívico-cultural” não caberia à exposição. “Tais eventos, como exposições de obras de artes, por exemplo, não podem ser qualificados como ‘cívico-cultural’, tendo em vista que possuem fins lucrativos e há a cobrança para que a população visite o espaço.”
O museu discorda, já que o Masp não tem fins lucrativos. Para Martins, a decisão do aeroporto é preocupante. “O Masp é uma das principais portas de entrada para obras internacionais do País. Para os próximos cinco anos, temos planejadas exposições muito importantes. A atitude do aeroporto coloca incerteza no processo e pode inviabilizar grande parte dessas exposições. Os prejudicados serão o público e a cultura brasileira.”
Em abril, a SP-Arte, feira de galerias nacionais e internacionais, também entrou na Justiça para garantir a cobrança pela tabela 9, agora no Aeroporto de Guarulhos. “A cobrança só é conhecida quando a carga chega – algumas galerias acabaram pagando pela outra tabela porque foi em cima da hora”, afirma Fernanda Feitosa, diretora da SP-Arte. No caso do Masp, Viracopos alegou que o termo “cívico” seria afetado pela cobrança de ingresso. Mas, mesmo para a SP-Arte, que tem fins comerciais, Feitosa acredita que não cabe tal interpretação. “Não cabe ao aeroporto legislar sobre matéria que não é pertinente a ele. O Ministério da Cultura é o único órgão do País que pode definir o que é ou não cultural.” Outra exposição afetada foi 100 Anos de Arte Belga , na Fiesp, em março, quando obras chegaram da Suíça pelo aeroporto do Galeão, no Rio. “Também argumentaram sobre o cívico-cultural. Essa norma tem que ser mais precisa”, diz Patrícia Galvão, produtora responsável pela mostra. Com o Galeão, a situação foi resolvida na conversa e a taxa aplicada pela tabela 9.
Apesar de concentrar mais ocorrências, o setor de artes visuais não foi o único afetado. Orquestras também tiveram instrumentos musicais tarifados, pelo menos inicialmente, fora da tabela 9. A Sociedade de Cultura Artística sofre com problemas desde 2017 – todos também resolvidos na base do diálogo. Para se precaver, a instituição tem procurado os aeroportos antes da chegada dos músicos ao Brasil. “Quanto mais importante a orquestra, maior o valor dos instrumentos”, preocupa-se Frederico Lohmann, superintendente da Cultura Artística. “A cobrança de taxas fora da tabela 9 inviabiliza apresentarmos concertos, porque os valores seriam muito altos. Ficaria mais caro que o cachê.”
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Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 18/05/18

Tate em São Paulo

A mudança na cobrança de tarifas de admissão temporária em aeroportos, que afetou o Masp e a SP-Arte, preocupa o setor de artes visuais no Brasil. Instituições culturais temem não poder realizar novas exposições no futuro, por conta do aumento que as novas taxas causariam no valor final das mostras. Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 18/05/18. +

A mudança na cobrança de tarifas de admissão temporária em aeroportos, que afetou o Masp e a SP-Arte, preocupa o setor de artes visuais no Brasil. Instituições culturais temem não poder realizar novas exposições no futuro, por conta do aumento que as novas taxas causariam no valor final das mostras.
A partir desta semana, por nove meses, o Masp vai exibir as seis obras da Tate Modern, de Londres, complementando a exposição Acervo em Transformação. É a primeira de algumas parcerias que o Masp planeja para o futuro, mas que podem ser prejudicadas pela mudança nas taxas aeroportuárias.
“É um intercâmbio pioneiro. Uma experiência única que marca a colaboração entre os museus”, afirma o presidente do Masp, Heitor Martins, que garante já estar com projetos semelhantes em andamento com outros museus. “Queremos continuar com esse intercâmbio ao longo dos próximos anos, se nos recuperarmos da situação com os aeroportos.” Da Tate, chegam as obras Dorelia in a Black Dress (1903-4), da artista galesa Gwen John, Coming Out of School (1927), do modernista inglês L.S. Lowry, The Bride (1949), da também britânica Sylvia Sleigh, Seated Figure (1961), do irlandês Francis Bacon, They Always Appear, do sudanês Ibrahim El-Salahi (1964), e Head of a Man (1965), do indiano F. N. Souza. Todas estão expostas nos icônicos cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi. Em retribuição, o Masp emprestou dois quadros de Van Gogh ao museu britânico. “A premissa dessa proposta é inovar o acervo e trazer novos diálogos e perspectivas, com obras que geralmente não estariam lá, não teríamos no nosso acervo”, explica a curadora, Olivia Ardui.
“Vai criar um problema em cascata”, afirma a diretora da SP-Arte, Fernanda Feitosa, que já estuda possíveis medidas legais que o evento pode tomar para assegurar a edição de 2019, caso não haja uma definição sobre o termo “cívico-cultural”.
A produtora cultural Patrícia Galvão, que já teve problemas este ano com obras da exposição 100 Anos de Arte Belga , na Fiesp, com o aeroporto do Galeão, se preocupa com os próximos trabalhos. “Temos uma outra exposição planejada na Fiesp para o final do ano. Por uma questão de orçamento, não conseguiremos trazer a exposição se as taxas maiores forem cobradas. Será inviabilizada.”
Com exposições programadas até o final do ano, o Instituto Tomie Ohtake também demonstra preocupação. “Neste ano, temos duas exposições já com contratos assinados. Se continuar essa cobrança, não vamos conseguir realizar”, diz o diretor do instituto, Ricardo Ohtake. “Esse tipo de coisa pode inviabilizar exposições importantes no Brasil, o que não pode acontecer.”
Com mais de 30 anos de experiência na realização de exposições de arte em todo o mundo, a empresária Maria Ignez Montovani, que já realizou exposições no Brasil com obras do museu D’Orsay, de Paris, se diz espantada com as mudanças. “É a primeira vez que ouço falar em cobrança pelo valor da obra”, afirma. “No resto do mundo, a cobrança é feita pelo peso.” Preocupada, ela chama a atenção também para as condições de armazenamento das obras nos aeroportos. “É preciso também agilizar o processo de liberação, tem que ser priorizado para que a obra passe o menor tempo possível no aeroporto. É uma regra de conservação e segurança internacional.”
Na tentativa de sanar o problema, o Ministério da Cultura e o Ministério dos Transportes, Portos e Aviação Civil, responsável pela Anac, se reuniram esta semana para discutir o que pode ser feito. O MinC vai agora enviar um ofício ao Ministério dos Transportes, sugerindo a regulamentação do conceito de atividade cívico-cultural, para esclarecer quais atividades podem se utilizar da cobrança por peso, estabelecido na tabela 9. A partir deste ofício, uma comissão será criada para propor regras mais claras.
“O grupo de trabalho examinará a questão e estabelecerá uma regulamentação”, afirma o ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, em nota. Ainda segundo o ministro, a comissão terá prazo de 30 dias, prorrogável por mais 30, para formular uma proposta. Em uma reunião anterior com a Anac, em abril, Leitão já havia falado sobre a polêmica com o termo “cívico-cultural”. “Para mim, parece óbvio que a tabela 9, da Anac, que permite a cobrança da tarifa por peso, deve ser aplicada a eventos culturais em geral”, disse à época.
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Artigo de Pedro Rocha para o jornal "O Estado de S. paulo" editado em 18/05/18.


Brasileira Monica Nador é uma das vencedoras do Prêmio Montblanc

Projeto JAMAC - Jardim Miriam Arte Clube receberá 15 mil euros. Jochen Volz (diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo) está no júri de premiação. Artigo editado no site da revista "Dasartes". +

A Fundação Cultural Montblanc revelou os 17 beneficiários de seu 2018 Arts Patronage Award em 26/4/18 em Munique, na Alemanha. Jürgen Wesseler, representado por seu filho, recebeu o prêmio para a Alemanha. O mundialmente famoso Prêmio de Patrocínio de Artes da Montblanc reconhece patronos excepcionais das artes em 17 países em todo o mundo, apoiando suas respectivas atividades filantrópicas.
Os premiados foram selecionados pelo Curatorium da Fundação, formado por Anne Barlow (diretora da Tate St. Ives), Sunjung Kim (diretor da Gwangju Biennale), Jean de Loisy (presidente do Palais de Tokyo) e Franklin Sirmans (diretor do Perez Art Museum). Jochen Volz (diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo) e os presidentes da Fundação, Sam Bardaouil e Till Fellrath.
Os vencedores foram nomeados por 50 figuras culturais internacionalmente estabelecidas em todo o mundo. Como parte do prêmio, cada um deles recebe uma doação de 15.000 euros da Montblanc Cultural Foundation para suas organizações e projetos sem fins lucrativos.
Ao comentar sobre os prêmios deste ano, os presidentes da Fundação Cultural Montblanc Sam Bardaouil e Till Fellrath disseram: “O Prêmio de Patrocínio das Artes é a maneira da Fundação reconhecer o papel essencial que os patrocinadores desempenham na promoção de vários aspectos do mundo das artes. Ao reconhecer publicamente as conquistas notáveis ​​dos beneficiários deste ano, esperamos ampliar o apoio para cada um de seus projetos únicos.”
“Através de seu generoso apoio, esses clientes modernos continuam a causar um impacto mensurável tanto nas comunidades artísticas quanto na sociedade, enriquecendo mentes e inspirando audiências com novas perspectivas criativas”, explica Vincent Montalescot, membro da diretoria da Montblanc Cultural Foundation. “O apoio contínuo que indivíduos comprometidos e apaixonados como esses prestam às artes é incrivelmente importante e essencial para nutrir cenas de artes prósperas tanto localmente quanto internacionalmente.”

Os ganhadores do prêmio Montblanc Arts Patronage de 2018 são:

Monica Nador (Brasil): fundadora do JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube em 2003, um estúdio aberto sem fins lucrativos e centro de arte na periferia sul de São Paulo dedicado à comunidade local como resposta à falta de espaços dedicados à arte na área .

Juan Yarur (Chile): presidente da FAMA (Fundação AMA), que desde 2002 oferece a artistas e historiadores da arte oportunidades de intercâmbio no exterior por meio de colaborações com instituições internacionais.

Shum Chiu Hung (China): fundador do Museu do Tempo em Guangzhou, em 2003, como um espaço dedicado à pesquisa e apresentação de arte contemporânea, e promoção de práticas artísticas locais, públicas e interdisciplinares através de exposições, residências e projetos de envolvimento comunitário.

Sandra Hegedüs (França): fundadora da SAM Art Projects em 2009, que através de um prêmio anual de arte contemporânea, residências artísticas em Paris, e dando suporte a vários outros projetos inicia o diálogo entre os praticantes culturais do hemisfério norte e suas contrapartes do sul.

Jürgen Wesseler (Alemanha): fundador do Kabinett für aktuelle Kunst (Gabinete para Artes Contemporâneas) em 1967 em Bremerhaven, que moldou a paisagem da cena da arte contemporânea através de exposições pioneiras para alguns dos artistas mais importantes dos últimos 50 anos.

Iordanis Kerenidis e Piergiorgio Pepe (Grécia): fundadores do Phenomenon, um festival de arte contemporânea na ilha de Anafi em 2015, consistindo de exposições de arte, programas de residência, palestras, exibições de filmes e outras atividades culturais.

Claire Hsu e Johnson Chong (Hong Kong): fundadores do AAA Asia Art Archive, que desde 2000 fornece aos pesquisadores oportunidades para documentar e disseminar as múltiplas histórias recentes de arte na Ásia por meio de residências, programas educacionais e de pesquisa, publicações e publicações institucionais. colaborações.

Anna d’Amelio Carbone e Fabiana Marenghi Vaselli Bond (Itália): diretores da Fondazione Memmo em Roma que desde a sua fundação em 2002 tem facilitado o diálogo em torno das artes através de exposições, performances, residências, palestras, conferências, workshops e publicações artísticas. .

Yoshihisa Nakano (Japão): diretor do Terrada Soko (Armazém Terrada), que desde 1950 tem sido um complexo de artes líder que oferece espaços para exposições, estúdios de artistas e um programa de conservação de arte em colaboração com a Universidade de Yokohama.

Choi Yun-Jung (Coréia): diretor da Paradise Culture Foundation em Seul, que desde sua fundação em 1998, e seu espaço de arte contemporânea ZIP em 2016 tem sido um dos principais apoiadores de exposições, residências e programas de intercâmbio.

Zaza e Philippe Jabre (Líbano): filantropos que ao longo de várias décadas têm apoiado várias organizações de artes sem fins lucrativos no Líbano e em outros lugares, como Ashkal Alwan e o Centro de Arte de Beirute, bolsas de estudo, bem como uma grande doação ao programa de história da arte. Universidade Americana de Beirute.

Yoshua Okon (México): fundadores da SOMA em 2009, como uma organização dedicada ao intercâmbio cultural e pedagogia artística através de seus vários programas acadêmicos, residenciais e públicos, promovendo o desenvolvimento profissional de artistas emergentes.

Asya Filippova (Rússia): fundadora do Fabrika Center for Creative Industries em 2005, que apoia as atividades de artistas independentes e criativos, bem como comissões e produz uma ampla gama de projetos artísticos.

José Maria Lafuente (Espanha): fundador do Arquivo Lafuente, na Cantábria e em Madri, em 2002, que dá acesso a cerca de 120.000 documentos e 2.000 obras de arte especializadas na história da arte do século XX na Europa, América Latina e Estados Unidos. com particular ênfase na Espanha.

Hubert Looser (Suíça): filantropo e colecionador que ao longo de cinco décadas introduziu importantes movimentos artísticos e artistas em novos públicos anos antes de assumir o reconhecimento público. Mais recentemente, seu patrocínio culminou em um empréstimo permanente de uma grande parte de sua coleção de arte contemporânea para o Kunsthaus em Zurique.

Catherine Petitgas (Reino Unido): filantropa e presidente da instituição de caridade franco-britânica Fluxus Art Projects, que desde 2010 apóia artistas contemporâneos dos dois países no momento em que eles começam a emergir do cenário nacional e precisam de apoio para expor no exterior.

Laura Donnelley (EUA): fundadora e principal patrocinadora da Art Matters, que desde 1985 tem apoiado experiências inovadoras em arte, dando mais de 300 bolsas a artistas norte-americanos para bolsas e projetos colaborativos em diversos meios de comunicação.
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Artigo editado no site da revista "Dasartes".

Governo de Minas quer contratar Inhotim, sem licitação, para formar professores

O museu, segundo o governo, prestaria serviço de "formação de professores da rede estadual para promoção e utilização dos acervos artísticos, botânico e patrimonial do Instituto Inhotim como recursos pedagógicos, para a acessibilidade, a inclusão e a valorização da identidade cultural". Artigo de José Marques para o jornal "Folha de S. Paulo" editado em 10/05/18. +


Duas semanas após fechar um acordo de transferência de obras de arte como forma de quitar dívidas, o governo de Minas Gerais iniciou processo de contratação do Instituto Inhotim por R$ 2,1 milhão, sem licitação, para formação de professores do estado.
O procedimento, chamado "ratificação do ato de reconhecimento de inexibilidade de licitação", foi publicado no Diário Oficial de Minas nesta quinta-feira (10). É o primeiro passo para que o contrato com o museu seja assinado.
Nele, cita artigo da lei de licitações que permite a dispensa de concorrência pública na prestação de serviços técnicos de "profissionais ou empresas de notória especialização".
O museu, segundo o governo, prestaria serviço de "formação de professores da rede estadual para promoção e utilização dos acervos artísticos, botânico e patrimonial do Instituto Inhotim como recursos pedagógicos, para a acessibilidade, a inclusão e a valorização da identidade cultural".
No último dia 27, o dono do museu, Bernardo de Mello Paz, fechou um acordo com o governo que transferia a propriedade de 20 obras de seu acervo, inclusive quarto de Adriana Varejão, como "Celacanto Provoca Maremoto", painel que imita azulejos portugueses, e a escultura de azulejo “Linda do Rosário”.
Elas foram oferecidas por Paz como forma de quitar dívidas de ICMS das suas empresas de mineração que se arrastam por mais de 25 anos. O débito foi calculado em R$ 471,6 milhões e era considerado de difícil recuperação pelo estado.
O empresário, porém, aderiu ao Plano de Regularização de Créditos Tributários, lei estadual aprovada ano passado que dá desconto aos devedores e permite o pagamento com obras de arte. Com a redução, a dívida total de dez empresas de Paz, que integram o Grupo Itaminas de mineração, cai para R$ 111,8 milhões.
O valor das obras do museu a céu aberto, que é referência internacional, ainda não foi estabelecido.
O objetivo do acerto não é o valor financeiro das obras, mas assegurar que o museu a céu aberto, considerado referência internacional, continue funcionando em Minas por muito tempo.
Procurado, o governo de Minas Gerais diz que não há suspeições sobre a contratação de Inhotim para formar professores. "O contrato, que ainda não foi celebrado, não possui nenhum outro objetivo além da realização da formação", diz a Secretaria de Educação do estado em nota.
"[A contratação do] Instituto Inhotim dá continuidade a uma parceria firmada em 2015 e 2016, com o objetivo de promover a capacitação de educadores da rede estadual de Minas Gerais para promoção e utilização dos acervos artísticos, botânico e patrimonial do Instituto, recursos pedagógicos que possibilitam a valorização da identidade cultural, a inclusão e o acesso aos bens culturais", afirma a secretaria.
"Além das capacitações de 1.000 professores e a realização de mais de 9 mil visitas ao Instituto, o contrato prevê a distribuição para as escolas estaduais de 2 mil publicações de conteúdo educativo transversal, com os acervos de arte, botânica e patrimônio da instituição", acrescenta.
Segundo o órgão, outros 1.000 professores foram formados em 2016. "Durante o curso, os professores trocaram experiências, conheceram melhor a estrutura e normas de funcionamento do museu e debateram as variadas abordagens pedagógicas possíveis de serem realizadas por meio dos acervos. Os docentes exploram o espaço do Instituto Inhotim buscando desenvolver, cada um a partir das suas próprias particularidades, o desenho de circuitos de visitação específicos para as suas turmas de estudantes", afirma a nota.
"Desta forma, os professores tornam-se mediadores do contato dos jovens com os acervos artísticos e ecológicos de Inhotim. A intenção é capacitar os educadores para que as visitações não se concretizem simplesmente como experiências intuitivas, mas sejam vivenciadas pelos estudantes dentro de uma proposta pedagógica. E também que os acervos sejam trabalhados em sala de aula, a partir das publicações que são disponibilizadas."
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Artigo de José Marques para o jornal "Folha de S. Paulo" editado em 10/05/18.